Maigret e o Finado Sr. Gallet

Georges Simenon · Capítulo 6 de 13

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Maigret e o Finado Sr. Gallet

Quatro

 

O Vigarista

 

AO CHEGAR pela segunda vez ao hotel de la Loire, Maigret respondeu sem

entusiasm o ao Sr. Tardivon, que o acolheu com ares confidenciais, conduziu-o a seu quarto e lhe m ostrou grandes envelopes am arelos chegados a seu endereço. Havia ali o relatório do m édico-legista, os autos de processo da delegacia e da polícia de Nevers. A polícia de Rouen, por sua vez, enviara inform ações com plem entares sobre Irm a Strauss, a em pregada do hotel.

— E não é tudo! Exultou o dono do hotel. — Um gendarm e da delegacia veio procurá-lo. Pediu que telefonasse para ele assim que chegasse... E há ainda um a m ulher que j á apareceu três vezes, certam ente por causa do anúncio do pregoeiro da cidade.

— Que m ulher?

— A Sra. Canut, m ulher do j ardineiro que trabalha ao lado. Eu lhe falei do pequeno castelo, lem bra?

— Ela disse algum a coisa?

— Não é boba! Sabendo que há um a recom pensa, não deixaria vazar a inform ação, ainda que soubesse algum a coisa... Maigret havia colocado em cim a da m esa a pasta rosa e a fotografia de Gallet.

— Mande procurar essa m ulher e peça um a ligação para a delegacia.

Um pouco depois, Maigret falava por telefone com o gendarm e que, segundo as instruções recebidas, recolhera todos os vagabundos num perím etro de dez léguas e os m antinha à sua disposição.

— Há alguns que interessam ?

— São vagabundos, se lim itou a responder o gendarm e.

Durante três ou quatro m inutos, Maigret ficou sozinho no quarto, diante do m onte de papéis. E ele esperava outros! Havia telegrafado a Paris para pedir inform ações sobre Henry Gallet e sobre sua am ante. Para todos os efeitos, tam bém escrevera a Orléans, a fim de saber se havia na cidade um Sr. Clém ent. Enfim , ainda não tivera tem po de exam inar o quarto do crim e, nem as roupas do m orto que haviam sido deixadas nesse quarto após a autópsia. No início, parecia se tratar de um caso sem a m enor im portância. Um hom em , com todas as aparências de um m ero pequeno-burguês, fora m orto por um desconhecido num quarto de hotel. Mas cada inform ação que chegava com plicava o problem a, em vez de sim plificá-lo.

— Devo fazê-la subir até seu quarto, com issário? Gritou um a voz no pátio. — É a Sra. Canut.

Um a com adre forte e digna, que parecia ter posto roupas m elhores do que de costum e para a circunstância, entrou pouco depois, procurando Maigret com um olhar desconfiado de cam ponesa.

— A senhora tem algo a m e dizer? A propósito do Sr. Clém ent?

— A propósito do senhor que m orreu e cuj o retrato saiu no j ornal. É verdade que m e dará cinquenta francos?

— Se o tiver visto no sábado, 25 de j unho, sim .

— E se o vi duas vezes?

— Bem , talvez então receba cem . Fale.

— Prim eiro preciso que o senhor prom eta nada dizer ao m eu m arido. Não é tanto por causa do patrão dele, e sim pelos cem francos que ele gastaria em bebida... Mas claro que eu gostaria m uito que o Sr. Tiburce não soubesse que eu falei. Pois foi com ele que vi o senhor que m ataram ... A prim eira vez de m anhã, por volta de onze horas. Os dois passeavam j untos no j ardim do pequeno castelo...

— Está certa de tê-lo reconhecido?

— Tão certa com o eu reconheceria o senhor. Não há m uitos com o ele... Ficaram conversando durante um a hora. Depois, à tarde, pela j anela da sala, vi que os dois pareciam discutir...

— Que horas eram ?

— Havia acabado de dar cinco horas... Foram duas vezes, não foram ? E ela não tirou os olhos da m ão de Maigret, que pegou um a nota de cem francos na carteira. Depois suspirou, com o se lam entasse não ter, naquele sábado, seguido os passos do Sr. Clém ent.

— Acho que o vi um a terceira vez, ela disse com hesitação. — Mas certam ente isso não conta. Alguns m inutos depois, o Sr. Tiburce o conduziu até o portão.

