Maigret e o Finado Sr. Gallet
Onze
Um Negócio
QUANDO MAIGRET lhe virou as costas, Saint-Hilaire não forçou m ais a
expressão do rosto, no qual se podia ver um a curiosa m istura de angústia, ódio e, não obstante, um a certa segurança.
— O que está esperando?
Ele se decidiu a sair, pela j anela, foi até o portão do cam inho das urtigas, desapareceu no j ardim , tão lentam ente que o com issário, um pouco inquieto, fez um esforço para ouvir. Era o m om ento em que, do lado do rio, se via o halo lum inoso do terraço e ouse via o tinido de garfos e facas, j unto com o m urm úrio das vozes dos hóspedes do hotel. De repente, houve o ruído de galhos rem exidos no j ardim . Estava tão escuro que Maigret m al pôde ver a silhueta de Saint-Hilaire no alto do m uro. Mais um estalo de galhos e um cham ado, à m eia-voz:
— Quer pegá-lo?
O com issário ergueu os om bros e não se m exeu, de m odo que Saint-Hilaire precisou refazer o cam inho em sentido inverso. Quando entrou no quarto, ele com eçou por colocar um a arm a em cim a da m esa. Estava calm o. Tinha o torso aprum ado e tocou o braço de Maigret num gesto quase de desenvoltura, no qual havia, porém , um im perceptível acanham ento.
— O que diria de duzentos m il francos?... Precisou tossir. Gostaria de parecer um grande senhor, m uito tranquilo, m as não pôde evitar de corar e de ter a garganta obstruída. — Hum !... Quem sabe trezentos...
Mas quando Maigret o olhou, sem em oção, sem cólera, apenas com um pequeno traço de ironia entre suas espessas pálpebras, ele se desconcentrou, recuou, lançou ao redor um olhar circular, com o para se agarrar em algum a coisa. A transform ação foi rápida. Ele conseguiu apenas esboçar um sorriso vulgar que não im pediu o rosto de ficar verm elho, enquanto as pupilas brilhavam de ansiedade. O papel de grande senhor fracassara, e ele tentava um outro, m ais cínico, m ais prosaico.
— Tanto pior para o senhor!... Aliás, fui m uito ingênuo. O que poderá fazer?... Há prescrição!...
Aquilo soava igualm ente falso e, por contraste, Maigret nunca havia dado tam anha im pressão de força tranquila, confiante. Ele parecia enorm e. Quando passava debaixo da lâm pada suspensa ao teto, roçava-a com a cabeça e seus om bros eram suficientes para ocupar o retângulo da j anela, com o os senhores da Idade Média, com m angas bufantes, que tocam a m oldura dos quadros antigos. Continuava a pôr o quarto em ordem , lentam ente.
— Pois o senhor sabe que não m atei, não sabe? Inflam ou-se Saint-Hilaire. E tirou o lenço do bolso, se assoando ruidosam ente.
— Sente-se, disse Maigret.
— Prefiro ficar de pé.
— Sente-se!
Com o um garoto m edroso, obedeceu, no m om ento em que o com issário se voltava para ele. Tinha o olhar esquivo, o rosto desfeito de um hom em que se sente inferior e que procura se recom por.
— Suponho, com eçou Maigret, — Não ser necessário fazer vir o fiscal de Nevers para reconhecer seu velho com panheiro Ém ile Gallet, não é m esm o? Eu teria chegado à verdade sem ele. Teria dem orado um pouco m ais, só isso... Havia m uito eu sentia que algum a coisa não colava nessa história... Não tente entender!... Quando todos os indícios m ateriais contribuem para com plicar as coisas em vez de sim plificá-las, é que eles são falsos... E tudo, sem exceção, soava falso nesse caso... O tiro e a facada... O quarto j unto ao pátio e o m uro... A equim ose no punho esquerdo e a chave perdida... E m esm o os três culpados possíveis! Mas sobretudo Gallet, que soava falso tanto m orto quanto em vida! Se o fiscal não tivesse falado, eu estava disposto a rem ontar m ais longe no passado do m eu m orto. Teria chegado ao colégio, onde ficaria conhecendo a verdade. Aliás, você não deve ter ficado m uito tem po no colégio de Nantes...
