Maigret e o Finado Sr. Gallet
Cinco
Os Amantes Parcimoniosos
OGENDARME da delegacia deve ter feito, naquela m anhã, um a im agem
interessante da tarefa que cabe a um policial. Ele havia levantado às quatro da m adrugada e j á percorrera uns trinta quilôm etros de bicicleta, prim eiro no friozinho do am anhecer, depois sob um sol cada vez m ais abrasador, quando chegou ao Hotel de la Loire para a verificação periódica do registro dos hóspedes. Eram dez horas. A m aioria dos hóspedes passeava à beira d’água ou tom ava banho no rio. Dois ou três negociantes de cavalos conversavam no terraço, e o dono do hotel, com um guardanapo na m ão, reordenava a posição das m esas e dos vasos de louro.
— Não vai dar um bom -dia ao com issário? Perguntou-lhe o Sr. Tardivon. E, m ais baixo, num tom confidencial: — Ele está j ustam ente no quarto do crim e! Recebeu um m onte de docum entos e tam bém fotografias vindas de Paris. E assim , pouco depois, o gendarm e batia à porta, se desculpando:
— Foi o patrão que m e sugeriu, com issário... Quando ele m e disse que o senhor fazia o exam e do local, fiquei interessado. Sei que em prega m étodos especiais em Paris, e, se isso não lhe perturbar, eu ficaria m uito contente de tom ar um a lição vendo com o procede...
Era um bom rapaz cuj o rosto redondo e rosado refletia o desej o ingênuo de agradar. Ele se fazia tão hum ilde quanto possível, o que não era fácil com seus sapatos ferrados, suas polainas e o quepe que não sabia onde pôr. A j anela estava am plam ente aberta; o sol da m anhã caía em cheio no cam inho das urtigas, de m odo que à contraluz o quarto estava quase obscuro. E Maigret, em m angas de cam isa, cachim bo nos dentes, colarinho desabotoado e nó da gravata afrouxado, transm itia um a im pressão de bem -estar que deve ter im pressionado o gendarm e.
— Sente-se aí, por favor!... Mas saiba que não há nada de interessante a ver...
— O senhor é m uito m odesto, com issário...
Era tão ingênuo que Maigret desviou a cabeça para ocultar um sorriso. Ele havia trazido para o quarto tudo o que tinha a ver com o caso. Depois de se certificar de que a m esa, coberta por um a toalha de algodão da Índia com ram agens averm elhadas, nada podia lhe revelar, havia colocado ali suas pastas, desde o relatório do m édico-legista até as fotos do local e da vítim a que a Identidade Judiciária lhe enviara naquela m esm a m anhã. Enfim , cedendo a um sentim ento m ais supersticioso do que científico, pusera a fotografia de Ém ile Gallet sobre a lareira de m árm ore preto ornada por um castiçal de cobre. No chão não havia tapete. O piso, em m adeira de carvalho, era envernizado, e os prim eiros investigadores haviam desenhado a giz o contorno do corpo tal com o fora encontrado. No lado de fora, na vegetação, se elevava um m urm úrio confuso, intensam ente anim ado, feito de cantos de pássaros, farfalhar de folhagem , zum bido de insetos e cacarej ar distante de galinhas na estrada, tudo escandido pelos golpes espaçados do m artelo na bigorna do ferreiro. Vozes m isturadas chegavam às vezes do terraço, ou então ouse via a passagem de um veículo na ponte suspensa.
— Docum entos é o que não lhe falta! Eu nunca teria im aginado...
Mas o com issário não escutava. Sossegado, tirando pequenas baforadas do cachim bo, estendia no chão, no lugar onde foram encontradas as pernas do cadáver, um a calça de tecido escuro, tecido tão com pacto que, tendo sido usado na certa por uns dez anos, a j ulgar por seu lustro, ainda poderia servir por outros dez. Maigret dispôs do m esm o m odo um a cam isa em percal e, no seu lugar costum eiro, um peitilho engom ado. Mas o conj unto só adquiriu form a e se tornou ao m esm o tem po bizarro e em ocionante quando, na extrem idade das pernas da calça, colocou um par de sapatos com sola de borracha. Aquilo não se parecia com um corpo, não! Era antes sua representação caricatural, tão inesperada que o gendarm e lançou um olhar ao com issário e deixou escapar um pequeno riso contido. Maigret não ria. Pesado e obstinado, ia e vinha lentam ente, conscienciosam ente. Exam inou a casaca, colocou-a de volta no cabide após constatar que não estava furada no lugar onde a punhalada fora desferida. O colete, este rasgado na altura do bolso esquerdo, tom ou seu lugar sobre o peitilho.
