Maigret e o Finado Sr. Gallet

Georges Simenon · Capítulo 10 de 13

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Maigret e o Finado Sr. Gallet

Oito

 

Sr. Jacob

 

— Espere um m om ento, Aurore! Não convém você se m ostrar nesse estado... E um a voz confusa respondeu:

— Estou exausta, Françoise... Essa visita m e faz pensar na outra, há oito dias... E na viagem que fiz... Você não com preende...

— O que não com preendo é que tenha a coragem de chorar um hom em com o esse, que a desonrou, que lhe m entiu a vida inteira e cuj a única boa ação foi fazer um seguro de vida...

— Cale-se!...

— E m ais! Um hom em que reduziu você a um a vida quase m iserável, j urando que ganhava só dois m il francos por m ês. O seguro prova que ele ganhava pelo m enos o dobro e que lhe escondia isso. É bem possível que ganhasse ainda m ais! Quer saber? Em m inha opinião esse hom em tinha duas fam ílias, um a am ante e talvez filhos com ela...

— Por favor, Françoise!

Maigret estava sozinho na sala da casa de Saint-Fargeau onde a em pregada o introduzira, esquecendo de fechar a porta. E as vozes das duas m ulheres lhe chegavam da copa, cuj a porta, que dava para o corredor, estava igualm ente entreaberta. Os m óveis e os m enores obj etos haviam voltado a seu lugar e o com issário não pôde olhar a grande m esa de carvalho sem pensar que alguns dias antes, coberta de um pano preto, ela suportava um ataúde e velas. A atm osfera estava cinzenta, o tem po carregado. Um a tem pestade caíra durante a noite, m as se sentia a am eaça de m ais chuva.

— Por que devo m e calar? Acha que isso não m e diz respeito? Sou sua irm ã. Jacques está para obter um im portante cargo político. Suponha que as pessoas fiquem sabendo que o cunhado dele era um vigarista!...

— Então por que veio até aqui? Ficou vinte anos sem ...

— Sem ver você. É que eu não queria ver seu m arido! Quando você quis se casar, não escondi m inha opinião, Jacques tam pouco!... Quando alguém se cham a Aurore Préj ean e tem um cunhado que dirige um a das m ais im portantes fábricas de curtum e dos Vosges e um outro que um dia será chefe de gabinete de um m inistro, não deve se casar com um Ém ile Gallet!... A com eçar pelo nom e!... E caixeiro-viaj ante!... Não entendo com o nosso pai pôde dar seu consentim ento... Ou m elhor, cá entre nós, adivinho o que se passou. No final da sua vida, papai só pensava num a coisa: publicar seu j ornal, custasse o que custasse... Gallet tinha um pouco de dinheiro. E assim ele decidiu envolvê-lo no negócio do Soleil... Ouse dizer que não é verdade! Mas que você, m inha irm ã, que recebeu a m esm a educação que eu e se assem elha à m am ãe, tenha escolhido essa criatura nula... Não m e olhe desse j eito! Quero apenas fazê-la com preender que não tem por que chorar... Acaso foi feliz com ele?... Francam ente!...

— Não sei, não sei m ais...

— Confesse que tinha m ais am bição do que isso!

— Sem pre esperei que ele tentasse algum a coisa... Eu o instigava...

— Era com o instigar um a pedra! E você se resignou!... Não sabia sequer que não ficaria na m iséria quando ele m orresse. Pois, sem o seguro...

— Ele pensou em m im ! Disse lentam ente a Sra. Gallet.

— Só faltava essa! Quem a ouve acabaria por acreditar que você o am ava...

— Cale-se... O com issário pode estar nos ouvindo... Preciso recebê-lo...

— Com o ele é? Eu a acom panho. No estado em que se encontra, isso é m elhor... Mas por favor, Aurore, não fique com esse ar abatido! O com issário vai im aginar que você era cúm plice dele, que está triste, que está com m edo...

Maigret teve apenas o tem po de dar um passo atrás. As duas m ulheres entraram pela porta, m as não exatam ente com o, através da conversa que acabava de surpreender, as im aginara. A Sra. Gallet estava quase tão distante com o por ocasião do prim eiro encontro deles. Quanto à irm ã, dois ou três anos m ais m oça, de cabelos oxigenados e rosto m aquiado, dava a im pressão de ter m ais vigor e pretensão.

