Maigret e o Finado Sr. Gallet
Nove
Um Casamento de Mentira
Se quiser se dar o trabalho& de passar discretamente no meu domicílio particular, na Rue Creuse, 17, em Nevers, eu lhe darei sobre Émile Gallet informações do seu mais alto interesse.
Maigret estava na Rue Creuse. Tinha à sua frente, num a sala em verm elho e negro, o fiscal das contribuições indiretas, que havia ele próprio o introduzido ali com ares de conspirador.
— Dispensei a em pregada. O senhor entende, é m elhor! E, para os que podem tê-lo visto entrar, o senhor é o m eu prim o de Beaucaire...
Ele parecia lançar olhares a Maigret para enfatizar cada um a de suas palavras. Só que em vez de fechar um olho, fechava os dois, m uito rápido, o que dava a im pressão de ser um tique nervoso.
— O senhor é tam bém um veterano das colônias?... Não... Achei que fosse... Um a pena, pois teria com preendido m elhor...
As pálpebras piscavam sem parar, enquanto a voz se tornava cada vez m ais confidencial e a expressão fisionôm ica era ao m esm o tem po m aliciosa e assustada.
— Passei dez anos na Indochina, no tem po em que Saigon ainda não tinha grandes avenidas com o Paris. Foi lá que conheci Gallet... E o que m e cham ou a atenção foi a facada... O senhor logo verá por quê. Aposto que não descobriu nada!... E não vai descobrir, porque é um a história que só um veterano das colônias pode com preender. E m ais: um veterano que assistiu à coisa... Maigret j á havia catalogado o fiscal: sabia que com esse tipo de hom em é preciso paciência, evitar interrom per, aprovar com a cabeça, o que é tam bém o único m eio de ganhar tem po. — Um a figura, o nosso Gallet!... Era um a espécie de secretário de um advogado que depois acabou senador... Adorava esportes, tinha a ideia de form ar um a equipe de futebol. Ele nos arregim entou à força, m as, afinal, não havia outra equipe para servir de adversário... E gostava ainda m ais de m ulheres do que de futebol!... E lá, ocasiões não faltam ... Um com panheirão!... As cantadas que sabia dar... O senhor m e dá licença?
Dirigiu-se na ponta dos pés até a porta, abriu-a bruscam ente para se certificar de que não havia ninguém ouvindo.
— Pois bem ... Certa vez ele foi longe dem ais e não m e orgulho de ter desem penhado, sem entusiasm o, aliás, o papel de cúm plice... Um fazendeiro havia im portado uns duzentos ou trezentos trabalhadores m alaios, entre os quais m ulheres e crianças. Um a delas, um a m ocinha que parecia esculpida no âm bar... Não lem bro m ais seu nom e... Mas lem bro que eu term inava de ler um livro de Stevenson sobre os indígenas do Pacífico e que falei disso a Gallet. Se trata de um branco que, para conquistar um a indígena resistente, organiza um falso casam ento. E não é que Ém ile se entusiasm a? Naquele tem po os m alaios ainda não sabiam ler, sobretudo os pobres coitados que eram transportados com o anim ais de carga... Gallet decide então fazer seu pedido ao pai da m oça. Veste sua futura fam ília com roupas ridículas, form a todo um cortej o que se dirige a um a casinha que j á havíam os preparado. O cupincha que se fingiu de prefeito j á m orreu, m as poderia encontrar outros que participaram da farsa. Pois Gallet era um farsante danado!... Não negligenciou nada para que a com édia fosse com pleta. Os discursos eram de rolar de rir e a certidão de casam ento, entregue solenem ente à noiva, totalm ente sem pé nem cabeça... Um a enorm e piada, que escarnecia da fam ília, das testem unhas e do resto...
O fiscal se calou por um m om ento, o tem po de dar m ais seriedade a seu rosto.
