Mas Não se Matam Cavalos?
...punido com a pena de morte e executado...
...capítulo onze
Horas transcorridas 855
Pares restantes 21
GUERRA NA MARATONA DE DANÇA CONTINUA
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A Liga das Mães am eaça organizar um com ício, se a Assem bléia Municipal não
encerrar a com petição.
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TERCEIRO DIA DE CONTROVÉRSIA
A Liga das Mães em prol da Moralidade continua sua guerra contra a maratona de dança, ameaçando levar a questão diretamente aos cidadãos, se a Assembléia Municipal não encerrar o evento. A maratona de dança está sendo realizada em um balneário há 36 dias.
As sras. Franklin Higby e William Wallace Witcher, presidente e vice-presidente da Liga das Mães em prol da Moralidade, compareceram à Assembléia Municipal de novo esta tarde, protestando contra a continuidade da dança. Foram informadas pela Assembléia de que o procurador municipal estava fazendo um estudo completo das leis para determinar os passos legais a serem tomados.
“Não podemos fazer nada antes de sabermos o que diz a lei”, disse Tom Hinsdell, presidente da Assembléia. “Até agora não encontramos nenhum estatuto específico que trate do assunto, mas o procurador municipal está examinando as leis.”
“A Assembléia Municipal hesitaria da mesma forma, se uma praga ameaçasse a cidade?”, perguntou a srª. Higby. “Claro que não. Se não existem leis específicas para essa situação, que se aprovem leis emergenciais. A maratona de dança é uma praga; é vulgar e degradante, e no mesmo local há um bar que serve de ponto de encontro para bandidos, contrabandistas e conhecidos criminosos. Certamente não é um local decente para nossos filhos...”
Devolvi o j ornal para a srª. Lay den.
— O sr. Donald nos disse que seu advogado falou que a cidade não pode fazer nada — eu disse.
— Não faz diferença — disse a srª. Lay den. — Aquelas m ulheres estão determ inadas a fechar isto aqui, pela lei ou sem lei.
— Não vej o nenhum problem a com a m aratona — eu disse —, m as elas têm razão quanto ao bar. Vi uns tipos m al-encarados no Palm Garden... Quanto tem po a senhora calcula que vão levar para fechar isto aqui?
— Não sei — ela disse. — Mas vão conseguir. O que você vai fazer depois?
— A prim eira coisa que vou fazer é tom ar sol — eu disse. — Eu adorava a chuva e odiava o sol, m as agora é o contrário. Não tem m uito sol aqui dentro...
— E depois, o que vai fazer?
— Ainda não tenho nenhum plano — eu disse.
— Entendo. Onde está Glória?
— Foi vestir o uniform e. Ela volta num m inuto.
— Ela está com eçando a ficar fraca, não é? O m édico disse que teve de exam inar seu coração várias vezes.
— Isso não quer dizer nada — eu disse. — Ele tem de exam inar o coração de todo m undo. Glória está bem .
Ela não estava bem e eu sabia disso. Estávam os com m uitos problem as durante os dérbis. Nem sei com o dem os conta das últim as duas noites. Glória entrou e saiu da arena um m onte de vezes durante as duas corridas. Mas não tirei nenhum a conclusão só porque o m édico exam inou seu coração seis ou sete vezes ao dia. Eu sabia que ele j am ais encontraria o problem a dela com um estetoscópio.
— Venha cá, Robert — disse a srª. Lay den.
Era a prim eira vez que ela usava m eu nom e e fiquei um pouco constrangido. Aproxim ei-m e da grade, m exendo o corpo para que ninguém dissesse que eu estava quebrando as regras da com petição, por ficar parado. O salão estava lotado de gente.
— Você sabe que sou sua am iga, não é? — disse a srª. Lay den.
— Sim , senhora, sei disso.
— Você sabe que eu arrum ei o patrocinador, não é?
— Sim , senhora, sei disso.
— Você confia em m im , não é?
— Sim , senhora, confio.
— Robert, a Glória não é o tipo certo de m oça para você.
Eu não disse nada, esperando pelo que viria em seguida. Nunca entendi por que a srª. Lay den tinha tanto interesse por m im , a não ser que... Mas não era possível. Ela tinha idade para ser m inha avó.
— Ela nunca vai prestar para nada — disse a srª. Lay den. — É um a pessoa m á e vai arruinar sua vida. Não quer ter sua vida arruinada, não é?
— Ela não vai arruinar m inha vida — eu disse.
— Prom eta que quando sair daqui não irá nunca m ais vê-la.
