Livro dos Sonhos
O Consciente e o Inconsciente
Em sua autobiografia, Jung conta um sonho impressionante (mas qual deles não o é?). Achava-se em frente a uma casa de oração, sentado no chão e na posição do lótus, quando notou a presença de um iogue mergulhado em profunda meditação. Aproximou-se e viu que o rosto do iogue era o seu. Aterrorizado, afastou-se, acordou e se pôs a conjeturar: é ele aquele que medita; sonhou e eu sou o seu sonho. Quando ele despertar, eu já não existirei.
Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son
O SONHO DE ER
Esta é a história do valoroso Er, armênio de Panfília. Morto na guerra, seu cadáver incontaminado foi recolhido após dez dias. A pira estava pronta, quando no décimo segundo dia despertou e contou o que havia visto no outro mundo.
Depois de abandoná-lo, sua alma encaminhou-se com outras até um lugar onde havia dois buracos na terra em frente a dois que estavam no céu. Dois juizes pronunciavam as sentenças; os justos se encaminhavam ao céu, pela direita, e os injustos à terra, pela esquerda. Quando viram Er chegar disseram-lhe que seria mensageiro entre os homens de tudo o que ali ocorria, e que prestasse atenção.
Pelo outro buraco da terra saíam almas sujas ou empoeiradas; pelo outro do céu, almas inteiramente puras. Pareciam chegar de uma longa viagem. Reuniram-se na pradaria e, como velhas conhecidas, as da terra perguntavam pelo céu, e as do céu pela terra. Umas choravam os seus padecimentos de um milênio; outras exaltavam sua bem-aventurança.
Cada alma sofria por dano cometido, outro dano dez vezes maior, durante cem anos (tempo da vida humana). As almas piedosas recebiam pelas boas ações prêmios igualmente maiores.
Uma das almas perguntou pela sorte de Ardieo, tirano de Panfilia mil anos antes. Outra respondeu que não o tinha visto.
Ardieo havia assassinado seu velho pai e seu irmão mais velho; para os que pecavam contra os deuses e contra os pais, os castigos eram piores dos que os mencionados.
De repente Ardieo e outros grandes pecadores emergiram do buraco. A abertura fechou-se e bramiu, e uns seres selvagens envoltos em fogo precipitaram-nos no abismo. Amarraram os pés de Ardieo e o esfolaram e mutilaram de encontro aos espinhos. Para os condenados, porém, o mais atroz de tudo era o bramido.
As almas descansaram sete dias na pradaria; no oitavo saíram em marcha. Depois de quatro dias viram uma coluna de luz semelhante a um arco-íris, porém mais brilhante; em um dia mais chegaram até ela, que ocupava todo o céu e a terra. Viram as correntes do céu; a luz era o laço que unia toda a esfera celeste. Ali estava, aumentado, o fuso da Necessidade que permite girar todas as esferas, e se percebiam os oito céus concêntricos, cada um deles encaixando no outro, como potes côncavos, cujas bordas, de diferentes cores e brilho, formam um mesmo plano. Giram com diferente velocidade e no sentido inverso do fuso, que atravessa a oitava esfera bem no centro. Cada céu era presidido por uma sereia, que emitia um som único, de tom invariável; as oito vozes formavam um conjunto harmônico. Eqüidistantes e em seus tronos, se achavam as Parcas, filhas da Necessidade; Láquesis, Cloto e Atropo. Acompanhavam as sereais em seu canto; Láquesis lembrava os tempos passados, Cloto falava nos presentes e Atropo previa os futuros.
Ao chegar perante Láquesis, as almas foram informadas por um adivinho que empreenderiam uma nova etapa em um corpo portador de morte. "Elegereis vós mesmas a vossa sorte, e permanecereis irrevogavelmente unidas; como a virtude não tem dono, cada uma a possuirá conforme a honre. A divindade é inocente."
Cada uma elegeu um número de ordem, menos Er, e de acordo com a precedência, elegeram um modelo de vida. Havia modelos de tiranos, de mendigos, desterrados, necessitados; prestigiosos por beleza, por vigor, tenacidade, progênie ou prosápia. Havia também, para homens e mulheres, vidas sem qualquer relevo. Riqueza e pobreza, saúde e doença se misturavam. O perigo era grande; necessitava-se de discrição e conhecimento para escolher bem.
