Mas Não se Matam Cavalos?

Horace McCoy · Capítulo 4 de 14

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Mas Não se Matam Cavalos?

Não havendo nenhum m otivo legal que…

Não havendo nenhum m otivo legal que im peça a sentença de ser pronunciada agora...

...capítulo três

 

Foi engraçado o m odo com o conheci Glória. Ela tam bém estava tentando trabalhar no cinem a, m as só fui saber disso m ais tarde. Certo dia, estava cam inhando pela Melrose Avenue, saindo do estúdio da Param ount, quando ouvi alguém gritar, “Ei, ei!”. Olhei para trás e vi que ela corria em m inha direção e acenava. Parei e acenei para ela. Ao chegar perto de m im , ela estava ofegante e agitada e percebi que eu não a conhecia.

— Maldito ônibus! — ela disse.

Olhei à m inha volta e tinha um ônibus na m etade da quadra, indo para a Western.

— Ah! — eu disse. — Pensei que estivesse acenando para m im ...

— Por que eu iria acenar para você? — ela perguntou.

Eu ri.

— Não sei — eu disse. — Está indo na m esm a direção que eu?

— É m elhor eu andar até a Western— ela disse. E fom os andando em direção à Western.

Foi assim que tudo com eçou, e agora isso m e parece m uito esquisito. Não consigo entender nada. Pensei m uito e não consigo entender. Não foi assassinato. Tentei fazer um favor a um a pessoa e acabei sendo condenado. Eles vão m e m atar. Sei direitinho o que o j uiz vai dizer. Posso ver na cara dele que vai ficar feliz em dizer isso e sinto que as pessoas atrás de m im vão ficar felizes de ouvir isso.

Vam os para aquela m anhã em que conheci Glória. Não estava m e sentindo m uito bem ; ainda estava um pouco enj oado, m as fui até a Param ount, pois von Sternberg estava fazendo um film e russo e achei que poderia arranj ar um trabalho. Sem pre perguntava a m im m esm o se haveria algo m elhor do que trabalhar para von Sternberg, ou então para Mam oulian ou Boleslawsky, ser pago para vê-los dirigir, aprender tudo sobre com posição, ritm o e enquadram entos... Então fui até a Param ount.

Com o não consegui entrar, fiquei ali na frente até o m eio-dia, quando um de seus assistentes saiu para alm oçar. Cheguei perto dele e perguntei se tinha algum a chance de rolar algum a coisa.

— Nenhum a — ele disse, acrescentando que Von Sternberg era m uito cuidadoso em relação às pessoas.

Achei aquilo um a coisa horrível de se dizer, m as sabia no que ele estava pensando, que m inhas roupas não eram grande coisa.

— É um film e de época? — perguntei.

— Todos os nossos figurantes vêm por m eio da Central — ele disse, indo em bora...

Eu não estava indo a nenhum lugar em especial; estava apenas dirigindo m eu Rolls-Roy ce, as pessoas m e apontando com o para um dos m aiores diretores do m undo, quando ouvi Glória gritar. Entende com o essas coisas acontecem ?

Então descem os a Melrose Avenue a pé até a Western, nos apresentam os e quando chegam os à Western eu sabia que ela era Glória Beatty, um a figurante que tam bém não estava se dando m uito bem , e ela sabia algum a coisa sobre m im . Gostei m uito dela.

Ela dividia um quartinho com outras pessoas perto de Beverly e eu m orava a poucas quadras dali, de m odo que a encontrei de novo à noite. Aquela prim eira noite foi a causadora de tudo, m as, para ser sincero, nem m esm o agora m e arrependo de ter ido visitá-la. Eu tinha sete dólares que ganhei servindo refrigerantes num a loj a de conveniência (substituindo um am igo, que tinha engravidado um a m oça e teve de levá-la para Santa Bárbara para fazer um a operação) e a convidei para ir ao cinem a ou sentar no parque.

