Manual de Persuasão do FBI

Jack Shafer · Capítulo 8 de 13

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Manual de Persuasão do FBI

7. Nutrir e sustentar relações de longo prazo

7

 

NUTRIR E SUSTENTAR RELAÇÕES

 

DE LONGO PRAZO

 

As pessoas não se importam com o que você sabe; elas querem descobrir o

quanto você se importa.

— ZIG ZIGLAR

 

Todas as relações de longo prazo começam como relações de curto prazo e se desenvolvem, como todas as amizades, através de entendimento e da utilização de todas as ferramentas para construir e sustentar a conexão. Com o passar do tempo, algumas de nossas relações de amizade se tornam relações amorosas. Quando uma relação amadurece até se tornar uma interação de amor, um novo foco comportamental é necessário para manter a paixão e a parceria intactas e intensas.

Esse novo sentimento, simples de entender mas difícil de manter, é o afeto. Pense um pouco em todas as pessoas que você conhece mais do que casualmente, como família, amigos, colegas e mentores. Depois, pergunte a si mesmo: “Por quais desses indivíduos eu sinto mais estima e realizaria seus desejos mais voluntariamente?”. Provavelmente essa pessoa é alguém que você acredita que se importa com você. É possível perceber isso nas ações e no comportamento dela em geral.

Tentar definir o afeto é um pouco como tentar definir o termo pornografia. Quando um juiz da suprema corte precisou definir esse termo, ele respondeu: “Não posso definir, mas posso reconhecer quando vir”. Isso também acontece com o afeto. Tentar definir com palavras a essência desse sentimento é quase impossível, mas podemos reconhecê-lo imediatamente quando estamos diante dele. Afeto diz respeito ao coração, não à mente. É algo que vai além de interações robóticas, intelectuais e superficiais, e toca na própria essência de quem nós somos em nossas emoções mais profundas.

O afeto nos permite alcançar os níveis mais altos de uma relação, e podemos separar quatro componentes que nos mostram o que precisamos fazer para demonstrar afeto eficientemente: a) ter compaixão/preocupação; b) ouvir atentamente; c) dar reforço; d) sentir empatia.

Vamos examinar cada um desses componentes para ajudar a definir o que deve ser feito para manter relações de longo prazo felizes e saudáveis.

A) COMPAIXÃO/PREOCUPAÇÃO

Pessoas afetuosas mostram uma preocupação honesta pelo outro, não um comentário de passagem ou uma resposta irreverente para alguém que está sofrendo, mas uma genuína sensação de compaixão por aquilo que o outro está experimentando e um compromisso para ajudar a melhorar as coisas. Em relações de longo prazo haverá muitos momentos em que um ou ambos os parceiros enfrentarão crises. É nesse momento que o verdadeiro nível de preocupação, ou falta dela, se torna evidente. É relativamente fácil manter uma relação de longo prazo quando tudo vai bem, mas é no meio de uma crise que o verdadeiro caráter de um indivíduo se revela e se mostra maravilhoso ou deficiente.

De certa maneira, poucas coisas são tão bonitas quanto duas pessoas que se tornaram dependentes uma da outra como parceiros afetuosos quando a necessidade aparece. Talvez a forma mais forte de afeto se mostre quando uma pessoa se torna cuidadora de um parceiro doente ou ferido. Testemunhar esse tipo de sacrifício altruísta, dias após dia, às vezes anos após ano, é testemunhar a personificação do afeto em sua forma mais pura.

Com sorte, você nunca terá que cuidar de um parceiro na doença (em vez de ‘na saúde’). Felizmente, no dia a dia é possível fazer pequenas coisas para deixá-lo saber que você se importa. Compartilhar o trabalho, fazer algo especial sem razão aparente, fazer um elogio inesperado, oferecer segurança em momentos de instabilidade, estar lá quando ele ou ela precisa de você, oferecer uma palavra bondosa e ajuda são atos de amor que um indivíduo afetuoso faz. Esse tipo de afeto é “amar alguém por dentro”, e quando você entrega algo de coração, isso será recebido com gratidão verdadeira.

Um dia eu estava almoçando num shopping lotado em Washington e quando me aproximei da lata de lixo, pensei ter ouvido alguém chamar meu nome. Vasculhei a multidão e não percebi ninguém tentando chamar minha atenção, então continuei andando. Então ouvi meu nome completo ser chamado. Virei e me deparei com uma jovem garota se aproximando. Ela parou e se apresentou, mas eu não a reconheci. Ela disse que queria me agradecer por ter salvado sua vida. Eu reagi com um olhar confuso. Ela continuou: “Eu era uma das garotas sequestradas há dez anos”. Instantaneamente me lembrei do dia em que ela e sua amiga foram resgatadas por dois policiais sob uma saraivada de balas. Eu disse a ela que foram os policiais que salvaram sua vida. Ela reconheceu que os policiais a resgataram do sequestrador, mas fui eu quem salvou sua vida. “Como assim?”, perguntei.

“Eu estava emocionalmente muito abalada”, ela disse. “Sua bondade e compaixão deram início ao meu processo de cura.” Eu me lembro de ter sido destacado para o caso. Meu supervisor me indicou para entrevistá-la depois de solta. Demorou um mês para que ela se acalmasse o bastante para conseguir contar o que tinha se passado sem que caísse em lágrimas. Passei uma hora por dia apenas deixando ela falar. Declarações empáticas foram cruciais. Nós raramente discutimos o sequestro em si, mas, com o tempo, consegui conduzir uma entrevista detalhada com a vítima, que na época tinha apenas quatorze anos. Completei a entrevista e nunca mais vi a garota, nem pensei mais sobre o caso, mas ela se lembrava. “Você pode ter se esquecido de mim”, ela disse, “mas eu sempre me lembrarei da sua bondade. Não sei se teria me recuperado sem a sua ajuda.” Agradeci e disse que estava apenas fazendo meu trabalho. Deixei minha bandeja no balcão e nos despedimos. Naquele dia entendi que nossas palavras, das quais geralmente nos esquecemos, podem causar um profundo impacto no ouvinte por um longo tempo.