Disse o adivinho:
— Mesmo para a última que escolher haverá boa fortuna se for sensata; não se descuide a primeira, nem desanime a última.
A primeira precipitou-se e optou por ser tirano: seu destino incluía devorar os próprios filhos. Quando o soube lançou a culpa na sua má sorte e nos deuses, e amaldiçoou a todos menos a si mesma; era uma alma que vinha do céu e que em toda a sua vida havia exercido a virtude. As que provinham da terra eram experimentadas no sofrimento e escolhiam com mais cuidado.
Por não ser gerado por mulher, por aversão ao sexo feminino e porque se lembrava de sua morte, Orfeu escolheu ser cisne. Tâmiras decidiu reencarnar como um rouxinol, e algumas aves como seres humanos. A vigésima alma a escolher, quis ser leão: era Ajax. A seguinte optou por ser águia: era Agamênon, que, como é sabido, odiava a Humanidade. Atalanto decidiu ser atleta e conquistar honrarias; e Epeo resolveu ser artesã. Entre as últimas estava a de Tersites, revestido da ridícula forma de um símio: decidiu ser Ulisses, cuja alma permanecia afastada e esquecida por todos. Ulisses, por sua vez, havia optado por uma existência obscura e sedentária.
Terminada a eleição, cada alma recebeu de Láquesis o seu gênio tutelar; Cloto confirmou os destinos e Átropo tornou-os irrevogáveis.
Junto com seu respectivo gênio tutelar, cada alma (que já não podia retroceder) passou diante do trono da Necessidade e se dirigiu à planície do Esquecimento, onde não havia árvores nem nada do que a terra produz, e onde o calor era atroz. Ao entardecer foram até o rio da Despreocupação, cuja água nenhum recipiente consegue reter. Aí, os que beberam demais, perderam a memória. À meia noite, todas as almas dormiam. A terra rugiu e moveu-se, e as almas foram lançadas no espaço como estrelas diferentes do seu nascimento anterior.
A Er não foi permitido beber; reencarnou em seu próprio corpo, ergueu os olhos para o céu, viu que era madrugada e encontrou-se sobre sua pira.
Platão, A República
A TRAMA
Para o nosso cansado e distraído meditar, o que está à vista do tapete (cujo desenho nunca se repete) provavelmente seja o esquema da existência terrena; o avesso da trama, o outro lado do mundo (supressão do tempo e do espaço, ou afrontosa ou gloriosa manifestação de ambos); e a trama, os sonhos. Isto sonhou, em Teerã, Moisés Neman, fabricante e vendedor de tapetes, que tem o seu negócio.em frente à praça Ferdousi.
Gaston Padilla, Memórias de un prescindible
O DESPERTAR DO REI
Agentes franceses no Canadá, depois da derrota de suas armas, em 1753, divulgaram entre os índios a informação de que o rei da França havia estado dormindo durante os últimos anos, mas que havia acabado de acordar e que suas primeiras palavras foram:
"É preciso expulsar imediatamente os ingleses que se meteram no país dos meus filhos vermelhos". A notícia propalou-se por todo o continente e foi uma das causas da famosa conspiração de Pontiac.
H. Desvignes Doolittle, Meditações vagas sobre a
História Mundial (1903)
RAGNAROCK
Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens figuram as impressões que pensamos que causam; não sentimos horror porque uma esfinge nos oprime — sonhamos uma esfinge para explicar o horror que sentimos. Se isto é assim, como poderia uma simples crônica de suas formas transmitir o estupor, a exaltação, os alarmes, a ameaça e o júbilo que teceram o sonho dessa noite? Não obstante, tentarei essa crônica; talvez o fato de que uma única cena integrou aquele sonho apague ou mitigue a dificuldade essencial.
