Mas Não se Matam Cavalos?

Horace McCoy · Capítulo 6 de 14

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Mas Não se Matam Cavalos?

...devido ao crime de homicídio em primeiro grau...

...Capítulo cinco

 

No vestiário, Rocky Gravo nos apresentou Vincent (Socks) Donald, um dos organizadores.

— Olha aí, m oçada — disse Socks ninguém deve ficar de baixo-astral porque as pessoas não estão vindo para a m aratona de dança. Dem ora um pouco para essas coisas pegarem , então decidim os com eçar com um núm ero especial que com certeza vai lotar a casa. Vej am o que vam os fazer: um a corrida de dérbi todas as noites. Vam os pintar um círculo no chão e todas as noites vocês vão correr em volta da pista durante quinze m inutos e o últim o par da noite será desclassificado. Garanto que isso vai atrair as m ultidões.

— Tam bém vai atrair os agentes funerários — alguém disse.

— Vam os colocar um as cam as no m eio da pista — disse o prom otor —, e o m édico e as enferm eiras ficarão de plantão durante o dérbi. Quando um concorrente cair e for para a arena, o parceiro terá de fazer duas voltas para com pensar. Vocês vão se divertir m ais por que haverá m ais gente. Por exem plo, quando todo o pessoal de Holly wood com eçar a vir para cá, vocês não darão conta dos com prom issos... E então? O que acham da com ida? Alguém tem um desej o especial? Tudo bem , m oçada, assim é legal. Vocês colaboram conosco e nós colaboram os com vocês.

Saím os da pista. Nenhum concorrente disse nada sobre os dérbis. Pareciam achar que qualquer idéia que atraísse as m ultidões era boa. Rollo veio em m inha direção, enquanto eu m e sentava na grade. Eu tinha ainda dois m inutos de descanso antes da próxim a m alhação de duas horas.

— Não m e leve a m al, pelo que disse há poucos m inutos — ele disse. — Não é com você, é com a Glória.

— Eu sei — eu falei. — Ela é legal. Só está de m al com o m undo, só isso.

— Tente m antê-la de boca calada — ele disse.

— É difícil, m as vou tentar — eu disse.

Naquela hora, olhei em direção ao vestiário fem inino e fiquei surpreso ao ver Glória e Ruby vindo j untas para a pista. Fui ao encontro de Glória.

— O que acha dos dérbis? — perguntei.

— É um bom j eito de acabar com a gente — ela disse.

O apito soou para com eçarm os de novo.

— Não tem m ais do que cem pessoas aqui hoj e — eu disse.

Glória e eu não estávam os m ais dançando. Eu estava com o braço sobre seu om bro e ela estava com o braço em volta de m inha cintura, e andávam os. Assim estava certo. Na prim eira sem ana, a gente era obrigado a dançar, m as depois não. A gente só tinha que ficar em m ovim ento. Vi Jam es e Ruby andando em nossa direção e vi na expressão dele que havia algo de errado. Eu quis ir em bora, m as não tinha para onde ir.

— Eu disse para dar um tem po para m inha m ulher — ele disse para Glória.

— Vai pro inferno, seu brutam onte — disse Glória.

— Espera aí — eu disse. — Qual é o problem a?

— Ela andou buzinando na orelha de Ruby de novo — Jam es disse. — Toda vez que eu viro as costas ela com eça.

— Deixa para lá, Jim — Ruby disse, tentando levá-lo para o outro lado.

— Não vou deixar para lá não. Eu disse para calar a boca, não disse? — ele disse para Glória.

— Vai se...

Antes que Glória term inasse, ele deu um tapa no rosto dela, atirando a cabeça dela contra m eu om bro. Foi um a bofetada. Eu não podia tolerar isso. Estendi o braço e dei-lhe um soco na boca. Ele atingiu m eu queixo com a esquerda, atirando-m e em cim a de uns dançarinos. Isso im pediu que eu caísse no chão. Ele correu em m inha direção e eu o peguei, lutam os e eu tentei colocar o j oelho entre as pernas dele, num golpe suj o. Era a única chance que eu tinha.

Um apito soou no m eu ouvido e um a pessoa nos agarrou. Era Rollo Peters. Ele nos separou.

— Parem com isso — ele disse. — O que está acontecendo aqui?

— Nada — eu disse.

— Nada — Ruby disse.

Rollo levantou a m ão e acenou para Rocky na plataform a.

