Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 5 de 10 · parte 3/5

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Meninos de Ouro

Quarta parte – 1936 – Tocando o Divino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Alojaram-se no imponente Princeton Inn, situado junto aos bem-cuidados campos do clube de golfe Springdale, um edifício perto do qual até a casa do presidente no Hyde Park era pequena e modesta. De seus quartos, eles podiam ver os estudantes de Princeton passeando pelo campo de golfe vestindo calças curtas, meias compridas de losangos coloridos e bonés de tweed. Numa excursão ao lago Carnegie, pararam na garagem de barcos de Princeton para conhecer as instalações. Era um grande edifício de alvenaria com portas em arcos góticos para acesso às baias dos barcos, muito mais elegante do que as construções de madeira que a maioria deles conhecia – como seu antigo hangar de hidroaviões em Seattle. Esta era mais parecida com a nova biblioteca Suzzallo, da Universidade de Washington. O próprio lago Carnegie era um símbolo de riqueza e privilégio. Até o começo do século XX, as guarnições de Princeton remavam no canal Delaware e Raritan, que fazia a fronteira sul do campus. Mas como os rapazes de Princeton achavam inconveniente remar entre as chatas de transporte de carvão e os barcos de recreio com que compartilhavam o canal, Andrew Carnegie construiu um lago particular para eles. Por cerca de 100 mil dólares, o equivalente hoje a 2,5 milhões de dólares, Carnegie comprou na surdina todas as propriedades ao longo de um trecho de quase cinco quilômetros do rio Millstone, represou o rio e criou uma raia de remo de primeira classe – rasa, reta, protegida, linda de se ver e livre das chatas de carvão.

Os rapazes aproveitaram seus primeiros dias em Princeton para relaxar e desfrutrar os elegantes arredores do hotel e clube de campo. Don Hume tentava se livrar de um terrível resfriado. Faziam duas sessões diárias de exercícios leves no barco e, principalmente, treinavam partidas e sprints em alta voga. A partida era um aspecto crítico da prova de 2 mil metros, algo com que eles vinham tendo problemas ultimamente.

Seis equipes competiam pelo direito de ir a Berlim: Washington, Califórnia, Pensilvânia, Academia Naval, Princeton e Clube Atlético Nova York. Duas séries de três barcos disputariam provas eliminatórias em 4 de julho. Os dois melhores de cada série fariam a final no dia seguinte.

Às vesperas das eliminatórias, o calor tornou-se opressivo – os primeiros indícios de uma terrível onda que em poucos dias assolaria todo o Leste. Além do calor úmido, os rapazes começavam a se inquietar com a magnitude do que estava em jogo. Na noite de 3 de julho, os remadores tiveram muita dificuldade para dormir. Ulbrickson foi de quarto em quarto para acalmá-los, mas havia em sua voz algo que demonstrava a própria ansiedade. Naquela noite, muito depois de se apagarem todas as luzes, Joe e Roger ficaram conversando no escuro sobre coisas divertidas para aliviar a pressão psicológica. Um brilho alaranjado surgia de tempos em tempos na escuridão: eram as tragadas de Chuck Day nos cigarros que contrabandeava para dentro do alojamento.

Não que estivessem seriamente preocupados com sua eliminatória. Nem Princeton nem os nova-iorquinos eram concorrentes de peso. A Califórnia, por sua vez, teria que enfrentar Pensilvânia e Academia Naval, ambas excelentes em provas de curta distância. A preocupação era com o que viria depois. Pensilvânia substituíra três de seus oito remadores de Poughkeepsie por recém-formados, inelegíveis para a disputa da regata interuniversitária, mas habilitados para as eliminatórias das olimpíadas. A Academia Naval trouxera o tenente Vick Krulak, do Corpo de Fuzileiros Navais, como timoneiro. A Califórnia também pusera em seu barco alguns ex-alunos. Washington era a única guarnição inteiramente composta de estudantes. Supondo que passassem na sua eliminatória, quaisquer guarnições que enfrentassem na final seriam, até certo ponto, formadas por desconhecidos – presumivelmente superiores aos rapazes que haviam acabado de derrotar em Poughkeepsie.

No sábado, 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos, os rapazes saíram da garagem para a disputa da prova pouco antes das 18h30. Era uma noite quente de verão, infestada de insetos. Milhares de pessoas afluíram ao lago para assistir às eliminatórias, a maioria ocupando as arquibancadas recém-construídas na zona de chegada. Os rapazes conduziram o Husky Clipper até o seu pontão de largada na plataforma montada especialmente para a seletiva olímpica e ficaram aguardando.

Dada a partida, a guarnição de Washington impôs uma elevada voga de 38 remadas por minuto que levou, quase instantaneamente, o Husky Clipper à frente dos adversários. Passado um minuto, Moch pediu uma redução de ritmo. Hume desceu para 34. No terceiro minuto, Hume passou a 32 e, mesmo com voga mais baixa, o barco não só seguia à frente como ampliava a vantagem. Nova York e Princeton remavam a 35. Na metade da prova, Washington vinha mais de um barco à frente dos dois adversários. Na aproximação da chegada, Nova York acelerou, superando Princeton e desafiando Washington. Moch pediu a Hume que retornasse a 38. O Husky Clipper saltou bruscamente à frente e cruzou a linha dois barcos e meio à frente dos nova-iorquinos.

A certeza da vitória não impediu que os rapazes de Washington se surpreendessem com a facilidade da conquista. Apesar do ar abafado, mal haviam suado sob as camisetas. Saíram remando da raia para a margem do lago, onde se posicionaram mais ou menos na marca dos 1.500 metros. Queriam obter por si mesmos a resposta da grande pergunta do dia: como a Califórnia se sairia?

Às 19 horas, Academia Naval, Pensilvânia e Califórnia largaram remando forte e em alta voga. Até os mil metros, a disputa pela liderança se manteve bastante equilibrada. Nesse ponto, Pensilvânia aumentou o ritmo e conseguiu uma ligeira vantagem. Ao entrarem, porém, nos últimos 500 metros, foi a vez de a Califórnia levantar a torcida. Os rapazes de Berkeley deram uma bela arrancada, ultrapassando Academia Naval e Pensilvânia para assumir a liderança e vencer por um quarto de barco. Uma demonstração impressionante, que reforçou a antiga crença – compartilhada por muitos treinadores e repórteres presentes – de que, a despeito das vitórias de Washington nas corridas longas de Seattle e Poughkeepsie, a Califórnia ainda era imbatível na curta distância. Era difícil argumentar o contrário. Califórnia vencera sua eliminatória com o tempo de 6m7,8s, 10 segundos menos que os 6m17,8s de Washington. “Um abismo quase intransponível para os Huskies”, declarou Malcolm Roy, do The New York Sun.

Ao retornarem ao Princeton Inn naquela noite, os rapazes de Washington tiveram uma nova crise de ansiedade. Uma vez mais, Ulbrickson passou boa parte da noite indo de quarto em quarto para tranquilizá-los. Sentado na beirada de seus beliches, disse-lhes o que eles já sabiam em seus corações, mas precisavam ouvir uma vez mais – que haviam vencido os 2 mil metros finais em Poughkeepsie e que poderiam vencer qualquer equipe dos Estados Unidos, inclusive a Califórnia, em qualquer distância. Bastava – lembrou-lhes – que continuassem a confiar uns nos outros.