— Pois bem , Gallet viveu com ela, com o m arido e m ulher, durante três ou quatro m eses. Depois voltou à França e, obviam ente, deixou lá sua falsa esposa. Ainda éram os j ovens. Caso contrário não teríam os nos divertido tanto, pois os m alaios não perdoam ... O senhor não os conhece, com issário. A m oça ficou esperando a volta do m arido. Não sei o que aconteceu a ela a seguir, m as, passados alguns anos, voltei a encontrá-la, envelhecida, num bairro m iserável de Saigon. Quando li o nom e de Gallet no j ornal de Nevers... E observe que havia 25 anos que eu não o revia! Não tinha m ais sequer ouvido falar dele. Bastou saber da facada... O senhor adivinha agora?... Um a vingança, é claro! Aqueles m alaios dariam a volta ao m undo para se vingar. E costum am usar um punhal! Suponham os um irm ão ou m esm o um filho da m ulher. Mais civilizado, ele com eçou por se servir de um revólver, por ser prático. Depois o instinto prevaleceu...
Maigret, com um olhar tristonho, esperava, escutando com um ouvido distraído esse palavreado que era inútil interrom per. Geralm ente, num caso crim inal, há cem testem unhas do tipo desse fiscal. Se desta vez havia se apresentado som ente um a, é porque os j ornais de Paris relataram o dram a em poucas linhas.
— Está percebendo, com issário? O senhor não teria adivinhado, hein?... Preferi lhe pedir que viesse aqui, pois, se o assassino souber que falei...
— Você disse que Gallet j ogava futebol?
— Um j ogador endiabrado! E um divertido pândego!... O com panheiro m ais engraçado que é possível encontrar... Era capaz de contar histórias côm icas durante um a noitada inteira sem nos dar um instante de folga.
— Por que ele deixou a Indochina?
— Dizia que tinha um proj eto e que não havia nascido para viver com m enos de cem m il francos de renda... Isso foi antes da guerra... Cem m il francos de renda, vej a só!... Rim os dele, m as ele perm aneceu sério com o um papa. “Ainda hão de ver!”. Brincou. E ele conseguiu seus cem m il francos, não é verdade?... Quanto a m im , foram as febres que m e expulsaram da Ásia. Ainda hoj e tenho m inhas crises... Quer beber algum a coisa, com issário? Eu m esm o lhe servirei, pois dispensei a em pregada por toda a tarde...
Não, Maigret não estava disposto a beber coisa algum a, nem a suportar ainda m ais os olhares ingênuos do fiscal entusiasm ado por sua história de vingador m alaio! Pôde apenas agradecer, sorrir, um sorriso pálido de cortesia.
Duas horas m ais tarde, descia do trem na estação de Tracy -Sancerre, onde j á tinha seus hábitos. E, enquanto seguia o cam inho até o Hotel de la Loire, falava consigo m esm o:
— Suponham os que hoj e é sábado, 25 de j unho... Sou Ém ile Gallet... O calor é sufocante, m eu fígado m e faz sofrer... E tenho no bolso um a carta do Sr. Jacob que am eaça revelar tudo à polícia se eu não lhe enviar na segunda-feira vinte m il francos... Os legitim istas nunca m e dão vinte m il francos de um a só vez. A m édia das quantias que é possível arrecadar oscila entre duzentos e seiscentos francos. Raram ente m il! No Hotel de la Loire, peço um quarto voltado para o pátio... Por que para o pátio?... É porque tenho m edo de ser assassinado?... Por quem ?...
Ele cam inhava de cabeça baixa, a passos lentos, fazia um verdadeiro esforço para se colocar na pele do m orto. — Será que sei quem é, na realidade, o Sr. Jacob? Há três anos ele m e chantageia, há três anos venho pagando... Interroguei o vendedor de j ornais na esquina da Rue Clignancourt. Segui um a m ulher loura que m e deixou perdido diante de um prédio com duas saídas... Im possível suspeitar de Henry, cuj o caso am oroso ignoro. E tam bém ignoro que ele j á j untou cem m il francos, m as que precisa de quinhentos m il para ir viver no sul da França... O Sr. Jacob, portanto, continua sendo um a terrível entidade escondida atrás da figura do velho j ornaleiro... Esboçou um gesto parecido ao de um professor que passa o apagador sobre um problem a escrito no quadro-negro.
Ele gostaria de esquecer todos os dados, de recom eçar o inquérito desde o início.
— Ém ile Gallet era um divertido pândego! E forçava seus colegas a form ar um a equipe de futebol...
Passou na frente do hotel sem entrar, foi tocar a cam painha no portão principal da propriedade Saint-Hilaire. O Sr. Tardivon, que estava na entrada do hotel e a quem Maigret não cum prim entou, o seguiu com um olhar de reprovação. O com issário precisou esperar bastante tem po na rua. Por fim um m ordom o veio abrir o portão, e Maigret lhe perguntou bruscam ente:
— Há quanto tem po está na casa?
