Livro dos Sonhos

Jorge Luis Borges · Capítulo 16 de 21

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Livro dos Sonhos

A Morte de um Presidente

 

 

Há cerca de dez dias deitei-me muito tarde. Havia estado aguardando uns despachos muito importantes,.. Logo em seguida comecei a sonhar. Parecia envolver-me a rigidez da morte. Escutei soluços sufocados, como se várias pessoas estivessem chorando. No sonho, saí da cama e lancei-me escadas abaixo.

Ali o silêncio era rompido por idênticos soluços, porém os que sofriam eram invisíveis. Caminhei de quarto em quarto. Não havia ninguém a vista e os lamentos me seguiam enquanto caminhava.

As salas estavam iluminadas, os objetos me eram familiares; mas onde estava esta gente cujos corações pareciam estar a ponto de rebentar de aflição?

Invadiram-me a confusão e o medo. Que significava tudo isto? Decidido a descobrir as causas desta situação tão chocante e misteriosa, segui até a Sala Oriental. Encontrei-me aí com uma surpresa perturbadora. Em um cadafalso se achava um cadáver envergando vestimentas funerárias. Ao seu redor, soldados de guarda, e um indígena que olhava com tristeza o corpo que ali jazia, cujo rosto estava oculto por um lenço. Outros choravam com profundo pesar.

— Quem foi que morreu na Casa Branca?, perguntei a um dos soldados.

— O presidente — respondeu-me ele. Foi morto por um assassino.

Anotado por Ward Hill Lamon, chefe de polícia do distrito de

Columbia, que se encontrava presente quando Abraham Lincoln narrou a

um grupo de amigos, na Casa Branca, um sonho que tivera em uma das

noites anteriores e pouco antes de ser mortalmente baleado na cabeça,

dentro do Teatro Ford, de Washington (14 de. abril de 1865) por John

Wilkes Booth.

 

O BOM OPERÁRIO

 

Estava o beato Antônio em oração e jejum quando o sono venceu-o e ele sonhou que do céu descia uma voz que lhe dizia que seus méritos ainda não eram comparáveis aos do curtidor José, de Alexandria. Saiu andando Antônio e surpreendeu o simplório homem com sua presença respeitável. "Não me lembro de ter feito nada de bom — declarou o curtidor —. Sou um servo inútil. Diariamente, ao ver o sol raiar sobre esta grande cidade, penso que todos os seus moradores, do maior ao menos importante, entrarão no céu por sua bondade, menos eu que, por causa dos meus pecados, mereço o inferno. E o mesmo mal-estar me contrista quando vou deitar-me, e cada vez com mais veemência". "Na verdade, meu filho — observou Antônio — tu, dentro de tua casa, como bom operário, ganhaste descansadamente o reino de Deus, enquanto que eu, irrefletido que sou, consumo minha solidão e ainda não cheguei a tua altura". Isto posto, voltou Antônio ao deserto e, no primeiro sonho que teve, voltou a baixar a ele a voz de Deus: "Não te angusties; estás perto de mim. Mas não esqueças de que ninguém pode estar seguro nem do próprio destino nem do destino dos outros".

Vida dos Padres Eremitas do Oriente

 

O ESPELHO DE VENTO-E-LUA

Em um ano, o sofrimento de Kia Yui se agravou. A imagem da inacessível senhora Fênix consumia seus dias; os pesadelos e a insônia, as suas noites.

Uma tarde, um mendigo taoísta pedia esmolas na rua e proclamava que podia curar as doenças da alma. Kia Yui mandou chamá-lo. Disse-lhe o mendigo:

"Seu mal não sara com remédios. Tenho aqui algo que o curará se seguir minhas indicações". Tirou da manga um espelho polido nas duas faces, com a seguinte inscrição: Precioso Espelho de Vento-e-Lua. Acrescentou o mendigo: "Este espelho vem do Palácio da Fada do Terrível Despertar e tem a virtude de curar os males causados pelos ventos impuros. Evite, porém, olhar o verso. Amanhã voltarei para buscar o espelho e para felicitá-lo por suas melhoras". Não quis aceitar as moedas que lhe foram oferecidas.

Kia Yui olhou a frente do espelho, e aterrorizado atirou-o longe. O espelho refletia sua caveira. Amaldiçoou o mendigo e quis olhar o verso do espelho. Lá do fundo, a senhora Fênix, esplendidamente vestida, lhe fazia sinais. Kia Yui sentiu-se arrebatado, atravessou o metal e realizou o ato de amor. Fênix acompanhou-o até a saída. Quando Kia Yui acordou, o espelho estava ao contrário e novamente lhe mostrava a caveira. Esgotado pelas delícias do lado feliz, Kia Yui não resistiu a tentação de olhá-lo uma vez mais. A senhora Fênix lhe fazia sinais, e ele cruzou o metal novamente e novamente fizeram amor. Isto ocorreu umas quantas vezes. Na última, dois homens o prenderam quando saía e o acorrentaram. "Eu os seguirei, murmurou, "mas deixem-me levar o espelho". Foram suas últimas palavras. Encontraram-no morto, sobre o lençol manchado.