B) OUVIR ATENTAMENTE

Ouvir atentamente significa usar dicas verbais e não verbais, somadas a declarações empáticas, quando a outra pessoa está falando. Algumas das

sugestões do Capítulo 5 que envolvem ouvir atentamente recebem uma importância maior nas relações de longo prazo, quando anos de comunicação com o mesmo indivíduo podem nos dar um melhor entendimento de como reforçar ou enfraquecer as ligações pessoais.

Em relações de longo prazo, a comunicação é a chave para sustentar ou drenar os sentimentos que temos em relação ao outro. Trocas abertas e honestas entre parceiros de longo prazo criam confiança, demonstram uma atitude afetuosa e fornecem informações vitais sobre a saúde da relação.

Se desde o começo da relação você for um proponente e praticante do ato de ouvir atentamente, terá uma grande vantagem com o passar do tempo. Isso acontece porque haverá um entendimento muito melhor das necessidades particulares do seu parceiro, interesses, personalidade, desejos, medo e assuntos a explorar ou a evitar.

Sem ouvir atentamente, alguns casais que estiveram juntos por décadas podem não ter, literalmente, nenhuma ideia de como seus parceiros realmente se sentem ou o que desejam. Isso acontece porque não prestaram atenção àquilo que estava sendo dito! Pode ser difícil de acreditar, mas isso acontece, infelizmente, muito mais do que as pessoas gostariam de admitir. Ouvir atentamente permite uma comunicação aberta de duas vias. A troca de informações é facilitada ao se falar e ouvir atentamente.

Um dos maiores benefícios do ato de ouvir atentamente numa relação de longo prazo é a habilidade de refinar a forma como você cuida do seu parceiro. Enquanto numa relação nova a chance de “dizer algo errado” é uma possibilidade real, esses erros conversacionais devem diminuir drasticamente (até mesmo desaparecer) com o amadurecimento da relação e quando os parceiros passam a se conhecer melhor.

Qualquer indivíduo que já escutou atentamente seu parceiro de longa data sabe muito bem que palavras e assuntos deve evitar. Uma pessoa afetuosa usa essa informação para fortalecer a relação. Por outro lado, esse conhecimento pode ser usado para enfraquecer ou mesmo destruir relações. Isso ocorre frequentemente durante brigas, quando um dos parceiros toca de propósito em algum ponto sensível, aumentando assim o conflito e infligindo dor emocional ao outro – uma estratégia muito ruim, mesmo se a pessoa estiver muito brava ou se for um modo de vencer uma discussão. O problema é que muito tempo depois de a discussão terminar, o resultado emocional não irá desaparecer tão facilmente.

Embora possa ser tentador usar informações que você sabe serem úteis para vencer um conflito ou machucar durante uma briga, não faça isso se o seu parceiro considerar que trazer à tona essa informação seja “passar dos limites”. Resista à tentação de soltar os cachorros! Com o tempo, se um dos parceiros insistir em detonar palavras explosivas, tocar em pontos sensíveis ou assuntos considerados além do limite, a relação poderá entrar em colapso por isso.

 

Fique longe do botão explosivo!

Seja um bom ouvinte. Não apenas você será visto como mais afetuoso, como também alcançará um melhor entendimento do seu parceiro e reforçará a relação. Aqui vão algumas dicas adicionais para ouvir com mais eficácia.

 

Deixe seu parceiro terminar o que estava dizendo antes de começar a falar. Discussões importantes merecem um lugar apropriado no qual os parceiros podem se ouvir facilmente (não converse sobre finanças ou eventos importantes num restaurante lotado e barulhento!). Não fique pensando naquilo que você vai dizer enquanto seu parceiro está falando: concentre-se nas palavras dele, não em seus próprios pensamentos. Se o seu parceiro for introvertido e não gostar de falar, faça acenos de

cabeça e emita dicas verbais para encorajá-lo a falar (ver Capítulo 5). Observe seu parceiro enquanto ele fala. A comunicação é uma troca não verbal assim como verbal. Além disso, ao prestar atenção em seu parceiro, ele provavelmente enxergará você como sinceramente interessado naquilo que está dizendo.

Esteja preparado para elogiar seu parceiro quando ele apresentar um bom argumento ou sugestão.

Quando ouvir algo de que não gosta ou com que não concorda, não responda imediatamente nem entre na defensiva. Pense um pouco sobre a observação procurando por alguma verdade ou, ao menos, tente chegar a um meio termo que irá satisfazer os dois.

Se o seu parceiro está claramente errado em alguma situação, tente ajudá-lo a encontrar uma maneira de graciosamente admitir o erro e manter sua dignidade.

Você pode até sugerir um “tempo” se sentir que a conversa está se tornando um confronto aberto.

C) REFORÇO

O ato de reforçar consiste no uso de recompensas e punições impostas por um indivíduo a outro numa relação. Aqui vão alguns erros que você não deve cometer quando lidar com seu parceiro.

 

1. Não estar ciente de que seu estilo de interação resulta na administração inadequada de recompensas e/ou punições no dia a dia.

 

Algumas pessoas, quando se envolvem em relações de longo prazo, exibem padrões de reforço com seu parceiro que não favorecem a satisfação na relação. Existem três tipos de indivíduos que usam o reforço inadequadamente.

 

O parceiro negativista

 

Seu lema: “Enfatizar o negativo; ignorar o positivo”.

Sua crença: “Que crédito você merece por fazer algo certo? Esse é o seu trabalho!”.

