Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 5 de 10 · parte 5/5

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Meninos de Ouro

Quarta parte – 1936 – Tocando o Divino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Dois mil metros rio acima, junto à linha de largada, fora construído um passadiço de 100 metros para dentro do lago onde ficavam os fiscais – jovens uniformizados – encarregados de segurar a popa dos barcos à espera da ordem de largada. Bem atrás do passadiço, e estranhamente fora da vista dos timoneiros, o juiz de largada ocupava uma plataforma construída sobre a superestrutura de uma chata. Centenas de jornalistas internacionais com blocos de anotações e câmeras lotavam a margem oposta. Perto deles, uma frota de automóveis ficava preparada para levá-los rapidamente à linha de chegada, de modo que pudessem testemunhar tanto o início quanto o fim de cada prova. Num barco colocado atrás da linha iam um transmissor de rádio e um locutor cuja missão era narrar a prova, remada a remada, para que espectadores e repórteres colocados junto à linha de chegada pudessem acompanhar, pelos alto-falantes, o progresso dos barcos antes que entrassem em seu campo de visão.

 

Aguardando para irem atrás do ouro

Havia umas 25 mil pessoas no estádio no momento em que Joe e os rapazes saíram para a linha de largada, pouco antes das 17h15. Eles posicionaram o Husky Clipper na raia um, com a popa junto ao passadiço, e aguardaram. Ao seu lado, na raia dois, a guarnição britânica de Ran Laurie e Noel Duckworth fez o mesmo. Duckworth fez um aceno de cabeça para Bobby Moch, que retribuiu o gesto.

A largada foi dada precisamente às 17h15. Uma vez mais, os americanos começaram mal. Tal como em Princeton, alguém no meio do barco “espanou” na primeira ou segunda remada. Os japoneses, na raia quatro, tomaram rapidamente a liderança da prova golpeando a água com seus remos e puxadas curtas ao ritmo de umas 50 remadas por minuto. Noel Duckworth e Ran Laurie saíram forte no barco britânico, mas logo reduziram para se estabelecer em segundo, atrás dos japoneses, seguidos de Tchecoslováquia, França e Estados Unidos, em último, remando à voga de 38.

Moch e Hume mantiveram a cadência até ultrapassar os tchecoslovacos, na marca dos 300 metros, e aliviaram em seguida para 34. Os japoneses, ainda remando como que possuídos pelo demônio, aumentaram a vantagem sobre os britânicos para um barco. Mas nem Moch nem Duckworth estavam pensando nos japoneses. Estavam preocupados um com o outro. Nos 700 metros seguintes, os barcos mantiveram suas posições relativas. Ao se aproximarem de metade da prova, porém, de forma repentina e previsível os exaustos japoneses começaram a esmorecer e foram ficando para trás, junto com os tchecos. O mesmo aconteceu com os franceses. Restaram os americanos e os britânicos, exatamente onde esperavam estar, sozinhos à frente do pelotão, com as arquibancadas e as garagens de barco começando a entrar no seu campo de visão. Agora seria um jogo de gato e rato.

Moch pediu a Hume um pouco mais de voga para ver o que iria acontecer. Subindo a 36, os americanos chegaram a meio barco de distância dos britânicos. Duckworth olhou por cima do ombro e pediu a Laurie que fosse a 38. O avanço americano cessou. Os britânicos seguiam na frente, e ambas as equipes já ouviam o bramido da multidão. No entanto, nenhum dos dois timoneiros se decidira ainda a soltar o freio, mesmo com as arquibancadas e a grande placa preto e branca da linha de chegada – “Ziel”– já à vista. Enquanto os britânicos faziam puxadas lentas e largas, quase se deitando no barco ao fim de cada remada, os americanos preferiam remadas mais curtas, com muito menos tempo de recuperação.

Faltando 250 metros para o fim, Moch gritou: “Agora, pessoal. Agora! Quero 10!” Os rapazes puxaram com vontade e a bandeira americana na proa do Husky Clipper passou por Duckworth chegando à metade do barco britânico. Duckworth e Laurie subiram a 40 por minuto. Por um momento, as posições se estabilizaram, as pás brancas do barco americano brilhando velozmente junto às pás vermelhas dos britânicos. Então Bobby Moch comandou um novo aumento da cadência e o Clipper voltou a avançar.

No barco britânico, Ran Laurie remava com fúria. Ainda tinha bastante energia e queria fazer mais. O seu remo, no entanto, como o de todos os vogas britânicos daquela época, tinha uma pá mais curta e estreita do que as do restante da guarnição – por causa da concepção de que a tarefa do voga era ditar o ritmo, não impelir o barco. Com uma pá menor, ele evitava perder o ritmo por efeito do cansaço. Por outro lado, não podia usar todo o seu potencial na água. Perigava terminar a corrida mais importante da sua vida sem sequer chegar perto de se exaurir – a última coisa que passa pela cabeça de qualquer remador.

Faltando 150 metros, o barco britânico ainda liderava. Mas os americanos haviam entrado em sincronia e iriam se manter assim. Com a força de sempre, cortavam agora a água à voga de quase 40 remadas por minuto, imensas, num movimento pendular tão perfeito que era como se fizessem parte do próprio barco. Todos os músculos, tendões e ligamentos de seus corpos ardiam em brasa, mas eles remavam além da dor, em perfeita e impecável harmonia. Nada iria detê-los. As 20 últimas remadas, em especial as incríveis 12 finais, os levaram à frente dos britânicos de modo categórico e inequívoco. Nas arquibancadas, os cerca de 25 mil espectadores – boa parte deles americanos – aplaudiam de pé quando o barco dos Estados Unidos cruzou a linha de chegada, 6 metros à frente do britânico. Um instante depois, Don Hume tombou sobre o seu remo.

Moch passou um minuto espirrando água no rosto de Hume até ele se endireitar no assento e ajudar a levar o barco para o cais. Lá, uma excelente notícia os aguardava: seu tempo – 6m00s8 – era o novo recorde do percurso. Melhor ainda, era o novo recorde olímpico e mundial, superando os 6m03s2 da Califórnia em 1928. Ulbrickson, ao chegar ao flutuante, agachou-se ao lado do barco e, com um sorriso enigmático, disse em voz baixa: “Belo trabalho, rapazes.”

Joe nunca ouvira seu treinador falar naquele tom de voz. Era mais do que respeitoso. Beirava a deferência.

Naquela noite, à hora do jantar, os rapazes entraram exultantes no refeitório da academia de polícia. Os britânicos precisariam vencer uma das provas de respescagem para estar entre os seis concorrentes à medalha de ouro. Eles, ao contrário, teriam um dia inteiro de folga. Al Ulbrickson, no entanto, não demonstrava nenhuma alegria. Profundamente preocupado com Hume, mandou-o de volta para a cama logo depois do jantar. O garoto parecia um morto-vivo. Seu mal era obviamente mais grave do que um mero resfriado – uma infecção nos brônquios ou uma pneumonia. O fato era que Ulbrickson precisava decidir quem ocuparia a posição de voga na disputa da medalha de ouro dali a 48 horas.