— Continuem — disse Rocky , e a orquestra com eçou a tocar.

— Dispersar — Rollo disse aos com petidores, que com eçaram a ir em bora. — Vam os — ele disse, fazendo com que circulassem na pista.

— Da próxim a vez corto seu pescoço — Jam es disse para Glória.

— Vá à m erda — Glória disse.

— Cale a boca — eu disse.

Fui andando com ela em direção a um canto, e dim inuím os o passo, m al nos m exendo.

— Você está louca? — eu disse. — Por que não deixa Ruby em paz?

— Não se preocupe. Cansei de desperdiçar m inha saliva com ela. Se ela quer ter um bebê deform ado, que tenha.

— Olá, Glória — disse um a voz.

Olham os em volta. Era um a velha na fileira da frente da arquibancada, perto da grade. Não sabia seu nom e, m as ela era um a personalidade. Ia todas as noites, levando um cobertor e com ida. Certa noite enrolou-se no cobertor e ficou a noite toda. Ela tinha m ais ou m enos 65 anos.

— Olá! — disse Glória.

— Qual foi o problem a? — a velha perguntou.

— Nada — Glória disse só um a briguinha.

— Com o você está se sentindo? — a velha perguntou.

— Tudo bem , acho — Glória respondeu.

— Eu sou a Sr.ª. Lay den — a velha disse. — Vocês são m eu par favorito.

— Obrigado — eu disse.

— Tentei participar da com petição — disse a Sr.ª Lay den, m as não m e deixaram . Disseram que eu era velha dem ais, m as só tenho sessenta anos.

— Legal! — eu disse.

Glória e eu estávam os parados, abraçados, só m exendo os corpos. Tínham os de ficar nos m exendo o tem po todo. Dois hom ens entraram na arquibancada atrás da velha. Am bos m ascavam charutos apagados.

— São detetives — Glória disse, baixinho.

— ...O que está achando da com petição? — perguntei à srª. Lay den.

— Estou gostando m uito — ela disse. — Muito! Rapazes e m oças tão legais...

— Circulando, m oçada — Rollo disse, passando perto de nós.

Fiz um sinal com a cabeça para a srª. Lay den e andam os.

— Dá para im aginar um a coisa dessas? — Glória perguntou. — Ela deveria estar em casa, trocando as fraldas do bebê. Meu Deus, espero não viver tanto até ficar tão velha.

— Com o você sabe que aqueles suj eitos são detetives? — perguntei.

— Sou vidente — Glória respondeu. — Dá para im aginar um a velha assim ? Ela é louca por esse tipo de coisa. Deviam cobrar um aluguel dela — abanou a cabeça. — Meu Deus, espero não viver tanto até ficar tão velha — ela disse de novo.

O encontro com a velha a deixou m uito deprim ida. Glória disse que se lem brou de um a m ulher na cidadezinha no oeste do Texas, onde ela m orou.

— Alice Fay e acabou de entrar — disse um a das m oças. — Está vendo? Sentada ali.

Era Alice Fay e m esm o, com dois hom ens que não reconheci.

— Está vendo? — perguntei a Glória.

— Não quero vê-la — disse Glória.

— Senhoras e senhores — Rocky disse no m icrofone tem os a honra de ter conosco, nesta noite, a m aravilhosa estrela de cinem a Alice Fay e. Um a salva de palm as para Alice, senhoras e senhores.

Todos aplaudiram e Alice Fay e fez um sinal com a cabeça, sorrindo. Socks Donald, sentado na arquibancada perto da plataform a da orquestra, tam bém sorria. O pessoal de Holly wood com eçava a chegar.

— Vam os — eu disse para Glória —, bata palm as.

— Por que deveria aplaudir? — Glória disse. — O que é que ela tem que eu não tenho?...

— Você está com invej a — eu disse.

— É isso m esm o, estou com invej a. Enquanto eu for um fracasso, vou sentir invej a de todo m undo que for bem -sucedido. Você não?

— Claro que não — eu disse.

— Você é bobo — ela disse.

— Ei, vej a — eu disse.

Os dois detetives tinham saído da arquibancada com a srª. Lay den e estavam sentados com Socks Donald. Estavam com as cabeças j untas olhando para um a folha de papel que um deles segurava.

— Tudo bem , m oçada — Rocky disse ao m icrofone. — Um pouco de anim ação antes do descanso... Podem com eçar — disse para a orquestra, batendo as m ãos e os pés, acom panhando a m úsica. Em poucos m inutos, os clientes tam bém estavam batendo as m ãos e os pés.