Sua abordagem comportamental em relação ao parceiro: punição e sentimentos negativos.

Parceiros negativistas parecem mestres no comportamento “viu, eu avisei” quando você está errado, e “eu não enxergo você” quando está certo. A pessoa que vive com um negativista geralmente faz o seguinte comentário: “O único momento em que ouço meu parceiro falando comigo é quando faço algo errado”. Alguém se surpreende por esse comportamento criar amargura e frustração? Ninguém gosta de sentir que, quando faz algo certo, é ignorado, enquanto qualquer engano recebe máxima atenção. Uma vez ouvi uma esposa dizer algo muito certo para seu marido: “Se você vai criticar meus erros, pelo menos dê a mesma atenção aos meus acertos”. Parceiros negativistas precisam reconhecer que, se é apropriado criticar seus parceiros quando fazem algo errado, também deverá elogiar quando acertam.

 

O parceiro perfeccionista

 

Seu lema: “Sempre há espaço para melhorar”.

Sua crença: “Se não está perfeito, não vale a pena”.

Sua abordagem comportamental em relação ao parceiro: manter padrões inalcançáveis.

O parceiro perfeccionista exige altos níveis de esforço e quer a perfeição, mesmo quando algo funcional já seria suficiente e gastaria bem menos energia. Indivíduos perfeccionistas estão dispostos a elogiar o parceiro por um trabalho bem feito, desde que seja perfeito. E aí mora o problema. Pois o parceiro perfeccionista exige padrões tão altos que quase ninguém consegue alcançar o nível de desempenho necessário para receber um elogio. Portanto, o parceiro perfeccionista não é melhor do que o negativista, já que requer níveis tão altos de perfeccionismo que fica literalmente impossível satisfazê-lo de qualquer forma! A melhor maneira para um perfeccionista modificar suas demandas impossíveis é baixar seus padrões para um nível razoável que valorize a competência e não exija um desempenho comportamental praticamente inalcançável. Parceiros perfeccionistas deveriam entender que a quantidade de tempo e esforço necessários para transformar desempenhos competentes em desempenhos perfeitos raramente vale a pena.

 

O parceiro sádico

 

Seu lema: “Um erro apaga todos os acertos”.

Sua crença: “Errar é humano; pagar pelo erro é divino”.

Sua abordagem comportamental em relação ao parceiro: total desequilíbrio entre recompensar um bom desempenho e punir erros e enganos.

 

Parceiros sádicos ganham sua alcunha porque nos lembram de crianças travessas que arrancam as asas de uma borboleta. Na superfície, parecem bondosos. Elogiam e reconhecem seus parceiros regularmente. Mas espere! Esses indivíduos possuem um jeito único e irreal de equilibrar os elogios e as críticas quando se trata de lidar com seus parceiros. É assim que operam: seus parceiros podem acumular quantos elogios merecerem, mas se fizerem algo de errado, esse único engano “apaga” todo ou quase todo elogio que receberam antes. Ao parceiro sádico que quer mudar para melhor: você deve reconhecer um nível de “equidade” entre o peso do comportamento bom e o não tão bom do seu parceiro, e o reconhecimento de que incidentes acumulados de comportamento positivo não deveriam se tornar sem valor por causa de um incidente negativo.

 

2. Não prestar “atenção positiva” suficiente ao seu parceiro.

 

Uma das tristes realidades de relacionamentos de longo prazo é a tendência natural dos parceiros de perder um pouco da paixão que os fazia cobrir um ao outro com atenção, elogios e “pequenas ações de afeto” durante os primeiros estágios da relação. Isso é uma pena, pois seres humanos nunca perdem a necessidade de atenção positiva. A sensação de que alguém próximo nos aprecia e está disposto a mostrar isso fazendo pequenos atos de bondade e oferecendo elogios regularmente é crucial para a saúde e robustez de relações de longo prazo.

Aqui vão algumas maneiras para você fazer seu parceiro saber que você o aprecia.

 

Elogie quando ele fizer algo bem feito. Por exemplo, pode ser um problema resolvido no trabalho. Possivelmente, poderia envolver alguma honra cívica ou social que ele receba. Pode até mesmo não ser nada além de um gesto como apanhar seu doce predileto na padaria. Deixe seu parceiro saber que você o aprecia elogiando-o. Mas o elogio nunca deve ser oferecido para “conseguir algo”. Deve ser dado apenas quando é merecido e você puder elogiar honestamente. A boa notícia é que um elogio não custa dinheiro. Só é preciso a disposição para observar e perceber o comportamento notável, e depois o ato em si de verbalizar sua atenção positiva. Nunca esqueça de datas importantes do seu parceiro, como aniversários e eventos especiais. É impressionante o que um cartão com uma mensagem pessoal pode fazer para um parceiro se sentir realmente bem e, baseado na Regra de Ouro da Amizade, também se sentir bem em relação a você. Encoraje seu parceiro a participar das decisões que você toma, principalmente grandes decisões que afetarão seu planejamento financeiro, grandes compras, mudanças ocupacionais ou de moradia e questões de saúde. As pessoas ficam mais dispostas a aceitar qualquer decisão tomada sobre um assunto se elas sentirem que possuem poder de decisão. Isso acontece porque elas se sentem incluídas e sentem que também são “donas” da ideia. Não apenas ficarão mais propensas a aceitar a decisão depois de serem consultadas, como também farão isso de um jeito mais motivado e entusiasmado.

Quando apropriado, faça um “reconhecimento público” de seu parceiro, deixando os outros saberem de alguma conquista especial. Embora seu parceiro possa fingir constrangimento ou tentar diminuir a conquista, na maioria dos casos isso não deve deter você. Mesmo introvertidos gostam de reconhecimento público, desde que feito com cuidado e discretamente.

