Meninos de Ouro
Quarta parte – 1936 – Tocando o Divino
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Nos dias que se seguiram, com Don Hume e Roger Morris já recuperados do enjoo, os rapazes voltaram a circular juntos pelo navio. Encontraram um remo mecânico no convés e resolveram experimentá-lo, posando para os fotógrafos. Al Ulbrickson posou com eles, mas encerrada a sessão foi logo mandando que os rapazes saíssem do aparelho, dizendo, como sempre, que a única maneira de desenvolver uma musculatura apropriada ao remo era remar num barco de verdade. Na saída, Roger Morris deu-lhe um sorriso por cima do ombro e disse: “Chefe, se você quer que a gente pratique num barco, mande abaixar o Clipper que nós vamos remando o resto do caminho.”
Quando Ulbrickson não estava por perto, eles corriam ao redor do convés, se exercitavam no ginásio e jogavam shuffleboard e pingue-pongue com outros atletas. A camaradagem lhes permitia chamar pelo primeiro nome alguns que já eram famosos ou logo viriam a ser, como Ralph Metcalfe, Jesse Owens e Glenn Cunningham. Johnny White saía à caça de garotas, mas voltava sempre insatisfeito com o resultado. À exceção de Don Hume, todos começaram a engordar.
Al Ulbrickson falou com o pessoal da cozinha e do Comitê Olímpico, para explicar que um cardápio adequado a ginastas de 13 anos não podia servir a remadores de um 1,90 metro. Guarnições de esqueletos não ganhariam medalhas. Com isso, as restrições do cardápio foram suspensas e os rapazes passaram a quase habitar o salão de refeições da classe turística. Livres para pedir o que quisessem quantas vezes quisessem, exceto sobremesas açucaradas ou alimentos excessivamente gordurosos, eles pediam seguidas porções de acompanhamentos, como fizeram no trem para Poughkeepsie. Eram os primeiros a se sentar e os últimos a se levantar. E ninguém, com a possível exceção de Louis Zamperini, o fundista de Torrance, Califórnia, comia mais do que Joe Rantz. Stub McMillin bem que tentou. Certa manhã, ele foi ao salão antes do resto da guarnição, pediu duas pilhas de panquecas bem grossas e besuntou-as com manteiga e calda. Estava a ponto de devorá-las quando Al Ulbrickson entrou no salão, sentou-se à sua frente, puxou o prato e disse: “Muito obrigado, Jim, por pedi-las para mim.” E comeu, bem devagar, as duas pilhas de panquecas enquanto McMillan o observava por sobre um prato de torradas.
Após o jantar, as noites eram dedicadas a diversões mais formais: shows de variedades, gincanas, jogos de salão, bingos, torneios de damas e xadrez e jogos de cassino em que se apostava dinheiro falso. Havia “filmes falados” para os atletas na classe turística e para a primeira classe no Grande Salão. Os rapazes de Washington, que não estavam nem aí para essa questão de classes, logo descobriram que quando cinco ou seis robustos remadores, representantes do desporto olímpico dos Estados Unidos, se acomodavam no Grande Salão, ninguém se dispunha a contrariá-los. Passaram, então a assistir aos filmes nos conveses superiores, não sem antes passar no Grande Salão para pegar travessas de petiscos variados e levá-los para as sessões.
Logo ficou claro, porém, que havia limites que não se podiam transgredir. Eleanor Holm, 22 anos, bonita, casada e coadjuvante em alguns filmes da Warner Brothers, era uma celebridade menor conhecida por ter cantado “I’m An Old Cowhand” num cabaré vestindo apenas um chapéu branco de vaqueiro, maiô branco e sapatos de salto alto. Era também excelente nadadora, medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1932. Agora despontava como favorita absoluta da prova de 100 metros, nado de costas, em Berlim. No segundo dia de viagem, um grupo de jornalistas convidou-a ao convés da primeira classe para uma festinha noturna regada a champanhe e caviar durante a qual ela cativou, dentre outros, William Randolph Hearst Jr. Por volta de 6 horas, ela teve que ser levada, completamente bêbada, à sua cabine na classe turística. Mais tarde, já sóbria, foi chamada à presença de Avery Brundage, que deu-lhe uma bronca e ameaçou excluí-la da equipe se continuasse a beber. Dito e feito. Algumas noites depois, ela esteve em outra noitada com os jornalistas beberrões, mas, desta vez, foi flagrada pela acompanhante da equipe de natação, Ada Sackett.
De manhã, Sackett foi à cabine de Eleanor com o médico do navio, que diagnosticou-a como alcoólatra. Logo foi a vez Dee Boeckmann, treinadora da equipe feminina de natação, aparecer com várias companheiras de Eleanor para lhes mostrar o estado lamentável em que ela se encontrava e alertá-las para os efeitos nocivos do álcool. Mais tarde naquele dia, Avery Brundage excluiu Eleanor da equipe olímpica dos Estados Unidos.
Eleanor ficou arrasada e muitos de seus colegas, indignados. Alguns achavam que a situação fora deliberadamente criada pelos jornalistas para dar notícia, outros que ela fora excluída não tanto por beber quanto por desafiar Avery Brundage. Embora o manual do atleta proibisse o álcool, Brundage lhes dissera, numa reunião com toda a equipe americana logo após a partida de Nova York, que “comer, fumar e beber” eram questões de foro íntimo. E, com efeito, Brundage escreveu mais tarde que Eleanor foi excluída por “insubordinação”. Cientes de que a bebida rolava solta nos conveses inferiores, mais de 200 atletas fizeram um abaixo-assinado pedindo a reinclusão da nadadora. Na verdade, enquanto Eleanor e os jornalistas se divertiam na primeira classe, Chuck Day e alguns de seus companheiros curtiam suas noitadas na classe turística com coquetéis de leite, Ovomaltine e álcool. Para Brundage, porém, a disciplina era sagrada.
O caso de Eleanor Holm, como previsto por alguns jornalistas, causou comoção nos Estados Unidos e, no longo prazo, operou maravilhas em sua carreira. Na esteira da Lei Seca, com muitos americanos já fartos de ouvir discursos sobre os perigos da “água do diabo”, a cobertura da imprensa foi amplamente favorável a Eleanor. Alan Gould, da Associated Press, logo a contratou para cobrir os Jogos Olímpicos de Berlim como repórter, embora seus artigos fossem, na verdade, escritos por outros jornalistas. Em poucos anos ela conseguiria papéis em filmes importantes e seria capa da revista Time. O caso foi notícia também na Europa. Na Alemanha, Joseph Goebbels se colocou decididamente favorável ao ponto de vista de Brundage. “O importante não era ela. Eram os outros. Era a disciplina. Pela disciplina, nenhum sacrifício é excessivo, doa a quem doer”, dizia uma declaração do Ministério da Propaganda.
Na noite de 21 de julho, os rapazes viram luzes de faróis na costa da Irlanda. Às 3 horas o Manhattan fundeou no pequeno porto de Cobh, depois foi a Plymouth contornando a costa da Cornualha e, em seguida, cruzou o canal até Le Havre, aonde chegou no início da manhã de 22 de julho. Sem permissão para deixar o navio, os rapazes passaram grande parte do dia nas amuradas observando o trabalho dos estivadores franceses. Nesse primeiro contato com a Europa, sua atenção foi atraída por pequenos detalhes – edifícios antigos em ruínas, mulheres de bicicleta levando pães do tamanho do próprio braço, rapazes de boinas elegantes e trabalhadores portuários interrompendo periodicamente o serviço para uma caneca de vinho sem nenhuma pressa aparente de concluir suas tarefas.
