Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 5 de 10 · parte 2/5

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Meninos de Ouro

Quarta parte – 1936 – Tocando o Divino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

A liderança nazista estava convencida de que os Jogos Olímpicos de agosto seriam a oportunidade perfeita para essa estratégia. A Alemanha se apresentaria ao mundo como um país excepcionalmente limpo, eficiente, moderno, tecnologicamente avançado, culto, vigoroso, sensato e hospitaleiro. Assim, milhares de alemães, de varredores de rua a hoteleiros e funcionários do governo, puseram-se a trabalhar com ardor para que em agosto o mundo visse a face bonita do país.

O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, pôs-se a construir uma realidade alternativa na imprensa alemã, expurgando-a temporariamente de referências antissemitas, publicando elaboradas fantasias a respeito das intenções pacíficas da Alemanha e dando boas-vindas aos povos do mundo com descrições entusiásticas do país. Enquanto isso, em suas novas e luxuosas salas no laboratório Geyer, no sul de Berlim, Leni Riefenstahl começava a aplicar os 2,8 milhões de marcos do Reich que o governo nazista lhe destinara secretamente, por meio do Ministério da Propaganda, para a produção de seu filme sobre os Jogos Olímpicos. O segredo, que vinha de outubro do ano anterior, visava esconder do Comitê Olímpico Internacional a origem política e ideológica do financiamento do filme. Durante o resto de sua vida, Leni sustentaria a versão de que o filme era apenas um documentário artístico sobre o esporte. A verdade, porém, é que, desde a sua gênese, Olympia foi uma produção de cunho político e ideológico.

As imagens de graça, beleza e vigor juvenil, combinadas com a iconografia e a ideologia nazista, retratavam o novo Estado alemão como algo ideal – o produto final perfeito de uma civilização altamente sofisticada, descendente direta da Grécia antiga. Mais do que apenas demonstrá-los, o filme definia, sob muitos aspectos, os ainda incipientes, mas cada vez mais distorcidos, mitos nazistas.

Após a surra aplicada à Califórnia no lago Washington, Al Ulbrickson deu duas

a

semanas de folga aos rapazes da sua 1 guarnição para cuidarem das suas tarefas acadêmicas e de seus assuntos pessoais antes da arrancada final até Berlim. Depois da partida para Poughkeepsie, ninguém estaria de volta a Seattle – se tudo corresse bem – antes de setembro. Havia muito que fazer.

Ao retornarem à garagem em 4 de maio, foram colocados para trabalhar em baixa voga a fim de corrigir defeitos técnicos ainda existentes. Os primeiros dias na água foram desastrosos, os remadores pareciam ter perdido a sincronia. Mas bastou reencontrá-la para que deixassem todos os outros barcos para trás. Em 18 de maio, porém, a sombra de uma catástrofe se abateu sobre a garagem. Ulbrickson foi

a

informado de que, apesar da folga, quatro remadores da sua 1 guarnição ainda tinham tarefas acadêmicas pendentes. Mais alguns dias, e seriam reprovados. Ficou furioso. Em janeiro ele os advertira: “Aqui não há lugar para malandros (...) quem for reprovado estará fora.”

Chamou então Chuck Day, Stub McMillin, Don Hume e Shorty Hunt ao gabinete, fechou a porta e deu-lhes uma bronca: “Vocês podem ser os melhores remadores do país, mas não servirão para esta equipe se não cumprirem seus deveres acadêmicos (...). Isso significa estudar!”

Saíram todos juntos do gabinete, com Ulbrickson ainda espumando de raiva. De repente, tudo estava por um fio. O pior era que, embora a maioria só devesse tarefas atrasadas, Don Hume ainda precisava tirar 10 num exame final para não ser reprovado. E se havia um remador que Ulbrickson não podia se dar ao luxo de perder era Don Hume.

O fato é que os rapazes viviam o melhor momento de suas vidas. Dentro ou fora da água, estavam quase sempre juntos. Comiam juntos, estudavam juntos e se divertiam juntos. A maioria se filiara ao Clube dos Veteranos do Remo e morava na

a

casa alugada pelo clube na 17 Avenida, uma quadra ao norte do campus. Joe continuava na Associação Cristã de Moços. Nas noites de fim de semana eles se juntavam no salão do clube para passar horas cantando ao som das melodias de jazz, blues, ragtime e sucessos de cinema e teatro que Don Hume tocava no velho piano de armário. Às vezes Roger Morris trazia o saxofone e Johnny White, o violino. Joe quase sempre trazia o banjo ou o violão para tocar também. Ninguém mais ria dele; ninguém nem ousava zombar dele.

Don Hume tirou 10 no exame e os retardatários completaram suas tarefas. No fim de maio, os rapazes voltaram a fazer tempos fenomenais na água. Em 6 de

o o

junho Ulbrickson levou o 1 e o 2 barco para uma última tomada de tempo em

o

quatro milhas, orientando Bobby Moch a se manter atrás do 2 barco nas duas

a

primeiras. Mesmo remando em confortáveis 26 por minuto, a 1 guarnição não

a

conseguiu ficar atrás dos excelentes remadores da 2 : passara logo à frente com a mera força de suas longas e lentas puxadas. Quando Moch finalmente os liberou na milha final, eles saltaram para uma vantagem de sete barcos, que ainda aumentava ao cruzarem a linha de chegada.

Era o que Al Ulbrickson precisava ver. Os treinos estavam oficialmente encerrados até que chegassem ao Hudson. Mandou os rapazes começarem a arrumar as malas – como se estivessem indo para Berlim.

Naquela mesma noite, em Berkeley, Ky Ebright e os rapazes da Califórnia pegaram o trem para Poughkeepsie. Ebright exalava pessimismo. Indagado se vinha treinando seu alemão, ele disparou: “Não tenho expectativa de precisar falar alemão.” Ao ser lembrado de que estivera igualmente pessimista na fase preparatória para os Jogos Olímpicos de 1928 e 1932, ele respondeu secamente: “Desta vez é diferente.”

Mas todo esse catastrofismo era, mais uma vez, apenas pro forma. Ebright promovera algumas mudanças na guarnição desde a derrota em Seattle e a nova formação marcara tempos excepcionais nos testes no estuário. Ele sabia que a derrota nas três milhas do lago Washington não significava, como ficara demonstrado no ano anterior, que iria perder as quatro milhas do rio Hudson. Seus rapazes estariam, na pior das hipóteses, entre os melhores de Poughkeepsie. Washington provavelmente esmoreceria no final uma vez mais. E mesmo que eles ganhassem no Hudson, a disputa seria zerada nas seletivas olímpicas de Princeton. Washington ainda precisava provar que era capaz de vencer nos 2 mil metros. Com sorte, Ebright conseguiria retornar à Califórnia via Berlim com mais um título nacional e a terceira medalha de ouro olímpica consecutiva. Era o que dizia a imprensa da baía de São Francisco, o que dizia grande parte da imprensa nacional e, muito provavelmente, o que pensava Ky Ebright.