 

3. Não presentear seu parceiro corretamente porque aquilo que você acha que ele quer e aquilo que ele efetivamente quer não coincidem.

Tente lembrar de algum aniversário da sua infância quando você recebeu um presente de que não gostou. Era ainda pior se o presente viesse de algum parente ou amigo que possuía muito dinheiro e você estivesse esperando por aquela bicicleta, mas ao invés disso recebeu roupas ou uma enciclopédia.

Não cometa esse tipo de erro com seu parceiro. Mesmo que você tenha boas intenções e se esforce muito para conseguir aquele presente especial, nada disso terá valor se o presente não for aquilo que o parceiro queria. Você pode pensar que após dez, vinte, trinta anos, os parceiros possuem uma boa noção daquilo que o outro quer. Mas isso nem sempre é verdade. O marido que compra para sua esposa um aspirador de pó para o dia dos namorados não é apenas assunto para lendas urbanas e propaganda: isso acontece de verdade.

Qual é a melhor maneira para ter certeza de que você escolherá o presente certo? Pergunte! Ou, melhor ainda, ouça o que seu parceiro diz, e você provavelmente será capaz de detectar. Seja observador. Um catálogo aberto na cozinha com um item circulado em vermelho pode ser uma ótima dica.

Um dos problemas de se perguntar a uma pessoa o que ela quer é a perda do elemento surpresa. Um jeito para evitar isso, principalmente quando se trata de presentes de Natal, é fazer seu parceiro colocar fotos numa caixa do que gostaria de receber. Por exemplo, pode ser um anúncio de viagem, um item para a casa ou até mesmo o cardápio de um restaurante. Dessa maneira, é possível escolher um dos itens e comprá-lo, e o presenteado não saberá o que esperar. O elemento surpresa, embora não seja completo nesse caso, acrescenta mais excitação na troca de presentes.

D) EMPATIA

Empatia é o último componente do afeto e é crucial para qualquer relação de longo prazo bem-sucedida. Ser capaz de sentir como o seu parceiro se sente, e se importar com isso, é essencial para manter uma boa relação. Indivíduos que passaram muito tempo juntos possuem uma vantagem natural quando se trata de se colocar no lugar do outro. Eles tiveram anos para aprender até mesmo as nuances mais sutis do humor do parceiro, suas necessidades únicas e idiossincrasias de comportamento.

É incrível o que uma palavra bondosa pode fazer quando você sente que seu parceiro está deprimido. Usar declarações empáticas como “Você deve estar mesmo magoado” quando descobrir que ele está sofrendo envia uma poderosa mensagem de que você se importa o bastante para perceber o problema e está disposto a expressar sua preocupação. “Estar lá” para um parceiro sofrendo física ou psicologicamente produz um grande efeito reconfortante, e essa compaixão é sempre lembrada e apreciada.

A empatia é uma parte tão importante das relações que foi reconhecida e exaltada por décadas como uma ferramenta crucial para moldar relações de todos os tipos: curtas, longas, pessoais ou de negócios. O próprio Henry Ford resumiu perfeitamente quando disse: “Se existe um segredo para o sucesso, esse segredo está na habilidade de entender o ponto de vista da outra pessoa e enxergar as coisas a partir desse ângulo, além do seu próprio”.

Ter preocupação/compaixão, ouvir atentamente, dar reforço e sentir empatia são os componentes do afeto que transformam amizades de curto prazo em relações de longo prazo, e essas, por sua vez, em tudo que são capazes de se tornar.

COMO LIDAR COM PESSOAS IRRITADAS (INCLUINDO VOCÊ MESMO): PRATICANDO O CONTROLE DA RAIVA

As ferramentas que você recebeu para moldar relações satisfatórias foram criadas para funcionar com praticamente qualquer um (não, psicopatas não estão incluídos!). Isso não significa que a relação será sempre totalmente satisfatória e desprovida de conflitos. Mesmo os melhores amigos e parceiros podem ter discordâncias, até mesmo discordâncias sérias, quando se encontram de mau humor em lados opostos de alguma questão. Aprender a lidar com a irritação, que é inevitável numa relação, é uma habilidade importante que você deve desenvolver para superar as dificuldades de uma relação interpessoal.

COMO LIDAR COM A IRRITAÇÃO EM INTERAÇÕES INTERPESSOAIS

Quando amigos, colegas de trabalho ou familiares se irritam, eles criam estresse. Podem fazer de seu trabalho ou vida doméstica algo muito desagradável. Desenvolver estratégias eficazes para controlar a irritação é a base da boa vontade e de um ambiente mais prazeroso em casa e no trabalho.

Uma estratégia eficaz para controlar a irritação envolve manter o foco da conversa na pessoa irritada, permitindo que ela ventile a irritação e, além disso, fornecendo uma forma de ação direta para lidar com o problema que originou o incômodo. Isso quebra o ciclo da irritação e permite a resolução das situações de crise sem danificar as relações pessoais. As pessoas gostarão mais de você como resultado da sua maneira de lidar com a crise, pois, no fim, você fará a pessoa irritada se sentir melhor ao reduzir seu estresse e, igualmente importante, o seu também. Aqui vão algumas dicas para lidar com a irritação da melhor maneira possível.

 

Não discuta com pessoas irritadas porque elas não estão pensando logicamente

A irritação dispara a reação “lutar ou fugir”, que prepara o corpo, mental e fisicamente, para sobreviver. Durante essa reação, o corpo automaticamente responde a uma ameaça sem pensar conscientemente. Com o aumento da ameaça, a habilidade da pessoa de raciocinar diminui. Pessoas irritadas experimentam o mesmo fenômeno, pois a raiva é uma reação a uma ameaça real ou percebida. Pessoas irritadas falam e agem sem pensar. O nível do comprometimento cognitivo depende da intensidade da raiva. Quanto mais irritação, menor será a capacidade de processar informações logicamente. Indivíduos irritados não aceitam soluções quando estão bravos, pois sua habilidade de pensar logicamente fica comprometida.

