Mas Não se Matam Cavalos?

Horace McCoy · Capítulo 13 de 14

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Mas Não se Matam Cavalos?

...no dia 19 do mês de setembro,…

...no dia 19 do mês de setembro, no Ano da G raça de Nosso Senhor, de 1935...

...capítulo doze

 

Horas transcorridas 879

Pares restantes 20

 

Glória esteve m órbida o dia todo. Perguntei um m onte de vezes o que ela estava pensando.

— Nada — era a resposta.

Percebo agora como fui burro. Eu deveria saber sobre o que ela estava pensando. Lembrando agora daquela noite, não entendo como pude ser tão burro. Mas naquela época eu era um idiota a respeito de um monte de coisas... O juiz está sentado ali, fazendo seu discurso, me olhando pelos seus óculos, mas suas palavras têm o mesmo efeito sobre o meu corpo como sua visão em relação aos óculos-, atravessam sem parar, destruindo cada olhar e cada palavra que seguem. Não estou escutando o juiz com meus ouvidos e meu cérebro, assim como as lentes dos óculos não pegam e aprisionam os olhares que as atravessam. Eu o escuto com os pés e as pernas e as costas e os braços e tudo menos meus ouvidos e meu cérebro. Com meus ouvidos e meu cérebro escuto um vendedor de jornal na rua gritando alguma coisa sobre o rei Alexandre, escuto os bondes passando na rua, escuto os carros, escuto os avisos dos semáforos; na sala do tribunal escuto as pessoas respirando e mexendo os pés, escuto a madeira de um banco estalando, escuto o pingo de uma pessoa cuspindo. Tudo isso eu escuto com meus ouvidos e meu cérebro, mas escuto o juiz apenas com meu corpo. Se algum dia você escutar um juiz dizer a você o que ele está dizendo para mim, você vai entender o que quero dizer.

Era um dia em que Glória não tinha nenhum m otivo para estar m órbida. As pessoas entraram e saíram o dia inteiro, desde o m eio-dia o salão estava lotado, e agora, um pouco antes do casam ento, havia poucos lugares vazios, e a m aioria estava reservada. O salão inteiro estava decorado com tantas bandeiras e flâm ulas verm elhas, brancas e azuis que você ficava esperando ouvir os fogos de artifício estourar e a banda tocar o hino nacional. O dia todo tinha sido agitado: os trabalhadores decorando o salão, os boatos de que as m ulheres da Liga em prol da Moralidade viriam pôr fogo no salão... e dois conj untos de roupa nova que a Cervej a Jonathan m andou para Glória e para m im .

Era um dia em que Glória não tinha nenhum m otivo para estar m órbida, m as estava.

— Rapaz! — um hom em cham ou do cam arote.

Eu nunca o tinha visto antes. Ele fazia sinal para que eu m e aproxim asse.

“Não vai ficar m uito tem po nessa cadeira”, disse a ele, em pensam entos. “Esse é o lugar da srª. Lay den. Quando ela chegar, você vai ter que sair.”

— Você é o rapaz do par n° 22? — perguntou.

— Sim — eu disse.

— Onde está sua parceira?

— Está ali — respondi, apontando para a plataform a onde Glória estava j unto com as outras garotas.

— Vá cham á-la — o hom em disse. — Quero conhecê-la.

— Tudo bem — eu disse, indo buscar Glória. “Quem será ele?”, perguntei a m im m esm o.

— Há um hom em ali querendo conhecer você — eu disse a Glória.

— Não quero conhecer ninguém .

— Ele não é nenhum pé-rapado — eu disse. — Está bem vestido. Parece alguém im portante.

— Não m e im porto com sua aparência — ela disse.

— Ele pode ser um produtor — eu disse. — Talvez você tenha sorte com ele. Talvez essa sej a a sua chance.

— Foda-se a m inha chance! — ela disse.

— Vam os — eu disse. — O hom em está esperando.

Por fim ela foi com igo.

— Esse negócio de cinem a é um horror — ela disse. — Você tem de conhecer gente que você não quer conhecer e tem de ser sim pática com gente que você odeia. Fico contente de ter acabado com isso.

— Você está apenas com eçando — eu disse, tentando anim á-la. Não prestei atenção à observação dela na hora, mas percebo agora que foi a coisa mais reveladora que ela disse.