Eles concordaram. A campanha da primavera – a camaradagem instantânea que haviam sentido ao entrarem juntos na água pela primeira vez, a vitória categórica sobre a Califórnia no lago Washington, a espetacular reação em Poughkeepsie e a tranquila vitória na eliminatória daquela manhã – os havia mais do que convencido de que, juntos, eram capazes de grandes conquistas. Nenhum deles duvidava mais de ninguém no barco. Porém, apenas acreditar uns nos outros já não bastava. O problema agora era a confiança em si mesmos. A química causticante do medo continuava a corroer seus cérebros e estômagos.

Mais tarde, depois que Ulbrickson se recolheu, os rapazes saíram de seus quartos, sozinhos ou em duplas, para caminhar à beira do lago Carnegie. A lua cheia banhava de prata o espelho-d’água e o silêncio só era quebrado pelos grilos e pelas cigarras. Enquanto olhavam as estrelas, conversaram baixinho sobre o que eram e o que haviam feito. Para alguns, era suficiente. Joe se lembrou, anos depois, da sensação de paz que o envolveu naquela noite. A determinação voltou a fluir em sua mente, primeiro como um filete de água, depois como uma torrente. Nas primeiras horas da madrugada, eles retornaram aos seus quartos e dormiram – alguns serenos, outros sobressaltados.

Na manhã do dia seguinte, Chuck Day escreveu em seu diário: “Final da seletiva olímpica. Nervoso, mas confiante.” Johnny White escreveu: “Acordamos apavorados, Alvin conversa conosco o tempo todo.”

Alvin Ulbrickson não poderia, ele próprio, estar relaxado. Para ele, era o dia do juízo final. Muitos de seus pares estariam assistindo à prova naquela noite – não apenas Ebright, mas também o velho Jim Ten Eyck, de Syracuse, Ed Leader, de Yale, Jim Wray, de Cornell, e Constance Titus, um sculler campeão olímpico em 1904. E, principalmente, Royal Brougham também estaria lá, transmitindo a prova ao vivo pela CBS para 50 estações de rádio de todo o país. Toda a Seattle – e boa parte do resto do país – estaria ouvindo. Não haveria onde se esconder se os rapazes não vencessem.

Naquela manhã, houve trovoadas sobre Nova Jersey e chuva tamborilando no telhado do Princeton Inn. Ao meio-dia, porém, as nuvens sumiram no horizonte e o dia ficou claro, embora quente e abafado. O lago Carnegie refletia, como um espelho, o azul translúcido do céu. Com a largada da prova prevista para as 17 horas, os rapazes passaram a maior parte do dia descansando na garagem de Princeton, tentando manter a calma. No fim da tarde, sedãs pretos e cupês lotados de torcedores começaram a chegar ao lago Carnegie. Depois de estacionar à sombra das árvores localizadas na parte final do percurso, seus ocupantes estendiam toalhas de piquenique na relva e abriam cestas cheias de sanduíches e bebidas geladas. Na linha de chegada, as arquibancadas eram gradualmente ocupadas por gente que se abanava com seus programas – homens de chapéu diplomata e panamá e mulheres de chapéu de aba reta elegantemente ajustados à cabeça. No total, umas 10 mil pessoas ousaram enfrentar o calor para assistir a uma corrida de não mais de seis minutos de duração – seis minutos que só não iriam despedaçar o sonho de nove dentre os 36 rapazes que já se preparavam para entrar em seus barcos.

Às 16h45 os barcos colocados em primeiro e segundo lugares nas eliminatórias do dia anterior – Califórnia, Pensilvânia, Washington e Clube Atlético Nova York – saíram remando da garagem de Princeton em direção ao lago Carnegie. Depois de passar sob as graciosas arcadas da ponte de pedra e de fazer a generosa curva em “S” do lago, chegaram, finalmente, aos pontões de largada. Nova York foi o primeiro a se posicionar, seguido da Pensilvânia. Um rebelde cisne branco bloqueou o caminho de Washington, até que Bobby Moch, gritando em seu megafone e agitando furiosamente os braços, conseguiu convencê-lo a se afastar. Por fim, foi a vez da Califórnia.

As árvores à beira do lago projetavam longas sombras sobre os pontões de largada. Mas o calor não diminuíra sensivelmente. Os rapazes de Washington, sem as camisetas – tiradas antes de entrarem no barco –, ocupavam suas posições com os remos dentro da água, prontos para a primeira grande puxada. Com os olhos fixos na nuca do homem à sua frente, cada um procurava respirar o mais devagar e naturalmente possível para conectar-se, de coração e mente, apenas com o barco. Bobby Moch pôs a mão sob o assento para tocar o chapéu da sorte de Tom Bolles – alguns gramas de peso extra em troca de toneladas de sorte.

Poucos minutos depois das 17 horas, o juiz de largada gritou: “Todos prontos?” Os quatro timoneiros ergueram as mãos e, sem delongas, foi dada a partida.

Washington teve um mau começo. Na quarta ou quinta remada, Gordy Adam e Stub McMillin tiraram os remos da água antes de a puxada ser concluída. O resultado foi um momentâneo desequilíbrio do barco e a abrupta quebra do impulso inicial. Os três adversários saltaram à frente. Na remada seguinte Washington já se ajustara, com pegadas precisas e perfeitamente sincronizadas de seus oito remadores.

Nova York ocupou por um instante a liderança do pelotão, mas Pensilvânia, golpeando a água à elevada cadência de 40 remadas por minuto, rapidamente a arrebatou. Califórnia, remando a 38, colocou-se em terceiro, três metros à frente da proa de Washington. Bobby Moch e Don Hume aumentaram a voga para 39 visando recuperar o impulso, mas, assim que conseguiram, baixaram gradativamente para 38, 37, 36, 35. Mesmo com a redução da voga, o Husky Clipper manteve sua posição, colado à popa da Califórnia. Lá na frente, Pensilvânia seguia golpeando a água a 39 remadas por minuto. A um quarto da distância, Washington começou a avançar sobre a Califórnia. A um comando de Bobby Moch, Hume passou à cadência surpreendentemente baixa de 34. Ao se aproximarem da metade da prova, Nova York afrouxou subitamente e logo ficou trás de Washington. Pensilvânia continuava a liderar com três quartos à frente, ampliando lentamente a vantagem sobre a Califórnia. O Husky Clipper permanecia junto à popa da Califórnia, com os rapazes mantendo a voga de 34 remadas por minuto.

Mas que 34! Don Hume a bombordo e Joe Rantz a boreste ditavam o ritmo aos demais rapazes com puxadas longas, lentas e fluidas. Vistos das margens do lago Carnegie, os rapazes, seus remos e o Husky Clipper pareciam um animal aquático deslizando na superfície do lago impelido por suaves e potentes movimentos de contração e distensão: oito troncos nus movendo-se para a frente e para trás em total harmonia, oito pás brancas entrando e saindo da água em perfeita sincronia. A cada pegada, as pás afundavam na água sem espirros nem ondulações; a cada retirada, o barco seguia em frente sem hesitação nem desaceleração.