— Qual parque? — ela perguntou.

— Logo ali, bem pertinho — eu disse.

— Tudo bem — ela disse. — Já estou cheia de cinem a. Tenho certeza de que sou m elhor atriz do que a m aioria daquelas m ulheres... Vam os nos sentar ali e falar m al das pessoas...

Fiquei contente que ela quisesse ir ao parque. Era sem pre m uito gostoso lá. Um lugar bonito para se ficar sentado. Bem pequeno, ocupando apenas um quarteirão, m as era bem escuro, silencioso e cheio de arbustos espessos. Ao redor erguiam -se palm eiras de quinze, vinte m etros de altura com m oitas por cim a. Depois de entrar no parque, tinha-se a ilusão de segurança. Muitas vezes im aginei que elas eram sentinelas usando capacetes grotescos: m inhas sentinelas particulares tom ando conta da m inha ilha particular...

O parque era um lugar bonito para ficar sentado. Através das palm eiras podiam -se ver m uitos prédios, os contornos quadrados e pesados dos apartam entos, com seus letreiros lum inosos verm elhos nos telhados, fazendo com que o céu em cim a e as pessoas e tudo o m ais em baixo ficassem verm elhos. Mas para se ver livre dessas coisas, bastava você ficar sentado e olhar fixam ente... Tudo com eçava a recuar. Desse j eito você podia afastá-las o quanto quisesse...

— Nunca prestei m uita atenção neste lugar — Glória disse.

— ...Gosto daqui — eu disse, tirando o casaco e estendendo-o na gram a para ela. — Venho aqui três ou quatro vezes por sem ana.

— Você gosta m esm o daqui — ela disse, sentando-se.

— Há quanto tem po está em Holly wood? — perguntei.

— Quase um ano. Já trabalhei em quatro film es. Teria trabalhado em m ais — ela disse m as não consigo um registro na Central.

— Eu tam bém não consegui — falei.

Sem um registro na Agência Central de Escalação, você não tinha m uitas oportunidades. Os grandes estúdios ligavam para a Central e pediam quatro suecos ou seis gregos, ou dois cam poneses da Boêm ia, ou seis grã-duquesas, e a Central arrum ava. Eu sabia por que Glória não conseguia se registrar na Central. Era loira dem ais e pequena dem ais e parecia velha dem ais. Com roupas legais ela poderia ficar atraente, m as nem assim eu a acharia bonita.

— Encontrou alguém que possa ajudá-la? — perguntei.

— Nesse local de trabalho, como dá para saber quem pode ajudar? — ela disse. — Hoje você é eletricista e no dia seguinte você é produtor. A única maneira de eu chegar num figurão seria pular em cima de um carro em movimento, quando estivesse passando na rua. De qualquer modo, não sei se os astros masculinos podem me ajudar tanto quanto as estrelas femininas. Pelo que tenho visto ultimamente, cheguei à conclusão de que deixei o sexo errado fazer com que eu...

— Como você chegou em Hollywood? — perguntei.

— Ah, não sei — ela disse, depressa -, mas qualquer coisa é melhor do que a vida que eu levava em casa.

Perguntei onde era a casa dela.

— Texas — ela disse. — No oeste do Texas. Já esteve lá?

— Não — eu disse. — Venho de Arkansas.

— Pois bem, o oeste do Texas é um inferno — ela disse. — Eu morava com minha tia e tio. Ele era guarda— freios numa estrada de ferro. Eu só o via uma ou duas vezes por semana, graças a Deus...

Ela parou sem dizer nada e ficou olhando para o brilho etéreo e vermelho por cima dos edifícios.

— Pelo menos — eu disse — você tinha um lar...

— Se você chama aquilo de lar — ela falou. — Eu dou outro nome àquilo. Quando meu tio estava em casa, ficava me molestando e, quando estava fora, minha tia e eu sempre brigávamos. Ela tinha medo que eu falasse sobre a vida dela...

