Mas Não se Matam Cavalos?
...pelo qual foi condenado pelo veredicto do júri...
...capítulo seis
Então Mário foi para a cadeia e Mattie voltou para o cam po. Lem bro-m e de com o fiquei surpreso quando prenderam Mário por assassinato. Não conseguia acreditar. Ele era um dos caras m ais legais que eu conheci. Mas é que naquela época eu não conseguia acreditar. Agora sei que é possível ser legal e tam bém ser um assassino. Ninguém foi m ais legal com um a garota do que eu fui com Glória, m as chegou a hora em que eu atirei nela e a m atei. Então você entende que ser legal não significa nada...
Mattie foi autom aticam ente desqualificada quando o m édico se recusou a deixar que perm anecesse na com petição. Disse que se ela continuasse a dançar, danificaria alguns órgãos e nunca m ais poderia ter um bebê. Glória contou que ela ficou brava, xingou o m édico e se recusou a desistir. Mas desistiu. Teve de desistir. Não teve escolha.
Com isso, Kid Kam m ficou sendo o par de Jackie. Pelas regras podia-se fazer isso. Você podia ficar sozinho durante 24 horas, m as, se não arrum asse um parceiro nesse m eio-tem po, seria desclassificado. Tanto Kid com Jackie pareciam satisfeitos com o arranj o. Jackie não quis com entar a perda de Mário. Sua postura era a de que um parceiro era só um parceiro. Mas Kid não parava de sorrir. Parecia achar que afinal sua m á sorte tinha acabado.
— Eles têm chances de ganhar — Glória disse. — São fortes com o m ulas. Lá no Alabam a, ela com ia m ilho. Olha a força. Aposto que ela aguenta uns seis m eses.
— Vou chegar perto de Jam es e Ruby — eu disse.
— Depois do j eito que eles nos trataram ?
— O que isso tem a ver? Além disso, qual é o problem a conosco? Tem os um a chance de ganhar, não é?
— Tem os?
— Bem , você não parece acreditar — eu disse.
Ela fez um sinal com a cabeça, sem dizer nada sobre isso.
— Cada vez m ais eu queria estar m orta — ela disse.
De novo. Não im porta sobre o que eu falasse, ela sem pre repetia isso.
— Não há nada que eu possa dizer que não a lem bre de que gostaria de estar m orta? — perguntei.
— Não — ela disse.
— Desisto — eu disse.
Um a pessoa da plataform a abaixou o volum e do rádio. A m úsica parecia m úsica agora (usávam os o rádio sem pre que a orquestra não estava presente. Era de tarde. A orquestra só vinha à noite.)
— Senhoras e senhores — disse Rocky ao m icrofone —, tenho a honra de anunciar que dois patrocinadores ofereceram aj uda a dois pares. O salão de beleza Pom padour, da B Avenue, n° 415, vai patrocinar o par n° 13, Jam es e Ruby Bates. Vam os dar um a salva de palm as ao salão de beleza Pom padour, da B Avenue, n° 415, senhoras e senhores... Vocês tam bém , m oçada...
Todos aplaudiram .
— O segundo par a ser patrocinado — disse Rocky — é o n° 34, Pedro Ortego e Lillian Bacon. Serão patrocinados pela oficina Oceanic. Tudo bem , agora um a salva de palm as para a oficina Oceanic, que fica na Ocean Street, n° 11.341, em Santa Mônica.
Todos aplaudiram de novo.
— Senhoras e senhores — Rocky disse —, deve haver m ais patrocinadores para essa m oçada m aravilhosa. Conversem com seus am igos, senhoras e senhores, e vam os arrum ar patrocinadores para todos. Olhem para eles, senhoras e senhores, depois de 242 horas em m ovim ento contínuo, eles estão com o novos... Um a salva de palm as para essa m oçada m aravilhosa, senhoras e senhores.
Houve m ais aplausos.
— E não esqueçam , senhoras e senhores — Rocky disse que no Palm Garden logo ali, no fim do corredor, vocês podem tom ar bebidas deliciosas... todos os tipos de cervej as e sanduíches. Venham conhecer o Palm Garden, senhoras e senhores... Podem com eçar — ele disse, girando o botão do rádio e enchendo o salão de barulho de novo.
Glória e eu fom os até Pedro e Lillian. Pedro m ancava por causa de um defeito num a das pernas. Parece que ele tinha sido ferido num a tourada na cidade do México. Lillian era m orena. Tam bém estava tentando fazer cinem a, quando ouviu falar sobre a m aratona de dança.
— Parabéns — eu disse.