Às 20 horas do dia 10 de junho, quatro dias depois, portanto, com direito a escolta policial, luzes giratórias e sirenes, um comboio de automóveis saiu da Universidade sob os aplausos dos estudantes rumo à Union Station, no centro de Seattle, levando a equipe de remo de Washington. Os rapazes estavam eufóricos. Os treinadores também. Atendendo às instruções, eles se prepararam para a viagem contando com a possibilidade de não voltarem a Seattle antes de setembro. Alguns até faziam planos para viajar pela Europa depois dos Jogos – um sonho inebriante para rapazes de Seattle –, embora nenhum deles fizesse a menor ideia de onde ia tirar dinheiro caso o sonho se realizasse. Johnny White levava 14 dólares no bolso. George Pocock escrevera ao pai, Aaron, dizendo que talvez fosse a Londres para vê-lo. Bobby Moch pedira ao pai endereços dos parentes na Suíça e na Alsácia-Lorena para poder ir visitá-los. O velho Gaston hesitou, demonstrando uma aflição que Bobby não conseguiu compreender, mas disse que os enviaria mais tarde, se a equipe fosse, de fato, à Europa.

Na estação, como sempre, houve banda marcial, hinos, líderes de torcida, discursos dos treinadores, flashes e câmeras. Desta vez ela estava lotada não apenas de estudantes e jornalistas, mas também de pais, irmãos, tios, tias, avós, primos, vizinhos e muita gente desconhecida. A cidade, ao que parecia, ia finalmente entrar no mapa, e todo mundo queria assistir à coroação. Royal Brougham, ao embarcar no trem, notou que nunca vira uma guarnição deixar a cidade “com tanta determinação, tanta alegria e tanto otimismo. Esses rapazes têm um pressentimento (...) já estão quase apertando a mão de Hitler”.

O mesmo Brougham manifestava, porém, certa preocupação. Ele já vira tudo aquilo antes, e também as tristes consequências, para Seattle, das esperanças frustradas no ano anterior. Na máquina de escrever que levava em seu vagão, concluiu sua coluna matinal com as seguintes palavras: “Não se esqueçam”, alertava seus leitores, “do fantasma que assombra a última milha.” Por agora, deixava de mencionar sua apreensão ainda maior: a prova de 2 mil metros nas seletivas olímpicas.

Aos primeiros suspiros e solavancos do trem que partia, os rapazes, debruçados nas janelas, faziam suas últimas despedidas: “Adeus, mãe!”, “Te escrevo de Berlim”. Joe, de sua janela, tentava encontrar Joyce. Achou-a num canto distante, com seu pai e as crianças, pulando com os braços erguidos enquanto segurava um cartaz onde havia desenhado, bem grande e todo pintado de verde, um trevo de quatro folhas.

Com o trem já a caminho do Leste, os rapazes começaram, finalmente, a relaxar. A descontração era total. Fazia calor, mas não tão sufocante que os impedisse de ficar até mais tarde em seus beliches. Depois, jogariam pôquer e vinte e um e reviveriam a velha tradição de atirar bexigas cheias de água em vacas e cachorros adormecidos. Logo na primeira manhã, Al Ulbrickson lhes deu uma boa notícia: queria que todos engordassem até 1,5 quilo até chegarem a Poughkeepsie. O vagão-restaurante era todo deles, sem restrição. Foi uma correria. Mal podendo acreditar, Joe pediu um bife, depois outro e, de sobremesa, uma taça de sorvete.

Enquanto os rapazes comiam, Al Ulbrickson, Tom Bolles e George Pocock discutiam a estratégia da corrida em seu vagão. Eles conheciam as ideias de Ky Ebright, estavam a par das preocupações de Royal Brougham e sabiam o que boa parte da imprensa do Leste vinha dizendo que Washington esmoreceria novamente no fim da prova principal. Determinados a não perder dessa maneira este ano, traçaram um novo plano de corrida. Ulbrickson sempre preferira vir de trás, poupando energia para o fim, mas tentando largar forte e ficando o tempo todo perto dos líderes para derrotá-los com uma arrancada mortal. O novo plano era parecido com esse, porém com uma importante diferença. Eles dariam a partida com força suficiente para obter um bom impulso e logo passariam a remar em voga baixa, 28 ou 29 por minuto. Ficariam assim independentemente do que fizessem os outros barcos, mantendo uma distância de até dois barcos dos líderes. O ideal seria que permanecessem em voga baixa até a milha e meia, daí passando a 31 até a marca das duas milhas. Nesse ponto Bobby Moch mandaria Don Hume sair à caça dos líderes, que a essa altura já estariam um pouco cansados. O início deliberadamente lento era arriscado: eles teriam que ultrapassar todos os barcos no sprint, mas com certeza estariam remando muito forte no final. Fechado o plano, Al Ulbrickson foi comunicá-lo a Bobby Moch.

A equipe de Washington chegou a Poughkeepsie no início da manhã de 14 de junho, sob uma chuva de verão torrencial. Molhados até os ossos, descarregaram os barcos, ergueram-nos sobre as cabeças e foram direto ao Hudson para guardá-los e inspecionar os novos alojamentos. Desta vez não ficariam no galpão de Highlands. Al Ulbrickson providenciara a mudança para o antigo alojamento de Cornell, uma estrutura muito mais sólida na margem oriental do rio, bem ao lado do alojamento da Califórnia. Ficaram tão maravilhados com o lugar que iam tirando os capotes encharcados enquanto percorriam, a passos pesados, as instalações. Tinha luz elétrica, chuveiros quentes, equipamento de ginástica e um espaçoso dormitório com camas extragrandes. Tinha até um rádio para eles acompanharem jogos de beisebol, comédias radiofônicas e músicas. Tinha também uma grande varanda fechada com tela onde poderiam dormir se fizesse muito calor. E com a chuva que caía lá fora, era bastante relevante o fato de não haver goteiras.

Mal haviam começado a se instalar, sentiram cheiro de comida. Guiados por seus narizes, o de Joe Rantz em particular, descobriram rapidamente a melhor característica do novo lugar – uma cozinha do lado de fora, na beira do rio, a sete metros da porta da frente. No comando, a figura imponente de Evanda May Calimar, uma senhora negra que se revelaria aos rapazes uma fantástica cozinheira. Com ela trabalhavam o filho Oliver, a mãe e o cunhado, todos já empenhados no preparo do frango frito do almoço. Os rapazes se sentiram no paraíso. Ao testemunhar a primeira refeição deles, Royal Brougham enviou para Seattle uma divertida matéria que o Post-Intelligencer publicou sob uma foto de Joe com a legenda: “Joe Rantz, o Campeão da Comilança”.

Nos dias seguintes, George Pocock foi de garagem em garagem inspecionar os barcos dos concorrentes de Washington. Dos 18 barcos que estariam no rio este ano, 17 haviam saído de sua oficina. Agradava-lhe trabalhar neles ajustando regulagens, reforçando o verniz dos cascos e fazendo pequenos reparos. Não queria ver no Hudson barcos com a sua chancela em mau estado. Além do mais, esse tipo de serviço favorecia suas relações com os clientes. Antes, portanto, de qualquer outra coisa, foi à garagem da Califórnia cuidar dos barcos de Ky Ebright.

Os rapazes de Washington não se dirigiam aos da Califórnia e vice-versa. No flutuante que compartilhavam, as guarnições passavam umas pelas outras em silêncio, sem se olhar de frente – quando muito de soslaio, como cães antes de uma briga. E brigar era uma possibilidade real. Não muito tempo depois de chegarem, um repórter confidenciou a Shorty Hunt que no alojamento da Califórnia tinha-se a impressão de que os rapazes de Washington se achavam uns valentões, tão a fim de briga que se não arranjassem uma acabariam brigando entre si, mas que a Califórnia teria prazer em resolver esse problema para eles. Shorty respondeu: “Se os caipiras quiserem briga, vão ter briga, mas nós não viemos aqui para isso.”

