Mas Não se Matam Cavalos?
...pelo xerife do condado de Los Angeles…
...pelo xerife do condado de Los Angeles ao diretor da prisão estadual...
...capítulo nove
Horas transcorridas 752
Pares restantes 26
Os dérbis estavam acabando com eles. Cinqüenta pares foram elim inados em duas sem anas. Glória e eu quase saím os um as duas vezes, m as conseguim os continuar por um triz. Não tivem os m ais problem as depois que m udam os de técnica: desistim os de tentar ganhar, não nos im portando com a classificação desde que não ficássem os em últim o lugar.
Tam bém arrum am os um patrocinador: a Cervej a Jonathan, que não engorda. Veio na hora certa. Nossos sapatos estavam gastos, e nossas roupas, esfarrapadas. A srª. Lay den convenceu a Cervej a Jonathan a nos patrocinar. Convença São Pedro a me deixar entrar, srª. Layden. Acho que estou chegando. Deram três pares de sapatos, três pares de calças de flanela cinza e três sué— teres para cada um de nós com o nom e do produto escrito nas costas.
Eu tinha engordado dois quilos desde o com eço da com petição e com eçava a achar que talvez tivéssem os um a chance de ganhar o prêm io de m il dólares. Mas Glória estava m uito pessim ista.
— O que você vai fazer quando isso acabar? — ela perguntou.
— Por que se preocupar com isso? — eu disse. — Ainda não acabou. Não sei do que você está reclam ando — eu disse a ela. — Estam os num a situação m elhor do que antes... Pelo m enos, sabem os onde vam os com er.
— Queria estar m orta — ela disse. — Queria que Deus m e m atasse.
Ela não parava de dizer isso. Eu estava com eçando a ficar irritado.
— Um dia Deus vai fazer esse favorzinho a você — eu disse.
— Queria tanto que fizesse m esm o... Queria ter coragem de fazer isso por Ele.
— Se ganharm os essa coisa, você pode pegar seus quinhentos dólares e ir para qualquer lugar — eu disse. — Você pode se casar. Tem um m onte de suj eitos querendo se casar. Nunca pensou nisso?
— Já pensei m uito nisso — ela disse. — Mas nunca conseguiria casar com o tipo de hom em que quero. O único tipo que se casaria com igo é aquele que não quero. Um ladrão, um cafetão, ou algo parecido.
— Sei por que você está tão m órbida — eu disse. — Vai se sentir bem dentro de alguns dias. Vai se sentir m elhor.
— Não tem nada a ver — ela disse. — Não estou nem com dores nas costas. Não é isso. Isso aqui é um turbilhão. Quando sairm os daqui, vam os estar no m esm o lugar onde estávam os antes de com eçar.
— Nós com em os e dorm im os — eu disse.
— E de que adianta isso, se isso apenas significa adiar um a coisa que vai m esm o acontecer?
— Ei, Cervej a Jonathan — Rocky Gravo cham ou. — Venham aqui...
Ele estava perto da plataform a com Socks Donald. Glória e eu fom os até lá.
— Que tal vocês dois ganharem cem dólares? — Rocky perguntou.
— Para fazer o quê? — Glória perguntou.
— Bem , m oçada — disse Socks Donald —, tive um a idéia bacana que só precisa de um a aj uda...
— É! — disse Socks. — Eu queria que vocês se casassem aqui. Um casam ento público.
— Casar? — eu disse.
— Espera aí! — disse Socks. — Não é tão ruim assim . Dou cinqüenta dólares para cada um e depois que a m aratona acabar vocês podem se divorciar, se quiserem . Não tem que ser para valer. É só pelo espetáculo. O que acham ?
— Que você ficou m aluco — Glória disse.
— Ela não quis dizer isso, Sr. Donald... — eu disse.
— Quis dizer isso sim — ela disse. — Não tenho nada contra o casam ento — ela disse a Socks —, m as por que não escolhe Gary Cooper ou um produtor ou diretor dos bons? Não quero m e casar com esse suj eito. Já tenho m uitos problem as para cuidar de m im ...
— Não tem de ser para valer. É só pelo espetáculo.
— É isso aí — Socks disse. — Claro que a cerim ônia será de verdade... Tem os de fazer isso para atrair público. Mas...
— Vocês não precisam de nenhum casam ento para atrair público — Glória disse. — A casa j á está cheia de gente. Já não é um espetáculo m ostrar esses pobres— coitados caindo no chão todas as noites?
— Você não entendeu m eu ponto de vista — disse Socks, de cara fechada.
— Entendi sim — Glória disse. — Sou bem m ais esperta do que você.
— Você quer trabalhar no cinem a e esta é sua chance — Socks disse. — Já arrum ei loj as para dar o vestido de noiva e os sapatos, e um salão de beleza para arrum ar você... Vai ter um m onte de diretores e supervisores e eles vão olhar só para você. É sua grande chance. O que você acha, garotão? — perguntou para m im .