— De fato, não conta, concluiu Maigret, levando-a até a porta.

Ele acendeu um cachim bo, pôs o chapéu na cabeça e, ao passar no café, perguntou ao Sr. Tardivon:

— O Sr. de Saint-Hilaire m ora há m uito tem po no pequeno castelo?

— Uns vinte anos.

— Que tipo de hom em ele é?

— Um hom em m uito sim pático. Gordinho, bem -educado e sim ples. Quando tenho hóspedes, no verão, não o vej o m uito, porque, afinal, ele pertence a um outro m eio. Mas, na tem porada de caça, ele vem aqui seguidam ente.

— Tem fam ília?

— É viúvo. Nós o cham am os quase sem pre de Sr. Tiburce, por ser um nom e pouco com um . É o proprietário de todos os vinhedos que se podem ver na encosta, dos quais ele m esm o se ocupa. De vez em quando vai a algum a festa em Paris e retorna para calçar as botas... Que foi que a Sra. Canut lhe contou?

— Acha que ele está em casa?

— É possível. Não o vi passar no seu carro hoj e.

Maigret foi até o portão de entrada do pequeno castelo e tocou, não sem observar que, com o o Rio Loire fazia um a curva a partir do hotel e a propriedade era a últim a do vilarej o, ali era possível entrar e sair sem ser visto. Para além do portão de entrada, o m uro do castelo se prolongava por um a extensão de trezentos ou quatrocentos m etros, depois dos quais havia apenas m ata de corte. Um hom em de bigodes caídos, com avental de j ardineiro, veio abrir e, com o cheirava a álcool, o com issário concluiu que era provavelm ente o m arido da Sra. Canut.

— Seu patrão está?

No m esm o m om ento, Maigret avistou um hom em em m angas de cam isa que exam inava um a regadeira m ecânica. O olhar do j ardineiro lhe m ostrou que aquele era o Sr. Tiburce de Saint-Hilaire, o qual, aliás, abandonando o instrum ento, se virou para o visitante e esperou. Com o Canut parecia um tanto acanhado, ele m esm o se aproxim ou, depois de j untar o casaco deixado na relva.

— É com igo que desej a falar?

— Com issário Maigret, da Polícia Judiciária. Poderia fazer a gentileza de m e conceder uns instantes de conversa?

— Ainda o crim e? Resm ungou o castelão, com um m ovim ento do queixo em direção ao Hotel de la Loire. — O que posso fazer pelo senhor?... Acom panhe-m e. Não o convido a entrar na sala porque o sol bateu nas paredes o dia todo. Estarem os m elhor debaixo desse caram anchão... Baptiste!... Copos e um a garrafa de vinho espum ante!... Da fileira do fundo!

Era realm ente com o o hoteleiro havia descrito: baixo, gordinho, tez averm elhada, m ãos curtas e pouco cuidadas, um a roupa cáqui com o as que se vendem em série para a caça e a pesca, fabricadas em Saint-Étienne.

— Conhece o Sr. Clém ent? Perguntou Maigret, se sentando num a das cadeiras de ferro.

— Segundo o j ornal, não seria esse o seu verdadeiro nom e. Ele se cham aria... Com o é m esm o?... Grelet?... Gellet?

— Gallet, sim ! Mas pouco im porta. O senhor o conhecia? Maigret teria j urado nesse instante que seu interlocutor não estava à vontade. Aliás, Saint-Hilaire sentiu necessidade de se inclinar para fora do caram anchão e m urm urar:

— Esse im becil do Baptiste é capaz de pegar um m eio-seco! E o senhor deve preferir beber um seco, com o eu... É vinho da propriedade, tratado segundo o m étodo cam ponês... A propósito desse Sr. Clém ent, se devo continuar a cham á-lo assim , o que lhe direi? Afirm ar que o conhecia seria um exagero. Dizer que nunca o vi tam pouco seria exato...

Enquanto ele falava, Maigret pensava num outro interrogatório, o de Henry Gallet. Os dois tinham um a atitude com pletam ente oposta. O filho da vítim a nada fazia para parecer sim pático e pouco se preocupava com sua atitude estranha. Esperava as perguntas com um ar de suspeita, dava um tem po, pesava as palavras. Já Tiburce falava pelos cotovelos, sorria, agitava as m ãos, ia e voltava, se fazia tão bonachão quanto possível. Mas tanto num quanto noutro havia um a m esm a angústia latente, o m edo, talvez, de não conseguir esconder algum a coisa.