No dia seguinte, após o almoço, os rapazes saíram pela cidade. Brincaram uns com o outros, olharam vitrines, tiraram fotos com suas câmeras novas, compraram uma ou outra lembrança e exploraram recantos ainda não visitados de Köpenick. Como a maioria dos americanos de visita a Berlim naquele verão, eles acharam a nova Alemanha um país bastante agradável: limpo, habitado por gente amistosa ao extremo, muito organizado e eficiente e cheio de garotas bonitas. Köpenick era encantadoramente pitoresca, e a arborizada Grünau, muito verde e bucólica – ambas tão agradáveis e pacíficas quanto qualquer lugar do estado de Washington.

Havia, porém, uma Alemanha invisível aos rapazes, oculta pela propaganda e pelo tempo. Para além da remoção dos avisos antissemitas – “Für Juden verboten”, “Juden sind hier unerwünscht” –, da prisão e do isolamento dos ciganos e da retirada de circulação do pérfido jornal Stürmer, em Köpenick se ocultavam segredos muito maiores e mais sinistros.

Eles ignoravam que as águas do rio Spree e do lago Langer estavam manchadas de sangue desde junho de 1933, quando a SA capturou centenas de judeus, social-democratas e católicos em Köpenick, torturou 91 deles até a morte – surrando-os até seus rins se romperem e derramando alcatrão quente em suas feridas – e jogou seus corpos mutilados nos plácidos canais da cidade. Eles não sabiam do campo de concentração de Sachsenhausen, em construção naquele mesmo verão ao norte de Berlim, onde em pouco tempo mais de 200 mil judeus, homossexuais, testemunhas de Jeová, ciganos, prisioneiros de guerra soviéticos, civis poloneses e universitários tchecos seriam mantidos prisioneiros e dezenas de milhares morreriam.

Eles não podiam ver muitas outras coisas por estarem um pouco à frente de seu horizonte temporal. Na imensa fábrica de tijolos amarelados da AEG Kabelwerk, nos arredores da cidade, milhares de trabalhadores escravos labutariam 12 horas por dia na fabricação de cabos elétricos, morando em alojamentos miseráveis até morrerem de tifo ou desnutrição. A linda sinagoga da rua Freiheit (Liberdade), número 8, seria saqueada e incendiada por bandos nazistas na noite de 9 de novembro de 1938, a Noite dos Cristais, ou Kristallnacht.

Se eles tivessem entrado na confecção dos Hirschhahn, teriam visto Richard e sua esposa, Hedwig, trabalhando nas máquinas de costura dos fundos da loja enquanto suas filhas – Eva, de 18 anos, e Ruth, de 9 –, atendiam os clientes. Os Hirschhahn eram judeus, membros da congregação da rua Freiheit e estavam profundamente preocupados com o rumo dos acontecimentos na Alemanha. Richard, porém, por ter lutado e sido ferido na Primeira Guerra Mundial, acreditava que ele e sua família estariam, no fim das contas, livres de todo mal. “Dei meu sangue pela Alemanha. Ela não vai me decepcionar”, costumava dizer a sua esposa e suas filhas. Ainda assim, depois de uma viagem de Hedwig a Wisconsin, nos Estados Unidos, os Hirschhahn começaram a pensar em se mudar para lá. Naquela semana, aliás, estavam hospedando amigos americanos que tinham ido assistir às Olimpíadas.

Se tivessem visitado a loja, os rapazes teriam visto a família inteira, mas não testemunhariam a noite em que os homens da SS foram buscar Ruth, a filha menor. Ruth morreria primeiro porque tinha asma e era frágil demais para trabalhar. Sua família seria deixada em Köpenick para trabalhar em regime de escravidão – Eva numa fábrica de munições da Siemens, seus pais numa fábrica de uniformes militares alemães – até março de 1943, quando a SS foi buscá-los também. Richard e Hedwig foram embarcados num trem com destino a Auschwitz. Eva conseguiu escapar e se esconder em Berlim até o fim da guerra. Foi a única sobrevivente de sua família. Uma milagrosa exceção.

Assim como os Hirschhahn, muitas das pessoas que os rapazes viram naquela tarde em Köpenick estavam condenadas – balconistas que os atenderam nas lojas, idosas passeando pelos jardins do castelo, mães empurrando seus carrinhos de bebês, crianças berrando de felicidade nos parquinhos, velhos passeando com seus cachorros –, todas, amadas e amorosas, destinadas a vagões de gado e à morte.

À noite os rapazes foram a Grünau assistir às provas de repescagem para saber quem se juntaria a eles, aos húngaros e aos suíços na disputa pelas medalhas. Surpreendentemente, nem os alemães nem os italianos – os que mais preocupavam Ulbrickson, fora os britânicos – haviam vencido suas séries classificatórias. Agora, porém, remando sob céu nublado, os alemães bateram com facilidade os tchecos e os australianos. Os italianos, por sua vez, esmagaram os frenéticos japoneses, os iugoslavos e os brasileiros. Ambos pareceram desacelerar no final, para poupar energia, obtendo tempos suficientes apenas para se classificar. Os britânicos, por sua vez, às voltas com os canadenses e os franceses, tiveram que fazer o melhor tempo do dia para vencer sua série. Mas venceram.

Al Ulbrickson sabia agora quais guarnições iria enfrentar na disputa da medalha de ouro: Itália, Alemanha, Grã-Bretanha, Hungria e Suíça. Qual não foi, porém, a sua surpresa ao ser informado da distribuição das raias. O Comitê Olímpico Alemão, dirigido por Heinrich Pauli, presidente da Comissão de Remo da Associação de Educação Física do Reich, e a Federação Internacional de Remo, dirigida pelo ítalo-suíço Rico Fioroni, haviam aplicado regras nunca usadas em Jogos Olímpicos anteriores. Ulbrickson não entendeu a fórmula e até hoje não está claro como ela funcionava; não se sabe nem se havia, de fato, uma fórmula. Certo é que o resultado foi o contrário da prática usual de atribuir as melhores raias aos competidores classificados com os melhores tempos. Ora, como todos em Grünau já estavam cientes, as melhores raias eram a um, a dois e a três, mais próximas à margem do lago, e as piores, a cinco e a seis, na parte aberta. Ulbrickson ficou furioso ao ver a distribuição oficial: raia um, Alemanha; raia dois, Itália; raia três, Suíça; raia quatro, Hungria; raia cinco, Grã-Bretanha; raia seis, Estados Unidos. Era quase exatamente o inverso do que se podia esperar com base nos tempos de classificação. Punia os barcos mais técnicos e rápidos e premiava os mais lentos. Dava as raias protegidas ao país anfitrião e seu maior aliado e as desprotegidas aos seus potenciais inimigos. Um critério profundamente suspeito, que colocava Ulbrickson diante do que mais temia desde o momento em que conheceu o percurso de Grünau. Se houvesse vento de proa ou lateral no dia seguinte, seus rapazes seriam obrigados a remar o equivalente a dois barcos de vantagem para conseguir apenas emparelhar com seus adversários.