Tsao Hsue-King, Sonho do aposento vermelho (c. 1754)

O SONHO DE MELANIA

Ia eu pela neve, em um carro puxado por cavalos. A luz era não mais que um ponto; parecia a mim que se extinguia. A Terra tinha saído de sua órbita e nós nos distanciávamos cada vez mais do Sol. Pensei: é a vida que se apaga. Quando acordei estava gelado. Porém encontrei consolo porque uma pessoa piedosa cuidava do meu cadáver.

Gaston Padilla, Memórias de un prescindible (1974)

 

O SONHO DO JUÍZO FINAL

OU O SONHO DAS CAVEIRAS

(1606)

 

AO CO ONDE DE LE EMOS, PRE ESID DENTE DAS ÍNDIAS

 

Às mãos de Vossa Excelência vão estas verdades nuas, que

buscam não quem as vista, porém quem as admita; que em tal ocasião

viemos, que com ser tão superior, havemos de rogar com ele. Promete-se

segurança somente nelas. Viva Vossa Excelência para a honra de nossa

época.

Don Francisco Gómez de Quevedo Villegas.

Senhor, diz Homero que os sonhos são de Júpiter 14 e que ele os

14 Ilíada, 1.62. envia; em outro lugar afirma que se deve acreditar neles 15. E assim, quando abordam coisas importantes piedosas, ou são sonhos de reis, ou de grandes senhores, como se pode compilar do doutíssimo e admirável Propércio nestes versos:

Néc tu sperne piis venientia somnia portis:

Quum pia venerunt somnia, pondus habent. 16

Digo a propósito que considero como caído do céu um sonho que tive uma destas noites, tendo fechado os olhos com o livro Fim do Mundo e Segunda Avenida de Cristo, do beato Hipólito, causador do sonho em que vi o Juízo Final.

E mesmo que na casa de um poeta seja difícil de crer que ocorram coisas judiciosas (ainda que em sonhos), comigo ocorreu, e pela razão que dá Claudiano no prefácio do livro segundo do Rapto, dizendo que todos os animais sonham durante a noite as coisas de que se ocuparam durante o dia. E Petrônio acrescenta:

Et canis in somnis leporis vestigia latrat. 17

E falando dos juizes:

Et pavido cernit inclusum corde tribunal. 18

Pareceu-me, pois, que vivia um mancebo que, vagando pelo ar, dava voz ao seu alento através de uma trombeta, enfeiando sua formosura com o esforço que fazia. O som encontrou obediência nos mármores e ouvidos nos mortos; e assim, logo começou a mover-se toda a terra, permitindo aos ossos irem uns em busca de outros. E passando o tempo (ainda que tenha sido breve) vi os que haviam sido soldados e capitães se levantarem irados dos sepulcros, tomando à trombeta como

15 Odisséia XIX, 562 seg.,; Eneida, VI, 894 seg.

16 Elegias, IV, 7.

17 Satiricon, CIV.

um sinal de guerra; os avarentos, com ansiedades e aflições, receando algum ataque; e as pessoas dadas à vaidade e à gula, por ser áspero o som, tomaram-no como coisa de festa ou de caça.

Isto percebia eu nos semblantes de cada um, e não vi que este ruído da trombeta chegasse a uma só orelha que se persuadisse de que era coisa séria. Notei depois a maneira como algumas almas fugiam, umas com asco e outras com medo, de seus antigos corpos; causou-me riso ver a diversidade de figuras é admirou-me a providência de Deus em que, estando embaralhados uns com os outros, ninguém por erro de contagem punha em si as pernas e os membros de seus vizinhos. Somente em um cemitério pareceu-me que andavam trocando cabeças, e vi um escrivão que não gostava muito de sua alma e quis dizer que não era sua, pára descartar-se dela.

Depois, já que todos se inteiraram de que era o dia do Juízo, foi de ver-se como os luxuriosos não queriam que seus olhos os achassem, para não levar ao tribunal testemunhas contra eles; os maldizentes,. as línguas; os ladrões e os assassinos gastavam os pés em fugir de suas próprias mãos. E, voltando-se para um lado, vi um avarento que estava perguntando a um vizinho (que por ter sido embalsamado e estar longe de suas tripas, não falava, porque estas ainda não haviam chegado) se, já que naquele dia ressuscitaria tudo o que havia sido enterrado, também iriam ressuscitar umas bolsas de dinheiro suas. Acharia graça, se por outro lado não me desse pena, o esforço que fazia uma chusma de escrivãos para fugir de suas orelhas, não querendo levá-las para não ouvir o que esperavam; mas somente se foram sem elas aqueles que aqui as haviam perdido por serem ladrões. O que, por descuido, não. foram todos. Porém o que mais me espantou foi ver os corpos de dois ou três mercadores que haviam vestido suas almas ao contrário, e tinham todos os cinco sentidos nas unhas da mão direita.

