Maigret e o Finado Sr. Gallet
Três
As Respostas de Henry Gallet
MAIGRET, que passara a noite em sua casa, no Boulevard Richard-Lenoir,
chegou a Saint-Fargeau na quarta-feira pouco antes das oito da m anhã. Já estava fora da estação quando se lem brou de voltar atrás para perguntar ao funcionário:
— O Sr. Gallet tom ava seguidam ente o trem ?
— O pai ou o filho?
— O pai.
— Viaj ava todo m ês, ficando fora um as três sem anas. Pegava um de segunda classe para Rouen.
— E o filho?
— Ele vem quase todo sábado à noite, de Paris, num vagão de terceira classe, e parte de volta no últim o trem de dom ingo... Quem podia prever!... Ainda posso vê-lo, no prim eiro dom ingo de j unho, participando da abertura da tem porada de pesca...
— O pai ou o filho?
— O pai, é claro!... Olhe! É dele o barquinho azul que se vê ali entre as árvores... Um barco que todo m undo vai querer com prar, pois foi ele m esm o que fez, em m adeira de carvalho, e inventou não sei quantos aperfeiçoam entos... Vivia inventando coisas...
Maigret acrescentou conscienciosam ente essa pequena pincelada à im agem ainda tão incom pleta que possuía do m orto. Olhou o barquinho, o rio, fez um esforço para im aginar o hom em de barbicha im óvel, durante horas, com um caniço na m ão. Depois se dirigiu até Les Marguerites, não sem observar que um carro fúnebre de segunda classe, vazio, seguia o m esm o cam inho que ele.
Não havia ninguém nos arredores da casa, exceto um hom em que em purrava um carrinho de m ão e que parou ao ver o carro fúnebre e ficou esperando, por certo curioso de ver o cortej o. O sino no portão fora coberto por um pano. Na porta de entrada estava pendurado um tecido preto com as iniciais do defunto, bordadas em prateado. Maigret não esperava tanto aparato. À esquerda, no corredor, sobre um a bandej a, um único cartão com a ponta dobrada, o do prefeito de Saint-Fargeau. A sala onde o com issário estivera havia se transform ado em capela-ardente, e os m óveis tiveram de ser transportados para a copa. Tapeçarias escuras cobriam as paredes; o caixão estava colocado no centro, cercado de velas. Havia algo de m isterioso, de equivocado, não se podia dizer bem por quê. Seria porque faltava um visitante e se sabia que ele não viria, em bora o carro fúnebre j á estivesse à porta? Aquele único cartão de visita, em falsa litografia! Todos aqueles ornam entos de prata! E, de cada lado do caixão, um a figura: a Sra. Gallet à direita, vestida de luto, com um véu sobre o rosto e um terço de contas foscas entre os dedos; Henry Gallet à esquerda, tam bém traj ado de preto.
Maigret avançou sem ruído, se inclinou, m olhou um ram o de buxo na água benta e o aspergiu sobre o caixão. Sentiu que a m ãe e o filho o seguiam com os olhos, m as nenhum a palavra foi pronunciada. Depois ele foi até um canto, prestando atenção ao m esm o tem po nos ruídos de fora e nas expressões fisionôm icas do j ovem . De vez em quando os cavalos batiam os cascos no chão da aleia. Os agentes funerários conversavam em voz baixa, ao sol, perto da j anela. E, na câm ara m ortuária, que som ente as velas ilum inavam , o rosto irregular do filho parecia ainda m ais irregular, por causa da roupa preta que destacava a brancura doentia da pele. Os cabelos, separados por um a risca, estavam colados à cabeça. Tinha a testa alta, protuberante. Atrás das lentes grossas dos óculos com aro de tartaruga, era difícil perceber o olhar inquieto de m íope. Às vezes a Sra. Gallet cobria os olhos com o lenço, debaixo do véu. E as pupilas de Henry não se fixavam em parte algum a. Passavam pelas coisas e evitavam sem pre o com issário, que ouviu com alívio os passos dos agentes funerários.