— Tem novidades, com issário? Perguntou a viúva, com lassidão. — Sente-se, tenha a bondade... Apresento-lhe m inha irm ã, que chegou ontem de Épinal.

— Onde seu m arido é curtidor de peles, eu acho.

— Proprietário de curtum es! Retificou Françoise, com um a voz seca.

— A senhora não estava no enterro, não é m esm o? E há três dias os j ornais anunciaram que Gallet deixou um seguro de vida no valor de trezentos m il francos...

Ele falava devagar, olhando à direita e à esquerda de um j eito aparentem ente sonso. Viera a Saint-Fargeau sem um m otivo preciso, para farej ar de novo a atm osfera e definir m elhor a im agem do m orto. Mas não teria se incom odado de reencontrar Henry Gallet.

— Gostaria de lhe fazer um a pergunta, falou, sem se virar para as duas m ulheres. — Seu m arido devia saber que, ao se casar com ele, seria banida por sua fam ília... Foi Françoise que respondeu.

— Isso é falso, com issário! Nos prim eiros tem pos nós o acolhem os. Várias vezes, inclusive, m eu m arido o aconselhou a buscar um a outra situação, propôs aj udá-lo... Foi só quando vim os que ele seria a vida inteira um ser subalterno, incapaz de esforço, que passam os a evitá-lo. Ele teria nos prej udicado...

— E a senhora? Perguntou docem ente Maigret, se voltando para a Sra. Gallet. — A senhora o instigava a m udar de profissão? Fazia-lhe recrim inações?

— Penso que isso pertence ao dom ínio da vida privada. Era o m eu direito, não?

Quando a ouvia pouco antes através da porta, Maigret chegou a im aginar um a m ulher que a dor tornava m ais hum ana e que abandonava aquele ar de dignidade e de desdém , um ar que percebeu no prim eiro dia e que agora reencontrava.

— Seu filho se dava bem com o pai? A irm ã voltou a intervir.

— Henry, sim , chegará a algum a coisa! É um Préj ean, em bora fisicam ente se pareça com o pai. E fez bem em abandonar essa atm osfera quando teve idade para isso... Ele j á voltou a seu trabalho, apesar da crise de fígado da noite passada... Maigret olhava a m esa, tentava situar Ém ile Gallet num lugar qualquer da sala, m as não conseguia, talvez porque os m oradores da casa só pusessem os pés ali quando recebiam alguém . — Tinha algum a com unicação a m e fazer, com issário?

— Não... Já estou indo, senhoras, m e desculpem por tê-las perturbado... No entanto... Sim , um a pergunta: teria um a foto que m ostra seu m arido na Indochina? Ele viveu lá antes do casam ento, não é?

— Não tenho fotografia... Meu m arido quase nunca falava desse período da sua vida.

— Sabe que estudos ele fez?

— Era m uito instruído. Lem bro que conversava seguidam ente com m eu pai sobre autores latinos.

— Mas não sabe em que colégio passou a j uventude?

— Tudo que sei é que nasceu em Nantes.

— Eu lhe agradeço. E peço desculpas, m ais um a vez. Foi pegar o chapéu no corredor e se afastou andando de costas, sem poder definir a angústia im precisa que sentia toda vez que colocava os pés na casa.

— Espero que o m eu nom e não sej a dado à curiosidade dos j ornais, com issário! Pronunciou Françoise, num tom de voz não desprovido de im pertinência. — Talvez saiba que m eu m arido é conselheiro-geral. Ele tem m uita influência nos m eios governam entais e, com o o senhor é funcionário...

Ele não teve coragem de replicar. Lim itou-se a olhar para ela no m eio da testa, para então se despedir, suspirando. Quando atravessava o m inúsculo j ardim , escoltado pela em pregada de olhos estrábicos, balbuciou, pensativo:

— Meu pobre Gallet!...

Passou no Quai des Orfèvres apenas para pegar a correspondência, que não continha nada relativo ao caso. Ao sair, se dirigiu, sem m uita expectativa, até o setor de balística que havia exam inado a bala retirada do crânio do m orto, bem com o as duas balas cuj o alvo fora Moers.

— Term inou a perícia?