— Era assim que ele devia estar vestido, disse à m eia-voz.
Consultou um a foto da Identidade Judiciária, corrigiu sua obra acrescentando a seu m anequim inconsistente um falso colarinho m uito alto, em celuloide, e um a gravata-borboleta de cetim preto.
— Está vendo, gendarm e? No sábado ele j antou às oito da noite. Com eu m assa, pois estava de regim e. A seguir, conform e seu hábito, leu o j ornal enquanto bebia água m ineral. Um pouco depois das dez, entrou neste quarto e retirou a casaca, conservando os calçados e o falso colarinho. Na realidade, Maigret falava m enos para o gendarm e, que escutava com aplicação e acreditava dever aprovar cada frase, do que para si m esm o. — Onde podia estar a faca naquele m om ento? É um a faca autom ática, m as de um m odelo de bolso, com o m uita gente tem o hábito de portar. Vej a... Ele dobrou a lâm ina da faca que se achava em cim a da m esa j unto com outras peças do crim e, enfiou o obj eto no bolso esquerdo da calça escura. — Não, isso produz dobras onde não devia haver...
Tentou no bolso direito e ficou satisfeito.
— Aí está! Ele tem um a faca no bolso. Está vivo e, entre onze horas e m eia-noite, segundo o m édico, m orreu. Há poeira de cal e de calcário na ponta dos seus sapatos. Ora, defronte à j anela, no m uro da propriedade de Tiburce de Saint-Hilaire, encontrei traços deixados por sapatos do m esm o tipo. Foi para escalar o m uro que ele retirou a casaca? Pois não é um hom em de se pôr à vontade, m esm o estando em casa, convém não esquecer!
Maigret dava voltas e nem sem pre term inava as frases, sem olhar para o seu ouvinte, im óvel num a cadeira.
— Na lareira, de onde no verão foi retirado o aquecedor, encontro papéis queim ados... Vam os retom ar os gestos que ele deve ter feito: tirar a casaca, queim ar os papéis, dispersar as cinzas com a base desse castiçal (pois há fuligem no cobre), escalar o m uro em frente após transpor a j anela e voltar para cá pelo m esm o cam inho. Enfim , pegar a faca no bolso e abri-la... Não é grande coisa, m as se souberm os em que ordem esses atos e gestos se desenrolaram ... Portanto, entre onze horas e m eia-noite e m eia, ele está novam ente aqui. A j anela está aberta e ele recebe um tiro na cabeça... Não há dúvida quanto a isso! O tiro precedeu a facada. E foi dado do lado de fora... Ora, Gallet pegou a faca. Não tentou sair, o que parece indicar que o assassino é que entrou, pois ninguém enfrenta à faca um adversário que está a sete m etros de distância... Mais: Gallet tem a m etade do rosto atingida. O ferim ento sangra. E não se descobriu nenhum a gota de sangue perto da j anela. Os vestígios provam que, ferido, ele não se m oveu num raio de m ais de dois m etros... Forte equim ose no pulso esquerdo! Escreve o m édico que fez a autópsia. Assim , nosso hom em segura a faca com a m ão esquerda, e alguém pega essa m ão para voltar a arm a contra ele. A lâm ina penetra no coração, e ele cai m orto. Solta a faca, e o assassino não se preocupa, sabendo que nela só haverá as im pressões digitais da vítim a. A carteira continua no bolso de Gallet; nenhum obj eto é roubado. No entanto a Identidade Judiciária afirm a que há, em particular sobre a valise, parcelas ínfim as de borracha, com o se alguém a tivesse m anipulado com luvas...
— Fantástico! Exclam ou extasiado o gendarm e, que seria incapaz de repetir a quarta parte do que acabara de ouvir.
— E o m ais curioso é que, além desses vestígios de borracha, foi descoberto um pouco de poeira de ferrugem ...
— Talvez o revólver estivesse enferruj ado!
Maigret se calou, foi se postar diante da j anela. Daquele j eito, com as m angas da cam isa branca infladas pelo vento, com sua silhueta se destacando no retângulo lum inoso, ele parecia enorm e. Acim a da sua cabeça subia um estreito fio de fum aça azulada. O gendarm e, dócil, continuava no seu canto, hesitando em m udar a posição das pernas.
— O senhor não vai ver os m eus vagabundos? Ele perguntou tim idam ente.
