Mas Não se Matam Cavalos?
...capítulo quatro · A m aratona de dança foi realizada…
A m aratona de dança foi realizada na área de lazer do píer na praia, em um im enso prédio antigo que antes tinha sido um salão de baile público. Construído sobre estacas, erguia-se sobre o oceano e, debaixo de nossos pés, debaixo do chão, o oceano pulsava dia e noite. Eu sentia a pulsação na planta de m eus pés, com o se eles fossem estetoscópios.
Na parte de dentro havia um a pista de dança para os concorrentes, com m ais ou m enos dez m etros de largura e sessenta m etros de com prim ento e, ao redor, em três lados, havia cadeiras e, atrás delas, bancos para o público em geral. No fim da pista de dança tinha um a plataform a elevada para a orquestra. Tocava só à noite e não era um a orquestra m uito boa. Durante o dia só tínham os a m úsica que se conseguia no rádio am plificada por alto-falantes. A m aior parte do tem po era alta dem ais e enchia o salão de barulho. Tínham os um m estre-de-cerim ônias, cuj a tarefa era fazer com que os fregueses se sentissem à vontade; dois j uízes que andavam pela pista com os concorrentes o tem po todo para ver se estava tudo certo; dois enferm eiros, duas enferm eiras e um m édico para casos de em ergência. O m édico não se parecia nem um pouco com um m édico. Era j ovem dem ais.
A m aratona de dança com eçou com 144 pares, m as 61 desistiram na prim eira sem ana. A regra era dançar durante um a hora e cinquenta m inutos e depois dez m inutos de descanso, quando a gente podia dorm ir se quisesse. Mas aqueles dez m inutos tam bém eram para a gente se barbear, ou tom ar banho, ou cuidar dos pés, ou qualquer outra necessidade.
A prim eira sem ana foi a m ais difícil. Os pés e as pernas de todo m undo incharam , e lá em baixo o oceano continuava a bater, bater contra as estacas sem parar. Antes de entrar nessa m aratona de dança eu adorava o oceano Pacífico: seu nom e, seu tam anho, sua cor, seu cheiro... Costum ava ficar sentado durante horas olhando para ele, pensando sobre os navios que partiram e nunca voltaram , sobre a China e os Mares do Sul, im aginando todo tipo de coisa... Não faço m ais isso. Estou cheio do oceano Pacífico. Não m e im porto de não vê-lo de novo. Provavelmente não o verei de novo. O juiz vai cuidar disso.
Uns veteranos nos deram dicas, a Glória e a m im , que o m elhor j eito de ganhar um a m aratona de dança era aperfeiçoando um esquem a para aqueles dez m inutos de descanso: aprender a com er um sanduíche enquanto se fazia a barba, aprender a com er enquanto se ia ao banheiro, enquanto se cuidava dos pés, aprender a ler o j ornal enquanto a gente dançava, aprender a dorm ir no om bro do parceiro enquanto a gente dançava; m as eram truques do ofício que exigiam prática. Foi m uito difícil no com eço para nós dois.
Soube que quase a m etade das pessoas daquela com petição era profissional. Participar de m aratonas de danças por todo país era um a ocupação, alguns deles chegando a ir de um a cidade para outra de carona. Os outros eram apenas rapazes e m oças com o Glória e eu.
Nossos m elhores am igos eram o par n° 13. Jam es e Ruby Bates vinham de um a cidadezinha ao norte da Pensilvânia. Era a oitava m aratona de dança deles. Ganharam um prêm io de m il e quinhentos dólares em Oklahom a, ficando em m ovim ento durante 1.253 horas sem parar. Havia várias outras equipes que diziam ter sido cam peãs de algum j eito, m as eu sabia que Jam es e Ruby ficariam ali até o final. Isto é, se o bebê de Ruby não chegasse antes. Faltavam quatro m eses para o bebê nascer.
— Qual é o problem a com Glória? — Jam es m e perguntou certo dia, quando voltam os à pista, depois de dorm ir.
— Nada. Por quê? — perguntei. Mas eu sabia o que ele queria dizer. Glória estava de baixo-astral de novo.
— Ela fica dizendo a Ruby que é um a cretina, se tiver o bebê — ele disse. — Glória quer que ela faça um aborto.
— Não entendo por que Glória fala essas coisas — eu disse, tentando acalm á-lo.
— Diga a ela para dar um tem po — ele disse.
Quando o apito deu o sinal para com eçarm os a nossa 216ª hora, eu contei a Glória o que Jam es tinha dito.
— Ele que vá à m erda! — ela disse. — O que é que ele sabe sobre o assunto?
— Não entendo por que eles não podem ter o bebê, se querem . É um assunto deles — eu disse. — Não quero que Jam es fique irritado. Ele j á participou de várias danças e tem nos dado boas dicas. Com o é que nós vam os ficar, se ele ficar irritado?
— É um a pena aquela m oça ter um bebê — disse Glória. — Qual o sentido de ter um bebê, se você não tem grana para cuidar dele?
— Com o você sabe que eles não têm grana? — perguntei.
— Se tivessem , por que estariam aqui?... Esse é o problem a — ela disse. — Hoj e em dia todo m undo tem bebês...
— Ah, nem todo m undo — eu disse.
— Você sabe tudo sobre o assunto. Você estaria m elhor, se não tivesse nascido...
— Talvez não — eu disse. — Com o está se sentindo? — perguntei, tentando fazê-la esquecer dos problem as.