Eu via tudo isto de uma ladeira muito alta, a ponto de ouvir-me dizer aos meus pés que me afastassem; e mal tinha dito isto, muitas mulheres formosas começaram a assomar-se, chamando-me de

18 Satiricon, CIV.

descortês e de grosseiro porque não tinha manifestado mais respeito pelas damas (e elas estão mesmo no inferno ainda sem perder esta loucura). Saíram para fora, muito alegres por se verem esbeltas e despidas entre tanta gente a olhá-las, ainda que sabendo que aquele era o dia da ira e que sua beleza as estava acusando secretamente, e começaram a caminhar na direção do vale com passos mais alegres. Uma delas, que havia sido casada sete vezes, ia esboçando desculpas para todos os matrimônios. Outra, que havia sido rameira pública, para não chegar ao vale não fazia outra coisa senão dizer que havia esquecido dois dentes e uma sobrancelha, e voltava e parava. Afinal, chegou perto do teatro e havia tantos homens que ela havia ajudado a perder, e que, apontando para ela, gritavam irados, que quis esconder-se entre uma multidão de esbirros como se aquela fosse gente que não contasse, mesmo naquele dia.

Distraiu-me disto um grande ruído na margem de um rio, de gente que, em grande quantidade, vinha atrás de um médico, fato que depois soube tratar-se de uma sentença. Eram homens que haviam sido despachados por ele, sem razão e antes do tempo, e que por isso se haviam condenado, e que o puseram à força diante do trono. À minha esquerda ouvi o ruído de alguém que nadava, è vi um que havia sido juiz e que estava no meio de um arroio lavando as mãos, coisa que fazia repetidas vezes. Cheguei a perguntar-lhe porque se levava tanto, e disse-me que em vida havia manchado tanto suas mãos em razão de certos negócios, que ali estava esforçando--se para limpá-las a fim de não aparecer naquelas condições diante da residência universal.

Era de se ver como uma legião de espíritos maus, com açoites, paus e outros instrumentos, traziam para o julgamento uma multidão de taberneiros, alfaiates, sapateiros e livreiros, que de medo se faziam de surdos; e, embora tivessem ressuscitado, não queriam sair das sepulturas. E por causa do barulho que faziam no caminho por onde passavam, um advogado ergueu a cabeça e perguntou-lhes onde iam; e lhe responderam que iam ao "justo Juízo de Deus, que era chegado".

Diante' disto, o advogado enfiou-se ainda mais no caixão e disse:

— Isto me pouparei de andar, se é que tenho que ir ainda mais para baixo.

Suando, passava um taberneiro aflito, tão cansado que se deixava cair a cada momento, e a mim pareceu--me que lhe dizia um demônio:

— Já é muito que transpires água e não nos venda este suor por vinho.

Um dos alfaiates, de pequena estatura, cara redonda, barbas ruins e feitos ainda piores, não fazia mais do que dizer:

— Que poderia haver eu furtado, se estava sempre morrendo de fome?

E os outros lhe diziam (vendo que negava haver sido ladrão) que coisa era esta de menosprezar seu ofício.

Toparam com uns salteadores e punguistas que andavam fugindo uns dos outros até que os diabos os apertaram dizendo que eles bem poderiam juntar-se aos demais, pois afinal eram de certa forma alfaiates silvestres e campestres, assim como os gatos do campo. Houve brigas entre eles, pela afronta de irem juntos, mas afinal juntos chegaram ao vale.

Atrás deles vinha a loucura em uma turba, com seus quatro costados: poetas, músicos, enamorados e valentes, gente alheia a tudo que se referia a este dia. Puseram-se de lado, de onde olhavam os verdugos judeus e os filósofos. Desciam juntos, vendo os sumos pontífices sentados em tronos de glória:

— Os Papas se aproveitam de seus narizes de maneira diferente de nós, pois com dez varas de nariz não conseguimos cheirar o que trazíamos entre as mãos.

Dois ou três procuradores andavam contando as caras que tinham, e se espantavam que lhes sobrassem tantas, tendo vivido tão descaradamente. Finalmente, vi baixar o silêncio sobre todos.

Fazia o mesmo um tipo encarregado de garantir o silêncio na catedral, com uma melena mais abundante que um cão peludo, dando tais golpes com seu bastão de sineiro que a ele acudiram mais de mil racioneiros, sacristãos e frades, e até um bispo, um arcebispo e um inquisidor, trindade profana e profanadora que se arranhava para arrebatar uma boa consciência que por ali andava distraída a procura de alguém que lhe viesse bem.

O trono era obra trabalhada pela onipotência e pelo milagre.

Deus estava vestido dele mesmo, formoso para os santos e agastado para os perdidos; o sol e as estrelas pendendo de sua boca, o vento tolhido e mudo, a água recostada em suas margens, suspensa a terra, temerosa em seus filhos, os homens.

Alguns ameaçavam aos que lhes haviam ensinado, com seu mau exemplo, os piores costumes. Todos, em geral, pensativos: os justos, em que graças dariam a Deus, como pediriam por si; os maus, que desculpas dariam.