Ulbrickson e Bolles começaram a trabalhar duro com seus rapazes: longas distâncias em voga baixa para começar, visando recuperar o peso que os incentivaram a adquirir durante a viagem. A expectativa era de que atingissem o peso ideal no dia da corrida, 22 de junho. A dificuldade era evitar que a comida da Sra. Calimar sabotasse seus esforços.

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Foi então que vazou a notícia de que a 1 guarnição da Califórnia fizera as quatro milhas em fantásticos 19m31s. Era, de longe, o melhor tempo do ano no Hudson. Os rapazes de Cornell também vinham obtendo marcas impressionantes. Al Ulbrickson esquentou ainda mais o clima na noite de 17 de junho, com uma tomada de tempo na escuridão das 21 horas, em águas agitadas, em que Joe e seus camaradas teriam, segundo informou aos jornalistas, completado a distância em 19m39s, significativamente acima do tempo da Califórnia. Naquela noite, Johnny White anotou em seu diário o verdadeiro tempo: 19m25s.

No dia seguinte circularam rumores de que a Califórnia fizera outra tomada.

a

Ebright não quis revelar o tempo, mas observadores relataram que a sua 1 guarnição havia feito a marca fenomenal de 18m46s. O Poughkeepsie Eagle-News noticiou 18m37s. Royal Brougham enviou ao Post-Intelligencer um informe sombrio: “Remadores da Califórnia favoritos mais uma vez (...). Eles não estão remando, estão voando.”

Ulbrickson continuava imperturbável. Já vira o suficiente e queria os rapazes descansados na corrida. Pediu que relaxassem. Até o dia da prova, só haveria treinos leves para manter a forma. Para os rapazes, tudo bem. Eles já sabiam algo que ninguém sabia, nem mesmo Ulbrickson.

Na noite da última tomada de tempo, já com pouco vento e águas calmas, eles remaram de volta rio acima, na escuridão, lado a lado com a guarnição de calouros

a

e a 2 guarnição até sumirem as luzes vermelhas e verdes das lanchas dos treinadores. Os barcos passaram sob as duas pontes coroadas de luzes cor de âmbar. Na margem do rio e em suas encostas, cálidas luzes amarelas se derramavam das janelas de residências e garagens de barcos. Era uma noite sem lua. A água estava um breu de tão escura.

Bobby Moch pediu aos rapazes que remassem calmamente à voga de 22 ou 23 por minuto. Joe e seus companheiros ficaram conversando baixinho com os rapazes dos dois outros barcos até perceberem que haviam saltado à frente sem querer, apenas puxando de maneira suave e constante. Na verdade já estavam tão à frente que mal podiam ouvi-los. Então, um a um, foram se dando conta de que só conseguiam escutar o suave murmúrio das pás dos remos entrando e saindo da água. Estavam sós, remando na total escuridão. Juntos num reino de silêncio absoluto. Anos mais tarde, já velhos, todos se lembrariam desse momento. Bobby Moch recordou: “Não se ouvia nada além dos remos entrando na água (...) nem o ruído das forquetas no final da remada (...) um zip e nada mais.” Eram remadas perfeitas, fluidas e serenas, como se estivessem em outro plano, num buraco negro entre as estrelas – exatamente como dissera Pocock. E foi lindo.

Nos dias que antecederam a regata de Poughkeepsie, outra grande disputa dominou as manchetes das páginas esportivas, e até das primeiras páginas, dos jornais de todo o país: a do cinturão dos pesos pesados do boxe. O alemão Max Schmeling, campeão mundial de 1930 a 1932, pretendia desafiar o campeão James Braddock. No entanto, um boxeador negro americano de 22 anos chamado Joe Louis, de Detroit, surgiu em seu caminho. Com um histórico de 27 lutas profissionais e 27 vitórias, 23 delas por nocaute, Louis se tornara também desafiante, colocando em xeque, além do mais, as atitudes racistas de muitos americanos brancos – embora nem de longe de todos. Louis viria a ser um dos primeiros heróis negros da América branca. Sua ascensão, até ali, fora tão espetacular que poucos jornalistas esportivos e donos de casas de apostas dos Estados Unidos viam alguma chance para Schmeling.

Na Alemanha, porém, a opinião era outra. Embora Schmeling não fosse membro do partido, Joseph Goebbels e a elite nazista o promoviam entusiasticamente como símbolo da supremacia ariana. Sob a diligente direção do Ministério da Propaganda, a imprensa alemã vinha dando grande destaque à luta vindoura.

Não havia, nos dois lados do Atlântico, quem não fizesse um prognóstico, inclusive os treinadores em Poughkeepsie. “Schmeling aguenta quatro assaltos”, opinou Al Ulbrickson. Ky Ebright foi mais direto: “Louis vai trucidá-lo.”

Quando a luta começou, na noite de 19 de junho, no Yankee Stadium totalmente lotado, Louis era favorito absoluto em Nova York, cotado em oito para um. Na Alemanha, apesar do interesse pelo confronto, quase não houve apostas. As chances de Schmeling eram tão pequenas que poucos quiseram arriscar seu dinheiro, e, obviamente, ninguém queria ser pego apostando num negro americano.

No ringue banhado de luz branca no centro do estádio, Louis passou três assaltos à caça de Schmeling, como um predador, fustigando-o no rosto com poderosos golpes de esquerda. Parecia que a noite ia ser curta. No quarto assalto, porém, Schmeling tirou da cartola uma potente direita que atingiu a têmpora do adversário, que caiu sentado no chão. Aos dois segundos de contagem, Louis colocou-se de pé, protegeu o rosto e foi recuando à espera do gongo. Durante todo o quinto assalto Louis esteve confuso e ineficaz, culminando por levar, depois do gongo – que nenhum dos dois lutadores pôde ouvir tal o alarido dentro do estádio –, uma direita devastadora no lado esquerdo da cabeça. Nos seis assaltos seguintes, Louis cambaleou pelo ringue sob uma chuva de golpes, inclusive diretos no queixo. Conseguiu continuar de pé, mas sem marcar pontos nem causar danos relevantes ao pugilista alemão. Na plateia predominantemente branca, muitos se viraram repentina e violentamente contra ele. “Delirantes de satisfação” – palavras do The New York Times –, eles gritavam pedindo a Schmeling que liquidasse a luta. E foi com essa intenção que o alemão foi para o décimo segundo assalto. Com Louis a passos trôpegos e sem rumo pelo ringue, Schmeling lançou-se sobre ele com diretos no rosto e na cabeça, culminando com um esmagador cruzado de direita no queixo. Louis dobrou os joelhos e caiu de frente com a cara no chão. Concluída a contagem, o árbitro Arthur Donovan declarou a vitória de Schemling por nocaute. Mais tarde, no camarim, Louis disse não se lembrar de nada do que acontecera no ringue depois do quinto assalto.