O lugar era a Faculdade de Filosofia e Letras; a hora, o entardecer. Tudo (como costuma ocorrer nos sonhos) era pouco nítido; uma ligeira magnificação alterava as coisas. Elegíamos autoridades; eu falava com Pedro Henriques Urefia, que na vigília morreu há muitos anos. Bruscamente aturdiu-nos um clamor de manifestação ou de charanga. Alaridos humanos e animais chegavam de Abaixo. Uma voz gritou: Aí vêm! e depois Os Deuses! Os Deuses! Quatro ou cinco sujeitos saíram da turba e ocuparam o estrado da Aula Magna. Todos nós aplaudimos, chorando; eram os Deuses que voltavam depois de um desterro de séculos. Alteados pelo estrado, a cabeça lançada para trás e o peito projetado para a frente, receberam com soberba nossa homenagem. Um sustinha um ramo, que se conformava, sem dúvida, à botânica simples dos sonhos; outro, com um largo gesto, estendia uma de suas mãos, que era uma garra; uma das caras de Jano olhava com receio o recurvado bico de Toth. Excitado talvez por nossos aplausos, um, já não sei qual, prorrompeu em um cacarejo vitorioso, incrivelmente áspero, com algo de gargarejo e de assovio. A partir daquele momento, as coisas mudaram.
Tudo começou pela suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses não sabiam falar. Séculos de vida fugitiva e selvagem haviam atrofiado neles o lado humano: a lua do Islã e a cruz de Roma tinham sido implacáveis com estes prófugos. Rostos muito baixos, dentaduras amarelas, bigodes ralos de mulatos ou de chineses e beiçolas bestiais tornavam pública a degeneração da estirpe olímpica. Seus adereços não correspondiam a uma pobreza decorosa e decente, mas sim ao luxo malévolo das casas de jogo e dos lupanares de Abaixo. A uma botoeira sangrava um cravo; em um casaco ajustado se adivinhava o vulto de uma adaga. Bruscamente sentimos que eles jogavam sua última cartada, que eram matreiros, ignorantes e cruéis como velhos roedores e que, se nos deixasse-mos possuir pelo medo ou pela piedade, acabariam por destruir-nos.
Sacamos os pesados revólveres (na hora surgiram revólveres no sonho), e alegremente demos morte aos Deuses.
Jorge Luis Borges
MORRER, DORMIR, SONHAR TALVEZ
Sonhou que a dor pertinaz no baixo ventre, que ocultou para não importunar os demais (ou para que não o atormentassem), deixava de incomodá-lo. Sem resistência, a dor desapareceu. Sonhou que a cozinheira Eustólia, (oh, havia herdado de sua mãe esta velha maníaca) tinha ido viver com uma sobrinha e finalmente lhe estava permitido comer como Deus manda. A casa deixou de feder a alho. Sonhou o reencontro com Lavínia, sua nunca esquecida Lavínia, oportunamente livre. O casamento foi celebrado na intimidade. Sonhou que reunia uma vasta antologia sobre a inutilidade da apologia literária. O elogio dos críticos foi unânime. Sonhou o número que sairia premiado na loteria de Natal. Custou a encontrar o bilhete, mas sua fortuna ficou assegurada. Sonhou os ganhadores de todos os páreos nas próximas corridas no hipódromo de Palermo. Porém detestava as corridas de cavalo, um tio seu se tinha suicidado, etc. Sonhou que acordava. Porém não acordou. Já fazia alguns minutos que estava morto.
Eliseo Díaz, Notas sobre el azar (1956)
OS DOIS CAVALEIROS
Em seu leito de morte, Gottfried Keller confiou a um amigo que várias noites antes havia visto dois cavaleiros, vestidos dos pés a cabeça com armaduras forjadas de ouro puro, que permaneciam impassíveis junto ao pequeno armário que se encontrava entre as duas janelas. O escritor voltava uma ou outra vez ao assunto, sem conseguir descrever o maravilhoso resplendor que, segundo eles, envolvia a cena.
Ibrahim Zaid, Marginalia (1932)
IN ILLO TEMPORE
Cheguei no dia 18 de março de 1949 para ingressar no Colégio do México como bolsista. Os companheiros que haviam ido receber-me entre eles Sônia Henriquez Unena — levaram-me a uma pensão de estudantes e se despediram. Arrumei meus magros pertences (que incluíam um dicionário de latim) e me dispus a dormir. Depois de uma viagem de trinta e quatro horas, eu estava cansado.