Os anjos da guarda mostravam, em seus passos e cores, as contas que tinham que dar de seus encomendados, e os demônios repassavam suas cópias, senhas e processos. No fim, todos os defensores estavam na parte de dentro e os acusadores na de fora. Os dez mandamentos montavam guarda em uma porta tão estreita, que mesmo os que estavam magros de tanto jejum, ainda assim tinham que deixar algo na estreitura, ao passar.

De um lado, juntas, estavam as desgraças, a peste e os pesares, vociferando contra os médicos. A peste dizia que ela havia ferido as pessoas, mas que os médicos as haviam despachado; os pesares garantiam que não haviam matado ninguém sem a ajuda dos doutores; e as desgraças afirmavam que todos os que haviam enterrado resultavam de trabalho de ambas as partes.

Com isto, os médicos ficaram na obrigação de dar conta dos defuntos; e assim, ainda que os nécios dissessem que eles haviam matado mais ainda, empunharam os médicos um papel timbrado escrito; e fizeram uma chamada, e logo se assomava um que dizia:

— Diante de mim passou, no dia tal de tal mês...

Começou-se a contagem por Adão, e para que se veja como a coisa era austera, até de uma maçã lhe pediram conta, e com tanto rigor que ouvi Judas dizer:

— E que conta prestarei eu, que vendi uni cordeiro ao próprio dono?

Passaram os primeiros padres, veio do Novo Testamento e sentaram-se em suas cadeiras ao lado de Deus todos os Apóstolos, com o santo Pescador. Em seguida * chegou um. diabo e disse:

— Este é aquele que mostrou com toda a mão o que São João mostrou com um dedo; foi ele quem esbofeteou o Cristo.

Julgou ele mesmo a sua causa, e mandaram-no aos subterrâneos do mundo.

Era de se ver como entravam alguns pobres entre meia dúzia de reis que se atrapalhavam com suas coroas, vendo entrar as dos sacerdotes sem deter-se.

Ergueram suas cabeças Herodes e Pilatos, e cada um percebia no Juiz, ainda que glorioso, a sua ira. Dizia Pilatos:

— Isto merece quem se deixou governar por judeuzinhos.

E Herodes:

— Eu não posso ir para o céu, pois no limbo não quererão mais confiar em mim os inocentes com as notícias que têm. É forçoso ir para o inferno que, afinal, é uma pousada conhecida.

Neste momento chegou um homem desaforado, de sobrolho franzido, que estendeu uma carta dizendo:

— Esta é a carta de exame.

Admiraram-se todos. Os porteiros perguntaram quem era, e ele em altas vozes respondeu:

— Mestre de esgrima comprovado e um dos mais valorosos homens do mundo, e para que acreditem, vejam aqui os testemunhos de minhas façanhas.

E começou a tirar do peito as provas com tanta pressa e cólera, que ao mostrá-las elas caíram no chão. Imediatamente acudiram, para apanhá-las, dois diabos e um policial; e vi que este último, com a maior presteza, apanhou os testemunhos antes dos diabos. Chegou um anjo e esticou o braço para agarrar e subjugar o mestre; e este, afastando-se, estendeu igualmente seu braço e disse, dando um salto:

— O que este punho faz é irreparável pois ensinou a matar, e eu bem posso pretender que me chamem Galeno; que meus ferimentos andaram de mula e passaram por maus médicos; e que se queres provar-me, darei boa conta do recado.

Riram-se todos, e um fiscal meio moreno perguntou--lhe que notícias tinha de sua alma. Pediram-lhe contas de não sei -o quê, e ele respondeu que não sabia de nenhum ardil contra os inimigos dela. Mandaram que fosse em linha reta para o inferno, ao que ele retrucou que na certa o julgavam conhecedor do livro matemático, mas que ele não sabia o que era uma linha reta. Fizeram-no aprender e ele, dizendo "Entre outro", atirou-se.

Chegaram uns dispenseiros fazendo contas (mas não rezando por elas), e entre a algazarra que se ouvia, disse um ministro:

— São dispenseiros. E outros disseram:

— Mas furtar não dispensam.

E lhes deu tanto amargor a palavra furtar, que se confundiram muito. Contudo, pediram que lhes buscassem um advogado, ao que respondeu um diabo:

— Ai está Judas, que é apóstolo descartado.

Quando ouviram isto, viraram-se para outro diabo, que não dava conta das folhas que tinha para assinalar e ler, e disseram:

— Que ninguém olhe, porque é mais vantagem que tomemos infinitos séculos de purgatório.

O diabo, como bom jogador, disse:

— Ah! então estão pedindo vantagem? Então vocês não têm bom jogo.

Começou a descobrir o jogo, e eles, vendo que os olhava, atiraram-se embaralhados nos seus favores.