Naquela noite, no Harlem, homens adultos choraram em público e jovens negros atiraram pedras em carros lotados de torcedores brancos que voltavam da luta. Nas comunidades germano-americanas de Nova York, teve gente dançando na rua. De Berlim, Adolf Hitler telegrafou a Schmeling para felicitá-lo e enviou flores à sua esposa. Mas ninguém na Alemanha se alegrou mais com o resultado da luta do que Joseph Goebbels, que, em sua luxuosa casa de veraneio de Schwanenwerder, ficou até de madrugada ao lado de Magda e da esposa de Schmeling, Anny, ouvindo a luta pelo rádio. O telegrama de congratulações que enviou ao pugilista dizia: “Estamos orgulhosos de você. Receba os nossos cumprimentos. Heil Hitler.” Em seguida, ordenou à agência de notícias estatal Reuters que divulgasse um comunicado: “Inexoravelmente, e não sem razão, exigimos que Braddock defenda o título em solo alemão.” No dia seguinte, ainda excitado, Goebbels escreveu em seu diário: “Passamos a noite na torcida ao lado da esposa de Schmeling, contando casos e nos divertindo. No décimo segundo assalto, Schmeling nocauteou o negro. Fantástico. Uma luta dramática, emocionante. Schmeling lutou pela Alemanha e venceu. O branco prevaleceu sobre o negro, e o branco era alemão. Só fui deitar às cinco da manhã.”

Quem riu por último, no entanto, foi Joe Louis. Dois anos depois, ele lutaria novamente contra Max Schmeling, um combate de apenas dois minutos e quatro segundos – quando o corner do alemão decidiu jogar a toalha. Joe Louis reinaria como campeão mundial dos pesos pesados de 1937 até 1949, muito depois de o cadáver carbonizado de Joseph Goebbels ter sido retirado dos escombros fumegantes da Chancelaria do Reich, em Berlim, e colocado ao lado dos corpos de Magda e seus filhos.

a

No sábado à noite, Ulbrickson autorizou os rapazes da sua 1 guarnição a pegar a lancha dos treinadores para dar uma volta, se quisessem. Eles estavam entediados com o parque de diversões no alto do morro e Ulbrickson não os queria na garagem a noite inteira, sem fazer nada, pensando na corrida da segunda-feira.

Eles recrutaram, então, um dos monitores da guarnição como piloto e navegador e subiram na lancha. Sem nenhum plano prévio, decidiram ali mesmo fazer uma visita ao presidente dos Estados Unidos, que acreditavam morar em algum lugar à margem do rio. A lancha foi para o norte, passou pelas garagens de barcos da Academia Naval e de Colúmbia, em seguida a noroeste pela curva de Krum Elbow, depois por três quilômetros de florestas e encostas até chegar a um embarcadouro com a inscrição “Estação Hyde Park”. Ao perguntar como chegar à casa do presidente, foram informados de que ela ficava numa enseada um quilômetro e meio rio abaixo.

Encontrada a pequena enseada, deixaram o monitor encarregado da lancha, cruzaram a ferrovia por uma ponte estreita e lá se foram morro acima no meio da floresta. Andaram meia hora por trilhas de cavalos, estradas cobertas de mato e extensas áreas gramadas. Depois de passar por um moinho de trigo abandonado e um estábulo do tamanho de uma catedral, depararam-se, finalmente, com uma casa de jardineiro aparentemente ocupada junto a uma estufa. Bateram na porta e foram atendidos por um casal de idosos. Ao perguntarem se estavam perto da propriedade do presidente, o casal assentiu com entusiasmo dizendo que estavam dentro dela e apontaram o caminho da casa principal. Para além de um viveiro de mudas, uma larga rua dava no imenso gramado de Springwood – a imponente mansão de três andares dos Roosevelt, com seu pórtico semicircular apoiado em colunas gregas de cor branca. Era, de longe, a residência mais suntuosa que qualquer um deles já vira.

Nervosos, mas agora longe demais para voltar atrás, eles subiram ao pórtico reverentemente e espiaram o interior da casa. Eram quase 21 horas e já escurecia. Um jovem mais ou menos da idade deles estava sentado à cabeceira de uma mesa comprida lendo um livro. Bateram na porta. O jovem deu a impressão de ter chamado alguém, mas pôs o livro de lado e foi ele próprio atender. Ao abrir a porta, os rapazes se apresentaram como remadores de Washington, disseram ter conhecido John Roosevelt no ano anterior e perguntaram pelo presidente. O jovem respondeu que ele não estava, mas convidou-os, entusiasticamente, a entrar. Apresentou-se como Franklin Roosevelt Jr., mas que podiam chamá-lo de Frank. Com um sorriso

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tímido, disse que remava na posição seis da 2 guarnição de Harvard e que acabara de voltar de New London, Connecticut, onde disputara a corrida anual contra Yale. A

a

1 guarnição de Harvard havia vencido, mas a dele não. O treinador de Harvard, Charlie Whiteside, fora demitido pouco antes e corria um boato na universidade de que seu mais provável substituto era um tal de Tom Bolles, principalmente no caso de ele ganhar mais uma corrida de calouros em Poughkeepsie.

Conduziu-os à biblioteca do presidente, convidou-os a se sentarem e pôs-se a falar apaixonadamente sobre o remo e os treinadores. Os rapazes, boquiabertos, admiravam o cômodo. Do chão ao teto, as paredes eram cobertas de prateleiras cheias de livros. Os poucos espaços vazios eram ocupados por retratos de presidentes americanos e ancestrais dos Roosevelt. A parede do fundo era dominada por uma vistosa lareira, em frente à qual se estendia uma mesa de mais de quatro metros de comprimento atulhada de livros sobre os mais variados temas. Todas as outras mesas da sala eram enfeitadas com flores frescas e estatuetas de porcelana. Sentindo-se à vontade, Shorty Hunt foi se instalando numa confortável poltrona perto da lareira, mas levantou-se num salto quando Frank o informou que era a favorita do presidente, onde fazia suas transmissões radiofônicas informais.

A conversa durou mais ou menos uma hora. Naquela mesma noite, no alojamento, Johnny White escreveu em seu diário: “Esta noite fomos à casa do presidente em Hyde Park. Eles moram em um lugar bem legal” – como se tivesse dado um pulo na casa de um vizinho de Seattle.

Na manhã da regata, a opinião geral da imprensa – do Leste, pelo menos – era a de que Califórnia e Cornell eram os barcos a serem batidos na prova principal, com Washington logo atrás. Afinal, Cornell chegara quatro décimos de segundo atrás da Califórnia no ano anterior. Muito naturalmemte, os jornais de Seattle davam uma pequena vantagem a Washington. Royal Brougham, a despeito de sua sombria previsão anterior, já anunciara seu prognóstico pessoal – Washington em primeiro, Cornell em segundo, Califórnia em terceiro. Porém, no Post-Intelligencer daquela manhã ele admitiu que a Califórnia levava uma ligeira vantagem nas casas de apostas. O fato é que, nas charutarias de Poughkeepsie, Califórnia e Washington estavam pagando igual, com Cornell um pouco atrás, cotada a oito para cinco. Resumindo, qualquer uma das três poderia sair vencedora na corrida principal.

Brougham circulou pela cidade para sentir a vibração do público antes de ter que se sentar para escrever a matéria sobre a corrida. Por causa da maré, a largada da corrida principal só seria dada às 20 horas, depois do pôr do sol. Brougham tinha, portanto, bastante tempo para se informar. Fazia um dia claro em Poughkeepsie. Chumaços de nuvens brancas vagavam pelo céu azul pálido ao sabor de uma brisa suficiente apenas para criar um agradável frescor.