— Aqui está ela — eu disse ao hom em .

— Vocês não sabem quem eu sou, não é? — o hom em perguntou.

— Não, senhor...

— Meu nom e é Maxwell — ele disse. — Sou o gerente de m arketing da Cervej a Jonathan.

— Com o vai, sr. Maxwell? — eu disse, estendendo a m ão para cum prim entá-lo. — Essa é m inha parceira

Glória Beatty . Gostaria de agradecer por nos patrocinar.

— Não agradeça a m im — ele disse. — Agradeça à srª. Lay den. Ela cham ou m inha atenção para vocês. Receberam os pacotes de hoj e?

— Sim , senhor — eu disse as roupas chegaram na hora certa. Nós estávam os m esm o precisando de roupas. As m aratonas de dança estragam as roupas. Já veio aqui antes?

— Não. E não teria vindo se a srª. Lay den não tivesse insistido. Ela fala m uito nos dérbis. Vai ter um hoj e à noite?

— Um a coisinha com o um casam ento não im pediria o dérbi — eu disse. — Vai ser logo depois da cerim ônia...

— Adeus... — Glória disse, indo em bora.

— Eu disse algum a coisa errada? — perguntou o sr. Maxwell.

— Não, senhor... ela precisa ir lá para receber as últim as instruções. O casam ento vai com eçar daqui a pouco.

Ele franziu a testa e percebi que ele sabia que eu estava m entindo para esconder os m aus m odos de Glória. Ele olhou para Glória andando na pista por um m inuto e depois olhou para m im .

— Quais são as chances de vocês ganharem o dérbi hoj e? — ele perguntou.

— Tem os um a boa chance — eu disse. — Mas o m ais im portante não é vencer, e sim não perder. Se você fica por últim o, é desclassificado.

— Suponha que a Cervej a Jonathan ofereça 25 dólares ao vencedor — ele disse. — Você acha que teria um a chance de vocês ganharem ?

— Com certeza faríam os um a força enorm e — eu disse a ele.

— Nesse caso... Tudo bem — ele disse, m e exam inando de cim a a baixo. — A srª. Lay den m e disse que você gostaria de fazer cinem a.

— Sim — eu disse. — Mas não com o ator, eu quero ser diretor.

— Não gostaria de um em prego no ram o de cervej as, heim ?

— Não acredito que eu...

— Já dirigiu um film e?

— Não, senhor, m as não tenho m edo de tentar. Sei que poderia m e dar bem — eu disse. — Ah, não um grande film e com o Boleslawsky ou Mam oulian ou King Vidor fariam . Um a outra coisa no com eço...

— Por exem plo...

— Bem , um curta-m etragem , de dois ou três rolos. Sobre a rotina de um catador de ferro velho ou a vida de um hom em com um , sabe, de alguém que ganha trinta dólares por sem ana e tem de criar filhos, com prar um a casa, um carro e um rádio. O tipo de suj eito que os cobradores estão sem pre perseguindo. Um a coisa diferente, com enquadram entos para aj udar a história...

— Entendo — ele disse.

— Não queria aborrecê-lo — eu disse m as é tão raro eu encontrar alguém que m e escute que não consigo parar de falar.

— Não estou aborrecido. Na verdade, estou m uito interessado — ele disse. — Mas talvez eu tenha falado m uito...

— Boa noite — disse a srª. Lay den, entrando no cam arote.

O sr. Maxwell se levantou.

— Esse é o m eu lugar, John. Sente-se aqui — disse a srª. Lay den.

O sr. Maxwell riu e pegou outra cadeira.

— Com o você está bonito! — disse a srª. Lay den para m im .

— É a prim eira vez na vida que uso um sm oking — eu disse, corando. — O sr. Donald alugou sm okings para todos os rapazes e vestidos para as m oças. Vam os participar da m archa nupcial.

— O que acha dele, John? — a srª. Lay den perguntou ao sr. Maxwell.

— Ele é legal — disse o sr. Maxwell.

— Confio cegam ente na opinião de John — a srª. Lay den disse para m im . Com ecei a entender por que o sr. Maxwell estava m e fazendo tantas perguntas.