— Dois anos! Fui expulso de lá!
— Claro! E j á j ogava futebol... E certam ente corria atrás das m ulheres!... Não sente pena? Olhe essa fotografia, olhe bem !... Na idade em que saltava o m uro do colégio para ir encontrar suas am iguinhas, esse pobre coitado j á sofria do fígado! Eu teria levado tem po a recolher provas. O que não im pede que eu soubesse o principal: o hom em que tinha necessidade im ediata de vinte m il francos só estava em Sancerre para lhe pedir esse dinheiro. E você o recebeu duas vezes! E à noite o observou por cim a do m uro... Suspeitava que ele ia se m atar, não é verdade? É possível até que ele lhe tenha anunciado isso...
— Não, m as m e pareceu febril. À tarde, falava com um a voz agitada que m e im pressionou.
— Você lhe recusou os vinte m il francos?
— Eu não podia fazer de outro m odo, pois era sem pre a m esm a coisa... No final, acho que tirei do m eu bolso...
— Foi em Saigon, quando trabalhava com o secretário, que soube que ele receberia um a herança?
— Sim . Um cliente estranho veio ver m eu patrão. Um velho m aníaco, que vivia no m eio do m ato havia m ais de vinte anos e só via um branco a cada três anos. Estava tom ado pela m alária e pelo abuso do ópio. Assisti à conversa. "Vou m orrer em breve", lem bro que ele falou. "E não sei sequer se ainda tenho fam ília em algum lugar. Talvez ainda reste um Saint-Hilaire, m as duvido; quando deixei a França, o últim o estava tão m al de saúde que j á deve ter falecido. Se ele tiver um descendente e se o senhor puder encontrá-lo, será m eu herdeiro universal.”.
— Quer dizer que j á então teve a ideia de ficar rico num a única tacada! Disse Maigret, pensativo.
E através do hom em de cinquenta anos, suado e pouco à vontade, que tinha à sua frente, ele acreditou ver o pândego sem escrúpulos que organizou um a cerim ônia grotesca para se apropriar de um a j ovem indígena.
— Continue!
— Acabei tendo de voltar à França, por causa das m ulheres. Abusei um pouco, lá. Havia m aridos, irm ãos e pais que queriam m e pegar... Tive a ideia de procurar um Saint-Hilaire. Não foi fácil, m as descobri a passagem de Tiburce pelo colégio de Bourges. Disseram -m e ignorar o que fora feito dele, m as eu soube que era um j ovem som brio, fechado, que nunca tivera am igos na escola...
— Claro, observou Maigret, — Ele não tinha um centavo no bolso, apenas a pensão paga até o final dos estudos.
— Minha ideia, naquele m om ento, era partilhar a herança por um m eio qualquer, eu ainda não sabia qual. Mas logo vi que seria m ais difícil partilhar do que pegar tudo. Levei três m eses até encontrá-lo, no Havre, onde tentava um em prego com o garçom ou com o intérprete a bordo de um navio. Não tinha m ais que dez ou doze francos no bolso. Ofereci-lhe algo para beber e tentei puxá-lo pela língua. Ele respondia apenas por m onossílabos. Havia sido preceptor num castelo, revisor num a tipografia de Rouen, em pregado de livraria... Já vestia um a casaca ridícula e usava um a barbicha um tanto rala, m eio ruiva. Arrisquei tudo ou nada. Contei-lhe que queria fazer fortuna na Am érica e que, lá, nada aj uda tanto um hom em , principalm ente j unto às m ulheres, quanto um título de nobreza. Paguei trinta m il francos pelo direito de m e cham ar Tiburce de Saint-Hilaire...
Maigret dirigiu um rápido olhar ao retrato, depois olhou seu interlocutor dos pés à cabeça, para enfim fixá-lo nos olhos, de tal m odo que este recom eçou a falar com um zelo exagerado.