— Um ano... Mas... É o Sr. de Saint-Hilaire que desej a ver? Este, de um a j anela do andar de baixo, dirigiu um sinal am istoso a Maigret.
— E então?... A chave?... Afinal a descobrim os!... Quer entrar um m om ento?... E o inquérito?
— Desde quando o j ardineiro está a seu serviço?
— Três ou quatro anos... Não quer entrar? O dono do castelo notou a m udança que se produzira em Maigret, que tinha as feições duras, o cenho franzido e, no olhar, um a expressão inquietante de irritação e cansaço. — Mando trazer um a garrafa e...
— O que foi feito do antigo j ardineiro?
— Tem um boteco, a um quilôm etro daqui, na estrada de Saint-Thibaud... Um velho canalha, que fez o pé-de-m eia em m inha casa antes de se instalar por conta própria...
— Obrigado.
— Já vai?
— Voltarei... Disse isso quase sem pensar e, preocupado, cam inhou de volta ao portão e se afastou na direção da estrada principal. — Eram necessários vinte m il francos de im ediato!... Ele não buscou obter essa quantia entre suas vítim as habituais, isto é, os donos de castelo dos arredores... Visitou apenas Saint-Hilaire... Duas vezes no m esm o dia!... Depois escalou o m uro!... Interrom peu-se, praguej ando. — Que droga! Mas por que então ele pediu um quarto voltado para o pátio?... Se o tivesse obtido, não teria podido subir no m uro...
O boteco do ex-j ardineiro ficava perto de um a eclusa do canal lateral do Loire e estava cheio de barqueiros.
— Um a inform ação, por favor... Polícia... É a propósito do crim e de Sancerre... Lem bra-se de ter visto Ém ile Gallet na casa do seu ex-patrão, no passado?
— Está se referindo ao Sr. Clém ent?... É assim que o cham ávam os... Acho que o vi, sim !...
— Com frequência?
— Não se pode dizer... Digam os a cada seis m eses... Mas era o bastante para que o patrão ficasse de m au hum or durante quinze dias.
— Suas prim eiras visitas datam de m uito tem po?
— Pelo m enos dez anos. Talvez quinze... Posso lhe oferecer um a bebida?
— Obrigado... Algum as vezes eles discutiam ?
— Algum as vezes, não: todas as vezes!... Cheguei m esm o a vê-los se atracarem com o estivadores...
“No entanto não foi Saint-Hilaire quem m atou!”, raciocinava Maigret um pouco m ais tarde, ao cam inhar de volta ao hotel. Não foi ele que disparou dois tiros contra Moers, pois estava na casa do tabelião. Além disso, na noite do crim e, por que teria dado a volta pelo portão? Ele avistou Éléonore, não longe da igrej a, m as desviou a cabeça para evitá-la. Tinha m enos vontade de falar com ela do que com qualquer outro. Ouviu passos apressados às suas costas. Viu-a chegar a seu lado, com um vestido cinza, os cabelos bem -penteados.
— Desculpe-m e, com issário. Ele deu m eia-volta, m irou-a nos olhos de um a form a tão áspera que por um instante ela ficou sem falar.
— E então?
— Gostaria apenas de saber...
— Absolutam ente nada. Não sei absolutam ente nada!
E se afastou sem m ais conversa, com as m ãos às costas.
— Suponham os que o quarto voltado para o pátio estivesse livre... Mesm o assim ele teria m orrido? Um a bola com a qual um garoto brincava veio bater nas suas pernas; ele a pegou do chão, devolveu ao garoto sem olhar para ele. — De todos os m odos, ele não tinha os vinte m il francos... Não podia obtê-los até a segunda-feira... E, no pátio, não teria podido escalar o m uro! Ali teria sido im possível atirarem contra ele. Logo, não teria m orrido!
