Maigret e o Finado Sr. Gallet

Georges Simenon · Capítulo 8 de 13

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Maigret e o Finado Sr. Gallet

Seis

 

O Encontro Junto ao Muro

 

— Ainda nada?

— Óbolo!

— Que palavra você disse há pouco?

— Preparativos! Pelo m enos é o que suponho. Falta o final, tivos, pode ser tam bém ção...

Maigret suspirou, ergueu os om bros, abandonou o quarto fresco onde, desde a m anhã, um rapaz alto, m agro e ruivo, de rosto gracioso e fleum a nórdica, estava debruçado sobre a m esa, entregue a um trabalho que teria desencoraj ado um m onge. Cham ava-se Joseph Moers, e seu sotaque indicava origens flam engas. Em pregado no laboratório da Identidade Judiciária, viera a Sancerre a pedido de Maigret e se instalara no quarto do m orto, onde dispusera seus instrum entos, entre os quais um estranho fogareiro a álcool. Desde as sete da m anhã, só levantava a cabeça quando o com issário entrava bruscam ente ou passava o torso pela j anela que dava para o cam inho das urtigas.

— Nada?

— Eu lhe...

— Com o?

— Acabo de encontrar. Eu lhe... Mas sem o e final...

Ele dispusera sobre a m esa lâm inas de vidro, m uito finas, que revestia aos poucos com um a cola fluida aquecida no fogareiro. De tem po em tem po, ia até a lareira, colhia delicadam ente um dos pedaços de papel queim ado e o colocava sobre um a placa. As cinzas eram frágeis, quebradiças, a ponto de se esfarelarem . Era preciso às vezes cinco m inutos para am olecê-las, envolvendo-as com vapor d’água. E então eram coladas no vidro. À sua frente, Joseph Moers tinha um estoj o que era um verdadeiro laboratório portátil. Os pedaços m aiores de papel carbonizado chegavam a ter de sete a oito centím etros. Os m enores eram quase poeira. Óbolo... Prepara... Eu lhe... Era esse o resultado de duas horas de trabalho, m as, contrariam ente a Maigret, Moers se m ostrava paciente e não resm ungava à ideia de que só havia exam inado a centésim a parte do conteúdo da lareira. Durante algum tem po, um a grande m osca azulada, de reflexos m etálicos, zum biu ao redor de sua cabeça. Por três vezes pousou na sua testa enrugada, e ele não fez um gesto para enxotá-la, talvez sequer a tenha percebido.

— O problem a é que, quando entra pela porta, o senhor provoca um a corrente de ar, ele observou a Maigret, — E com isso j á m e fez perder um bocado das cinzas!

— Está bem ! Entrarei pela j anela. Não era um gracej o. Ele passou a fazer assim .

As pastas continuavam nesse m esm o quarto, que Maigret escolhera com o gabinete de trabalho e onde ninguém havia tocado sequer nas roupas estendidas no chão, com o punhal cravado. O com issário estava im paciente para conhecer o resultado do exam e que m andara fazer e, enquanto esperava, não conseguia ficar quieto.

Durante um quarto de hora, ia de um lado a outro do cam inho das urtigas, de cabeça baixa e m ãos às costas. Depois introduzia o torso pela j anela, com a pele aquecida pelo sol, enxugava o suor e resm ungava:

— Está dem orando m uito!...

Moers ouvia? Seus gestos eram tão preciosos com o os de um a m anicure, e ele só se inquietava com as placas de vidro que se cobriam de m anchas escuras, de contornos irregulares. Maigret estava inquieto sobretudo porque não tinha nada a fazer, ou m elhor, preferia nada tentar antes de exam inar os papéis queim ados na noite do crim e. E, enquanto percorria o cam inho onde a folhagem dos carvalhos fazia dançar m anchas de som bra e de luz sobre seu corpo, voltava sem cessar às m esm as ideias.

— Henry e Éléonore Boursang podem ter m atado Gallet antes de irem até a estação... Éléonore pode ter vindo m atá-lo sozinha, após a partida do am ante... Enfim , há esse m uro e um a chave! E ainda por cim a um certo Sr. Jacob, cuj as cartas Gallet ocultava m edrosam ente...