— Ah, eu não vou m e casar com ela, nem nada parecido — eu disse. — Não estou apaixonado por ela. Ela é legal. Só fica um pouco deprim ida de vez em quando.
— Ela não é deprim ida — disse a srª. Lay den. — Ela é am arga. Ela odeia tudo e todos. Ela é cruel e perigosa.
— Não sabia que a senhora achava isso dela, srª. Lay den.
— Sou um a m ulher velha — ela disse. — Sou um a m ulher m uito, m uito velha. Sei o que estou dizendo. Quando isso acabar, Robert — ela disse, de repente. — Não sou tão pobre quanto você acha. Pareço pobre, m as não sou pobre. Sou rica. Sou m uito rica. Sou m uito excêntrica. Quando você sair daqui...
— Olá — disse Glória, surgindo de repente.
— ...Olá — disse a srª. Lay den.
— Qual é o problem a? — Glória perguntou, depressa. — Estou interrom pendo algum a coisa?
— Não, você não está interrom pendo nada — eu disse a ela.
A srª. Lay den abriu o j ornal e com eçou a ler. Glória e eu andam os até a plataform a.
— O que ela estava falando sobre m im ? — Glória perguntou.
— Nada — eu disse. — Estávam os falando sobre o fim da m aratona...
— Vocês tam bém estavam falando sobre outra coisa. Por que ela calou o bico quando eu cheguei perto?
— Você está im aginando coisas — eu disse.
— Senhoras e senhores — Rocky disse ao m icrofone, e quando o público fez silêncio —, ou, talvez, depois de ler o j ornal eu devesse dizer, “Colegas Idiotas”.
As pessoas estouraram na gargalhada, entenderam o que ele quis dizer.
— Vocês podem ver que continuam os com o cam peonato m undial de m aratona de dança — ele disse e vam os continuar até que sobre apenas um concorrente, o vencedor. Gostaria m uito de agradecer por terem vindo esta noite e gostaria de lem brar que am anhã é a noite que vocês não podem perder, nossa cerim ônia pública de casam ento do par n° 71, Vee Lovel e Mary Hawley, que vão se casar bem aqui, diante de vocês, diante de um conhecido pastor da cidade. Se ainda não fizeram suas reservas, é m elhor que façam logo. E agora, antes do dérbi com eçar, gostaria de apresentar algum as de nossas celebridades — olhou para um pedaço de papel. — Senhoras e senhores, um dos nossos convidados de honra é nada m ais nada m enos do que o m aravilhoso astro de cinem a Bill Boy d. Aplausos para o Bill.
Bill Boy d (do cinem a) ficou de pé, fazendo um a reverência, enquanto o público aplaudia.
— Agora um outro astro do cinem a e do palco, Ken Murray. Ken está com um grupo de convidados im portantes. Será que poderia vir até a plataform a e apresentá-los?
O público aplaudiu com entusiasm o. Murray hesitou, m as pulou a grade e foi até a plataform a.
— Tudo bem , gente — ele disse, pegando o m icrofone. — Prim eiro um a j ovem atriz, a srta. Anita Louise...
A srta. Louise ficou de pé.
— E agora a srta. June Cly de...
A srta. Cly de ficou de pé.
— A srta. Sue Carol...
A srta. Carol ficou de pé.
— ...Tom Brown...
Tom Brown ficou de pé.
— ...Thornton Freeland...
Thornton Freeland ficou de pé.
— E é só, gente...
Murray apertou a m ão de Rocky e voltou para seu grupo.
— Senhoras e senhores — Rocky disse.
— Tem os aqui tam bém um im portante diretor que ainda não foi apresentado — eu disse a Glória. — É Frank Borzage. Vam os falar com ele...
— Para quê? — Glória disse.
— Ele é um diretor. Ele pode aj udar você a entrar para o cinem a...
— Dane-se o cinem a — disse Glóda. — Queria estar m orta...
— Eu vou — eu disse.
Andei pela pista até os cam arotes, sentindo m uita vergonha. Duas ou três vezes quase perdi a coragem e voltei.
— Vale a pena — pensei com igo. — Ele é um dos m elhores diretores do m undo. Um dia serei tão fam oso quanto ele e então vou lem brá-lo disso...
— Olá, sr. Borzage — eu disse.
— Olá, filho — ele disse. — Você vai ganhar hoj e?
— Espero que sim ... Assisti No Greater Glory. Achei m uito legal — eu disse.
— Que bom que você gostou...
