Maigret e o Finado Sr. Gallet
Um
Um Trabalho Aborrecido
OPRIMEIRO contato entre o com issário Maigret e o m orto, com quem ele iria
viver durante sem anas na m ais desalentadora das intim idades, se deu em 27 de j unho de 1930, em circunstâncias ao m esm o tem po banais, penosas e inesquecíveis. Inesquecíveis porque havia um a sem ana que a Polícia Judiciária recebia notificações, um a atrás da outra, anunciando a passagem por Paris do Rei da Espanha no dia 27 e lem brando as m edidas a tom ar em sem elhante caso. Só que o diretor da P.J. estava em Praga, onde assistia a um congresso de polícia científica. E o subdiretor fora cham ado à sua casa de praia na costa norm anda por causa da doença de um de seus garotos.
Maigret era o m ais antigo dos com issários e devia se ocupar de tudo, num período de calor sufocante, com efetivos que as férias reduziam ao estritam ente necessário. Foi ainda em 27 de j unho, logo ao am anhecer, que descobriram , na Rue Picpus, a dona de um a loj a de aviam entos assassinada. E, às nove da m anhã desse dia, todos os inspetores disponíveis haviam partido para a Gare du Bois-de-Boulogne, onde era esperado o soberano espanhol.
Mandara abrir portas e j anelas, e, sob a ação das correntes de ar, as portas batiam , os papéis voavam das m esas. Alguns m inutos depois das nove, chegava um telegram a de Nevers:
Émile Gallet, caixeiro-viajante, domiciliado em Saint-Fargeau, Seine-et-Marne, assassinado noite de 25 a 26, Hotel de la Loire, Sancerre. Muitos detalhes estranhos. Favor avisar família para reconhecimento cadáver. Se possível enviar inspetor de Paris.
Maigret não teve outro recurso senão ir ele m esm o a Saint-Fargeau, cuj a existência, a 35 quilôm etros da capital, ele sequer conhecia um a hora antes. Ignorava o horário dos trens. Quando chegou à Gare de Ly on, lhe disseram que um trem partia naquele instante e ele se pôs a correr, m al teve tem po de se lançar no últim o vagão. Foi o suficiente para deixá-lo banhado de suor. Passou o resto da viagem recuperando o fôlego e se enxugando, pois era corpulento.
Em Saint-Fargeau, foi o único passageiro a descer e ficou vagando por vários m inutos na plataform a descoberta até localizar um funcionário.
— O Sr. Gallet?... No final da aleia central do loteam ento. Há um a placa na casa, e está escrito Les Marguerites. Aliás, é a única construção m ais ou m enos term inada...
Maigret retirou o casaco e pôs um lenço sob o chapéu a fim de proteger a nuca, pois a aleia em questão era extensa e não havia a m enor m ancha de som bra. O sol era de um a triste cor de cobre, e as m oscas atacavam com fúria, anunciando um a tem pestade. Nem um a única alm a para anim ar o cenário e dar inform ações ao viaj ante.
O loteam ento não era m ais que um vasto bosque que devia ter pertencido a um dom ínio senhorial. Lim itaram -se a traçar um a rede de aleias geom étricas, com o a golpes de m áquina de cortar cabelo, e de cabos de eletricidade que levariam luz às futuras casas. Em frente à estação ferroviária, porém , um a pracinha fora m ontada com fonte de m osaico e chafariz. Num barraco de m adeira, se lia: ESCRITÓRIO DE VENDA DE TERRENOS. Ao lado figurava um m apa onde essas aleias desertas j á tinham nom es de políticos e de generais.