— Não sei... — eu disse, não querendo deixá-lo bravo. Afinal, ele era o organizador. Eu sabia que se ele ficasse bravo conosco, logo estaríam os desclassificados.
— Ele disse que não — Glória disse.
— Ela pensa por ele — Rocky disse, sarcástico.
— Tudo bem — disse Socks, dando de om bros. — Se vocês não precisam de cem dólares, talvez outro casal precise. Pelo m enos — disse para m im — vocês sabem quem é que m anda na sua fam ília.
Ele e Rocky riram .
— Não dá para ser um pouco educada? — eu disse à Glória, quando nos afastam os. — Serem os dispensados a qualquer m om ento.
— Tanto faz hoj e com o am anhã — ela disse.
— Você é a pessoa m ais deprim ida que conheço — eu disse. — Às vezes acho que você estaria m elhor se estivesse m orta.
— Eu sei — ela disse.
Quando voltam os à plataform a vi Socks e Rocky falando sério com Vee Lovell e Mary Hawfey , o par n° 71.
— Parece que Socks está tentando vender seu peixe — Glória disse. — A égua Hawley não ia ficar fora dessa.
Jam es e Ruby Bates se j untaram a nós e nós quatro seguim os j untos. Estávam os nos dando bem de novo desde que Glória parara de tentar convencer Ruby a fazer um aborto.
— Socks propôs que vocês se casassem ? — perguntou Ruby .
— Sim — eu disse. — Com o sabe?
— Ele propôs para todo m undo — ela disse.
— Recusam os sem nem piscar — Glória disse.
— Um casam ento público não é tão ruim assim — Ruby disse. — Nós casam os...
— Vocês? — eu disse, surpreso. Jam es e Ruby eram tão sérios, calm os e tão apaixonados um pelo outro que eu não podia im aginar que tivessem se casado em público.
— Casam os num a m aratona de dança em Oklahom a — ela disse. — Tam bém ganham os uns trezentos dólares em presentes...
— O coroa dela nos deu um a arm a de presente de casam ento... — Jam es disse, rindo.
De repente um a m oça gritou atrás de nós. Viram os. Era Lillian Bacon, a parceira de Pedro Ortega. Ela estava andando para trás, tentando fugir dele. Pedro a alcançou e bateu no seu rosto com o punho cerrado. Ela se sentou no chão, gritando de novo. Pedro a pegou pelo pescoço com as duas m ãos, sufocando-a e tentando levantá-la. Seu rosto era de um louco. Sem dúvida ele estava tentando m atá-la.
Todo m undo correu em direção a ele ao m esm o tem po. A confusão foi grande.
Jam es e eu chegam os prim eiro, agarrando-o e fazendo-o soltar o pescoço de Lillian. Ela estava sentada no chão, o corpo rígido, os braços para trás, a cabeça caída, a boca aberta, com o um paciente na cadeira do dentista.
Pedro m urm urava algo e parecia não reconhecer nenhum de nós. Jam es o em purrou e ele cam baleou para trás. Peguei Lillian pelas axilas, aj udando-a a ficar de pé. Ela trem ia com o um a dançarina do ventre.
Socks e Rocky chegaram correndo e pegaram Pedro pelo braço.
— Qual é? — Socks urrou.
Pedro olhou para Socks, m exeu os lábios, m as não disse nada. Então viu Rocky e a expressão de seu rosto m udou para um ressentim ento feroz. De repente, conseguiu soltar os braços, deu uns passos para trás e pôs a m ão no bolso.
— Cuidado... — gritou um a pessoa.
Pedro se j ogou para frente com um a faca na m ão. Rocky tentou desviar, m as tudo foi tão depressa que ele não conseguiu. A faca o pegou no braço esquerdo a cinco centím etros do om bro. Ele gritou e com eçou a correr. Pedro se virou para segui-lo, m as antes que conseguisse dar um passo, Socks o golpeou na nuca com um cassetete. Deu para ouvir o golpe por cim a da m úsica do rádio. Parecia um a pessoa enfiando o dedo num a m elancia. Pedro ficou parado ali, de pé, com um sorriso idiota no rosto e Socks bateu de novo nele com o cassetete.
Os braços de Pedro se soltaram e a faca caiu no chão. As pernas ficaram bam bas e ele caiu.
— Tirem ele daqui — Socks disse, pegando a faca.
Jam es Bates, Mack Aston e Vee Lovell levantaram
Pedro e o levaram para o vestiário.
— Fiquem sentados, senhoras e senhores... — Socks disse ao público. — Por favor...
Eu estava segurando Lillian pelas costas. Ela ainda trem ia.
— O que aconteceu? — Socks perguntou a ela.