Um as dez vezes ele foi exam inar a fechadura do portão sem nada descobrir de novo. Depois, quando passava pelo lugar onde o m uro fora escalado por Ém ile Gallet, tom ou um a súbita decisão, tirou o casaco e pôs a ponta do pé direito num a j unção entre as pedras. Ele pesava uns cem quilos. Mas não teve nenhum a dificuldade em agarrar um galho que pendia e, desse m odo, com pletar sua subida. O m uro era feito de pedras irregulares recobertas por um a cam ada de cal. No alto havia um a fileira de tij olos dispostos horizontalm ente. O m usgo se espalhara e brotavam inclusive gram íneas ali. Desse lugar, Maigret distinguiu perfeitam ente Moers ocupado em decifrar algum a coisa com a lupa.

— Algum a novidade? Gritou.

— Um s e um a vírgula...

Acim a da sua cabeça, o com issário tinha não m ais a folhagem de um carvalho, m as a de um a enorm e faia cuj o tronco se erguia na propriedade ao lado. Ele se aj oelhou, pois o m uro não era largo e havia o risco de perder o equilíbrio. Exam inou o m usgo à esquerda e à direita, resm ungou:

— Aí está!

A descoberta não era sensacional. Ele constatou apenas que o m usgo fora pisado e m esm o arrancado em parte num local preciso, bem acim a das arranhaduras na pedra, m as em nenhum a outra parte. Esse m usgo era frágil, com o ele percebia, o que lhe deu a certeza absoluta de que Ém ile Gallet não havia andado sobre o m uro, não havia sequer percorrido um m etro num sentido ou noutro.

— Resta saber se ele desceu para o lado da propriedade...

Ali não havia m ais, propriam ente falando, um j ardim . Certam ente por causa das m uitas árvores, o terreno servia naquele ponto com o local de despej o. A uns dez m etros de onde estava Maigret, se am ontoavam barris vazios, desm ontados ou desprovidos dos seus aros. Viam -se tam bém garrafas velhas, várias de m aterial farm acêutico, um a m áquina de cortar gram a em m au estado, ferram entas enferruj adas, pacotes de antigos j ornais am arrados com cordão que, m olhados de chuva, secos e desbotados pelo sol, suj os de terra, tinham um aspecto lastim ável. Antes de descer do outro lado do m uro, Maigret se certificou de que, abaixo dele, isto é, do lugar onde Gallet estivera, não havia nenhum vestígio no chão. Para não correr o risco de arranhar o m uro, ele saltou, m esm o se arriscando a cair de quatro. Da casa de Tiburce de Saint-Hilaire se viam apenas algum as m anchas claras através da filigrana da folhagem . Ouse via o ruído de um m otor que servia, com o Maigret soube de m anhã, para levar a água do poço até os reservatórios da casa. Por causa dos detritos, havia um a quantidade de m oscas naquele canto. A todo instante o com issário precisava enxotá-las, o que fazia com um m au hum or crescente.

— Prim eiro o m uro...

Esse exam e foi fácil. De am bos os lados, o m uro da propriedade fora pintado de cal na prim avera. Ora, sob o local onde Ém ile Gallet escalara, não se via nenhum a m ancha, nenhum arranhão. Tam bém não havia sinais de passos a m enos de dez m etros. No entanto, nas proxim idades dos barris e das garrafas, o policial notou que um barril fora arrastado por um a distância de dois ou três m etros para ser encostado ao pé do m uro. Ele ainda se achava ali. Maigret subiu nesse barril, e sua cabeça ultrapassou o alto do m uro, m ais ou m enos a dez m etros do lugar onde Gallet estivera. De onde estava, ainda conseguia ver Moers trabalhando, sem dar um tem po para enxugar o suor.

— Nada?

— Clignancourt... Mas acho que achei um fragm ento m elhor...

O m usgo do m uro, acim a do barril, não fora arrancado, m as estava esm agado com o o teria sido por braços que nele se apoiaram . Maigret fez um teste: apoiou o cotovelo e obteve um resultado idêntico um pouco m ais adiante. Ou sej a, Ém ile Gallet sobe no m uro m as não desce até o lado do j ardim . Em contrapartida, alguém vindo do interior da propriedade sobe nesse barril, m as não vai m ais acim a e não sai do terreno, pelo m enos não por esse cam inho... Se o encontro noturno fosse entre um rapaz e um a m oça, a coisa teria sido m ais ou m enos com preensível. Aquele dos dois que estivesse no interior da propriedade poderia levar o barril para m ais perto do com panheiro. Mas não podia ser o caso de um encontro de am or. Um dos dois personagens, sem a m enor dúvida, era o Sr. Gallet, que tirara a casaca expressam ente para se entregar a esse exercício tão incom patível com sua personalidade. O outro seria Tiburce de Saint-Hilaire? Os dois hom ens se viram prim eiro de m anhã, depois à tarde, sem se ocultarem . Era pouco provável que tivessem escolhido sem elhante m eio para se verem m ais um a vez, na obscuridade! E a dez m etros de distância! Não teriam sequer podido se ouvir, falando à m eia-voz!