Faltando pouco para os 1.500 metros, Bobby Moch inclinou-se na direção de Don Hume e comandou: “Olhe a Califórnia! É agora que passamos a Califórnia!”

Hume aumentou a voga para 36. Washington passou velozmente por Califórnia e se aproximou da popa de Pensilvânia, cujo voga, Lloyd Saxton, ao ver a proa do Husky Clipper, subiu a voga para impressionantes 41 remadas por minuto. Com o aumento da frequência, as remadas de Pensilvânia se tornaram inevitavelmente mais curtas. Ao notar a distância entre os “rastros” deixados na água pelas pás dos remos de Washington, Saxton ficou atônito. “Eles faziam cinco metros por remada contra três nossos. Era inacreditável”, disse após a corrida. Washington emparelhou com Pensilvânia.

Bobby Moch, no entanto, ainda nem soltara o freio, o que só fez ao entrar nos 500 metros finais. A um comando seu, Hume aumentou a voga para 39 e em seguida para 40. Durante cinco ou seis remadas os dois barcos brigaram pela liderança, cabeça a cabeça, como se diz nas corridas de cavalo, até Washington assumir a ponta com um avanço decisivo. A partir daí foi “sopa no mel”, diria Gordy Adam mais tarde. A 400 metros do final, Washington passou pelos combalidos rapazes da Pensilvânia como um trem expresso e deslizou nos últimos 100 metros da raia com leveza e potência extraordinárias. As últimas 20 remadas foram “a melhor coisa que já senti dentro de um barco” – palavras de Shorty Hunt em carta aos seus pais. Chegaram com um barco inteiro de diferença e ampliando a vantagem. Ao cruzarem a linha, Bobby Moch desafiou as leis da física e do bom senso ficando de pé na popa do barco – de 61 centrímetros de largura – com o punho erguido no ar.

Pensilvânia ficou em segundo e Califórnia em terceiro. O Clube Atlético Nova York cruzou a linha erraticamente com quase quatro barcos de desvantagem e metade da guarnição caída sobre os remos, exaurida pelo esforço e pelo calor.

Houve comemoração em todo o estado de Washington – nas esfumaçadas vilas madeireiras da península Olympic, nas úmidas fazendas leiteiras da cordilheira das Cascatas, nas elegantes casas vitorianas de Capitol Hill e na precária garagem de barcos dos Huskies no canal de Montlake. Mães e pais correram para enviar aos filhos telegramas de congratulação; jornalistas puseram-se a trabalhar freneticamente na composição das manchetes do dia seguinte; donos de bares serviram rodadas por conta da casa. O sonho se tornara realidade. Os rapazes de Seattle iriam às Olimpíadas. A cidade estava no cenário mundial.

Com os ouvidos colados ao rádio na casa inacabada de Harry Rantz, no lago Washington, Joyce e a família de Joe também comemoraram. Harry não disse nada a princípio, mas de repente começou a remexer numa caixa e sacou, radiante, uma grande bandeira dos Estados Unidos. Pregou-a na parede acima do rádio e recuou para admirá-la. As crianças correram para contar aos amigos do bairro a grande notícia. Joyce, em silenciosa euforia, começou a limpar as cascas de amendoim que as crianças haviam deixado cair no chão durante a tensa narração da prova. Só uma coisa a entristecia: Joe não estaria de volta antes do fim do verão – uma aflição tola imediatamente superada pelo prazer de imaginá-lo desembarcando em Seattle, no outono, metido num uniforme olímpico.

Rindo de orelha a orelha, Joe e seus companheiros de guarnição voltaram remando à garagem de Princeton. Ao chegarem, jogaram Bobby Moch na água, resgataram-no e posaram para a imprensa e os fotógrafos que os esperavam no píer. Henry Penn Burke, presidente da Comissão de Remo Olímpico dos Estados Unidos, colocou-se ao lado de Bobby Moch e entregou-lhe uma taça de prata. Enquanto as câmeras dos cinejornais zumbiam, Moch, sem camisa e todo molhado, pegou uma das alças da taça enquanto Burke, de terno e gravata, segurava a outra. Burke começou a falar sem parar. Cansados da prova e combalidos pelo calor que fazia ali, os rapazes só queriam ir para os chuveiros e iniciar as comemorações. Mas Burke não dava trégua. Moch deu um leve puxão na taça, que se soltou da mão do orador. Burke continuou falando. Acabou que os rapazes foram embora, com Moch levando a taça, e deixaram Burke falando sozinho para as câmeras.

Al Ulbrickson fez algumas breves declarações à imprensa. Indagado sobre as razões do sucesso da sua guarnição principal este ano, ele foi direto ao cerne da questão: “Todo homem no barco tem absoluta confiança em cada um de seus companheiros (...). Nossa vitória não pode ser atribuída a nenhum indivíduo – nem mesmo ao voga Don Hume. A cooperação sincera durante toda a primavera foi a verdadeira responsável pela vitória.”

Ulbrickson não tinha o dom da palavra – esse era o território de Pocock. Mas seu comentário refletia, da melhor maneira possível, o que trazia no coração. Ele sabia, agora, com aquela certeza que vem do fundo da alma, que tinha finalmente em suas mãos o que lhe escapara durante anos. Tudo convergira: os remadores certos, as atitudes certas, as personalidades certas, as competências certas; um barco perfeito, elegante, equilibrado e diabolicamente rápido; estratégias vencedoras para longa e curta distâncias; um timoneiro ousado e inteligente, capaz de tomar decisões difíceis numa fração de segundo. Tudo isso era muito mais do que ele conseguia colocar em palavras, mais do que um poeta conseguiria – algo maior do que a soma de suas partes, algo misterioso e indizível a ser admirado por sua beleza. E ele não ignorava a quem devia boa parte de seu sucesso.

Caminhando de volta ao Princeton Inn naquela noite ao lado de George Pocock, cada um levando seu paletó por sobre o ombro, Ulbrickson parou de repente, virou-se para Pocock e estendeu-lhe a mão direita. “Obrigado, George, pela ajuda”, disse. Pocock lembrou-se mais tarde desse momento com um divertido comentário: “Vindo de Al, aquilo equivalia a fogos de artifício e orquestra.”

Mais tarde naquela noite os rapazes compareceram ao jantar anual de Loyal Shoudy, onde foram agraciados com a tradicional gravata roxa e a nota de 10 dólares. No entanto, ainda durante as comemorações, notícias preocupantes começaram a circular nos corredores do Princeton Inn.

Às 20 horas, os rumores se confirmaram. Após o pomposo discurso no píer, Henry Penn Burke se reunira com Al Ulbrickson, George Pocock e Ray Eckman, o diretor esportivo de Washington, para lhes dar um autêntico ultimato. Se Washington quisesse ir a Berlim, teria que arcar com os próprios custos. “Vocês vão precisar pagar o transporte”, informou. “Nós não temos recursos.” Burke, que por coincidência era também presidente e mecenas do Clube Atlético Pensilvânia, da Filadélfia, disse também que Pensilvânia tinha dinheiro e que, como segundo colocado, teria prazer de ir a Berlim no lugar de Washington.

