Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico
O critério do verum-factum de Vico e seus antecedentes escolásticos e medievais
O critério do verum-factum de
Vico e seus antecedentes
escolásticos e medievais
Andrey Ivanov*
1. O critério do verum-factum
A resposta de Vico ao problema do conhecimento encontrase
especialmente na dissertação filológica De antiquissima italorum sapientia ex linguae latinae originibus eruenda, de 1710. Nessa
obra, temos as bases da sua teoria do conhecimento: 1 os antigos italianos (os latinos) consideravam que o verdadeiro (verum) e o feito (factum) são o mesmo. Assim escreve Vico:
Os termos latinos verum e factum são recíprocos [correlativos], ou, para
usar uma expressão difundida nas escolas, ‘convertem-se’ […]. Daí
conjecturar-se que os antigos estudiosos italianos consentiam nisto: que o
verdadeiro é ele próprio o feito. 2
O problema do conhecimento é, portanto, respondido com a tese
verum ipsum factum (o verdadeiro é ele próprio o feito), ou com sua homônima verum et factum converti (o verdadeiro e o feito
convertemse).3 Vico chega, nesse sentido, a uma conclusão: veri criterium ac regulam ipsum esse fecisse (o critério e a norma do
verdadeiro é tê-lo feito).4 Factum não significa aqui uma coisa (um acontecimento ou um ente) oferecida à mente do homem, mas o ato
cognoscitivo dessa mesma mente. 5
O 6 De antiquissima nasce da reação anticartesiana de Vico. Ele
argumenta, contra Descartes, que a noção clara e distinta não pode ser o critério do verdadeiro. Conhecer significa possuir a forma, isto é, a maneira pela qual se produz o ato cognoscitivo de uma coisa, a
gênese do seu conhecimento. 7 Na compreensão das causas estão contidas todas as maneiras, a saber, as formas das coisas. Essa compreensão é o primeiro verdadeiro (primum verum), assim designado porque compreende todas as causas; e porque compreende todas, é infinito; mas, antes, porque compreende todas, precede o corpo, do qual é a causa, sendo por isso espiritual; em
suma, ele é em Deus.8 Eis como Vico articula essa noção no capítulo dedicado ao verum-factum:
Daí conjecturar-se que os antigos estudiosos italianos consentiam nisto:
que o verdadeiro é ele próprio o feito; que, entretanto, o primeiro
verdadeiro é em Deus, porque Deus é o primeiro autor; que [o primeiro
verdadeiro] é infinito, porque é o autor de tudo; que é perfeitíssimo,
porquelherepresentatantooselementosextrínsecosquantointrínsecos das
coisas, pois os contém. Ora, conhecer é reunir os elementos das coisas;
donde ser próprio da mente humana o pensamento [cogitatio] e da mente
divina, o entendimento [ 9 intelligentia ].
E, mais adiante, continua:
Assim como o verdadeiro divino é o que Deus, enquanto conhece ordena
e gera, assim o verdadeiro humano é o que o homem, enquanto conhece
reúne do mesmo modo e faz. A ciência [scientia] corresponde ao
conhecimento da gênese, isto é, da maneira pela qual as coisas são feitas,
por meio da qual a mente, enquanto conhece deste modo, por reunir os
elementos, faz a coisa.10
O primeiro verdadeiro de Descartes, ou melhor, o cogito: ergo
sum, a consciência do pensamento (conscientia cogitandi) era, para ele, a certeza inabalável, firme, a partir da qual se adquiria o conhecimento relativo ao ente. Dessa consciência, nascia a certeza (certitudo), o conhecimento certo sobre o ente. Assim, esse primeiro verdadeiro distingue os dogmáticos (cartesianos) dos céticos. O cético não duvida, com efeito, do seu pensamento nem da sua própria existência; ele suspende o juízo em favor do cuidado com sua vida prática; ele entende que sua certeza do pensamento não é ciência (scientia), mas consciência (conscientia), isto é, conhecimento comum (vulgaris cognitionis), que acontece a qualquer homem insipiente; contudo, ele ignora as causas do
pensamento, isto é, a maneira pela qual se faz o pensamento.11 Como diz o próprio Vico: “A noção clara e distinta não pode ser o critério da própria mente, menos ainda das coisas verdadeiras restantes; pois, enquanto a mente conhece a si mesma, não faz a si mesma; e não fazendo a si mesma, ignora a gênese ou a maneira
pela qual conhece a si mesma”.12 “O pensar não é causa daquilo
que seja a mente, mas sinal [da mente]”. 13 O cético negará, portanto, ao dogmático que se adquira, a partir da consciência do pensamento, o conhecimento relativo ao ente; pois, conhecer, para
ele, é conhecer as causas que originam as coisas. 14
Vico estende também sua crítica aos céticos. Eles tornam
conhecido o que lhes aparece, mas ignoram quais são suas causas; admitem, pois, os efeitos, e admitindo-os concedem que esses têm suas causas, mas negam conhecê-las, porque ignoram a gênese das coisas, isto é, suas formas, pelas quais cada uma é feita.
