Mas Não se Matam Cavalos?
...o sr. Robert Sy verten sej a entregue...
...capítulo oito
Naquela noite, pela prim eira vez desde o início da com petição, o salão estava lotado e quase todos os lugares estavam ocupados. O Palm Garden tam bém estava lotado e havia m uita risada e conversa em voz alta no balcão.
“Rollo estava certo”, disse com igo. “A prisão de Mário foi a m elhor coisa que aconteceu para Socks.” (Mas nem todas aquelas pessoas tinham sido atraídas pela publicidade do j ornal. Descobri m ais tarde que Socks havia colocado anúncios em várias estações de rádio.)
Fizem os as voltas de uniform e, enquanto os treinadores e as enferm eiras arrum avam a pista para o dérbi.
— Sinto que estou pelado — disse para Glória.
— Parece que você está pelado — ela disse. — Você deveria usar um a sunga.
— Não m e deram um a — eu disse. — Está aparecendo m uito?
— Não é só por isso — ela disse. — Você pode se m achucar. Peça a Rollo que com pre um a am anhã. Existem três tam anhos: pequeno, m édio e grande. O seu é pequeno.
— Não sou só eu — eu disse, olhando para os outros rapazes.
— Eles estão se exibindo — disse Glória.
A m aior parte dos concorrentes ficava engraçada de uniform e. Nunca vi tantos tipos de braços e pernas diferentes em toda m inha vida.
— Vej a — disse Glória, apontando para Jam es e Ruby Bates. — Que coisa!
Dava para ver que Ruby estava esperando um bebê. Parecia que ela tinha colocado um travesseiro em baixo da cam iseta.
— Cham a a atenção — eu disse. — Mas lem bre-se de que não é da sua conta.
— Senhoras e senhores — Rocky disse ao m icrofone antes de com eçarm os o sensacional dérbi, gostaria de cham ar sua atenção para as regras. Devido ao núm ero de participantes, o dérbi será feito em duas seções: quarenta pares na prim eira e quarenta na segunda. O segundo dérbi será feito logo depois do prim eiro, e as entradas serão decididas por sorteio dos núm eros deste chapéu. Vam os fazer os dérbis em duas seções durante um a sem ana, e o casal que fizer o m enor núm ero de voltas será elim inado. Depois da prim eira sem ana, haverá apenas um dérbi. A m oçada vai correr em volta da pista por quinze m inutos, os rapazes vão correr com os calcanhares e na ponta dos pés, as m oças vão trotar ou correr, com o preferirem . Não há um prêm io para o vencedor, m as se alguém da platéia quiser dar um prêm io em dinheiro para anim ar a m oçada, tenho certeza de que eles vão gostar. Todos podem ver as cam as no m eio da pista, as enferm eiras e os treinadores de pé segurando pedaços de laranj as, toalhas m olhadas, sais arom áticos e um m édico de plantão para ver que nenhum desses j ovens continue a correr se não estiver em boas condições físicas.
O j ovem m édico estava de pé no m eio da pista, com o estetoscópio pendurado no pescoço, com um ar m uito sério.
— Um m inuto, senhoras e senhores... só um m inuto — Rocky disse. — Tenho um a nota de dez dólares na m ão para o vencedor do dérbi de hoj e, um a contribuição da m aravilhosa estrela de cinem a, a srta. Ruby Keeler. Um a salva de palm as para Ruby , senhoras e senhores...
Ruby Keeler ficou de pé, agradecendo os aplausos.
— É isso aí, senhoras e senhores — Rocky disse. — E agora precisam os de j uizes, senhoras e senhores, para contar as voltas dos pares — ele parou para lim par o suor da fronte. — Tudo bem , senhoras e senhores, quero que esses j uizes sej am da platéia: quarenta pessoas. Venham para cá... Não tenham m edo...
Ninguém da platéia se m exeu por um instante, e então a srª. Lay den passou por debaixo da grade e foi em direção à pista. Quando passou por Glória e por m im deu um a piscada e sorriu.
— Talvez ela sej a útil no final — disse Glória.
Logo outros seguiram a srª. Lay den até que todos os j uizes foram escolhidos. Rollo deu-lhes um cartão e um lápis e sentou-os no chão em volta da plataform a.
— Tudo bem , senhoras e senhores — disse Rocky. — Já tem os j uizes. Vam os fazer agora o sorteio para o prim eiro dérbi. Tem oitenta núm eros neste chapéu e vam os sortear quarenta. Os outros pares ficarão para o segundo dérbi. Precisam os agora de alguém para fazer o sorteio. Que tal a senhorita? — perguntou para a srª. Lay den, estendendo o chapéu.
A srª. Lay den sorriu e fez um m ovim ento com a cabeça.
— Este é um m om ento im portante na vida dela — disse Glória, sarcástica.
— Acho que ela é um a velhinha m uito legal — eu
disse.
— Maluca — Glória disse.
A srª. Lay den com eçou a tirar os núm eros, passando-os para Rocky, que os anunciava ao m icrofone.
