Maigret e o Finado Sr. Gallet

Georges Simenon · Capítulo 12 de 13

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Maigret e o Finado Sr. Gallet

Dez

 

O Colaborador

 

— Abra a j anela...

— Mas o senhor acaba de m e pedir...

E Tiburce de Saint-Hilaire sorriu, com o para dizer: “Tudo bem , estou às suas ordens. Mas eu gostaria de saber...”. Maigret não sorria. E, se tivessem observado seu rosto, certam ente teriam notado o aborrecim ento com o expressão dom inante. Mostrava-se ríspido nos gestos, no tom de voz. Andava a passos curtos, interrom pidos, levantava e baixava a cabeça, pegava um obj eto num lugar para colocá-lo noutro, sem razão.

— Já que o inquérito o apaixona, vou tom á-lo com o colaborador. Portanto, não usarei de rodeios e o tratarei com o a um de m eus inspetores. Cham e o dono do hotel! Saint-Hilaire abriu docilm ente a porta e gritou:

— Tardivon!... Ei! Tardivon!... Quando o proprietário do hotel chegou, Maigret, sentado na beirada da j anela, fixava o soalho.

— Um a sim ples pergunta, Sr. Tardivon. Sabe se o Sr. Gallet era canhoto?... Tente lem brar.

— Nunca prestei atenção. É verdade que... Será que um canhoto aperta a m ão de alguém com a m ão esquerda?

— Certam ente!...

— Então ele não era, pois esse detalhe cham a a atenção. E os hóspedes têm o costum e de m e apertar a m ão...

— Vá perguntar às funcionárias. Elas talvez tenham notado esse detalhe. Quando Tardivon saiu, Saint-Hilaire perguntou:

— Dá m uita im portância a essa questão de...? Mas o com issário, sem responder, foi até o corredor e gritou ao hoteleiro:

— Aproveite para pedir um a ligação para o Sr. Padailhan, fiscal das contribuições indiretas em Nevers... Acho que ele tem telefone... Retornou ao quarto, sem um olhar ao seu com panheiro; por um m om ento andou em volta das roupas estendidas no chão. — Agora, ao trabalho! Vej am os... Ém ile Gallet não era canhoto... Verem os daqui a pouco se esse detalhe pode nos aj udar... Ou m elhor... Pegue essa faca... Foi a utilizada no crim e... Não! Dê-m e aqui, pois vej o que m ais um a vez está se servindo da m ão esquerda... Bem , suponham os agora que, atacado, devo m e defender! E lem brem os que não sou canhoto!... Obviam ente seguro o cabo do punhal com a m ão direita... Venha aqui... É em sua direção que eu salto... Mas é m ais forte que eu e se apodera do punhal... Vam os, pegue!... É evidente que é a m ão que segura a arm a que irá im obilizar!... Isso basta... Observe esta foto: é a do cadáver, tirada pela Identidade Judiciária... Ora, o que vem os? É no punho da m ão esquerda que Ém ile Gallet tinha equim oses...

— O que há, Tardivon? Já conseguiu a ligação para Nevers?... Não?... Diz que as funcionárias estão de acordo em afirm ar que Gallet não era canhoto?... Obrigado!... Pode ir.

— Voltem os a nós dois, Sr. de Saint-Hilaire... Com o vai explicar isso? Gallet não era canhoto e, no entanto, era com a m ão esquerda que segurava a arm a!... E o exam e da perícia prova que ele não tinha nada na m ão direita. Vej o apenas um a solução ao problem a... Observe: quero enterrar esta lâm ina no coração... O que faço? Acom panhe os m eus m enores gestos. Pego o cabo com a m ão esquerda! Essa m ão só m e servirá para m anter a faca na direção certa... Minha m ão direita é a m ais forte. É a que utilizo para fazer pressão sobre a esquerda... Vej a este m ovim ento: seguro m eu pulso esquerdo com os dedos da m ão direita. Aperto com m uita força, porque estou agitado e é preciso resistir à dor. De tal m aneira que causo em m im m esm o equim oses...

Ele atirou a faca em cim a da m esa, com um gesto de desem baraço.