— A m enos que tenham vindo separadam ente, prim eiro um , depois o outro...

Mas qual dos dois subiu prim eiro no m uro? E os dois hom ens se encontraram ? Do barril até o quarto de Gallet, a distância era de cerca de sete m etros, ou sej a, a distância da qual o tiro foi dado. Ao se virar, Maigret viu o j ardineiro, que o olhava com um ar subj ugado.

— Ah! É você... Disse o com issário. — Seu patrão está?

— Foi pescar...

— Sabe que sou da polícia, não é? Pois bem , eu gostaria de sair daqui sem precisar saltar o m uro... Poderia m e abrir o portão no final do cam inho das urtigas?

— Não há problem a! Lim itou-se a dizer o hom em , se dirigindo para aquele lado.

— Tem a chave?

— Não. O senhor vai ver... Quando chegou ao portão, enfiou a m ão sem hesitar entre duas pedras separadas, se espantou.

— Ué!

— Que foi?

— Ela não está m ais!... No entanto eu m esm o a pus neste lugar, no ano passado, quando fizem os sair por aqui três carvalhos que foram derrubados...

— Seu patrão sabia disso?

— Com certeza!

— Não se lem bra de tê-lo visto passar por aqui?

— Não desde o ano passado...

Um a nova versão dos fatos se esboçava autom aticam ente no espírito do com issário: Tiburce de Saint-Hilaire, erguido sobre um barril, disparando na direção de Gallet, dando a volta pelo portão, entrando no quarto da vítim a... Mas era m uito pouco provável! Mesm o supondo que a fechadura enferruj ada não opusesse resistência, seriam necessários três m inutos para percorrer o cam inho que separa os dois pontos. E, durante esses três m inutos, Ém ile Gallet, com a m etade do rosto ferida, não teria gritado nem caído, teria se lim itado a tirar a faca do bolso para enfrentar um eventual agressor? Soava inverossím il! Tão inverossím il com o abrir sem rangido um portão enferruj ado! No entanto era a única hipótese logicam ente form ulável a partir dos indícios m ateriais.

— De qualquer m odo, havia um hom em atrás do m uro!

Esse era um fato com provado. Mas nada provava que esse hom em fosse Saint-Hilaire, a não ser a história da chave perdida e o fato de o desconhecido se encontrar na propriedade. Por outro lado, duas outras pessoas m uito próxim as de Ém ile Gallet e que podiam ter interesse na sua m orte estavam em Sancerre naquele m om ento, e nenhum álibi sério estabelecia que não haviam posto os pés no cam inho das urtigas: Henry Gallet e Éléonore. Maigret esm agou um m oscão na bochecha, viu Moers que se debruçava à j anela.

— Com issário!

— Novidades? Mas o flam engo j á desaparecera no quarto.

Antes de se decidir a dar a volta pelo cam inho do rio, Maigret deu um a sacudida no portão e, contra sua expectativa, este cedeu.

— Ué! Não está fechado! Surpreendeu-se o j ardineiro, se inclinando sobre a fechadura. — Curioso, não?

Maigret ia lhe recom endar não falar a Saint-Hilaire de sua visita, m as, avaliando o hom em dos pés à cabeça, viu que era m uito sonso e evitou com plicar as coisas.

— Por que m e cham ou? Perguntou a Moers uns instantes depois.

Este havia acendido um a vela e olhava através de um a placa de vidro inteiram ente coberta de cinzas.

— Conhece um Sr. Jacob? Ele indagou, virando a cabeça com satisfação para contem plar o conj unto da sua obra.

— Sim ... E então?

— Então nada. Um a das cartas queim adas estava assinada Sr. Jacob.

— É tudo?