— O senhor sabe... Nós, castelães, recebem os gente de todo tipo. E não falo apenas dos vagabundos, dos viaj antes de com ércio, dos vendedores am bulantes... Para voltar a esse Sr. Clém ent... Ah, aqui está o vinho!... Tudo bem , Baptiste... Pode cair fora... Daqui a pouco irei ver a regadeira. Cuide para não tocar nela!

Enquanto falava, retirou lentam ente a rolha, encheu os copos sem desperdiçar um a gota de espum a.

— Enfim , ele veio aqui um a vez, j á faz m uito tem po... Certam ente o senhor sabe que os Saint-Hilaire são um a fam ília m uito antiga, da qual sou atualm ente o últim o rebento... E é um m ilagre que não tenha m e tornado um escrevente em algum escritório de Paris ou de outra parte. Se não tivesse herdado de um prim o que fez fortuna na Ásia... Enfim , gostaria de lhe dizer que o m eu nom e figura em todos os anuários da nobreza. Meu pai, há uns quarenta anos, se fez destacar por suas opiniões legitim istas. Eu, com o sabe...

Ele sorriu, bebeu seu vinho espum ante, fazendo estalar a língua de um a form a m uito dem ocrática, e esperou que Maigret esvaziasse seu copo para enchê-lo de novo.

— O nosso Sr. Clém ent, que eu nunca tinha visto nem m ais gordo nem m ais m agro, veio m e procurar, m e fez ler cartas de recom endação de nobres franceses e estrangeiros, depois m e deu a entender que ele era algo com o o representante oficioso do m ovim ento legitim ista na França... Deixei que falasse. E ele acabou chegando onde queria chegar. Pediu-m e dois m il francos para a propaganda do m ovim ento. Com o recusei, ele falou de não sei que antiga fam ília na m iséria e de um a subscrição aberta em favor dela. De dois m il francos chegam os a cem . Acabei por lhe dar cinquenta!

— Há quanto tem po foi isso?

— Há alguns m eses, não sei precisar. Era a tem porada de caça. Quase todo dia havia um a caçada nos castelos dos arredores. Ouvi falar desse suj eito um pouco em toda parte e m e convenci de que era um especialista nesse tipo de vigarice. Mas eu não ia apresentar queixa por cinquenta francos, ia?... À sua saúde!... Outro dia ele teve o topete de voltar.

— Que dia?

— No últim o fim de sem ana.

— Sim , sábado. Inclusive veio duas vezes, se não m e engano...

— O senhor é um fenôm eno, com issário! Duas vezes, é verdade! De m anhã m e recusei a recebê-lo. De tarde ele m e surpreendeu no j ardim ...

— Queria dinheiro?

— Evidentem ente. E nem sei m ais para quê. Mas sem pre histórias de restauração da m onarquia... Vam os, esvazie seu copo! Não vale a pena deixar na garrafa!... Mas, diga, não acha que ele pode ter se suicidado? Devia estar com os recursos esgotados.

— O tiro foi dado a sete m etros, e o revólver não foi encontrado.

— Nesse caso... Evidentem ente!... O que o senhor acha? Um vagabundo teria passado por aqui e...?

— Difícil de im aginar. O cam inho para o qual dão as j anelas do quarto conduz apenas à sua propriedade.

— A um a entrada abandonada! Protestou o Sr. de Saint-Hilaire. — Há anos o portão do cam inho das urtigas não é aberto, e eu teria m uita dificuldade de dizer onde se encontra a chave... Que tal se eu m andasse vir um a segunda garrafa?

— Obrigado... Suponho que não ouviu nada.

— Ouvi o quê?

— A detonação, no sábado à noite.

— Absolutam ente nada! Deito-m e cedo. Só soube do crim e no dia seguinte, por m eu m ordom o...

— E não pensou em falar à polícia da visita do Sr. Clém ent?

— Claro que não... Para esconder sua perturbação, ele tentou rir. — Disse a m im m esm o que o pobre coitado j á fora suficientem ente punido. E, quando se tem um nom e com o o m eu, ninguém gosta m uito de vê-lo nos j ornais, a não ser na coluna social.

Maigret continuava com a m esm a sensação vaga e desagradável, obstinada com o um ritornelo: a sensação de que, em torno da m orte de Ém ile Gallet, tudo soava falso, tudo desafinava, o próprio m orto, a voz do seu filho, até a risada de Tiburce de Saint-Hilaire!

