Manual de Persuasão do FBI

Jack Shafer · Capítulo 9 de 13

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Manual de Persuasão do FBI

8. Os perigos e promessas das relações no mundo digital

8

 

OS PERIGOS E PROMESSAS DAS

 

RELAÇÕES NO MUNDO DIGITAL

 

Na internet, todos podem ser quem quiserem. As coisas só se complicam

quando você encontra essas pessoas no mundo real.

— TOKII.COM

 

Aqui vai uma história real. É uma espécie de história de amor que poderia acontecer apenas em nossa era digital. Envolve um professor de 68 anos e uma modelo de biquínis de nacionalidade checa. Esse professor em particular não tinha pouca inteligência: era um físico teórico da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, onde trabalhou por três décadas.

O professor, ainda solitário após seu recente divórcio, visitou alguns sites de namoro e conheceu a bela mulher checa. Após uma série de e-mails, sessões de bate-papo e mensagens instantâneas, ficou óbvio que a linda modelo queria largar a profissão e se casar com ele. Nunca passou por sua cabeça que a mulher na internet poderia ser uma impostora, e ele também nunca se perguntou por que uma jovem modelo atraente o escolheria como marido.

Infelizmente, ele descobriu a razão, mas do jeito mais difícil. Depois de tentar muitas vezes falar com a garota por telefone, ela concordou em sair do mundo virtual e entrar na vida real. Tudo que o professor precisava fazer era viajar para a Bolívia, onde ela trabalhava atualmente, e encontrá-la. Ele concordou prontamente. O resto da história é doloroso para contar.

Após chegar com atraso na Bolívia depois de um problema com a passagem, o professor descobriu que sua “namorada” já havia deixado o país. Entretanto, ela disse para não se preocupar, pois enviaria uma passagem para Bruxelas, na Bélgica, onde ele poderia encontrá-la enquanto fazia uma sessão de fotos. Seu único pedido era trazer uma mala que havia deixado na Bolívia. No aeroporto de Buenos Aires, a mala foi vasculhada. Havia escondidos dentro da mala quase dois quilos de cocaína. Ele acabou acusado de tráfico de drogas, mas felizmente recebeu uma sentença leve.

E qual foi a reação da verdadeira modelo checa sobre tudo isso? Medo, por seu nome ter sido associado com tráfico de drogas, e “compaixão” pelo professor, que, é claro, ela nunca havia connhecido na internet ou em qualquer outro lugar. De acordo com Maxine Swann, uma repórter que escreveu a história para o New York Times, o professor “declarou que passou um mês na prisão até seus companheiros de cela o convencerem de que a mulher com quem ele pensava que estava conversando era provavelmente um homem”.

Baseado nessa história, você pode pensar que eu recomendaria ficar longe do mundo digital para conhecer pessoas e fazer amigos. Entretanto, isso não é verdade. Desde que você consiga discenir amigos de fraudes (e você aprenderá isso neste capítulo), o cenário on-line oferece algumas vantagens distintas.

A INTERNET É ÓTIMA PARA INTROVERTIDOS

Os introvertidos revelam mais informações nas redes sociais do que em encontros cara a cara. Isso acontece porque a dinâmica da internet lhes permite tempo suficiente para formular respostas significativas. Introvertidos também sentem dificuldade para iniciar conversas, principalmente com estranhos. Redes sociais eliminam essa pressão social. Elas também permitem que os introvertidos se expressem sem receber interrupção constante dos extrovertidos. E, finalmente, os introvertidos ficam mais inclinados a dizer aquilo que realmente pensam, sem se preocupar com uma resposta negativa que possa ocorrer, como acontece em comunicações cara a cara.

 

Facilidade para encontrar “algo em comum”

Se existe um bom lugar para a Lei da Semelhança (Capítulo 4) operar, esse lugar é a internet. Quando se trata de encontrar algo em comum com indivíduos que possuem interesses semelhantes, o mundo digital fornece o ambiente perfeito. Quer encontrar um amigo colecionador de selos? Existe um grupo na internet para isso. Interessado em encontrar pessoas que gostam de carros antigos? Existe um grupo na internet para isso. Procurando por aquele grupo especial de fanáticos por esporte que também são voluntários em abrigos de animais e comem maçãs orgânicas no estado de Washington? Existe um grupo na internet para isso. Bom, talvez.

O fato é que, com os milhões de indivíduos na internet, salas de bate-papo e grupos de interesse devotados a qualquer atividade, real ou imaginária, a chance de desenvolver amizades com pessoas com algo em comum está a um clique de distância.

 

Números

Se você estiver procurando por um amigo com qualificações e interesses específicos, onde preferiria olhar: num bar ou outro local público em que haja cem pessoas, ou na internet, onde dezenas de milhões de pessoas esperam por você? A quantidade gigantesca de pessoas que usam a internet aumenta suas chances de encontrar alguém que atenda melhor suas necessidades particulares.

 

Menor chance de ficar constrangido

O anonimato e a possibilidade de começar e terminar relações utilizando cliques fazem com que seja menos provável ao internauta encarar a humilhação e o constrangimento que acompanham a rejeição cara a cara. É claro, se um usuário postar informações ou fotos de natureza questionável, a chance de constrangimento definitivamente aumenta (como foi o caso de muitos políticos e celebridades nos últimos anos).

 

Habilidade de pré-qualificar amigos em potencial Principalmente em sites de namoro, indivíduos procurando por parceiros têm a oportunidade de descrever aquilo que querem de um pretendente. É claro, nem todas as pessoas que leem as qualificações preenchem os requisitos Muitos indivíduos irão contatar você na internet mesmo quando não possuírem as qualificações desejadas. Mesmo assim, mecanismos de seleção podem ser benéficos para limitar o número de pessoas que entram em contato.

 

Oportunidade para “checar as pessoas”

A internet é rica em informações. Ela fornece uma grande quantidade de informações para aquelas pessoas que sabem como consegui-las ou estão interessadas em aprender mais sobre algo ou alguém. A rede deve ser vista como uma ferramenta para aprender mais sobre a pessoa com quem você está considerando desenvolver uma relação, seja essa pessoa alguém que conheceu na vida real ou no mundo virtual. Obviamente, essa busca de informações é mais importante para potenciais amigos virtuais, pois você não possui a vantagem de juntar informações através de dicas verbais e não verbais disponíveis em interações no mundo real.