Lá pelo meio da tarde Brougham desceu a ladeira até à beira-rio e viu um destróier da Marinha e duas embarcações da guarda-costeira posicionados em meio à usual flotilha de iates, veleiros, lanchas, canoas e botes aglomerados perto da linha de chegada. Na varanda do segundo andar da garagem da Califórnia, Ky Ebright, de óculos escuros, sorria e acenava para quem passava. Al Ulbrickson, por sua vez, estava sentado no píer em frente à garagem de Washington com uma roupa inusitadamente colorida – boné branco, suéter listrado de amarelo e a gravata roxa da sorte que lhe fora presenteada por Loyal Shoudy em 1926. Solicitado por um grupo de repórteres a comentar a corrida, Ulbrickson cuspiu na água, mastigou uma haste de capim e lançou um demorado olhar sobre o rio encrespado antes de dizer: “Vai ser rápida se alisar um pouco mais.”

Royal Brougham seguiu adiante. Ele sabia que aquilo era tudo o que os jornalistas conseguiriam arrancar de Ulbrickson.

No fim da tarde, centenas de pessoas lotavam o cais da rua principal à espera das balsas que as levariam à estação do trem de observação. Brougham observou dezenas de barcos menores, a motor e a remo, transportando ao outro lado do rio todo tipo de gente – mulheres levemente embriagadas com chapéus coloridos da Quinta Avenida, homens gordos com tocos de charuto na boca, velhos com casacos de guaxinim portando estandartes de universidades.

Um a um, os calouros entraram em seus barcos e começaram a remar rio acima até a linha de largada, próxima à garagem de barcos da Universidade de Colúmbia – um edifício tão elegante quanto qualquer sede de clube campestre da Costa Leste. Pouco antes das 18 horas, Royal Brougham embarcou no trem de observação, na margem ocidental do Hudson, antes de ele começar a retroceder até a linha de largada da primeira prova trazendo consigo o carro da imprensa e 23 vagões abertos com arquibancadas lotadas de torcedores sob toldos de lona branca. Cerca de 90 mil pessoas se enfileiravam em ambas as margens do rio – o maior público da competição em muitos anos. A brisa abrandara. As águas plácidas e vítreas do Hudson refletiam a luminosidade do entardecer tingido de bronze. Ulbrickson estava certo. A corrida seria rápida.

A caminho da linha de largada no trem de observação, Tom Bolles, com seu indefectível chapéu da sorte, tinha muito o que ponderar. Fora informado da demissão de Charlie Whiteside. Sabia, como todo mundo, que Harvard estava disposta a pagar caro pelo treinador de sua preferência e não ignorava que seu nome estava no topo da lista. Se seus rapazes vencessem uma vez mais, ele receberia uma oferta. E, dessa vez, provavelmente iria aceitar.

Seus rapazes não o decepcionaram. Trabalharam bem e rápido. Quando a corrida começou, às 18 horas em ponto, Academia Naval e Califórnia logo tomaram a frente. Washington remava a pouca distância dos líderes, à voga relativamente baixa de 32 por minuto. Com puxadas calmas e eficientes, dominou pouco a pouco a Academia Naval e pôs-se logo atrás da Cal. Na marca de uma milha, à altura da ponte ferroviária, assumiu uma pequena vantagem. Califórnia acelerou várias vezes, mas Washington manteve-se à frente ainda ao ritmo de 32. Com uma arrancada no último quarto de milha, Cal chegou a obter uma mínima vantagem, logo desfeita quando o timoneiro Fred Colbert soltou o freio: ao ritmo de 39, Washington arrancou para cruzar a linha com um barco inteiro de vantagem. Foi assim que Washington ganhou a corrida, mas perdeu Tom Bolles.

Uma hora depois foi dada a largada das segundas guarnições, uma corrida notavelmente similar em que Washington, uma vez mais, teve pouco trabalho com seus adversários. Academia Naval e Cornell saíram na frente colocando um quarto de barco sobre Washington, cujo timoneiro, Winslow Brooks, logo percebeu que poderia manter a posição remando à voga tranquila de 30 ou 31. Na popa, ele se limitava a assistir de camarote à batalha entre os líderes. Manteve-se assim na primeira milha e meia e, sem aumentar o ritmo, foi emparelhando com Annapolis e Berkeley. Faltando uma milha, Brooks aumentou a voga para 37. De repente, era como se Academia Naval e Cornell estivessem remando sobre um rio de cola: Washington, longe da vista dos adversários, ampliava sua vantagem a cada remada. Cruzou a linha com três barcos de vantagem sobre a Academia Naval e ampliando a distância sobre os demais concorrentes enfileirados na retaguarda.

Enquanto os últimos barcos ainda cruzavam a linha e os aplausos começavam a arrefecer, um audível murmúrio começou a reverberar às margens do rio. O público se dava conta de que Washington, pela segunda vez em dois anos, estava a ponto de ganhar todas as provas e de que a Califórnia poderia se tornar a segunda universidade a ganhar a corrida principal pelo quarto ano seguido e a primeira a disputar três Olimpíadas consecutivas. Mas ainda havia esperança para a Costa Leste. Cornell, ou quem sabe a Academia Naval, talvez a redimisse.

Enquanto o trem de observação se movia rio acima para o início da prova principal, a tensão crescia quase a ponto de se ouvirem estalidos de eletricidade estática no ar. A multidão se agitava. Embarcações apitavam. Estudantes se abraçavam cantando hinos. Em poucos minutos se veriam uma grande vitória e várias grandes derrotas.

Já instalado no Husky Clipper quatro milhas rio acima, logo abaixo de Krum Elbow, Joe Rantz percebeu, pelo número de detonações que vinham lá de baixo, que a

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2 guarnição de Washington, na raia número cinco, havia vencido a prova. Em silêncio, ergueu o punho no ar. Shorty Hunt e Roger Morris fizeram o mesmo.

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Metade da 2 guarnição saíra do seu barco de segundanistas de 1935; todos decepcionados por não poderem estar onde agora estavam Joe, Shorty e Roger, à espera da largada da corrida principal marcada para as 20 horas.

O sol se deitara às 19h30 atrás da encosta da margem ocidental do rio. Seus últimos raios tocavam as torres das igrejas de Poughkeepsie, na outra margem. Rio abaixo, o crepúsculo caía sobre a superfície como um manto de gaze cinzenta e as águas refletiam a cor do céu em fortes tons de violeta. Uma linha de barcos-baliza se estendia de um lado a outro do rio, marcando a linha de largada. Longe, rio abaixo, viam-se as luzes bruxuleantes das vigias dos grandes iates ancorados perto da chegada. Um trem de passageiros passou na margem oriental soltando rolos de fumaça. Na ocidental, o trem de observação parou bem na altura das balizas da linha de largada. Um pouco além, um operador de telégrafo sentava-se perigosamente num barranco sobre o rio, com um teclado e um fio de cobre que subia o morro até um poste onde o conectara à linha principal, pronto para informar ao mundo o início da prova. Joe e seus companheiros se aproximaram da largada para tomar posição. Na popa, Bobby Moch repassava com eles, pela útima vez, o plano de corrida. Em Seattle, Hazel Ulbrickson trancou a porta da frente para não ser incomodada durante a corrida. Joyce teve permissão da Sra. Tellwright para ligar o grande rádio da sala de estar.