— Sim , há pouco. Eu ia redigir o relatório. As três balas foram disparadas pela m esm a arm a, não há dúvida algum a. Um revólver autom ático de precisão, de m odelo corrente, provavelm ente vindo da fábrica nacional de Herstal. Maigret estava tristonho. Despediu-se do perito de arm as, pegou um táxi.

— Rue Clignancourt...

— Que núm ero?

— Deixe-m e num a das pontas da rua, não im porta qual!

No cam inho fez um esforço para afastar a lem brança viscosa da casa de Saint-Fargeau, para não ser dom inado pela conversa das duas irm ãs, a fim de exam inar apenas os dados positivos do problem a. Mas, assim que encadeava algum as ideias sim ples, tornava a ver aquela Françoise, cuj o m arido era conselheiro-geral, ela fizera questão de dizer! E que fora até Les Marguerites ao ficar sabendo que a Sra. Gallet receberia trezentos m il francos do seguro.

— Ele prej udicava a fam ília... E, no com eço do casam ento, Ém ile Gallet fora pressionado a pôr na cabeça que devia honrar os Préj ean, com o os outros genros. Um representante com ercial de artigos para presentes!... — E ele teve a coragem de fazer um seguro de vida, de pagar o prêm io durante cinco anos! Extasiou-se Maigret, perturbado, atraído e repelido, ao m esm o tem po, pela fisionom ia com plexa do seu m orto. — Então ele am ava sua m ulher, que deve ter lhe reprovado m ais de um a vez, ela tam bém , a hum ildade da sua condição? Casal estranho! Vidas estranhas! Por um instante Maigret não havia sentido, apesar de tudo, um a real afeição na Sra. Gallet?

Através da porta, é verdade! Quando com pareceu diante dele, isso j á havia passado. Ela voltou a ser a pequeno-burguesa desagradável e pretensiosa que o acolhera da prim eira vez e que era bem a irm ã de Françoise. E esse Henry, que j á na prim eira com unhão tinha um olhar oblíquo, refletido, desconfiado, e que aos 22 anos não se casou com Éléonore por receio de perder o benefício que ela podia obter do prim eiro m arido! Ele tivera um a crise hepática e m esm o assim retom ara seu trabalho. Com eçou a chover. O m otorista estacionou o carro j unto à calçada.

— As três balas saíram do m esm o revólver. Donde se conclui, parece, que foram disparadas pela m esm a pessoa. Mas nem Henry, nem Éléonore, nem Saint-Hilaire podem ter sido os autores dos últim os dois tiros! Um vagabundo tam bém não! Um vagabundo não m ata por m atar. Ele rouba. E nada fora roubado.

O inquérito, girando em volta da figura opaca e m elancólica do m orto, m arcava passo e se tornava cansativo, e foi com m au hum or que Maigret entrou na prim eira portaria da Rue Clignancourt.

— Conhece um Sr. Jacob?

— O que ele faz?

— Não sei. Em todo caso, recebe cartas com esse nom e...

A chuva continuava caindo, regular, abundante, m as o com issário não se im portava m uito porque essa atm osfera, a rua populosa, com loj as pequenas e construções pobres, se harm onizava m ais com seu estado de espírito. Essas peregrinações de casa em casa poderiam ter sido confiadas a um subalterno qualquer, m as Maigret sentia um a repugnância, sem saber m esm o por que, em envolver um colega nesse caso.

— Sr. Jacob?...

— Não m ora aqui. Vej a ao lado, onde há j udeus... Já havia percorrido uns cem prédios, colocando a cabeça nos guichês envidraçados das portarias, quando um a m ulher gorda, de cabelos desalinhados, o olhou com um ar suspeito.

— O que quer com ele, com o Sr. Jacob?... O senhor é da polícia, não?

— Sim , Brigada Móvel. Ele está?

— Não queria que ele estivesse a esta hora, queria?

— Onde posso encontrá-lo?

— No seu trabalho, ora! Na esquina da Rue Clignancourt com o Boulevard Rochechouart... Mas não vai aborrecê-lo, vai?... Um pobre velho que certam ente nada fez de m al... É porque ele não tem autorização?

— Ele recebe m uitas cartas? A zeladora franziu as sobrancelhas.

— Então é por isso! Ela disse. — Eu desconfiava de que era um a história estranha. O senhor j á deve saber, com o eu, que ele recebia apenas um a correspondência a cada dois ou três m eses...