— Não é o que um hom em de finanças faz ao com prar por duzentos francos títulos que sabe poder revender cinco vezes m ais caro um m ês depois?... Esperei a herança durante quatro anos! O velho louco, na sua floresta, não se decidia a m orrer. E era eu que, sem dinheiro, passava fom e. Tínham os m ais ou m enos a m esm a idade. Foi suficiente trocar nossos docum entos. O outro prom eteu nunca m ais pôr os pés em Nantes, onde poderia encontrar alguém que m e conhecesse. Quanto a m im , não precisei tom ar m uitas precauções. O verdadeiro Tiburce nunca tivera am igos. E na m aioria das vezes, nos seus em pregos, nem dava o verdadeiro nom e, que o prej udicava. Há algum em pregado de livraria que se cham e Tiburce de Saint-Hilaire?... Finalm ente li nos j ornais um a pequena nota anunciando a herança e pedindo aos interessados, se houvesse, para se apresentarem . E assim tive direito a receber 1,2 m ilhão de francos deixados pelo velho que vivia no m ato...
Ele retom ava a ousadia, encoraj ado pelo silêncio de Maigret, e por pouco não lhe dirigiu um olhar.
— Claro que Gallet, que nesse m eio-tem po havia se casado e não nadava em ouro, apareceu, m e fez reprovações com um ar som brio, por um m om ento achei até que ia m e m atar... Eu lhe dei dez m il francos e ele se conform ou. Mas seis m eses m ais tarde voltou. E o que é pior: am eaçava dizer a verdade. Tentei lhe dem onstrar que ele seria condenado tanto quanto eu. Além do m ais, ele tinha fam ília, um a fam ília da qual parecia ter m edo... Aos poucos foi baixando o tom . Envelhecia m uito depressa. Com sua casaca, sua barbicha, sua pele am arela e suas olheiras, m e causava dó. Sua atitude passou a ser a de um m endigo. Com eçava sem pre por m e pedir cinquenta m il francos, é a últim a vez, ele j urava! Depois ia em bora com um a ou duas notas de m il. Faça a conta dessas quantias pagas durante dezoito anos!... Repito-lhe que, se eu não tivesse m e m ostrado firm e, teria acabado sem dinheiro. E eu trabalhava, eu! Fazia aplicações. Transform ei em vinhedos todas as terras que vê j unto à propriedade. Ele dizia viaj ar para um a casa de com ércio, m as na realidade se lim itava a pedir dinheiro. Tom ou gosto por isso. Sob o nom e de Sr. Clém ent, com o sabe, ia procurar as pessoas... O que eu poderia ter feito, diga?
A voz se elevava. Maquinalm ente, ele se levantou.
— No sábado em questão, ele queria vinte m il francos na hora. Mesm o se eu estivesse disposto a dar, não poderia, pois o banco estava fechado. E, afinal, eu j á havia pago o bastante, não é verdade? Disse isso a ele, cham ei-o de degenerado... Ele voltou à carga pela tarde, com um ar tão hum ilde que fiquei enoj ado. Pois um hom em não deve se rebaixar a esse ponto. A vida é um j ogo, a gente ganha ou perde! Mas m esm o assim conserva a dignidade...
— Disse isso tam bém a ele? Interrom peu Maigret, com um a voz surpreendentem ente branda.
— Por que não diria? Esperava lhe dar um pouco de fibra... Propus-lhe quinhentos francos...
Apoiado à lareira, o com issário havia puxado para si o retrato do m orto.
— Quinhentos francos... Repetiu.
— Eu lhe m ostrarei o caderno onde anoto todos os m eus gastos e que lhe provará que, no final das contas, ele m e tirou m ais de duzentos m il francos... À noite, eu estava no j ardim ...
— Não m uito à vontade...