Esse conhecimento das causas, que os céticos declaram ignorar,
é, segundo Vico, o primeiro verdadeiro; ele é Deus, mas esse Deus que os cristãos dão a conhecer. Na comparação com o critério desse verdadeiro é que devemos medir todo verdadeiro humano. Pois,
as coisas verdadeiras humanas são aquelas que nós mesmos nos
formamos [fingamus] os elementos, que contemos interiormente, e que
prolongamos ao infinito por meio de postulados; com eles construímos
[componimus] as coisas verdadeiras, e construindo, conhecemos,
fazemos; e por causa de tudo isso, possuímos a gênese ou forma pela
qual fazemos.15
Contudo, nem sempre há identidade do conhecer com o fazer; ou
melhor, nem sempre há identidade do verdadeiro com o feito. Os antigos italianos consideravam que o verdadeiro se converte com o feito porque: (1) pensavam que o mundo é eterno e (2) veneravam um Deus operante apenas exteriormente (ad extra). Essas duas noções foram negadas pela teologia cristã. Vico explica quanto ao verumfactum que
na nossa religião, em que professamos o mundo como criado no tempo a
partir do nada [ex nihilo] […] o verdadeiro criado se converte com o feito e
o verdadeiro incriado, com o gerado. Assim como as páginas sagradas
chamaram, com elegância verdadeiramente divina, de Verbum à sabedoria
de Deus, que contém em si as noções de todas as coisas e, portanto, as
noções de todos os elementos; nele, o verdadeiro e a compreensão de
todos os elementos são o mesmo, cuja compreensão reúne a totalidade
das coisas; e conforme Deus as conhece na sua onipotência divina, surge
o verbo real perfeitíssimo, que, conhecido eternamente [ab aeterno] pelo
Pai, foi gerado por ele eternamente.16
Desta forma, Vico faz a distinção entre o verdadeiro criado e o
verdadeiro incriado. O verdadeiro criado converte-se com o feito ou criação de Deus, que fez todas as coisas a partir do nada. O verdadeiro incriado converte-se com o gerado pelo Pai. Enquanto conhecido eternamente por Deus, é gerado eternamente por ele. É a sabedoria de Deus, palavra real e mais perfeita, o primeiro verdadeiro (de que falamos acima).
2. Os antecedentes escolásticos e
medievais
Há uma ampla herança de estudos a respeito das possíveis
fontes de Vico. Todavia, a literatura referente às fontes escolásticas e medievais é escassa. É em relação a essas fontes, que consideraremos o tema da unidade entre conhecer e fazer na reconstrução das origens viquianas.
Assim, Giovanni Gentile, no seu estudo Svolgimento della filosofia
viquiana 17 , fala dos precursores de Vico, pondo em relevo a ligação de Vico com os filósofos italianos neoplatônicos ou neoplatonizantes dos Séculos XV e XVI (Marsilio Ficino, Pico dela Mirandola, Cardano, Campanella, Giordano Bruno), sobretudo com Marsilio Ficino na equação entre conhecer e fazer. Rodolfo Mondolfo busca, para além da perspectiva de Gentile, essa equação nas fontes do próprio Ficino, especialmente em Filon de Alexandria. Ficino declarou ter realizado estudos sobre Filon e todos os platônicos e neoplatônicos antigos. Mondolfo encontra no tratado filoniano Quod Deus sit immutabilis a teoria da unidade entre conhecer e fazer
aplicada aos planos divino e humano.18 Mas nada autoriza a dizer que Filon tenha sido uma fonte direta de Vico.