O mesmo drama vinha se desenrolando em todo o país naquela semana. O Comitê Olímpico estava sem verba. Atletas da natação, da esgrima e de dezenas de outras modalidades estavam sendo obrigados a pagar do próprio bolso, total ou parcialmente, a viagem a Berlim. Mas, até aquele momento, nem o Comitê Olímpico Nacional nem a Comissão Olímpica de Remo sequer insinuara que não poderia enviar a guarnição vencedora aos Jogos. Ulbrickson, pego de surpresa, estava furioso. A Universidade já fora obrigada a coletar junto aos ex-alunos e cidadãos de Seattle, centavo por centavo, o dinheiro para levar a delegação a Poughkeepsie e Princeton. E estava fora de cogitação que qualquer um dos rapazes pudesse pagar a viagem do próprio bolso. Eles não eram herdeiros de indústrias, eram americanos da classe proletária. A coisa toda cheirava mal. Os dirigentes de Washington estavam loucos para sair da sala, mas Burke continuava falando. Insistia que a Califórnia financiara a própria viagem em 1928 e em 1932, e que Yale não teve qualquer dificuldade para levantar “fundos privados” em 1924. Com certeza alguém de Seattle poderia entrar com o dinheiro.

Ulbrickson sabia muito bem que em Yale o dinheiro crescia em árvores e que fora muito mais fácil levantar fundos em 1928, antes da Depressão, do que seria agora, em 1936. Em 1932, a equipe de Ebright só tivera que viajar os 560 quilômetros que separavam Berkeley de Los Angeles. Com um olhar gélido, perguntou a Burke quanto dinheiro era necessário e em quanto tempo. Cinco mil dólares até o fim da semana, Burke respondeu. Caso contrário, a Pensilvânia iria.

Encerrada a reunião, Ulbrickson procurou Royal Brougham e George Varnell e ajudou-os a compor as manchetes e matérias especiais do Post-Intelligencer e do The Seattle Times do dia seguinte. Minutos depois, os telefones começaram a tocar em Seattle. Ray Eckman acionou seu assistente, Carl Kilgore, que imediatamente começou a fazer chamadas locais. Por volta das 22 horas, Kilgore já arregimentara dezenas de líderes cívicos e pusera em prática um plano de emergência. Logo de manhã eles abririam a sede do Clube Atlético de Washington, nomeariam um presidente e criariam grupos de trabalho. Nesse meio-tempo, fizeram inúmeros telefonemas. Ulbrickson procurou não alarmar seus atletas. Não queria preocupá-los com tamanho absurdo. Sabendo o mínimo possível sobre a falta de recursos do Comitê, foram todos para a cama acreditando que tudo acabaria bem.

Na manhã seguinte, Shorty Hunt escreveu uma carta aos pais: “O sonho virou realidade! Caramba, como somos sortudos! Ninguém me tira da cabeça que a Fada da Sorte está conosco.” No café da manhã, ele e seus companheiros se encheram de melão e sorvete antes de sair para remar para as câmeras do cinejornal da Fox Movietone.

Horas mais tarde, o povo de Seattle acordou com notícias alarmantes no rádio e nos jornais. A cidade inteira se pôs a trabalhar. Colegiais em férias saíram de porta em porta em seus bairros com latinhas para arrecadar dinheiro. Paul Coughlin, presidente da associação de ex-alunos da Universidade, começou a telefonar para os mais proeminentes entre seus afiliados. Em poucas horas foram impressos milhares de etiquetas a serem vendidas nos corredores das escolas, por 50 centavos a unidade, aos estudantes em cursos de férias. Locutores de rádio interromperam os programas da manhã para pedir contribuições. I. F. Dix, diretor geral da Pacific Telephone and Telegraph, tomou posse como coordenador da campanha e comandou o envio imediato de telegramas às câmaras de comércio de todas as cidades, vilas e povoados do estado. Mais de mil cartas foram enviadas às sedes da Legião Americana e de outros grêmios e organizações cívicas.

À tarde, começou a chover dinheiro e promessas de contribuição – para começar, um polpudo cheque de 500 dólares do The Seattle Times; 50 dólares da poderosa Standard Oil; 5 dólares de Cecil Blogg, de Tacoma, ex-timoneiro de Hiram Conibear. Vieram também contribuições das cidades natais dos rapazes, cujos jornais acompanhavam dia a dia suas façanhas – 50 dólares de Montesano, de Bobby Moch; 50 dólares de Bellingham, o núcleo urbano mais próximo da fazenda leiteira onde crescera Gordy Adam; 299,25 dólares de Olympia, de Don Hume; 75 dólares de Sequim, de Joe Rantz. Ao fim do primeiro dia de campanha, os voluntários haviam vendido 1.523 dólares em adesivos. Ao final do segundo, T. F. Davies – presidente da Câmara de Comércio de Seattle – pôs um cheque administrativo de 5 mil dólares num envelope e o enviou por aerograma a Al Ulbrickson.

A essa altura, Ulbrickson e os rapazes já se preparavam despreocupadamente para embarcar para a Alemanha, em 14 de julho, no S. S. Manhattan. Horas depois da reunião com Henry Penn Burke, em Princeton, e de seus acertos com Royal Brougham e George Varnell naquela mesma noite, Ulbrickson retornara com a cara mais impassível – vale dizer, com sua expressão natural – a Burke e ao Comitê Olímpico, e declarara que Washington dispunha, sim, de recursos para pagar a viagem a Berlim. E antes que alguém lhe fizesse perguntas embaraçosas sobre como conseguira 5 mil dólares em tão pouco tempo, aceitou prontamente o convite do Clube Atlético Nova York para utilizar suas instalações de treinamento no canal de Long Island e deixou Princeton o mais rápido que pôde.

Enquanto se instalavam em Travers Island, os rapazes – agora o oito olímpico oficial dos Estados Unidos – começavam, sem saber, a se tornar celebridades nacionais. Em Seattle, já eram autênticos superstars. Se era verdade que treinadores e jornalistas esportivos da Costa Leste os vinham seguindo com interesse desde a vitória dos calouros em Poughkeepsie, em 1934, depois das 20 remadas finais em Princeton, profissionais de imprensa de todo o país começaram a dizer o que muitos pensaram duas semanas antes, ao testemunhar a fabulosa arrancada de Joe e seus companheiros à luz do crepúsculo de Poughkeepsie: que essa talvez fosse a maior guarnição do remo universitário americano de todos os tempos.

Travers Island fica no canal de Long Island, ao sul de New Rochelle. As instalações do Clube Atlético Nova York, construídas em 1888, ocupavam mais de 12 hectares de terreno estruturado ao redor de uma elegante sede social. Com salão de jantar, bar, sala de bilhar, ginásio, garagem de barcos, stand de tiro, campo de beisebol, pista de boliche, ringue de boxe, quadras de tênis, quadras de squash, pista de atletismo, saunas, piscina, barbearia, serviços de manobrista, extensos gramados e, como não poderia de ser, todo tipo de equipamento de atletismo, ela era, para todos os efeitos práticos, um clube campestre de atletas amadores e um local privilegiado para toda sorte de evento social no condado de Westchester. Tinha fácil acesso às águas do canal, excelentes para a prática do remo e – o melhor de tudo para garotos dos campos, florestas e pequenas cidades do Pacífico Noroeste – ficava a poucos quilômetros dos múltiplos mistérios e maravilhas da cidade de Nova York.