— Registrada?

— Não. Era m ais um pacotinho do que um a carta.

— Com notas de dinheiro, não é m esm o?

— Não sei de nada! Ela replicou, secam ente.

— Sabe, sim . Deve ter apalpado os envelopes e tam bém im aginou que era dinheiro...

— E daí?... Não era o Sr. Jacob que saía a gastar esse dinheiro!

— Onde é o apartam ento dele?

— Está querendo dizer sua m ansarda? Logo acim a! E m esm o assim ele tem dificuldade de subir, todas as noites, com as m uletas...

— Alguém veio algum a vez procurá-lo?

— Há uns três anos, talvez... Um senhor de barbicha que parecia um padre à paisana. Respondi do m esm o m odo que estou lhe falando agora.

— O Sr. Jacob j á recebia cartas?

— Tinha acabado de receber um a.

— Esse hom em usava um a casaca?

— Estava vestido de preto, com o um padre!

— O Sr. Jacob recebe outras visitas?

— Só a filha, que é em pregada num apartam ento da Rue Lepic e que vai ter um filho...

— Qual é a profissão dele?

— Com o? O senhor é da polícia e não sabe? Está querendo gozar da m inha cara? O Sr. Jacob é o m ais velho vendedor de j ornais do bairro, tão conhecido com o o tal do Matusalém !...

Maigret parou na esquina da Rue Clignancourt e do Boulevard Rochechouart, diante de um bar cham ado Au Couchant. Na ponta do terraço havia um vendedor de am endoins e am êndoas grelhadas que, no inverno, devia vender castanhas. Do lado da Clignancourt, um velhinho estava sentado num tam borete e repetia com um a voz rouca que se perdia no rum or da esquina:

— Intran... Liberté... Presse... aris-Soir... Intran...

Um par de m uletas estava encostado contra o m ostruário e, se um dos pés do hom em estava calçado de couro, no outro havia apenas um a pantufa disform e. Ao ver o vendedor de j ornais, Maigret com preendeu que Sr. Jacob não era um nom e, m as um apelido, pois o velho tinha um a barba com prida, dividida em duas m echas pontudas, e um nariz bico de papagaio parecido com os cachim bos cham ados habitualm ente de Jacob... O com issário lem brou algum as palavras da carta que Moers havia reconstituído: vinte m il... Num erário... Segunda-feira... E perguntou bruscam ente, se inclinando sobre o velho:

— Recebeu a últim a rem essa? O Sr. Jacob levantou a cabeça, abriu e fechou várias vezes suas pálpebras averm elhadas.

— Quem é você? Perguntou finalm ente, enquanto estendia o Intransigeant a um com prador e procurava o troco num cestinho de m oedas.

— Polícia Judiciária!... Vam os conversar direitinho, senão serei forçado a levá-lo. O caso é grave... O Sr. Jacob lançou um j ato de saliva na calçada.

— E aí?...

— Tem um a m áquina de escrever? O velho riu, desta vez cuspiu um a ponta de cigarro m ascado, do qual havia toda um a coleção à sua frente.

— Não há necessidade de bancar o esperto, ele falou. — O senhor sabe m uito bem que não fui eu. O que não im pede o fato de que teria sido m elhor eu não ter m e envolvido, pelo que isso m e rende!

— Quanto?

— Ela m e dava cinco francos por carta... Então, não é um caso sem im portância?

— Um caso que pode levá-la ao tribunal.

— Não diga!... Então eram realm ente notas de m il francos?... Eu não tinha certeza: apalpava os envelopes e fazia um ruído sedoso. Tentava ver por transparência, m as o papel era m uito espesso...

— O que você fazia?

— Eu os trazia para cá. Não havia sequer necessidade de aviso. Por volta das cinco da tarde, via chegar um a senhora que m e com prava o Intran, punha os cinco francos no cestinho de m oedas e enfiava o envelope na bolsa.

— Um a m orena?

— Não, loura! Puxando um pouco para o ruivo. E m uito bem -vestida!... Ela saía do m etrô...

— Quando ela lhe pediu pela prim eira vez para fazer esse serviço?