— Ele m e acusou de enganá-lo... — ela disse. — Depois m e bateu e com eçou a m e estrangular...
— Vam os, m oçada — Socks disse. — Continuem com o se não tivesse acontecido nada. Ei, enferm eira... Aj ude essa m oça a ir para o vestiário... — Socks fez um sinal para Rollo na plataform a e a sirene tocou para c período de descanso. Faltavam poucos m inutos. A enferm eira levou Lillian de m eus braços e todas as m oças se j untaram em volta dela, indo para o vestiário.
Enquanto eu m e afastava, pude ouvir Rollo fazer os anúncios de praxe nos alto-falantes.
Rocky estava perto da pia, sem paletó e cam isa, dando pancadinhas com toalhas de papel no om bro. O sangue escorria pelo braço, chegando até os dedos.
— É m elhor ver um m édico — Socks disse. — Que droga, onde está o m édico? — ele gritou.
— Aqui... — disse o m édico, saindo do banheiro.
— A única vez em que precisam os de você, você está ocupado com seu traseiro — disse Socks. — Exam ine o Rocky .
Pedro estava estendido no chão com Mack Aston prendendo suas pernas e m exendo em sua barriga, com o um salva-vidas com um afogado.
— Vej a... — Vee Lovell disse, chegando com um balde de água. Mack deu um passo para trás e Vee j ogou a água no rosto de Pedro. Não teve nenhum efeito. Ele estava estendido ali com o um tronco de m adeira.
Jam es Bates trouxe outro balde de água e despej ou-o em cim a de Pedro. Naquele m om ento ele com eçou a dar sinais de vida. Ele se m exeu e abriu os olhos.
— Ele está voltando a si — disse Vee Lovell.
— É m elhor levar Rocky para o hospital no m eu carro — disse o m édico, tirando o j aleco. — O corte é profundo, quase até o osso. Terá de ser costurado. Quem fez isso?
— Aquele filho-da-puta... — Socks disse, apontando para Pedro com a perna.
— Parece que usou um a navalha — o m édico disse.
— Isso aqui... — Socks disse, entregando a faca. Socks estava com o cassetete na outra m ão, a alça ainda presa no pulso.
— É a m esm a coisa — disse o m édico, devolvendo a
faca.
Pedro se sentou, m exendo no queixo, com um ar atordoado.
“Não foi no queixo”, eu disse para ele, m entalm ente, “foi na nuca”.
— Pelo am or de Deus, vam os em bora — Rocky disse ao m édico. — Estou sangrando com o um porco. E você, seu filho-da-puta — ele disse para Pedro —, vou dar parte de você na polícia...
Pedro olhou para ele, violento, sem dizer nada.
— Não vai dar parte coisa nenhum a — Socks disse.
— Já tenho m uito trabalho para m anter isto aberto. Da próxim a vez, tom e cuidado quando você quiser enganar alguém .
— Não enganei ninguém — Rocky disse.
— Foda-se — Socks disse. — Doutor, leve-o pela porta dos fundos.
— Tudo bem , Rocky — disse o m édico.
Rocky com eçou a andar. O curativo provisório em seu braço j á estava encharcado. O m édico colocou um casaco sobre os om bros de Rocky e eles saíram .
— Está tentando acabar com a com petição? — Socks perguntou, dando toda a atenção a Pedro. — Por que não espera o fim para acabar com ele?
— Tentei cortar o pescoço dele — Pedro disse, calm o, escolhendo as palavras. — Ele seduziu m inha noiva...
— Se ele seduziu sua noiva aqui, ele é um m ágico — disse Socks —, não tem nenhum lugar para seduzir ninguém aqui.
“Eu conheço um lugar”, pensei com igo.
Rollo Peter entrou no vestiário.
—Vocês devem dorm ir, m oçada — ele disse. — Onde está Rocky ? — perguntou, olhando em volta.
— O m édico o levou para o hospital — Socks disse.
— Com o está lá fora?
— Estão m ais calm os — Rollo disse. — Eu disse que estam os ensaiando um a novidade. O que aconteceu com Rocky ?
— Não foi nada — disse Socks. — Quase perdeu o braço por causa do carcam ano, só isso. — E entregou a faca de Pedro. — Pegue essa coisa e j ogue fora. Faça os anúncios até saberm os algo de Rocky .
Pedro levantou do chão.
— Desculpe eu ser tão esquentado...
— Poderia ter sido pior — disse Socks. — Poderia ter sido à noite, quando a casa fica cheia. Com o está sua cabeça?
— Está doendo — disse Pedro. — Lam ento o acontecido. Eu queria ganhar os m il dólares...
— Ainda tem um a chance — disse Socks.
— Quer dizer que não fui desclassificado? Quer dizer que vai m e desculpar?
— Vou... — disse Socks, guardando o cassetete no bolso.
...para ser, pelo referido diretor...