Não se pode negar que as comunicações on-line mudaram drasticamente o cenário da busca de amigos e a construção de relações. Enquanto essa forma de interação virtual continuar crescendo em popularidade, terá um impacto ainda maior na maneira como as pessoas desenvolvem relações no futuro.

O que isso tudo significa para você? Citando Charles Dickens: “Pode ser o melhor dos tempos; pode ser o pior dos tempos”. Quando feito corretamente e com as precauções apropriadas, fazer amizades no mundo digital pode ser uma experiência frutífera; entretanto, mergulhar de cabeça em relações virtuais sem a devida atenção aos potenciais riscos é uma receita para o desastre. Antes de ligar seu notebook ou apanhar seu smartphone, aqui vão algumas coisas importantes para lembrar.

CUIDADO: IMORTALIDADE ADIANTE

Facebook. Twitter. Instagram. Salas de bate-papo. Comunidades. E-mail. Blogs. Mecanismos de busca. Sites de namoro. Um verdadeiro mar de oportunidades para buscar e encontrar pessoas que poderiam se tornar amigas ou mesmo parceiras de longo prazo.

Mas tenha medo ou, parafraseando o famoso trailer do filme Tubarão, tenha muito medo do potencial preço que você paga sempre que entra na internet. Qualquer coisa que disser, qualquer site que visitar, qualquer foto que postar, mesmo seus e-mails e mensagens podem ganhar imortalidade instantânea na internet, produzindo pegadas virtuais que, diferente das pegadas reais, não são tão fáceis de limpar!

Além disso, possíveis empregadores, amantes em potencial, perseguidores, empresas e até mesmo agências governamentais estão usando suas atividades virtuais para descobrir coisas sobre você e tomar decisões sobre como tratá-lo, mesmo que a informação usada tenha décadas de idade!

Por favor, não esqueça que aquilo que você postar fará parte da sua identidade… pela eternidade. Sempre que estiver se comunicando pela internet, tenha isto em mente: “Será que eu ficaria constrangido se aquilo que estou prestes a fazer aparecesse na primeira página dos jornais amanhã, daqui a um mês ou em dez anos?”. Se a resposta for “sim” ou “talvez”, pare e pense antes de apertar o botão “enviar”… Isso pode poupá-lo de muita dor e frustração no futuro.

APRENDA E USE A ETIQUETA DIGITAL NA INTERNET

A tecnologia está evoluindo tão rapidamente que as convenções sociais para se usar computadores e smartphones nem sempre acompanham esse ritmo. Mesmo assim, existem algumas regras gerais que poderão deixar a experiência on-line mais segura e agradável para você e aqueles ao seu redor. Isso também aumentará as chances de fazer amigos, ao invés de inimigos, tanto on-line quanto no lugar físico de onde você estiver enviando mensagens, falando ou buscando.

 

Smartphones

Num cinema da Flórida, um homem foi morto com um tiro por usar seu smartphone após as luzes terem se apagado. Provavelmente você não vai passar por uma experiência dessas se escolher enviar mensagens numa situação ou local inadequados; entretanto, existem regras simples a seguir para proteger a si mesmo e a suas informações.

 

1. Todos os dispositivos de comunicação móvel devem ficar em modo

silencioso em qualquer local público onde uma chamada possa ser inadequada.

2. Todos os usuários de dispositivos de comunicação móvel devem evitar usá-

los em qualquer local público ou privado onde a voz possa distrair ou perturbar o ambiente. (Exemplo: ninguém vai a um restaurante para ouvir sua longa conversa sobre os seus problemas em casa ou no trabalho.)

3. Smartphones podem ser hackeados. Fotos e outras informações que você

não gostaria que aparecessem no jornal devem ser removidas do seu aparelho.

4. A maioria das contas de celulares fornece um histórico detalhado das

chamadas. É melhor não se esquecer disso se você gostaria que os outros não soubessem para quem você ligou ou quem ligou para você.

5. Filmar a si mesmo fazendo coisas que, por falta de uma palavra melhor,

possam ser consideradas inadequadas provavelmente não é uma boa ideia. Exemplo: uma mulher do Reino Unido apanhou o smartphone de seu namorado e encontrou imagens dele fazendo sexo com um cachorro. Para piorar, era o cachorro dela! Sua reação não foi reportada.

6. Sexting [sexo escrito] – principalmente quando fotos são incluídas – pode

não ser uma boa ideia, mesmo entre marido e mulher. Essas fotos de um jeito ou de outro acabam aparecendo na internet, principalmente se o

marido e a esposa se divorciam e um deles for uma pessoa vingativa.

7. Não deixe o mundo virtual atrapalhar as relações no mundo real. A

tolerância das pessoas varia em relação a conversas no celular (e o constante checar das mídias sociais) de seus parceiros. Mesmo se o parceiro (ou qualquer pessoa na sua companhia) for mais tolerante do que a maioria, ainda é considerado inadequado atender chamadas, checar mensagens e frequentemente olhar para o celular durante seu tempo juntos. Num capítulo anterior sobre comunicação verbal, apontei o quanto é importante ouvir atentamente a pessoa com quem você está conversando. Isso mostra interesse e respeito, criando um ambiente superior para fazer as pessoas gostarem de você e manter as amizades. Se você insistir em olhar o celular como um cordão umbilical na presença de outras pessoas, não espere o nascimento de uma boa relação.

8. Uma vez que os celulares mantêm seu código de área inicial

(independentemente de onde estejam sendo usados) e, além disso, por causa da transmissão nem sempre ser clara, quando você entregar seu número de celular é importante começar com o código de área e repetir todo o número. Desse jeito, você aumenta suas chances de que a pessoa terá a informação necessária para chamá-lo de volta.

Mensagens eletrônicas (e-mail)

 

1. E-mails se posicionam entre mensagens de texto e cartas quando se trata do

uso de linguagem formal ou informal. Obviamente, e-mails para possíveis empregos ou contatos importantes devem refletir a linguagem de uma carta mais tradicional, com boa escrita e gramática. Dito isso, é aconselhável manter todos os e-mails livres do tipo de abreviação normalmente usado em mensagens de texto instantâneas, e nunca se esqueça de checar erros de digitação antes de enviar o e-mail.

2. Pense cuidadosamente em seu apelido quando usar e-mails. Um apelido

aceitável entre amigos pode ser muito inadequado quando contatar um possível empregador ou o diretor da escola do seu filho. Um dos meus colegas que ensina numa faculdade de administração me mostrou uma lista com seus apelidos favoritos, que incluíam nomes usados pelos alunos quando procuravam por emprego. O primeiro da lista era “melambe”.