A cada cinquenta m etros, Maigret retirava o lenço para enxugar o suor e o recolocava sobre a nuca, que com eçava a arder. Ele via aqui e ali em briões de construção, trechos de parede que os pedreiros decerto tinham abandonado por causa do calor. A dois quilôm etros da estação, m ais ou m enos, encontrou Les Marguerites, um a casa de estilo vagam ente inglês, com telhas verm elhas, arquitetura com plicada, um m uro rústico separando o j ardim do que continuava sendo o bosque. Pelas aberturas do prim eiro andar, avistou um leito com um colchão dobrado em dois. As cobertas eram arej adas sobre o apoio da j anela. Tocou a cam painha. Um a em pregada de uns trinta anos, m eio estrábica, olhou-o prim eiro através de um postigo e, enquanto se decidia a abrir a porta, Maigret vestiu o casaco.
— A Sra. Gallet, por favor.
— Da parte de quem ? Mas j á um a voz, no interior, interrogava:
— Quem é, Eugénie? E a Sra. Gallet foi até a entrada, esperando, de queixo erguido, as explicações do intruso. — Deixou cair algum a coisa! Ela observou sem am abilidade, enquanto ele retirava o chapéu e se esquecia do lenço, que caiu no chão. Juntou-o e, resm ungando sílabas ininteligíveis, se apresentou.
— Com issário Maigret, da prim eira Brigada Móvel. Gostaria de conversar um instante com a senhora...
— Com igo? E, se virando para a em pregada: — E você, o que está esperando?
Maigret observava agora a Sra. Gallet. Era um a m ulher de uns cinquenta anos, francam ente desagradável. Apesar da hora, do calor, da solidão da casa de cam po, j á estava arm ada de um vestido de seda m alva, e nenhum de seus cabelos grisalhos saía de um rígido alinham ento. No pescoço, sobre o vestido e nos punhos, tilintavam correntes de ouro, broches e braceletes. A contragosto, ela precedeu o visitante até a sala. Ao passar diante de um a porta entreaberta, Maigret m ergulhou o olhar num a cozinha branca onde cintilavam obj etos de cobre e de alum ínio.
— Posso com eçar a encerar, m adam e?
— Naturalm ente. Por que não?
A dom éstica desapareceu na copa vizinha e logo se ouviu que esfregava a cera no soalho, aj oelhada, enquanto um forte cheiro de terebintina se espalhava pela casa. Todos os m óveis da sala eram ornados de enfeites. Na parede havia o retrato am pliado de um garoto esguio, m agro, com j oelhos salientes, rosto antipático, em traj e de prim eira com unhão. Sobre o piano, um a fotografia m enor m ostrava um hom em de cabelos abundantes, barbicha grisalha, vestindo um a casaca m al cortada nos om bros. A form a do rosto era tão alongada quanto a do garoto. Um outro detalhe chocava, e Maigret levou alguns instantes para com preender que eram os lábios, de um a estreiteza anorm al e quase dividindo o rosto em duas partes.
— Seu m arido?
— Sim , m eu m arido! Estou esperando para saber o que a polícia vem fazer aqui...
Durante a conversa que se seguiu, Maigret voltaria várias vezes a olhar essa fotografia, e foi esse, propriam ente falando, seu prim eiro contato com o m orto.
— Tenho um a m á notícia a lhe anunciar, senhora... Seu m arido está em viagem , não está?
— Vam os, fale!... Será que...?
— Sim , aconteceu um acidente... Não exatam ente um acidente. Peço-lhe para ser forte...
Ela se m antinha rígida diante dele, com a m ão pousada num a m esinha de centro ornada com um falso bronze. O rosto era duro, desconfiado, e som ente os dedos rechonchudos se agitavam . Por que ocorreu a Maigret que ela certam ente fora m agra, talvez até bastante m agra, durante a prim eira m etade da vida, e que engordara com a idade?
— Seu m arido foi assassinado em Sancerre, na noite de 25 para 26. Coube a m im a penosa tarefa de...
O com issário se virou para o retrato e interrogou, apontando o garoto da prim eira com unhão:
— Vocês têm um filho?
