Mas Não se Matam Cavalos?

Horace McCoy · Capítulo 14 de 14

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Mas Não se Matam Cavalos?

...capítulo treze · Glória e eu andam os pela pista…

 

Glória e eu andam os pela pista de dança, m eus calcanhares fazendo tanto barulho que nem pareciam m eus. Rocky estava na porta da frente com um policial.

— Para onde vocês vão? — Rocky perguntou.

— Vam os tom ar um pouco de ar — Glória disse.

— Vão voltar?

— Vam os — eu disse a ele. — Só vam os tom ar um pouco de ar. Faz tanto tem po que não saím os ao ar livre...

— Não dem orem — Rocky disse, olhando para Glória e m olhando os lábios de m odo expressivo.

— Vá à m erda! — Glória disse, saindo.

Passava das duas da m adrugada. O ar estava úm ido, espesso e lim po. Tão espesso e lim po que eu sentia m eus pulm ões devorando o ar em im ensos pedaços.

“Aposto que estão contentes por receber este tipo de ar”, eu disse aos m eus pulm ões.

Virei para trás e olhei para o edifício.

— Então foi nesse lugar que estivem os o tem po todo — eu disse. — Agora sei com o Jonas se sentiu quando olhou para a baleia.

— Vam os — disse Glória.

Andam os em volta do prédio em direção ao píer. O píer se estendia pelo oceano até onde a vista alcançava, subindo e descendo, gem endo e estalando com o m ovim ento da água.

— É um m istério as ondas não levarem esse píer em bora — e disse.

— Você é obcecado por ondas — Glória disse.

— Não, não sou — eu disse.

— Você só fala nisso há um m ês...

— Tudo bem , fique parada um m inuto e vai entender o que estou dizendo. Dá para sentir o sobe e desce...

— Posso sentir isso sem ficar parada — ela disse m as isso não é m otivo de preocupação. Isso acontece há m ilhões de anos.

— Não fique pensando que sou louco pelo oceano — eu disse. — Tudo bem se eu nunca m ais vir o oceano. Já vi o bastante pelo resto de m inha vida.

Sentam os num banco que estava úm ido dos borrifos do m ar. No fim do píer vários hom ens pescavam à beira do trapiche. A noite estava escura, não tinha lua nem estrelas. Um a linha irregular de espum a branca m arcava a praia.

— A brisa está gostosa — eu disse.

Glória não disse nada, olhando para longe. Lá em baixo na praia tinha um lugar com luzes.

— Ali é Malibu — eu disse. — Onde todas as estrelas de cinem a m oram .

— O que você vai fazer agora? — ela disse, por fim .

— Não sei direito. Pensei em procurar o sr. Maxwell am anhã. Talvez ele possa fazer algum a coisa. Ele parecia interessado de verdade.

— Sem pre am anhã — ela disse. — A grande chance sem pre vem am anhã.

Passaram dois hom ens, carregando varas de pescar. Um deles arrastava um tubarão-m artelo atrás de si.

— Essa criancinha não vai fazer m ais nenhum estrago — ele disse para o outro hom em ...

— O que você vai fazer? — eu perguntei a Glória.

— Vou pular fora desse carrossel — ela disse. — Estou de saco cheio desta coisa noj enta.

— Que coisa?

— A vida — ela disse.

— Por que não tenta aj udar a si m esm a? — eu disse. — Você sem pre tom a a atitude errada em todas as coisas.

— Não m e venha com serm ões — ela disse.

— Não estou fazendo serm ão — eu disse m as você tem de m udar de atitude. É sério. Isso afeta todo m undo que chega perto de você. Eu, por exem plo. Antes de conhecer você eu não achava que poderia fracassar. Nunca pensei em não dar certo. E agora...

— Quem ensinou você a falar desse j eito? — ela perguntou. — Você nunca pensaria isso por você.

— Sim , eu pensei — eu disse.

Ela olhou para o oceano em direção a Malibu.

— Ah, de que adianta eu enganar a m im m esm a? — ela disse, depressa. — Sei qual é m eu lugar...

Eu não disse nada, fiquei olhando para o oceano e pensando em Holly wood, pensando se j á tinha estado lá, ou se acordaria de novo em Arkansas e teria de correr e pegar m eu j ornal antes que am anhecesse.

—...Filho-da-puta — Glória dizia para si. — Não precisa m e olhar desse j eito — ela disse. — Sei que não presto...

“Ela tem razão”, disse com igo. “Ela tem toda razão. Ela não presta...”

— Queria ter m orrido naquela vez em Dallas — ela disse. — Sem pre achei que o m édico salvou m inha vida por um a única razão...

Eu não disse nada quando escutei isso, ainda olhando para o oceano e pensando em com o ela estava certa sobre não prestar e que não foi legal ela não ter m orrido naquela vez em Dallas. Com certeza ela estaria m elhor se estivesse m orta.