Um pouco m ais tarde, o caixão esbarrava nas paredes do corredor. Um pequeno soluço saiu da garganta da Sra. Gallet, a quem o filho se lim itou a dar um tapinha no om bro, olhando para outro lado. Era violento o contraste entre o luxo do carro fúnebre e as duas figuras que se punham em m archa, precedidas de um m estre de cerim ônias desconcertado. Continuava fazendo calor. O hom em do carrinho de m ão se persignou e foi em bora tom ando um cam inho lateral, enquanto o cortej o, m ínim o, seguia por um a aleia bastante larga para ver desfilarem regim entos. Enquanto a cerim ônia religiosa se desenrolava na igrej a e um pequeno grupo de cam poneses se reunia na praça, Maigret entrou na prefeitura, onde não encontrou ninguém . Precisou ir buscar em sua classe o professor, que era tam bém o assessor do prefeito, e as crianças foram abandonadas por um m om ento.
— Tudo o que posso lhe dizer é o que está nos nossos registros. Vej a:
“Gallet, Émile Yves Pierre, nascido em Nantes em 1879, casado em Paris, em outubro de 1902, com Aurore Préjean... Um filho, Henry, nascido em Paris em
1906 e registrado no cartório do 9o arrondissement ...”
— As pessoas daqui não gostam deles?
— Os Gallet construíram sua casa em 1910, quando foi criado o loteam ento no bosque, e nunca quiseram ver ninguém . São m uito orgulhosos... Aconteceu-m e de pescar todo um dom ingo no m eu barquinho, a m enos de dez m etros do de Gallet. Se eu precisasse de algum a coisa, ele m e dava, m as não conseguiria lhe arrancar m ais de cinco frases seguidas...
— Com o avalia a situação financeira dele?
— Não sei exatam ente, pois ignoro o que gastava em viagem . Mas, considerando apenas aqui, suponho uns dois m il francos por m ês. Se viu a casa, o senhor pôde constatar que não falta nada. Eles fazem vir quase todas as suas com pras de Corbeil ou de Melun.... Um a outra coisa que...
Mas nesse instante, pela j anela, Maigret avistou o cortej o que saía da igrej a e entrava no cem itério. Ele agradeceu a seu interlocutor e ouviu, da rua, a prim eira pá de terra caindo sobre o caixão. Evitou se m ostrar, fez um desvio para retornar à casa do loteam ento, onde teve o cuidado de chegar um pouco depois dos Gallet. A em pregada que abriu a porta olhou para ele, hesitante.
— Madam e não pode... Com eçou.
— Diga ao Sr. Henry que preciso falar com ele.
A em pregada de olhos estrábicos o deixou do lado de fora. Alguns instantes depois, a silhueta do j ovem apareceu no corredor. Ele avançou até a entrada e perguntou, sem olhar diretam ente para Maigret:
— O senhor não pode deixar essa visita para um outro dia? Minha m ãe está m uito abatida...
— Preciso falar com você hoj e. Perdoe m inha insistência.
Henry deu m eia-volta, dando a entender assim que o policial só precisava acom panhá-lo. Hesitou diante das portas e em purrou por fim a da copa, onde os m óveis da sala haviam sido am ontoados, de m odo que ali era difícil circular. Maigret viu o retrato da prim eira com unhão deitado sobre a m esa, procurou em vão o de Ém ile Gallet. Henry não se sentou, não disse nada, m as retirou os óculos para lim par as lentes com um ar aborrecido, enquanto os olhos piscavam , surpreendidos pela luz direta.
— Certam ente sabe que fui encarregado de descobrir o assassino do seu pai.
— Por isso m e surpreendo de vê-lo aqui num m om ento em que seria m ais decente deixar-nos a sós, m inha m ãe e eu!
E Henry recolocou os óculos, aj eitou o punho engom ado da cam isa que pendia sobre a m ão coberta dos m esm os pelos ruivos que havia no peito do cadáver de Sancerre. No seu rosto ossudo, de traços bem desenhados, com um a expressão tristonha e um pouco cavalar, não havia o m enor m ovim ento. Ele apoiava o cotovelo no piano trazido da sala, do qual se via a parte de trás coberta por um pano verde.