— Há uns três anos... Deixe-m e ver: m inha filha tinha acabado de ter o prim eiro filho e ia levá-lo a um a creche, em Villeneuve-Saint-Georges... Sim , faz pouco m enos de três anos!... Era tarde. Eu estava recolhendo a m ercadoria para colocá-la nas costas... Ela m e perguntou se eu tinha um dom icílio e se poderia aj udá-la... O senhor sabe, em Montm artre se vê todo tipo de gente... Tratava-se de receber cartas em m eu nom e, de não abri-las e de trazê-las aqui, à tarde...

— Foi você que fixou o preço de cinco francos?

— Foi ela... Observei, brincando, que o negócio valia m ais, considerando o preço do vinho tinto, e ela fez m enção de se dirigir ao vendedor de am endoins... Um argelino, gente que trabalha por nada!... Então eu disse sim ...

— Sabe onde ela m ora? O Sr. Jacob piscou um olho.

— Duvido que o senhor a pegue, em bora sej a da polícia. Já houve um que veio investigar, nos prim eiros tem pos. Minha zeladora lhe disse apenas que eu vendia j ornais nesta esquina. Ela m e descreveu com o ele era e achei que fosse o pai da j ovem senhora. Ele com eçou por andar ao redor, sem m e falar, nos dias em que chegava um envelope. Olhe, ele se escondia ali, atrás daquela banca de frutas! Depois saía andando atrás dela... Mas não adiantou. Ele acabou por vir falar com igo e m e ofereceu m il francos para que eu lhe desse o endereço da m ulher. Não quis acreditar que eu não a conhecia m ais do que ele. Parece que ela o fazia tom ar não sei quantos ônibus e m etrôs, para deixá-lo à porta de um prédio de duas saídas. Um suj eito estranho, aliás. Logo vi que não era o pai dela... Ele ainda tentou por m ais duas vezes. Achei que devia avisar m inha cliente e im agino que ela o fez andar alguns quilôm etros à toa, pois ele não apareceu m ais. Pois bem , sabe o que isso m e rendeu, em vez dos m il francos do suj eito? Um a nota de vinte francos! E ainda tive de provar que não tinha troco, caso contrário só receberia dez, e ela partiu resm ungando algum a coisa de descortês que não com preendi... Um a finória! Mas sovina!...

— Quando chegou a últim a carta?

— Há uns três m eses... O senhor deveria ficar um pouco m ais ao lado, senão os fregueses não veem os j ornais... É tudo o que queria saber? Adm ita que sou um cara legal e que não tentei enganá-lo.

Maigret lançou vinte francos no cestinho de m oedas, esboçou um a vaga despedida e foi em bora, com um ar pensativo. Ao passar diante da entrada do m etrô, fez um a careta de aversão ao pensar em Éléonore Boursang se afastando com um envelope contendo algum as notas de m il francos, após ter dado cinco francos ao velho Jacob, tom ando dez linhas de m etrô e de ônibus, tranquilam ente, e tendo ainda o cuidado de atravessar um prédio de duas saídas antes de voltar para casa.

Que relação isso podia ter com Ém ile Gallet retirando sua casaca e se obstinando em escalar um m uro de três m etros de altura? O Sr. Jacob, em quem Maigret pusera sua últim a esperança, se desvanecia. Não havia nenhum Sr. Jacob! Em vez dele, devia acreditar que um casal, Henry Gallet e Éléonore Boursang, surpreendera o segredo do pai e o chantageava? Éléonore e Henry que não o haviam m atado! Saint-Hilaire tam pouco o havia m atado, a despeito de suas contradições, do portão aberto e da chave que ele m esm o lançou no cam inho das urtigas e fez ser encontrada pelo j ardineiro, depois que o com issário lhe declarou que era preciso a todo custo encontrá-la.

O que não im pede que duas balas tenham sido disparadas na direção de Moers e que Ém ile Gallet, cuj a cunhada dizia que prej udicava a fam ília, tenha sido assassinado! Em Saint-Fargeau se consolavam falando m al dele, ressaltando a m ediocridade de sua personalidade e de sua vida, e considerando que sua m orte, em sum a, rendia trezentos m il francos!