— Eu estava nervoso, nem sei por quê... Ouvi um ruído do lado do m uro. Depois o vi arranj ando algum a coisa na árvore. De início achei que estava querendo fazer algo de m au contra m im . Mas, assim com o veio, desapareceu... Subi num barril. Ele havia voltado ao quarto, onde estava de pé j unto à m esa, voltado para o m uro. Mas não podia m e ver... Não com preendi. Juro que nesse m om ento tive m edo... O tiro ressoou a dez m etros do lugar onde eu estava e Gallet não se m exeu. Mas vi que sua face direita estava averm elhada... Escorria sangue... Ele continuou de pé, sem pre a fixar o m esm o ponto, com o se esperasse algum a coisa...
Maigret pegou o revólver, em cim a da lareira. Um a corda de violão, revestida de m etal, com o as usadas às vezes para pescar, ainda estava presa nele. Sob o cano estava fixada solidam ente um a pequena caixa de alum ínio, ligada ao gatilho por um fio rígido. Maigret abriu a caixa com a ponta da unha, descobriu um m ecanism o idêntico ao que é com um se encontrar no com ércio e que perm ite fotografar a si m esm o. Basta com prim ir um a m ola, que se solta sozinha depois de alguns segundos. Mas, no caso, o m ovim ento era triplo e devia provocar três detonações.
— A m ola deve ter em perrado depois da prim eira bala, ele disse com um a voz lenta, um pouco abafada.
E as últim as palavras do seu interlocutor ainda ressoavam nos seus ouvidos: Mas a face direita estava averm elhada... Escorria sangue... Ele continuou de pé, sem pre a fixar o m esm o ponto, com o se esperasse algum a coisa... As duas outras balas, claro! Ele não havia confiado na precisão do tiro. Com três balas, teria a certeza de receber pelo m enos um a na cabeça! E as outras duas não partiram ! Então tirou a faca do bolso...
— Ele vacilou ao apoiar a lâm ina contra o peito... Caiu m uito rígido... Estava m orto, naturalm ente... E a prim eira coisa que pensei foi em vingança, que ele havia deixado papéis que revelavam a verdade, talvez até m e acusando de tê-lo m atado...
— Você é um hom em prudente e de sangue-frio! Foi buscar luvas de borracha na cozinha...
— Acha que eu iria deixar m inhas im pressões digitais no quarto?... Passei pelo portão, pus a chave no bolso... Minha visita foi inútil: ele m esm o havia queim ado todos os papéis... Fiquei com m edo... Seus olhos abertos m e im pressionavam ... Voltei para casa tão precipitadam ente que esqueci de fechar o portão à chave... O que teria feito em m eu lugar? A partir do m om ento em que ele estava m orto... Tive m ais m edo ainda no dia em que j ogava cartas na casa do tabelião e soube que o revólver havia disparado de novo... Fui exam iná-lo de perto. Não ousei tocar nele, pois, se viessem a suspeitar de m im , seria a prova da m inha inocência. É um revólver autom ático de seis balas. Com preendi que o m ecanism o, trancado com a detonação, voltara a funcionar por conta de influências atm osféricas, oito dias m ais tarde... Mas ainda podia haver três balas, não é m esm o?... Então passei a rondar no parque, a escutar... Ainda há pouco, quando estávam os os dois aqui, eu evitava m e colocar perto da m esa...
— Mas deixou que eu ficasse ali!... E foi você que lançou a chave no cam inho quando o am eacei com um a visita dom iciliar.
Tendo term inado de j antar, hóspedes passeavam de um lado a outro em frente do hotel e se ouviam os seus passos regulares. Da cozinha chegava um ruído interm itente de pratos sendo lavados.
— Com eti um erro em lhe oferecer dinheiro...