Sonhei que haviam transcorrido dois meses. Nas vésperas do meu regresso a Buenos Aires, Alfonso Reyes me convidava para um fim de semana em um hotel de Cuernavaca e, como despedida, lia para mim sua tradução dos primeiros nove cantos da Ilíada, tradução que eu havia visto progredir, de sábado a sábado, nas inesquecíveis e distantes tardes da "Capela Alfonsina" na então Rua das Indústrias. Alfonso Reyes lendo Homero para mim, sozinho, e a meseta de Anahuac em redor! (Não afirmou Pedro Sarmiento de Gamboa ter encontrado em terra mexicana uma pegada de Ulisses?) Presenteei-o com a adição de poesias completas de Lugones, que incluía suas versões homéricas.
Na manhã seguinte despertei muito cedo. O colégio ficava há pouco mais de uma quadra, na rua Nápoles número 5. Cheguei quando as portas ainda estavam fechadas. Comprei um exemplar de Novedades e me pus a ler. Pouco depois vi Raimundo Lida. Subimos à sala de Filologia, no segundo andar. Uma hora mais tarde, disse-me Lida: "Don Alfonso o espera". Desci. "Roy, dê-me suas duas mãos. Desde hoje, esta é sua casa. Sente-se". E, sem mais demora: "Fale-me de Pedro". Comecei a falar. Desordenadamente. As lembranças me oprimiam. Reyes (oh, ele havia sido seu amigo mais íntimo, de perto e de longe, durante quarenta anos) não ocultou sua emoção. A lembrança de Pedro Henrique Urefia, fixa como as estrelas, cálida como a amizade, nos unia.
Passaram os meses. Dias antes do meu regresso a Buenos Aires, Alfonso Reyes convidou-me para um fim de semana em um hotel em Cuernavaca, junto com D. Manuela. Imaginei o que ia ocorrer: levei o livro de Lugones. Durante dois dias (oh, deuses, para mim sozinho) D. Alfonso me leu sua tradução rimada dos primeiros nove cantos da Ilíada.
Sonhei então, que chegava ao aeroporto da Capital asteca e que os companheiros que tinham ida receber-me, me levaram até uma pensão de estudantes e se despediam. Arrumei meus magros pertences (na verdade pouco usei o dicionário de latim) e ria manhã seguinte, já no Colégio, Raimundo Lida me disse: "Don Alfonso o espera". Desci. "Roy, dê-me suas duas mãos. Desde hoje, esta é sua casa. Sente-se". E, sem mais demora: "Fale-me de Pedro". Comecei a falar. A lembrança de Henriquez Urena nos unia.
Roy Bartholomew
EPISÓDIO DO INIMIGO
Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem se despencasse, porém deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Seriam as quatro horas da tarde.
Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:
— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse — porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.
Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Assinalava algo, e eu senti que era um revólver.
Disse-me, então, com voz firme:
— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.
Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:
— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.
— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.
— Posso fazer uma coisa - respondi.
— Qual?
— Acordar. E assim o fiz.
Jorge Luís Borges
VERDADE OU NÃO?
Quando era garoto, Bertrand Russell sonhou que entre os papéis que havia deixado sobre a mesinha de seu quarto de colégio encontrava um onde se lia: "O que diz do outro lado não é verdade". Virou o papel e leu: "O que diz do outro lado não é verdade". Apenas acordou, procurou o papel na mesinha. O papel não estava ali.
Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son
O SONHO DO PETRÓLEO
No verão de 1950, que precedeu ao voto de nacionalização do petróleo, meu médico prescreveu-me repouso prolongado. Um mês depois, enquanto dormia, vi em sonho uma personagem brilhante que me dizia:
"Este não é o momento para descansar; levanta-te e vai romper as correntes do povo do Irã". Respondi ao chamado e, não obstante minha extrema fadiga, retomei meu trabalho na comissão do petróleo. Quando, dois meses mais tarde, a comissão aceitou o princípio da nacionalização, admiti que a personagem do meu sonho me havia inspirado com felicidade.
Mohammad Mossadegh, sessão do parlamento iraniano,
13 de maio de 1951