Uma chuva fria e constante caía sobre Grünau na manhã seguinte, com fortes rajadas de vento na raia olímpica. E já não havia alegria na academia de polícia de Köpenick. Ulbrickson decidira que Don Hume, ainda de cama e com um novo pico de febre, não estava em condições de remar. Don Coy seria o voga da guarnição. Assim que todos se levantaram ele comunicou sua decisão a Hume e aos outros rapazes.

O bife com ovos mexidos do café da manhã foi comido em total silêncio. Ninguém olhava para nada nem para ninguém. Era inconcebível não estarem todos juntos no barco justamente na prova pela qual haviam trabalhado o ano inteiro – aliás, para a maioria deles, três longos anos. Quanto mais falavam no assunto, maior era a convicção de que aquilo não podia acontecer. Hume tinha que estar lá, de um jeito ou de outro. Eles não eram nove homens num barco – eram um time. Levantaram-se, então, todos ao mesmo tempo e foram falar com Ulbrickson. Stub McMillin, agora capitão e porta-voz da equipe, deu um passo à frente, pigarreou e expôs o ponto de vista do grupo: Hume era absolutamente vital ao ritmo do barco; ninguém sabia responder de forma tão rápida e equilibrada aos ajustes constantes que a guarnição era obrigada a fazer nas provas competitivas. Depois, foi a vez de Bobby Moch: Hume era o único capaz de adivinhar o que ele estava pensando só de olhá-lo nos olhos; precisava ter Hume à sua frente. Joe disse: “Treinador, se o senhor colocar Hume no barco, nós levaremos o garoto à linha de chegada. Amarre-o, se for preciso. Nem que seja só para ele estar junto conosco.”

Ulbrickson mandou que eles subissem e pegassem o equipamento porque o ônibus do exército alemão já estava à espera para levá-los a Grünau. E depois de alguns longos instantes, gritou-lhes, da escada. “E tragam Hume com vocês!”

Ainda chovia em Grünau no começo da tarde. Nuvens baixas cobriam as colinas de Müggelberg, acima da raia olímpica, e uma neblina filtrava-se pelos bosques até bem perto da água. A superfície do lago estava encrespada pelo vento. Todo o cenário era escuro e sombrio.

Mesmo assim, dezenas de milhares de espectadores, a maioria composta por alemães, afluíram ao estádio protegidos por guarda-chuvas, capas e chapéus. Todos muito animados, apesar do mau tempo. Na década de 1930, o remo era a segunda modalidade mais popular das Olimpíadas – depois do atletismo –, e nas provas classificatórias a Alemanha se mostrara altamente competitiva, se não favorita, para a conquista das medalhas. Enquanto uma multidão de torcedores cruzava a ponte flutuante e começava a lotar as arquibancadas de madeira no lado oposto às tribunas, milhares de outros se acotovelavam, debaixo de chuva, nos espaços gramados à beira do lago. Os mais afortunados, cerca de 3 mil, se acomodaram na tribuna coberta, bem em frente à linha de chegada. No momento da largada da primeira prova, havia mais de 75 mil espectadores no local, o maior público já reunido para assistir a uma prova olímpica de remo.

Torcedores alemães aguardando na chuva

Os cinegrafistas de Leni Riefenstahl andavam de um lado para outro mandando os espectadores saírem da frente das câmeras e cuidando de manter o equipamento a salvo da chuva. Na sofisticada sala de imprensa da Haus West, centenas de jornalistas de todo o mundo testavam seus teletipos e equipamentos de rádio de ondas médias e curtas. Bill Slater, comentarista da NBC, dava início à transmissão das provas para Nova York. Os juízes olímpicos testavam os aparelhos de cronometragem eletrônica na linha de chegada. O barco transmissor de ondas curtas tomava posição atrás da linha de largada. Nas garagens de barco ao longo do lago Langer, os remadores guardavam suas roupas nos armários e começavam a vestir os uniformes nacionais. Alguns recorriam a massagens para aliviar a tensão nos músculos das costas e dos ombros. Numa mesa de massagem que encontraram disponível, os americanos deitaram Don Hume todo embrulhado em agasalhos para mantê-lo seco, aquecido e o mais descansado possível. Enquanto isso, George Pocock aplicava uma camada de óleo de baleia ao fundo do casco do Husky Clipper.

Às 14h30, enquanto os rapazes se preparavam na garagem, foi dada a largada para a primeira final do dia – o quatro com timoneiro. Os suíços saíram na frente, mas foram rapidamente ultrapassados pelos alemães. Pelo bramido da multidão a entoar “Deutschland! Deutschland! Deutschland!”, os rapazes perceberam a aproximação do fim da prova, com os alemães à frente. De fato, eles venceram com oito segundos de vantagem sobre os suíços. Logo se ouviram as primeiras notas de “Deutschlandlied”, cantado por dezenas de milhares de vozes, seguido de um rugido ainda mais profundo e gutural a repetir “Sieg Heil! Sieg Heil! Sieg Heil!”.

Adolf Hitler chegara ao estádio de remo com uma grande comitiva de autoridades nazistas. Trajando uniforme escuro e capa de chuva, cumprimentou o presidente ítalo-suíço da Federação Internacional, Rico Fioroni, com um longo aperto de mão entre risos e comentários recíprocos. Em seguida, subiu para a grande varanda da Haus West e, com a mão direita erguida, ocupou seu lugar de honra diante da multidão e do percurso da regata. À medida que os membros da comitiva iam ocupando seus lugares ao lado do Führer, a multidão e a imprensa internacional se davam conta de que ele viera acompanhado do alto escalão da hierarquia nazista, com Joseph Goebbels à sua direita. A multidão continuou a entoar “Sieg Heil”, até que, finalmente, Hitler baixou o braço e as provas recomeçaram.

Os espectadores tiveram muitas outras oportunidades de fazer barulho. Naquela tarde, os remadores alemães deram um banho em seus adversários conquistando o ouro nas cinco primeiras provas. Ao final de cada uma, a bandeira nazista era hasteada em frente à Haus West enquanto a multidão cantava, cada vez mais alto, “Deutschland Über Alles”. Na varanda, Goebbels, de capa de chuva clara e chapéu, aplaudia de um modo teatral, quase burlesco, cada barco alemão que cruzava a linha. A cada vitória, Göring, de uniforme escuro e capa, dava um tapa no joelho e sorria para o Führer. Este, de binóculo, apenas assentia com a cabeça, satisfeito. Por volta das 17h30 a chuva diminuíra, o céu clareara e a multidão se agitava com a perspectiva de a Alemanha – apesar das previsões em contrário – vencer todas as provas do dia.