Por um instante a Sra. Gallet pareceu a ponto de perder a rigidez que j ulgava indispensável à sua dignidade. Disse com a ponta dos lábios:
— Um filho, sim ... E em seguida, com a voz triunfante: — O senhor disse Sancerre, não foi?... E estam os no dia 27... Nesse caso, com eteu um erro... Espere...
Foi até a copa onde Maigret avistou a em pregada encerando o chão. Quando voltou, estendeu um cartão-postal ao visitante.
— Esse cartão é do m eu m arido. Traz a data de 26, ou sej a, ontem , e o carim bo da agência de Rouen... Ela m al conseguia conter um sorriso de alegria por poder hum ilhar o policial que se perm itira entrar em sua casa. — Certam ente se trata de um outro Gallet, em bora eu não o conheça.
Mais um pouco e teria aberto a porta, que ela não pôde deixar de olhar.
— O nom e do seu m arido é Ém ile? E seus docum entos de identidade dão sua profissão com o caixeiro-viaj ante?
— Ele é o representante da casa Niel et Cie. para toda a Norm andia!
— Receio, senhora, que se alegre sem razão. Sou obrigado a lhe pedir que m e acom panhe a Sancerre. Tanto para a senhora quanto para m im ...
— Mas se...
Ela sacudiu o cartão, com um a foto do velho m ercado de Rouen. A porta da copa não fora fechada e ora se viam o traseiro e os pés da em pregada, ora a cabeça e os cabelos que ocultavam o rosto. Ouse via o esfregar do pano com cera nas tábuas do soalho.
— Acredite que eu gostaria sinceram ente que tivesse havido um erro. Mas os docum entos encontrados nos bolsos do m orto são os do seu m arido...
— Podem ter sido roubados...
A inquietação, porém , com eçava a transparecer na voz, contra a vontade dela. Seguindo o olhar que Maigret lançou ao retrato, ela observou:
— Esta foto foi tirada quando ele j á estava de regim e...
— Se quiser alm oçar, disse o com issário, — Voltarei para lhe buscar dentro de um a hora, quem sabe.
— De m odo algum . Se achar que... Que é necessário... Eugénie!... Meu casaco preto de seda, m inha bolsa e m inhas luvas...
Maigret não sentia o m enor interesse pelo caso, que tinha todas as características de um caso desagradável. E era sem querer que conservava na m em ória a im agem do hom em de barbicha que estava de regim e! E do garoto em traj e de prim eira com unhão.
Tudo o que ele fez a seguir tinha o aspecto de um trabalho aborrecido. Tornar a descer, num a atm osfera cada vez m ais sufocante, a aleia central do loteam ento, sem poder tirar, desta vez, o casaco. Esperar 35 m inutos num banco da estação de Melun, onde com prou um cesto contendo sanduíches, frutas e um a garrafa de Bordeaux.
Às três da tarde, estava instalado, em frente à Sra. Gallet, num com partim ento de trem de prim eira classe que faz a linha de Moulins e passa em Sancerre. As cortinas estavam fechadas, os vidros abaixados, e só de tem po em tem po se recebia um pequeno sopro de ar fresco. Maigret havia tirado o cachim bo do bolso, m as, tendo olhado sua com panheira, abandonara a ideia de fum ar na sua presença. O trem rodava havia cerca de um a hora quando ela perguntou, com um a voz finalm ente m ais hum ana:
— Com o o senhor explicaria isso?
— Até o m om ento nada posso explicar, senhora. Não sei nada. Com o eu lhe disse, o crim e foi com etido na noite de 25 para 26, no Hotel de la Loire. Estam os em período de férias... Além do m ais, as delegacias de província nem sem pre são ágeis. A Polícia Judiciária só foi avisada hoj e de m anhã. Seu m arido costum ava enviar cartões-postais?
— Sem pre que estava ausente.
— Ele viaj ava m uito?
