Mas Não se Matam Cavalos?
...incorrendo na pena m áxim a da lei...
...capítulo sete
Os pintores tinham term inado. Pintaram um a linha branca grossa em volta da pista, em form a oval. Essa era a pista para o dérbi.
— Freddy foi em bora — eu disse para Glória, quando andam os para a m esa onde estavam os sanduíches e o café. (Isso era cham ado de lanchinho. Fazíam os as refeições às dez da noite.)
— A m oça de Manski tam bém — Glória disse. — Dois assistentes sociais vieram buscá-la. Aposto que a m ãe vai dar um a surra nela.
— Acho chato dizer isso — eu disse m as a partida de Freddy foi um dos m om entos m us ilum inados de m inha vida.
— O que foi que ele fez a você?
— Ah, não estou falando disso — eu disse. — Mas se ele não tivesse ido em bora eu não teria visto o pôr do sol.
— Meu Deus! — disse Glória, olhando para o sanduíche. — Não existe nada no m undo além de presunto?
— Para você isso é peru — disse Mack Aston, que estava na fila atrás de m im . Ele estava brincando.
— Aqui tem um de carne — disse a enferm eira. — Você prefere de carne?
Glória pegou o sanduíche de carne e tam bém ficou com o de presunto.
— Ponha quatro colheres na m inha — ela disse para Rollo, que estava servindo o café. — E bastante crem e.
— Ela tem um cavalo dentro dela — disse Mack Aston.
— Preto — eu disse para Rollo.
Glória levou a com ida para perto da plataform a do m estre-de-cerim ônias, onde os m úsicos estavam afinando seus instrum entos. Quando Rocky Gravo a viu, pulou para a pista e foi falar com ela. Não havia lugar para m im ali, então fui para o outro lado.
— Olá! — disse um a m oça.
No escudo das costas dela estava escrito: 7. Ela tinha cabelos e olhos pretos e era bonitinha. Eu não sabia seu nom e.
— Olá! — eu disse, olhando em volta, tentando ver quem era seu parceiro. Ele estava conversando com duas m ulheres na arquibancada da frente.
— Com o está se saindo? — perguntou a n° 7. Sua voz era de um a pessoa instruída.
“O que estará fazendo aqui?” pensei com igo. — Acho que estou bem — respondi. — Apenas gostaria que j á tivesse acabado e que eu fosse o vencedor.
— O que vai fazer com o dinheiro, se ganhar? — ela perguntou, rindo.
— Faria um film e — eu disse.
— Não conseguiria fazer um grande film e com m il dólares, não é? — ela perguntou, m ordendo o sanduíche.
— Ah, não quis dizer um longa m etragem — expliquei. — Um curta. Poderia fazer com dois rolos, talvez três.
— Estou interessada em você — ela disse. — Estou de olho em você há duas sem anas.
— É m esm o? — eu disse, surpreso.
— Sim . Vi você parado tom ando sol ali todas as tardes e vi m ilhares de expressões diferentes no seu rosto. Às vezes tinha a im pressão de que você estava com m uito m edo.
— Engano seu — eu disse. — Por que eu teria m edo?
— Ouvi quando você disse à sua parceira sobre o pôr do sol esta tarde — ela disse, sorrindo.
— Isso não prova nada — eu disse.
— Im agine... — ela disse, olhando em volta. Olhou para o relógio, franzindo as sobrancelhas. — Ainda tem os quatro m inutos. Gostaria de fazer algo por m im ?
— Bem ... claro — eu disse.
Ela fez um m ovim ento com a cabeça e eu a segui até a plataform a do m estre-de-cerim ônias. A plataform a tinha pouco m ais de um m etro de altura, com um a pesada cortina de lona enfeitada que ia até o chão. Nós estávam os sozinhos num espaço form ado pelo fundo da plataform a e várias tabuletas. Se não fosse pelo barulho, ela e eu poderíam os ter sido as únicas pessoas no m undo. Estávam os os dois um pouco excitados.
— Vam os — ela disse.
Deitou-se no chão e levantou a lona, arrastando— se para debaixo da plataform a. Meu coração batia depressa e senti o sangue fugir do rosto. Pelas plantas dos pés sentia o oceano bater contra as pilastras.
— Vam os — sussurrou, puxando m eu tornozelo.