Tais vozes procediam de um mal-aventurado paste-leiro, e como não se ouviram mais falar de homens esquartejados, pediram-lhe que declarasse em que lugar havia ele acomodado as carnes deles. Confessou que fora nos países, e determinaram que fossem restituídos os seus membros, de qualquer estômago em que se achassem. Perguntaram-lhe se queria ser julgado, e ele disse que sim, por. Deus e pela boa sorte. A primeira acusação, dizia sei lá que gato por lebre; tanto de ossos, e não da mesma carne, mas de forasteiros, tanto de ovelha e cabra, cavalo e cachorro; e quando ele viu que, ao serem provados os pastéis se descobriu que neles existiam mais animais do que na arca de Noé (porque na arca não havia ratos nem moscas, mas nos pastéis sim), virou as costas e deixou-os com a palavra na boca.

Foram julgados os filósofos, e era de ver-se como ocupavam suas ciências e sabedoria em fazer silogismos contra sua salvação. Mas o que aconteceu com os poetas foi de chamar a atenção, pois eles, por pura loucura, queriam fazer crer a Deus que Ele era Júpiter, e que por Ele diziam todas as coisas. Virgílio andava com seu 19 Sicelides Musae,

dizendo que era o nascimento de Cristo; mas saltou um diabo e disse não sei o que de Mecenas e Otávia, e que mil vezes havia adorado uns chifrinhos deles, e não os trazia por ser dia de festa; e contou não sei que coisas. E enfim, chegando Orfeu (como o mais antigo) a falar por todos, mandaram que voltasse a tentar mais uma vez entrar no inferno para depois sair; e aos demais que o acompanhassem para conhecer o caminho.

Depois deles, chegou à porta um avarento, e lhe foi perguntado o que queria e lhe foi dito que os dez mandamentos guardavam aquela porta contra aqueles que não os haviam guardado; ele disse que em se tratando de guardar, era impossível que ele houvesse cometido algum pecado. Leu o primeiro: Amar a Deus sobre todas as coisas; e ele disse que somente esperava ter todas estas coisas para amar a Deus mais do que a elas. Não jurar seu santo nome em vão; disse que ainda que jurando falsamente, tinha sido por juros muito grandes, e que assim não havia sido em vão. Guardar os dias santos; estes — disse — assim como os dias de trabalho, não apenas guardava como também escondia. Honrar pai e mãe; — "Sempre lhes tirei o chapéu". Não matar; para respeitar isto, nem comia, para não Matar a fome. Não fornicar; "em

19 Primeiras palavras da misteriosa Êcloga, IV, de Virgílio. coisas que custam dinheiro, já se sabe..." Não levantar falso testemunho...

— Aqui — disse um diabo — está o negócio, avarento. Se confessas haver levantado, te condenas, e se não, diante do Juiz, te levantarás a ti mesmo.

Aborrecendo-se, disse o avarento:

— Se não vou entrar, então não gastemos tempo.

Que nem mesmo tempo ele queria gastar.

Convenceu-se de sua vida, c foi levado para onde merecia. Entraram nisto muitos ladrões, salvando-se entre eles alguns enforcados. E de tal maneira se animaram os escrivãos que estavam diante de Mafoma, Luthero e Judas (vendo-se salvarem os ladrões) que entraram de golpe para serem sentenciados, o que provocou grande risada entre os diabos.

Os anjos da guarda começaram a esforçar-se e a chamar evangelizadores para serem advogados.

Os Demônios começaram a acusação, e não o faziam em processos que traziam fatos de suas culpas, mas sim no que eles haviam feito nesta vida. Disseram primeiramente:

— A maior culpa destes. Senhor, é serem escrivães.

E estes responderam em uníssono (pensando que assim dissimulariam algo) que não eram mais do que secretários.

Os anjos advogados começaram a dar quitação.

Diziam uns:

— São batizados e membros da Igreja.

E não tiveram muito mais coisas a dizer e terminaram assim:

— É homem, e não o farão outra vez. Levantem o dedo.

Afinal, salvaram-se dois ou três, e aos demais disseram os demônios:

— Já entendem.

Fizeram-lhe ficar atentos, dizendo que eram importantes ali para jurar contra certa gente.

E vendo eles que por serem cristãos lhes davam mais penalidades do que aos selvagens, alegaram que serem cristãos não era culpa sua, que foram batizados quando crianças e que a culpa cabia aos padrinhos.

Na verdade, digo que vi Mafoma, Judas e Luthero tão perto de atrever-se a entrar em julgamento, animados por verem salvar-se um escrivão, que me espantei que não o fizessem. Somente estorvou-os um médico, porque foi forçado pelos demônios e pelos que o haviam trazido, um boticário e um barbeiro. A eles, um diabo que tinha as cópias disse:

— Diante desse doutor passaram os mais defuntos, com a ajuda desse boticário e desse barbeiro, e a eles se deve grande parte o dia de hoje.

Alegou um anjo, em defesa do boticário, que este dava escaldapés aos pobres; porém disse um diabo que, no final das contas, o estoque de sua farmácia tinha sido mais daninho do que mil estocadas de espadas na guerra, porque seus remédios eram espúrios, e que com isto havia feito pacto com a peste e destruído dois lugares.