— Sou um a desaj ustada. Não tenho nada para dar para ninguém — ela dizia. — Pare de m e olhar desse j eito

— ela disse.

— Não estou olhando para você de nenhum j eito — eu disse. — Você não está vendo m eu rosto...

— Estou sim — ela disse.

Ela estava m entindo. Ela não podia ver m eu rosto. Estava m uito escuro.

— Você não acha que devem os entrar? — eu disse. — Rocky queria ver você...

— Aquele... — ela disse. — Sei o que ele quer, m as ele nunca m ais vai conseguir. Nem ninguém m ais.

— O quê? — eu disse.

— Você não sabe?

— Não sei o quê? — eu disse.

— O que Rocky quer.

— Ah! — eu disse. — Claro. Agora caiu a ficha.

— É o que todos os hom ens querem — ela disse —, m as tudo bem . Ah, não foi ruim dar para o Rocky . Ele m e fez um favor e eu fiz um favor a ele... Mas, e se eu m e encrenquei?

— Você não está achando que sim , está? — perguntei.

— Sim , estou. Até agora sem pre tom ei conta de m im . E se eu tiver um a criança? — ela disse. — Você j á sabe o que ela vai ser quando crescer, não é? Com o nós. Não quero isso. De qualquer m odo, estou acabada. Acho este m undo podre e estou acabada. Eu estaria m elhor se estivesse m orta, assim com o todo m undo. Eu estrago tudo que chega perto de m im . Você m esm o disse isso.

— Quando foi que eu disse um a coisa dessas?

— Agora m esm o. Você disse que antes de m e conhecer nunca tinha pensado em fracassar... Bem , não é m inha culpa. Não tenho controle. Já tentei m e m atar um a vez, m as não consegui e nunca m ais tive coragem para tentar de novo... Quer fazer um favor ao m undo? — ela perguntou.

Eu não disse nada, fiquei escutando o oceano bater contra a balaustrada, sentindo o píer subir e descer e pensando que ela estava certa sobre o que dissera.

Glória estava rem exendo na bolsa. Quando tirou a m ão de dentro, vi que estava segurando um a arm a pequena. Não tinha visto a arm a antes, m as não fiquei surpreso. Não fiquei nada surpreso.

— Pegue — ela disse, entregando a arm a para m im .

— Não quero. Guarde isso — eu disse. — Vam os, vam os voltar lá para dentro. Estou com frio...

— Pegue e aj ude a Deus — ela disse, pressionando a arm a na m inha m ão. — Atire em m im . É o único j eito de m e salvar deste sofrim ento.

“Ela está certa”, disse comigo. “É o único jeito de salvá-la desse sofrimento.” Quando eu era criança passava as férias na fazenda de meu avô em Arkansas. Certo dia estava perto do defumadouro, vendo a minha avó fazer sabão numa grande panela de ferro, quando meu avô atravessou o jardim, muito agitado. “A Nellie quebrou a perna”, meu avô disse. Minha avó e eu subimos a escada para o jardim onde meu avô estava arando. A Nellie estava no chão gemendo, ainda presa ao arado. Ficamos ali olhando para ela, só olhando para ela. Meu avô voltou com a arma que tinha usado em Chickamauga Ridge. “Elapisou num buraco”, ele disse acariciando a cabeça de Nellie. Minha avó me virou para o outro lado. Comecei a chorar. Ouvi um tiro. Ainda escuto esse tiro. Corri até ela, me joguei no chão, abraçando o pescoço dela. Eu amava aquela égua. Eu odiei meu avô. Me levantei e fui até ele, bati nas pernas dele com meus punhos... Mais tarde, naquele dia, ele me explicou que também amava Nellie, mas que teve de atirar nela. “Era a coisa mais bondosa a fazer”, ele disse. “Ela não ia ficar boa. Era o único jeito de salvá-la do sofrimento...”

Eu estava com a arm a na m ão.

— Tudo bem — eu disse a Glória. — Diga quando.

— Estou pronta.

— Onde?

— Aqui m esm o. Do lado da cabeça.

O píer pulou quando um a onda grande se quebrou.

— Agora?

— Agora.

Atirei nela.

O píer se m exeu de novo e a água fez um barulho de engolir algo quando voltou para o oceano.

Joguei a arm a no m ar.

 

Um policial estava sentado atrás com igo enquanto o outro dirigia. Estávam os indo bem depressa e a sirene tocava. Era o m esm o tipo de sirene que usaram na m aratona de dança quando queriam nos acordar.

— Por que você a m atou? — perguntou o policial no banco de trás.

— Ela m e pediu — eu disse.

— Escutou isso, Ben?

— Que filho-da-puta m ais prestativo! — disse Ben, por cim a do om bro.

— É seu único m otivo? — perguntou o policial do banco de trás.

— Mas não se m atam cavalos? — eu disse.

...e que Deus tenha piedade de sua alma...

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