3. Não escreva e-mails apenas com letras maiúsculas (DESSE JEITO). Isso é

o equivalente a gritar numa interação verbal, e é considerado grosseria.

4. Nunca escreva um e-mail quando você estiver extremamente irritado ou

perturbado. Num capítulo anterior, enfatizei que as pessoas nesse estado não conseguem pensar direito. Um e-mail escrito durante esse período geralmente reflete essa falta de raciocínio claro. Se você precisa mesmo escrever uma mensagem, não a envie; ao menos não imediatamente. Deixe-a de lado por várias horas e depois leia de novo quando você estiver mais calmo e conseguir pensar claramente. Só então você pode considerar enviar… Provavelmente após várias revisões. Outra boa razão para não enviar imediatamente um e-mail irritado é seu potencial para piorar a situação. O problema pode ser resolvido (ou desaparecer) dentro de algumas horas se for “deixado de lado”. Uma resposta apressada e irritada elimina essa possibilidade.

5. Quando estiver pronto para enviar um e-mail, nunca se esqueça de checar

para quem está sendo enviado. Muitos incidentes constrangedores poderiam ser evitados se o emissor tivesse checado se o destinatário era uma pessoa específica, e não a opção “responder a todos”.

6. Um e-mail pode ser “eterno” (ou ao menos existir na internet por meses, até

mesmo anos). Uma vez que um e-mail é enviado, ele pode ganhar vida própria: pode se reproduzir, ser reenviado, arquivado. Sempre que escrever um e-mail, você deve se perguntar: “O que aconteceria se este e-mail se tornasse público? Eu o enviaria mesmo assim?”.

7. E-mails deletados ainda podem ser recuperados meses após serem

“apagados”. Isso acontece porque muitos servidores de internet “salvam” e-mails deletados em seus computadores. A recuperação de e-mails supostamente “deletados” já revelou muitas informações delicadas sobre indivíduos que pensavam que esses dados haviam sido destruídos com segurança. Muitas vezes, as pessoas descobrem isso de forma perturbadora, quanto estão encarando um tribunal.

8. Nunca abra um anexo de e-mail a menos que tenha certeza de que conhece

a pessoa que o enviou – e que foi realmente essa pessoa quem enviou. (Endereços de e-mail às vezes são acessados ilegalmente e depois usados para enviar mensagens contendo vírus para a lista de contatos da vítima. A mensagem parece legítima, pois foi enviada por um computador invadido.) No geral, é melhor não abrir nenhum anexo, a menos que seja absolutamente necessário. Proteger seu computador com programas antivírus que vasculham os anexos é aconselhável; do contrário, abrir anexos no seu computador se assemelha a fazer sexo sem proteção.

 

Redes sociais (Facebook, Twitter, Tumblr etc.)

1. Os mecanismos de busca das redes sociais variam quando se trata de filtrar

quem pode ou não ver suas postagens. Aprenda sobre esses filtros para usá-los adequadamente.

2. Pense que qualquer coisa que você postar numa rede social pode ser

acessada e reproduzida por outras pessoas. Além disso, tenha em mente que aquelas fotos em que você aparece bebendo e se divertindo em festas poderão um dia ser acessadas por um possível empregador, um parceiro em potencial ou mesmo seus pais e sogros!

3. Como regra geral, é melhor limitar suas pegadas digitais. Uso excessivo de

redes sociais aumenta sua trilha virtual e pode causar problemas no futuro.

4. Tenha cuidado com quem você adiciona como amigo!

 

DETETIVES DIGITAIS

 

Como você já deve ter percebido, eu viajo bastante. Certa vez, me aproximei do balcão no aeroporto em Nashville para ver se conseguiria embarcar num voo mais cedo, mas esta história não é sobre conseguir um voo melhor. Os funcionários no balcão, um homem e uma mulher, estavam inspecionando atentamente uma câmera digital muito cara. Ouvi comentarem um com o outro: “Não há nenhum nome marcado ou informações sobre o dono. Temos que descobrir de quem é e devolver”. Perguntei o que estavam fazendo. Ao mesmo tempo, eles responderam: “Nós somos os agentes do ‘FBI’ da American Airlines”. Eu disse que era um agente do FBI de verdade, embora já aposentado. Perguntei como poderiam descobrir quem era o dono sem qualquer pista. O homem explicou que eles ligariam a câmera e buscariam pistas nas fotos. Fiquei intrigado enquanto observava os dois no processo de resolver aquele enigma digital. Enquanto vasculhavam as fotos datadas, juntavam as pistas. O dono era um homem de descendência espanhola. Parecia que tinha passado três dias em Las Vegas, provavelmente a trabalho, pois não havia fotos de família. Tinha se hospedado no hotel Bellagio. Eles continuaram vasculhando as fotos. A mulher exclamou de repente: “Encontrei!”. Mostrou-me uma foto que havia sido tirada na semana anterior. Mostrava uma casa de madeira com detalhes em azul. Olhei para a foto, mas não

entendi por que ela ficou tão animada. Apontou para a casa e disse: “Esse tipo de casa geralmente é construída no noroeste do país”. Certo, pensei, e daí? Ela então me mostrou uma placa de venda que quase não dava para enxergar. “Certo”, eu disse, sem entender direito a importância da placa. Ela usou o zoom da câmera para anotar o endereço e o telefone da imobiliária, que ficava em Columbia, na Carolina do Sul. Finalmente entendi. “O dono provavelmente morava em Columbia, pois as pessoas geralmente não tiram fotos de casas para vender a menos que estejam considerando comprar.” A mulher acrescentou: “Um voo saiu mais cedo para Columbia, na Carolina do Sul”. Ela acessou a lista de passageiros e, felizmente, havia poucos nomes de origem espanhola. Tive que embarcar em meu voo, mas tenho certeza de que os investigadores da American Airlines localizaram o dono e devolveram a câmera. Fiquei impressionado com a facilidade para descobrir a trilha do dono da câmera usando apenas algumas pistas digitais abstratas, e ainda mais impressionado pelo trabalho dos funcionários para devolver a câmera. Eles disseram que devolviam muitos aparelhos esquecidos usando métodos semelhantes. A moral da história é que, num mundo digital, é difícil se manter anônimo. Tenha isso em mente da próxima vez que postar algo na internet ou fizer algo tão simples quanto tirar uma foto.

O QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE DESENVOLVER RELAÇÕES ON-LINE

A internet fornece um ambiente fértil para amizades crescentes e até mesmo relações para a vida toda. Isso levou ao desenvolvimento de sites que facilitam o “namoro” virtual e a busca de parceiros ideais. As pessoas que criam esses sites afirmam seu sucesso em juntar as “almas gêmeas” usando mecanismos de busca com o quais as pessoas se encontram on-line e, eventualmente, estabelecem compromissos de longo prazo no mundo real.

Usar a internet para encontrar a pessoa certa pode ser uma experiência recompensadora. E também pode ser um verdadeiro inferno. Como será a sua experiência depende de muitos fatores, a maior parte dos quais será discutida aqui. Embora ninguém possa garantir que suas relações virtuais serão bem-sucedidas e livre de problemas, existem algumas coisas que você pode fazer para aumentar as chances de ter resultados positivos – e reduzir os negativos – quando se trata de escolher amigos e potenciais parceiros na internet.

AMOR AO PRIMEIRO CLIQUE

O jovem rapaz era uma estrela do futebol americano do time do Notre Dame que se apaixonou por uma garota que conheceu na internet. Mas então aconteceu uma tragédia: sua amada morreu de leucemia. Para piorar as coisas, ela morreu no mesmo dia que a avó do jogador faleceu.

A tragédia dupla do jogador se tornou assunto nacional. Mas a história logo foi eclipsada por uma história ainda maior: acontece que a garota não havia morrido, pois, em primeiro lugar, nunca viveu! Ela era uma pessoa criada na internet por alguém com um senso de humor mórbido.

E temos também a saga de Sana e Adnan Klaric. Aparentemente, seu casamento não estava indo bem, e então, sem o conhecimento um do outro, os dois assumiram um apelido falso, Sweetie e Prince of Joy, respectivamente, e entraram numa sala de bate-papo reclamando do casamento e buscando por uma nova alma gêmea.

Levou um tempo, mas finalmente os dois encontraram interlocutores que pareciam se identificar com seus problemas e forneciam as palavras de conforto de que eles tanto sentiam falta no casamento.

Sana e Adnan sabiam que tinham achado o verdadeiro amor de suas vidas. Eles concordaram em encontrar seus novos parceiros num local e hora pré-determinados. No grande dia, ambos arranjaram desculpas para o cônjuge, certificando-se de que sua indiscrição não seria detectada. Então saíram para encontrar seus amores virtuais, que pareciam os substitutos perfeitos para o que tinham em casa.

Quando chegaram no local combinado, Sana e Adnan encontraram seus amores virtuais pela primeira vez. E não foi amor à primeira vista. Acontece que eles estavam tendo um caso on-line um com o outro sem saber disso.

Talvez seja melhor deixar para os especialistas decidirem se Sana e Adnan estavam sendo infiéis, já que é difícil imaginar cometer adultério com seu próprio parceiro; entretanto, Sweetie e Prince of Joy não gostaram da situação e, até onde se sabe, acusaram um ao outro de infidelidade e pediram divórcio.

O que todas essas histórias demonstram?

 

1. Relações desenvolvidas na internet podem ser tão poderosas quanto aquelas

desenvolvidas em interações face a face, às vezes até mais.

2. Na internet, as coisas nem sempre são o que parecem.

3. Se um físico de alto padrão pode ser enganado na internet, então isso

provavelmente pode acontecer também com você.

4. Existem pessoas mal-intencionadas povoando a internet assim como o

mundo real.

5. Fraudes envolvendo relações na internet são mais comuns do que se pode

imaginar. Elas se tornaram tão comuns que um documentário, uma série da MTV e um longa-metragem foram lançados baseados nesse problema. Isso até ganhou um nome, catfish, que se refere, segundo o advogado especialista em internet Parry Aftab, a “qualquer pessoa que finge ser outro indivíduo em redes sociais. Acontece o tempo todo”. Incrementei a expressão para “catphish”, para incluir também os hackers que usam uma atividade chamada “phishing”, que rouba a identidade das pessoas on-line.

6. Por causa do “manto de sigilo” que a internet fornece, as pessoas dizem

coisas no mundo virtual que nunca diriam numa interação pessoal.

7. Na internet, assim como na vida real, se for bom demais para ser verdade,

então provavelmente é! Redes sociais podem ser perigosas. Nenhuma comunicação postada na internet possui garantia de permanecer privada. Você deve assumir que suas postagens são permanentes e públicas.

8. Assim como em comunicações face a face, fingir ser outra pessoa

geralmente leva a resultados desagradáveis.

9. Existem coisas que você pode fazer para navegar de um jeito mais seguro e

eficaz. Nas próximas páginas você poderá encontrar algumas sugestões que podem não ser relevantes para quem está procurando o amor na internet, mas serão úteis para qualquer pessoa buscando amigos no mundo virtual.

TESTANDO A VERACIDADE NO MUNDO VIRTUAL E NO MUNDO REAL

Deixar nossos filhos adolescentes explorarem livremente a internet, principalmente minha filha, foi uma proposta assustadora para mim e minha esposa. Então ensinei a eles algumas técnicas que eu usava em suspeitos para determinar se estavam falando a verdade. Fiz isso para ajudar a protegê-los de predadores virtuais e reais. Agora ofereço a você essas técnicas pela mesma razão, para ajudá-lo a se proteger contra comunicações enganadoras tanto on-line quanto off-line. Os resultados desses testes de veracidade aparentemente inócuos não são prova absoluta de fraude, mas fornecem fortes indicadores de que alguém pode estar mentindo ou, no mínimo, forçando a verdade para além de limites aceitáveis.

A TÉCNICA DO “ENTÃO…”

Quando você faz uma pergunta direta do tipo “sim ou não” e a pessoa começa a resposta com um “então…”, existe uma alta probabilidade de você ouvir uma mentira. Isso indica que a pessoa respondendo a questão está prestes a oferecer uma resposta que ela sabe que você não está esperando. A seguinte conversa mostra a técnica em ação.

 

Pai: Você terminou a lição de casa?

Filha: Então…

Pai: Vá para seu quarto e termine a lição.

Filha: Como você sabe que eu não terminei?

Pai: Sou um pai. Eu sei essas coisas.

 

O pai não precisou esperar a filha terminar de responder porque ela evitou responder diretamente. Sabia que o pai esperava um “sim” para a pergunta.

Em outro exemplo, interroguei uma pessoa que eu achava que havia testemunhado um assassinato. A pessoa estava próxima da cena do crime, mas negou ter visto qualquer coisa. Após ter me dado algumas respostas evasivas, decidi testar sua veracidade perguntando uma questão direta do tipo “sim ou não”.