— Eu gostaria de lhe pedir algum as inform ações tanto sobre seu pai quanto sobre a fam ília em geral. Henry não abriu a boca, não se m exeu, perm aneceu de pé no m esm o lugar, rígido, fúnebre. — Poderia m e dizer, prim eiro, onde estava no sábado, 25 de j unho, por volta das quatro da tarde?
— Antes eu gostaria de lhe fazer um a pergunta. Sou obrigado, eu, num m om ento com o este, a recebê-lo e a lhe responder? Sem pre um a voz neutra, entediada, com o se cada sílaba lhe desse um cansaço.
— É livre para não responder. No entanto devo lhe observar...
— Em que lugar sua investigação lhe revelou que eu estava?
Maigret não respondeu e, na verdade, ficou atordoado por essa intervenção inesperada, tanto m ais inesperada quanto era im possível perceber a m enor sutileza nas feições do j ovem . Henry deixou passar alguns segundos. Ouse viu a voz da em pregada que, de baixo, respondia a um cham ado do andar de cim a: “Já estou indo, m adam e!”.
— E então?
— Com o o senhor sabe, eu estava...
— Em Sancerre? Henry continuou im passível. — E teve um a discussão com seu pai, na estrada do velho castelo...
Maigret era quem estava m ais nervoso, pois parecia que seus golpes caíam no vazio. Sua voz não tinha ressonância, suas suspeitas não tinham eco. O m ais desconcertante era o silêncio de Henry Gallet, que não tentava se explicar, que esperava.
— Pode m e dizer o que fazia em Sancerre?
— Fui ver m inha am ante, Éléonore Boursang, que passa férias na Pensão Germ ain, na estrada de Sancerre a Saint-Thibaut. Ele ergueu im perceptivelm ente as sobrancelhas, espessas com o as de Ém ile Gallet.
— Não sabia da presença de seu pai em Sancerre?
— Se soubesse, teria evitado encontrá-lo. Sem pre um m ínim o de explicações, forçando o com issário a perguntas repetidas.
— Seus pais estavam sabendo desse caso am oroso?
— Meu pai suspeitava. Ele era contra.
— Qual foi o assunto da conversa de vocês?
— Sua investigação é sobre o assassino ou sobre a vítim a? Articulou lentam ente o j ovem .
— Conhecerei o assassino quando conhecer bem a vítim a. Seu pai lhe fez censuras?
— Eu é que o censurei por m e espionar.
— E depois?
— Nada. Ele m e cham ou de filho ingrato. Eu lhe agradeço por m e lem brar disso hoj e.
Maigret ouviu com alívio passos na escada. A Sra. Gallet apareceu, tão digna com o da outra vez, com um pesado colar de três fileiras de pedrarias no pescoço.
— O que está acontecendo? Ela perguntou, olhando alternadam ente para Maigret e para o seu filho. — Por que não m e cham ou, Henry ? A em pregada entrou, após bater à porta.
— São os tapeceiros, vieram retirar o m aterial.
— Vigie-os...
— Vim buscar algum as inform ações que j ulgo indispensáveis para a descoberta do culpado, disse Maigret, com um a voz um pouco seca dem ais. — Certam ente o m om ento é m al escolhido, com o seu filho m e observou. Mas cada hora que passa torna a prisão do assassino m ais problem ática. Ele buscou com o olhar Henry, que continuava obstinadam ente apático. —Quando se casou com Ém ile Gallet, senhora, tinha um a fortuna pessoal? Ela se em pertigou um pouco e pronunciou, com um trem or de orgulho na voz:
— Sou filha de Auguste Préj ean.
— Perdoe-m e, m as...
— O ex-secretário do últim o príncipe de Bourbon. O diretor do j ornal legitim ista Le Soleil... Meu pai gastou até o últim o centavo para fazer publicar esse j ornal, que pregava o bom com bate.
— Ainda se relaciona com sua fam ília?
— Não os vej o m ais desde o m eu casam ento.