— Claro, para adm itir essa reconstituição dos fatos, seria preciso adm itir tam bém que Gallet se m atou. E ele não tinha o braço bastante com prido para disparar um revólver a sete m etros do rosto, não é verdade? Com etem os um erro, com o se diz no exército. Tentem os outro cam inho.

Saint-Hilaire conservava o m esm o sorriso um pouco forçado nos lábios. Mas suas pupilas, m aiores que o norm al, se m oviam agora depressa para não abandonar por um instante sequer Maigret, que não parava de ir e vir, de esboçar vários gestos aparentem ente inúteis, pegando a pasta rosa, abrindo-a, tornando a fechá-la, pondo-a debaixo de um a pasta verde, para depois m udar de repente a posição de um dos sapatos do m orto.

— Venha com igo... Sim , passe pela j anela... Estam os aqui no cam inho das urtigas. Im aginem os que é sábado à noite, que está escuro e se ouvem os ruídos da festa e do tiro ao alvo. Talvez se vej a no céu reflexos das luzes m óveis do carrossel de cavalinhos... Ém ile Gallet, que tirou a casaca, sobe até o alto desse m uro, o que não é um exercício fácil para um hom em da sua idade, tom ado pela doença... Siga-m e!...

Levou-o até o portão, que abriu e tornou a fechar.

— Dê-m e a chave... Bem , este portão estava fechado, e a chave se encontrava, com o de costum e, no vão que vem os entre duas pedras. Foi seu j ardineiro m esm o que m e disse. E entram os na sua propriedade... Não esqueçam os que está escuro. Observe que apenas procuram os o sentido de certos indícios, ou m elhor, tentam os conciliar indícios contraditórios... Por aqui, por favor... Im aginem os, no j ardim , um personagem preocupado com os atos de Ém ile Gallet. Deve haver alguns assim . Gallet é um vigarista. E sabe lá o que ainda pretende fazer... Deste lado do m uro, portanto, há um hom em , com o você e eu, que notou que Gallet estava nervoso e que talvez saiba que sua situação é desesperadora. Nosso hom em , que cham arem os X com o em álgebra, vai e vem ao longo do m uro e de repente vê a silhueta de Ém ile Gallet, conhecido por Sr. Clém ent, se erguer no alto, sem casaca. Do alto da casa é possível avistar essa parte do m uro?

— Não!... Não com preendo onde quer...

— ...chegar? Em parte algum a!... Seguim os investigando, podendo m udar cem vezes de hipótese, se necessário. Vej a, j á m udei!... X não está andando. Ele vê barris vazios e, em vez de subir no m uro para saber o que se passa do outro lado, arrasta um desses barris, que lhe serve de pedestal. É nesse m om ento que a silhueta de Ém ile Gallet se destaca contra o céu. Os dois hom ens não falam . Pois, se tivessem algo a dizer, teriam se aproxim ado. Para se ouvirem a um a distância de dez m etros, teriam que falar alto. E pessoas que se encontram em circunstâncias tão estranhas, um a em cim a de um barril, a outra em equilíbrio sobre um m uro, não têm vontade de cham ar a atenção. Aliás, X está na som bra. Ém ile Gallet não o vê, torna a descer o m uro, volta a seu quarto e... Aqui a coisa se torna m ais difícil. A m enos que suponham os que foi X que atirou...

— O que está querendo dizer? Maigret, que havia subido no barril, tornou a descer, pesadam ente.

— Dê-m e fogo!... Certo! Mais um a vez a m ão esquerda!... Vam os agora, sem nos preocupar em saber quem atirou, seguir o cam inho que o nosso X percorreu... Venha... Ele pega a chave no seu lugar. Abre o portão. Antes, porém , vai a algum lugar procurar luvas de borracha... Pergunte à sua cozinheira se ela costum a usá-las para descascar legum es e se elas não desapareceram ... Ela é bonita?

— Não vej o qual a relação... Ouse viu ao longe um a trovoada, m as não caíram gotas de chuva.