— ...Por aqui, gente — Rocky disse ao m icrofone — ... por aqui, senhoras e senhores. Já vam os com eçar a cerim ônia pública de casam ento de Vee Lovell e Mary Hawley , o par n° 71, e lem brem -se, por favor, de que quando o casam ento acabar a diversão não terá acabado. Estará só com eçando, só com eçando. Depois do casam ento, terem os o dérbi...

Aproxim ou-se de Socks Donald e sussurrou algo para ele.

— Senhoras e senhores — Rocky anunciou. — Tenho o grande prazer de apresentar o pastor que vai fazer a cerim ônia, um pastor que todo m undo conhece, o reverendo Oscar Gilder. O senhor pode vir até aqui, sr. Gilder?

O m inistro foi para a pista e andou até a plataform a sob os aplausos do público.

— Vão para seus lugares — Socks disse para nós.

Fom os para os lugares designados para nós, as

m oças de um lado da plataform a e os rapazes do outro.

— Antes de com eçar a grande m archa nupcial — disse Rocky —, gostaria de agradecer a todos que tornaram este evento possível — olhou para um a folha de papel. — O vestido da noiva foi doado pelo sr. Sam uels da loj a Bon-Top. O senhor pode se levantar, sr. Sam uels?

O sr. Sam uels se levantou, recebendo os aplausos.

— Os sapatos foram doados pela loj a de sapatos Main Street. O sr. Davis está aqui? Levante-se, sr. Davis.

O sr. Davis se levantou.

— As m eias e... hã... vocês-sabem -o-quê de seda foram doadas pelo bazar Polly Darling. Onde está o sr. Lightfoot?

O sr. Lightfoot se levantou e o público gritou.

— O cabelo foi penteado pelo salão de beleza Pom padour. A srta. Sm ith está aqui?

A srta. Sm ith se levantou.

— A roupa do noivo, dos pés à cabeça, foi doada pela com panhia Tower Outfitting. O sr. Tower...?

— Todas as flores do salão e as flores que as garotas estão usando foram um presente da floricultura Sy cam ore Ridge. O sr. Dupré...?

O sr. Dupré se levantou.

— E agora, senhoras e senhores, entrego o m icrofone ao reverendo Oscar Gilder, que vai presidir a cerim ônia para essa gente m aravilhosa...

Entregou o apoio do m icrofone para Rollo, que o deixou em frente à plataform a. O reverendo Gilder veio atrás, fez um m ovim ento com a cabeça para a orquestra e a m archa nupcial com eçou a tocar.

A procissão com eçou com os rapazes de um lado e as m oças do outro, andando até o fundo do salão e depois voltando até o pastor. Era a prim eira vez em que eu via algum as das m oças com outras roupas que não calças com pridas ou uniform es de corrida.

Tínham os ensaiado a m archa duas vezes à tarde e nos ensinaram a fazer um a parada com pleta antes de dar outro passo. Quando os noivos apareceram , vindos de trás da plataform a, o público gritou e aplaudiu.

A srª. Lay den acenou com a cabeça para m im quando eu passei.

Na plataform a ficam os em nossos lugares, enquanto Vee e Mary, Kid Kam e Jackie Miller, o padrinho e a m adrinha, continuaram até onde o pastor estava. Ele pediu à orquestra que parasse e com eçou a cerim ônia. Durante a cerim ônia toda fiquei olhando para Glória. Não tive tem po para dizer a ela com o tinha sido m al-educada com o sr. Maxwell e por isso tentei cham ar sua atenção para que ela soubesse que eu tinha um m onte de coisas para lhe dizer quando ficássem os j untos.

— E agora, eu vos declaro m arido e m ulher — disse o dr. Gilder. Ele abaixou a cabeça e com eçou a rezar: — O Senhor é meu pastor: nada me faltará. Em verdes pastagens me faz repousar, conduz-me até às fontes tranqüilas e reanima minha vida, guia-me pelas sendas da justiça por causa de seu nome. Ainda que eu ande por um vale tenebroso, não temo mal algum, porque tu estás comigo; teu bordão e teu cajado me confortam. Diante de mim preparas a mesa, bem à vista dos meus inimigos; tu me unges com óleo a cabeça, e minha taça transborda. Sim, prosperidade e graça me seguem, todos os dias de minha víáa; habitarei na casa do Senhor, por longos dias.