A equipe olímpica dos Estados Unidos chega a Berlim
Naquela mesma noite subiram o canal da Mancha com o brilho das luzes de Calais a leste. No fim da tarde do dia 23, chegaram finalmente à Alemanha. Em Cuxhaven, uma lancha com bandeiras nazistas parou ao lado do navio para recolher repórteres e fotógrafos alemães embarcados em Le Havre. Ao anoitecer o Manhattan começou a subir o rio Elba rumo a Hamburgo. Nervosos e aflitos para sair do barco, os rapazes de Washington, como todos os demais, afluíram ao convés. À exceção de Don Hume, que parecia novamente às voltas com um resfriado, todos haviam engordado pelo menos uns dois quilos e começavam a se sentir flácidos e nada atléticos. Estavam loucos para esticar as pernas e os braços e entrar num barco de corrida. E queriam também dar uma olhada naquele Estado nazista.
Ficaram supresos com o que viram. Muitos anos depois, quase todos se lembravam da jornada daquela noite rio acima como um dos pontos altos da viagem. A tripulação do Manhattan apontara os holofotes para a enorme bandeira branca olímpica do mastro da popa, para a bandeira dos Estados Unidos do mastro da proa e para as chaminés vermelho-azul-e-brancas do navio. Uma multidão de alemães acorreram aos embarcadouros e diques ao longo do rio para vê-los passar, acenando, aplaudindo e berrando palavras num inglês quase incompreensível. Os rapazes responderam com acenos e gritos. O transatlântico cruzou com navios menores e embarcações de lazer com suásticas tremulando na popa, que os saudaram, quase todos, piscando os faróis e soando seus apitos e buzinas. Passaram por tavernas à beira-rio iluminadas por gambiarras, cheias de gente cantando, dançando e saudando-os com canecos de cerveja. No terraço, os passageiros da primeira classe bebiam champanhe e cantavam também. Todo mundo começava a gostar de estar na Alemanha.
Na manhã seguinte, em Hamburgo, os rapazes acordaram às 5 horas para descarregar o Husky Clipper sob uma chuva torrencial. Em seus trajes olímpicos formais, manobraram o barco de um convés a outro evitando os guindastes e cabos de barcos salva-vidas. George Pocock e Al Ulbrickson os acompanharam, aflitos. Estivadores alemães tentaram ajudar, mas Pocock, temendo que eles pusessem as mãos e os pés nas partes delicadas do barco, os dispensou fazendo uso da quase totalidade de seu vocabulário em alemão: “Nein! Não, obrigado! Danke!” Retirado o barco, os rapazes retornaram ao convés do Manhattan com os paletós suados e os chapéus de palha quase deformados para aguardar o desembarque formal.
Ao sair do navio uma hora depois, junto com toda a delegação, tiveram que atravessar um galpão cheio de barris e caixotes para chegar ao espaçoso salão de recepção, onde foram saudados por centenas de pessoas e uma bandinha. Sorrindo e acenando, embarcaram num ônibus que os levou por um labirinto de ruas estreitas ao Rathaus – a antiga prefeitura – da cidade de Hamburgo. Lá, o prefeito, Bürgermeister, um nazista convicto que atendia pelo nome de Carl Vincent Krogmann, fez um longo discurso de boas-vindas em alemão. Sem entender uma única palavra, os rapazes “sentaram e esperaram”, como disse mais tarde Shorty Hunt. Só se animaram quando os funcionários da prefeitura lhes ofereceram charutos, vinho, cerveja e suco de laranja.
Ao meio-dia a delegação já estava no trem para Berlim. Ao chegar, horas depois, à suntuosa estação ferroviária de Lehrter, ao norte do Tiergarten, todos ficaram surpresos com a recepção que os aguardava. Ao descerem do trem e se perfilarem, deram com outra banda de música e mais marchinhas. Avery Brundage e o duque Adolf Friedrich Albrecht Heinrich de Mecklenburg se beijaram no rosto. Em seguida, os atletas caminharam pela plataforma passando por uma locomotiva negra com suásticas estampadas em ambos os lados. Milhares de alemães lotavam a área de recepção na expectativa de vê-los. Shorty Hunt ficou surpreso com a cena: “Era como se fôssemos atrações de um circo de horrores – apontavam para nós boquiabertos dizendo algo como zwei meter, querendo dizer, é claro, que tínhamos 2 metros de altura.” Rapazes vestidos de branco nos conduziram em meio à multidão aos ônibus militares, abertos, com bandeiras dos Estados Unidos desfraldadas.
O cortejo passou pelo Reichstag, cruzou o Portão de Brandemburgo e seguiu a leste pela Unter den Linden. Dezenas de milhares de alemães – cerca de 100 mil segundo algumas estimativas – os aplaudiam acenando bandeiras olímpicas, nazistas e, ocasionalmente, americanas, gritando saudações em inglês e alemão. Com o teto do ônibus recolhido, os rapazes de Washington apareciam da cintura para cima respondendo entusiasticamente aos acenos, embora mudos de espanto com a manifesta receptividade dos berlinenses. Na Rotes Rathaus – a prefeitura –, Avery Brundage recebeu a chave da cidade e fez um breve discurso. Depois da longa batalha contra o boicote, Brundage mostrava-se claramente emocionado por estar ali. Exultante com os aplausos de seus anfitriões alemães, ele declarou: “Desde a Grécia antiga nenhum país expressou com tanta autenticidade o espírito olímpico como a Alemanha vem fazendo.”
Enquanto Brundage discursava, Joe e seus companheiros observavam cautelosamente o grande contingente de austeros dignitários alemães perfilados atrás deles. Exaustos depois de um dia inteiro iniciado no Manhattan às 5 horas, não queriam ouvir mais nenhum discurso incompreensível. Para alívio geral, quando Brundage acabou de falar, foram todos conduzidos para a rua, onde uma chuva leve ajudara a dispersar a multidão. Enquanto a maior parte da delegação embarcava nos ônibus que a levariam à nova vila olímpica de Charlottenburg, a equipe de remo era dividida em dois veículos com destino a Köpenick, uma vila a sudoeste de Berlim.
Nesse mesmo dia, nos Estados Unidos, um nova-iorquino chamado Richard Wingate escreveu ao editor de esportes do The New York Times uma carta profética: “O Sr. Brundage”, disse, “chegou a seu destino, a Utopia do espírito esportivo e da boa vontade, onde cerveja nazista e sangue judeu fluem em abundância – onde robôs hitlerianos atormentam e perseguem os mortos-vivos (...). Durante dois meses, os mortos estarão sepultados. Em setembro, porém, encerrados os Jogos Olímpicos, seus túmulos serão profanados (...) e os mortos voltarão a circular pelas ruas da Alemanha.”