O corpo requer vinte minutos para voltar ao normal depois de disparar a reação de luta ou fuga. Em outras palavras, pessoas irritadas precisam de tempo para se acalmar antes de poderem pensar claramente. Elas não conseguem compreender com clareza qualquer explicação, solução ou opção até que voltem a pensar logicamente. Permitir esse período de recuperação é crucial para qualquer estratégia de gestão da raiva. A primeira estratégia para quebrar o ciclo “nunca tentar discutir racionalmente com pessoas irritadas”. A raiva precisa ser ventilada antes de se oferecer soluções para os problemas.

Quando confrontar um indivíduo irritado, é muito importante esperar um tempo para que ele “esfrie a cabeça”. Um escritor sugere que, quando lidar com um amigo irritado, você deve “sair para a varanda”. Isso é outro modo de indicar que você precisa se afastar do fogo e deixar as coisas esfriarem um pouco antes de voltar para as chamas.

Em muitos casos, oferecer uma explicação simples pode acalmar a raiva. As pessoas querem sentir que estão no controle. Pessoas irritadas buscam por alguma ordem num mundo que não faz mais sentido. A incapacidade de encontrar sentido em um mundo desorganizado causa frustração, que é expressa como raiva. Dar uma explicação para um comportamento ou problema geralmente reordena o mundo desorganizado e acalma a pessoa irritada no processo. A seguinte conversa entre um supervisor e um funcionário demonstra o uso dessa técnica.

 

Supervisor: Quero que você termine seu relatório ainda hoje. Seu comportamento é inaceitável. (irritação)

Funcionário: Eu não consegui terminar o relatório porque não recebi as informações do departamento de vendas. Eles disseram que vão enviar dentro de uma hora. (explicação)

Supervisor: Certo. Termine o relatório assim que possível. (resolução da raiva)

 

Se a pessoa irritada não aceitar a explicação simples do problema, o potencial para uma discussão verbal aumenta significativamente. A raiva precisa de combustível. O aumento da irritação provoca uma resposta mais intensa, o que por sua vez fornece mais combustível para um supervisor irritado. Se esse ciclo de raiva continuar, em algum ponto o limite da sua própria reação “lutar ou fugir” será ultrapassado, causando a redução da habilidade de pensar logicamente. Resolver problemas se torna impossível quando você e a outra pessoa se perdem nesse ciclo de irritação.

 

Tente essa “combinação mágica” para quebrar o ciclo da irritação: declarações empáticas, ventilação da irritação e declarações presumíveis Declarações empáticas capturam a mensagem verbal, a condição física ou as emoções de uma pessoa e, usando linguagem paralela, as refletem de volta para o falante. Ventilar a irritação reduz a frustração. Uma vez que a pessoa irritada ganha uma chance de ventilar sua raiva, ela se torna mais aberta a soluções, pois consegue pensar mais claramente. Declarações presumíveis direcionam a pessoa irritada a realizar uma ação que leva à resolução do conflito. Elas podem ser criadas de tal modo que indivíduos irritados tenham dificuldade para não seguir a ação direcionada. O seguinte diálogo demonstra essa abordagem para quebrar o ciclo da irritação.

 

Supervisor: Quero que você termine seu relatório ainda hoje. Seu comportamento é inaceitável. (irritação)

Funcionário: Eu não consegui terminar o relatório porque não recebi as informações do departamento de vendas. Eles disseram que vão enviar dentro de uma hora. (explicação)

Supervisor: Isso não é desculpa. Você deveria ter buscado a informação no departamento de vendas. Você sabia como era importante terminar o relatório hoje. Eu tenho uma reunião com o cliente hoje à tarde. Não sei o que fazer. (rejeição da explicação)

Funcionário: Você está irritado porque o cliente está esperando o relatório ainda hoje. (declaração empática)

Supervisor: Sim. Você está danificando minha reputação. (ventilando)

Funcionário: Você está desapontado porque esperava que eu tivesse o relatório já pronto. (declaração empática)

Supervisor: Exatamente. (ombros relaxam junto com um longo suspiro; ventilação completa)

Funcionário: Vou apanhar a informação agora e terminar o relatório antes do seu encontro com o cliente. (declaração presumível)

Supervisor: Certo. Veja o que pode fazer. (resolução da raiva)

UM OLHAR ATENTO DE COMO A “COMBINAÇÃO MÁGICA” FUNCIONA PARA “QUEBRAR O CICLO DA IRRITAÇÃO”

 

Declarações empáticas

Para quebrar o ciclo da irritação, as declarações empáticas são inestimáveis. Quando uma pessoa irritada ouve pela primeira vez uma declaração empática, ela pode ficar confusa e surpresa. Quando não é esperada, esse tipo de declaração pode inicialmente causar suspeita, mas quando é mantida, fica difícil não apreciar a preocupação que representa. E a empatia rapidamente leva à confiança.

Quanto mais empatia mostrar, mais você entenderá o que a pessoa está pensando sobre aquilo que está dizendo. Como consequência, você poderá modificar sua fala se perceber que a abordagem inicial não está funcionando.

A questão é: como fazer isso? Como mostrar empatia de um jeito eficaz? Como saber o que a outra pessoa está sentindo? O que você precisa observar é o seguinte: 1) o que a pessoa diz; 2) como ela diz; 3) o que ela faz.

Se você quiser direcionar uma pessoa para uma solução, detectar seu estado emocional é o primeiro passo. Quando puder sentir suas emoções, você poderá usar isso para movê-la na direção desejada.

