Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1
D. João IV. vigesimo primeiro Rey.
134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais a todos os
Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos
amantes, e zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo, se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV., acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.
D. João IV. vigesimo primeiro Rey.
135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e restituido com tanta gloria,
e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e
festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724] sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e
soldados Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo. [725]
136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as expedições, que temos
dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender, e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez
brevemente o Reino à sua obediencia. [726]
137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e fundamental seguranqa,
dando-nos tempo para mandarmos vir armas do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França, Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados, experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas, que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do Reino.
138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das nossas armas; e vendo
que à força dellas naõ podia tomar vingança da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra ElRey D. Joaõ; porém
descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos; sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D. Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos, foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.