 

Eu: Você viu o que aconteceu?

Testemunha: Então… de onde eu estava era difícil ver qualquer coisa. Estava escuro e tudo aconteceu muito rápido.

 

Fiz uma pergunta direta para a qual ele sabia que eu esperava um sim. Uma vez que começou a resposta com “então…”, eu soube que estava prestes a responder algo diferente. Deixei a testemunha terminar de responder para não alertá-la da minha técnica.

A técnica do “então…” só funciona com perguntas diretas do tipo “sim ou não”. Começar uma resposta com “então” depois de uma pergunta aberta como “Quem vai ganhar o campeonato?” indica que a pessoa está avaliando como responder. Você deve permitir que os outros terminem suas respostas para não alertá-los sobre a técnica. Não se esqueça de que, se o interlocutor perceber a técnica, irá começar a evitar usar o “então” deliberadamente.

Pratique o hábito de usar questões diretas do tipo “sim ou não” e fique atento às respostas. Responder uma questão dessas com “então…”, ou não responder diretamente, é um forte indicador de mentira, e será necessária uma investigação maior.

A TERRA DO É

Quando as pessoas escolhem não responder com sim ou não, elas entram na Terra do É. A Terra do É, em inglês The Land of Is, ocupa o espaço entre a verdade e a mentira por causa das várias conotações que a palavra “is” pode receber na língua inglesa. Essa área cinzenta contém um labirinto de meias-verdades, desculpas e suposições. A famosa declaração do ex-presidente Bill Clinton para o tribunal inspirou o conceito da Terra do É. Parafraseando o que Clinton disse: “Depende de qual é o significado da palavra é [nessa declaração]. Se é [naquela frase específica] significar ‘nunca aconteceu’, então isso é uma coisa. Se significar ‘não existe’, o depoimento foi absolutamente verdadeiro”. Clinton espertamente levou o promotor para a Terra do É para evitar responder diretamente a questão do tipo “sim ou não”.

A seguinte conversa entre uma mãe e sua filha demonstra essa técnica.

 

Mãe: Sua professora ligou hoje e disse que suspeita que você colou na prova. Você fez isso?

Filha: Eu passo duas horas estudando de noite. Estudo mais do que qualquer pessoa que eu conheço. As pessoas que não estudam são aquelas que precisam colar nas provas. Eu estudo o tempo todo. Não me acuse de cola!

Mãe: Não estou acusando você de nada.

Filha: Está sim!

 

A mãe perguntou uma questão direta do tipo “sim ou não”. A filha escolheu não responder com uma simples resposta, e em vez disso levou a mãe para um passeio na Terra do É. Terminou a resposta com uma acusação, o que fez a mãe entrar na defensiva. O assunto já não era sobre trapacear, mas sobre a mãe fazendo acusações infundadas.

A mãe poderia se prevenir contra a Terra do É reconhecendo que a técnica estava sendo usada e depois redirecionando a conversa de volta para o assunto inicial. Por exemplo:

 

Mãe: Sua professora ligou hoje e disse que suspeita que você colou na prova. Você fez isso?

Filha: Passo duas horas estudando de noite. Estudo mais do que qualquer pessoa que eu conheço. As pessoas que não estudam são aquelas que precisam trapacear nas provas. Eu estudo o tempo todo. Não me acuse de cola!

Mãe: Eu sei que você estuda muito e tem boas notas. Não foi isso que perguntei. Perguntei se você colou ou não na prova. Você colou na prova?

Redirecionar a conversa de volta para a questão inicial força a filha a responder a pergunta “Você colou na prova?”. Ela deve responder sim ou não ou voltar para a Terra do É. Não usar “sim ou não” para responder a esse tipo de pergunta não é prova de mentira, mas a probabilidade aumenta significativamente. Se a filha não tivesse trapaceado, responder “não” seria fácil. A verdade é simples. A verdade é direta. A verdade não é complicada.

POR QUE EU DEVERIA ACREDITAR EM VOCÊ?

Quando alguém responder a uma pergunta que você fez, simplesmente pergunte de volta “Por que eu deveria acreditar em você?”. Pessoas honestas geralmente respondem “Porque estou falando a verdade”, ou alguma variação disso. Pessoas honestas simplesmente transmitem informações. Eles se concentram na apresentação correta dos fatos. Por outro lado, os mentirosos tentam convencer as pessoas de que aquilo que estão dizendo é verdade. Seu foco não é apresentar os fatos corretamente, mas convencer o ouvinte de que os fatos apresentados são verdadeiros. Uma vez que os mentirosos não podem depender de fatos para estabelecer sua credibilidade, tendem a se vangloriar de sua credibilidade para fazer sua versão dos fatos parecer crível.

Quando as pessoas respondem com outra coisa que não seja “Porque estou falando a verdade” ou suas variações, diga a elas que isso não respondeu à questão e repita “Por que eu deveria acreditar em você?”. Se mais uma vez elas não responderem com “Porque estou falando a verdade” ou suas variações, a probabilidade de mentira aumenta. A seguinte conversa entre pai e filho demonstra essa técnica.

 

Pai: Havia dez dólares na minha gaveta hoje de manhã. Não estão mais lá.Você pegou dinheiro na minha gaveta por alguma razão?

Filho: Não.

Pai: Filho, eu quero acreditar em você. Mas está difícil. Diga-me. Por que eu deveria acreditar em você?

Filho: Não sou ladrão.

Pai: Não perguntei se você é ladrão ou não. Perguntei por que eu deveria acreditar em você. Por que eu deveria acreditar em você?

Filho: Porque eu não roubei o dinheiro. Estou dizendo a verdade.

Pai: Eu sei que está e acredito em você.

 

Nessa conversa, o filho respondeu dizendo que não era ladrão. Isso não respondeu a questão “por que eu deveria acreditar em você?”. O pai deu outra chance dizendo que a pergunta não era sobre ele ser ladrão ou não, mas “por que eu deveria acreditar em você?”. Então, o filho respondeu “Porque eu não roubei o dinheiro. Estou dizendo a verdade.”, o que indica que ele provavelmente estava dizendo a verdade. A resposta correta à questão não significa necessariamente que ele disse a verdade, mas diminui as chances de estar mentindo.

Em conversas, principalmente na internet por mensagens de texto, use essas técnicas simples e não invasivas para testar a veracidade do interlocutor. Elas são tão sutis que ninguém perceberá que está sendo testado. Embora sejam apenas indicadores de mentira, e não provas, elas fornecem uma forte linha de defesa contra predadores on-line.