Filon introduziu a noção, extraída do texto bíblico, de que Deus é
palavra criadora. Em Deus não há distinção entre pensar, falar e fazer; quando Deus pensa, faz ontologicamente: “Não dirá uma única palavra que não se cumpra firmemente, porque para ele [Deus] a palavra é ação” (De vita Moysis I, 51, 283). “Pois Deus, enquanto pronunciou [o mundo], o criou, sem intervalo de tempo entre ambas as ações. […] sua palavra era a ação” (De sacrificiis Abelis et Caini, 18, 65). O pensar-falar-fazer de Deus é o Logos (razão/palavra). Filon chamou-o de “sabedoria de Deus”, “filho primogênito do Pai incriado”. O termo Logos (em latim, Verbum) foi adotado no evangelho joanino para indicar a segunda pessoa da Trindade (Jo 1, 14.).
No que tange às fontes escolásticas e medievais, o próprio Vico
oferece algumas pistas na Autobiografia, escrita entre 1725 e 1728. Ele menciona os estudos de filosofia escolástica e de Suárez na sua formação, isto é, no seu primeiro aprendizado filosófico em Nápoles com base no ensino de Antonio del Balzo, um nominalista, e de Giuseppe Ricci, um seguidor de Duns Scoto e zenonista, e com base no estudo da Metaphysica de Suárez, ou em um dos manuais
das escolas de que se serviam os jesuítas.19 Sua predileção pelo ensino do Pe. Ricci foi um presságio da sua futura predileção pela filosofia platônica, da qual, diz ele, entre os sistemas escolásticos, o scotismo é o que mais se aproxima. Uma indicação mais consistente diz respeito ao seu prolongado estudo do texto de Suárez.
Sobre a ligação de Vico com Tomás de Aquino e o tomismo,
Benedetto Croce conclui, valendo-se não somente dos textos de Tomás, mas apoiando-se também no teólogo Jaime Balmes, que o critério do verum-factum não é tomista. Se esse critério não é encontrado no tomismo, poderia ao menos ser encontrado em outros endereços da escolástica ou da filosofia medieval. Para ele, não parece que Vico tenha tido familiaridade ou simpatia com o tomismo; ele vislumbra, no entanto, vestígios da escolástica scotista
no 20 De antiquissima . De maneira oposta, Karl Löwith afirma a influência de Tomás e do tomismo sobre o critério do verum-factum. Esse critério nascera da doutrina de Agostinho de que Deus, conhecendo, cria; em Deus, conhecer e fazer são o mesmo. Essa doutrina teria como base a noção do Logos. Sem a premissa cristã e teológica de que, em Deus, conhecer e fazer são idênticos, pois sua palavra é criadora, e de que o homem é semelhante a Deus, o
critério viquiano seria desprovido de fundamento metafísico. 21 Sob outra perspectiva, Cesare Vasoli considera que, nos escritos de Vico, existem poucas e insignificantes referências a Tomás. Nada permitiria supor que Vico tenha lido Tomás, bem como qualquer outro filósofo medieval, à exceção de Agostinho que comparece na obra viquiana. Não obstante, o tomismo do Século XVII identificava-se em larga medida com as doutrinas de Suárez e de outros mestres da segunda escolástica (Bañez, Molina, Zuñiga, Vasquez, Arriaga, Oviedo). Devido à atuação desses mestres, o tomismo continuou vivo e foi o fundamento de um sistema de educação
filosófica nas escolas jesuítas.22
Para completar, caberia uma anotação final. Em pelo menos dois
temas, Tomás fala do ato do intelecto como um fazer. O primeiro tema diz respeito ao conhecimento divino. Tomás compara esse conhecimento com aquele que o artista tem da sua obra: “O conhecimento divino, da maneira que se refere às coisas, compara-se ao conhecimento do artista pelo fato de que ele é causa de todas as coisas, assim como a arte é [causa] das obras. Ora, o artista conhece a obra por meio da forma da arte que ele possui em si, segundo a qual produz a obra” (De veritate, q. 2, a. 5.). “A forma da arte no artista é o modelo ou ideia da obra, e igualmente também a forma que está fora do artista, à imitação da qual ele faz algo” (De veritate, q. 3, a. 1). Há, portanto, duas formas exemplares para o artista: uma, que ele produz na sua própria mente, e outra, que está fora dele. Também, com referência aos fins das artes, há algumas artes cujo fim é a representação; por exemplo: “Hércules é o fim da imagem que [o poeta] faz para representá-lo” (Summa theologiae, Ia, q. 103, a. 2, ad 2.).