O médico se desculpava com ele, e finalmente o boticário desapareceu e o médico e o barbeiro andavam na base do dá cá as minhas mortes e toma lá as suas. Foi condenado um advogado porque tinha todos os direitos com mossas, e atrás dele foi descoberto um homem de gatinhas para que não o vissem, e perguntado quem era, disse que era cômico. Um diabo porém, muito aborrecido, retrucou:

— É um farsante, Senhor, e podia ter poupado esta vinda aqui sabendo o que há.

E determinou que saísse, e que fosse ao inferno pelo que dissera.

Nisto, vieram a cena muitos taberneiros, acusados de terem matado muita sede a traição, vendendo água por vinho. Estes vinham confiados no fato de que haviam dado sempre a um hospital vinho puro para as missas; porém isto de nada lhes valeu, como não adiantou aos alfaiates dizerem que haviam vestido meninos jesuses; e assim foram todos despachados como era de esperar-se.

Chegaram três ou quatro genoveses ricos, muito graves, pedindo lugar para sentar, e disse um diabo:

— Ainda pensam ganhar às nossas custas? Pois é isto que acaba com eles. Desta vez se deram mal, pois não há lugar para. sentarem uma vez que quebraram o banco de seu crédito.

E, voltando-se para Deus, disse um diabo:

— Todos os demais homens, Senhor, dão conta, cada um deles, do que é seu; estes, além do mais dão conta do que é dos outros.

A sentença contra eles foi pronunciada. Não ouvi bem, mas eles desapareceram.

Chegou um cavalheiro tão direito, que parecia querer competir com a justiça que o aguardava; fez muitas referências a todos, e com a mão fez um cumprimento usado por aqueles que bebem água nos charcos. Tinha um colarinho tão grande, que não se podia ver se tinha cabeça. Perguntou-lhe um porteiro, da parte de Deus, se era homem; e ele respondeu com grandes cortesias que sim e, por muitos sinais explicou que se chamava dom Fulano, a fé de cavalheiro. Rindo-se disse um diabo:

— Por tolo, vá o mancebo para o inferno. Perguntaram-lhe o que pretendia, e ele responde: — Ser salvo.

E foi enviado aos diabos para que o moessem, e ele somente reparou que lhe iam estragar o colarinho. Atrás dele entrou um homem dando ordens, dizendo:

— Não tenho problemas; de quantos santos existam no céu, uns pelos outros, já lhes sacudi o pó a todos.

Todos esperavam ver um Diocleciano ou um Nero, pelo dito de sacudir o pó, mas no fim das contas era um sacristão que espanava os altares; e teria se salvado com isto, não fosse um diabo dizer que ele bebia o óleo das lâmpadas e botava a culpa em umas corujas que havia matado; que cobiçava os ornamentos para vesti-los; que herdava era vida as imagens, e que desfazia as pregas dos paramentos.

Não sei que espécie de quitação lhe deram, mas lhe indicaram o caminho à esquerda.

Dando lugar a umas damas açucaradas, que começaram a fazer melindres das más figuras dos diabos, um anjo disse a Nossa Senhora que elas haviam sido devotas dela, e que as amparasse. O diabo replicou, então, que elas, igualmente, tinham sido inimigas de sua castidade.

— Sim, por certo — disse uma que havia sido adúltera.

E o demônio acusou-a de haver tido um marido em oito corpos; que havia casado uma vez para cada mil em que se juntou. Condenou-se apenas esta, e ela se foi dizendo:

— Antes tivesse sabido que ia ser condenada; só assim não teria assistido a missas nos dias santos.

Neste momento, em que tudo estava acabado, foram descobertos Judas, Mafoma e Martinho Luthero. E tendo um diabo perguntado qual dos três era Judas, Luthero e Mafoma, os três disseram quem eram. E confundiram tanto a Judas, que este disse em voz alta:

— Senhor, eu sou Judas, e vós bem sabeis que sou muito melhor do que estes dois, pois se eu os vendi, remediei o mundo; e eles, vendendo-se a si mesmos e a vós, destruíram tudo.

Foram mandados sair da frente, e um anjo que tinha a cópia descobriu que faltava julgar os policiais e os esbirros. Chamaram-nos (e era de ver-se como chegaram ao seu posto muito tristes) e lhes disseram:

— Aqui os damos por condenados. Não é mister fazer mais nada.

Nem bem haviam dito isto e entrou, carregado de astrolábios e de globos, um astrólogo, dando ordens e dizendo que se haviam enganado, que não deveria ser aquele o dia do Juízo, porque Saturno ainda não havia concluído seus movimentos, nem ele tampouco os seus. Voltou-se um diabo e, vendo-o tão carregado de madeira e de papel, lhe disse:

— Já trouxeste a lenha contigo, como se soubesses que de quantos céus tratastes em vida, pela falta de um só, na morte, irás para o inferno.

— A isso eu não vou — disse ele.

— Pois te levarão.

Com isto acabou a residência e o tribunal.

Fugiram as sombras para o seu lugar, ficou o ar com novo aroma, floresceu a terra, viu-se o céu, e Cristo subiu consigo para descansar em si os ditosos, por sua paixão. Eu fiquei no vale, passeando por ele, e ouvi muitos ruídos e queixas na terra.