— Isso m ostra que alguém torce por nós — disse Pedro.
— Já que não deu para ser a Metro Goldwin May er, que sej a um a oficina — disse Lillian. — Só que m e parece um pouco estranho que um a oficina com pre m inhas calcinhas.
— De onde você tirou essa idéia de calcinhas? — Glória disse. — Você não vai ganhar calcinhas. Vai ganhar um a cam iseta, com o nom e da oficina nas costas.
— Tam bém ganhei calcinhas — disse Lillian.
— Ei, Lillian — disse Rollo, o j uiz da pista —, a m ulher da oficina Oceanic quer falar com você.
— Quem ?
— Sua patrocinadora, Sr.ª Yeargan...
— Pelo escândalo — disse Lillian. — Pedro, parece que você vai ganhar cuecas.
Glória e eu andam os até a plataform a do m estre-de-cerim ônias. Era gostoso ficar ali, àquela hora da tarde. Havia um grande triângulo de sol que entrava pela j anela dupla por cim a do bar, no Palm Garden. Só dem orava dez m inutos, m as nesses dez m inutos eu m e m ovia devagar por ali (eu tinha de m e m exer para não ser desclassificado), deixando que o sol m e banhasse por inteiro. Era a prim eira vez na vida que eu gostava do sol.
“Quando essa m aratona acabar”, disse com igo “vou passar o resto de m inha vida tom ando sol. Mal posso esperar a oportunidade de ir ao deserto do Saara fazer um film e.” — Claro que isso não vai m ais acontecer.
Vi o triângulo no chão ficar cada vez m enor.
Por fim , fechou-se por com pleto e com eçou a subir pelas m inhas pernas. Rastej ou pelo m eu corpo, com o se estivesse vivo. Quando chegou ao queixo, fiquei na ponta dos pés, para que a cabeça ficasse ao sol o m áxim o possível. Não fechei os olhos. Mantive-os bem abertos, olhando direto para o sol. Não m e ofuscou. Desapareceu depressa.
Olhei à m inha volta, procurando Glória. Ela estava de pé, perto da plataform a, rebolando, falando com Rocky, que estava agachado. Rocky tam bém rebolava. (Todos os funcionários, o m édico, as enferm eiras, os j uizes da pista, o m estre-de-cerim ônias, m esm o os rapazes que vendiam refrigerantes, tinham recebido ordens de ficar se m exendo enquanto falavam com um dos concorrentes. Os adm inistradores eram m uito severos em relação a isso.)
— Yocê estava engraçado ali na ponta dos pés — disse Glória. — Parecia um bailarino.
— Se praticar direitinho, eu deixo você fazer um solo — Rocky disse, rindo.
— É m esm o — disse Glória. — Que tal o sol hoj e?
— Não deixe que façam gozações — disse Mack Aston, do par n° 5, quando passou.
— Rocky ! — um a voz cham ou.
Era Socks Donald. Rocky desceu da plataform a e foi até ele.
— Não acho legal você rir de m im — eu disse para Glória. — Eu nunca faço isso com você.
— Não precisa — ela disse. — Um especialista ri de m im . Deus... Você sabe o que Socks Donald quer com Rocky ? Você quer um a inform ação secreta?
— O quê? — perguntei.
— Sabe o par n° 6? Freddy e a m oça de Manski? A m ãe dela vai prestar queixa contra ele e Socks. Ela fugiu de casa.
— Não sei o que isso tem a ver — eu disse.
— Ela é m enor de idade — disse Glória. — Só tem quinze anos. Meu Deus, com tanto que se fala sobre isso, o cara devia ter m ais j uízo.
— Por que culpar o Freddy ? Pode ser que não sej a culpa dele.
— Segundo a lei, a culpa é dele — Glória disse. — É isso que conta.
Levei Glória de volta para onde Socks e Rocky estavam de pé, tentando ouvir o que diziam , m as eles estavam falando m uito baixo. Quer dizer, apenas Socks estava falando, Rocky apenas ouvia, fazendo sinal com a cabeça.
— Agora — ouvi Socks dizer, e Rocky fez um sinal de que tinha entendido e voltou para a pista, dando um a piscadinha para Glória, enquanto passava. Foi até Rollo Peters e cham ou-o de lado, sussurrando algo no ouvido dele por alguns segundos. Então Rollo foi em bora, olhando para os lados com o se procurasse por alguém , e Rocky voltou para a plataform a.