Na sexta prova, o double skiff, os alemães lideraram até os 250 metros finais, quando os britânicos Jack Beresford e Dick Southwood iniciaram uma bela arrancada para vencer com quase seis segundos de vantagem. Pela primeira vez naquele dia um estranho silêncio caiu sobre o estádio de remo de Grünau. Na garagem, onde fazia a regulagem final do equipamento do Husky Clipper, George Pocock se deu conta subitamente de que, atendendo a um velho hábito, interrompera por um momento sua atividade e aprumara o corpo para ouvir “God Save the King”.

Com a aproximação da última prova do dia, o oito com timoneiro, a multidão voltou a se entusiasmar. O oito era, em todos os países, a mais prestigiosa das provas do remo, aquela que melhor simbolizava o esforço coletivo de seus jovens em prol de um objetivo comum – sua máxima demonstração de força, beleza e ousadia na água.

Pouco antes das 18 horas, Don Hume se levantou da mesa de massagem onde estivera descansando e se juntou aos rapazes para pôr o Husky Clipper sobre os ombros e levá-lo para a água. Os alemães e italianos já estavam em seus barcos, estes de uniformes de seda azul-clara e bandanas brancas anarquicamente amarradas à cabeça ao estilo dos piratas, aqueles de camisetas e calções imaculadamente brancos com os símbolos da águia negra e da suástica. Os americanos vestiam calções de corrida descombinados e casacos de moletom surrados: não quiseram sujar os uniformes novos.

Enquanto um oficial da marinha alemã, em pé na proa de uma lancha próxima à margem do lago, estendia o braço direito em saudação ao Führer, Bobby Moch colocava o chapéu da sorte de Tom Bolles embaixo de seu assento na popa do barco. Os rapazes, por sua vez, ocuparam seus lugares e se ajustaram aos finca-pés. Então empurraram o barco para longe do flutuante e começaram a remar para a linha de largada. Al Ulbrickson, George Pocock e Royal Brougham, de binóculos em punho, subiram à varanda de uma das garagens próximas à linha de chegada com expressões carregadas. Por melhores que fossem seus pupilos, os três homens sabiam que suas chances de levar o ouro – remando na raia seis e com Don Hume mais parecendo um morto-vivo – eram quase nulas.

Era o início da manhã em Seattle. Fazia dias que as lojas de departamento, as lojas de eletrodomésticos, a loja de pianos Sherman Clay e até a joalheria Weisfield & Goldberg vinham fazendo vendas recorde dos novos rádios de gabinete Philco 61F Olympic Special. Nem o seu preço, 49,95 dólares, intimidou o povo de Seattle. O aparelho vinha com sintonizador de ondas curtas e uma antena especial de “grande alcance” para garantir uma recepção clara tanto da transmissão normal da NBC quanto das transmissões em ondas curtas, em várias línguas, direto de Berlim. Aparelhos comprados na noite anterior foram entregues e instalados nas residências de Seattle até poucos minutos antes do início da prova.

Não havia dinheiro para um rádio novo na casa agora quase concluída de Harry Rantz, no lago Washington, mas ele acreditava que o Philco que comprara em abril para a corrida da Califórnia pegaria a transmissão da NBC pela KOMO de Seattle. Levantou-se bem cedinho, antes do amanhecer, fez café e ligou o aparelho para ter certeza de que estava funcionando. Joyce levantou pouco depois, acordou as crianças e agora estavam todos na cozinha tomando mingau de aveia e sorrindo meio sem jeito, tentando controlar os nervos.

Em todos os Estados Unidos, milhões de pessoas – muitas das quais mal sabiam da existência de Seattle até a regata de Poughkeepsie, outras tantas que ainda iriam trabalhar naquela manhã de sexta-feira, se porventura tivessem emprego, e outras mais que tinham de cuidar da fazenda, se ainda tivessem uma – tentavam sintonizar seus aparelhos de rádio. O feito de Jesse Owens já arrebatara grande parte da nação, deixando claro o que exatamente estava em jogo nas Olimpíadas. Os americanos queriam ver agora se aqueles impetuosos jovens do estado de Washington, nos confins do Oeste, escreveriam mais um capítulo dessa história.

Às 9h15, a KOMO de Seattle colocou no ar a voz de Bill Slater, comentarista da NBC, retransmitida de Berlim. Joyce pegou em sua bolsa um livrinho e o folheou até encontrar o delicado trevo de quatro folhas com que Joe a presenteara anos atrás. Com todo o cuidado, colocou-o em cima do rádio, puxou uma cadeira e pôs-se a ouvir.

Durante o trajeto até a linha de largada ficaram claras as dificuldades que os rapazes enfrentariam com o clima e com a raia. Voltara a chover, mas não era esse o maior problema. Afinal, eles eram de Seattle. O obstáculo era o vento, que vinha do oeste em rajadas intermitentes de 45 graus a boreste. Na proa, Roger Morris e Chuck Day tinham dificuldade para manter o barco equilibrado. Na popa, Bobby Moch cuidava de prender os “batedores” de madeira em suas cordas enquanto movia o leme de um lado para outro para manter o barco no rumo.

Os rapazes já haviam remado inúmeras vezes com vento abundante, em Seattle e em Poughkeepsie, mas essas rajadas quase laterais iam causar problemas. Moch teria preferido um vento constante, de proa. Don Hume, à sua frente, tentava poupar energia estabelecendo uma boa cadência para os rapazes, mas sem forçar demais as próprias remadas. Seu aspecto não agradava nem um pouco a Bobby Moch.

Joe Rantz se sentia muito bem, apesar de tudo. À medida que diminuía o alarido da multidão, o mundo lá fora ia ficando calmo e silencioso. O momento das palavras se fora. Joe e os rapazes flexionavam seus corpos para a frente e para trás, lenta e suavemente, sentindo a respiração e os músculos tensionarem e relaxarem em sincronia. O barco deslizava, ágil e elegante, sem demandar esforço.

A ansiedade que revirara o estômago de Joe durante toda a manhã começava a dar lugar a uma leve sensação de serenidade. Estava agora mais determinado que nervoso. Pouco antes de sair da garagem, os rapazes haviam se reunido uma última vez e combinado que, se Don Hume tivera a coragem de disputar a prova, o grupo não iria decepcioná-lo nem que o céu desabasse.

Ao se aproximarem da linha de largada, giraram o Husky Clipper 180 graus e o acostaram de popa no passadiço. Um jovem no que parecia ser um uniforme de escoteiro se agachou, estendeu o braço e segurou-lhe a popa. Estavam no meio do lago Langer. À sua frente, só viam a curva aberta da margem setentrional, quase um golfo. O vento, muito pior do que à frente das arquibancadas, pressionava implacavelmente a proa do barco, formando marolas a bombordo. A boreste, Roger Morris e Gordy Adam lutavam para contrabalançar a força do vento e manter a proa mais ou menos apontada para o meio da raia. Na raia vizinha, o barco britânico colocou-se em posição enquanto Noel Duckworth, acocorado na popa, ajustava seu boné de críquete bem apertado na cabeça para impedi-lo de sair voando.