No fim da tarde os rapazes chegaram àquela que seria sua casa durante as semanas seguintes, uma academia de cadetes da polícia na vila suburbana de Köpenick, a poucos quilômetros da raia olímpica de Grünau. O edifício – todo de concreto, aço e vidro – era novo em folha e de design tão moderno que hoje se poderia dizer que fora construído na década de 1970 ou 1980, não na de 1930. A maioria dos cadetes que normalmente o habitavam havia sido transferida para dar lugar aos remadores dos Estados Unidos e de vários outros países. A única coisa que deixaram para trás foi um estábulo no térreo, repleto de cavalos da polícia. O lugar era limpo, bem iluminado e eficiente, porém inapelavelmente frio e sem chuveiros quentes – uma desagradável lembrança da velha garagem de Poughkeepsie.
Depois de conhecer o refeitório, onde generosas porções de comida ao estilo americano eram servidas pela empresa North German Lloyd, a maior parte dos rapazes foi se esticar em seus beliches para ler ou pôr em dia a correspondência com a família. Joe preferiu dar um passeio pelas redondezas e logo se sentiu como que dentro de um conto de fadas. Köpenick pareceu-lhe uma cidade medieval, embora boa parte do que viu fosse, na verdade, do século XVIII. Nas estreitas ruas calçadas de pedra viu padarias, queijarias e açougues, cada uma com seu letreiro pintado ou gravado a mão em caracteres góticos – Bäckerei, Käserei, Fleischerei. Passou pelo Rathaus da cidade com sua torre do relógio, suas torres laterais e seus arcos góticos. Do rathskeller, no subsolo do edifício, saíam música, risos e um doce aroma de cerveja alemã. Na rua Freiheit, Joe viu uma antiga sinagoga com uma resplandecente estrela de davi sobre o telhado pontiagudo. Depois de cruzar uma ponte sobre um fosso, no extremo sul da cidade, chegou a um castelo construído por um príncipe da Prússia em 1690. Atrás dele havia um belo jardim. De lá, sentado num banco, avistou uma grande extensão do lago Langer na direção da raia olímpica de Grünau, onde, em pouco mais de duas semanas, suas esperanças seriam confirmadas ou destruídas. O sol já quase se pusera, o céu clareara e o lago, estendido à sua frente como uma laje polida, refletia os últimos raios de luz da tarde. Uma das paisagens mais serenas que já vira em sua vida.
Joe não fazia a ideia do terrível segredo que Köpenick e suas águas plácidas escondiam.
Os rapazes acordaram cedo na manhã seguinte, loucos para remar. Depois do café da manhã, um ônibus do exército alemão os levou até a raia olímpica de Grünau, cinco quilômetros rio acima, onde souberam que iriam compartilhar uma garagem de alvenaria recém-construída com a equipe de remo alemã. Na entrada, uma bandeira americana e uma bandeira nazista pendiam lado a lado. Os alemães foram corteses, mas os saudaram sem grande entusiasmo. George Pocock os achou um pouco arrogantes. Oriunda do Clube de Remo Viking, de Berlim, a guarnição parecia, em média, um pouco mais velha que a do Husky Clipper. Eram remadores excepcionalmente preparados e disciplinados, de porte quase militar, e dispunham de excelente equipamento. Ao contrário de todas as outras guarnições alemãs em Grünau naquele verão, esta não fora selecionada pelo Estado nazista, mas emergira como equipe nacional por força de sua notória perícia como unidade. George Pocock e Al Ulbrickson tinham, no entanto, sérias suspeitas de que seu treinamento era pesadamente subsidiado pelo governo nazista.
Deu-se, então, um desagradável contratempo. Quando se preparavam para levar o Husky Clipper pela primeira vez ao lago Langer, um fotógrafo que se enfiara debaixo dele para tirar uma foto levantou-se abruptamente e bateu com a cabeça, fazendo uma longa rachadura no casco. O Husky estaria fora de serviço até ser reparado por George Pocock. Frustrado, Al Ulbrickson os liberou até Pocock operar sua magia. De volta à academia de polícia, os entediados rapazes dedicaram-se a alimentar os cavalos com torrões de açúcar roubados da cozinha e a passear por Köpenick mesmo debaixo de chuva. A todo lugar que iam, atraíam multidões de moradores curiosos.
Reparado o barco, os rapazes o levaram imediatamente para a água. O resultado, no entanto, foi espetacularmente decepcionante. Seu ritmo se perdera e a puxada estava fraca e ineficiente. As equipes canadense e australiana, praticando sprints, passavam voando por eles com sorrisos debochados no rosto. “Estivemos péssimos”, escreveu Johnny White em seu diário naquela noite. Al Ulbrickson concordou. Nunca os vira remar tão mal desde a primeira vez que os escalara juntos, em março daquele ano. Havia muito trabalho a fazer e, para a maioria deles, muito peso para perder. Não bastasse, estavam quase todos ainda às voltas com resfriados e o de Don Hume parecia ter se instalado em seu peito a ponto de se tornar motivo de preocupação. Para culminar, chovia o tempo todo, um vento frio soprava continuamente no lago Langer e o quartel da polícia era frio e exposto a correntes de ar.
Nos dias que se seguiram, a rotina dos rapazes foi remar mal na parte da manhã e se divertir à tarde em Berlim. Seus passaportes olímpicos lhes davam livre acesso a quase tudo na cidade – do túmulo do soldado desconhecido da Primeira Guerra Mundial a espetáculos de variedades e óperas ligeiras. Ficaram impressionados com a imensidão e a modernidade do complexo olímpico. Foram de metrô ao centro da cidade, onde todos, salvo Joe, que não tinha os 22 dólares necessários, compraram ou encomendaram câmeras Kodak Retina. Passearam de um lado para outro na Unter den Linden, cujas calçadas transbordavam de turistas estrangeiros e de alemães recém-chegados – mais de um milhão, dizia-se. Comeram bratwurst nas carrocinhas de ambulantes, flertaram com garotas alemãs e se embasbacaram com camisas-negras da SS em elegantes limusines Mercedes. Vez por outra um cidadão comum os saudava estendendo a mão direita com a palma virada para baixo e bradando: “Heil Hitler!” Eles respondiam, também estendendo a mão: “Heil Roosevelt!” De modo geral, os alemães fingiam não notar.
Retornavam, mais tarde, a Köpenick, cujas autoridades pareciam empenhadas em lhes proporcionar entretenimento noturno, quer eles quisessem quer não. Uma noite foi uma exibição de cães policiais treinados no castelo. Outra, um concerto. “Péssima orquestra. Totalmente desafinada”, resmungou Roger Morris em seu diário. Johnny White concordou, empregando aquela que vinha se tornando a sua palavra de desagrado favorita: “Baixaria.” Em todo lugar aonde iam as pessoas os cercavam para pedir autógrafos, como se fossem astros de cinema. No começo foi divertido, mas logo se tornou cansativo. Acabou que, para ter paz e silêncio, os rapazes resolveram alugar barcos para remar à noite, na chuva, ao redor do castelo, fazendo companhia aos cisnes brancos do lugar.
Não que não gostassem de chamar a atenção. Em 27 de julho eles bem que se divertiram treinando em Grünau com os cocares da ilha Huckleberry. O resultado foi o que Johnny White chamou de “um pequeno tumulto” de fãs aglomerados ao seu redor para ver o que fingiam acreditar serem membros de alguma tribo de brancos do Noroeste. Fizeram-no pela brincadeira, antes de tudo, mas também para levantar o baixo moral reinante na garagem.