— Mais ou m enos três vezes por m ês. Ia a Rouen, onde ficava no Hotel de la Poste... Isso tem m ais de vinte anos!... A partir dali percorria toda a Norm andia, m as dava um j eito de voltar a Rouen à noite.
— Vocês só têm um filho?
— Um filho, sim . Ele trabalha num banco, em Paris.
— Não m ora com vocês em Saint-Fargeau?
— É m uito longe para ir e voltar todo dia. Ele passa os dom ingos conosco...
— Posso lhe oferecer algum a coisa para com er?
— Obrigada! Ela falou, no m esm o tom com que teria escusado um a im pertinência.
E, de fato, ele não conseguia im aginá-la com endo um sanduíche ou bebendo vinho m orno num copo de papel da com panhia ferroviária. Se via que para ela a dignidade não era um a palavra vã. Nunca devia ter sido bonita, m as tinha as feições regulares e, m enos rígida, teria um certo encanto, graças a algo de m elancólico na fisionom ia que sua m aneira de inclinar a cabeça para o lado sublinhava.
— Por que teriam m atado m eu m arido?
— Sabe se ele tinha algum inim igo?
— Nem inim igo, nem am igo! Vivem os isolados, com o todos os que conheceram um a outra época, diferente da época brutal e vulgar do pós-guerra...
— Ah!...
A viagem não term inava. Maigret foi várias vezes até o corredor para dar algum as tragadas no cachim bo. Seu falso colarinho am olecera sob a ação do calor e da transpiração abundante. Ele invej ava a Sra. Gallet que sequer percebia os 33 ou 34 graus à som bra e que m antinha exatam ente a m esm a pose que adotara na partida, com o para um deslocam ento em ônibus urbano, com a bolsa sobre os j oelhos, as m ãos sobre a bolsa, a cabeça um pouco inclinada para a porta do com partim ento.
— De que m aneira esse... Esse hom em foi m orto?
— O telegram a não diz. Julgo que o encontraram m orto pela m anhã. A Sra. Gallet teve um estrem ecim ento, por um instante ficou com a boca entreaberta, a buscar a respiração.
— É im possível que sej a o m eu m arido... Esse cartão é um a prova, não é? Eu nem devia ter m e perturbado...
Sem saber exatam ente por que, Maigret lam entou não ter trazido a fotografia sobre o piano, pois j á sentia dificuldade de reconstituir a parte de cim a do rosto. Contudo, recordava com clareza a boca m uito larga, a barbicha abundante, os om bros m al aj ustados na casaca.
Eram sete da noite quando o trem parou na estação Tracy -Sancerre, e foi preciso ainda percorrer um quilôm etro pela estrada e atravessar a ponte suspensa que liga as duas m argens do Loire. Este não oferecia o espetáculo m aj estoso de um rio, m as sim de um a infinidade de cursos d’água escoando entre bancos de areia cor de trigo m aduro. Num a dessas ilhotas, um a figura vestindo um a roupa am arela pescava com linha e anzol. Podia se avistar tam bém o Hotel de la Loire, cuj a fachada se erguia ao longo do cais. Os raios do sol estavam m ais oblíquos, m as o ar, carregado de um idade, continuava irrespirável.
Agora era a Sra. Gallet que conduzia a m archa, e, ao ver nas proxim idades do hotel um hom em que andava de lá para cá e que devia ser um colega, Maigret contraiu o rosto à ideia de que o casal que ele form ava com sua com panheira era de um ridículo total. Pessoas de férias, sobretudo fam ílias, vestindo roupas claras, se punham à m esa num a sala de parede envidraçada onde circulavam atendentes de avental e gorro brancos. A Sra. Gallet viu o letreiro do nom e do hotel, cercado de brasões de vários clubes. Ela m archou diretam ente até a porta.
— Polícia Judiciária? Interrogou o hom em que andava de lá para cá, detendo Maigret.
— Pois não?