“Gente fina”, pensei comigo.

— Então resolvi fugir para Dallas — ela disse. — Já foi para lá?

— Nunca fui ao Texas em toda minha vida — eu falei.

— Não perdeu nada — ela disse. — Eu não consegui um emprego, então resolvi roubar uma coisa numa loja e deixar que a polícia cuidasse de mim.

— Foi uma boa idéia — eu disse.

— Foi uma ótima idéia — ela disse -, só que não deu certo. Fui presa, tudo bem, mas os policiais ficaram com pena de mim e me soltaram. Para não morrer de fome, fui morar com um sírio, que tinha uma loja de cachorro-quente, na esquina perto da prefeitura. Ele mascava fumo o tempo todo... Já esteve na cama com um homem que fica mascando fumo?

— Acho que não — eu disse.

— Acho que eu teria agüentado isso — ela continuou -, mas quando quis transar comigo na mesa da cozinha, enquanto atendia os fregueses, eu desisti. Duas noites depois tomei veneno.

“Meu Deus!”, pensei comigo.

— Acho que não tomei o bastante — ela disse. — Só fiquei enjoada. Urgh! Ainda sinto o gosto daquele troço. Fiquei uma semana no hospital. Foi quando tive a idéia de vir para Hollywood.

— Como foi? — perguntei.

— Lendo numa revista de cinema — ela disse. — Depois que me liberaram, comecei a pedir carona. Não é engraçado?...

— É muito engraçado — eu disse, tentando rir... — Seus pais não estão vivos?

— Não — ela respondeu. — Meu pai m orreu na guerra na França. Eu queria m orrer na guerra.

— Por que você não desiste de trabalhar no cinem a? — perguntei.

— Por que deveria? — ela disse. — Posso m e tornar um a estrela do dia para a noite.

Vej a Hepburn, Margaret Sullavan e Josephine Hutchinson... Mas vou contar o que eu faria, se tivesse coragem : pularia de um a j anela ou m e atiraria na frente de um bonde ou algo assim .

— Sei com o se sente — eu disse sei exatam ente com o se sente.

— Acho estranho que todo m undo se preocupe tanto com a vida e tão pouco com a m orte. Por que esses cientistas fam osos estão sem pre m etidos com o prolongam ento da vida em vez de achar um j eito agradável de acabar com ela? Deve haver um m onte de gente no m undo com o eu... que gostaria de m orrer, m as não tem coragem ...

— Sei o que você quer dizer — eu disse sei exatam ente o que você quer dizer.

Nenhum de nós disse nada durante alguns segundos.

— Um a am iga m inha está tentando m e convencer a entrar num a m aratona de dança lá na praia — ela disse. — Com ida grátis, cam a grátis enquanto a gente agüenta, e m il dólares se a gente ganhar.

— A parte da com ida grátis parece boa — eu disse.

— Não é o m ais legal — ela disse. — Vários produtores e diretores vão a essas m aratonas de dança. Há sem pre um a chance de eles escolherem a gente e darem um papel num film e... O que você acha?

— Eu? Ah, não sei dançar direito...

— Não precisa. Só precisa ficar se m exendo.

— Não acho um a boa idéia eu m e arriscar — eu disse. — Tenho estado m uito doente. Acabo de ter um a infecção intestinal. Quase m orri. Estava tão fraco que ia m e arrastando de j oelhos para o banheiro. Não acho um a boa idéia eu m e arriscar — falei, balançando a cabeça.

— Quando foi isso?

— Há um a sem ana.

— Você está bem agora — ela disse.

— Acho que não... É m elhor eu não arriscar, posso ter um a recaída.

— Eu cuido disso — ela disse.

— ...Talvez daqui a um a sem ana — eu disse.

— Será tarde dem ais. Você está bem forte agora...

...o j ulgam ento e a sentença deste tribunal é que...