O calor sufocante dos últimos dias continuou a aumentar, naquela semana, em toda a Costa Leste e grande parte dos Estados Unidos, mas não seria por causa de uns grauzinhos a mais que os rapazes deixariam de provar um pouco da magia de Nova York. Visitaram o túmulo do general Grant, tentaram entrar no Queen Mary – de onde acabaram expulsos –, foram ao campus da Universidade de Colúmbia, conheceram o Rockefeller Center, andaram para cima e para baixo na Broadway e comeram no Jack Dempsey’s. Foram também ao teatro burlesco de Minsky, de onde saíram com os olhos arregalados e os sorrisos acanhados, apesar da opinião pessoal expressa por Johnny White em seu diário: “Baixaria.” Percorreram Wall Street lembrando-se de como seus pais falavam do lugar em 1929.

Foram de metrô até Coney Island e descobriram que centenas de milhares de nova-iorquinos haviam chegado primeiro, fugindo do calor opressivo de Manhattan mesmo sendo meio de semana. Do calçadão lotado até onde se podia divisar o litoral, nos dois sentidos, as praias eram uma massa escura e fervilhante de corpos aglomerados na areia. Eles abriram caminho no meio da multidão, fascinados pelos milhares de idiomas de Nova York – mães falando italiano e meninos falando espanhol, avós falando iídiche e meninas falando polonês, crianças eufóricas chamando umas às outras em dezenas de línguas e variedades de inglês com inflexões do Bronx, do Brooklyn e de Nova Jersey. Devoraram cachorros-quentes do Nathan’s por 5 centavos, comeram algodão-doce e tomaram Coca-Cola gelada. Andaram na roda-gigante de 50 metros de altura e na arrepiante montanha-russa Cyclone. Foram ao Luna Park, andaram em outros brinquedos, comeram amendoim e tomaram mais Coca-Cola. Voltaram à cidade exaustos e não de todo impressionados com Coney Island: “Que buraco”, escreveu Chuck Day em seu diário. “Superlotado e sujo. Um assalto.” Ele tampouco se impressionou com os nova-iorquinos em geral: “As pessoas em Nova York parecem cansadas, pálidas e frágeis. Raramente sorriem e não parecem fortes e saudáveis como as da Costa Oeste.”

Foi em suas andanças por Nova York que começaram a se dar conta, um a um, de quem eram agora. Certa tarde, na Times Square, um homem alto e corpulento aproximou-se de Shorty, examinou-o com atenção e disse: “Shorty Hunt!” E, olhando para os demais, completou: “Vocês não são a guarnição de remo de Washington?” Ao ouvir a confirmação, ele declarou, emocionado, que reconhecera Shorty de uma foto no jornal. Disse que era ex-remador da Universidade de Colúmbia e que, depois das façanhas de Washington, decidira mandar o filho estudar no Oeste para se tornar também um grande remador. Pela primeira vez

a

reconheceram o fato de já não serem apenas a 1 guarnição da Universidade de Washington, mas a guarnição olímpica do oito com timoneiro dos Estados Unidos da América. O “W” de suas camisas estava prestes a ser substituído pelas letras “USA”.

o

Para Joe, a revelação aconteceu no 86 andar do recém-construído edifício Empire State. Nenhum dos rapazes já havia andado mais do que uns poucos andares num elevador, em hotéis de Seattle, e a velocidade da ascensão os assustou e emocionou. “Ouvidos estalando, olhos arregalados”, escreveu Shorty Hunt, assombrado, à sua família naquela noite.

Olhando a imensa cidade da varanda de observação, Joe foi arrebatado por uma torrente de emoções. Ele nunca viajara de avião nem vira uma cidade de um ponto mais elevado do que o que lhe permitia sua própria estatura. Não sabia se achava belo ou assustador aquele cenário de múltiplas torres elevando-se sobre a cidade em meio a uma cortina de névoa seca, fumaça e vapor.

Inclinou-se sobre o parapeito de pedra para admirar as miniaturas de carros e ônibus e o formigueiro humano andando pelas ruas. A cidade lá embaixo murmurava. A cacofonia de buzinas, sirenes e roncos de motores que agredira seus ouvidos ao nível da rua era ali reduzida a um rumor mais suave e delicado, como a respiração de uma imensa máquina viva. Era um mundo muito maior e mais conectado do que ele já acreditara ser possível.

Colocou um níquel num telescópio para apreciar melhor a ponte do Brooklyn, a baixa Manhattan e, por fim, a Estátua da Liberdade. Em poucos dias estaria passando bem debaixo dela a caminho de um país onde a liberdade, tal como a entendia, não apenas não era garantida como, pelo que ouvira dizer, vinha sendo violentamente agredida.

Joe, como todos os seus companheiros, dava-se conta, agora, de que era representante de algo muito maior do que ele mesmo: um modo de vida, um conjunto de valores comuns entre os quais a liberdade se destacava, talvez, como o mais fundamental. Tudo aquilo que os mantinha unidos – confiança recíproca, respeito mútuo, humildade, esportividade, espírito de equipe – era também parte do que significavam, para todos eles, os Estados Unidos da América. Além do apreço pela liberdade, eram essas as coisas que ele e seus companheiros de guarnição levariam a Berlim e mostrariam ao mundo quando entrassem na água em Grünau.

Bobby Moch também teve uma súbita revelação naqueles dias, mais exatamente ao abrir um envelope à sombra de uma árvore nos jardins de Travers Island. O envelope viera lacrado junto com a carta que seu pai lhe enviara com os endereços dos parentes que pretendia visitar na Europa, trazendo a inscrição: “Leia isto num lugar reservado.” Tenso, Moch buscara um local isolado para abri-lo e ler seu conteúdo. Ao terminar a leitura, estava em lágrimas.

Irrelevante para os padrões do século XXI, a notícia que Moch recebeu era, no contexto da sociedade americana da década de 1930, motivo de sobra para um sério abalo. Gaston Moch dizia ao filho que, quando conhecesse seus parentes na Europa, ficaria sabendo que ele e sua família eram judeus.

Bobby ficou um longo tempo sob a árvore remoendo a descoberta – menos por saber-se membro de uma minoria ainda muito discriminada do que por se dar conta da dor terrível que seu pai devia ter sofrido em silêncio durante décadas. Para vencer nos Estados Unidos, ele sentira necessidade de ocultar dos vizinhos, dos amigos e até dos próprios filhos aquele traço essencial de sua identidade. Bobby fora educado na crença de que as pessoas deviam ser consideradas por suas ações e seu caráter, não com base em estereótipos. Seu próprio pai lhe ensinara isso. Saber que, mesmo nos Estados Unidos, seu pai não se sentira seguro para viver de acordo com um princípio tão simples e que mantivera oculta até do próprio filho sua herança cultural, como se ela fosse motivo de vergonha, era uma dolorosa constatação.

Em 9 de julho, Nova York enfrentava a maior onda de calor da história dos Estados Unidos. Durante um mês, temperaturas nunca registradas haviam queimado o Oeste e o Meio-Oeste. Nem o terrível verão de 1934 fora tão quente. Agora a onda de calor se estendia de costa a costa e, ao norte, até o Canadá. Três mil americanos morreram de calor naquela semana, 40 deles na própria cidade de Nova York.