DETECTANDO MENTIRAS EM PERFIS DE REDES SOCIAIS

A maioria das pessoas não descrevem a si mesmas com precisão em perfis de redes sociais, principalmente em sites de namoro. Os pesquisadores Toma, Hancock e Ellison pesquisaram pessoas que enviaram perfis para vários sites de namoro. Impressionantes 81% dos usuários mentiram sobre um ou mais de seus atributos físicos, incluindo altura, peso e idade. As mulheres tendiam a mentir sobre o peso, e homens tendiam a mentir sobre a altura. Mulheres com peso maior do que a média mentiam mais sobre seu grau de obesidade. Igualmente, homens cuja altura fugia da média mentiam mais sobre o quanto eram altos. As pessoas que responderam à pesquisa relataram que teriam mais chances se mentissem sobre sua aparência do que sobre informações como estado civil e o número de filhos que possuíam.

Num outro estudo de Hancock e Toma, eles descobriram que cerca de um terço das fotos examinadas não eram precisas. As fotos das mulheres eram consideradas menos precisas do que as fotos dos homens. As mulheres tendiam a ser mais velhas do que as fotos mostravam. Havia mais probabilidade de as fotos femininas terem sido editadas no Photoshop ou clicadas por profissionais. Além disso, pessoas menos atraentes tendiam a incrementar mais seus perfis. O achado mais interessante foi que, embora as pessoas mentissem frequentemente em seus perfis, tentavam manter as alterações dentro de parâmetros críveis para o caso de encontrarem pessoalmente seus pretendentes.

A magnitude das mentiras em perfis de redes sociais não é uma grande surpresa. Um perfil desses é o equivalente a um primeiro encontro. Qualquer pessoa que já viveu um primeiro encontro irá se lembrar de tentar impressionar. (Assim como numa entrevista de emprego, quando vestimos nosso melhor terno.) Em primeiros encontros, as mulheres se vestem com grande cuidado e gastam uns minutos a mais aplicando a maquiagem. Os homens se certificam de que suas roupas combinam. Conversas são ensaiadas previamente. Falhas de personalidade e comportamentos estranhos são cuidadosamente camuflados com uma educação impecável. Esses cuidados extras são feitos para causar a melhor primeira impressão possível.

Mostrar o seu melhor lado num primeiro encontro não é considerado uma falsidade porque esse lado ainda é reconhecidamente seu, embora seja um lado melhorado. As pessoas que se apresentam na internet deveriam tentar exibir um lado positivo em seus perfis, mas permanecer dentro dos limites da verdade em relação a fotos e à descrição de quem são. Da mesma maneira, quem usa a internet para buscar relações em potencial deve aprender a olhar perfis com certa desconfiança, reconhecendo que o dono do perfil nunca parecerá mais atraente ou qualificado do que a foto ou descrição postada.

Os homens e as mulheres sentem a necessidade de alcançar padrões de beleza que a sociedade estabelece e que a mídia reforça. Mentem para se aproximar desses padrões numa tentativa de atrair amigos ou parceiros. Quem acha que não alcança esses padrões se sente menos atraente e tem menos confiança de poder atrair ou manter um parceiro sem mentir. Isso não mudará no futuro próximo; ao contrário, provavelmente se intensificará com a crescente popularidade das redes sociais e dos sites de namoro.

Qualquer um que busque relações na internet deve estar ciente da linha que separa um perfil com a “melhor impressão” de um perfil mentiroso. Um perfil mentiroso pode atrair um amigo ou pretendente, mas, uma vez que a mentira for descoberta, a decepção, a falta de confiança e a traição se tornarão a peça central da relação, no lugar da excitação, da esperança e dos sonhos. Se você quiser se aventurar no mundo das relações via internet, seja honesto em seu perfil e seja paciente. A relação certa faz a espera valer a pena.

COMO REDUZIR AS CHANCES DE CAIR NUMA ROUBADA

Uma rápida olhada, um movimento de cabeça ou uma leve mudança no tom de voz fornecem dicas sobre a personalidade, a sinceridade ou a veracidade de uma pessoa. Como já citamos neste livro, nosso cérebro constantemente monitora dicas verbais e não verbais para avaliar se os outros são ou não potenciais ameaças. Se as dicas forem sinais amistosos, então o cérebro tende a ignorar os comportamentos. Se forem sinais inimigos, ele inicia a reação “lutar ou fugir” e nós ativamos os escudos para nos proteger contra a potencial ameaça.

Dicas verbais e não verbais podem passar por mudanças dramáticas numa fração de segundo. Monitorar essas mudanças pode significar a diferença entre a felicidade ou o inferno numa relação. As pessoas se sentem mais confortáveis usando dicas verbais e não verbais para avaliar os outros, e dependem muito desse método para proteger a si mesmas contra iniciar ou continuar uma relação ruim.

Relações de internet não possuem essas dicas necessárias para as pessoas fazerem julgamentos semelhantes. Emoticons ajudam a decodificar comunicações escritas, mas isso não é suficiente. Decodificar a personalidade, sinceridade e veracidade de um interlocutor invisível requer habilidades adicionais com a comunicação virtual. As pessoas não conseguem julgar direito seus parceiros na internet porque as dicas que normalmente recebem em interações face a face simplesmente não existem. O método mais confiável que possuem para avaliar os outros não está disponível. Elas precisam confiar em técnicas novas que ainda não foram testadas. O cérebro não juntou informações suficientes para discriminar entre sinais amistosos ou inimigos em comunicações da internet. Adquirir esse tipo de habilidade leva tempo. Aqui vão alguns dos problemas em potencial que você pode encontrar quando tentar determinar a veracidade e o valor de relações virtuais em potencial.

VIÉS DA VERDADE

Os seres humanos tendem a crer uns nos outros. Esse fenômeno, conhecido como viés da verdade, permite à sociedade e ao comércio funcionarem de um jeito eficaz. Se o viés da verdade não existisse, passaríamos uma grande quantidade de tempo checando informações recebidas dos outros. O viés da verdade também serve como um padrão social. Relações com amigos e colegas de trabalho se tornariam tensas se fosse preciso constantemente questionar sua veracidade. Consequentemente, geralmente acreditamos nos outros até que surjam evidências do contrário.