— Está hospedado no hotel do Tardivon? Sabe que ele é um ex-cozinheiro do castelo? Desde então enriqueceu!... Não quer m esm o m ais um copo?... Esse j ardineiro idiota fez pifar a regadeira m ecânica e, quando o senhor chegou, eu tentava consertá-la. No cam po é preciso fazer de tudo... Se ficar por aqui m ais alguns dias, com issário, apareça à noite, para bater um papo. Com essa quantidade de turistas, a vida deve ser im possível no hotel...

No portão ele pegou um a m ão que não lhe fora estendida, apertou-a com um a cordialidade exagerada.

Enquanto costeava o Loire, Maigret anotou dois pontos no seu espírito. Em prim eiro lugar, Tiburce de Saint-Hilaire, que não podia ignorar o anúncio feito pelo pregoeiro da cidade e, portanto, a im portância que a polícia dava aos atos do Sr. Clém ent durante o dia do sábado, havia esperado ser interrogado e só falou, em sum a, quando viu que seu interlocutor j á sabia da visita. Em segundo lugar, ele m entiu pelo m enos um a vez. Pois afirm ou que no sábado de m anhã havia recusado receber o visitante e que à tarde fora surpreendido por ele no j ardim . Ora, havia sido de m anhã que os dois hom ens passearam no j ardim . E à tarde voltaram a conversar na sala do pequeno castelo.

— Assim o resto tam bém deve ser falso, concluiu o com issário.

Ele se aproxim ava do cam inho das urtigas. De um lado se elevava o m uro rebocado a cal que cercava o j ardim de Saint-Hilaire; do outro se erguia um a ala, de um único piso, do Hotel de la Loire. O chão estava j uncado de ervas altas, espinheiros, urtigas brancas, e as vespas faziam a festa. O cam inho tam bém recebia a som bra dos carvalhos e term inava, a cem m etros de distância, num velho portão de estilo m uito sim ples. Maigret teve a curiosidade de cam inhar até esse portão que, segundo o proprietário, não era aberto havia anos e cuj a chave estava perdida. Assim que pôs os olhos na fechadura, coberta por um a espessa cam ada de ferrugem , notou que essa ferrugem fora recentem ente descascada em alguns pontos. Mais: com a lupa, verificou sem erro possível as arranhaduras que um a chave deixara ao penetrar na abertura com plicada.

— Mandar fotografar am anhã! Decidiu, m entalm ente.

Refez o cam inho, de cabeça baixa, tentando focalizar de novo no espírito a figura do Sr. Gallet, trazendo-a à luz, de certo m odo. O personagem , em vez de se com pletar e se tornar m ais com preensível, não se furtava? A fisionom ia do hom em da casaca apertada não se em baralhava a ponto de nada m ais ter de hum ano? O retrato, única im agem tangível e teoricam ente com pleta que Maigret possuía, era substituído por im agens fugazes que deveriam form ar um único e m esm o hom em , m as que não conseguiam se sobrepor. O com issário reviu a m etade do rosto, o peito m agro e peludo, no alpendre da escola, enquanto o doutor se im pacientava às suas costas. Mas evocou em seguida o barquinho azul construído por Ém ile Gallet, em Saint-Fargeau, os instrum entos de pesca aperfeiçoados, a Sra. Gallet num vestido de seda m alva, depois com um véu de luto, quintessência de pequena burguesia quieta e em polada. O arm ário de porta espelhada, diante da qual Gallet devia vestir sua casaca... E todas aquelas cartas com tim bre da casa a que ele não pertencia m ais... Os balanços m ensais que traçava com cuidado dezoito anos após haver abandonado seu em prego de representante com ercial...

Aquelas taças, aquelas pás de bolo que ele m esm o devia com prar!

— E sua m aleta de am ostras não foi encontrada! Observou tam bém Maigret. — Deve tê-la deixado em algum lugar.

Ele havia parado m aquinalm ente alguns m etros antes da j anela pela qual o assassino alvej ara sua vítim a. Mas nem sequer olhou essa j anela. Estava um pouco febril porque, por instantes, teve a im pressão de que um esforço seria suficiente para reunir num a só im agem todos os aspectos de Ém ile Gallet. E então reviu Henry, tal com o o conhecera, rígido e desdenhoso, com um traj e de prim eira com unhão e o rosto assim étrico.