— Mais ou m enos. Estava escrita no papel quadriculado de um caderno ou de um livro-caixa... Só encontrei algum as palavras nesse tipo de papel... Absolutam ente... É o que suponho, pois faltam as duas prim eiras letras... Segunda-feira... Maigret esperava a continuação, de cenho franzido, dentes cerrados sobre o tubo do cachim bo.

— E que m ais?

— Há a palavra prisão, na verdade pris, sublinhada duas vezes... A m enos que falte m ais algum a coisa e sej a prisioneiro ou prisioneira. Enfim , encontrei num er... Só sei de um a palavra que com eça assim : num erário. Pois é pouco provável que a carta fale de num erador... Além disso, há tam bém o núm ero vinte m il...

— Nenhum endereço?

— Com o eu lhe disse há pouco: Clignancourt... Infelizm ente sou incapaz de reconstituir a ordem das palavras.

— A escrita?

— Não é escrito à m ão, m as à m áquina.

O Sr. Tardivon se habituara a servir ele próprio a Maigret e o fazia com um a discrição afetada, j untam ente com um a ponta de fam iliaridade cúm plice.

— Um telegram a, com issário! Gritou antes de bater. Ele certam ente tinha vontade de entrar no quarto, onde o m isterioso trabalho de Moers o intrigava. Ao ver que o policial se apressava em fechar a porta, perguntou, cordial:

— Quer que eu lhe sirva algum a coisa?

— Por enquanto, nada! Falou Maigret, categórico, enquanto abria o telegram a.

Este vinha da Polícia Judiciária de Paris, à qual o com issário pedira um certo núm ero de inform ações. Dizia:

Émile Gallet não deixa testamento. Herança se compõe casa Saint-Fargeau, avaliada cem mil com mobília e 3,5 mil francos depositados banco. Aurore Gallet recebe seguro de vida trezentos mil feito pelo marido em 1925, Companhia Abeille. Henry Gallet retomou trabalho quinta-feira banco Sovrinos. Éléonore Boursang ausente Paris. De férias no Loire.

— Mais essa! Resm ungou Maigret, que fixou por um m om ento seu olhar no vazio e depois se virou para Moers: — Entende algum a coisa de questões de seguro?

— Depende... Respondeu m odestam ente o j ovem , que usava um pincenê tão apertado que todo o seu rosto parecia contraído.

— Em 1925, Gallet tinha m ais de 45 anos... E um a doença do fígado!... Quanto acha que ele devia pagar todo ano para obter um seguro de vida de trezentos m il francos? Os lábios de Moers se m overam sem ruído. Ficou assim por m ais de um m inuto.

— Cerca de vinte m il francos por ano, declarou enfim . — E m ais: não deve ter sido fácil a seguradora aceitar o risco! Foi um olhar irritado que o com issário lançou ao retrato, que continuava sobre a lareira, no m esm o ângulo que antes sobre o piano de Saint-Fargeau.

— Vinte m il!... E as despesas dele m al chegavam a dois m il por m ês!... Ou sej a, m ais ou m enos a m etade do que conseguia arrecadar com dificuldade j unto aos partidários dos Bourbon!

Depois do retrato, ele fixou a calça escura, disform e, gasta nos j oelhos, que estava estendida no chão. E evocou a Sra. Gallet, com seu vestido de seda m alva, suas bij uterias, sua voz ácida. Foi com o se esperassem ouvi-lo dizer ao retrato: “Você gostava tanto dela assim ?”. Enfim , sacudindo os om bros, se virou para o m uro ilum inado de sol onde, exatam ente oito dias antes, Ém ile Gallet subira, sem casaca, com o peitilho engom ado saltando do colete.

— Ainda há cinzas, ele disse a Moers, com um certo cansaço na voz. — Tente descobrir m ais algum a coisa sobre esse Sr. Jacob... Quem foi o cretino que m e disse que só conhecia o Jacó da Bíblia?

Um garoto de rosto sardento se debruçara do lado de fora da j anela e sorria de um a orelha à outra, enquanto um a voz de hom em ordenava frouxam ente, do terraço:

— Deixe os senhores trabalharem , Ém ile!...

— Mais um Ém ile! Suspirou Maigret. — Esse pelo m enos está vivo. Enquanto o outro...

Mas teve bastante controle sobre si m esm o para sair sem olhar a fotografia.

* * *