Da esquerda para a direita: Joe Rantz, Stub McMillin, Bobby Moch, Chuck
Day, Shorty Hunt
O barco ainda não andava tão bem quanto deveria. Embora a maioria dos rapazes viesse se recuperando de seus resfriados, Gordy Adam e Don Hume continuavam doentes. Em 29 de julho, Hume não pôde nem sair da cama. Ulbrickson escalou, então, Don Coy, um dos dois reservas que trouxera à Olimpíada, na posição crítica de voga, mas os rapazes estavam tão familiarizados com a remada de Coy quanto ele próprio com a posição. O barco não pareceu nada bom.
Ulbrickson começou a ficar preocupado. As equipes de outros países chegavam a Grünau, e ele e Pocock passavam a maior parte do tempo fora da água apenas estudando os adversários. Depois de constatar a disciplina dos alemães, começaram a levá-los muito a sério. Os italianos – quatro deles veteranos da guarnição de Livorno que chegara dois décimos de segundo atrás da Califórnia na Olimpíada de 1932 – também pareciam uma ameaça. Eram trabalhadores jovens, grandes e durões, bem mais velhos do que seus pupilos, com idade média de 28 anos. Alguns já passavam dos 30, mas aparentavam ótimo condicionamento físico. Remavam com garra, embora tendendo a atirar as cabeças dramaticamente para a frente e para trás a cada puxada. Ulbrickson achava que eles, tal como os alemães, eram subsidiados pelo governo fascista que os enviara aos Jogos. Não estava, por outro lado, preocupado com a equipe japonesa, da Universidade Imperial de Tóquio, que usava um barco bem mais curto – cerca de 16 metros de comprimento, com remos também curtos e pás pequenas, projetados para acomodar atletas de compleição física muito menor. Cada remador pesava em média 65,7 quilos. No entanto, todos se surpreenderam quando, em seu primeiro dia em Grünau, eles demonstraram a singular vantagem de sua menor envergadura aumentando a cadência de 27 para 56 remadas por minuto em apenas 15 segundos. Aceleravam tão rápido e fazendo tanta espuma que Ulbrickson os comparou a “patos tentando alçar voo da água”. A guarnição australiana era inteiramente formada por policiais grandes e musculosos de Nova Gales do Sul. Embora sua técnica não fosse lá essas coisas, eles tinham fogo no abdome um tanto avantajado, além de uma boa dose de orgulho australiano – principalmente em relação à guarnição britânica.
No início do mês, os australianos tinham ido à Inglaterra disputar a mais prestigiosa e tradicional de todas as regatas de remo, a Grand Challenge Cup, da Henley Royal Regatta. Em Henley, porém, foram educada mas terminantemente informados de que as regras da regata, em vigor desde 1879, proibiam a participação de “técnicos, artesãos e trabalhadores braçais, fossem autônomos ou assalariados”. Policiais, ao que parece, eram considerados “braçais” e por isso não poderiam, infelizmente, participar da regata. Achava-se que homens que trabalhavam para se sustentar teriam uma injusta vantagem sobre jovens de “ocupações sedentárias”. Furiosos, os australianos deixaram a Grã-Bretanha e foram para Berlim determinados a derrotar, a qualquer preço, o que chamavam de “os malditos ingleses”.
Apesar de tudo, os britânicos eram, aos olhos de muitos – inclusive Al Ulbrickson e George Pocock –, a guarnição a ser batida em Berlim. Afinal, o remo era um esporte britânico por excelência e o oito olímpico provinha do venerável Leander Club. Seus remadores e timoneiro eram a nata do remo britânico, cuidadosamente selecionados entre os melhores de Oxford e Cambridge, onde, a despeito de se usar terno e gravata para ir às aulas, de se circular pela garagem com gravata de seda e de se entrar no barco de short branco, meias até o joelho e cachecol, remava-se como quem nasceu para fazer apenas isso.
Ulbrickson mal podia esperar para vê-los mais de perto. Os australianos também.
o
No dia 1 de agosto, lá pelo meio da tarde, fazia duas horas que Joe e todos os demais integrantes da equipe olímpica americana aguardavam, rigidamente enfileirados no imenso gramado do complexo olímpico, a chegada de Adolf Hitler e o correspondente início da mais espetacular cerimônia pública que o mundo já vira – a abertura da XI Olimpíada. Nada que tivesse a escala do que estava planejado para aquele dia fora realizado antes, embora, como escrevera Albion Ross no The New York Times alguns dias antes, nenhuma Olimpíada anterior tivesse sido orquestrada “por um regime político que deve seu triunfo a uma nova percepção das possibilidades da propaganda, da publicidade e da pompa. As Olimpíadas do passado foram coisa de amadores. Aqui, o trabalho foi feito por profissionais – pelos profissionais mais talentosos, engenhosos e bem-sucedidos de toda a História”.
Uma chuva fina e intermitente caía sobre os chapéus dos rapazes desde a chegada, mas agora as nuvens estavam começando a ir embora e eles, assim como o restante da delegação dos Estados Unidos, começavam a sentir desconforto com seus paletós, gravatas e calças de flanela. Ao longe, o Hindenburg, arrastando uma bandeira olímpica, fazia uma preguiçosa volta sobre o centro de Berlim e começava a se aproximar do estádio. Jovens alemãs uniformizadas caminhavam sorrindo entre as fileiras de atletas, distribuindo biscoitos e laranjada para que ninguém desanimasse. Mesmo assim, os americanos estavam cansados de esperar em pé.
Enquanto os atletas de outros países mantinham-se mais ou menos em posição de sentido, os americanos começaram a circular, a xeretar – a parte de baixo das peças de artilharia pesada dispostas bem à sua frente, as ciclópicas esculturas de pedra na entrada do estádio – e a se deitar na grama úmida com os chapéus de palha sobre o rosto. Ao enveredar por um caminho que dava na torre do sino, Joe e seus companheiros de guarnição se depararam com um destacamento da guarda de honra de Hitler marchando a passo de ganso, de um lado para outro no chão de pedra, com um entusiasmo de levantar poeira sob os cravos dos coturnos. Até os cavalos, observou Shorty Hunt, marchavam a passo de ganso.
Dentro do estádio, Leni Riefenstahl e Joseph Goebbels trocavam berros. Leni estava lá desde as 6 horas cuidando das cerca de 30 câmeras e dos 60 cinegrafistas que trouxera ao estádio, ajustando o equipamento de som, pedindo aos funcionários do COI – ora ameaçadora, ora suplicante – que a deixassem colocar seus equipamentos onde melhor lhe conviesse, mandando as equipes dos cinejornais saírem do seu caminho e buscando com insistência ou tomando com brutalidade as melhores posições para filmar os acontecimentos do dia. A melhor delas era o guarda-corpo da plataforma de onde os representantes nazistas presidiriam a cerimônia. Nessa estreita faixa de concreto, ela pusera uma câmera. A plataforma estaria tão apinhada de gente dos altos escalões do partido que Leni fora obrigada a colocar seu cinegrafista atrás do guarda-corpo, amarrado a um cabo por razões de segurança. Era um arranjo estranho, mas que lhe permitiria atingir seu grande objetivo, a tomada perfeita – neste caso, um close da máxima encarnação do Estado nazista, o próprio Adolf Hitler, dirigindo-se às massas ali reunidas para saudá-lo.