— Estão na delegacia? Solte-os! E Maigret voltou para a m esa, coçando a cabeça em sentido contrário aos pelos, pegou a pasta rosa, m udou as fotos de lugar, fixou seu interlocutor. — Está de bicicleta? Poderia dar um pulo até a estação e perguntar a que horas, no sábado, Henry Gallet, um j ovem de 25 anos, alto, m agro, pálido, vestindo um a roupa escura, com óculos de aro de tartaruga, pegou o trem para Paris?... Aliás, j á ouviu falar de um Sr. Jacob?
— Só do Jacó da Bíblia... Arriscou o gendarm e.
As roupas de Ém ile Gallet continuavam no chão, com o um a caricatura de cadáver. No m om ento em que o gendarm e se dirigia à porta, bateram e o Sr. Tardivon anunciou:
— Um a visita para o senhor, com issário. Um a Sra. Boursang, que gostaria de lhe dizer duas palavras... O gendarm e teria preferido ficar, m as seu com panheiro não o convidou a isso. Após lançar um olhar satisfeito ao quarto, Maigret falou: — Faça-a entrar. E se inclinou para o m anequim m urcho, hesitou, sorriu, plantou a faca no lugar do coração e am assou com o dedo o tabaco no cachim bo.
Éléonore Boursang vestia um tailleur claro, bem -cortado, que, em vez de rej uvenescê-la, lhe dava um aspecto de m ulher de m ais de trinta anos. Tinha as m eias e os sapatos bem cuidados, cabelos louros arranj ados com esm ero sob um chapéu de palha branco. Usava luvas. Maigret se colocara num canto m ais à som bra, curioso de ver com o ela se apresentaria. Quando o Sr. Tardivon a deixou j unto à porta, ela ficou um instante indecisa, pareceu desorientada pelo contraste entre a forte claridade da j anela e o claro-escuro do quarto.
— Com issário Maigret? Ela falou enfim , avançando alguns passos e se virando para a silhueta que ainda não distinguia bem . — Desculpe-m e por incom odá-lo, senhor... Ele se dirigiu a ela e penetrou na luz. Assim que fechou a porta, disse:
— Queira se sentar! E esperou, sem aj udá-la com sua atitude, ostentando, ao contrário, um hum or m eio áspero.
— Henry deve ter lhe falado de m im e por isso, estando em Sancerre, tom ei a liberdade de vir im portuná-lo.
Ele continuou em silêncio, sem conseguir perturbá-la. Ela falava pausadam ente, com um a certa dignidade que lem brava um pouco a Sra. Gallet. Um a Sra. Gallet m ais m oça, certam ente um pouco m ais bonita do que fora a m ãe de Henry , m as representativa de um a m esm a classe social.
— Deve com preender m inha situação. Depois desse... Desse terrível dram a, eu quis deixar Sancerre, m as Henry m e aconselhou, num a carta, a ficar... Vi o senhor um as duas ou três vezes. Fiquei sabendo pelas pessoas do lugar que era o encarregado de descobrir o assassino. Assim resolvi vir lhe perguntar se descobriu algum a coisa... Minha situação é delicada, j á que oficialm ente nada sou para Henry nem para sua fam ília...
Não dava a im pressão de um discurso preparado. As frases lhe vinham aos lábios sem esforço e eram ditas sem precipitação. Várias vezes seu olhar pousou na faca plantada sobre a form a barroca que as roupas desenhavam no chão, m as ela não estrem eceu.
— Seu am ante a encarregou de m e interrogar? Lançou Maigret, com um a brutalidade proposital.
— Ele não m e encarregou de nada! Está arrasado com o golpe que o atingiu... E lam ento m uito não ter podido estar j unto dele no enterro...
— Vocês se conhecem há m uito tem po? Ela não pareceu notar que a conversa se transform ava em interrogatório; sua voz perm aneceu igual.
— Há três anos... Tenho trinta, Henry só tem 25... E sou viúva...
— É originária de Paris?
— De Lille. Meu pai era o contador-chefe num a fábrica de fiação. Aos vinte anos m e casei com um engenheiro têxtil que foi m orto por um a m áquina, m enos de um ano após m eu casam ento. Eu deveria ter recebido um a pensão da em presa que o em pregava, m as ela afirm ou que o acidente fora devido à im prudência da vítim a. Assim , com o eu precisava ganhar a vida e não queria trabalhar num a cidade onde todos m e conhecem , m e instalei em Paris. Passei a trabalhar com o caixa num a casa de com ércio da Rue Réaum ur. Movi um processo contra a fábrica de fiação. O caso se arrastou durante anos na Justiça. Som ente há dois anos obtive ganho de causa e com o dinheiro da pensão pude deixar m eu em prego.