O viés da verdade fornece aos mentirosos uma vantagem, pois as pessoas querem acreditar naquilo que ouvem, veem ou leem. Mas ele diminui quando há consciência da possibilidade de embuste. O viés da verdade predispõe as pessoas a acreditarem naquilo que leem em e-mails e mensagens de texto. Sem as dicas verbais e não verbais, a veracidade de comunicações escritas não é tão facilmente questionada.

Outra característica do viés da verdade aparece quando os indivíduos percebem as pequenas contradições numa história contada: eles tendem a ignorar essas discrepâncias porque, do contrário, estariam questionando as palavras e o comportamento do mentiroso. É mais fácil ignorar pequenas discrepâncias do que confrontar o interlocutor. A melhor defesa contra o viés da verdade no mundo virtual é exercer seu ceticismo saudável e usar a técnica da “hipótese contrária”, que veremos a seguir.

O EFEITO DE PRIMAZIA

O viés da verdade cria o efeito de primazia. O efeito de primazia, como você se

lembra do Capítulo 3, gera um filtro através do qual enxergamos as comunicações e eventos. O efeito de primazia não muda a realidade, mas altera nossa percepção da realidade. O viés da verdade cria um filtro de primazia. Qualquer coisa que uma pessoa escreva tende a ser avaliada como verdadeira, a menos que exista algo que desperte a dúvida. Sem as dicas verbais e não verbais, os indivíduos ficam em desvantagem quando precisam julgar a comunicação escrita na internet.

A HIPÓTESE CONTRÁRIA

Criar uma hipótese contrária previne que o viés da verdade e o efeito de primazia prejudiquem sua habilidade de julgar o caráter e a veracidade de quem está escrevendo para você. Hipóteses não passam de palpites incrementados. Uma hipótese contrária é um palpite incrementado que supõe um resultado diferente baseado nas mesmas circunstâncias.

Por exemplo, digamos que uma hipótese diz que a pessoa que escreveu para você é honesta e está dizendo a verdade. Uma hipótese contrária diria que a pessoa que escreveu é um impostor e mentiroso. Durante suas conversas na internet (por exemplo, com mensagens instantâneas) você deve buscar evidências para fundamentar sua hipótese inicial (o emissor é honesto e diz a verdade) ou a hipótese contrária (o emissor é um impostor e mentiroso).

Raramente todas as evidências apoiam a hipótese inicial ou a hipótese contrária, pois pessoas honestas dizem e fazem coisas que podem parecer desonestas, assim como pessoas desonestas geralmente dizem e fazem coisas que parecem honestas. Mas no fim, o peso da evidência deve apoiar uma hipótese em detrimento da outra. Combater os efeitos do viés da verdade e o efeito de primazia reduz sua chance de ser enganado na internet.

LEIS DA ATRAÇÃO

Como discutimos no Capítulo 4, pessoas atraentes recebem tratamento preferencial e mais atenção do que indivíduos menos atraentes. O efeito da beleza física é reduzido nas comunicações da internet, a menos que uma foto acompanhe o perfil on-line. Tenha em mente que é normal mentir nos perfis para aumentar a habilidade de atrair parceiros. Uma vez que não existe interação face a face na troca de mensagens, não há um ponto de referência para julgar essas comunicações.

O contraste possui um importante papel na atração. Quando duas pessoas estão juntas, elas tendem a ser comparadas uma com a outra. Na ausência de uma segunda pessoa para fazer comparações, um indivíduo tende a comparar o outro com uma pessoa “ideal”. Quando você conversa com alguém na internet via texto, terá a tendência de comparar seu interlocutor com essa pessoa idealizada. Com o tempo, há a tendência de atribuir as características desta “pessoa ideal” àquela com quem você está conversando na internet. Essa atribuição errônea aumenta a chance de que você seja vítima de um embuste.

CONSTRUINDO A CONEXÃO

Construir conexão na internet depende apenas do texto escrito, assumindo que não seja usado nenhum tipo de transmissão de fotos ou vídeos. Isso limita a técnica que as pessoas normalmente usam para estabelecer conexão em comunicações face a face. Com já mencionado neste livro, encontrar algo em comum é uma poderosa técnica para estabelecer conexão. Para encontrar algo em comum com alguém na internet, você deve revelar informações pessoais para a pessoa com quem está trocando mensagens. Revelar esse tipo de informação é outra técnica poderosa para desenvolver conexão. Uma vez que as comunicações na internet são anônimas, há a tendência a revelar mais informações, e a fazer isso mais rapidamente do que se faria cara a cara. Uma razão para isso é que o emissor não possui dicas verbais e não verbais sobre a aceitação ou rejeição da informação pelo receptor.

Quando as pessoas recebem dicas de rejeição em comunicações face a face, tendem a parar de revelar informações. Isso não acontece na internet. De fato, como resultado tende-se a aumentar a revelação de informações pessoais delicadas. Isso eleva a relação a um patamar mais alto. Consequentemente, pula-se um degrau vital no processo de desenvolvimento da relação. Durante esse passo vital em comunicações cara a cara, os possíveis parceiros têm uma oportunidade para lentamente revelar informações usando dicas verbais e não verbais, dando ritmo ao desenvolvimento da relação e à liberação de informações. Se as coisas derem errado durante esse passo inicial, as duas pessoas podem se separar sem terem revelado demais. Por causa da ausência desse patamar vital nas comunicações escritas, nas quais não há interação face a face, as chances de ser enganado aumentam.

Recrutar pessoas para espionar para os Estados Unidos segue um caminho semelhante na construção da relação. É preciso paparicar os espiões. Os passos necessários para desenvolver amizades próximas ou relações amorosas são os mesmos para convencer uma pessoa a se tornar um espião. Em muitos casos, tentei apressar a relação por causa das demandas operacionais. Esses recrutamentos sempre falhavam, porque eu pulava o passo inicial para o desenvolvimento de relações. Ele é crucial. Revelar informações demais cedo demais irá prejudicar a relação. Seu alvo irá se afastar. Como mencionado antes, um parceiro é visto como “rápido” demais ou “lento” demais se os passos esperados para o desenvolvimento da relação são apressados ou desacelerados. Relações de internet muitas vezes violam essas expectativas porque os parceiros são lançados a um patamar mais alto antes de estarem preparados psicologicamente para isso, o que cria vulnerabilidades para ambos.

INVESTIMENTO EMOCIONAL

Quanto mais durar o relacionamento virtual, mais provavelmente os parceiros continuarão nessa relação por causa do profundo investimento emocional. Isso não significa que sejam um bom casal; mas, por terem passado muito tempo na interação, eles não sentem que podem simplesmente desistir e, além disso, a relação se desenvolveu até um ponto onde o volume de informações reveladas cria vulnerabilidades tão grandes que impedem o rompimento.