No entanto, no início da tarde Leni Riefenstahl vira oficiais da SS retirando sua câmera e seu cinegrafista do guarda-corpo. Ao perguntar, enfurecida, o que estavam fazendo, foi informada de que eram ordens de Goebbels. Indignada, ela disse aos agentes, aos gritos, que ninguém menos que o próprio Hitler a autorizara a instalar a câmera naquele lugar. Aproveitando-se da momentânea hesitação do pessoal da SS, Leni passsou por cima do guarda-corpo, amarrou-se à câmera e disse que ficaria ali até o início dos Jogos. Os membros do alto escalão que começavam a tomar seus lugares ao redor do pódio olhavam, intrigados, para Leni, obstinadamente agarrada à beirada da plataforma e, segundo seu próprio relato, tremendo de raiva e com lágrimas nos olhos.
Finalmente, Goebbels chegou.
– Você está louca? – gritou. – Não pode ficar aí. Está destruindo o cerimonial. Pegue suas câmeras e saia imediatamente!
Ao que Leni replicou:
– Eu pedi, e recebi, a permissão do Führer já faz tempo.
– Por que não mandou fazer uma torre ao lado da tribuna? – berrou Goebbels.
– Porque não me deixaram! – retrucou Leni.
Goebbels ficou “roxo de raiva”, disse ela muitos anos depois. Mas não estava disposta a deixar o local. Nada, nem mesmo o superpoderoso ministro da Propaganda, iria atrapalhar sua filmagem.
Nesse momento, o imponente Hermann Göring subiu à plataforma vestido num formidável traje militar todo branco. Ao vê-lo, Goebbels começou a gritar ainda mais alto com Leni Riefenstahl. Göring ergueu a mão abruptamente e Goebbels se calou. Virando-se para Leni, ele disse, baixinho: “Venha cá, garota. Aqui tem lugar até para a minha barriga.” Leni passou novamente sobre o guarda-corpo e a câmera permaneceu no local.
Goebbels quase explodiu de ódio, mas não disse uma palavra. Sua guerra particular com Leni Riefenstahl – em última análise, e ironicamente, uma guerra por um objetivo comum, glorificar os ideais nazistas – estendeu-se pelo restante dos Jogos e muito além. Dias depois ele escreveria em seu diário: “Repreendi Riefenstahl, que vem se comportando pessimamente. É uma histérica. Muito diferente de um homem!”
Às 15h18, Adolf Hitler deixou a Chancelaria no centro de Berlim na sua limusine Mercedes, todo empertigado e com o braço direito erguido em saudação. Milhares de membros da Juventude Hitlerista e das tropas de assalto, além de policiais militares com capacetes, se perfilavam em sua rota, do Portão de Brandemburgo ao Reichssportfeld, passando pelo Tiergarten. Centenas de milhares o saudaram agitando bandeiras das janelas ou aglomerados nas ruas em múltiplas fileiras de até 12 pessoas – algumas também munidas de periscópios. À passagem da limusine, as pessoas estendiam o braço direito com o rosto virado para cima gritando em coro, em extasiada pulsação: “Heil! Heil! Heil!”
No Maifeld, já era audível o rugido ainda distante, mas cada vez mais intenso e próximo, da multidão delirante. Quando, minutos depois, os alto-falantes anunciaram: “Ele está chegando! Ele está chegando!”, os rapazes de Washington retornaram à precária formação da delegação americana. Às 15h30, funcionários do Comitê Olímpico Internacional, usando cartolas e paletós com longas caudas, adentraram o Maifeld e se perfilaram em fila dupla. Às 15h50 Hitler chegou à torre do sino. Passou em revista a guarda de honra e caminhou até o campo. Por alguns instantes, foi apenas um minúsculo personagem de uniforme cáqui e botas pretas de cano alto, sozinho num imenso gramado. Cruzou as fileiras de funcionários e foi ver os atletas, separados por um cordão de isolamento. A maior parte mantinha suas formações, mas não os americanos, que acorreram em bom número até o cordão para ver Hitler mais de perto. Sentados no gramado, os rapazes de Washington apenas acenaram à sua passagem.
Pontualmente às 16 horas, Hitler chegou ao portão oeste do estádio. Uma imensa orquestra – fusão da Filarmônica de Berlim com a Orquestra Nacional e meia dúzia de bandas militares – tocou a “Huldigungsmarsch”, a Marcha da Homenagem, de Wagner. Ao verem Hitler descer os degraus da maratona até o nível da pista, 110 mil pessoas se levantaram, estenderam a mão direita e começaram a entoar, ritmicamente, “Sieg Heil! Sieg Heil! Sieg Heil!”.
Ladeado por oficiais nazistas em uniformes cinza e guiado por membros do Comitê Olímpico, Hitler caminhou pela pista de barro vermelho sob o coro de “Heils” a ecoar por todo o estádio. Uma menina de 5 anos, Gudrun Diem, de vestido azul claro e grinalda no cabelo, deu um passo à frente, disse “Heil, mein Führer!” e presenteou-lhe com um delicado buquê de flores. Hitler sorriu para ela, pegou as flores e subiu os degraus que levavam à sua plataforma panorâmica. Lá chegando, dirigiu-se ao seu lugar de honra e mirou a multidão enquanto a superorquestra conduzida por Richard Strauss começava a tocar o “Deutschlandlied”, cujo refrão é “Deutschland Über Alles”, seguido do hino do Partido Nazista, o “Horst-Wessel-Lied”.
Dissipados os últimos acordes estridentes do hino do Partido, fez-se um momento de silêncio. Então, o enorme sino contíguo ao Maifeld começou a tocar, lenta e suavemente a princípio, depois cada vez mais alto até os atletas começarem a adentrar o estádio tendo à frente, como de praxe, a delegação grega. Cada delegação que passava diante de Hitler abaixava e levantava sua bandeira. A maioria prestou-lhe também algum tipo de saudação. Algumas fizeram a saudação olímpica, que guardava uma infeliz semelhança com a nazista – braço direito estendido com palma da mão virada para baixo, porém ao lado do corpo, não à frente –, outras fizeram a própria saudação nazista. Muitas, como a francesa, fizeram saudações que não eram bem uma coisa nem outra. Houve até quem não fizesse saudação alguma. Em resposta a cada uma, a multidão reagia aplaudindo com maior ou menor entusiasmo dependendo de quão parecido era o gesto com a saudação nazista.
No Maifeld, os americanos se reuniram, finalmente, em colunas, os rapazes endireitaram as gravatas, as moças alisaram as saias, ajustaram os chapéus, e começaram a caminhar em direção ao túnel pelo qual adentrariam o estádio. Marchar não era o seu forte, menos ainda se comparados aos alemães. Porém, ao entrarem no túnel ouvindo o coro de “Heils” que vinha de dentro do estádio, eles estufaram o peito, pegaram o ritmo e começaram a cantar, espontaneamente, uma canção popular americana do início do século:
Hail, hail, nossa turma chegou
Ninguém está nem aí
Ninguém está nem aí
Hail, hail, a alegria voltou
Ninguém está nem aí (...).
Liderados pelo ginasta Alfred Joachim, porta-bandeira da delegação, eles saíram cantando da escuridão do túnel para o vasto interior do estádio, um mundo de imagens e sons que poucos iriam esquecer mesmo depois de velhos. Ao som de uma marchinha ligeira tocada pela orquestra, entraram na pista em fileiras de oito. Ao passar por Hitler, viraram as cabeças para a direita, olharam para ele sem emoção, tiraram os chapéus, colocaram-nos sobre seus corações e foram adiante enquanto Joachim mantinha a bandeira americana erguida de maneira desafiadora. A maior parte da multidão os aplaudiu educadamente. Misturados, porém, aos aplausos, ouviram-se assobios e pés batendo no chão, o equivalente europeu de vaias.