Num vagão do trem de observação cheio de jornalistas e ex-alunos de Washington, George Pocock e Tom Bolles andavam de um lado para outro. Al Ulbrickson estava sentado sozinho, em silêncio, mascando metodicamente um chiclete, de olho, por debaixo da aba de seu boné, no local onde agora estava Joe. Washington caíra na pior raia, a sete, lá longe, no meio do rio, corredor em que o vento e as correntes eram sempre mais fortes e de onde até enxergar o barco era difícil àquela hora da noite. Tal como em 1935, Califórnia caíra na raia um, a mais protegida, aconchegada sob o aterro da estrada de ferro, bem debaixo do nariz de Ulbrickson.

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Dez anos atrás, nesse mesmo lugar, o próprio Ulbrickson levara a 1 guarnição de Washington à conquista do título nacional. Desde então, o feito não se repetira. Ulbrickson lembrou o juramento feito à esposa e a promessa não cumprida a Seattle no ano anterior. E viu os Jogos Olímpicos assomando à sua frente. Quase tudo o que Al Ulbrickson queria da vida se decidiria nos 20 minutos seguintes.

Às 20 horas em ponto o juiz de largada gritou: “Estão prontos?” Dois timoneiros levantaram a mão. Depois de aguardar um ou dois minutos, gritou novamente. “Estão prontos?” Três timoneiros ergueram a mão. O juiz esperou que as guarnições fizessem os ajustes finais e, exasperado, gritou pela terceira vez: “Estão todos prontos?” Desta vez, sete braços se ergueram.

Dada a largada, os barcos se lançaram à frente enquanto o telegrafista

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encarapitado no alto da encosta informava ao mundo que a prova principal da 38 Regata Anual de Poughkeepsie já estava em andamento.

Os sete barcos se mantiveram rigorosamente emparelhados nas cinco primeiras remadas, com as guarnições puxando a toda força. Foi então que, de súbito, Washington cedeu, ficando atrás de todos os demais. Para Bobby Moch, no entanto, estava tudo certo. Era exatamente o que queria. Estabilizado à voga constante de 28 remadas, começou a ver as costas dos timoneiros rivais desaparecerem no crepúsculo. Para transmitir confiança aos rapazes passou a entoar, na cadência das remadas, seu mais novo mantra – “Poupar, poupar, poupar” –, a fim de lembrá-los que a meta era conservar energia.

Pensilvânia, Academia Naval e Califórnia se projetaram rapidamente à frente do pelotão remando em voga alta no início e reduzindo em seguida, gradualmente, para trinta e poucas. Na marca da meia milha Washington era sétimo e último, quase cinco barcos atrás dos líderes. Syracuse e, surpreendentemente, a poderosa Cornell – a Grande Esperança Vermelha da Costa Leste – continuavam bem atrás com Washington, talvez jogando o mesmo jogo.

Nessa altura, Bobby Moch começou a se aproximar da raia de Syracuse. Estava pensando à frente. Debaixo da ponte da estrada de ferro, a raia do Husky Clipper passava por um ponto onde a água redemoinhava atrás de um pilar e refluía rio acima. Se eles entrassem no redemoinho poderiam perder segundos preciosos. A única maneira de evitá-lo era remar sobre a linha divisória entre a sua raia e a de Syracuse. O Husky deslizou sobre ela até suas pás quase tocarem as pás laranjas do rival. Furioso, o timoneiro de Syracuse começou a berrar palavrões para Moch. Quando Washington emparelhou, Moch inclinou-se sorrindo na sua direção e disse, com sua voz profunda de barítono: “Vá se danar, Syracuse.” Enquanto o timoneiro de Syracuse urrava, seus rapazes fraquejavam e o barco ficava para trás.

Na marca de uma milha, para espanto dos torcedores no trem de observação, Colúmbia subira para terceiro passando a Califórnia e estabelecendo-se atrás da Academia Naval e da Pensilvânia. Os nova-iorquinos do trem exultaram ao ver Nova York passar Berkeley. Na milha e meia, porém, a Califórnia já deixara novamente Colúmbia e Pensilvânia para trás. Academia Naval, Califórnia e Pensilvânia estavam agora agrupadas, bem à frente, alternando-se na liderança. Washington seguia quatro barcos atrás dos líderes. Cornell, aparentemente com problemas, seguia perto de Washington. Syracuse ficara bastante para trás.

No vagão da imprensa, os repórteres e treinadores de Washington foram murchando pouco a pouco, desanimados com a distância que separava o Husky Clipper dos barcos mais à frente. Alguns murmuravam: “Vamos Bobby, para cima, para cima.” Ulbrickson, calado e sereno como uma esfinge, mascava lentamente o chiclete, de olho no percurso já meio imerso na escuridão. De Washington só conseguia ver as extremidades brancas das pás dos remos aparecendo e desaparecendo ritmadamente na água, ainda à voga tranquila, constante e calculada de 28 remadas por minuto. A qualquer momento Bobby Moch entraria em ação como planejado.

Nas duas milhas, a Pensilvânia começou a esmorecer, ficando atrás de Colúmbia. Califórnia e Academia Naval brigavam pela liderança. Cornell foi ultrapassada por Washington, que assumiu a quinta posição. Mas Bobby Moch não modificara sua cadência. No vagão, Ulbrickson começou a se inquietar. Moch fora orientado a não deixar os líderes se distanciarem mais de dois barcos. Estavam a quatro. Ele já deveria ter começado a acelerar. Não era esse, definitivamente, o plano de corrida. Tom Bolles e George Pocock assistiam a tudo com visível impaciência. Aquilo começava a parecer suicídio. No barco, porém, Bobby Moch dizia a Don Hume: “Não se apresse. Podemos pegá-los na hora que quisermos.”

Na marca das duas milhas e meia, a situação era essencialmente a mesma: Califórnia e Academia Naval bem à frente, com Colúmbia em seu encalço; Washington ultrapassara com facilidade a Pensilvânia, já enfraquecida, mas seguia com assustadores quatro barcos de desvantagem. Mastigando o chiclete, Ulbrickson seguia o bruxuleio das pás brancas junto à linha d’água sem transparecer hesitação. Mas já começava a se preocupar. O que Moch estava fazendo? Por que diabos não soltava logo o freio?

No barco, Bobby Moch avaliou a distância entre sua proa e a popa da Califórnia – quatro barcos – e convocou, finalmente, os rapazes: “Vamos lá, pessoal! Estamos um barco atrás.”

Os milhares de torcedores posicionados na beira do rio, nos iates e nas outras embarcações ancoradas na zona de chegada em Poughkeepsie ainda não conseguiam ver os barcos, mas já ouviam os timoneiros berrando como focas na escuridão do rio. Os berros foram se aproximando e logo as proas de três barcos começaram a surgir, à luz do crepúsculo, um pouco além da ponte ferroviária. Um clamor se ergueu quando a multidão conseguiu distingui-los. Academia Naval vinha emparelhada com Califórnia, aparentemente absolutas, com Colúmbia em terceiro para surpresa geral. Cornell, também para surpresa geral, não estava à vista, mas pelo menos a Costa Leste tinha um barco na disputa, quem sabe dois. Quase ninguém notou o barco de Washington, que parecia arrastar-se com dificuldade no meio do rio, tão atrás que mal dava para vê-lo na crescente escuridão.