— Esse casam ento lhe foi desaconselhado?
— O que acabo de dizer deveria aj udá-lo a com preender. Toda a m inha fam ília é partidária da m onarquia. Meus tios ocuparam e alguns ainda ocupam cargos im portantes. Não gostaram de m e ver casada com um representante de com ércio.
— Quando seu pai m orreu, a senhora estava sem fortuna?
— Meu pai m orreu um ano depois do m eu casam ento... Meu m arido possuía, no m om ento de nossa união, cerca de trinta m il francos.
— E a fam ília dele?
— Não os conheci. Ele evitava falar disso. Tudo o que sei é que teve um a infância difícil e que passou vários anos na Indochina. Havia um a som bra de sorriso de desprezo nos lábios do filho.
— Se faço essas perguntas, senhora, é porque fiquei sabendo que há dezoito anos seu m arido não pertence m ais à casa Niel... Ela fixou o com issário, depois Henry , e protestou vivam ente:
— Senhor...
— Obtive a inform ação do próprio Sr. Niel.
— Talvez seria m elhor, senhor... Com eçou o j ovem , dando um passo em direção a Maigret.
— Não, Henry ! Quero provar que isso é falso, que é um a odiosa m entira... Venha, com issário... Por favor, m e acom panhe...
E, febril pela prim eira vez, ela se dirigiu até o corredor, onde esbarrou nos panos e tapetes que os tapeceiros enrolavam . Conduziu Maigret até o prim eiro andar, o fez atravessar um quarto de dorm ir com m óveis de nogueira encerada, onde se via ainda, no cabide, um chapéu de palha de Ém ile Gallet e tam bém um a roupa de brim que ele devia usar para a pesca. Passando esse quarto, havia um a pequena peça transform ada em gabinete de trabalho.
— Vej a!... Aqui estão suas am ostras... E esses talheres, por exem plo, do terrível estilo m oderno, não datam de dezoito anos atrás, não é m esm o?... Aqui está o registro de encom endas que m eu m arido atualizava a cada fim de m ês... Aqui estão cartas com o tim bre da casa Niel, que ele recebia com regularidade...
Maigret m al olhava. Estava convencido de que precisaria voltar a essa peça e preferia se im pregnar da atm osfera. Tam bém ali ele tentou im aginar Ém ile Gallet, num a cadeira giratória colocada j unto à m esa. Sobre esta últim a havia um tinteiro em m etal branco, um a bola de cristal que servia de pesa-papéis. Pela j anela se via a aleia central do loteam ento e o telhado verm elho de um a casa desabitada.
As cartas com tim bre da casa Niel eram escritas à m áquina, segundo um m odelo m ais ou m enos uniform e:
Caro senhor,
Recebemos sua carta de 15 do corrente, bem como a lista dos pedidos para janeiro. Esperamos sua visita no final do mês para a liquidação de contas, como de hábito, e lhe daremos então algumas indicações acerca da extensão do seu campo de atividade.
Cordialmente,
Assinado: Jean Niel.
Maigret passou os olhos por m ais algum as dessas cartas.
— O que m e diz agora? Perguntou a Sra. Gallet, com um ar de desafio.
— O que é isto?
— Nada... Meu m arido gostava de trabalhos m anuais. É um velho relógio que ele desm ontou... Na garagem há um m onte de obj etos que ele m esm o fabricou, principalm ente artigos de pesca... Todo m ês dedicava oito dias inteiros a esses trabalhos; suas anotações de com ércio lhe tom avam apenas um a hora ou duas de m anhã.
Maigret abriu as gavetas, ao acaso. Num a delas viu um a volum osa pasta cor-de-rosa, com esta m enção: Soleil.
— Papéis do m eu pai, explicou a Sra. Gallet. — Não sei por que os conservam os. Naquele arm ário há toda a coleção, até o últim o núm ero, do j ornal que obrigou m eu pai a vender seus títulos de crédito.
— Perm ite que eu leve a pasta? Ela se virou para a porta, com o para consultar o filho, m as Henry não os havia acom panhado.