— Prossigam os! O portão está agora aberto. X se aproxim a da j anela e vê o cadáver. Pois Ém ile Gallet está m orto!... Os m édicos afirm am que a facada se seguiu im ediatam ente ao tiro e as m anchas de sangue o com provam ... Ora, vim os há pouco que essa facada parece ter sido dada pela própria vítim a... Na lareira há cinzas de papel ainda quentes. E ali encontram os palitos de fósforo de Gallet... O nosso X vasculha a valise, certam ente tam bém a carteira que torna a colocar com cuidado no bolso, vai em bora, esquece de fechar o portão e de recolocar a chave no lugar...

— No entanto a chave foi encontrada nas ervas do cam inho... Maigret, que havia ficado algum tem po sem olhar seu interlocutor, notou seu rosto pálido.

— Venha! Ainda não term inou... Acho que nunca vi história tão com plicada e tão sim ples ao m esm o tem po... Sabem os, não é verdade? Que aquele que se fazia cham ar aqui de Sr. Clém ent era um vigarista... Ora, vem os agora que ele m esm o destruiu todos os vestígios de suas vigarices, com o se esperasse por um acontecim ento im portante ou m esm o capital. Por aqui!... Eis o pátio do hotel e ali, à esquerda, o quarto que Ém ile Gallet pediu para ocupar, no com eço da tarde, e que não lhe pôde ser dado porque não estava vago. Ora, à tarde a situação era a m esm a que à noite. Ele precisava a todo custo de vinte m il francos até segunda-feira, caso contrário os que o chantageavam o entregariam à polícia. Suponham os que tivesse obtido esse quarto... Não haveria m ais com o atravessar o cam inho das urtigas e escalar o m uro! Portanto, para ele não era um a necessidade chegar a esse m uro. Ou, se preferir, isso podia ser substituído por outra coisa, outra coisa que o pátio lhe oferecia... O que vem os nesse pátio? Um poço!... O senhor m e dirá, talvez, que ele tinha vontade de se j ogar nesse poço. Mas a isso responderei que ele podia, ao sair do quarto que ocupou, atravessar o corredor e vir se afogar do m esm o j eito... Não! Era preciso a com binação de um poço e de um quarto...

— O que é, Sr. Tardivon?

— Nevers ao telefone.

— O fiscal?

— Ele m esm o.

— Venha, Sr. de Saint-Hilaire. Já que quer m e aj udar, é j usto que assista a todas as fases do inquérito... Pegue o aparelho de escuta... Alô, aqui é o com issário Maigret... Não se preocupe! Liguei apenas para lhe fazer um a pergunta que m e ocorreu há pouco. O seu am igo Gallet era canhoto?... O que diz?... Canhoto de m ãos e pés?... No futebol j ogava na ponta esquerda?... Tem certeza disso, não é?... Não, é tudo. Obrigado... Ah, um detalhe: ele sabia latim ?... Por que está rindo?... Um m au aluno?... A esse ponto?... Sim , é curioso!... Diga-m e, chegou a ver a fotografia do m orto?... Não?... Evidentem ente ele m udou desde Saigon... O único retrato que possuo foi tirado quando estava de regim e... Mas um dia desses eu talvez lhe apresente alguém que se parece com ele... Obrigado!... Sim !...

Maigret desligou, deu um a risada m eio boba, suspirou.

— Está vendo com o a gente pode se entusiasm ar em vão! Tudo o que dissem os até agora dependia de um a condição: que o nosso Ém ile Gallet não fosse canhoto... Pois, se fosse canhoto, poderia ter usado o punhal contra o seu agressor... Eis o que dá confiar nas afirm ações de um dono de hotel e suas funcionárias...

O Sr. Tardivon, que ouviu essa observação, falou com um ar ofendido:

— O j antar está na m esa...

— Daqui a pouco. Melhor term inarm os com isso. Ainda m ais que receio abusar da paciência do Sr. de Saint-Hilaire... Não se im porta de voltarm os à cena do crim e, com o dizem ?