O segundo tema concerne ao intelecto agente. A esse respeito, o
intelecto humano, por si mesmo, está em potência para inteligir. Por isso, é chamado de intelecto “possível” (Summa theologiae, Ia, q. 87, a. 1). Deve, pois, ser movido pelo inteligível, e assim
é necessário que deste modo o inteligível seja feito pelo intelecto. E, como
aquilo que está em potência a algo não pode produzi-lo, é necessário
supor, além do intelecto possível, o intelecto agente, que torne os
inteligíveis em ato que movem o intelecto possível (De anima, q. 4).
Ele os produz por abstração da matéria e de todas as condições
materiais individuantes. Tomás utiliza frequentemente o verbo facere para designar a operação do intelecto agente.
Vê-se imediatamente que o factum – o intelígivel em ato – não
tem relação com o factum viquiano. É possível notar, no entanto, alguma analogia desse último com a forma da arte no artista ou com a representação no poeta, em Tomás.
Referências
Obras de Vico
VICO, G. Dell’antichissima sapienza italica da dedursi dalle origini dela lingua latina (De ant.). In:____. Opere. Organização de Fausto Nicolini. Milano-Napoli: Riccardo Ricciardi Editore, 1953, p.243-308. VICO, G. Autobiografia (Vita). In:____. Opere. Organização de Fausto Nicolini. Milano-Napoli: Riccardo Ricciardi Editore, 1953, p.3-106.
Outras obras
BERLIN, I. As ideias filosóficas de Giambattista Vico. In:____. Vico e Herder. Tradução portuguesa de Juan Antônio Gili Sobrinho. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1972, p.20-130. CROCE, B. Le fonti della gnosiologia vichiana. In:____. Saggio sullo Hegel seguito da altri scritti di storia della filosofia. Bari: Laterza, 1913, p.241-268.
FERNANDEZ, J. M. S. L’argomentazione storica del criterio verum-factum. Considerazioni metodologiche, epistemologiche e ontologiche. Bollettino del Centro di Studi Vichiani, XVI, Napoli, p. 307-323, 1986.
GENTILE, G. Studi vichiani. Firenze: Sansoni, 1968. GARIN, E. Giambattista Vico. In:____. Storia della filosofia italiana. Torino: Giulio Einaudi editore, 1966, v.2, p.920-954. ISNARDI PARENTE, M. Il Vico e il pre-Vico di Rodolfo Mondolfo. Bolettino del Centro di Studi Vichiani, Napoli, vol. VII, p.67-80, 1977. LÖWITH, K. Verum et factum convertuntur: le premesse teologiche del principio di Vico e le loro conseguenze secolari. In: AAVV. Omaggio a Vico. Napoli: Morano, p.73-112, 1968. MONDOLFO, R. Verum factum desde antes de Vico hasta Marx. Tradução espanhola de Oberdan Caletti. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Argentina Editores, 1971.
RUSPOLI, E. Intencionalidad y producción em el conocimiento: um recorrido de Tomás de Aquino a Giambattista Vico. Cuadernos Filología Italiana, Madrid, v.2, p.221-229, 1995. VASOLI, C. Vico, Tommaso d’Aquino e il tomismo. Bollettino del Centro di Studi Vichiani, Napoli, v.IV, p.5-35, 1974.