Estávam os todos rodando em círculos na pista, todos olhando para o ponteiro do relógio, quando, de repente, Kid Kam m , do par n° 18, com eçou a dar tapas no rosto de sua parceira. Ele a segurava com a m ão esquerda, dando tapas de um lado para o outro com a m ão direita. Mas ela não reagia. Tinha desm aiado. Gargarej ou algum as vezes e escorregou no chão, inconsciente.

O j uiz da pista apitou e todos os clientes ficaram de pé, agitados. Os clientes de um a m aratona de dança não precisam estar preparados para a agitação. Quando algum a coisa acontece, eles ficam todos agitados ao m esm o tem po. Nesse sentido, um a m aratona de dança é parecida com um a tourada.

O j uiz da pista e duas enferm eiras levantaram a m oça e levaram -na, arrastando-a, para o vestiário.

— Mattie Barnes, do par n° 18, desm aiou — Rocky anunciou para a m ultidão. — Ela foi levada ao vestiário, senhoras e senhores, onde receberá o m elhor atendim ento m édico. Não foi nada grave, senhoras e senhores... Nada grave. É apenas um a m ostra de que sem pre acontece algum a coisa num a m aratona de dança.

— Ela reclam ou no últim o período de descanso — Glória disse.

— Qual é o problem a dela? — perguntei.

— São aqueles dias do m ês — Glória disse. — E ela não vai conseguir voltar. É do tipo que tem de ficar de cam a durante três ou quatro dias nessa época.

— Eu escolho a dedo — disse Kid Kam m . Sacudiu a cabeça, com ódio. — Rapaz, que falta de sorte! Já estive em nove com petições e não term inei nenhum a. Minhas parceiras sem pre m e deixam na m ão.

— Ela provavelm ente vai ficar boa — eu disse, tentando anim á-lo.

— Nada disso — ele disse —, ela está acabada. Já pode voltar para o cam po.

A sirene tocou, avisando que a m alhação tinha acabado. Todos correram para o vestiário. Tirei os sapatos e pulei na cam a. Senti a pulsação do oceano um a vez... só um a vez. Então adorm eci.

Acordei com o cheiro de am oníaco no nariz. Um dos treinadores estava com um a garrafa em baixo de m inhas narinas, para que eu cheirasse. (Esse era o m elhor j eito de nos acordar de um sono profundo, o m édico disse. Eles não teriam conseguido se apenas nos sacudissem .).

— Tudo bem — eu disse ao treinador. — Estou bem .

Sentei-m e e procurei m eus sapatos. Então vi os dois detetives e Socks Donald perto de m im , de pé, ao lado da cam a de Mário. Estavam esperando que o outro treinador o acordasse. Por fim , Mário virou-se e olhou para eles.

— Olá, cara — disse um dos detetives. — Conhece esse cara? — entregou-lhe um pedaço de papel. Agora eu estava perto o bastante para ver o que era. Era um a página arrancada de um a revista policial com vários retratos.

Mário olhou para o papel e devolveu.

— Sim , sei quem é — disse, sentando.

— Você não m udou m uito — falou o outro detetive.

— Seu carcam ano filho-da-puta — Socks disse, cerrando os punhos. — O que está tentando aprontar?

— Nada, Socks — disse o prim eiro detetive. Depois se voltou para Mário. — Bem , Giuseppe, pegue suas coisas.

Mário com eçou a am arrar os sapatos.

— Não tenho nada, a não ser um casaco e urna escova de dentes — disse. — Mas queria m e despedir de m inha parceira.

— Seu carcam ano filho-da-puta sem -vergonha — Socks disse. — Isso vai ficar m uito legal nos j ornais, não é?

— Esqueça sua parceira, Giuseppe — disse o segundo detetive. — Você aí — ele disse para m im —, diga à parceira de Giuseppe que ele se despediu. Vam os, Giuseppe — ele disse a Mário.

— Levem esse carcam ano filho-da-puta em bora pela porta dos fundos, rapazes — disse Socks Donald.

— Todos na pista — gritou o j uiz da pista. — Todos na pista.

— Adeus, Mário — eu disse.

Mário não disse nada. Tudo se passou de m odo silencioso, com o se fosse algo corriqueiro. Os detetives agiram com o se esse tipo de coisa acontecesse todos os dias.