Ao chegar ao quarto, ele falou:

— Você viu Ém ile Gallet ainda vivo... O que vou dizer talvez lhe faça rir... Sim , pode acender a lâm pada. Com esse céu nublado, anoitece um a hora m ais cedo... Pois bem , eu que não o vi, passo o m eu tem po, desde o crim e, tentando im aginá-lo vivo. Para isso fui respirar a atm osfera que ele respirava, m eti o nariz entre as pessoas com quem ele convivia... Observe este retrato... Aposto que dirá com o eu: “Um pobre coitado!...”. Sobretudo quando souber que o m édico não lhe dava m ais que três anos de vida!... Um fígado aos pedaços... E um coração fatigado que esperava apenas um pretexto para parar de bater... Procurei im aginar esse hom em não apenas no espaço, m as no tem po... Infelizm ente só pude vê-lo a partir do casam ento, pois, sobre o que precedeu essa época, ele sem pre se m ostrou avaro de confidências, m esm o em relação à esposa. Tudo que ela sabe é que ele nasceu em Nantes e que viveu vários anos na Indochina. Mas não trouxe de lá nenhum a fotografia, nenhum a lem brança! Nunca falava disso! É um pequeno caixeiro-viaj ante, que tem cerca de trinta m il francos. Aos trinta anos j á é um hom em debilitado, de hum or m elancólico. Ele conhece Aurore Préj ean e resolve desposá-la. Os Préj ean têm pretensões. O pai, em situação difícil, não encontra m ais o dinheiro necessário para publicar seu j ornal. Mas ele foi o secretário particular de um pretendente ao trono! E se corresponde com príncipes e duques! Sua filha m ais m oça se casou com um dono de curtum e... Nosso Gallet, nesse m eio, destoa. Se o toleram , é porque aceitou aplicar seu pequeno capital no j ornal Soleil. Mas é m alvisto. Para os Préj ean, é um a decadência que um genro venda artigos que im itam prata para presentes pobres! Tentam incitá-lo a m ais altas am bições. Ele resiste, não se sente preparado para um a carreira de prestígio. E seu fígado j á não funciona bem nesse m om ento. Sonha com um a vida tranquila, no cam po, com a esposa, por quem sente grande ternura. No entanto, ela tam bém o instiga, para que as irm ãs não continuem a tratá-la com o parente pobre, lhe reprovando o casam ento. Préj ean m orre, e o Soleil afunda. Ém ile Gallet continua vendendo suas bij uterias sem valor aos cam poneses da Norm andia. E ele se consola se dedicando à pesca, inventando instrum entos aperfeiçoados, desm ontando relógios e despertadores. O filho herdou dele o físico e a doença do fígado, m as tem a am bição dos Préj ean. E assim , um belo dia, Ém ile Gallet decide tentar algum a coisa. Ele possui as pastas do Soleil. Constata que m uita gente está disposta a dar quantias de dinheiro m ais ou m enos elevadas quando se fala da causa legitim ista. Ele tenta, m as não diz nada a ninguém . Provavelm ente, no início, conduz ao m esm o tem po suas ocupações de representante com ercial e suas vigarices ainda tím idas. É a vigarice que rende m ais. Depois de algum tem po, ele tem condições inclusive de com prar um terreno no loteam ento de Saint-Fargeau, de construir ali um a casa. Traz para sua nova condição as qualidades de ordem e de pontualidade. Mas, com o tem um m edo terrível da sua fam ília, finge que continua a representar a casa Niel na Norm andia. Não enriquece. Pois os legitim istas não se contam aos m ilhões e alguns têm a m ão fechada. Mas, enfim , Gallet se contentaria com isso se não lhe reprovassem , m esm o em sua casa, a estreiteza de suas am bições... Ele am a a esposa, apesar de todos os defeitos dela. Talvez am e tam bém o filho... Os anos passam . A doença do fígado se agrava. Gallet tem crises que o fazem prever um a m orte prem atura. Então faz um seguro de vida bastante alto, para perm itir que os fam iliares continuem a desfrutar, após sua m orte, a m esm a existência. Seus gastos aum entam . O Sr. Clém ent redobra as visitas aos castelos de província onde tenta arrancar dinheiro de viúvas e fidalgos do Antigo Regim e. Está m e acom panhando, não? Eis que, há três anos, um certo Sr. Jacob lhe escreve. Esse Sr. Jacob conhece a natureza de suas ocupações, exige dinheiro a cada dois m eses em troca do seu silêncio. O que Gallet pode fazer? Ele é a vergonha da fam ília Préj ean, o parente pobre a quem se lim itam a enviar um cartão no Ano-Novo, m as que os cunhados, que prosperaram , não querem ver. No sábado, 25 de j unho, ele está aqui, tendo no bolso a últim a carta do Sr. Jacob que exige vinte m il francos para a segunda-feira seguinte... Percorri há pouco o cam inho da estação ao hotel, tentando m e colocar no lugar dele. É evidente que ninguém obtém vinte m il francos num dia batendo à porta dos legitim istas, m esm o sob os pretextos m ais engenhosos. Aliás, ele nem tenta. Vai visitá-lo. Duas vezes! Após a segunda conversa com você, pede no hotel um quarto voltado para o pátio... Tinha ele a esperança de lhe arrancar os vinte m il? O fato é que, à noite, essa esperança está perdida. Então, m e diga o que Gallet queria fazer nesse quarto que não obteve e saberem os por que ele subiu no m uro!...