Bobby Moch ajustou a posição do megafone. A cada poucos segundos ele gritava um comando para Roger e Gordy e olhava ansiosamente por cima do ombro para ver se o juiz de largada já estava em seu posto no alto da plataforma. O mesmo fazia Duckworth ao seu lado, ambos focados primordialmente em suas proas. Era fundamental que o barco largasse perfeitamente alinhado. De repente, atrás deles e fora de sua vista, o juiz de largada saiu de seu abrigo com o braço erguido, segurando uma bandeira. Quase imediatamente, virou um pouco o corpo na direção das raias um e dois e bradou ao vento, numa única frase: “Êtes-vous prêts? Partez!” E deixou cair a bandeira.

Bobby Moch não ouviu a ordem nem viu a bandeira. Duckworth também não, ao que parece. Quatro barcos saltaram à frente. Por um fatídico instante, o barco britânico e o Husky Clipper continuaram imóveis, estacionados na linha de largada.

 

Nazistas em Grünau

CAPÍTULO 18

 

Homens bem preparados, quando esgotam sua energia normal, conseguem extrair de um misterioso reservatório uma energia ainda maior. É aí que conseguem alcançar as estrelas. Assim se fazem os campeões.

– George Yeoman Pocock

 

P elo canto do olho Joe viu o barco húngaro, duas raias para dentro, saltar à frente com a remada já pela metade. Uma fração de segundo depois viu o barco britânico fazer o mesmo e gritou: “Vamos embora!” Bobby Moch comandou: “Remem!”

Os oito remos americanos atacaram a água. Levando quase uma tonelada de peso morto, o Husky Clipper resistiu a entrar em movimento por mais uma fração de segundo, mas saiu, afinal – com os rapazes atrasados uma remada e meia na corrida mais importante de suas vidas.

Ao se dar conta do que ocorrera, Chuck Day esmoreceu como se tivesse levado um soco no estômago. Roger Morris teve um pensamento desalentador: “Estamos ferrados. Nós e os ingleses.” Bobby Moch pensou o mesmo, mas sua tarefa era refletir, não entrar em pânico. Ele planejara ficar atrás, como sempre, mas a largada espetacularmente ruim implicava que a desvantagem de dois barcos por conta da raia era agora ainda maior. Além disso, avançar contra o vento seria uma luta titânica. Era preciso um novo impulso, e rápido. Pediu, então, a Hume que forçasse. Hume aumentou a voga para 38. Os rapazes puxaram com força e rapidez.

Alemães e italianos, nas raias um e dois, saíram na frente e assumiram depressa a liderança. Os britânicos, depois da hesitação inicial, também remaram forte para voltar à disputa. No fim do pelotão, os americanos iam se recuperando lentamente. Na marca dos 100 metros, o locutor a bordo da estação móvel de rádio transmitiu aos alto-falantes da zona de chegada a posição dos barcos. A multidão exultou com a liderança alemã. A vantagem não era, porém, significativa a essa altura da prova. Os seis concorrentes estavam mais ou menos agrupados. Cerca de um barco e meio era a distância que separava a popa dos líderes, os alemães, da proa dos últimos colocados, os americanos. A pedido de Bobby Moch, Hume baixou a voga para 35. Era uma cadência próxima à de um sprint, mais do que Moch queria para essa etapa da prova, mas indispensável para continuarem na disputa. Ele calculou que se conseguissem se manter perto do grupo à voga de mais ou menos 35 talvez sobrasse algum combustível no tanque para a inevitável arrancada final. Os rapazes, por sua vez, começavam a se encontrar e entrar em sincronia.

 

O “oito” alemão

À medida, porém, que se aproximavam da parte mais larga do lago Langer, os ventos se tornavam mais fortes. Ondas brancas com espuma começaram a espirrar água na pequena bandeira americana que tremulava descontroladamente na coberta de proa. Rajadas de vento açoitavam o barco a bombordo, dando muito trabalho a Bobby Moch com o leme. Com ventos assim, a única maneira de evitar que o barco ziguezagueasse pela raia era mantê-lo um pouco virado a bombordo. A proa e a ré ficavam levemente desalinhadas, mas o barco andava em linha reta. O resultado, porém, era o aumento da resistência da água e do arrasto do barco e, portanto, mais trabalho para os remadores. E era terrivelmente complicado. Com leme de mais, Moch corria o risco de jogar o barco sobre a raia à sua esquerda; com leme de menos ele se afastaria do percurso da corrida.

Na marca dos 200 metros, Noel Duckworth e Ran Laurie puseram o barco britânico na disputa pela liderança ultrapassando a Alemanha e assumindo o segundo lugar atrás da Suíça. A pressão sobre os líderes era grande. Bobby Moch viu tudo, mas não mordeu a isca. Se os britânicos queriam queimar seu combustível na primeira metade da corrida, problema deles. Mas na marca dos 300 metros, Moch levou um tremendo susto. Bem à sua frente, Don Hume empalideceu de repente, com os olhos semicerrados e a boca aberta. Continuava remando, num ritmo constante, mas aparentando não ter plena consciência do que fazia. Moch gritou: “Don! Você está bem?” Hume não respondia. Sem saber se ele estava prestes a desmaiar ou apenas numa espécie de transe, Moch decidiu deixar as coisas como estavam por enquanto, mas começou a duvidar seriamente de que ele conseguiria terminar a corrida – que dirá dar um sprint quando chegasse a hora.

Os barcos se aproximavam da marca dos 500 metros, um quarto do total da prova, com Suíça, Grã-Bretanha e Alemanha praticamente empatadas na liderança e Estados Unidos e Itália um pouco atrás. A Hungria era a última. À exceção dos britânicos, os líderes remavam protegidos pela margem sul do lago, onde a água era quase lisa. Os americanos os seguiam a um barco de distância, mas na parte mais larga do lago, sob um vento implacável que fazia espirrar água a cada remada. Uma queimação começava a pulsar em seus braços e pernas e a passear em suas costas. A distância para os líderes aumentava lentamente; na marca dos 600 metros, já era de um barco e meio. Por volta dos 800, estavam de volta à última colocação. Seus batimentos cardíacos já se aproximavam dos 160 ou 170 por minuto.

