Livro dos Sonhos

Jorge Luis Borges · Capítulo 8 de 21

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Livro dos Sonhos

As Duas Portas

 

I

Disse a discreta Penélope: Forasteiro! Há sonhos inescrutáveis e de linguagem obscura, e não se realiza tudo quanto eles anunciam aos homens. Há duas portas para os leves sonhos: Uma, construída de chifre; outra, de marfim. Os que vêm através do brunido marfim nos enganam, trazendo-nos palavras sem finalidade; as que saem pelo polido chifre anunciam, ao mortal que os vê, coisas que realmente vão acontecer.

Odisséia, XIX

II

Gêmeas são as portas do sonho, das quais se diz que uma é de chifre e através dela se dá saída fácil às verdadeiras sombras; a outra, reluzente, primorosamente lavrada em branco marfim, é aquela pela a qual as almas enviam à terra os falsos sonhos.

Eneida, VI

 

O SONHO DE PENÉLOPE

 

Penélope a Odisseu (sem saber que era ele quem havia regressado a Itaca depois de vinte anos de ausência): Ouve, pois, meu sonho: Na casa há vinte gansos que comem trigo macerado em água e eu me regozijo em contemplá-los; mas eis que desceu da montanha uma águia de bico curvo que, rompendo-lhes o pescoço, matou-os todos. E eu, entre sonhos, chorei e dei gritos; e as aquéias de formosas trancas foram se juntando ao meu redor, enquanto eu continuava me lamentando de que a águia houvesse matado meus gansos. A ave voltou, pousou na beira do telhado e devolveu-me a calma ao dizer com voz humana: "Anima-te, filha do famosíssimo Ícaro; não se trata de um sonho, e sim de uma visão verdadeira que se há de cumprir! Os gansos são os pretendentes; e eu, que me apresentei sob a forma de uma águia, sou teu esposo que chegou e que dará a eles todos uma morte ignominiosa".

Odisséia, XIX

 

OS IDOS DE MARÇO

 

Ao que parece, não foi tão inesperado quanto precavido o destino de César, porque se diz ter sido precedido de maravilhosos sinais e prodígios. No que se refere aos resplendores e fogos do céu, às imagens noturnas que por muitas partes divagavam e às aves solitárias que voavam pela praça, parece que tudo isto não merece ser considerado como indícios de tão grande acontecimento. Estrabão, o filósofo (e geógrafo), refere-se a numerosos homens de fogo que foram vistos correndo pelo céu, e ao escravo de um soldado que lançou muitas chamas de sua mão, de modo que os que o viam pensavam que ele estava pegando fogo — mas quando a chama se extinguiu viu-se que ele não tinha a menor lesão. Tendo César feito um sacrifício, desapareceu o coração da vítima, coisa que se tomou como terrível agouro, isto porque, por natureza, nenhum animal pode existir sem coração. Todavia muitos dizem que um agoureiro lhe anunciou que o aguardava um grande perigo no dia (15) do mês de março, dia que os romanos chamavam de idos (idus). Chegou o dia, e indo César ao Senado, saudou o agoureiro e gracejou: "Já chegaram os idos de março"; ao que contestou este com grande tranqüilidade: "Sim, mas ainda não passaram". No dia anterior, ao jantar com Marco Aurélio, escrevia César umas cartas como era seu costume. Recaindo a conversa sobre qual seria a melhor morte, disse César, antecipando-se a todos: "A não esperada". Mais tarde, deitado com sua mulher como costumava fazer, repentinamente abriram-se todas as portas e janelas de seu quarto. Perturbado pelo ruído e pela luz — pois que havia um luar muito claro — observou que Calpúrnia dormia profundamente, porém entre sonhos prorrompia em palavras mal pronunciadas e soluços não articulados. Em seu sonho, a mulher de César viu-o destruído no auge de sua glória e majestade— com todas as honrarias decretadas pelo senado, segundo Tito Lívio — e por isso se angustiava e chorava. Quando veio o dia, pediu a César que se houvesse sessão no Senado, que lá não fosse, adiando sua ida para o dia seguinte; e se não acreditava em seus sonhos, que examinasse, por meio de sacrifícios e outros meios de adivinhação, o que seria mais conveniente para ele.

Plutarco, Vidas Paralelas,

Caio Júlio César, LXIII (c. 100)