Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1
D. Affonso V. duodecimo Rey.
troco da mesma Cidade de Ceuta.[674]
87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado
cinco annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.
D. Affonso V. duodecimo Rey.
88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, e de que existem
memorias taõ lastimosas. [677]
89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira, de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya de grandes, e honrodas expressões,
[678] encommendando-lhe, acabado o acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.
90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey, o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de
Mayo de 1449.[679]
91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa, onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança; e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de Africano, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o daquem, e dalém mar em Africa.
92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.
93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ para litigarem este ponto em argumento de
armas. Naõ o levou a ambição, como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente seu filho o Principe D. Joaõ.
94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de Novembro do
proprio anno.[681]
95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade Regia, e tantas, que affirmou