— Trabalhava com o caixa quando conheceu Henry Gallet?
— Sim . Ele vinha seguidam ente ver m eus patrões, com o corretor financeiro do banco Sovrinos.
— Nunca pensaram em se casar?
— No início pensam os, m as, se eu m e casasse antes do j ulgam ento, o tribunal teria se m ostrado m enos favorável a m e conceder a pensão.
— E então se tornou a am ante de Gallet.
— A palavra não m e assusta. Som os tão unidos, ele e eu, com o se tivéssem os passado pelo cartório. Há três anos nos vem os diariam ente, e ele faz todas as suas refeições com igo.
— No entanto, ele não m ora na sua casa na Rue de Turenne...
— Por causa da fam ília dele. São pessoas de princípios rígidos, com o m eus pais. Henry preferiu evitar conflitos com os pais dele ocultando nossa ligação. Mas sem pre concordam os que, quando não houver m ais obstáculos e tiverm os do que viver no sul da França, nos casarem os.
Mesm o diante das perguntas m ais indiscretas, não havia em baraço algum na atitude dela. Em certo m om ento, quando o olhar do com issário passou por suas pernas, ela baixou o vestido, com um gesto sim ples.
— Sou obrigado a entrar em detalhes... Era na sua casa que Henry fazia as refeições. Ele rachava as despesas?
— É m uito sim ples. Eu fazia as contas, com o toda dona de casa organizada, e no fim do m ês ele m e pagava a m etade do que fora gasto em com ida.
— Você falou em viver no sul da França. Henry reservava algum dinheiro para isso?
— Assim com o eu. Deve ter observado que ele não tem um a constituição m uito forte. Os m édicos lhe recom endam o ar livre. Mas ninguém vai viver ao ar livre quando precisa ganhar a vida e não tem um ofício m anual. Eu tam bém gosto da vida no cam po... Assim vivem os m odestam ente. Eu lhe disse que Henry é corretor financeiro. O Sovrinos é um pequeno banco que se ocupa principalm ente de especulação. Portanto, está bem inform ado, e tudo o que podem os econom izar é aplicado na Bolsa.
— Contas separadas?
— Naturalm ente! Não podem os saber, não é m esm o? O que o futuro nos reserva...
— Qual o capital que você form ou desse m odo?
— É difícil de precisar, pois o dinheiro é em títulos que m udam de valor de um dia para o outro. De quarenta a cinquenta m il francos...
— E Gallet?
— Mais. Ele nem sem pre ousava m e envolver em especulações m uito arriscadas, com o as m inas de prata na Bolívia, em agosto últim o... Ele deve ter, atualm ente, uns cem m il francos.
— E em qual quantia decidiram parar?
— Quinhentos m il. Esperam os trabalhar ainda m ais três anos...
Maigret a olhava agora com um sentim ento que beirava a adm iração. Mas um a adm iração particular, fortem ente m arcada de repulsa. Ela tinha 30 anos, e Henry, 25. Eles se am avam ou, pelo m enos, haviam decidido viver j untos. E suas relações eram reguladas com o as de dois sócios num em preendim ento com ercial! Ela falava disso com sim plicidade, até m esm o com um certo orgulho.
— Faz tem po que está em Sancerre?
— Cheguei em 20 de j unho para ficar um m ês.
— Por que não se hospedou no Hotel de la Loire ou no Com m erce?
— É m uito caro para m im . Na Pensão Germ ain, na saída do vilarej o, pago apenas 22 francos por dia.
— Henry veio no dia 25? A que horas?
— Ele só tem folga aos sábados e dom ingos. E reserva o dom ingo para passar o dia em Saint-Fargeau. Ele chegou aqui no sábado de m anhã. Partiu de volta no últim o trem da noite.
— Ou sej a?
— Às 23h32. Eu o acom panhei até a estação.
— Sabia que o pai dele estava aqui?
— Henry m e disse que o havia encontrado. Estava furioso, pois achava que o pai viera só para nos espionar. E Henry não queria ver sua fam ília envolvida no nosso caso.
— Os Gallet ignoravam a existência dos cem m il francos?
— É claro! Henry é m aior de idade, tem o direito de fazer o que quiser da sua vida...
— Em que term os seu am ante costum ava falar do pai dele?