— O corpo foi transportado para a prefeitura. Apressem -se, pois a autópsia será às oito. Estão em cim a da hora.
Hora de conhecer o m orto! Nessa hora, Maigret sem pre se arrastava, com o um hom em que cum pre um a tarefa penosa e sem atrativo. Ele teve a ocasião, m ais tarde, de rem em orar em detalhes essa segunda, e necessariam ente últim a, entrada em contato com o m orto.
O vilarej o era de um branco áspero na luz tem pestuosa daquele fim de tarde. Galinhas e gansos atravessavam a estrada principal, e, num a oficina j á coberta de som bra, dois hom ens de avental azul ferravam um cavalo. Em frente à prefeitura, havia pessoas à m esa no terraço de um café sob a som bra de toldos listados de verm elho e am arelo, num am biente de cervej a fresca, de aperitivos com pedaços de gelo flutuando, de j ornais chegados de Paris. Três carros estavam estacionados j unto à praça. Um a enferm eira se dirigia à farm ácia. Na prefeitura, um a m ulher lavava com água de balde o corredor de laj otas cinza.
— Por favor... O corpo?
— Nos fundos! No alpendre da escola... Já há uns senhores lá. Pode passar por aqui.
Ela apontou um a porta acim a da qual estava escrita a palavra Meninas, enquanto a palavra Rapazes figurava na outra ala do prédio. A Sra. Gallet ia na frente com um a segurança inesperada. Mas Maigret j ulgou adivinhar que era antes um a espécie de vertigem que a im pelia. No pátio da escola, um m édico de avental branco fum ava um cigarro e ia de um lado a outro com o um hom em que espera algum a coisa. Às vezes esfregava, um a na outra, m ãos m uito delicadas. Duas outras figuras conversavam à m eia-voz, perto de um a m esa onde um corpo estava estendido sob um lençol.
O com issário tentou frear a m archa im petuosa da sua com panheira, m as não teve tem po de intervir. Ela j á chegava ao alpendre e se detinha diante da m esa. Retendo a respiração, ergueu de repente o lençol à altura do rosto. Não em itiu nenhum grito. Os dois hom ens que conversavam se viraram para ela, com espanto. O doutor, que havia posto luvas de borracha, cham ou diante de um a porta:
— A Srta. Angèle ainda não voltou?
Enquanto ele retirava um a das luvas para acender m ais um cigarro, a Sra. Gallet perm anecia im óvel, rígida, e Maigret se m antinha pronto para aj udá-la. Ela se virou bruscam ente para ele, com o rosto cheio de ódio, e falou:
— Com o é possível?... Quem fez isso?...
— Venha, senhora... É realm ente ele, não é? Com os olhos agora inquietos, ela olhava os dois hom ens, o m édico de branco, a enferm eira que chegava da farm ácia.
— O que vão fazer? Articulou com um a voz m ais rouca. E com o Maigret, constrangido, hesitasse em responder, ela se lançou enfim sobre o corpo do m arido e, dirigindo aos que estavam ali um olhar de cólera, de desafio, gritou:
— Não quero!... Não quero!...
Precisou ser levada à força e confiada à zeladora da prefeitura, que abandonou seus baldes de água. Quando Maigret voltou ao alpendre, o m édico tinha um bisturi na m ão, um a m áscara no rosto e a enferm eira lhe estendia um frasco de vidro fosco. O com issário, sem querer, esbarrou com o pé num chapéu de seda preto, ornado de um nó m alva e um prendedor em falso brilhante. Ele não assistiu à autópsia. O crepúsculo estava próxim o, e o m édico havia declarado:
— Espero sete pessoas para j antar em Nevers...
Os dois hom ens eram o j uiz de instrução e seu escrivão. O j uiz, após apertar a m ão do com issário, se lim itou a pronunciar:
— O senhor verá a polícia local que com eçou o inquérito! É um caso m uito com plicado.