Ao passar sob o esqueleto negro da ponte ferroviária, Washington ainda levava três barcos de desvantagem faltando uma milha para o final. Os líderes vinham num ritmo um pouco mais lento, permitindo a redução da distância, mas se Moch aumentara o ritmo não dava nem para perceber.

Os rapazes de Washington remavam agora numa espécie de transe, como que fora de si, mas absolutamente conscientes de cada movimento uns dos outros. Quase nada se escutava no meio do rio, salvo a toada de Moch, o atrito dos remos nas forquetas, a respiração profunda e ritmada dos rapazes e a pulsação de seus corações retumbando nos ouvidos. Quase não havia dor. Na posição cinco, Stub McMillin se deu conta, espantado, de que ainda respirava pelo nariz após três milhas de corrida completadas.

No trem, Al Ulbrickson não entregava os pontos. “Eles estão muito atrás”, ruminava. “Estão forçando demais a barra. Com sorte, chegaremos em terceiro.” Seu rosto estava pálido e rígido feito pedra. Nem o chiclete ele mastigava mais. A Califórnia, na raia um, tornara a aumentar a diferença remando maravilhosamente. Com os adversários já cansados lá atrás e menos de uma milha para o final, Cal vinha absoluta para ganhar novamente. Ky Ebright, uma vez mais, fora mais esperto do que Ulbrickson.

Mas se houve dessa vez alguém mais esperto que Ulbrickson foi seu próprio timoneiro – o baixinho com sua própria chave Phi Beta Kappa. Chegada a hora de mostrar as cartas, ele se inclinou na direção de Don Hume e comandou: “Quero 10 fortes para Ulbrickson!” Os oito longos remos de abeto se curvaram 10 vezes dentro da água. Ato contínuo, Moch gritou novamente: “Quero mais 10 para Pocock!” Mais 10 puxadas intensas. Em seguida, uma mentira: “Olhe a Califórnia! Estamos em cima! Outras 10 fortes para mamãe e papai!”

O Husky Clipper passou por Colúmbia vagarosamente e foi se aproximando da Academia Naval, que vinha em segundo. No trem, alguém observou, sem muita convicção: “Washington começou a andar, finalmente.” Um minuto mais tarde, alguém gritou, com muito mais urgência: “Olhe lá Washington! Olhe lá Washington! Lá vem Washington!”

No trem e no litoral, todos os olhos se voltaram dos líderes para as oito pás brancas mal visíveis no meio do rio. Outro rugido, profundo, gutural, ergueu-se da multidão. Parecia impossível que Washington fosse capaz de recuperar aquela distância. A meia milha do final estava ainda em terceiro, dois barcos atrás. Mas acelerava, e a forma como o fazia exigia atenção imediata e absoluta.

No barco, um incandescente Moch berrava “Vamos! Agora! Agora!”, levando Don Hume a aumentar para 35, depois para 36 e logo para 37. Joe Rantz, a boreste, ia atrás dele, remando com a suavidade da seda. Com a guarnição em sincronia, o barco começou a voar. Passou pela Academia Naval como se ela estivesse ancorada.

Grover Clark, o timoneiro da Califórnia, olhou para trás e, pela primeira vez desde a largada, viu o barco de Washington avançando sobre a sua ré. Atônito, mandou a guarnição acelerar. Califórnia foi a 38. Moch mandou Hume subir um ponto mais, levando Washington a 40. Já sem o mesmo ritmo, Cal pareceu hesitar e, então, a ficar instável.

A 500 metros do fim, Califórnia e Washington irromperam pelo corredor aberto entre os barcos da assistência sob o clamor da multidão. Nos barcos a remo havia gente em pé, arriscando-se a cair na água para ver a disputa. Vapores de excursão adernavam sob o peso das pessoas aglomeradas nas amuradas. Lanchas acionavam suas buzinas. No píer em frente à garagem de Washington, Evanda May Calimar incentivava os rapazes gritando e acenando com uma frigideira sobre a cabeça. O vagão da imprensa de Washington era um pandemônio: George Varnell, do The Seattle Times, enfiou sua credencial na boca e começou a devorá-la; Tom Bolles batia com seu chapéu da sorte nas costas de um estranho; Royal Brougham gritava: “Vamos, Washington! Vamos!” Apenas Al Ulbrickson permanecia calado, imóvel, agarrado ao seu assento, os olhos como duas pedras cinzentas e geladas fixas nas pás brancas junto à linha d’água. Joe Williams, do World-Telegram, olhou-o de soslaio e pensou: “Esse cara tem água gelada nas veias.”

Com a linha de chegada assomando à sua frente, Bobby Moch emitia comandos incompreensíveis. Johnny White, na posição três, teve de repente a sensação de estarem voando, não remando. Stub McMillin queria desesperadamente dar uma olhada na raia onde sabia estar a Califórnia, mas não se atreveu. Na seis, Shorty Hunt pôde ouvir, por sobre o ruído da multidão, uma voz berrando freneticamente em algum rádio. Tentava entender as palavras, mas só dava para perceber que algo muito emocionante devia estar acontecendo. Não fazia ideia de como estavam as coisas, salvo que o barco da Califórnia ainda não aparecera em seu campo de visão. Mantinha os olhos grudados na nuca de Joe Rantz e remava com todo o seu coração. Joe reduzira tudo a uma única ação, um movimento contínuo, um pensamento: o antigo mantra da guarnição passando em sua cabeça como um rio, ecoando sem parar não na própria voz, mas no nítido sotaque britânico de George Pocock: “C-N-B, C-N-B, C-N-B.”

Nos últimos 200 metros, os próprios pensamentos cessaram e a dor caiu de repente, violenta, sobre todos os que estavam no barco, queimando-lhes as pernas, os braços e os ombros, agarrando-se às suas costas, rasgando seus corações e pulmões enquanto eles engoliam em seco, desesperados, em busca de ar. Foi nesses últimos 200 metros que, numa extraordinária explosão de velocidade a 40 remadas por minuto, Washington superou a Califórnia. Cada remada equivalia a um assento de vantagem sobre o adversário. Ao cruzarem a linha, sob os últimos vestígios de luz do crepúsculo, já se via luz entre a popa do Husky Clipper e a proa do California Clipper.

No vagão de imprensa, Al Ulbrickson contraiu, relutante, os cantos da boca em algo vagamente parecido com um sorriso e voltou a mascar, de forma lenta e metódica, o chiclete. Em pé ao seu lado, George Pocock jogou a cabeça para trás e uivou como um lobisomem. Tom Bolles continuou a açoitar as costas do colega à frente com seu velho chapéu. George Varnell tirou da boca o que restava da sua credencial de jornalista. Em Seattle, Hazel Ulbrickson e o filho Al Jr. bateram com tanta força no tampo de vidro da mesa que ele se partiu em dezenas de pedaços. Na ponte rodoviária, Mike Bogo teve o prazer especial de detonar sete bombas em rápida sucessão. No barco, os rapazes socaram o ar com os punhos erguidos.

