Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1
D. Sancho I. segundo Rey.
24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte Reys, e dous Imperadores.
25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns prodigios, como se podem ver no argumento 10. do Apparato Historico, que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste santo Rey premiados com a eterna felicidade.
D. Sancho I. segundo Rey.
26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou
ao menos indecisa a vitoria, e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce, filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.
27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do sangue derramado dos corpos fez sensivelmente
mudar a cor às aguas do Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal, quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem
se prezou ser seu especial bemfeitor.[593]
28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e
hum de idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como
dizem outros. [595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de
Povoador [596] [597] , e Pay da Patria , manifestando-se muito mais a sua piedade, e grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o
que possuia, fazia offerta até do que ainda esperava ter. [598]
29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino, intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno
1188 até 1190. [599] Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome attenuado