O “oito” italiano

Na raia dois, abrigada do vento, a Itália avançou repentinamente sobre a Alemanha obtendo uma pequena vantagem. Quando a proa do barco italiano cruzou a marca dos 1.000 metros, um sino começou a tocar avisando aos espectadores situados na linha de chegada da aproximação dos concorrentes. Setenta e cinco mil pessoas se levantaram para ver os barcos, ainda distantes na superfície cinzenta do lago, mas avançando, como um pelotão de aranhas compridas. Na sacada da Haus West, Hitler, Goebbels e Göring empunharam seus binóculos. Na sacada da garagem ao lado, Al Ulbrickson acompanhava o Husky Clipper na raia mais externa, ao lado do barco britânico. Árvores e construções bloqueavam-lhe a visão das raias mais próximas e seus respectivos barcos. Do lugar onde estava, parecia até que americanos e britânicos estavam na frente, brigando pela vitória. Nesse momento, ele ouviu o locutor da prova anunciar as posições dos competidores na marca dos 1.000 metros, para delírio da multidão: Itália em primeiro, um segundo à frente da Alemanha, em segundo lugar; Suíça em terceiro, um segundo atrás da Alemanha; Hungria em quarto; Grã-Bretanha em quinto, bem atrás; Estados Unidos em último. Os rapazes de Ulbrickson estavam, agora, a quase cinco segundos dos líderes.

Bobby Moch não podia esperar mais. Curvado à frente, pediu a Hume que aumentasse a voga. “Mais voga!”, gritou na cara de Hume. “Mais voga!” Nada. “Mais voga, Don! Mais voga!”, berrou, já implorando. A cabeça de Hume ia para a frente e para trás no ritmo do barco, como se ele estivesse a ponto de cochilar. Parecia estar olhando para alguma coisa no fundo do barco. Nem contato visual com ele Moch conseguia fazer. Os rapazes seguiam nas 35, perdendo a batalha contra o vento e contra quase todos os outros barcos. Moch lutava agora contra o pânico.

Na marca dos 1.100 metros, a Alemanha retomou a liderança. A multidão, já bem visível, rugiu novamente e começou a entoar: “Deutsch-land! Deutsch-land! Deutsch-land” no ritmo das remadas de seus atletas. Hitler, da sacada, olhava por debaixo da aba do chapéu e balançava o corpo na cadência do refrão. Al Ulbrickson conseguiu ver, enfim, os barcos da Alemanha e da Itália nas raias contíguas à margem do lago, claramente à frente dos demais. Seu foco, no entanto, era o barco americano do outro lado do percurso. Tentava ler a mente de Bobby Moch. Parecia uma reedição de Poughkeepsie, mas não saberia dizer se isso era bom ou ruim.

Na sala de estar de Harry Rantz, em Seattle, o silêncio era total. Era difícil saber a exata situação em Berlim, mas os tempos parciais anunciados foram alarmantes.

No barco, Joe não tinha uma ideia clara da situação, a não ser a vaga consciência de não ter visto nenhum barco ficar para trás. Só via a flotilha de lanchas a motor que transportavam as autoridades olímpicas e os cinegrafistas de Leni Riefenstahl. Remando forte o tempo todo, contra o vento, a sensação era a de que seus braços e pernas estavam cimentados. Não fora possível conservar nenhuma energia. Era muito cedo para o sprint, mas começava a se perguntar o que aconteceria quando Moch o comandasse. Quanta energia lhe restava? Quanta energia restava à guarnição? Tudo o que podia fazer era confiar no julgamento de Moch.

Dois assentos à frente de Joe, Bobby Moch tentava desesperadamente achar uma solução. A marca dos 1.200 metros se aproximava e Hume ainda não respondia. A situação era crítica. A única coisa que lhe passou pela cabeça foi usar Joe como voga. Um movimento arriscado – nunca visto, na verdade –, capaz de confundir toda a guarnição e levar o caos ao ritmo do barco, mas que a essa altura era sua única opção. Moch perdera a capacidade de regular o ritmo e, com isso, a derrota seria inevitável. Se conseguisse que Joe o ditasse, Hume talvez sentisse a mudança e o acompanhasse. Algo precisava ser feito e esse era o momento.

Quando Moch inclinou-se à frente para dizer a Joe que desse a cadência e aumentasse a voga, Don Hume ergueu a cabeça de repente, arregalou os olhos e, de boca fechada, olhou Bobby Moch bem nos olhos. Surpreso, Moch o encarou e berrou: “Acelere! Acelere!” Hume acelerou e Moch gritou novamente: “Um barco atrás – 600 metros!”

Os rapazes caíram sobre os remos, aumentando a voga para 36 e logo depois para 37. No momento em que o pelotão passou pelos 1.500 metros, o Husky Clipper já subira do quinto para o terceiro lugar. Na sacada da garagem, Al Ulbrickson sentiu um sopro de esperança ao ver a aceleração do barco, mas o ímpeto pareceu se esgotar com os rapazes ainda longe dos líderes.

A 500 metros do fim, os americanos, na raia seis, ainda estavam quase um barco atrás dos alemães e dos italianos, respectivamente nas raias um e dois. Os suíços e os húngaros já haviam dado adeus. Os britânicos, na cinco, tentavam voltar à disputa, mas Ran Laurie, com a pá mais estreita, tinha dificuldade mais uma vez de usar toda a potência de seus músculos para vencer o vento e as marolas. Moch pediu a Hume que aumentasse a voga um ponto mais. Na raia oposta, Wilhelm Mahlow, o timoneiro alemão, pediu ao seu voga Gerd Völs que aumentasse também. Cesare Milani, o timoneiro da Itália, de 30 anos, pediu a Enrico Garzelli que fizesse o mesmo. O barco italiano pôs-se alguns centímetros à frente do pelotão.

Ao se aproximar da linha de chegada, o Husky Clipper entrou, finalmente, na parte mais estreita do lago Langer, protegida do vento, de ambos os lados, pelas árvores e construções. Agora o jogo ia começar de verdade. Bobby Moch realinhou o leme com o casco e o Clipper voltou a deslizar livremente. A 350 metros do fim, com as raias igualadas e Don Hume de volta ao mundo dos vivos, os rapazes aceleraram para chegar pouco a pouco nos líderes, assento por assento. A 300 metros, o barco americano estava mais ou menos emparelhado com o alemão e o italiano. A 200, sua vantagem já era de um terço. Uma onda de apreensão percorreu a multidão.

Bobby Moch olhou para o enorme “Ziel” em preto e branco, que sinalizava a linha de chegada, e começou a calcular o que exatamente precisava extrair dos rapazes para garantir que chegassem à frente dos barcos à sua esquerda. Era hora de mentir. “Só 20 remadas!...”, berrou, e iniciou a contagem regressiva, “... 19, 18, 17, 16, 15, 20, 19...”. Cada vez que chegava a 15, retornava a 20.

Como que inebriados pela crença de estarem a ponto de cruzar a linha de chegada, os rapazes se jogavam de corpo inteiro em cada puxada, remando vigorosamente sem qualquer falha e com incrível elegância. Seus remos se dobravam como arcos, as pás entrando e saindo com precisão da água em movimentos suaves e altamente eficientes, o casco untado de óleo de baleia deslizando quase sem resistência e a proa de cedro fendendo a água escura – barco e homens, fundidos, avançando a toda velocidade, como uma coisa viva.