Por pouco Maigret não deu um a risada, e, se não tivesse se contido, certam ente teria sido um riso assustador. De pé diante do seu interlocutor, que m edia um a cabeça m enos e tinha os om bros duas vezes m ais estreitos, ele o olhava de um j eito ao m esm o tem po benévolo e feroz, balançando a m ão com o para pegá-lo de repente pelo pescoço ou para lhe esborrachar a cabeça contra a parede. No entanto, havia algo de lastim ável nesse falso Tiburce de Saint-Hilaire, na sua vontade de se j ustificar, de reconquistar a segurança. Um pequeno canalha, que não tivera a coragem de assum ir sua canalhice, que talvez nem tenha tido consciência total dela! E que fanfarroneava, ao m esm o tem po recuando vivam ente toda vez que Maigret fazia m enção de se m over. Se o com issário tivesse levantado a m ão, na certa ele teria caído de j oelhos!
— Vej a, se a m ulher dele precisar de algum a coisa, estou pronto, na m edida dos m eus recursos, discretam ente, a aj udá-la...
Ele sabia que havia prescrição. Mas m esm o assim não estava tranquilo. Teria dado um bom dinheiro em troca de um a palavra tranquilizadora do policial, que parecia brincar de gato e rato com ele!
— Ele m esm o providenciou isso...
— Sim , li nos j ornais, um seguro de trezentos m il francos!... É extraordinário... Maigret não pôde se conter.
— Extraordinário, não é?... Esse hom em que passou a infância sem dispor de um centavo para os m enores prazeres!... Você conhece os colégios. No de Bourges estudam os filhos da m aior parte dos grandes senhores do centro da França... Um belo nom e! Um nom e tão antigo e tão brilhante com o o dele, m as com o prenom e ridículo de Tiburce... E, se ele com e e tem direito às lições, não pode, no entanto, com prar um a barra de chocolate, ou bolas de gude... No recreio está sozinho num canto. Talvez até os auxiliares de internato, quase tão lastim áveis quanto ele, sintam dó. Ele sai de lá. Vende livros num a livraria. Arrasta sem esperança seu nom e interm inável, sua casaca, sua doença do fígado. Nada tem a colocar num a casa de penhores, m as possui esse nom e que alguém , um belo dia, se oferece para lhe com prar. É ainda a m iséria, agora sem o nom e. Mas com o nom e de Gallet ele alcança um grau m ais elevado: a m ediocridade... Com e e bebe com m ais fartura. Só que sua nova fam ília o trata com o a um cão sarnento. Tem um a m ulher, um filho. E a m ulher e o filho lhe censuram a incapacidade de se elevar, de ganhar dinheiro, de ser um conselheiro-geral com o o cunhado. O nom e que ele vendeu por trinta m il francos, de repente vale m ais de um m ilhão... A única coisa que teve... Justam ente aquela que lhe valeu m isérias e hum ilhações, e da qual se desem baraçou. E o ex-Gallet, um cara divertido, um pândego, lhe dá, de tem po em tem po, um a esm ola... Extraordinário, você disse!... Para ele nada deu certo. Passou a vida se consum indo. Ninguém , em m om ento algum , lhe estendeu a m ão. O filho se revoltou; partiu assim que pôde, para voar com as próprias asas, deixando o velho com sua m ediocridade. Som ente a m ulher se resignou! Não digo que o tenha aj udado, que o tenha consolado. Ela se resignou porque sentiu que nada havia a tirar dele. Um pobre hom em de regim e! E ele deixa para ela trezentos m il francos! Mais do que ela j am ais possuiu com ele! Trezentos m il francos que fazem suas irm ãs acorrerem , que lhe valem os sorrisos do conselheiro-geral. Há cinco anos ele vem se arrastando. As crises hepáticas se sucedem . Os legitim istas não lhe dão m uito m ais do que esm olas. Aqui ele consegue, de tem po em tem po, um a nota de m il. Mas um certo Sr. Jacob lhe arrebata o m elhor do que ele colhe dessa form a... Extraordinário, sim , Gallet-Saint-Hilaire! Pois, se deve conter seus pequenos gastos, ele paga um seguro de vida, m ais de vinte m il francos por ano. Pressente