Aproximei-me para ver o que passava, c vi em uma gruta funda (a garganta do Averno) muitos penarem, e entre eles um letrado — revolvendo, mais caldos do que leis — e um escrivão — comendo somente as letras que não tinha querido ler nesta vida. Todo o mobiliário do inferno, as roupas e os adornos dos condenados estavam ali presos — não com pregos ou alfinetes, mas com policiais. E um avarento, contando mais lutos do que moedas; e um médico padecendo em um urinol; e um boticário em uma seringa.

Ver isso deu-me tal vontade de rir, que as gargalhadas me despertaram; e já foi muito de que deste sonho tão triste eu saísse mais alegre do que espantado.

Os sonhos são estes, senhor, que se dorme Vossência sobre eles, verá que por ver as coisas como eu as vejo, há de aguardá-las da maneira como eu as conto.

Francisco de Quevedo, Sonhos e discursos de verdades

descobridoras de abusos, vícios e enganos dos ofícios e estados do

mundo (1627)

 

O SONHO E O FADO

 

Creso expulsou Solon de Sardes porque o famoso sábio desprezava os bens terrenos e somente se preocupava com o fim derradeiro das coisas. Creso se acreditava o mais feliz dos homens. Os deuses decidiram o seu castigo.

Sonhou o rei que seu bravo filho Atis morria de um ferimento produzido por ponta de ferro. Mandou guardar as lanças, dardos e espadas nos quartos destinados às mulheres e decidiu o casamento de seu filho. Nisto estavam quando chegou um homem com as mãos tintas de sangue: Adastro, frígio de sangue real, filho de Midas. Pediu asilo e purificação, pois assassinara involuntariamente um irmão e havia sido expulso do convívio dos seus. Creso concedeu-lhe ambas as graças.

Apareceu, então, em Mísia, um terrível javali que destroçava tudo. Aterrorizados, os mísios pediram a Creso que enviasse o valente Atis e outros jovens, porém o rei explicou que seu filho era recém-casado e devia atender seus assuntos privados. Atis soube disto e pediu ao rei que não o humilhasse. Creso contou-lhe o sonho. "Então, disse Atis, nada devemos temer, pois os dentes do javali não são de ferro". O pai concordou e pediu a Adastro que acompanhasse seu filho, ao que o frígio assentiu, não obstante seu luto, pois se sentia em dívida com Creso. Durante a caçada Adastro, buscando atingir o animal com sua lança, matou Atis. Creso aceitou o destino que o fado lhe tinha adiantado em sonhos e perdoou a Adastro. Este, porém, degolou-se sobre a sepultura do infortunado príncipe. Assim o conta Heródoto, no primeiro dos Nove livros da história.

 

A ALMA, O SONHO, A REALIDADE

 

Supõe-se que, de fato, a alma de uma pessoa adormecida se afasta de seu corpo e visita lugares, vê as pessoas e verifica os atos que ela está sonhando. Quando um índio do Brasil ou das Guianas sai de um sono profundo, está firmemente convencido de que sua alma esteve na realidade caçando, derrubando árvores ou qualquer outra coisa que tenha sonhado, enquanto seu corpo esteve estendido imóvel na rede. Um povoado bororó inteiro aterrorizou-se e esteve a ponto de emigrar porque um dos índios sonhou que os inimigos se aproximavam sigilosamente. Um macusi de saúde precária que sonhou que seu patrão o havia feito subir de canoa por difíceis corredeiras, ao amanhecer exprobou-o amargamente por sua falta de consideração com um pobre inválido. Os índios do Grande Chaco fazem relatos incríveis de coisas que viram e ouviram, e os forasteiros os consideram grandes embusteiros; os índios, porém, estão firmemente convencidos da verdade de seus relatos, pois estas maravilhosas aventuras são simplesmente o que eles sonham e não sabem distinguir do que acontece quando estão acordados.

Quando um dayako sonha que caiu n'água, pede ao feiticeiro que pesque o seu espírito com uma rede, coloque-o em um recipiente e o devolva. Os santals falam do homem que adormeceu e sonhou que tinha tanta sede, que sua alma, em forma de lagarto, deixou o corpo e meteu-se em uma vasilha para beber; o dono da vasilha, porém, tapou-a e o homem, impedido de recuperar sua alma, morreu. Faziam-se os preparativos para o enterro quando alguém destapou a vasilha e o lagarto escapou, reintegrou-se ao cadáver, e o morto ressuscitou. Disse que havia caído em um poço em busca de água e que tivera dificuldades para voltar; assim todos o entenderam.