— Quero ser diretor um dia — eu disse. — Um diretor com o o senhor...
— Espero que consiga — ele disse.
— Bem , até logo...
Voltei para a plataform a.
— Aquele é Frank Borzage — eu disse a Kid Kam m m .
— É m esm o?
— Ele é um grande diretor — expliquei.
— Ah! — Kid disse.
— Tudo bem — Rocky falou. — Os j uizes estão prontos? Estão com os pontos, Rollo? Tudo bem , m oçada...
Fom os para a linha de partida.
— Não vam os arriscar hoj e — sussurrei para Glória. — Não podem os m arcar bobeira...
— Nas m arcações, m oçada — Rocky disse. — Enferm eiras e treinadores, fiquem por perto. Segurem seus chapéus, senhoras e senhores. Orquestra, preparar...
Ele m esm o disparou a arm a.
Glória e eu partim os, abrindo cam inho para o segundo lugar, bem atrás de Kid Kam m e Jackie Miller. Eles estavam na frente, na posição que em geral era de Jam es e Ruby Bates. Quando dei a prim eira volta pensei em Jam es e Ruby, onde será que estariam . Sem eles, aquilo não parecia um dérbi.
No final da primeira volta Mack Aston e Bess Cartwright nos ultrapassaram e foram para o segundo lugar. Comecei a andar de calcanhar e na ponta dos pés mais depressa do que nunca. Eu sabia que era necessário. Todos os mais fracos tinham sido eliminados. Todos aqueles pares eram rápidos.
Fiquei em terceiro lugar durante seis ou sete voltas e o público começou a gritar e berrar para que ultrapassássemos. Fiquei com medo de tentar. Dá para ultrapassar uma equipe rápida na curva, mas é preciso muita energia. Até ali Glória estava agüentando bem, mas eu não queria pressioná-la demais. Não ficava preocupado enquanto ela conseguia se mover.
Depois de oito minutos comecei a sentir calor. Arranquei a camiseta e joguei-a para o treinador. Glória fez o mesmo. A maioria das garotas estava sem camiseta e o público urrava. Quando as garotas tiravam as camisetas ficavam apenas de sutiã e seus peitos balançavam enquanto trotavam.
“Está tudo bem até agora, se ninguém nos desafiar” pensei comigo.
Naquele momento fomos desafiados. Pedro Ortega e Lillian Bacon estavam correndo ao lado, tentando entrar na curva. Era quase o único jeito de ultrapassar um par, mas não era tão fácil assim. Era preciso ficar dois passos à frente na linha reta e depois fazer uma virada abrupta na curva. Era isso que Pedro estava pensando em fazer. Eles trombaram em nós na curva, mas Glória conseguiu ficar de pé e eu a arrastei, mantendo nossa posição.
Ouvi o público segurar a respiração e sabia que alguém deveria estar caindo. No mesmo instante ouvi um corpo caindo no chão. Não olhei. Continuei a correr. Isso já era rotina para mim. Quando cheguei na reta e pude olhar sem perder o ritmo, vi que era Mary Hawley, a parceira de Vee Lovell, que estava na arena. As enfermeiras e os treinadores estavam em volta dela e o médico estava usando o estetoscópio...
— Deixem a parte interna para o desacompanhado - Roclcy gritou.
Eu mudei de lugar e Yee me ultrapassou. Agora ele tinha que fazer duas voltas para cada volta nossa. Ele olhou para arena quando passou, com uma expressão de agonia no rosto. Eu sabia que ele não estava sofrendo, estava apenas querendo saber quando sua parceira sairia de lá... Na quarta volta sozinho, ela levantou e se juntou a ele.
Fiz um sinal para a enfermeira pedindo uma toalha úmida e na volta seguinte ela a jogou em volta de meu pescoço. Segurei uma das pontas com os dentes.
— Faltam quatro minutos - Rocky gritou.
Foi um dos dérbis mais apertados que tivemos. Kid e Jackie mantinham um ritmo impressionante. Eu sabia que Glória e eu não corríamos perigo, se mantivéssemos o ritmo, mas não dava para saber quando a parceira iria desmoronar. Depois de um certo ponto a gente se m exia autom aticam ente, sem ter consciência de estar em m ovim ento. Num m om ento a gente estava no m áxim o da velocidade e no m om ento seguinte com eçava a cair. Era disso que eu tinha m edo em relação a Glória, que ela desm oronasse. Ela estava com eçando a se pendurar no m eu cinto.
