Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1
CAPITULO IV. Divisaõ antiga.
CAPITULO IV.
Divisaõ antiga.
1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz. Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos, toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas, Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos. Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas.
2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a que chamaraõ Hespanha citerior, e
Hespanha ulterior. [148] A citerior ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos seus interesses, accrescentando, ou diminuindo as terras de huma, ou de outra parte.
3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio a Hespanha em tres Provincias, a saber: Lusitanica, Betica, e Tarraconense. A Lusitanica incluia a mayor parte do que hoje chamamos Portugal, com outras muitas terras, que hoje pertencem ao Reino de Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O rio Douro a separava pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo oriental huma linha, que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se incorpora com o rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, e este depois dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja costa cercava o restante da Lusitania.
4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli corria até o cabo de Finis terræ, e aquelle espaço depois situado entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, e Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce a confusaõ entre os Authores como bem advertio o
estudiosissimo Padre Argote. [149]
5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano, visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do
Campo com particularidade, e certeza.[150] Constantino Magno fez outra divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores. Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.
6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a que chamavaõ Conventos Juridicos, collocados nas Cidades mais insignes da Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca para administraçaõ da justiça. Destes Conventos Juridicos, a que correspondem hoje as nossas Relações, havia quatorze em toda Hespanha: as que tocaraõ às nossas terras, foraõ tres: Braga, Béja, e Santarem.
7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de Municipios. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas por familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno Béja, e Santarem, além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e gozavaõ seus Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios eraõ os que se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ Lisboa, Evora, Mertola, e Alcacer do Sal.