James George Frazer, La rama dorada (1890)

 

NÃO EXISTE OFÍCIO DESPREZÍVEL

 

Um santo varão pediu a Deus que lhe revelasse quem ia ser seu companheiro no Paraíso. A resposta veio em sonhos: "O açougueiro do teu bairro". O homem afligiu-se sobremaneira por tão vulgar e indouta personagem. Jejuou e tornou a pedir, em oração. O sonho repetiu-se: "O açougueiro do teu bairro". Chorou o piedoso, rezou e pediu. Novamente visitou-o o sonho: "Na verdade, se não fosses tão piedoso, serias castigado. Que achas de desprezível em um homem cuja conduta desconheces?" Foi ver o açougueiro e perguntou-lhe sobre sua vida. O outro lhe disse que repartia seus ganhos entre os pobres e as necessidades de sua casa, e admitiu que isto muitos faziam; recordou, então, que uma vez resgatara uma prisioneira da soldadesca em troca de uma grande soma de dinheiro. Educou-a e achou que ela era apropriada para que a desse em matrimônio ao seu filho único, quando chegou um jovem forasteiro que se notava estar angustiado e que disse que tinha sonhado que ali se encontrava sua prometida desde criança, aquela que havia sido seqüestrada por uns soldados. Sem vacilar, o açougueiro entregou-lhe a jovem. "Verdadeiramente és um homem de Deus", disse o santo curioso e sonhador. Do fundo de sua alma desejou avistar-se uma vez com Deus para agradecer-lhe em sonho o bom companheiro que lhe havia sido destinado para a eternidade. Deus foi sóbrio: "Não há ofício desprezível, meu amigo".

 

Rabí Nisim,

Hibbur Yafé Mehayeschua 20

 

INFERNO V

 

Altas horas da noite despertei de repente na borda de um abismo anormal. Ao lado da minha cama, uma falha geológica cortada em pedra sombria despencou em semicírculos, borrada por um tênue vapor nauseabundo e uma revoada de aves escuras. De pé sobre sua

20 O mundo dos sonhos. (N. do T.).

cornija de escórias, quase suspenso na vertigem, uma personagem irrisória e coroada de louro estendeu-me a mão convidando-me a descer.

Recusei, amavelmente, invadido por um terror noturno, dizendo que todas as expedições dentro do homem terminam sempre em vão e em superficial palavreado.

Preferi acender a luz e me deixar cair outra vez na profunda monotonia dos tercetos, ali onde uma voz que fala e chora ao mesmo tempo, me repete que não há dor maior do que a de lembrar-se na miséria dos tempos que foram felizes.

Juan José Arreola, Confabulario total (1962)

 

ENTRESONHO

 

Presencio a noite violentada

O ar está crivado

como uma renda,

pelos balaços

dos homens

encolhidos

nas trincheiras

como os caracóis em sua concha

Parece-me

que um arquejante

enxame de canteiros

golpeia o calçamento

de pedras de lava

das minhas ruas

e eu o ouço

sem vê-lo

no entresonho.

Giuseppe Ungaretti,

O porto sepultado (1919)

 

PIRANDELIANA

 

Uma dama vê em sonhos seu amante. Primeiramente é um pesadelo povoado de ciúmes. Depois, uma noite em que compreende que o ama. Por último, o amante se dispõe a presentear-lhe um colar de brilhantes; porém uma mão desconhecida (que é a mão do amante anterior da mulher, que enriqueceu com suas plantações) subtrai o colar: o amante, num arrebatamento de ciúmes, estrangula a dama. Esta desperta, e uma camareira lhe alcança um estojo com um colar de diamantes: é o mesmo do sonho. Neste momento chega o amante, manifesta a ela sua preocupação por não ter podido comprar-lhe o colar, pois já o tinham vendido, e lhe pergunta que outra coisa poderia lhe dar.

Argumento de Sogno ma forse no (1920) de Luigi Pirandello

 

SONHO PARISIENSE

I

 

Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais.

O sonho está repleto de milagres! Por singular capricho, havia desterrado do espetáculo o vegetal irregular, e, pintor orgulhoso do meu gênio, saboreava na tela a embriagadora monotonia do metal, o mármore e a água.

Cheio de fontes e cascatas que caíam sobre o ouro fosco ou polido, havia um palácio infinito, babel de arcadas e escadarias. Cortinas de cristal, as pesadas cataratas se suspendiam deslumbrantes das muralhas metálicas.

Colunatas em lugar de árvores rodeavam os tanques adormecidos, onde gigantescas náiades se viam como mulheres.

Entre molhes rosados e verdes, por milhões de léguas, as águas azuis se expandiam até os confins do universo. Havia pedras insólitas, ondas mágicas; havia espelhos deslumbrados pelo o que refletiam.

Do firmamento, rios taciturnos e descuidados vestiam o tesouro de suas urnas em abismos de diamantes.

Arquiteto dos meus sortilégios, eu fazia passar como queria, sob um túnel de pedrarias, um oceano domes-ticado. E tudo, até a cor negra parecia polida, clara e irisada; e a água engastava sua glória no raio de cristal.

Nenhum astro até os confins do céu, nenhum resto de sol que iluminasse estes prodígios de fogo próprio.

E sobre estas maravilhas móveis (detalhe atroz: tudo para os olhos, nada para os ouvidos!) flutuava um silêncio de eternidade.

Charles Baudelaire, As flores do mal (1857)