De repente, entendi o que ela queria. Não existem experiências novas na vida. Alguma coisa pode acontecer que você acha que nunca aconteceu antes, que você acha que é novidade, mas é um engano. Basta você ver, ou sentir um cheiro, ou escutar alguma coisa para você entender que essa experiência, que você pensou que era nova, já aconteceu antes. Quando ela puxou meu tornozelo, tentando me levar para debaixo da plataforma, me lembrei de uma vez em que uma outra menina fez a mesma coisa. Só que foi na varanda em vez de ser na plataforma. Eu tinha treze ou quatorze anos e ela tinha mais ou menos a mesma idade. Ela se chamava Mabel e morava na casa ao lado. Depois da aula a gente brincava na varanda na frente da casa, imaginando que era uma caverna e que nós éramos ladrões e prisioneiros. Mais tarde brincamos de papai e mamãe, imaginando que ali era uma casa. Mas naquele dia do qual estou falando fiquei na varanda da frente da casa, sem pensar em Mabel nem em joguinhos, e senti uma coisa puxar meu tornozelo. Olhei para baixo e vi que era Mabel. “Vamos”, ela disse.
Estava m uito escuro em baixo da plataform a, e enquanto eu m e encolhia, de j oelhos, tentando enxergar na escuridão, a n° 7 agarrou m eu pescoço.
— Depressa... — ela sussurrou.
— O que está acontecendo aqui? — reclam ou um a voz m asculina. Ele estava tão perto que senti seu hálito no m eu cabelo. — Quem está aí?
Então reconheci a voz. Era de Rocky Gravo. Meu estôm ago ficou em brulhado. A n° 7 soltou m eu pescoço e deslizou para fora da plataform a. Tive m edo de que se tentasse m e desculpar ou dizer algum a coisa Rocky reconheceria m inha voz, então rolei por debaixo da cortina. A n° 7 j á estava de pé, indo em bora, olhando para trás. Seu rosto estava branco com o papel. Nenhum de nós disse nada. Andam os pela pista de dança, tentando parecer inocentes. A enferm eira estava recolhendo as xícaras suj as de café num a cesta. Então descobri que m inhas m ãos e roupas estavam suj as de poeira. Eu ainda tinha uns dois m inutos antes de o apito soar, então corri para o vestiário para m e lim par. Depois de fazer isso, m e senti m elhor.
“Essa foi por pouco” disse com igo. “Nunca m ais faço um a dessas.”
Voltei para a pista quando o apito soou e a orquestra com eçou a tocar. Não era um a orquestra m uito boa, m as era m elhor do que o rádio, porque a gente não precisava ouvir um m onte de anúncios pedindo e im plorando para que a gente com prasse algum a coisa. Depois dessa m aratona j á ouvi rádio o bastante pelo resto de m inha vida. Tem um rádio ligado agora, num prédio do outro lado da rua, em frente ao tribunal. Dá para ouvir direitinho. “Precisa de dinheiro?... Está com problemas?... ”
— Onde esteve? — Glória perguntou, pegando no m eu braço.
— Em lugar nenhum — eu disse. — Quer dançar?
— Tudo bem — ela disse. Dançam os em volta da pista e então ela parou. — É m uito parecido com trabalho — ela disse.
Quando tirei a m ão de sua cintura percebi que m eus dedos estavam suj os de novo.
— Engraçado — pensei. — Acabei de lavar as m ãos, agora m esm o. — Vire-se — eu disse para Glória.
— Qual é o problem a?
— Vire-se — eu disse.
Ela hesitou, m ordeu o lábio e eu m e coloquei atrás dela. Ela estava usando um a saia branca de lã e um a blusa fina tam bém de lã branca. Suas costas estavam cobertas de um a poeira grossa, que eu sabia de onde vinha.
— Qual é o problem a? — ela disse.
— Fique parada — eu disse.
Tirei a suj eira com a m ão, lim pando quase toda a poeira e fiapos da blusa e da saia. Ela não disse nada durante um ou dois m inutos.
— Devo ter-m e suj ado quando briguei com Lillian no vestiário — ela disse, por fim .
“Não sou tão idiota quanto ela acha”, disse com igo. — Deve ter sido isso — eu falei.
Rollo Peters aproxim ou-se de nós, enquanto andávam os pela pista.
— Quem é aquela m oça? — perguntei, apontando para a n° 7.
— É a parceira de Guy Duke. O nom e dela é Rosem ary Loftus.
— Você está babando — disse Glória.
— Só perguntei quem ela era — eu disse. — Não sinto tesão por ela.
— Nem precisa — disse Glória. — Conte para ele, Rollo.
— Estou fora disso — Rollo disse, sacudindo a cabeça. — Não sei nada sobre ela.
— O que tem ela? — perguntei a Glória, quando Rollo foi em bora, j untando-se a Jam es e Ruby Bates.
— Você é m esm o tão ingênuo? — ela disse. — De verdade... é m esm o? — ela riu, m exendo a cabeça. — Você é um a figura!
— Tudo bem , esqueça — eu disse.
— Ora, aquela senhora é a m aior prostituta do rio Mississippi — ela disse. — É um a prostituta com educação especial, e esse tipo de prostituta é o pior tipo de todos. Nem m esm o as m eninas podem ir ao banheiro quando ela está por perto...