Ulbrickson ficou um bom tempo olhando para a escuridão enquanto os fãs entravam correndo no vagão para parabenizá-lo. Ao se levantar, finalmente, já cercado de repórteres, disse simplesmente: “É. Foi por pouco, mas ganhamos.” E arrematou: “Acho que o nanico sabia o que estava fazendo.”

Washington era agora campeã nacional de remo. Era também a primeira

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universidade a “passar o rodo” no Hudson desde 1912. A incrível façanha de seu 1 barco, atropelando desde as últimas posições, fora uma vitória histórica por seu alcance e sua emoção. No centro de imprensa da estação ferroviária de Poughkeepsie, jornalistas esportivos escreveram suas matérias sem poupar superlativos. Robert Kelley, do The New York Times, classificou-a como “um dos pontos altos da história de Poughkeepsie”. Herbert Allan, do New York Post, chamou-a de “espetacular e sem precedentes”. George Timpson, do The Christian Science Monitor, qualificou-a como “brilhante”. James Burchard, da World-Telegram, foi quem deu a descrição mais original: “Uma aula de psicologia, coragem e inteligência. O cérebro de Moch foi o melhor remo de Washington.” Royal Brougham pensou muito antes de definir a atuação de Bobby Moch. Acabou se decidindo por: “Muito sangue-frio.”

Al Ulbrickson foi para a água em sua lancha a fim de acompanhar os rapazes até a garagem. Vendo-os remar sem esforço na cálida noite de verão com a precisão e a elegância que já estavam se tornando sua marca, pegou o megafone e berrou ainda mais alto que os estampidos do motor: “É isso aí! Por que vocês não remaram assim na corrida?”

Os rapazes se entreolharam, com sorrisos amarelos. Ninguém sabia se ele estava brincando ou não.

Estava, mas o comentário não era gratuito. Para alcançar seu objetivo Ulbrickson teria que derrotar Ebright novamente. Em pouco menos de duas semanas, Washington disputaria duas provas curtas de 2 mil metros pelo direito de representar os Estados Unidos em Berlim. Numa delas, a Califórnia estaria na raia ao lado buscando a doce vingança de carimbar seus passaportes para a Alemanha. Ulbrickson não queria ninguém de salto alto. E, apesar de empolgado com a vitória, não estava satisfeito com a insubordinação de Bobby Moch. Precisava, portanto, fazê-los se lembrar de quem estava no comando.

Fosse como fosse, Ulbrickson, o Dinamarquês Durão, sentia necessidade de dizer algo compatível com a ocasião. Ao chegarem à garagem, encontraram centenas de fãs disputando espaço no píer e outros tantos aplaudindo e assoviando na porta. Para alegria dos presentes, logo ao sair do barco, os rapazes jogaram Bobby Moch no Hudson. Depois de resgatá-lo, abriram caminho em pelotão até o interior do prédio e fecharam as portas. Só alguns jornalistas de Seattle puderam entrar. Ulbrickson subiu num banco e os rapazes se sentaram no chão ao seu redor, ainda com as camisas dos adversários derrotados nas mãos.

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Ele começou a falar: “Hoje vocês fizeram história, guarnição de calouros, 2

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guarnição, 1 guarnição e timoneiros. Estou orgulhoso de vocês. Todos os filhos e filhas de Washington estão orgulhosos de vocês (...). Nunca na história uma guarnição remou com tanta garra pelo mais cobiçado prêmio do remo nacional

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quanto fez hoje o 1 barco de Washington. Só posso lhes dizer que estou orgulhoso e muito feliz.” Fez uma pausa e olhou ao redor da sala antes de arrematar: “Acho que nunca mais vou ver uma atuação como a de hoje.” E desceu. Ninguém comemorou. Ninguém se levantou nem aplaudiu. Ficou todo mundo sentado, absorvendo o momento em silêncio. Na tormentosa noite de janeiro de 1935 em que Ulbrickson pela primeira vez falou abertamente em disputar as Olimpíadas, todos se levantaram e aplaudiram. Naquela ocasião, parecia um sonho. Agora, no entanto, que estavam prestes a realizá-lo, era como se festejar fosse arriscado.

 

Bobby Moch

CAPÍTULO 15

 

 

Aí reside o segredo das guarnições bem-sucedidas: a sincronia, essa quarta dimensão do remo que só alguém que já remou numa guarnição sincronizada sabe exatamente do que se trata – o indescritível prazer proporcionado pelo trabalho de impelir o barco à frente.

– George Yeoman Pocock

 

“Pelo quarto ano consecutivo os rudes forasteiros do Extremo Oeste dominaram o Hudson”, escreveu Joe Williams, do New York World-Telegram, no dia seguinte ao das corridas de Poughkeepsie. “A regata perdeu seu formato e seu conteúdo originais. Não é mais um espetáculo do Leste (...). Quando não vence uma equipe do Oeste, vence outra (...). Washington levou tudo o que havia para ser levado do rio ontem. O povo da cidade agradeceu aos visitantes a decência de deixarem as pontes e as balsas.” E prosseguiu, presumivelmente em tom de brincadeira, pedindo ao presidente Roosevelt que fizesse algo para contornar aquela “situação altamente preocupante”.

Apesar do tom irônico, o conteúdo do artigo de Williams não era brincadeira para milhares de fãs do remo na Costa Leste – suas universidades pareciam estar se tornando irrelevantes numa regata concebida por elas mesmas para pôr à prova e demonstrar a sua perícia na arte do remo.

Mas não foram somente os jornalistas esportivos e aficcionados do Leste que se viram diante de uma nova realidade após a regata de 1936. Ky Ebright tinha exata noção do que vira na corrida principal e era inteligente e diplomático o bastante para reconhecê-lo com franqueza. Na partida para a seletiva olímpica de Princeton, onde teria sua última chance de derrotar Washington, ele apontou para Joe e seus companheiros e declarou: “Esta é a melhor guarnição do país. É o barco que deve ir a Berlim. E o resto do mundo terá que apresentar algo excepcionalmente bom para derrotá-los nas Olimpíadas.”

Não se tratava do habitual jogo de “subestimar as próprias chances” que ele e Ulbrickson costumavam jogar às vésperas das corridas. Ebright estava sendo sincero, até porque precisava conter as expectativas em Berkeley. Tentaria conquistar a vaga olímpica em Princeton, mas não ignorava o efeito desmoralizante que tivera sobre a sua guarnição a vitória quase sobrenatural de Washington em Poughkeepsie, engendrada pelo frio e calculista Bobby Moch. A maneira cerebral como Washington vencera a prova era um desafio e uma ousadia, mas, principalmente, um aviso. Moch deveria ter corrido com uma bandeira hasteada na popa com os dizeres: “Não pise em mim” e a figura de uma cascavel enrolada.

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Depois de uma semana inteira de exercícios e descanso em Poughkeepsie, em 1 de julho de 1936 os rapazes fizeram as malas, puseram o Husky Clipper no vagão de bagagens e partiram para a seletiva olímpica. Chegaram em Princeton às 18 horas. Era seu primeiro contato com a Ivy League – o grupo das instituições universitárias mais tradicionais dos Estados Unidos –, um mundo de status e tradição, de sofisticação e premissas sociais implícitas, habitado por filhos de banqueiros, advogados e senadores. Para os rapazes de Washington, oriundos de famílias proletárias, aquele era um terreno movediço, mas fascinante.

Continuar: parte 3 de 5