que chegará um m om ento em que o desânim o o subm ergirá, a m enos que o coração consinta em parar por si m esm o... Um pobre hom em , sozinho, que vai e vem e não está em casa em parte algum a, a não ser, talvez, quando pesca e quando não vê ninguém . Nasceu inoportunam ente, de um a fam ília decadente que, ainda por cim a, fez a loucura de destinar alguns m ilhares de francos para pagar seus estudos... Vendeu seu nom e inoportunam ente. E inoportunam ente trabalhou para o legitim ism o no m om ento em que este declinava. Casou-se inoportunam ente... Seu próprio filho tem a m entalidade das cunhadas e dos cunhados... Pessoas m orrem todos os dias, sem o desej arem , quando estão felizes e saudáveis, enquanto ele, inoportunam ente, não m orre! E o seguro não paga se houver suicídio. Sabe com o funcionam relógios, m ecanism os de m olas. E sabe que se aproxim a a hora em que não poderá ir m ais longe. Enfim o Sr. Jacob exige vinte m il francos! Ele não os tem e ninguém lhe dará. Carrega o seu m ecanism o no bolso. Por desencargo de consciência, bate à porta daquele que ganhou um m ilhão no seu lugar... Não tem esperança, no entanto vem até aqui. Pede um quarto voltado para o pátio, porque não confia no m ecanism o e prefere o procedim ento m ais sim ples do poço... Viveu um a vida grotesca, sem sorte. O quarto voltado para o pátio não está vago. Com isso ele terá ainda que escalar um m uro! E duas balas não partirão!... Você disse bem : A face direita estava averm elhada... Escorria sangue... Ele continuou de pé, sem pre a fixar o m esm o ponto, com o se esperasse algum a coisa... Ele não passou a existência a esperar algum a coisa?... Um pouco de sorte... Nem isso!... Um a dessas pequenas alegrias que passam pelas ruas e que as pessoas não percebem m ais!... Precisou ainda esperar as duas últim as balas, que não vieram . Foi obrigado a term inar ele próprio a tarefa...
O tubo do cachim bo que Maigret tinha entre os dentes se partiu; é que, ao parar de falar, ele contraíra de repente os m axilares. E seu interlocutor, com um olhar oblíquo e a voz difícil, m urm urou:
— O que não im pediu de ser um vigarista!
Maigret o olhou durante um m inuto pelo m enos, sem se m exer, de olhos brilhantes. Sua grossa m ão se levantou. Ele percebeu os nervos do proprietário do pequeno castelo tensos de angústia. Deixou a m ão suspensa, com o para gozar desse pânico, e enfim deu um tapa no om bro do hom em .
— Tem razão, era um vigarista!... Quanto a você, há prescrição, não é?
— O senhor deve conhecer a lei m elhor do que eu, m as m e parece que...
— Sim , sim , há prescrição! E a lei prevê que não há delito nem crim e quando um filho se apodera por m eios fraudulentos do bem do pai... De m odo que Henry Gallet, assim com o você, nada tem a tem er... Até agora ele j untou cem m il francos. Com os cinquenta da am ante, está com 150. E precisa de quinhentos para ir viver no cam po, com o os m édicos lhe aconselham ... Você disse bem , Sr. de Saint-Hilaire. Extraordinário!... Não há crim e, não há assassino nem culpado, ninguém a pôr na prisão. Ou m elhor, haveria apenas o m eu m orto, se ele não tivesse tido a boa ideia de se colocar ao abrigo da j ustiça sob um a pedra não m uito cara, m as de bom gosto, distinta, no cem itério de Saint-Fargeau. Dê-m e fogo!... Ah, não hesite em usar sua m ão esquerda, agora... E tam bém não há m ais razão para que se recuse o prazer de fundar um clube de futebol em Sancerre. Será o presidente de honra...
E bruscam ente, com o rosto m udado, articulou:
— Saia...
— Mas eu...
— Saia! Mais um a vez Saint-Hilaire ficou alguns instantes sem saber que atitude tom ar.
— Acho que o senhor exagera, com issário. E se...
— Não pela porta: pela j anela... Você conhece o cam inho, não é?... Tom e! Está esquecendo sua chave...
— Quando estiver m ais calm o, eu lhe...