— Continue! — gritei para ela, em pensam ento, dim inuindo um pouquinho, achando que estava aliviando a pressão sobre ela. Pedro e Lillian estavam só esperando por isso. Passaram correndo por nós, pegando o terceiro lugar. Bem atrás de m im eu ouvia o barulho dos outros e percebi que todos estavam bem atrás de Glória. Eu não tinha m ais m argem nenhum a.
Levantei o quadril. Era um sinal para Glória se segurar firm e no cinto. Ela entendeu, pegando com a m ão direita.
“Graças a Deus”, pensei com igo. Era um bom sinal. Era um a prova de que ela estava com as idéias certas.
— Mais um m inuto — Rocky anunciou.
Mandei bala. Kid Karnm e Jackie dim inuíram o ritm o, atrasando um pouco Mack e Bess e Pedro e Lillian. Glória e eu estávam os entre eles e os outros. Era um a posição ruim . Rezei para que ninguém atrás de nós tivesse energia para um a puxada final porque percebi que o m enor encontrão faria Glória perder o ritm o e cair. E se alguém caísse no chão naquela hora...
Usei toda m inha força para avançar, para dar um passo à frente, para tirar a am eaça que vinha vindo... Quando a arm a disparou anunciando o final, m e virei para pegar Glória. Mas ela não desm aiou. Ela cam baleou para m eus braços, m olhada de suor, fazendo esforço para respirar.
— Quer um a enferm eira? — Rocky gritou da plataform a.
— Ela está bem — eu disse. — É só descansar um m inuto.
A m aioria das m oças precisou de aj uda para ir ao vestiário, m as os rapazes se j untaram em volta da plataform a para ver quem tinha sido desclassificado. Os j uizes deram as folhas com as contas para Rollo e Rocky , que as verificaram .
— Senhoras e senhores — Rocky anunciou em seguida. — Tem os aqui o resultado do dérbi m ais sensacional que vocês j á viram . Em prim eiro lugar, o par n° 18, Kid Kam m e Jackie Miller. Em segundo lugar, Mack Aston e Bess Cartwright. Em terceiro lugar, Pedro Ortega e Lillian Bacon. Em quarto lugar, Robert Sy verten e Glória Beatty. Esses foram os vencedores... e agora os derrotados... a últim a equipe a term inar... o par que pelas regras está desclassificado e elim inado da m aratona de dança. É o par n° 11, Jere Flint e Vera Rosenfield...
— Você está louco! — Jere Flint gritou alto o bastante para que todos no salão o ouvissem . — Isso está errado — ele disse, chegando m ais perto da plataform a.
— Pode checar — Rocky disse, entregando-lhe as folhas com as contas.
— Queria que tivéssem os sido nós — Glória disse, levantando a cabeça. — Queria ter perdido a corrida...
— Psiu! — eu disse.
— Não ligo a m ínim a para o que está escrito neste papel. Está errado! — Jere Flint disse, devolvendo o papel para Rocky . — Sei que está errado. Com o é possível que sej am os elim inados, se não éram os os últim os?
— Você consegue contar as voltas enquanto está correndo? — Rocky perguntou. Estava tentando desm oralizar Jere. Ele sabia que era im possível fazer isso.
— Não consigo — Jere disse. — Mas sei que não fom os para a arena e que Mary foi. Estávam os na frente de Vee e Mary e term inam os à frente deles...
— O que acha, m oço? — Rocky perguntou a um hom em que estava por perto. — Você checou o par n° 11...
— Você está enganado, cara — o hom em disse para Jere. — Eu chequei com cuidado...
— Que pena, rapaz— disse Socks Donald, passando peJo grupo de j uizes. — Você teve azar...
— Não foi azar. Foi arm ação — Jere disse. — Você não consegue enganar ninguém . Se Vee e Mary fossem desclassificados, não haveria um casam ento am anhã....
— Ora essa — disse Socks. — Corram para o vestiário...
— Ok — disse Jere. Foi até o hom em que tinha feito a checagem dele e de Vera e perguntou: — Quanto Socks pagou por isso?
— Não sei do que você está falando...
Jere virou de lado e deu-lhe um soco na boca, derrubando-o no chão.
Socks correu até Jere, colocou-se na posição de defesa e ficou olhando para ele com a m ão no bolso de trás.
— Se você m e apontar o cassetete, ele vai descer pela sua goela — Jere disse a ele. E afastou-se, atravessando a pista em direção ao vestiário.
O público estava de pé, falando sem parar, tentando entender o que estava acontecendo.
— Vam os nos arrum ar — eu disse a Glória.