— O que pode obter disso? É um a espécie de relíquia... Se quiser... Mas diga, com issário, é im possível o que o Sr. Niel afirm ou, não é m esm o?... É com o esses cartões-postais! Chegou m ais um ainda ontem !... E é a escrita dele, tenho certeza!... Está datada de Rouen, com o o anterior... Leia!...
E bruscam ente lhe veio um choro, m as de um a brevidade incrível. Dois ou três soluços. Ela levou um lenço preto à boca e disse com um a voz abafada:
— Vam os sair daqui.
Foi preciso atravessar de novo o quarto de dorm ir, sim ples m as de boa qualidade, com arm ário de porta espelhada, duas m esas de cabeceira, um falso tapete persa. No corredor do térreo, Henry olhava sem ver os tapeceiros que colocavam seu m aterial num a cam inhonete. Ele nem m esm o virou a cabeça para Maigret e a m ãe, que desciam a escada encerada cuj os degraus estalavam . Reinava na casa um clim a de desordem . Com um a garrafa de vinho tinto e copos na m ão, a em pregada entrou na sala, para onde dois hom ens em roupas de trabalho arrastavam o piano.
— Isso não fará m al! Ele ouviu a Sra. Gallet pronunciar com um a voz indiferente.
E Maigret teve um a im pressão que ainda não tivera e que o desconcertava. Pareceu-lhe que toda a verdade estava ali, espalhada ao redor. Nada do que ele via era indiferente. Mas ele sentia necessidade de ver de outra form a que não através dessa brum a deform adora, brum a que persistia, criada ao m esm o tem po por essa m ulher que controlava sua em oção, por Henry, cuj o rosto com prido era m ais fechado que um cofre, pelas tapeçarias que partiam , por tudo, enfim , e principalm ente pelo constrangim ento do próprio Maigret, que sentia sua presença deslocada. Ele sentia vergonha dessa pasta cor-de-rosa que levava com o um ladrão e cuj a utilidade teria dificuldade de explicar. Gostaria de ter ficado m ais tem po lá em cim a, sozinho, no gabinete de trabalho do m orto, vagar pela garagem onde Ém ile Gallet trabalhava nos seus engenhos de pesca aperfeiçoados.
Houve um m om ento de hesitação. Todos estavam ao m esm o tem po no corredor. Era a hora do alm oço e não havia dúvida de que os Gallet esperavam a partida do policial. Um cheiro de cebola refogada vinha da cozinha. A em pregada não era a m enos desam parada. O único recurso de cada um era olhar os tapeceiros que recolocavam a sala em ordem . Um deles encontrou o retrato de Gallet debaixo de um a bandej a.
— Perm ite que eu o leve? Interveio Maigret, se virando para a viúva. — Posso precisar... Ele sentiu que Henry o seguia com um olhar de desprezo acentuado.
— É necessário? Tenho m uito poucas fotografias dele...
— Prom eto devolvê-la. Ele não se decidia a partir. No m om ento em que os operários transportavam sem cuidado um enorm e vaso, em falsa porcelana, a Sra. Gallet se precipitou:
— Cuidado!... Vai bater na m oldura da porta!
E era sem pre a m esm a m istura de dor e de grotesco, de dram a e de m esquinharia que pesava nos om bros de Maigret, nessa casa desolada onde acreditava ver vagar, silencioso, com olheiras causadas pela doença do fígado, com o peito afundado e a casaca m al aj ustada, Ém ile Gallet, que ele não conhecera em vida. Pôs o retrato dentro da pasta rosa. Hesitou.
— Queira m e desculpar outra vez, senhora... Estou indo em bora... Mas gostaria que seu filho m e acom panhasse por um trecho do cam inho.
A Sra. Gallet olhou para Henry com um a angústia m al reprim ida. Ela tam bém devia perceber, apesar de suas m aneiras dignas, de seus gestos com edidos, do seu triplo colar de pedras no pescoço, que havia algum a coisa... Mas o j ovem , indiferente, foi pegar no cabide seu chapéu com um a fita de crepe. Essa partida se assem elhava a um a fuga. A pasta era pesada e apenas um a capa de papelão continha os papéis, que corriam o risco de escapar.