De sua parte, o oito olímpico dos Estados Unidos tratava de desfrutar ao máximo as vantagens da situação. Todas as tardes iam de barco à ilha Huckleberry, um retiro privado do Clube Atlético Nova York situado a um quilômetro e meio de Travers Island pelas águas frias do canal de Long Island. Os rapazes se apaixonaram por esses 5 hectares de paraíso assim que desceram da lancha em uma de suas muitas praias levando na cabeça os cocares com penas de peru tradicionalmente usados pelos sócios do clube sempre que iam lá. Eles mergulhavam das pedras nas águas verdes e frias do canal, nadavam, faziam brincadeiras e iam se estender nas lajes de granito para se bronzear antes de um novo mergulho.

Chuck Day fumava e contava piadas enquanto Roger Morris, com cara de sono, lhe criticava pelo tabagismo. Gordy Adam apenas curtia o sol com seu cocar. Joe perambulava examinando aspectos geológicos da ilha, como as estrias glaciais gravadas no granito. Bobby Moch, mais preocupado em organizar atividades, era toda hora jogado na água para parar de aborrecê-los. Ali, eles estavam totalmente à vontade. O mar e a floresta eram seu elemento, fonte de prazeres que nem Manhattan, com todo o seu brilho e seu charme, podia lhes proporcionar.

No terceiro dia, Al Ulbrickson deu um basta naquela história de sair para nadar. Para ele, qualquer exercício que não fosse remar era ruim para remadores – desenvolvia os músculos errados.

George Pocock, por sua vez, aproveitou a estada em Travers Island para lixar cuidadosamente o casco do barco, cobri-lo com várias camadas de verniz marítimo e poli-lo até ficar cintilante. Não era só uma questão de estética. Pocock queria o casco que proporcionasse o máximo de velocidade possível. Em Berlim, frações de segundo poderiam ser decisivas.

Em 13 de julho, chegou a hora de se prepararem para o embarque. Para começar, colocaram o Husky Clipper num longo caminhão e – com escolta policial – se dirigiram ao Píer 60 do rio Hudson, no coração de Nova York, de onde o S. S. Manhattan zarparia dois dias depois.

O cais era um amontoado de escritórios, armazéns, cargas empilhadas e passadiços cobertos para passageiros. Os rapazes, todos de paletó e gravata para uma recepção seguida de jantar que aconteceria mais tarde no hotel Lincoln, logo descobriram que não havia como entrar a bordo com um objeto tão comprido. Com o barco sobre as cabeças, andaram de um lado para outro do cais, durante quase uma hora de calor sufocante, examinando o grande casco vermelho do navio para imaginar uma solução.

Até que alguém viu uma canaleta de bagagens que descia do tombadilho ao nível da rua num ângulo de cerca de 60 graus. Cuidadosamente, colocaram o barco na canaleta e, de quatro, levaram-no até o tombadilho. De lá, manobrando uma vez mais com o barco sobre as cabeças, conduziram-no ao convés, onde o amarraram, cobriram com um encerado e começaram a rezar para que ninguém se sentasse nele achando que fosse um banco. E saíram correndo para a recepção, atrasadíssimos e encharcados de suor.

Ao chegarem ao hotel Lincoln, registraram-se oficialmente no Comitê Olímpico dos Estados Unidos e foram se juntar aos demais atletas no saguão. Glenn Cunningham estava lá, num elegante terno cinza com uma vistosa gravata amarela. Jesse Owens, de terno branco, fora encurralado num canto da sala pelos fotógrafos e convencido a posar com um saxofone: “Ao meu comando”, disse um dos fotógrafos, “sopre nessa coisa.” Jesse soprou. O instrumento emitiu um longo chiado. “É melhor verificar o pneu, Jesse. Parece que está furado”, alguém brincou.

Circulando pelo salão, os rapazes de Washington imaginaram que, se não eram os mais famosos, os mais velozes e os mais fortes entre os presentes, com toda certeza eram os mais altos – com a notável exceção de Bobby Moch. Mas a ilusão se desfez ao se depararem com os 2,02 metros de Joe Fortenberry e os 2,05 metros de Willard Schmidt, da primeira equipe olímpica de basquete da história dos Estados Unidos. Stub McMillin foi cumprimentá-los com a pretensão de olhá-los nos olhos e quase teve um torcicolo. Bobby Moch nem tentou: calculou que precisaria de uma escada.

O dia seguinte foi um corre-corre – pegar as credenciais olímpicas e os vistos alemães, resolver pequenas coisas de última hora e comprar cheques de viagem. Johnny White não sabia como ia se virar na Europa sem dinheiro. Ainda tinha a maior parte dos 14 dólares com que saíra de casa, mas eles não iam durar muito. No último minuto, porém, recebeu um envelope de Seattle com 100 dólares. Sua irmã Mary Helen os enviara – quase todas as suas economias – dizendo que o dinheiro era em troca do velho violino dele que pagara para si. Johnny, no entanto, sabia muito bem que ela não se interessava por violinos.

O passaporte olímpico de Joe

A temporada nova-iorquina dos rapazes culminou naquela noite com uma visita ao teatro Loew’s State, onde Duke Ellington e sua orquestra encerrariam uma semana de apresentações. Para Joe e Roger principalmente, foi o ponto alto da estadia em Nova York. O teatro, por si só, era uma prévia do espetáculo: madeira torneada com detalhes dourados, poltronas de estofado vermelho e um imenso lustre de cristal. Ellington e sua orquestra tocaram “Mood Indigo”, “Accent on Youth”, “In a Sentimental Mood”, “Uptown Downbeat” e cerca de 20 outras canções. Movido pela vibrante harmonia dos metais, Joe acompanhou a orquestra batendo os pés no chão ao ritmo da música, extasiado.

O clube Alpha Delta Phi foi o lugar da última noite de sono da equipe antes do início da grande aventura. Ao apagar das luzes dessa mesma noite, 80 quilômetros ao sul, o dirigível Hindenburg, com suas duas suásticas negras impressas nos estabilizadores verticais, saía da base aérea de Lakehurst, em Nova Jersey, rumo à Alemanha, onde desempenharia um pequeno papel nos Jogos Olímpicos de 1936.

O embarque da equipe olímpica dos Estados Unidos, às 10h30 da manhã seguinte, foi amplamente documentado por fotógrafos e cinegrafistas da imprensa de todo o país. A euforia e a emoção dominavam os mais de 300 membros da delegação. Para os rapazes de Washington, que jamais haviam entrado num barco maior do que as balsas de Seattle, o navio de luxo S. S. Manhattan – com 203 metros de comprimento, 24.289 toneladas, oito conveses e capacidade para 1.239 passageiros – era colossal. Lançados ao mar cinco anos antes, ele e seu irmão, o S. S. Washington, eram os primeiros transatlânticos construídos nos Estados Unidos desde 1905 e os maiores já produzidos no país.

O casco vermelho e a superestrutura branca encimada por duas chaminés gêmeas ligeiramente inclinadas para trás, também vermelhas com arremates horizontais em branco e azul, faziam do Manhattan um navio cem por cento americano. Ao subir a bordo, cada atleta recebeu uma pequena bandeira do país. Em poucos minutos a amurada ficou lotada de jovens radiantes acenando bandeiras enquanto se despediam de seus fãs, amigos e familiares reunidos no cais.