— O prim eiro — ele disse — é o par n° 105. Aqui, m oçada... Todos vocês que forem sorteados fiquem aqui neste lado da plataform a.
Assim que a srª. Lay den sorteava os núm eros, passava-os para Rocky, que os entregava para um dos j uizes. Esse seria o par que ele controlaria, contando o núm ero de voltas.
— ...Par n° 22 — Rocky disse, entregando o núm ero ao j ovem de óculos.
— Ora — eu disse para Glória. — Esse é o nosso núm ero.
— Gosto desse núm ero — ouvi a srª. Lay den dizer a Rocky . — É m eu par favorito.
— Desculpe, senhora — disse Rocky . — Tem de ser na ordem .
Quando o sorteio acabou, estávam os todos j untos perto da linha de partida, Rocky disse:
— Tudo bem , senhoras e senhores, estam os quase prontos. Agora, m oçada, lem brem que os rapazes devem correr com os calcanhares e nas pontas dos pés. Se um de vocês for para a arena por algum m otivo qualquer, seu parceiro terá de fazer duas voltas em vez de um a. Quer dar o sinal de partida, srta. Keeler?
Ela fez um m ovim ento com a cabeça e Rocky entregou a pistola a Rollo. Ele a entregou para a srta. Keeler, eu estava sentada na arquibancada da fila da frente com um a outra m oça que não reconheci. Jolson não estava lá.
— Tudo bem , senhoras e senhores, segurem os chapéus — Rocky disse. — Tudo bem , srta. Keeler... — ele fez um sinal com a m ão para ela.
Glória e eu tínham os ido para a lateral da plataform a em direção à linha de partida e, quando a srta. Keeler puxou o gatilho, nós dem os um pulo, em purrando e dando encontrões para ir para frente. Glória m e segurava pelo braço.
— Segure no cinto — gritei, fazendo força para passar por aquela m ultidão. Todos tropeçavam uns nos outros, tentando ir para frente... Mas depressa nos espalham os e ficam os andando em volta da pista. Eu dava passos tão com pridos que Glória tinha de trotar para m e acom panhar.
— Calcanhares e pontas dos pés, você aí — Rollo disse. — Você está correndo.
— Estou fazendo o m elhor que posso — eu disse.
— Calcanhares e pontas dos pés — ele disse —, assim ...
Ficou na m inha frente, para m ostrar o que queria. Não foi difícil aprender. O truque era sincronizar os om bros e os braços. Não era difícil fazer isso. Parecia natural. Parecia tão sim ples que por um m om ento achei que j á tinha andado de calcanhares e nas pontas dos pés antes. Não pude lem brar quando, portanto, ficou claro que nunca tinha andado daquele j eito. Minha m em ória é excelente.
Estávam os andando há uns cinco m inutos, estávam os quase na frente, quando senti que Glória parou de fazer força, ou sej a, ela parou de se m over por força própria. Eu a estava arrastando. Sentia com o se ela estivesse tentando puxar o cinto da m inha barriga.
— Depressa dem ais? — perguntei, dim inuindo o passo.
— Sim — ela respondeu, quase sem fôlego.
Um a das enferm eiras j ogou um a toalha m olhada em volta de m eu pescoço, fazendo com que eu quase perdesse o equilíbrio.
— Passe no rosto — eu disse à Glória. Naquele m om ento o par n° 35 nos cortou, tentando passar na frente. O esforço foi dem ais para a m oça. Ela com eçou a cam balear, soltando o cinto.
— Fique perto do n° 35 — gritou Rocky Gravo, m as antes que um a enferm eira ou um treinador conseguisse segurá-la, ela caiu no chão de rosto, escorregando m ais ou m enos um m etro para dentro da pista. Se eu estivesse sozinho, poderia ter evitado o corpo, m as com Glória pendurada em m im , tive m edo de m e afastar e j ogá-la para o centro. (Fazer aquelas voltas com um a garota pendurada era com o brincar de trenzinho.)
— Cuidado! — gritei, m as era tarde dem ais. Glória tropeçou no corpo, m e arrastando com ela e o que vi em seguida foram quatro ou cinco pares em pilhados no chão, tentando se levantar. Rocky disse algum a coisa ao m icrofone e a m ultidão gritou.
Levantei. Não estava m achucado, só sabia pelo ardor que sentia nos j oelhos que estavam esfolados. As enferm eiras e os treinadores correram para nós e arrastaram as m oças, levando Glória e Ruby para as cam as na arena.
— Nada sério, senhoras e senhores — Rocky disse. — Foi só um tom bo... Sem pre acontece algum a coisa nos dérbis... Enquanto as m oças estão na arena, os rapazes têm de fazer duas voltas para contar com o um a para a equipe. Tudo bem , m oçada, vam os fazer esses solos na pista interna.
Com ecei a andar depressa para não perder nossa posição na corrida. Agora que Glória não estava pendurada no cinto, sentia-m e leve com o um a pena. Um a enferm eira e um treinador cuidaram dela enquanto o m édico escutava seu coração com o estetoscópio. A enferm eira segurava os sais arom áticos sob seu nariz e o treinador m assageava suas pernas. Outro treinador e outra enferm eira faziam o m esm o com Ruby. Fiz quatro voltas até Glória voltar para a pista. Estava m uito pálida.