Henry voltara naquela m esm a m anhã às suas aplicações financeiras no banco Sovrinos, fazendo valer seus cem m il francos de econom ias que haveriam de se tornar quinhentos m il, para lhe perm itir viver no cam po com Éléonore! Esta, enfim , que com toda a calm a trocava o envelope do vendedor de j ornais por um a m oeda de cinco francos, espiava, em Sancerre, as diligências de Maigret e vinha, com a fronte serena, o olhar puro, contar sua vida ao com issário! E Saint-Hilaire j ogava cartas na casa do tabelião! Ém ile Gallet era o único a não estar m ais presente! Estava solidam ente encerrado num caixão, com sua face destruída pela bala e triturada pelo m édico-legista dos sete convidados, com seu coração perfurado e seus olhos cinzentos cuj as pálpebras ninguém pensou em fechar!

— Últim a ala à esquerda, perto do m onum ento em m árm ore rosa do ex-prefeito, disse o guarda do cem itério.

E o agente funerário de Corbeil deve ter coçado a cabeça diante de um a encom enda que especificava: “Um a pedra m uito sim ples, sóbria de linhas, de bom gosto, não m uito cara m as distinta”. Maigret j á tinha visto coisas estranhas, m as fez um esforço para pensar que um a m ulher alta, de cabelos puxando para o ruivo, não era necessariam ente Éléonore Boursang e que, m esm o se fosse ela a cliente do Sr. Jacob, nada provava que Henry seria seu cúm plice.

— O m ais sim ples é m ostrar o retrato dela ao velho! Foi a razão pela qual decidiu ir até a Rue de Turenne, onde tinha quase a certeza de encontrar um a fotografia de Éléonore no seu apartam ento.

— A Sra. Boursang viaj ou. Mas o Sr. Henry está lá em cim a, disse a zeladora.

Anoitecia. Maigret subiu a escada estreita esbarrando nas paredes, abriu sem bater a porta que lhe haviam indicado. Henry Gallet, inclinado sobre a m esa, am arrava um pacote bastante volum oso. Ele levou um susto, m as logo recuperou o sangue-frio ao reconhecer o com issário. Mas não conseguiu dizer nada. Seus dentes deviam doer de tão cerrados que estavam . A m udança que ocorrera nele em um a sem ana era espantosa. Tinha as faces encovadas, as m açãs do rosto salientes e, sobretudo, um a tonalidade escura e doentia na pele.

— Parece que teve um a terrível crise de fígado na noite passada! Disse Maigret, com um a ferocidade não prem editada. — Afaste-se!...

O pacote tinha a form a de um a m áquina de escrever. O policial arrancou a em balagem , pegou um a folha em branco no bolso, datilografou algum as palavras ao acaso, retirou-a da m áquina e a pôs de volta no bolso. Por um instante o ruído da m áquina rom pera o silêncio no apartam ento onde panos cobriam os m óveis e onde, em função das férias, folhas de j ornal haviam sido coladas às vidraças. Apoiado a um a côm oda, Henry olhava para o chão, com os nervos tão tensos que era penoso de ver. Im placável, pesado, Maigret prosseguiu sua tarefa, abriu as gavetas, rem exeu o conteúdo delas. Acabou por achar um retrato de Éléonore. Então, prestes a partir, com o chapéu lançado para trás sobre a nuca e com a fotografia na m ão, ele se deteve por um m om ento diante do j ovem , exam inando-o dos pés à cabeça.

— Nada tem a m e dizer? Henry prim eiro engoliu a saliva, depois falou:

— Nada!

Maigret teve o cuidado de só chegar à Rue Clignancourt, onde o Sr. Jacob estava com o sem pre instalado diante de seus j ornais, um a hora m ais tarde. Ele queria m ais um a prova? Antes m esm o de se aproxim ar do velho, distinguiu o rosto longo e descolorido de Henry Gallet atrás da vidraça de um boteco. Um instante depois, o Sr. Jacob confirm ava:

— É exatam ente ela, não há dúvida. Ela foi pega!... Maigret foi em bora sem dizer nada, lançou um olhar irritado ao boteco. Poderia entrar ali, lançar Henry num a nova crise hepática sim plesm ente lhe pondo a m ão no om bro.

— Mas o fato é que eles não o m ataram !

Meia hora depois entrou no prédio onde trabalhava sem cum prim entar ninguém , encontrou em cim a da sua m esa um a carta do fiscal das contribuições indiretas de Nevers.

* * *