O segredo para perceber os sentimentos de uma pessoa é prestar atenção às mudanças verbais e não verbais em resposta a eventos externos. Se você disser “Como você está?” e os cantos da boca do interlocutor dobrarem para baixo e ele baixar o tom de voz, então você saberá que nem tudo está bem.

Quanto melhor você puder perceber as mudanças em dicas verbais e não verbais, maior será sua potencial habilidade para mostrar empatia. Observe as pequenas mudanças no rosto. Tente detectar a tensão na voz e a ênfase em palavras específicas. Fique atento a palavras emocionais.

Para evitar ficar sobrecarregado com as emoções de outra pessoa, aprenda a entrar e sair da identificação, que faz você sentir o que o outro sente. Entre, teste a temperatura, depois saia para um lugar onde você possa pensar mais racionalmente.

Se você estiver seguro, pode ser uma boa ideia refletir aquilo que você está sentindo das emoções do outro, para checar se entendeu direito. Afinal de contas, o único que pode confirmar a empatia é a pessoa cujas emoções estão sendo vasculhadas. Refletir possui um efeito que igualmente leva o outro a apreciar sua preocupação e, portanto, a aumentar a confiança em você.

Para pessoas que não estão irritadas, declarações empáticas podem parecer condescendentes, mas esse não é o caso com quem está irritado, por duas razões. Primeiro, a reação de “luta ou fuga” está acionada, e pessoas irritadas não conseguem pensar racionalmente; nesse caso, declarações empáticas não fogem do comportamento normal humano, e se forem construídas adequadamente, não serão detectadas. Segundo, as pessoas naturalmente pensam que os outros devem ouvir o que elas têm a dizer e entender seu ponto de vista, principalmente quando estão irritadas.

A chave para formular declarações empáticas eficazes é identificar a razão da raiva. Simplesmente dizer “então você está irritado” é uma declaração empática, mas está apontando o óbvio e pode soar condescendente, o que iria alimentar a irritação. Lembro-me de um momento em minha carreira do FBI em que fui destacado para viajar extensivamente. Tínhamos três filhos pequenos na época: um bebê e duas crianças. Numa viagem em particular, fiquei duas semanas fora. Quando abri a porta anunciando minha chegada, esperava um abraço caloroso e um beijo de minha esposa. Isso não aconteceu. Em vez disso, ela me recebeu dizendo: “Já era hora de você chegar. Estou ficando louca sozinha aqui com três crianças”. Eu poderia usar uma declaração empática simples do tipo “então você está irritada”, mas isso não teria bons resultados. Optei por usar uma declaração sofisticada que reconhecia a raiz da irritação. Disse: “Você está se sentindo sobrecarregada porque eu não estava em casa para ajudar com as crianças”. Acertei um ponto sensível. Ela ventilou a irritação. “Eu geralmente saio todas as quartas-feiras com minhas amigas para descansar um pouco das crianças e conversar com outros adultos”. Eu poderia ter usado uma declaração simples como “Você sente falta de sair com as amigas”, mas, novamente, isso não seria suficiente. Em vez disso, usei outra declaração empática sofisticada que abordava a raiz da irritação. Disse: “Você valoriza o tempo que passa com suas amigas porque isso dá uma chance para descansar do trabalho com as crianças”.

A irritação é apenas o sintoma de um problema latente. Declarações empáticas devem ser direcionadas a esse problema. Expor a causa real da irritação irá promover a ventilação, que pode ser controlada com declarações empáticas eficazes.

 

Ventilando a irritação

Ventilar a irritação é um componente crucial para quebrar seu ciclo, porque reduz a frustração. Declarações empáticas retratam o alvo da irritação como algo não ameaçador, o que reduz o impacto da reação “luta ou fuga” da pessoa irritada. Uma vez que ventila sua frustração, ela se torna mais aberta a soluções, porque consegue pensar mais claramente.

Ventilar a irritação não é um evento único, mas uma série de eventos. A ventilação inicial é geralmente a mais forte, pois permite que a pessoa irritada “queime” a maior parte da irritação logo no começo da interação. Ventilações subsequentes se tornam cada vez menos intensas, a menos que a irritação volte a ser alimentada.

Uma pausa natural ocorre após cada ventilação. Durante essa pausa, você deve formular uma declaração empática. Uma vez que declarações empáticas encorajam a ventilação, a pessoa irritada provavelmente continuará ventilando, embora com menos intensidade. Após a pausa natural seguinte, você deve formular outra declaração empática. Você deve continuar formulando declarações empáticas até que a irritação acabe. Suspiros, respiração profunda, ombros relaxados e olhar para baixo são sinais de que a irritação está acabando. Nesse ponto, você deve introduzir a declaração presumível.

 

Declarações presumíveis

Declarações presumíveis direcionam os irritados a uma ação que resolva o conflito. Elas são formuladas de tal maneira que quem escuta tem dificuldade para não seguir a direção desejada. Formular declarações presumíveis requer a habilidade de ouvir criticamente. Elas direcionam a força da irritação para uma solução que seja aceitável para os envolvidos.

Vamos voltar para minha chegada constrangedora em casa. Depois de uma série de declarações empáticas, a irritação da minha esposa se esgotou. Ela soltou um grande suspiro e seus ombros relaxaram. A raiva havia passado. Agora era o momento de apresentar declarações presumíveis para direcioná-la a uma ação que traria uma resolução. Formulei a seguinte declaração: “O que você acha de eu levar as crianças para a casa da minha mãe para que nós possamos ir a um restaurante? Você merece”. Minha esposa teria dificuldade para negar a ação apresentada. Se rejeitasse minha oferta, teria que admitir que não merecia ir a um restaurante, que não se sentia sobrecarregada e que não precisava de um descanso das crianças. Usando essa técnica, eu efetivamente resolvi uma situação que poderia facilmente ter se transformado numa grande discussão, o que deixaria a ambos irritados e frustrados.