O cadáver estava nu sob o lençol retirado. E o triste confronto durou apenas alguns segundos. O corpo era exatam ente o que se podia im aginar pela fotografia: esguio, ossudo, com um peito afundado de burocrata, um a pele pálida que fazia os pelos parecerem m uito escuros, em bora os do peito fossem ruivos. Apenas um a m etade do rosto estava intacta: a bochecha esquerda fora arrancada pelo tiro. Os olhos estavam abertos. As pupilas, cinzentas, pareciam apenas um pouco m ais sem brilho do que no retrato. Ele estava de regim e... Dissera a Sra. Gallet. Sob o m am ilo esquerdo, enfim , um ferim ento nítido, regular, causado por um a lâm ina. Atrás de Maigret, o doutor estava im paciente:
— É ao senhor que devo entregar m eu relatório? Em qual endereço?
— No Hotel de la Loire.
O j uiz e o escrivão olhavam para outro lado e não diziam nada. Ao sair, Maigret se enganou de porta e se viu entre os bancos de um a das classes da escola. Com o ali parecia m ais fresco, o com issário ficou por um m om ento diante das gravuras que representavam “a colheita”, “um a fazenda no inverno” e “um dia de m ercado na cidade”. Num a prateleira estavam dispostas, em m adeira, estanho e ferro, todas as m edidas de peso e de capacidade, por ordem de tam anho. O com issário enxugou o suor. Ao cruzar a porta, encontrou o inspetor de polícia de Nevers, que o procurava.
— Ah! Aí está o senhor! Vou poder enfim m e reunir à m inha m ulher em Grenoble... Im agine que ontem de m anhã, quando nos telefonaram , eu partia de férias.
— Descobriu algum a coisa?
— Absolutam ente nada! O senhor verá que é um caso inverossím il... Se quiser, podem os j antar j untos e lhe darei detalhes, se é que posso cham ar isso de detalhes... Não roubaram nada! Ninguém viu nem ouviu nada! Só alguém m uito astuto seria capaz de dizer por que esse suj eito foi m orto... Um a única particularidade, m as que certam ente não levará m uito longe: quando ele se hospedava no Hotel de la Loire, o que fazia de tem po em tem po, era sob o nom e de Sr. Clém ent, investidor em Orléans.
— Vam os tom ar um aperitivo, propôs Maigret. Ele se lem brou da atm osfera tentadora do terraço, que havia pouco lhe aparecera com o um refúgio sonhado. Contudo, quando se viu diante de um a cervej a m uito gelada, não sentiu a satisfação esperada.
— É o inquérito m ais decepcionante que se possa im aginar, suspirou seu com panheiro. — O senhor verá! Nada a que se prender! E nada tam pouco que saia do com um , a não ser que esse hom em foi assassinado...
Por alguns m inutos ele continuou nesse tom , sem perceber que o com issário m al o escutava. Há pessoas que se vê som ente um a vez na rua e cuj a fisionom ia, no entanto, não se pode esquecer. De Ém ile Gallet, Maigret vira apenas um a fotografia, a m etade do rosto e o corpo esbranquiçado. Mas era essa fotografia que m ais ocupava seu espírito. E ele tentava, j ustam ente, anim á-la, im aginar o Sr. Gallet frente a frente com sua m ulher, na copa de Saint-Fargeau, ou então saindo da casa para tom ar o trem na estação. Por relâm pagos, o alto do rosto ficava m ais nítido. Maigret acreditou lem brar que havia m anchas escuras sob os olhos.
— Aposto que é um a doença do fígado! Disse, à m eia-voz.
— Em todo caso, não foi de um a doença do fígado que ele m orreu, respondeu, irônico, o inspetor de Nevers. — Um a doença do fígado não arranca a m etade do rosto e não perfura o coração.
As lâm padas de um tiro ao alvo de feira se acenderam no m eio da praça, onde um carrossel de cavalos de m adeira estava desm ontado.
* * *