— Olá, Glória — a srª. Lay den cham ou.
Ela estava sentada no seu lugar de sem pre na arquibancada, na fila da frente no fundo do salão, longe da plataform a do m estre-de-cerim ônias. Glória e eu andam os até a grade...
— Com o vai o m eu par favorito? — perguntou.
— Bem — eu disse. — Com o vai a senhora, srª. Lay den?
— Bem , tam bém — ela disse. — Vou ficar bastante tem po esta noite. Viram ? — apontou para o cobertor e para a cesta de com ida na cadeira ao lado. — Vou ficar para anim ar vocês.
— Estam os precisando m esm o — disse Glória.
— Por que não pega um daqueles lugares m ais longe do Palm Garden? — perguntei. — Mais tarde fica um a zona no bar, quando todos com eçam a beber...
— Está bom para m im — ela disse, sorrindo. — Gosto de ficar aqui para o dérbi. Quero ver as voltas. Vocês querem ver o j ornal da tarde? — ela perguntou, tirando o j ornal que estava em baixo do cobertor.
— Obrigado — eu disse. — Gostaria de saber o que está acontecendo no m undo. Com o está o tem po lá fora? O m undo m udou m uito?
— Você está m e gozando — ela disse.
— Não estou... Parece que estou aqui há m ilhões de anos... Obrigado pelo j ornal, srª. Lay den...
Enquanto nos afastávam os, andando, desdobrei o j ornal. Bati os olhos num a grande m anchete preta.
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JOVEM ASSASSINO PRESO EM MARATONA DE DANÇA
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Criminoso fugitivo participava de competição na praia
Dois detetives prenderam um assassino ontem em uma maratona de dança que acontece na área de lazer em Santa Mônica. Trata-se do italiano Giuseppe Lodi, 26 anos, que há oito meses fugiu da prisão de Illinois, em Joliet, depois de cumprir quatro anos de uma sentença de cinqüenta anos, por ter sido considerado culpado do assassinato de um farmacêutico idoso de Chicago.
Lodi inscreveu-se na maratona de dança sob o pseudônimo de Mário Petrone e não ofereceu resistência quando foi preso pelos detetives Bliss e Voight, da Unidade de Assaltos. Os oficiais contaram que foram à maratona de dança para se divertir e reconheceram Lodi de uma fotografia que viram na “Line-Up”, uma seção de um periódico policial popular que traz fotos e descrições de criminosos procurados pela polícia...
— Dá para agüentar? — eu disse. — Eu estava ao lado dele quando isso aconteceu. Agora estou com pena de Mário.
— Por quê? — disse Glória. — Qual é a diferença?
Pedro Ortega, Mack Aston e m ais alguns se j untaram à nossa volta, falando, agitados. Dei o j ornal para Glória e fui andar sozinho.
— Isso é m uito! — pensei. — Cinqüenta anos! Coitado!... E quando Mário souber do meu caso, se é que vai ficar sabendo, vai pensar: “Coitado! Ficou com pena de mim à toa e agora está com a corda no pescoço...”.
No descanso seguinte, Socks Donald tinha nos preparado um a surpresa. Mandou fazer uniform es para usarm os durante as corridas do dérbi; tênis, shorts brancos, cam isetas brancas. Todos os rapazes receberam cintos de couro largos, para usar na cintura, e dos dois lados do cinto tinha um a alça, com o num a m ala. Era para o parceiro segurar nas alças, quando fizéssem os as curvas. Na hora aquilo m e pareceu um a bobagem , m as descobri depois que Socks Donald sabia o que estava fazendo.
— Escutem , m oçada — disse Socks. — Hoj e à noite vam os com eçar o nosso prim eiro m ilhão. Muitas estrelas de cinem a virão aqui para o dérbi e as pessoas irão atrás delas. Um a equipe vai perder hoj e à noite... Todas as noites um a equipe vai perder. Não quero gritaria, porque é j ogo lim po. Todos têm a m esm a chance. Vocês terão m ais tem po para vestir o uniform e e m ais tem po para tirá-los. Por falar nisso, falei com Mário Petrone esta tarde. Ele m e pediu que dissesse até logo aos am igos dele. Não esqueçam de dar ao público o que eles m erecem , por causa do dinheiro deles no dérbi, m oçada...
Fiquei surpreso ao ouvi-lo m encionar o nom e de Mário, porque na noite anterior, quando foi preso, Socks quis bater nele.
— Pensei que estivesse zangado com o Mário — eu disse a Rollo.
— Não estou m ais — disse Rollo. — Esta foi a m elhor chance que tivem os. Se não fosse por Mário, ninguém saberia sobre a m aratona de dança. A publicidade daquele j ornal era tudo o que queríam os. O público fez reservas a tarde toda.