— Sem pre m e sinto um lixo — ela disse. — Meu Deus, o ponteiro do relógio se m ove devagar.
Tinha um grande pedaço de lona pintado com a form a de um relógio sobre a plataform a do m estre-de-cerim ônias, m arcando até 2.500 foras. O ponteiro m ostrava 216 naquele m om ento. Por cim a, tinha um letreiro: HORAS TRANSCORRIDAS — 216, PARES RESTANTES — 83.
— Com o estão suas pernas?
— Ainda estão fraquinhas — eu disse. — Aquela gripe foi forte.
— Algum as m oças acham que para vencer serão necessárias duas m il horas — Glória disse.
— Espero que não — eu disse. — Acho que não aguento tanto tem po.
— Meus sapatos estão se acabando — Glória disse. — Se vacilarm os e não arrum arm os logo um patrocinador, vou ficar descalça.
Um patrocinador era um a com panhia ou firm a que oferecia um suéter e anunciava seu nom e ou produto nas costas. Depois tom avam conta das outras necessidades.
Jam es e Ruby dançavam ao nosso lado.
— Falou com ela? — ele perguntou, olhando para m im .
Fiz um sinal positivo com a cabeça.
— Qual é! — disse Glória, quando eles com eçaram a se afastar, dançando. — Que história é essa de falar de m im pelas costas?
— Diga a essa doida para dar um tem po — disse Jam es, ainda falando diretam ente com igo...
Glória ia dizer algum a coisa, m as, antes que pudesse, eu a levei, dançando, para longe dali. Eu não queria escândalos.
— Filho-da-puta! — ela disse.
— Ele está irritado — eu disse. — Com o é que ficam os nós?
— Vam os — ela disse —, vou dizer a ele onde tem um tem po...
— Glória — eu disse —, por favor, tique na sua.
— Devagar com esses palavrões pesados — disse um a voz.
Olhei à m inha volta. Era Rollo Peters, o j uiz da pista.
— Vá à m erda! — disse Glória. Eu senti nos m eus dedos os m úsculos das costas de Glória se contraindo, assim com o senti o oceano pulsando nas plantas de m eus pés.
— Abaixe o tom de voz — Rollo disse. — As pessoas da arquibancada podem ouvi-la. Onde você acha que está? Num boteco?
— É isso aí... Num boteco.
— Tudo bem , tudo bem — eu disse.
— Eu j á avisei um a vez sobre os palavrões — Rollo disse. — É m elhor eu não precisar repetir. Pega m al com os fregueses.
— Fregueses? Onde estão? — Glória disse.
— Deixe que eu cuide disso — Rollo disse, olhando para m im .
— Tudo bem , tudo bem — eu disse.
O apito tocou, fazendo com que todo m undo parasse de se m exer. Alguns m al se m exiam , apenas o bastante para não serem desclassificados.
— Tudo bem , m oçada — ele disse —, um pouco m ais de velocidade.
— Um pouco m ais de velocidade, m oçada — disse ao m icrofone Rocky Gravo, o m estre-de-cerim ônias. O barulho de sua voz nos am plificadores encheu o salão, abafando a pulsação do oceano. — Um pouco m ais de velocidade... Em volta da pista... Podem com eçar — disse para a orquestra.
A orquestra com eçou a tocar. Os concorrentes com eçaram a dançar com um pouco m ais de anim ação. A velocidade durou cerca de dois m inutos e, quando term inou, Rocky puxou os aplausos e disse ao m icrofone:
— Olhem para essa m oçada, senhores e senhoras... Depois de 216 horas estão saudáveis com o nunca no cam peonato m undial de m aratona de dança: um a com petição de resistência e talento. Essa m oçada recebe com ida sete vezes ao dia: três refeições grandes e quatro lanches leves. Alguns deles ganharam peso durante a com petição... E tem os m édicos e enferm eiras o tem po todo de plantão para m antê-los nas m elhores condições físicas. Agora vou cham ar o par n° 4, Mário Petrone e Jackie Miller, para um núm ero especial. Venham ! Par n° 4... Aqui estão eles, senhores e senhoras. Não form am um belo par?...
Mário Petrone, um italiano robusto, e Jackie Miller, um a loura baixinha, foram para a plataform a receber os aplausos. Falaram com Rocky e com eçaram a dançar um sapateado, que era m uito ruim . Nem Mário nem Jackie pareciam se dar conta de que era ruim . Quando acabaram , algum as pessoas atiraram m oedas no chão.
— Mais, pessoal! — Rocky disse. — Um a chuva de prata. Mais!
Mais algum as m oedas bateram no chão. Mário e Jackie pegaram -nas e vieram em nossa direção.
— Quanto? — Glória perguntou.
— Parecem sessenta centavos — disse Jackie.
— De onde você vem , m oça? — Glória perguntou.
— Alabam a.
— Achei que era de lá — Glória disse.
— Você e eu deveríam os aprender um núm ero especial — eu disse a Glória. — Podíam os ganhar um dinheiro extra.
— É m elhor não saber nenhum — Mário disse. — Só dá m ais trabalho e não é bom para as pernas.
— Vocês j á ouviram falar dos dérbis? — Jackie perguntou.
— O que é isso? — perguntei.
— Um tipo de corrida — ela disse. — Acho que eles vão explicar no próxim o período de descanso.
— Estam os entrando num beco sem saída — Glória disse.