Se uma pessoa irritada rejeitar a declaração presumível, você deve recomeçar a quebrar o ciclo da irritação com uma nova declaração empática. Se minha esposa tivesse rejeitado minha oferta, nossa conversa poderia prosseguir desse jeito:

 

Eu: O que você acha de eu levar as crianças para a casa da minha mãe para que nós possamos ir a um restaurante? Você merece. (declaração presumível)

Minha esposa: Você não vai escapar assim tão fácil. (rejeição da declaração presumível)

Eu: Então você acha que uma noite fora não é suficiente para compensar o trabalho que teve enquanto eu estive fora. (declaração empática: voltando à quebra do ciclo de irritação)

 

A rejeição da declaração presumível geralmente indica que a pessoa não ventilou completamente a raiva. Voltar à quebra do ciclo da irritação permite que ela ventile qualquer irritação residual. Algumas pessoas possuem uma raiva profundamente enraizada que pode nunca ser resolvida. Nesses casos, o melhor a fazer é concordar que não há consenso, ou vocês dois podem combinar não mais tocar no assunto sensível. Essas resoluções possíveis produzem limites para sua relação sem precisar terminá-la abruptamente.

O ciclo da irritação pode ser usado em quase todas as situações em que você confronta alguém irritado. A seguinte conversa entre um oficial da alfândega e um visitante estrangeiro ilustra o uso do ciclo da irritação para resolver uma disputa.

 

Oficial da alfândega: Madame, a senhora não pode trazer terra para este país.

Visitante: Isso é terra sagrada de um território santo. Não vou jogar fora!

Oficial da alfândega: Então você não quer se livrar da terra porque ela é especial para você. (declaração empática)

Visitante: É claro, é especial. É um solo abençoado. Mantém os maus espíritos longe de você. E protege de doenças. Não vou jogar fora e você não pode me obrigar! (ventilando)

Oficial da alfândega: Essa terra mantém os maus espíritos longe e mantém a sua saúde. (declaração empática)

Visitante: Não adoeci desde que ganhei a terra. Eu realmente preciso dela. (ventilando)

Oficial da alfândega: A saúde é muito importante para você. (declaração empática)

Visitante: Sim. (Um suspiro acompanhado do relaxamento dos ombros.)

Oficial da alfândega: Vamos trabalhar juntos para alcançar uma solução para este problema. (declaração presumível) Você gostaria disso? (A visitante não pode dizer “não” sem parecer irracional.)

Visitante: É claro.

Oficial da alfândega: A norma diz que você não pode trazer terra para dentro do país porque os micróbios nessa terra podem infestar plantações. (explicação) Tenho certeza de que você não quer ser responsável por fazer milhões de pessoas doentes, não é? (declaração presumível) (A visitante não pode dizer “sim” sem parecer irracional.)

Oficial da alfândega: Entregue a terra e você poderá começar sua visita aos Estados Unidos.

Visitante: Se preciso mesmo, então vou entregar. (obediência voluntária)

RETORNANDO AO CICLO DA IRRITAÇÃO

No caso do visitante continuar irritado e não entregar voluntariamente a terra, o oficial da alfândega deveria retornar ao ciclo da irritação numa tentativa de quebrá-lo. A seguinte conversa demonstra isso.

 

Oficial da alfândega: Entregue a terra e você poderá começar sua visita aos Estados Unidos.

Visitante: Não, minha terra não está contaminada. Eu tenho que ficar com ela.

Oficial da alfândega: Você realmente quer ficar com a terra. (declaração empática)

Visitante: Eu quero minha terra! Posso ao menos ficar com uma colherada? (movimento em direção a uma obediência voluntária)

Oficial da alfândega: Você está tentando encontrar uma maneira de ao menos entrar com um pouco da terra no país. (declaração empática)

Visitante: Sim, é claro. Posso ficar com ao menos uma colherada? Isso com certeza não machucará ninguém. (movimento em direção a uma obediência voluntária)

Oficial da alfândega: Mesmo a menor quantidade de terra pode causar um grande dano a uma plantação. (explicação) Entregue a terra e você poderá começar sua visita aos Estados Unidos. (declaração presumível)

Visitante: Certo. Se preciso mesmo, vou entregar. Eu realmente não quero causar problemas. (obediência voluntária)

 

Se a volta ao ciclo da irritação não produzir a obediência voluntária, o oficial da alfândega deveria produzir duas opções e então deixar o interlocutor escolher uma delas. Dar duas opções a uma pessoa irritada cria a ilusão de que ela possui o controle da situação. A seguinte conversa ilustra essa técnica.

 

Visitante: Eu me recuso a entregar minha terra.

Oficial da alfândega: Você parece muito decidida a ficar com a terra. (declaração empática) A norma diz que você não pode entrar no país carregando a terra. Você terá que tomar uma decisão. A primeira opção é desistir da terra e entrar no país. A segunda opção é ficar com a terra e não receber permissão para entrar no país. (apresenta duas opções) A decisão é sua. O que acontecerá agora depende de você. Escolha a opção que preferir. (criando a ilusão de que a visitante está no controle)

Visitante: Não tenho escolha real porque quero entrar no país. Você pode ficar com minha terra. (obediência voluntária)

Oficial da alfândega: Você tomou a decisão certa. Bem-vinda à América.

 

Em cada um dos cenários, o oficial manteve a ilusão de que a visitante estava no controle da situação, mas na realidade a direcionou passo a passo para a obediência voluntária.