Os sons da dissidência foram, porém, rapidamente abafados. Nem bem os últimos membros da delegação americana haviam passado por Hitler, a delegação alemã começou a despontar na boca do túnel toda de branco com quepes de marinheiro. Um forte bramido se ergueu da multidão. A quase totalidade dos 110 mil espectadores levantou-se novamente e ergueu o braço direito em saudação. Subitamente, a orquestra interrompeu a marchinha e atacou uma vez mais de “Deutschlandlied”. A multidão, congelada na posição de saudação nazista, cantou junto com vigor. Os olhos de Hitler brilharam. Quando o porta-bandeira alemão passou à sua frente com a suástica, ele, sob o foco das câmeras de Leni Riefenstahl, o saudou tocando o coração com a mão direita. Enquanto isso, os americanos marchavam atabalhoadamente pela pista. George Pocock disse mais tarde que, ao ouvir os primeiros acordes do hino alemão, eles começaram a marchar fora de passo de propósito.
Com todos os atletas enfileirados no campo, Theodor Lewald, presidente do Comitê Organizador alemão, subiu à tribuna e deu início a um discurso interminável, a ponto de um locutor de rádio britânico, para manter o público entretido, dizer aos seus ouvintes: “Herr Hitler discursará em alguns instantes (...). Começam os aplausos. O Dr. Lewald parece ter concluído. Não, não, ele continua.” Com a voz de Lewald ao fundo, o locutor se esforçava para preencher a transmissão descrevendo os uniformes das delegações, a tribuna de onde os oradores falavam e o Hindenburg pairando no céu como uma lua bem próxima.
Quando Lewald finalmente concluiu, Hitler, que estivera nesse meio-tempo conversando com Leni Riefenstahl, aproximou-se do microfone e declarou os Jogos abertos com uma frase sucinta. O locutor britânico, pego de surpresa, entrou no ar entre excitado e aliviado: “Este foi Herr Hitler! Estão abertos os Jogos Olímpicos!”
A cerimônia cresceu em grandiosidade. Uma fanfarra de trombetas soou no Portão da Maratona. Richard Strauss regeu a grande orquestra na primeira audição de seu “Hino Olímpico” enquanto a bandeira olímpica era hasteada. Ao troar de canhões de artilharia, milhares de pombos brancos saíram em revoada por toda a área do estádio. Outra fanfarra anunciou a aparição, no portão leste, de um jovem vestido de branco, louro e esbelto, portando uma tocha. Com todo o estádio em silêncio, ele desceu a escadaria, correu pela pista, galgou os degraus do setor oeste e parou, com a tocha erguida, a silhueta contra o céu. Ao toque do sino olímpico, ele se colocou na ponta dos pés e levou o fogo da tocha a um enorme caldeirão de bronze apoiado num tripé para acender a pira olímpica. O sol caía por trás dela quando um coro de milhares de pessoas vestidas de rosa-claro começou a cantar a “Aleluia” do Messias de Handel. De pé, os espectadores se juntaram ao coro. Fundidas, a música e as vozes inundaram o vasto interior do estádio de luz, amor e júbilo.
Não houve naquela noite, entre todos os que estiveram no complexo olímpico, quem não tivesse ficado ao menos um pouco impressionado. Ninguém já presenciara nada parecido. A imprensa estrangeira afluiu em massa aos teletipos. Na manhã seguinte, jornais de todo o mundo estamparam manchetes entusiásticas. Para Roger Morris, foi “a coisa mais impressionante” que ele já vira. Para Johnny White, algo “arrebatador”. Não era outro o objetivo por trás da cerimônia – arrebatar. Era o início da manipulação da opinião mundial a respeito da nova Alemanha, uma espécie de letreiro imenso com os dizeres: “Bem-vindos ao Terceiro Reich. Nós não somos o que se diz por aí.”
Última preleção de Ulbrickson
CAPÍTULO 17
Ver uma guarnição vencedora em ação é testemunhar a harmonia, tudo funcionando à perfeição (...). A fórmula da resistência e do sucesso é: remar não apenas com a força física, mas com o coração e a mente também.
– George Yeoman Pocock
O tempo no lago Langer tornou-se invernal no início de agosto. Um vento frio e cortante castigava sem piedade a raia olímpica de Grünau. Os rapazes remavam com casacos de moletom e pernas untadas de gordura de ganso. A menos de duas semanas das séries classificatórias, eles ainda estavam longe da boa forma. O barco desacelerava na pegada e pulava no lago encrespado em vez de cortá-lo com eficiência. Faltava timing. Os remos enforcavam. Seus corpos não estavam em boas condições. Os diários se enchiam de críticas ao próprio desempenho: “Fomos muito mal”, escreveu Johnny White.
Apesar de preocupados, fora da água eles continuavam a aproveitar a inebriante atmosfera de Berlim naquele verão. Não perdiam a oportunidade de ir juntos à cidade para passear, comer schnitzel e tomar cerveja cantando “Curvem-se a Washington” com os canecos erguidos. Uma ocasião especial foi o convite do diretor de esportes de Stanford, Jack Rice, para jantarem no luxuoso hotel Adlon. De calças comuns e agasalhos de remo com grandes “W”s estampados no peito, eles entraram no hotel protegidos por um cordão policial. No saguão ricamente decorado, os aromas de couro e uísque se mesclavam com gargalhadas, tinidos de taças e um suave fundo musical de piano. Um garçom de fraque os guiou pelo salão de jantar até uma mesa guarnecida com uma toalha de linho branco e velas. Sentaram-se, os olhos arregalados percorrendo a sala para ver quem estava lá – autoridades olímpicas, americanos e britânicos endinheirados e mulheres alemãs em elegantes vestidos de noite, de seda ou chiffon, lamê ou cetim coberto de lantejoulas. Uma ou outra mesa era ocupada por oficiais da SS que conversavam entre garfadas de bifes e sauerbraten regadas a vinho francês. Graves e ameaçadores em seus impecáveis uniformes cinza e preto, os quepes pontiagudos sobre as mesas, sinistramente ornados com caveiras prateadas, os agentes da SS ficavam, de modo geral, apartados dos demais. Mas ninguém parecia se importar com sua presença.
Em 6 de agosto, Al Ulbrickson acabou com a farra. Não haveria mais passeios a Berlim nem a qualquer outro lugar até depois dos Jogos. Faltando apenas seis dias para a classificatória, ele não estava nada satisfeito com o progresso da guarnição. Nem com muitas outras coisas. O tempo frio e úmido e a falta de aquecimento no quartel da polícia dificultavam a cura do resfriado de Don Hume – ou do que quer que fosse que ele tivesse no peito. Desde que adoecera em Princeton, no início de julho, Hume não parara de tossir e se arrastar. “Hume é tudo para nós. Se ele não se recuperar e entrar logo em forma, não teremos muita chance”, queixara-se Ulbrickson numa entrevista à Associated Press uma semana antes. E Hume não melhorara nem um pouco desde então.