O caso, que o inspetor Grenier, de Nevers, cham ara “um pequeno caso aborrecido” e que Maigret abordara apenas com m au hum or, aum entava de proporção à m edida que o m orto se transform ava até parecer funam bulesco. Um as dez vezes Maigret afastou com a m ão um a vespa que esvoaçava perto da sua cabeça com um ruído de avião em m iniatura.

— Dezoito anos!... Pronunciou à m eia-voz.

Dezoito anos de cartas falsas assinadas por Niel, de cartões-postais expedidos de Rouen, e tam bém de um a vidinha banal, sem luxo, sem em oções, em Saint-Fargeau! O com issário conhecia a m entalidade dos m alfeitores, crim inosos ou vigaristas. Sabia que na base dessa m entalidade sem pre se acaba encontrando um a paixão qualquer. E era precisam ente o que ele buscava no rosto do hom em de barbicha, com olheiras e boca m uito larga.

— Ele construía instrum entos de pesca aperfeiçoados e desm ontava velhos relógios! Mas Maigret não entendia. — Não é um a razão para m entir durante dezoito anos! E ninguém se obriga a um a vida dupla tão difícil de organizar!...

O m ais perturbador não era isso. Há situações falsas que se consegue fazer durar alguns m eses ou m esm o alguns anos. Mas dezoito anos! Gallet envelhecera! A Sra. Gallet estava m ais gorda, m ais digna! Henry havia crescido... Fizera sua prim eira com unhão, passara no vestibular, atingira a m aioridade. Estava instalado em Paris, tinha finalm ente um a am ante... E Ém ile Gallet continuava a enviar cartas da casa Niel, a preparar com antecedência cartões-postais endereçados à esposa, a copiar pacientem ente falsas listas de encom endas!

— Ele estava de regim e... Maigret ouvia ainda a voz da Sra. Gallet. Estava tão absorto em seus pensam entos, que faziam acelerar sua pulsação, que deixou apagar o cachim bo. — Dezoito anos sem se deixar pegar!

Era inverossím il! O com issário, que conhecia bem seu ofício, podia im aginar m elhor que ninguém . Sem o crim e, Gallet teria m orrido tranquilam ente, em seu leito, após ter deixado todos os seus papéis em ordem . E o Sr. Niel teria recebido com surpresa um convite para o enterro!...

Algo tão fora dos padrões que o policial era lançado num a angústia indefinível, com o a que provocam certos fenôm enos que chocam nosso senso do real. Assim , foi por acaso que, ao levantar a cabeça, percebeu um a m ancha m ais escura no m uro branco da propriedade, bem defronte ao quarto do crim e.

Aproxim ou-se, reconheceu que era um espaço entre duas pedras que fora recentem ente aum entado e lascado pela ponta de um sapato. Havia um traço sem elhante, m as m enos visível, um pouco m ais acim a. Alguém havia escalado o m uro ali, com o auxílio de um galho que pendia... No instante em que ia reconstituir esse gesto, o com issário se virou vivam ente, pois teve a im pressão de um a presença insólita na extrem idade do cam inho, perto do rio. Teve apenas o tem po de perceber um a silhueta fem inina, alta, bastante forte, cabelos louros, perfil regular e duro de estátua grega.

A j ovem se pôs a cam inhar no m om ento em que Maigret se virou, o que parecia provar que antes ela o observava. Um nom e se apresentou espontaneam ente ao espírito do investigador: Éléonore Boursang! Até então ele não havia tentado im aginar a am ante de Henry Gallet. No entanto, de repente, teve quase a certeza de que era ela. Apressou o passo, chegou à m argem do rio quando ela desaparecia na esquina da estrada principal.

— Já volto! Disse ao dono do hotel, que tentou detê-lo quando ele passou.

Deu m ais alguns passos, correndo, enquanto a fugitiva não podia vê-lo, a fim de reduzir a distância que os separava. Era não apenas a silhueta que com binava com o nom e de Éléonore Boursang, m as tam bém a m ulher que um hom em com o Henry escolheria. Ao chegar à esquina, Maigret ficou decepcionado. Ela havia desaparecido. Em vão m ergulhou o olhar no claro-escuro de um a pequena m ercearia, depois num a oficina de ferreiro próxim a. Pequeno azar, aliás, j á que ele sabia onde encontrá-la.

* * *