Ao descerem a seus camarotes na classe turística, os rapazes de Washington tiveram oportunidade de conhecer e cumprimentar os demais remadores que representariam os Estados Unidos em Berlim: Dan Barrow, sculler do Clube Atlético Pensilvânia; os rapazes do dois com timoneiro e do “dois sem” da Pensilvânia; os do double skiff do Clube Náutico Undine da Filadélfia; e as guarnições do quatro com timoneiro, rapazes de Harvard que remavam pelo Clube Náutico Riverside, de Massachusetts, e do “quatro sem”, do Clube Náutico West Side, de Buffalo, estado de Nova York.

Cumpridas as formalidades, foram para o convés com suas bandeiras para se despedir. Por volta de meio-dia, hora da partida, mais de 10 mil pessoas se acotovelavam no Píer 60, que era também sobrevoado por aviões e dirigíveis. Os cinegrafistas dos cinejornais fizeram suas últimas tomadas no convés e desceram às pressas para preparar as câmeras para a partida do navio. Rolos de fumaça negra começaram a sair das chaminés. Da proa à popa, estandartes tremulavam ao vento em seus cordames.

Pouco antes da partida, os atletas se juntaram a Avery Brundage e outros funcionários do Comitê Olímpico no convés superior para içar no mastro da popa uma enorme bandeira branca com os cinco anéis olímpicos entrelaçados. No cais, a multidão acenava com seus chapéus entoando um grito de guerra. A banda começou a tocar. Logo soltaram-se as amarras e o Manhattan começou a se afastar do cais.

Joe e todos os outros voltaram correndo à amurada e se juntaram ao coro. No cais, as pessoas gritavam “Boa viagem!”. Rebocadores, barcaças e navios próximos começaram a apitar. Barcos-bombeiros acionaram suas sirenes e soltaram esguichos de água no ar. No céu, os aviões voavam em círculos para proporcionar aos fotógrafos as melhores imagens aéreas.

Deixado pelos rebocadores em seu curso rio abaixo, o Manhattan deu início à jornada descendo a costa ocidental da ilha que lhe dera o nome. Ao passar por Battery, Joe pôde sentir a primeira brisa refrescante em muitos dias. Em seguida, foram todos para as amuradas de boreste apreciar a ilha Ellis e a Estátua da Liberdade. Joe permaneceu no convés enquanto o navio passava pelos estreitos, entre o Brooklyn e Staten Island, cruzava a entrada da baía e adentrava, finalmente, o Atlântico. Ficou debruçado na amurada desfrutando o ar fresco e a paisagem de Long Island, querendo absorver aquilo tudo, guardá-lo na memória para contar a Joyce quando voltasse para casa. Só quando, horas mais tarde, o sol começou a declinar no oeste e o vento frio começou a varrer o convés foi que Joe se retirou para as entranhas do navio. Ainda se acostumando ao balanço do mar, saiu em busca dos rapazes – e de comida.

Naquela noite, o Manhattan foi inundado de luzes, de música e da alegria dos jovens que iniciavam a grande aventura de suas vidas navegando no tenebroso vazio do Atlântico Norte a caminho da Alemanha de Hitler.

 

O S. S. Manhattan

CAPÍTULO 16

 

Bons pensamentos têm muito a ver com remar bem. Não é suficiente que os músculos de uma guarnição trabalhem em sincronia; seus corações e suas mentes também devem ser um só.

– George Yeoman Pocock

 

Enquanto Joe adormecia no Manhattan, na alvorada de Berlim um grupo de homens, mulheres e crianças era levado pelas ruas sob a mira de armas. As prisões haviam começado horas antes, sob o manto da noite, quando a polícia e a SA invadiram as barracas e carroças das famílias ciganas Roma e Sinti e as arrancaram da cama. Estavam agora a caminho de um campo de detenção no subúrbio berlinense de Marzahn, onde ficariam longe das vistas dos estrangeiros que chegavam para os Jogos Olímpicos. Anos depois, seriam enviadas a campos de extermínio no Leste e assassinadas.

A remoção dos ciganos era apenas um capítulo do longo processo de transformação de Berlim em uma espécie de vasto estúdio de cinema – uma fábrica de ilusões onde o real era ocultado e o irreal virava realidade. As placas que proibiam a entrada de judeus em instalações públicas já haviam sido retiradas e guardadas para uso posterior. O jornal violentamente antissemita Der Stürmer – com suas grotescas caricaturas de judeus e seu lema “Os judeus são a nossa desgraça” – fora temporariamente retirado das bancas. Der Angriff, o mais importante veículo de propaganda de Joseph Goebbels, repassara aos berlinenses um detalhado roteiro de seu papel no espetáculo, orientando-os sobre como agir em relação aos judeus e como acolher os estrangeiros: “Devemos ser mais encantadores que os parisienses, mais descontraídos que os vienenses, mais cosmopolitas que os londrinos, mais práticos que os nova-iorquinos e mais animados que os romanos.”

Berlim deveria se tornar um lugar agradável aos estrangeiros e, em especial, um saudável parque de diversões para adultos. Haveria estrito controle dos preços dos produtos e serviços ofertados aos visitantes, das acomodações nos hotéis de luxo, como o Adlon, aos salsichões – bratwurst – servidos nas carrocinhas espalhadas pela cidade. Para embelezar o cenário, mais de 1.400 desabrigados – além dos ciganos – foram retirados das ruas. Centenas de prostitutas foram apreendidas, examinadas à força para detecção de doenças venéreas e liberadas para o exercício do negócio da satisfação carnal dos visitantes.

Os jornalistas estrangeiros, que transmitiriam ao resto do mundo suas impressões sobre a nova Alemanha, receberiam acomodações de primeira, instalações especiais, os melhores lugares para assistirem aos jogos e serviços secretariais gratuitos. No desagradável e delicado caso de algum deles querer entrevistar judeus alemães ou investigar “a questão judaica”, seria educadamente levado à agência mais próxima da Gestapo, questionado sobre suas intenções e, a partir daí, disfarçadamente observado.

Ao longo das ferrovias que davam acesso a Berlim, caiaram-se os edifícios em mau estado de conservação, alugaram-se a baixo preço os apartamentos vazios e foram colocados vasos repletos de gerânios vermelhos nas janelas de todos eles, inclusive os vazios. Quase todas essas residências exibiam uma bandeira vermelha, branca e preta com a suástica, muitas delas ao lado da bandeira olímpica. Algumas, de judeus, principalmente, só exibiam esta última. As estações ferroviárias estavam inundadas de suásticas. Na verdade, toda a Berlim estava coberta com esses símbolos. Na Unter den Linden, a ampla avenida central de Berlim, as centenas de tílias que deram nome à rua haviam sido substituídas por rígidas fileiras de mastros dos quais pendiam agora enormes bandeiras com suásticas, de mais de 13 metros de comprimento. Estandartes de igual comprimento adornavam o Portão de Brandemburgo. Na praça Adolf Hitler, anéis concêntricos de mastros com bandeiras olímpicas cercavam uma torre central de mais de 18 metros de altura engalanada com 20 bandeiras suásticas, formando um formidável cilindro vermelho no meio do gramado. Nas agradáveis e sombreadas ruas que conduziam à raia olímpica de Grünau, fios amarrados de árvore em árvore portavam fileiras de bandeiras menores com suásticas.