— Você agüenta? — perguntei, dim inuindo a velocidade. Ela fez que sim com a cabeça. As pessoas aplaudiam e batiam os pés e Rocky falava palavras ao m icrofone. Ruby voltou para corrida, tam bém parecendo fraca.
— Calm a — disse Rollo, indo para o m eu lado. — Você não corre perigo.
Então senti um a dor aguda na perna esquerda que subiu pelo m eu corpo e quase explodiu m inha cabeça.
— Meu Deus! — disse com igo. — Estou paralisado!
— Chuta, chuta! — disse Rollo.
Bati o pé no chão, m as doeu m ais ainda.
— Chuta, chuta!
— Filho-da-puta — eu disse —, m inha perna está doendo...
Dois treinadores m e agarraram pelos braços e m e levaram para a arena.
— Lá vai a coraj osa m oça do par n° 22 — Rocky anunciou —, a pequena Glória Beatty. Com o é coraj osa! Está fazendo um solo enquanto seu parceiro está na arena com cãibra... Vej am com o ela arrasa na pista! Vam os dar passagem , m oçada...
Um dos treinadores m e pegou pelos om bros, enquanto o outro esfregou m inha perna, batendo nos m úsculos com os punhos fechados.
— Está doendo — eu disse.
— Calm a! — disse o treinador que estava segurando m eus om bros. — Nunca teve isso antes?
Então senti um a coisa estalar na m inha perna e a dor sum iu.
— Tudo bem ! — disse o treinador.
Levantei m e sentindo bem , voltei para a pista e fiquei esperando por Glória. Ela estava do outro lado, trotando, levantando a cabeça sem pre que dava um passo. Tive de esperar ela chegar. (A regra era que você tinha de entrar na arena no m esm o lugar por onde saiu.) Quando Glória chegou perto de m im , com ecei a andar e ela logo pegou no m eu cinto.
— Mais dois m inutos — Rocky anunciou. — Um pouco de ânim o, senhoras e senhores... — com eçaram a aplaudir e bater os pés com m ais força do que antes.
Outros pares com eçaram a nos ultrapassar e eu tentei ir m ais depressa. Achava que Glória e eu não estávam os em últim o lugar, m as nós dois fom os para a arena e eu não queria arriscar ser elim inado. Quando a arm a disparou anunciando o final, a m etade das equipes caiu no chão. Virei para Glória e vi que seus olhos estavam vidrados. Achei que ela ia desm aiar.
— Ei! — gritei para um a das enferm eiras, m as naquele m om ento Glória caiu e eu tive de levá-la para a arena. — Ei! — gritei para um dos treinadores. — Doutor!
Ninguém m e deu atenção. Estavam m uito ocupados levantando os corpos. O público estava de pé nas cadeiras, gritando, agitado.
Esfreguei o rosto de Glória com um a toalha úm ida. A srª. Lay den apareceu de repente ao m eu lado e pegou um pote de sais arom áticos na m esa ao lado da cam a.
— Vá para o vestiário — ela disse. — Glória vai ficar boa daqui a pouco. Não está acostum ada a fazer tanto esforço.
Eu estava num barco indo para o porto Said. Ia para o deserto do Saara para fazer aquele film e. Eu era fam oso e tinha um m onte de dinheiro. Eu era o diretor m ais im portante do m undo. Eu era m ais im portante do que Sergei Eisenstein. Os críticos de Vanity Faire de Esquire achavam que eu era um gênio. Eu andava pelo convés, pensando naquela m aratona de dança da qual participei, tentando im aginar o que tinha acontecido com as m oças e os rapazes, quando algum a coisa bateu na m inha nuca, m e deixando inconsciente. Tive a sensação de estar caindo.
Enquanto estava na água, eu m exia os braços e as pernas porque estava com m edo dos tubarões. Algum a coisa roçou no m eu corpo e gritei de m edo.
Acordei nadando em água gelada. Na m esm a hora, sabia onde eu estava.
“Tive um pesadelo”, disse com igo.
A coisa que roçou no m eu corpo era um bloco de gelo de 45 quilos. Eu estava num tanquinho de água no vestiário. Ainda estava com o uniform e. Saí trem endo e um dos treinadores m e deu um a toalha.
Dois outros treinadores entraram , trazendo um dos concorrentes que estava inconsciente. Era Pedro Ortega. Levaram -no para o tanque e o enfiaram lá dentro.
— Foi isso que aconteceu com igo? — perguntei.
— Isso m esm o — disse o treinador. — Você desm aiou assim que saiu da pista de dança...
Pedro disse qualquer coisa em espanhol e se debateu na água, lutando para sair. O treinador riu.
— Sacks sabia o que estava fazendo quando trouxe esse tanque para cá — ele disse. — Essa água gelada dá um j eito neles. Tire as calças e os sapatos m olhados.