Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1

João Bautista de Castro · Capítulo 59 de 106

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Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1

D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.

hum Escritor nosso [682] fora entre os Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho. quando lhe succedeo: Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e caminhos de Portugal; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha dado.

96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e

insigne Latino, [683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481, em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e dezanove

dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.

 

D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.

 

97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471 recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa conquista de

Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade promettia. [685]

98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente do povo.

99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia reputada horrivel, como effeito da

causa, cujas circunstancias naõ mereciaõ tanto rigor, [686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro, conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem adverte o elegantissimo Marquez de

Alegrete. [687]

100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu

a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou a sciencia

politica de muitos negocios, e segredos reconditos. [689]

101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo, mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou aos vindouros hum exemplo mais

digno de se imitar, que imitado. [690] Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.