Então, foi o caos. Em pleno sprint, a um ritmo que beirava as 40 remadas por minuto, eles irromperam sobre uma muralha sonora debaixo das enormes arquibancadas do lado norte do estádio. A não mais de 3 metros, milhares de torcedores gritavam em uníssono: “Deutsch-land! Deutsch-land! Deutsch-land!” A ovação reverberava de uma margem a outra do percurso e abafava totalmente a voz de Bobby Moch. Nem Don Hume, sentado meio metro à sua frente, conseguia ouvir o que Moch gritava agora. O barulho os agredia e desnorteava. Do lado oposto, os italianos iniciaram um novo ataque, assim como os alemães, ambos agora a mais de 40 por minuto, tentando emparelhar com os americanos. Ao perceber isso, Bobby Moch berrou na cara de Hume: “Acelere! Acelere! Dê tudo o que você tem!”

Ninguém o ouvia. Sem saber direito o que se passava, mas extremamente perturbado por tudo aquilo, Stub McMillin soltou um palavrão. Joe tampouco sabia, a não ser que a dor era a mais intensa que jamais sentira dentro de um barco – como se a cada remada lâminas incandescentes dilacerassem seus braços, pernas e costas e a cada inspiração desesperada o ar lhe queimasse os pulmões. Olhos fixos na nuca de Hume, ele só pensava na necessidade simples e cruel de dar a remada seguinte.

Na sacada da Haus West, Hitler pôs o binóculo de lado. Continuava a se balançar ao coro da multidão, esfregando o joelho direito toda vez que se inclinava à frente. Goebbels aplaudia freneticamente com as mãos sobre a cabeça e Göring batia nas costas de Werner von Blomberg. Na sacada da garagem, Al Ulbrickson apenas olhava, impassível, com um cigarro na boca. Achava que a qualquer momento Don Hume iria desabar sobre o remo.

Em Seattle, a KOMO reverberava a voz de Bill Slater, o locutor da NBC. Mesmo sem entender nada, Harry, Joyce e as crianças haviam se levantado na crença de que os rapazes estavam na frente.

Ao constatar, à sua esquerda, o avanço de alemães e italianos, Moch calculou que era preciso dar ainda um pouco mais – mesmo sabendo que já haviam dado tudo o que tinham. Podia vê-lo em suas expressões – no rosto contorcido Joe e nos olhos arregalados e atônitos de Don Hume, fixos num vazio insondável. Desesperado, pegou suas cordinhas e começou a dar com os tocos nas placas de madeira em ambos os lados do costado. Os rapazes não podiam ouvi-lo, mas com certeza sentiriam as vibrações.

Eles não apenas sentiram como entenderam de imediato que era um sinal para fazer o impossível – aumentar a voga. Em algum lugar bem lá no fundo, cada um foi pegar um restinho de força e de vontade cuja existência até então ignoravam. Seus corações foram a 200 batimentos por minuto. A exaustão era completa, muito além do que seus corpos pareciam poder suportar. E o menor deslize significaria um remo enforcado e o desastre. Mas as pás brancas de seus remos continuavam a cintilar, sincronizadas, na penumbra das arquibancadas erguidas sobre o espelho-d’água. Lá em cima, o público delirava de emoção.

A disputa agora era palmo a palmo. Na sacada da garagem, Al Ulbrickson partiu o cigarro com os dentes, cuspiu-o, subiu numa cadeira e começou a urrar para Moch: “Agora! Agora! Agora!”

Enquanto isso, no alto-falante, uma voz histérica gritava: “Italien! Deutschland! Italien! Achh... Amerika! Italien!” Os três barcos se aproximavam da linha de chegada alternando-se na liderança. Moch batia no casco o mais forte e rápido que podia, como uma metralhadora disparando da popa do barco. Hume aumentou o ritmo até chegar aos 45 por minuto. Eles nunca haviam remado em voga tão alta – aliás, nem sabiam que era possível. Ela os levou um pouco à frente, mas os italianos voltaram a se aproximar, com os alemães bem ao seu lado. O coro “Deutsch-land! Deutsch-land! Deutsch-land!” reverberava em seus ouvidos. Na popa do Clipper, curvado para a frente com uma perna para cada lado, Bobby Moch batia no casco berrando palavras que ninguém conseguia escutar. Até que, com uma poderosa remada final, os rapazes jogaram o barco contra a linha. No intervalo de um segundo cruzaram alemães, italianos e americanos.

Na sacada das autoridades, Hitler ergueu o punho cerrado. Goebbels deu pulos de satisfação. Göring se curvou e bateu no joelho, com um sorriso maníaco no rosto.

No barco americano, Don Hume abaixou a cabeça como em oração. No alemão, Gerd Völs caiu para trás no colo do remador número sete, Herbert Schmidt, de punho erguido em sinal de triunfo. No italiano, um dos homens se curvou para a frente e vomitou no lago. Nas arquibancadas a multidão continuava a entoar: “Deutsch-land! Deutsch-land! Deutsch-land!”

Mas ninguém sabia quem havia vencido.

O barco americano deslizou lago abaixo, para um mundo silencioso além das arquibancadas, com os rapazes debruçados sobre os remos, ofegantes, rostos contorcidos pela dor. Shorty Hunt se deu conta de que não conseguia enxergar nada. Um deles perguntou, baixinho:

– Quem ganhou?

Roger Morris respondeu:

– Nós... eu acho.

Chegada da disputa da medalha de ouro:

Estados Unidos na raia seis, junto à arquibancada

Nesse momento, os alto-falantes voltaram à vida com o resultado oficial. A proa do barco americano tocara a linha de chegada com o tempo de 6m25s4, seis décimos de segundo à frente do barco italiano e um exato segundo à frente do alemão. O coro da multidão silenciou de repente, como uma torneira que tivesse sido fechada.

Na sacada da Haus West, Hitler se virou e saiu para o interior do edifício sem dizer nada. Goebbels, Göring e as demais autoridades nazistas o seguiram. No barco americano, os rapazes levaram uns instantes para entender o resultado, anunciado em alemão. Logo, porém, as expressões de dor se converteram em sorrisos tão largos e brancos que décadas mais tarde ainda brilhariam nos cinejornais, iluminando o melhor momento de suas vidas.

Em Seattle, os meios-irmãos de Joe gritaram de alegria, deram cambalhotas pela casa e atiraram almofadas e travesseiros para o ar. Em meio ao caos, Harry aplaudia. Joyce estava sentada em uma poltrona, chorando convulsivamente. Depois, com lágrimas ainda escorrendo pelo rosto, levantou-se e desligou o rádio. Guardou cuidadosamente o trevo dentro do livro, abraçou o futuro sogro pela primeira vez na vida e foi fazer sanduíches.