— A m oçada só tem alguns m inutos antes de se retirar para um m erecido descanso — Rocky anunciou no m icrofone. — E enquanto eles estiverem fora da pista, senhoras e senhores, os pintores farão um círculo oval na pista para o dérbi desta noite. Dérbi hoj e à noite, senhoras e senhores: não se esqueçam do dérbi. É a coisa m ais em ocionante que j á viram ... Tudo bem , m oçada, faltam dois m inutos para o descanso... Um pouco m ais de velocidade, m oçada... Mostrem aos presentes com o vocês são fortes... Vocês da platéia tam bém , m ostrem a essa m oçada que podem contar com o apoio de vocês...
Aum entou o volum e do rádio e com eçou a aplaudir e a bater com os pés no chão. A platéia aderiu. Nós todos com eçam os a ficar m ais anim ados, m as não por causa dessa adesão. Era porque dentro de um ou dois m inutos iríam os descansar e logo depois receberíam os a com ida.
Glória m e cutucou e eu vi Rollo Peters andando entre Freddy e a garota de Manski.
Achei que ela estava chorando, m as antes que Glória e eu os alcançássem os, a sirene tocou e todos correram para os vestiários.
Freddy estava de pé na sua cam a, colocando um outro par de sapatos num saco com zíper.
— Fiquei sabendo — eu disse. — Sinto m uito.
— Tudo bem — ele disse. — Só que foi ela quem m e estuprou... Ficarei bem se conseguir sair da cidade antes da polícia m e pegar. Foi um a sorte para m im que Socks foi avisado.
— Para onde você vai? — perguntei.
— Para o sul, acho. Sem pre quis conhecer o México. Até m ais...
— Até m ais — eu disse.
Ele foi em bora sem que ninguém soubesse. Quando passou pela porta dos fundos, vi o sol brilhando no oceano. Por um m om ento fiquei tão pasm o que não consegui m e m exer. Não sei se fiquei m ais surpreso por ver o sol pela prim eira vez em três sem anas ou se foi por descobrir a porta. Fui até lá, na esperança de que o sol ainda estivesse lá quando eu chegasse. A única outra vez que fiquei tão ansioso foi num Natal, quando eu era criança, a prim eira vez em que eu era crescido o bastante para entender o que era o Natal, e fui para a sala e vi a árvore toda ilum inada.
Abri a porta. No fim do m undo o sol se afundava no oceano. Estava tão verm elho, brilhante e quente que eu m e adm irei de não ter vapor. Certa vez vi vapor saindo do oceano. Foi num a estrada perto da praia e alguns hom ens estavam trabalhando com pólvora. De repente, explodiu e eles pegaram fogo. Eles correram e se atiraram no m ar. Foi quando vi o vapor.
A cor do sol se refletia em algum as nuvens m enores, deixando-as verm elhas. Lá onde o sol se afundava, o oceano estava m uito calm o, nem parecia um oceano. Estava lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, lindo. Várias pessoas estavam pescando no píer, sem prestar atenção ao pôr do sol. Eram bobos.
— Vocês precisam m ais do pôr do sol do que de peixes — eu disse com igo.
A porta escapou de m inhas m ãos, bateu e fez o barulho de um tiro de canhão.
— Você está surdo? — um a voz gritou ao m eu ouvido. Era um dos treinadores. — Deixe a porta fechada! Quer ser desclassificado?
— Só estava olhando o pôr do sol — eu disse.
— Está louco? Você deveria estar dorm indo. Você precisa dorm ir — ele disse.
— Não preciso dorm ir — eu disse. — Estou m e sentindo bem . Nunca m e senti m elhor em m inha vida.
— Mas precisa descansar — ele disse. — Só tem m ais alguns m inutinhos. Descanse os pés.
Ele m e seguiu até a cam a. Só então percebi que o vestiário não cheirava bem . Sou m uito sensível a cheiros desagradáveis e não sei por que não tinha percebido esse m au cheiro antes, de m uitos hom ens no m esm o quarto. Tirei os sapatos e deitei de costas.
— Quer que esfregue suas pernas? — ele perguntou.
— Estou bem — eu disse. — Minhas pernas estão boas.
Ele disse algo para si e foi em bora. Fiquei ali deitado, pensando no pôr do sol, tentando lem brar a cor dele. Não o verm elho, m as as outras cores. Quase lem brei um a ou duas vezes; era com o aquele cara que você conheceu um dia e depois esqueceu, cuj o tam anho, traços e m ovim entos você lem bra, m as não consegue j untar as coisas.
Pelos pés da cam a eu sentia o oceano batendo nas pilastras em baixo. Subia e descia, subia e descia, ia e voltava, ia e voltava...
Fiquei contente quando a sirene tocou, nos acordando e nos cham ando de volta para a pista.