— Não quer um j ornal para envolvê-la? Perguntou a Sra. Gallet.
Maigret j á estava na rua. A em pregada se dirigia à copa com um a toalha e talheres. Henry cam inhava em direção à estação, alto, silencioso, de olhar inacessível. Quando os dois estavam a uns trezentos m etros da casa e os tapeceiros colocavam o m otor da cam inhonete em m archa, o com issário falou:
— Tenho apenas duas inform ações a lhe pedir: o endereço de Éléonore Boursang em Paris... O seu e o do banco onde trabalha. Ele pegou um lápis e anotou na capa rosa que tinha na m ão:
Éléonore Boursang, 17, Rue de Turenne.
Banco Sovrinos, 117, Boulevard Beaumarchais.
Henry Gallet, Hotel Bellevue, 19, Rue de la Roquette.
— É tudo? Perguntou o j ovem .
— Sim . Eu lhe agradeço.
— Nesse caso, espero que agora o senhor vá se ocupar do assassino... Ele não tentou j ulgar o efeito produzido. Tocou com a m ão a beirada do chapéu e subiu de volta a avenida central do loteam ento.
A cam inhonete ultrapassou Maigret um pouco antes de sua chegada à estação. O últim o elem ento recolhido nesse dia aconteceu por acaso. Maigret chegou à estação um a hora antes da passagem do trem . Ficou sozinho na sala de espera deserta, cercado de um a nuvem de m oscas. Viu um carteiro chegar de bicicleta, com o pescoço violeta de apoplético, e colocar sua sacola em cim a de um a m esa que servia para as bagagens.
— É você que leva a correspondência para Les Marguerites? Perguntou o com issário, que o carteiro não tinha visto. O hom em se virou prontam ente.
— O que disse?
— Polícia! É um a inform ação que lhe peço. O Sr. Gallet recebia m uita correspondência?
— Muita, não. Cartas da casa na qual esse pobre senhor trabalhava e que chegavam em data fixa. E j ornais...
— Que j ornais?
— Jornais de província... Sobretudo do Berry e do Cher... Tam bém revistas: A vida no cam po, Caça e pesca, A vida no castelo... O com issário notou que o interlocutor evitava seu olhar.
— Há um a posta-restante em Saint-Fargeau?
— O que está querendo dizer?
— O Sr. Gallet não recebia outras cartas? O carteiro ficou de repente perturbado.
— Já que o senhor sabe e j á que ele m orreu... Balbuciou. — Sem contar que nem m esm o estou infringindo o regulam ento... Ele apenas m e pedia para não lançar na caixa algum as cartas e para conservá-las até seu retorno, quando estava em viagem ...
— Que cartas?
— Ah! Não eram m uitas... Um a a cada dois m eses... Envelopes azuis, baratos. O endereço era escrito à m áquina.
— Não tinham o endereço do rem etente?
— O endereço, não. Mas lem bro que no verso estava escrito, tam bém à m áquina: Rem .: Sr. Jacob. Será que agi m al?
— De onde vinham essas cartas?
— De Paris.
— Não sabe de qual arrondissem ent?
— Observei. Mas a cada vez era diferente.
— Quando chegou a últim a?
— Deixe ver... Hoj e é 29, não? Quarta-feira... Então foi quinta no fim da tarde... Mas eu só vi o Sr. Gallet na sexta de m anhã, quando ele saía para pescar.
— E ele foi pescar?
— Não. Voltou para dentro de casa, depois de m e dar cinco francos, com o de costum e... Fiquei aflito quando soube que o haviam m atado. O senhor acha que a carta...?
— Ele partiu naquele dia m esm o?
— Sim ... Ouça! É o trem de Melun que está esperando? Acabou de apitar na passagem de nível... O senhor será obrigado a falar desse assunto?
Maigret teve apenas o tem po de correr na plataform a e de entrar no único vagão de prim eira classe.
* * *