Havia também a questão das raias. Em 5 de agosto, Ulbrickson tivera uma discussão – exaltada e multilingue, quase incompreensível para a maioria dos envolvidos – com representantes da Federação Internacional de Remo (FISA) e autoridades olímpicas alemãs. O percurso de Grünau tinha seis raias, mas as duas mais externas – a cinco e a seis – eram tão expostas aos ventos predominantes no lago Langer que se tornavam impraticáveis. Com efeito, naquele mesmo dia Ulbrickson cancelara um treino sob o risco de ver sua equipe afundar na água. As raias de um a três, ao contrário, contíguas à margem sul do lago, eram quase totalmente protegidas em toda a sua extensão. Essa disparidade tornava o percurso muito desigual. Se ventasse no dia da corrida, quem corresse nas raias cinco e seis provavelmente teria uma desvantagem equivalente a dois barcos só para começar. A proposta de Ulbrickson era que o Comitê eliminasse as duas raias externas. Em todas as competições olímpicas de remo até então, ele ressaltou, as eliminatórias e a final haviam sido limitadas a quatro barcos. No entanto, depois de um longo e acalorado debate, Ulbrickson foi vencido. Todas as seis raias seriam utilizadas.
A preocupação de Ulbrickson aumentou ainda mais depois de assistir a alguns treinos da guarnição britânica. Seus principais componentes eram dois rapazes de Cambridge, o timoneiro John Noel Duckworth e o voga William George Ranald Mundell Laurie. Duckworth, como alguém diria mais tarde, tinha “pouca estatura, mas um grande coração”. A parte da estatura era óbvia, bastava olhar. A do coração ele demonstrava toda vez que ia para a água. Mas não só. Alguns anos mais tarde, no Pacífico Sul, contrariando ordens, ele decidiu ficar para trás com soldados britânicos feridos quando sua unidade foi cercada por tropas japonesas. Quando estes se preparavam para executar os feridos, Duckworth os censurou tão severamente que eles lhe aplicaram uma surra terrível, mas pouparam seus companheiros. Foi, então, enviado ao infame campo de prisioneiros de guerra de Changi, em Cingapura. Dali saiu, com outros 1.679 prisioneiros, numa marcha de 350 quilômetros através da selva até o Campo Número 2, em Songkurai, na Tailândia, onde serviriam de mão de obra escrava na construção da ferrovia Thai-Burma. Quando os soldados com quem trabalhava começaram a morrer de beribéri, difteria, varíola, cólera e em consequência das sessões de tortura, Duckworth lhes serviu de capelão. Só 250 sobreviveram, Duckworth entre eles.
Laurie, apelidado “Ran”, talvez tenha sido o melhor voga britânico da sua geração – 85 quilos de força, elegância e aguçada inteligência. Seu filho, Hugh Laurie, o ator, seria também remador de Cambridge. Ran, segundo seus contemporâneos, era um jovem excepcionalmente gentil. Juntos, Duckworth e Laurie haviam liderado Cambridge em três vitórias consecutivas sobre Oxford (que se somaram à série ininterrupta de sete anteriores) na Boat Race anual, a despeito de Oxford ter recentemente trocado a cerveja pelo leite numa desesperada tentativa de reverter a tendência. Ulbrickson achava que essa experiência – remar diante de mais de um milhão de fãs aglomerados às margens do Tâmisa, todos os anos, na Boat Race – dava aos britânicos certa vantagem no quesito confiança.
Mas o que mais preocupava Al Ulbrickson com relação aos britânicos era sua marcada similaridade com os rapazes de Washington. Não no sentido de semelhança física – eles não se pareciam em nada –, tampouco de estilo: os britânicos ainda remavam com a acentuada inclinação para trás tradicionalmente ensinada nas escolas preparatórias e universidades inglesas. Washington, é claro, usava a remada mais curta e ereta que George Pocock trouxera dos barqueiros do Tâmisa e ensinara a Hiram Conibear 20 anos antes.
Era na estratégia de corrida que os britânicos se pareciam com os pupilos de Ulbrickson. Assim como os rapazes de Washington, eles gostavam de se manter um pouco atrás, remando forte, mas devagar, pressionando os adversários a remar em alta voga muito cedo para pegá-los de surpresa, quando já estivessem cansados, com uma arrancada fulminante. Salvo pelo boné de críquete e pelo cachecol, Duckworth comandava o barco de um modo muito parecido com Bobby Moch. E Ran Laurie, por sua vez, remava à voga com um estilo muito similar ao de Don Hume. Ia ser interessante ver duas guarnições competindo com a mesma estratégia no lago Langer.
À medida que se aproximavam das classificatórias olímpicas e que iam se dando conta da responsabilidade, os rapazes de Ulbrickson voltavam a se mostrar tensos e inquietos. Os que mantinham diários ou escreviam cartas à família começaram a lhes confidenciar um nervosismo equivalente ao que haviam sentido às vésperas da seletiva de Princeton. Chuck Day pedia a Al Ulbrickson injeções de confiança e havia momentos em que fumava um cigarro atrás do outro e ignorava quem tentasse dissuadi-lo.
Mas não eram os únicos. Todas as 24 guarnições alojadas em Köpenick eram compostas de rapazes fortes, saudáveis e altamente competitivos vivendo momentos decisivos em suas vidas. Apesar disso, prevalecia o espírito olímpico. Muitas amizades surgiram nas três semanas em que eles conviveram e competiram na Alemanha. Os rapazes de Washington, em particular, desenvolveram uma fácil camaradagem com a guarnição de policiais australianos, com quem compartilhavam não apenas uma linguagem mais ou menos parecida, mas também o modo tranquilo, confiante e ousado de encarar a vida. Deram-se bem, também, com os suíços, “uns demônios”, nas palavras de Johnny White, mas alegres e prestativos, que se divertiam no trajeto do ônibus entre Köpenick e Grünau cantando suas canções tirolesas em falsete.
Com a aproximação das provas, no entanto, os nervos em Grünau e Köpenick começaram a ficar à flor da pele. Os australianos não faziam o menor esforço para esconder seu desprezo pelos britânicos, que não podiam olhar para os alemães sem se lembrar da última guerra e se preocupar com a possibilidade de uma próxima. Os rapazes de Washington, por sua vez, não estavam conseguindo dormir. Quase toda noite seu sono era perturbado por alguma atividade anormal embaixo de suas janelas: camisas-pardas marchando com coturnos cravados, comboios militares – motocicletas com carros laterais, caminhões barulhentos com potentes luzes noturnas, carretas de artilharia de campo –, policiais fazendo exercícios fora de hora, cantorias de remadores alemães e até um grupo de canoístas fazendo uma festa no térreo para se consolar de sua derrota esmagadora.
Exasperados, eles decidiram fazer alguma coisa. E, com seis estudantes de engenharia no grupo, era de esperar uma solução de engenheiro: inventaram um dispositivo para despejar baldes de água fria sobre quem estivesse perturbando e recolhê-los rapidamente por meio de cordinhas. Não precisavam nem sair da cama. Naquela mesma noite a água jorrou não apenas sobre a equipe iugoslava, que fazia uma arruaça, mas também sobre os policiais alemães que tentavam contê-los. Indignados, iugoslavos e policiais invadiram o prédio, aos gritos, atraindo atletas de outras delegações para os corredores e escadas. Cada um berrava numa língua diferente quando os rapazes de Washington saíram de seus quartos com cara de sono, fazendo-se de inocentes. Quando alguém perguntou de onde viera a água, eles deram de ombros e apontaram cinicamente para o andar de cima, onde se alojavam os canadenses.