— Isso m esm o! Você m e enviará um a caixa daquele vinho espum ante que m e fez degustar.
O outro não sabia se devia sorrir ou ter m edo. Viu a pesada silhueta de Maigret avançar em sua direção e recuou instintivam ente para a j anela.
— Não m e deu seu endereço.
— Enviarei num cartão-postal... Vam os, saia! Ainda continua ágil para a sua idade!...
Fechou brutalm ente a j anela e se viu sozinho no quarto que a lâm pada elétrica inundava de um a luz crua. A cam a continuava com o no dia em que Ém ile Gallet penetrara nessa peça. A casaca escura, tão durável no tem po, pendia frouxa na parede. Maigret pegou com nervosism o o retrato que estava sobre a lareira, enfiou-o num envelope am arelo com um tim bre da Identidade Judiciária e escreveu o endereço da Sra. Gallet.
Eram pouco m ais de dez da noite. Parisienses que chegavam de autom óvel faziam algazarra no terraço, onde haviam posto a funcionar um fonógrafo portátil. Eles queriam dançar, enquanto o Sr. Tardivon, dividido entre seu respeito pelo carro de luxo e as reclam ações dos hóspedes j á deitados, argum entava com eles, tentando fazê-los entrar num a das salas.
Maigret percorreu os corredores, atravessou o café onde um carroceiro j ogava bilhar com o professor m unicipal, chegou à rua no m om ento em que um casal, que dançava um foxtrote, parou de repente.
— O que ele disse?
— Que os hóspedes j á estão deitados. Ele quer que façam os m enos barulho... Viam -se os dois lam piões da ponte suspensa e às vezes um reflexo no rio.
— Não podem os dançar?
— Só lá dentro.
— Mas seria tão poético!
O Sr. Tardivon, que acom panhava com calm a essa conversa e olhava, suspirando, o carro desses hóspedes difíceis, avistou Maigret.
— Mandei preparar sua m esa no pequeno salão, com issário!... E então, novidades?
O fonógrafo continuava a tocar. No prim eiro andar, um a m ulher, vestindo um a cam isola com babados, olhava os intrusos e gritava ao m arido, que devia estar deitado:
— Vam os, desça! Faça-os se calarem ! A gente não consegue dorm ir!
Já um outro casal, o vendedor de um grande m agazine e um a datilógrafa, certam ente os defendia, com a esperança de fazer am izade com eles e de passar um a noite m enos banal que de costum e.
— Não vou j antar, anunciou Maigret. — Faria o favor de levar m inhas bagagens à estação?
— Para o trem das 23h32?... Está de partida?
— Estou.
— Mas... Leve algum a lem brança. Já tem o cartão-postal do hotel?
E o Sr. Tardivon tirou do bolso um cartão que j á devia ter m ais de dez anos, a j ulgar pela m á qualidade da reprodução e pelas m odas fem ininas. A im agem representava o Hotel de la Loire, com um a bandeira hasteada no prim eiro andar e o terraço repleto de clientes. Ele, de terno, sorria, de pé na entrada, enquanto as funcionárias, com pratos na m ão, haviam se im obilizado diante da obj etiva.
— Eu lhe agradeço.
Maigret pôs o cartão no bolso e se virou, por um instante, em direção ao cam inho das urtigas. No pequeno castelo, um a luz acabava de se acender, e Maigret im aginou que Tiburce de Saint-Hilaire, enquanto se despia, devia estar m urm urando frases com o estas, para recuperar seu equilíbrio:
“...Afinal, tem os que ser razoáveis... Em prim eiro lugar, há prescrição... Ele sentiu que eu conhecia o direito civil tanto quanto ele... Além do m ais, Gallet não passava de um vigarista... E o que foi que eu fiz?... Sim , do que podem m e censurar?”
Mas será que ele não olhava com um certo pavor os cantos escuros da peça?