Maigret não levantou os olhos para o seu interlocutor, cuj os lábios trem iam .

— É engenhoso, m as... Sobretudo no que diz respeito a m im , não vej o...

— Que idade tinha quando seu pai m orreu?

— Doze anos.

— Sua m ãe ainda vivia?

— Ela m orreu pouco depois do m eu nascim ento. Mas eu teria a curiosidade de saber o que...

— Foi criado por parentes?

— Eu não tinha parente algum ... Sou o últim o Saint-Hilaire... Quando m orreu, m eu pai tinha apenas o dinheiro suficiente para pagar num colégio de Bourges m eu pensionato e m eus estudos até os dezenove anos. Sem um a herança inesperada, de um prim o cuj a existência todo m undo havia esquecido...

— ...E que vivia na Indochina, não é m esm o?

— Sim , de fato. Era um prim o em segundo grau que não tinha sequer o nosso nom e. Um Duranty de la Roche.

— Com que idade recebeu a herança?

— Aos 28 anos.

— De m odo que dos 19 aos 28...

— ...Com i o pão que o diabo am assou! Não m e envergonho, pelo contrário!... Mas é tarde, com issário. Acho que faríam os m elhor...

— Um m om ento. Ainda não lhe m ostrei o que se pode fazer com um poço e um quarto... Acaso tem um revólver consigo?... Pouco im porta, tenho o m eu... Deve haver um cordão em algum a parte... Ah! aqui está!... Siga os m eus m ovim entos. Prendo esse cordão à coronha da arm a... Digam os que ele m ede de seis a sete m etros, ou m ais, isso não im porta... Procure um cascalho grande no cam inho...

Mais um a vez, Saint-Hilaire obedeceu com zelo e trouxe a pedra.

— Com a m ão esquerda! Notou Maigret. — Mas prossigam os. Portanto, na outra extrem idade do cordão, prendo essa pedra com firm eza... Podem os fazer a dem onstração aqui, supondo que o apoio da j anela sej a o parapeito do poço. Faço descer m inha pedra para o outro lado, dentro do poço, portanto... Tenho o revólver na m ão... Atiro contra alguém , contra m im , por exem plo... E então solto a arm a... O que acontece?... A pedra, que pende acim a da água, desce ao fundo do poço, arrastando o cordão e o revólver preso na outra ponta... A polícia chega, encontra um cadáver, m as nenhum vestígio de arm a... O que ela conclui?

— Que houve um crim e!

— Exatam ente.

E Maigret, sem ter m ais necessidade do isqueiro de Saint-Hilaire, acendeu o cachim bo com a caixa de fósforos que tirou do bolso. Enquanto recolhia do chão as roupas de Gallet, com o hom em aliviado de ter term inado um longo trabalho, ele pronunciou com sua voz m ais natural:

— Agora vá buscar o revólver.

— Mas... O senhor não o soltou, está com ele na m ão...

— Eu quis dizer: vá buscar o revólver que m atou Ém ile Gallet... Vam os, ande!

E pendurou a calça e o colete no cabide, ao lado da casaca lustrosa nos cotovelos que j á se achava ali.

* * *