— Criticava-o um pouco por sua falta de am bição. Dizia que era sinistro, na idade dele, vender ainda o que Henry cham ava suas “quinquilharias”. Mas sem pre se m ostrou m uito respeitoso, sobretudo com a m ãe.
— Então ele ignorava que Ém ille Gallet era, na verdade, um vigarista?
— Um vigarista?... Ele?
— ...E que havia dezoito anos não se ocupava m ais de suas “quinquilharias”?
— Não é possível! Desem penhava ela um papel ao olhar o lúgubre m anequim com um a espécie de adm iração? — Estou desconcertada, com issário!... Ele!... Com suas m anias, suas roupas ridículas, seu j eito de aposentado pobre!...
— O que fez na tarde de sábado?
— Passeam os pelas colinas, Henry e eu. Foi quando m e deixou para ir ao Hotel du Com m erce que ele encontrou o pai... Voltam os a nos ver às oito da noite e saím os para passear, desta vez, do outro lado do rio, até a partida do trem .
— Não passaram nas proxim idades deste hotel?
— Era m elhor evitar um encontro.
— Você voltou sozinha da estação. Atravessou a ponte...
— E virei im ediatam ente à esquerda para chegar à Pensão Germ ain. Não gosto de andar sozinha à noite...
— Conhece Tiburce de Saint-Hilaire?
— Quem é? Nunca ouvi falar desse nom e... Espero, com issário, que não estej a suspeitando de Henry ...
Seu rosto se anim ara, m as ela conservava o sangue-frio.
— Se estou aqui, é em grande parte porque conheço Henry . Ele sem pre teve a saúde frágil, e seu caráter se tornou som brio, desconfiado. Juntos, às vezes ficam os horas sem falar... É um a coincidência que ele tenha encontrado o pai j ustam ente aqui. Mas um a coincidência, eu sei, que pode parecer suspeita. Henry é m uito orgulhoso para se defender. Não sei o que ele lhe disse, se é que respondeu a suas perguntas... Mas o que posso j urar é que ele não m e deixou das oito da noite até o m om ento de pegar o trem . Estava nervoso. Tinha m edo de que a m ãe ficasse sabendo do nosso caso, pois sem pre teve m uito afeto por ela e previa que ela tentaria afastá-lo de m im . Não sou m ais um a m oça! Há um a diferença de cinco anos entre nós. Enfim , sou a am ante dele. Quero que o assassino sej a logo preso, sobretudo por Henry, que é bastante esperto para com preender que seu encontro com o pai fatalm ente faz nascer suspeitas odiosas...
Maigret continuava a olhar para ela com o m esm o espanto. E se perguntava por que esse discurso, bastante m eritório, em sum a, não conseguia com ovê-lo. Mesm o pronunciando as últim as frases com um pouco de veem ência, Éléonore Boursang perm anecia senhora de si. Maigret deu um j eito de fazê-la ver um a grande foto da Identidade Judiciária que m ostrava o cadáver tal com o fora encontrado, e o olhar da m ulher passou sem se deter nessa im agem im pressionante.
— Não descobriu nada?
— Conhece o Sr. Jacob? Ela lhe ofereceu um olhar no qual o convidava a ler sua sinceridade.
— Não conheço esse nom e. Quem é? O assassino?
— Talvez! Ele falou, enquanto cam inhava até a porta. Ao sair, Éléonore Boursang perguntou:
— Perm ite, com issário, que eu volte para lhe pedir notícias?
— Quando quiser.
O gendarm e esperava pacientem ente no corredor. Quando a visitante desapareceu, ele lançou um olhar interrogador ao com issário.
— O que lhe disseram na estação? Este perguntou.
— O j ovem pegou o trem de Paris às 23h32, com um bilhete de volta, de terceira classe.
— E o crim e foi com etido entre onze horas e m eia-noite e m eia! Murm urou pensativam ente o com issário. — Andando depressa, é possível ir daqui à estação em dez m inutos. O assassino pode ter com etido o crim e entre 23h e 23h20... Se em dez m inutos se chega à estação, é preciso o m esm o tanto para voltar. Assim , Gallet pode ter sido m orto entre quinze para a m eia-noite e m eia-noite e m eia por alguém que voltava da estação... Só que há tam bém a história do portão! E além do m ais, que diabos Ém ile Gallet foi fazer no m uro?
O gendarm e se sentara no m esm o lugar que antes e aprovava com a cabeça, esperando a continuação. Mas não houve continuação.
— Vam os tom ar um aperitivo! Disse Maigret.
* * *