Enxugou o suor da testa, em bora a tem peratura estivesse bem m ais suportável do que na sem ana anterior. Tinha a sensação irritante de estar a um palm o do obj etivo e, no entanto, de ser incapaz de atingi-lo. Dados, ele os possuía em quantidade: a história do m uro, os tiros disparados oito dias m ais tarde em direção de Moers, o caso Jacob, as visitas feitas quinze anos antes a Saint-Hilaire, a chave perdida e reencontrada providencialm ente pelo j ardineiro, a questão dos quartos, a facada que com pletou o serviço da bala alguns m om entos depois, por fim o futebol e a farsa do casam ento... Pois a paixão de Gallet pelo esporte, suas histórias engraçadas e suas façanhas am orosas eram tudo o que havia a reter do confuso relato do fiscal.
— Um divertido pândego, um grande paquerador...
— Vai j antar no terraço, com issário? Perguntou o Sr. Tardivon. Maigret não percebera que havia chegado.
— Tanto faz...
— E o inquérito, com o vai?
— Digam os que está no fim .
— É m esm o? E o assassino?...
Mas o policial seguiu adiante alçando os om bros, percorreu os corredores repletos do cheiro da cozinha e penetrou no quarto onde suas pastas continuavam am ontoadas em cim a da m esa, sobre a lareira e no chão. Ninguém havia tocado nas roupas que representavam o m orto. Maigret se inclinou, arrancou a faca plantada no soalho e se pôs a m anuseá-la, enquanto andava de um lado a outro.
O céu estava coberto de um a cam ada de nuvens de um cinza uniform e, tem pestuoso, e o m uro branco, em frente, se tornava m ais brilhante, por contraste. O com issário ia da j anela até a porta, da porta até a j anela, lançando às vezes um olhar para a foto sobre a lareira.
— Venha até aqui um m om ento!... Ele falou de repente, ao chegar talvez pela trigésim a vez à j anela. A folhagem se m oveu no alto do m uro, lá onde Maigret havia adivinhado o rosto m al escondido de Saint-Hilaire. O dono do castelo, cuj o prim eiro m ovim ento foi de recuo, perguntou com um a voz confusa, fazendo um esforço para gracej ar:
— Devo saltar?
— Dê a volta pelo portão! É m ais fácil...
A chave estava em cim a da m esa, e Maigret a lançou negligentem ente por cim a do m uro, antes de retom ar seu passeio pelo quarto. Ouviu a chave caindo no j ardim , entre os detritos am ontoados naquele ponto. Depois houve um ruído de um barril sendo rem ovido e de folhas e galhos agitados. A m ão de Saint-Hilaire devia estar trem endo, pois a chave produziu vários tinidos na fechadura antes de se ouvir ranger a dobradiça. Mas, quando chegou j unto à j anela, o proprietário do pequeno castelo j á havia recuperado o autocontrole e foi com um a voz brincalhona que pronunciou:
— Im possível escapar ao seu olhar de lince!... Esse caso m e apaixona tanto que, ao vê-lo chegar, tive a ideia de espiá-lo, a fim de saber com o procede e de incitá-lo a um a nova conversa... Dou a volta?
— Não! Entre pela j anela... Saint-Hilaire a transpôs com facilidade e observou, olhando ao redor no quarto:
— Curiosa essa atm osfera na qual reconstitui os fatos... Essas roupas... Foi o senhor que organizou essa m ise-en-scène? Maigret enchia o cachim bo com um a lentidão exagerada, com prim indo cada pitada de tabaco com um a série de m ovim entos do indicador.
— Tem um fósforo?
— Um isqueiro... Nunca uso fósforos... O olhar do com issário pareceu perceber três palitos de fósforo, em parte consum idos, que se achavam na lareira, perto das cinzas de papel.
— Evidentem ente! Ele disse, sem que se pudesse adivinhar a que se referia essa aprovação.
— Queria m e perguntar algum a coisa?
— Ainda não sei... Eu o avistei e, com o estou literalm ente nadando, pensei que um hom em inteligente poderia m e aj udar... Sentou-se a um canto da m esa, estendeu o fornilho do cachim bo em direção ao isqueiro que Saint-Hilaire segurava.
— Ora! Não sabia que é canhoto...
— Eu?... Não!... É um acaso... Eu não saberia lhe dizer por que lhe apresentei esse isqueiro com a m ão esquerda...
— Poderia fazer a gentileza de fechar a j anela?
Maigret o acom panhou com os olhos, observou um a dem ora nos m ovim entos de Saint-Hilaire que, com um a aplicação flagrante, se serviu da m ão direita para girar o fecho da j anela.
* * *