Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1

João Bautista de Castro · Capítulo 61 de 106

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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1

D. Joaõ III. decimo quinto Rey.

mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante

em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores que nenhum outro homem. Tambem amparou as

letras grandemente; [702] e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle mandou edificar para seu jazigo.

 

D. Joaõ III. decimo quinto Rey.

 

111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e

coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a estimaçaõ de todos os Principes da Europa.

112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor,

de que tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo aquelles Religiosos.

113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra

no anno de 1534 conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de

1537, [706] mandando vir a este respeito, e com grandes dispendios

os melhores Mestres de letras, que havia na Europa, [707] de sorte que restabeleceo em Coimbra a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas para as

artes, e sciencias. [708]

114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy a Alfandega, as Tercenas, os Armazens,

e a Torre do Tombo. [709] Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, que mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que alcançava na vitoria. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.