Em Saint-Fargeau, a luz devia estar se apagando no quarto onde a Sra. Gallet, tendo soltado os cabelos, esquecia as preocupações com sua dignidade e apalpava o lugar vazio nos lençóis ao lado, talvez soluçando docem ente, antes de adorm ecer. Para consolá-la, não havia as irm ãs, os cunhados, um dos quais era conselheiro-geral, e que a acolhiam de novo no reconfortante círculo fam iliar?
Maigret apertou frouxam ente a m ão de um Sr. Tardivon distraído, que seguia com os olhos os parisienses dispostos a j antar e a dançar no interior do hotel. A ponte suspensa, deserta, ressoou sob seus passos. Mal se ouvia, em volta dos bancos de areia, um m urm úrio de água corrente. Então ele se pôs a im aginar, num cenário parecido, um Henry alguns anos m ais velho, com a tez m ais am arelada, a boca m ais larga e m ais estreita, em com panhia de um a Éléonore cuj os traços se endureceriam com a idade e cuj a im agem se tornaria im perceptivelm ente ridícula. E eles discutiriam ! A respeito de tudo e de nada! Sobretudo a propósito dos quinhentos m il francos deles! Pois estes os teriam vencido!...
— Diga o que quiser, m as seu pai era um ...
— Proíbo-a de falar do m eu pai... O que era você, você, quando a conheci?
— O que não quer dizer que você soubesse m uito bem ...
Ele dorm iu até Paris um sono pesado, repleto de figuras indistintas, de um bulício enj oativo. Na hora de pagar um café que bebeu no bar da estação de Ly on, tirou do bolso o cartão-postal do Hotel de la Loire. Ao lado dele, um a costureirinha com ia um croissant que m olhava num a xícara de chocolate. Ele deixou o cartão em cim a do balcão. Ao sair do bar, se virou e viu a m oça olhando sonhadoram ente para a extrem idade da ponte suspensa e para algum as árvores que em olduravam o hotel do Sr. Tardivon. “Talvez ela vá se hospedar lá”, ele im aginou. E Saint-Hilaire, com seu traj e de caça esverdeado, a convidaria a beber um vinho espum ante de sua propriedade!...
— Parece estar voltando de um enterro! Observou a Sra. Maigret quando ele chegou à sua casa no Boulevard Richard-Lenoir. — Jantou, pelo m enos?
— Tem razão... Ele articulou para si m esm o, olhando com prazer o cenário fam iliar. — Agora que ele está enterrado...
E acrescentou sem que ela pudesse com preender:
— Mas eu preferia m e ocupar de um verdadeiro m orto, que um verdadeiro assassino tivesse m atado... Acorde-m e às onze da m anhã. Preciso fazer m eu relatório ao chefe.
Ele não confessou que não tinha a intenção de dorm ir, preocupado com o que dizer nesse relatório. A verdade pura e sim ples, que arrebataria da Sra. Gallet os trezentos m il francos do seguro? Que a faria se insurgir contra o filho, contra Éléonore, contra Tiburce de Saint-Hilaire, e colocaria de novo as irm ãs e os cunhados contra ela? Toda um a desordem de interesses, de ódios, de processos sem fim ... Talvez até um j uiz escrupuloso m andaria exum ar para um novo exam e! Ém ile Gallet do seu túm ulo!... Maigret não tinha m ais o retrato do seu m orto, m as não havia m ais necessidade daquela im agem . ...A face direita estava averm elhada... Escorria sangue... Ele continuou de pé, sem pre a fixar o m esm o ponto, com o se esperasse algum a coisa...
— A paz, é claro! É isso que ele esperava! Resm ungou Maigret, se levantando bem antes da hora fixada.
E, com os om bros m eio inclinados, disse ao chefe, um pouco m ais tarde:
— Sem solução!... Só resta arquivar esse m aldito caso insignificante. No entanto, calculou: — O m édico afirm a que ele não teria vivido m ais que três anos. Digam os que a seguradora perde uns sessenta m il francos... E o capital dela é de noventa m ilhões...
Fim
Você terminou Maigret e o Finado Sr. Gallet
Georges Simenon