 

UM EXEMPLO DE COMO O INVESTIMENTO EMOCIONAL

FUNCIONA NO MUNDO REAL

 

Para ilustrar como o investimento emocional afeta o comportamento, deixe-me ilustrar como você pode usá-lo para sua vantagem em certas situações, principalmente quando fizer compras caras. Vamos supor que você quer comprar um carro novo. Nesse caso, você primeiro encontra o carro que deseja e depois diz ao vendedor que irá comprá-lo hoje se conseguir o preço certo. Depois apanhe seu talão de cheques e escreva a data e o nome da concessionária. Explique para o vendedor que só falta escrever o valor no cheque e assinar. Esse cheque parcialmente preenchido envia a mensagem de que você está seriamente pensando em comprar o carro. Diga o preço que você quer e espere a reação do vendedor.

Numa certa ocasião em que tentei isso, negociei um carro por mais de oito horas! No fim do turno da vendedora, ela cedeu. Justificou dizendo que passou oito horas negociando comigo e, se não concluísse a venda, teria perdido seu tempo, um tempo que poderia ter gasto com outros clientes. O investimento emocional que ela colocou na negociação fez uma pressão psicológica para que aceitasse minha proposta ridiculamente baixa; de outra maneira, ela teria que encarar a perspectiva do fracasso.

DISSONÂNCIA COGNITIVA

Dissonância cognitiva ocorre quando um indivíduo possui duas ou mais ideias conflitantes ao mesmo tempo. As pessoas continuam com relações de internet, mesmo quando sabem que a relação deveria terminar, para evitar a dissonância cognitiva. Elas não querem acreditar que seu interlocutor não é aquilo que diz ser, pois isso cria dissonância cognitiva.

Pense em você mesmo como exemplo. Você enxerga a si mesmo como uma pessoa esclarecida e distinta. Também adora a pessoa que conheceu na internet e com quem se comunica. Se admitir que foi enganado, então você é ingênuo e crédulo; portanto, você se recusa a acreditar que seu interlocutor virtual é um impostor, para evitar a sensação ruim causada pela dissonância cognitiva.

Manti Te’o, o jogador de futebol americano do Notre Dame que foi vítima de um predador on-line, expressou o conflito causado pela dissonância cognitiva neste comentário sobre sua experiência: “Falar sobre isso é incrivelmente constrangedor, mas por um grande período desenvolvi uma relação emotiva com uma mulher que conheci na internet. Nós mantivemos aquilo que eu achava que era uma relação autêntica, nos comunicando frequentemente pela internet e pelo telefone, e eu passei a gostar muito dela. Admitir que fui vítima da piada grotesca e das mentiras de alguém foi, e ainda é, doloroso e humilhante… Eu obviamente deveria ter tido mais cuidado. Se algo de bom pode sair disso é a esperança de que outros serão mais vigilantes do que eu fui quando conhecerem alguém pela internet”.

EXPONDO MENTIROSOS

Para não cair nas armadilhas dos mentirosos, force o interlocutor a se mostrar no mundo real, onde você possa usar suas habilidades para detectar sinais verbais e não verbais, verificando se ele corresponde ao seu perfil on-line e se a relação parece tão boa “sob a luz do sol” como parece na tela do computador. Durante os estágios iniciais de uma relação on-line, você deve estar ciente que a falta de dicas não verbais o deixa em desvantagem. Pense em hipóteses contrárias para impedir que a relação se desenvolva rápido demais.

Sempre assuma que você é vítima de um mentiroso até que surjam evidências visuais que provem o contrário. Insista em encontros face a face o mais cedo possível. Esse encontro deve acontecer num local público e com muitas pessoas, para reduzir a possibilidade de qualquer perigo pessoal. Além disso, para deixar o encontro mais confortável para ambos, é recomendável que ele seja algo casual e de duração relativamente curta; um café na lanchonete ou um almoço são suficientes.

Se um encontro face a face não for algo prático, insista em algum tipo de comunicação visual, como Skype ou outro serviço semelhante. Um parceiro de internet que usa muitas desculpas para evitar um encontro face a face ou pelo Skype está enviando fortes sinais de que algo está errado. Nesse ponto, você deveria imediatamente terminar sua relação on-line. Do contrário, pode se ver em considerável perigo.

Exigir um encontro visual logo cedo numa relação é uma técnica simples, mas eficaz, para evitar cair numa armadilha. Encontros visuais permitem checar dicas não verbais que ajudam a avaliar a veracidade do seu parceiro. O contato visual também previne o desenvolvimento da idealização de uma pessoa desconhecida. Desenvolver hipóteses contrárias reduz o efeito do viés da verdade. A necessidade de revelar informações pessoais íntimas é reduzida em encontros face a face, prevenindo portanto que as relações se desenvolvam rápido demais. Diminuir a velocidade da relação reduz seu investimento emocional, minimizando assim o custo emocional de um possível rompimento.

Em relações genuínas, as pessoas gostam de se comunicar visualmente, principalmente no começo da relação. Elas se sentem mais confortáveis em relações visuais porque podem usar as habilidades sociais que possuem para avaliar os outros de um jeito mais eficaz. Encontros visuais expõem os mentirosos e anulam suas vantagens.

UMA NOVA GERAÇÃO: FIQUE LIGADO, SINTONIZADO, E TOME CUIDADO

É simplesmente impossível negar que o advento das comunicações virtuais alterou dramaticamente o cenário da busca de parceiros e da construção de relações. Enquanto as interações on-line continuarem a crescer em popularidade, seu impacto será ainda maior na maneira como relações serão formadas no futuro.

Ao se conscientizar dos perigos da internet já mencionados, e usando as técnicas que já recomendei para minimizá-los, é possível conquistar relações virtuais significativas. De fato, por razões listadas no começo deste capítulo, esse pode ser o método preferido para se conectar com pessoas no estágio inicial da construção da relação.

Usada com o devido cuidado e senso comum, a internet é mais uma ferramenta para encontrar e desenvolver relações curtas ou para a vida inteira. Por outro lado, usada sem o devido cuidado, sem se preocupar com as informações passadas e recebidas, essa ferramenta pode levar à frustração ou mesmo a potenciais desastres. Numa análise final, a maneira como você usa o universo digital irá determinar o valor que ele tem, bom ou mal, na qualidade da sua vida e das suas relações.