No dia seguinte à hora do almoço, outra confusão. Tornara-se uma tradição as equipes cantarem canções nacionais durante as refeições. Quando chegou a vez dos iugoslavos, eles fizeram, não se sabe com que intenção, um arremedo da canção patriótica americana “Yankee Doodle”. Não estava claro nem se cantavam em inglês ou numa das várias línguas iugoslavas, mas os americanos conheciam a melodia. E pela maneira como os iugoslavos diziam certos versos, parecia que eles haviam descoberto a traquinagem da noite anterior e decidido insultar os Estados Unidos. Foi o suficiente para Chuck Day pular da cadeira e partir para cima deles com os punhos cerrados. Bobby Moch saiu logo atrás, para cima não do timoneiro iugoslavo, mas do maior homem da guarnição deles. Atrás de Moch veio o resto da equipe de Washington e, atrás dela, por pura diversão, toda a equipe australiana. Os alemães saíram em defesa dos iugoslavos. Cadeiras voaram. Seguiram-se insultos, provocações, mais punhos erguidos e um empurra-empurra. Uma vez mais, todo mundo gritava e ninguém se entendia. Foi necessário que a equipe holandesa entrasse em cena, com seu perfeito inglês diplomático, para apartá-los, acalmar os ânimos e fazer todo mundo voltar às suas mesas.
Mas nem tudo era preocupação e irritação entre os pupilos de Ulbrickson. Havia algo mais surgindo. Ao começarem a perceber sinais de tensão e nervosismo no grupo, eles começaram instintivamente a se aproximar uns dos outros. Antes e depois dos treinos, ficavam no píer discutindo com franqueza, olho no olho, o que cada um poderia fazer para melhorar. Sem piadas nem brincadeiras. Seriedade total, como nunca houvera antes. Todos sabiam que aquela era uma oportunidade única em suas vidas e não queriam desperdiçá-la.
Joe Rantz tinha consciência, desde o começo, de que era o elo mais fraco da corrente. Fora o último a entrar no barco, precisava se esforçar continuamente para melhorar a técnica e ainda remava de modo um tanto irregular. Mas o que ele não sabia – e que só perceberia plenamente muito mais tarde, quando ele e todos os demais já fossem homens maduros – era que todos tinham o mesmo sentimento naquele verão. Todos se consideravam afortunados por estarem no barco, todos acreditavam não estar à altura da evidente grandeza dos demais e todos temiam decepcionar o grupo. E todos estavam ferozmente determinados a não deixar que isso acontecesse.
Pouco a pouco, cada um à sua maneira, os rapazes foram se acalmando e recuperando o foco. Apoiados uns nos outros, discutiam no píer o plano de corrida com a serenidade e a segurança de quem sai da infância para a idade adulta. Às vezes citavam Pocock. Roger e Joe caminhavam entre as pedras às margens do lago Langer para abrir suas mentes. Johnny White pensava nas classificatórias deitado sem camisa no gramado em frente à Haus West, na esperança de pegar um bronzeado que fizesse jus ao seu sorriso de comercial de creme dental. Shorty Hunt escrevia longas cartas à família para extravasar a ansiedade sobre folhas de papel. E foi assim que o barco voltou à vida. Remando duas vezes por dia, os rapazes começaram a reencontrar a sincronia até então apenas latente em seus corpos. Tudo pareceu entrar nos eixos, uma vez que o indispensável Don Hume estava à voga. O retorno de Hume dissipou toda a indefinição, toda a incerteza e toda a descoordenação causadas por sua ausência. George Pocock viu logo a diferença. Eles estavam de volta. Tudo o que precisavam agora, disse Pocock em 10 de agosto, era de um pouco de competição. No dia seguinte, um repórter britânico que os assistiu advertiu seus leitores de que a guarnição americana era um adversário à altura dos rapazes do Leander Club: “O oito da Universidade de Washington é o que há de melhor aqui, uma guarnição difícil de ser batida.”
As regras dos Jogos Olímpicos de 1936 garantiam a cada uma das 14 guarnições de oito com timoneiro duas chances de se classificarem para a disputa de medalhas em 14 de agosto. Os vencedores das preliminares do dia 12 estariam automaticamente classificados para a final e ganhariam um precioso dia de folga. Os demais teriam que buscar a classificação nas provas de repescagem de 13 de agosto. Os rapazes de Washington tinham como adversários em sua série classificatória a França, o Japão, a Tchecoslováquia e – sua maior preocupação – a Grã-Bretanha.
Vista das tribunas de Grünau
Com o desempenho da guarnição à altura das expectativas, Ulbrickson fez o que sempre fazia antes das grandes corridas: treinos leves e muito descanso até a primeira prova. Em 11 de agosto foram todos para as arquibancadas de Grünau assistir às classificatórias das demais categorias. Só as do “oito com” seriam diputadas no dia seguinte. A equipe americana de remo chegara a Berlim com grandes esperanças e cercada de muita expectativa. “Especialistas e críticos foram unânimes em prever que os Estados Unidos ganharão muitas medalhas”, proclamara corajosamente um jornalista esportivo em 28 de julho, sob a confiante chamada “Especialistas acreditam que os EUA farão a festa no remo”. George Pocock não tinha tanta certeza. Ele examinara os barcos das demais guarnições americanas e os achara velhos, pesados, ordinários e malconservados.
Nas seis provas daquele dia, os Estados Unidos chegaram em penúltimo lugar em três e em último nas outras três. Para alegria do público nas arquibancadas, a Alemanha ficou em primeiro nas seis baterias. “Péssimo desempenho”, escreveu Chuck Day naquela noite. “A competição de remo começou hoje, mas os Estados Unidos não apareceram”, disse Roger Morris. “Acho que vencer é tarefa nossa”, disse Johnny White.
No dia seguinte, 12 de agosto, o das classificatórias do “oito com”, Don Hume estava 6 quilos abaixo do seu peso normal, os 78 com que remara em Poughkeepsie. Seu 1,88 metro de altura estava reduzido a pele e ossos. Tinha o peito ainda congestionado e uma febre baixa intermitente. Mas insistiu que estava pronto para remar. Ulbrickson o segurou na cama o máximo que pôde. Até que, no fim da tarde, o meteu no ônibus com o resto do grupo para ir disputar a regata.
As condições para o remo eram quase ideais, com céu parcialmente nublado e temperaturas pouco acima dos 20ºC. Uma brisa leve enrugava a superfície cinza-ardósia do lago Langer. Vento, só o que provinha da popa dos barcos. Os rapazes disputariam a primeira classificatória, às 17h15, na raia um, a mais protegida do percurso – o que não fazia diferença em águas calmas.
Quando os rapazes chegaram a Grünau, uma alegre multidão de torcedores munidos de binóculos e câmeras já fazia fila nas bilheterias do estádio. A caminho dos vestiários, eles puderam ver os portadores dos bilhetes mais caros dirigindo-se à tribuna coberta no lado mais próximo às raias, ao passo que os demais atravessavam um pontão até as arquibancadas de madeira do outro lado, cuja estrutura também era usada para suportar as bandeiras nacionais dos países participantes das provas. Uma bandeira olímpica tremulava preguiçosamente num mastro à frente da Haus West.