Algumas pessoas sentem que estão cedendo sua autoridade quando usam técnicas de obediência que sutilmente influenciam ao invés de intimidar. Ganhar a obediência voluntária pela quebra do ciclo da irritação não apenas incrementa sua autoridade como também reduz a chance de que a interação se deteriore e o interlocutor irritado se torne ainda menos obediente. Através da quebra do ciclo da irritação, existe uma boa chance de que ele aceite a decisão que você queria que ele tomasse e, ao mesmo tempo, sinta que você o tratou com respeito. Esse é o melhor resultado para esse tipo de confronto.

QUANDO A RELAÇÃO SE DETERIORA MESMO APÓS SUA TENTATIVA DE SALVÁ-LA

Se você utilizar as ferramentas descritas neste livro para estabelecer e manter relações saudáveis e felizes, você certamente terá sucesso na maioria das vezes. Mas e se, mesmo após seus melhores esforços, uma relação curta ou longa começar a naufragar? O que fazer? Principalmente interações de longo prazo, nas quais uma significativa quantidade de tempo e comprometimento foram investidos, seria de se esperar que não fossem casualmente descartadas nos primeiros sinais de desgaste. E, de fato, geralmente não são. A maioria dos indivíduos entra em casamentos e em outras formas de relações de longo prazo com a intenção de ficar indefinidamente.

Sim, existem momentos em que mesmo os parceiros mais bem-intencionados e responsáveis acham difícil, quase impossível, permanecer numa relação de longo prazo. Por quê? Existem muitas razões, mas algumas das mais comuns incluem:

 

Uma divergência de interesses. Indivíduos que compartilharam os mesmos objetivos de carreira aos vinte anos podem ter perspectivas diferentes trinta anos depois. Uma nova carreira ou objetivo de vida pode pesar muito numa relação de longo prazo se os parceiros não concordarem com essas mudanças.

A síndrome do “ninho vazio”. Quando as crianças deixam o ninho, um ou os dois pais às vezes escolhem a ruptura.

A necessidade de mais liberdade. Casais que passaram muito tempo juntos, principalmente se eram jovens quando se casaram, às vezes se sentem “presos” e desejando a liberdade que enxergam em seus amigos solteiros. Isso é um clássico caso da “grama do vizinho é mais verde”. Pessoas casadas desejam a liberdade que os solteiros possuem, enquanto os solteiros desejam o comprometimento dos casados.

A necessidade da mudança. Você já se perguntou por que pessoas com sessenta ou setenta anos decidem terminar um relacionamento de longo prazo? Às vezes é simplesmente o reconhecimento de que a vida é curta e, se você deseja um estilo de vida diferente, a janela de oportunidade está se fechando rapidamente.

Mudanças de personalidade. Nossa personalidade não é estática nem solidificada na adolescência. Nós mudamos com o tempo, e se essas mudanças afastarem os parceiros, a relação geralmente acaba.

Interferência de terceiros. Cientistas comportamentais debatem há muito tempo se os humanos são “naturalmente” monogâmicos. Enquanto o debate prossegue, relações de longo prazo continuam a naufragar por causa da infidelidade e a substituição do parceiro por um novo interesse romântico. Tédio. Muito da mesma coisa pode criar o tédio, que por sua vez é um acelerador para o naufrágio das relações, fazendo interações excitantes parecerem comuns e não satisfatórias.

Incompatibilidades emergentes. Enquanto as relações se desenvolvem, as pessoas também se transformam. Isso pode levar a problemas, caso um dos parceiros desenvolva comportamentos inaceitáveis para o outro. Por exemplo, um dos parceiros pode começar a beber ou apostar demais, ou mostrar pouco interesse em sexo, ou se tornar mais recluso, ou até mesmo começar a roncar (para o desespero do parceiro com sono leve).

 

A boa notícia é que muitos, talvez a totalidade desses problemas pode ser superada com esforço mútuo ou terapia, se as pessoas envolvidas estiverem comprometidas a continuar juntas e dispostas a fazer o que for preciso para reparar a relação.

Até mesmo os melhores amigos podem ter as piores discussões!

Boas relações, de curta ou longa duração, necessitam de esforço para florescer. Assim como o jardineiro que deseja que suas plantas e árvores cresçam plenamente, você deve cuidar das relações com carinho, paciência, amor e compreensão se quiser que floresçam. Relações não podem ser deixadas para morrer no primeiro sinal de dificuldade. Você deve ter certeza de que fez todo o possível para salvar a relação antes de considerar terminar tudo.

EM CASO DE DIVÓRCIO… QUEBRE O VIDRO

Uma vez recebi um ótimo conselho que repasso para jovens casais sempre que posso: quando as relações ainda são novas, vibrantes e cheias de amor, escrevam cartas um para o outro. Vocês devem abrir o coração e escrever em detalhes as coisas que gostam e admiram no parceiro. Mas não entreguem as cartas. Em vez disso, coloquem-nas em envelopes lacrados endereçados ao parceiro. Depois guardem numa caixa em algum lugar seguro.

Caso a relação comece a naufragar, vocês podem trocar as cartas. Essa lembrança emocional pode ser suficiente para reavivar os sentimentos de amor e começar uma nova era para o casal. As cartas podem também ser usadas como um quebra-gelo emocional, para motivar a resolução de qualquer questão em que haja um impasse e seja preciso “algo” para colocar os parceiros no caminho da solução dos problemas.

Um homem para quem mencionei essa ideia fez de verdade uma caixa de madeira com um vidro na frente igual a um alarme de incêndio. Ele então fixou um pequeno martelo na caixa com uma corrente. A placa na caixa dizia: “Em caso de divórcio, quebre o vidro”. As cartas na caixa serviam como uma constante lembrança ao casal das razões para gostarem e admirarem um ao outro. No meio de uma briga ou discussão, eles podiam comentar: “Chegou a hora de quebrar o vidro?”. Essa lembrança nada sutil rapidamente diminuía a tensão e os ajudava a resolver o conflito com sucesso.