Cerimônia de entrega das medalhas: Bobby Moch no alto do pódio

CAPÍTULO 19

 

O valor espiritual do remo? (...) O abandono total do eu em prol do esforço coletivo da guarnição.

– George Yeoman Pocock

 

Definida a vitória, os rapazes remaram bem devagar à frente das arquibancadas recebendo aplausos educados. Al Ulbrickson e George Pocock desceram correndo da sacada e abriram caminho em meio à multidão aglomerada diante da Haus West, tentando chegar até os rapazes. Royal Brougham voou para a sala de imprensa a fim de escrever a matéria esportiva mais importante de sua carreira, buscando no fundo da alma uma linguagem que fizesse justiça ao que acabara de ver. Mal sabia que, em Seattle, piquetes de greve haviam fechado os escritórios do Seattle Post-Intelligencer. A edição do dia seguinte não sairia e a matéria jamais seria publicada.

Os campeões, sempre seguidos de perto pelas câmeras de Leni Riefenstahl, acostaram no flutuante da Haus West. Algumas autoridades nazistas assistiram passivamente a um representante olímpico cumprimentar Bobby Moch e presentear Don Hume com uma imensa coroa de louros, tão grande que parecia ter sido feita para um cavalo. Constrangido por não saber o que fazer com ela, Hume abaixou-a momentaneamente sobre a cabeça, deu um sorriso tímido e passou-a para Joe, que repetiu o gesto e entregou-a a Shorty Hunt, e assim por diante até Roger Morris, na proa do barco. Al Ulbrickson chegou esbaforido ao flutuante e agachou-se ao lado do barco, sem palavras, como de hábito. Com fingida indiferença, apontou para a coroa e perguntou a Roger Morris:

– Onde você arranjou o feno?

Apontando o polegar por cima do ombro, Roger respondeu:

– Lá embaixo, no rio.

Os rapazes saíram do barco e se puseram em posição de sentido para ouvir o hino dos Estados Unidos tocado por uma banda alemã. Em seguida, receberam mais alguns cumprimentos, ergueram o Husky Clipper sobre os ombros e levaram-no de volta à garagem, com camisetas sujas e calções descombinados como se estivessem saindo de uma sessão de treinos no lago Washington. Um repórter da United Press que assediou Al Ulbrickson durante o trajeto perguntou-lhe o que achava dos rapazes. Dessa vez, ele encontrou palavras suficientes para dizer: “A melhor guarnição que eu já vi na minha vida. E olha que algumas eram fantásticas.”

Na manhã seguinte voltaram todos a Grünau, a pedido da equipe de Leni Riefenstahl e de cinejornais do mundo inteiro. Leni fizera inúmeras tomadas da disputa da medalha de ouro, desde os barcos e as margens do lago, mas agora queria closes a partir do ponto de vista do timoneiro e do voga vitoriosos. Os rapazes toparam remar com um cinegrafista no assento de Hume primeiro, depois no de Bobby Moch. As guarnições italiana e alemã fizeram arranjos semelhantes. Os resultados foram espetaculares. A sequência do oito com timoneiro é um das cenas de ação mais espetaculares de Olympia. Ela intercalou, com maestria, tomadas do avanço dos barcos com closes de Bobby Moch e outros timoneiros dando comandos direto para a câmera. Essas cenas, por sua vez, foram intercaladas com closes dos vogas com os rostos contorcidos pelo esforço e os corpos oscilando ritmicamente para perto e para longe da câmera.

Terminada a filmagem, os rapazes foram preparar o Husky Clipper para o embarque de volta a Seattle. Depois, vestiram os uniformes olímpicos de gala e foram ao Reichssportfeld para a cerimônia de entrega das medalhas, antes da qual tiveram a chance de assistir à disputa da medalha de ouro do futebol entre a Áustria e a Itália. Encerrada a partida, desceram ao campo e, perfilados junto às guarnições alemã e italiana, foram brindados pelos representantes olímpicos com medalhas de ouro e pequenas coroas de louros. Quando o pequeno Bobby Moch subiu no degrau mais alto do pódio, um dos rapazes comentou, brincando: “Você só queria ganhar esta medalha para ficar mais alto do que nós uma vez na vida, não é?”

Depois da entrega de uma muda de carvalho ao capitão, os nomes de todos os rapazes apareceram num grande placar de 13 metros de comprimento na parte leste do estádio. Atrás dele, a bandeira dos Estados Unidos começou a ser hasteada ao som do hino nacional. Joe, com a mão no peito, surpreendeu-se ao sentir lágrimas brotando no canto dos olhos. Moch soluçava no pódio. Stub McMillin também. Quando tudo acabou, todos ainda tentavam conter o choro. Até Ulbrickson, o Dinamarquês Durão.

Naquela noite, todos – menos Joe – foram para a cidade, onde se envolveram em algum tipo de confusão obscuramente documentada no diário de Chuck Day: “Tentaram nos convencer a sair de alguns lugares (...) policiais, etc.” Às 4h30 ainda estavam no centro de Berlim, cambaleantes, cantando “Curvem-se a Washington” abraçados uns aos outros. Só retornaram a Köpenick às 10h30 com uma ressaca terrível.

De volta ao alojamento, souberam que Joe ficara acordado a noite inteira admirando a medalha de ouro pendurada em seu beliche. Por mais que a tivesse desejado, e mesmo entendendo o que ela significava para seu país e o resto do mundo, naquela noite ele percebeu que ela não era a coisa mais importante que levaria da Alemanha.

Assim que cruzaram a linha de chegada, enquanto o Husky Clipper deslizava no lago Langer e a guarnição recuperava o fôlego, Joe sentiu descer sobre si uma grande onda de paz. Nas desesperadas centenas de metros finais da corrida, em meio à dor lancinante e ao desconcertante alarido da furiosa arrancada final, chegou um momento em que ele percebeu, com surpreendente clareza, que não havia mais nada que pudesse fazer para vencer a corrida além do que já vinha fazendo, salvo uma coisa: abandonar por completo toda dúvida e confiar irrestritamente que ele, o companheiro à sua frente e todos os que estavam atrás fariam o que precisavam fazer no exato instante em que deveriam. Percebeu que naquele instante não poderia haver nenhuma hesitação, nenhuma indecisão. Não havia escolha a não ser dar-se por inteiro em cada remada, como se estivesse se atirando de um penhasco com a certeza inabalável de que os outros estariam lá para pegá-lo – para impedir que tivesse que empurrar sozinho todo o peso do barco. E ele se deu. Sem hesitar, 44 vezes por minuto, atirou-se cegamente ao seu futuro não apenas acreditando, mas sabendo que os outros estariam lá, todos eles, em todos os instantes.

Foi na fornalha emocional daqueles últimos metros de prova em Grünau que os rapazes forjaram o troféu pelo qual haviam lutado o ano inteiro. O prêmio que Joe buscara durante toda a sua vida.

Ele agora se sentia inteiro. Estava pronto para voltar para casa.

Joe com sua jovem família