Quando o pastor acabou Vee timidamente beijou Mary na face e nós nos espalhamos. O salão vibrou com os aplausos e gritos.

— Um momento... só um momento — Rocky gritou ao microfone. — Um momento, senhoras e senhores...

A confusão logo acabou e naquele instante, do outro lado do salão, no Palm Garden, ouviu-se um barulho, claro e nítido, de vidro quebrando.

— Não! — gritou um homem.

Ouviram-se mais cinco tiros, tão próximos que pareciam um único barulho. O público urrou no mesmo instante.

— Fiquem nos seus lugares! Fiquem nos seus lugares! — Rocky gritou...

Os outros rapazes e moças estavam correndo em direção ao Palm Garden para ver o que tinha acontecido e eu me juntei a eles. Socks Donald passou por mim, colocando a mão no bolso de trás.

Pulei a grade de uma arquibancada vazia e segui Socks até o Palm Garden. Um monte de gente formou um círculo e ficou olhando para baixo e falando entre si. Socks abriu caminho e eu o segui.

Tinha um homem morto no chão.

— Quem fez isso? — Socks perguntou.

— Aquele cara ali... — disse uma pessoa.

Socks foi para lá e eu fui atrás. Fiquei surpreso ao ver que Glória estava bem atrás de mim.

O homem que tinha dado os tiros estava de pé junto ao bar, apoiado no cotovelo. Sangue corria de seu rosto. Socks foi até ele.

— Ele começou, Socks — o homem disse. — Queria me matar com uma garrafa de cerveja...

— Monk, seu filho-da-puta... — Socks disse, batendo nele com o cassetete.

Monk cambaleou contra o balcão, mas não caiu. Socks continuou a bater em seu rosto com o cassetete, cada vez mais, espalhando sangue por toda parte e em todos que estavam por perto. Ele bateu até que o homem caiu no chão.

— Ei, Socks — uma pessoa disse.

A poucos metros dali um outro grupo de pessoas formou um círculo, olhando para baixo e falando entre si. Abrimos caminho... e lá estava ela.

— Puta que o pariu! — disse Donald Socks.

Era a sra. Layden, com um único buraco no meio da testa. John Maxwell estava ajoelhado ao seu lado, segurando a cabeça dela... depois deitou a cabeça dela devagar no chão e se levantou. A cabeça da sra. Layden virou devagar para o lado e uma poça de sangue que tinha se acumulado no buraco do olho espirrou no chão.

John Maxwell olhou para Glória e para mim.

— Ela estava se aproximando para ser juíza no dérbi — ele disse, — quando foi atingida por uma bala perdida...

— Queria que tivesse sido eu — disse Gloria, em voz baixa.

— Puta que o pariu! — disse Socks Donald.

Estávamos todos reunidos no vestiário das moças. Havia poucas pessoas no salão, só a polícia e alguns repórteres.

— Acho que vocês já sabem por que eu os trouxe aqui — Socks disse devagar e acho que já sabem o que vou dizer. Não adianta nada a gente se sentir mal pelo acontecido... São coisas que acontecem. É duro para vocês e é duro para mim. A maratona começou tão bem... Rocky e eu conversamos muito e decidimos pegar o prêmio de mil dólares e dividir entre vocês... e eu vou pôr mais mil do meu bolso. Isso vai dar cinqüenta dólares para cada um de vocês. Acham justo?

— Sim — dissemos.

— Não há nenhuma chance de continuarmos? — perguntou Kid Kamm.

— Nenhuma — Socks disse, fazendo não com a cabeça. — Não, com a Liga em prol da Moralidade atrás de nós...

— Moçada — Rocky disse -, foi muito divertido e foi muito legal trabalhar com vocês. Talvez um dia possamos ter uma outra maratona de dança...

— Quando vamos receber a grana? — Vee Lovell perguntou.

— Amanhã cedo — disse Socks. — Se algum de vocês quiser ficar aqui hoje à noite, tudo bem. Mas se quiserem ir embora, nada os prende aqui. Vou arrumar a grana para vocês depois das dez da manhã. Agora vou dizer até logo... Tenho de ir para a delegacia

...como estabelecido pelas leis do Estado da Califórnia. E...