As ruas foram limpas, as vitrines, polidas e os trens, pintados. Janelas quebradas foram substituídas. Dezenas de limusines Mercedes novas foram colocadas à disposição dos VIPs no Estádio Olímpico. De motoristas de táxi a funcionários da limpeza urbana, todos os trabalhadores receberam novos uniformes. Publicações estrangeiras e livros proibidos que escaparam das fogueiras de 1933 reapareceram subitamente nas livrarias.

Berlim enfeitada para as Olimpíadas

Com todo o cenário montado, Leni Riefenstahl pôs-se a trabalhar na mobilização de dezenas de cinegrafistas e técnicos de som e na instalação de dezenas de câmeras. Mandou instalar 30 câmeras no Estádio Olímpico somente para a cerimônia de abertura. Criou recessos abaixo do nível do solo para tomadas de baixo para cima e torres de aço para tomadas de cima para baixo. Providenciou a instalação de trilhos ao longo da pista de atletismo para receber câmeras móveis e câmeras em cabines à prova d’água na piscina olímpica e no tanque de saltos ornamentais. Instalou-as também nas selas dos cavalos para os eventos equestres e nas plataformas flutuantes para os eventos de natação. Instalou câmeras em prédios estratégicos no centro de Berlim, em caminhões, dirigíveis e covas – estas últimas para capturar imagens ao nível do solo dos maratonistas e do revezamento da tocha olímpica em seu percurso pela cidade. Na raia olímpica de Grünau, mandou fazer um píer paralelo à seção final do percurso com trilhos para receber uma câmera móvel e, sobre a linha de chegada, instalou um balão antiaéreo cedido pela Luftwaffe para que se fizessem tomadas aéreas.

Todas essas câmeras estavam preparadas para filmar dos ângulos mais favoráveis – geralmente de baixo para cima – as grandes estrelas do espetáculo: Adolf Hitler e sua comitiva. Restava aguardar a chegada dos coadjuvantes.

Don Hume e Roger Morris acordaram enjoados na manhã seguinte. Ulbrickson estava bem, mas preocupado com Hume e Morris, os homens mais leves do barco, para os quais planejara adicionar algum peso durante a viagem.

Joe Rantz acordou cheio de disposição e foi direto ao tombadilho, onde se deparou com um frenesi de atividade física. Ginastas faziam exercícios nas barras paralelas e assimétricas e praticavam saltos acrobáticos sobre o cavalo tentando sincronizá-los com o movimento do navio. Robustos levantadores de peso tremiam dos pés à cabeça para erguer pesadas barras de ferro. Boxeadores executavam sua dança num ringue improvisado. Esgrimistas praticavam investidas. Velocistas faziam corridas leves cuidando para não torcer os tornozelos. Numa pequena piscina de água salgada, nadadores treinavam amarrados por cordas de borracha para não serem jogados no convés quando o navio era atingido por uma onda um pouco maior. Na popa, decatletas disparavam suas armas sobre a imensidão do oceano.

O café da manhã foi uma decepção. Os atletas só tinham à sua disposição um cardápio restrito, aparentemente concebido para passarinhos e timoneiros. Joe comeu tudo o que lhe foi servido e pediu mais. Em vão. Quase tão faminto quanto havia entrado, deixou o refeitório e foi se queixar com Ulbrickson.

No caminho, aproveitou para conhecer melhor o navio. Nos conveses inferiores descobriu um ginásio com aparelhos de ginástica, sala de jogos para crianças, barbeiro, manicure e salão de beleza. Descobriu também, na classe turística, um confortável salão com uma tela para o que na época ainda se chamava “cinema falado”. Tudo lhe pareceu fantástico, até se deparar com outro mundo no convés da primeira classe.

No navio para Berlim

Ali, as cabines eram amplas, revestidas com madeiras exóticas, e tinham penteadeiras, estofados, tapetes persas, telefones de cabeceira e banheiros privativos com chuveiro quente e frio. Depois de percorrer discretamente um labirinto de corredores atapetados, chegou a um sofisticado bar, depois a uma charutaria, seguida de um escritório e uma biblioteca com vigamento de madeira e revestimento em painéis de carvalho. Viu também um salão de fumar, com uma lareira da largura do aposento, decorado com murais e entalhes sugestivos de que o fumante estava num templo asteca. Conheceu o Veranda Café, com paredes cobertas de imagens de Veneza e uma grande pista de dança elíptica. Conheceu também o Salão Chinês, decorado com palmeiras vivas, teto de gesso branco trabalhado, colunas de mármore, delicados murais asiáticos pintados a mão e móveis Chippendale. Viu o salão de jantar da primeira classe, com palco para orquestra, iluminação indireta por trás de janelas reentrantes para criar a ilusão de luz do dia permanente e mesas redondas cobertas com toalhas finas, cada uma ladeada por uma luminária de bronze estilo Luís XVI, tudo sob uma cúpula pintada com cenas mitológicas como a Festa das Bacantes. Por fim, encontrou o Grande Salão, com palco e tela de cinema, mais tapetes persas, divãs e poltronas estofadas, pilastras de embuia, sancas esculpidas a mão, amplas janelas cobertas com cortinas de veludo e outra cúpula de gesso trabalhado.

Tanto quanto era possível para um varapau de quase 1,90 metro, Joe tentou passar despercebido. Tecnicamente, não poderia estar perambulando por ali. Os atletas deveriam se ater aos espaços da classe turística, salvo durante os treinamentos diurnos no tombadilho. Aquele era território exclusivo do tipo de pessoa que Joe vira no campo de golfe de Princeton e nos bem-cuidados gramados das mansões do Hudson. Mas ficou por ali, hipnotizado pelas visões de como vivia a outra metade da sociedade.

Ao retornar à cabine, encontrou à sua espera algo que o fez se sentir importante. Ainda em Nova York, todos haviam tirado medidas para a confecção de seus uniformes olímpicos. Pois lá estava agora, sobre a cama, um conjunto de paletó esportivo trespassado, de sarja azul, e calça também azul. O paletó trazia o escudo olímpico estampado no peito e botões metálicos gravados com escudos. Ao lado, uma calça de flanela branca, um chapéu de palha branco com uma fita azul, uma camisa imaculadamente branca, meias brancas orladas em vermelho, azul e branco, sapatos de couro branco e gravata-borboleta de listras azuis. Havia também um agasalho azul com um grande “USA” gravado no peito e um uniforme de remo – um calção branco e uma elegante camiseta branca com a bandeira americana no lado esquerdo do peito e fitas vermelhas, brancas e azuis ao redor do pescoço e descendo na parte da frente. Para quem havia passado um ano inteiro remando com o mesmo suéter surrado, aquilo era um fabuloso tesouro.

Ao erguer a camiseta para apreciá-la melhor, o tecido macio e sedoso brilhou na luz vespertina filtrada pela vigia. Como ainda não fora derrotado, nunca tivera que entregar sua camisa a um remador rival. E não era agora que isso iria acontecer. Este era um presente que iria levar para casa.

Continuar: parte 4 de 5