Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico
Vico e a tradição cartesiana
Pierre Girard*
Ainda que os numerosos estudos críticos consagrados ao
confronto entre Vico e Descartes 1 mais frequentemente se contentam em distinguir os elementos que permitem considerar o filósofo napolitano como uma crítica ou uma alternativa ao cartesianismo, parece-nos que a confrontação entre esses dois pensadores talvez deva, necessariamente, visar menos opô-los de maneira abstrata do que mostrar quais são os pontos de articulação possíveis, notadamente em relação às polêmicas e problemas filosóficos que esses dois autores abordam. Nesse sentido, convém talvez mostrar em que medida tal confrontação oferece a Vico um espaço permitindo-lhe elaborar sua própria filosofia.
O primeiro ponto que nos parece essencial determinar
precisamente é o de saber qual é o Descartes que Vico leu. Tal questão deve ser precisada na medida em que talvez seja menos importante saber quais textos Vico leu exatamente, que determinar com qual espírito ele o fez, e qual era sua expectativa lendo esses textos. Esse aspecto é essencial, pois ele se baseia na evolução diacrônica das perspectivas de leitura em Nápoles na segunda metade do Seicento. Por exemplo, os primeiros cartesianos napolitanos, ligados à Accademia degli Investiganti, liam e interpretavam o cogito cartesiano de maneira particular. Para eles, o cogito era desprezado, como inútil – se interpretava-lhe seja como resíduo arcaico persistente no pensamento moderno de Descartes, seja como uma concessão feita ao partido dos antigos ou como um dos elementos a se integrar em uma estratégia de dissimulação, seja ele integralmente depurado de seu valor metafísico e de seu estatuto central na elaboração do sistema cartesiano, para se tornar a expressão da Libertas philosophandi e de uma filosofia que se dissociava da empresa escolástica. Em outras palavras, as interpretações dos primeiros Investiganti neutralizavam o cogito ou inseriam-no no quadro de suas expectativas iniciais. Ora, no momento em que Vico interpreta o cogito cartesiano, as expectativas de sua leitura estavam consideravelmente transformadas em relação àquelas dos primeiros Investiganti. Para Vico, que intervém em um momento em que o modelo cartesiano perdeu seu estatuto de paradigma científico e foi transposto para o campo da metafísica, o cogito não somente não pode ser desprezado, mas é quem mais contradiz suas próprias expectativas. E vê-se de maneira recorrente o filósofo napolitano criticar o valor metafísico que Descartes lhe atribuía, sublinhando que o cogito se limita a oferecer tão somente um simples “signo indubitável” de meu ser, mas jamais uma “ciência”:
Portanto, refuto não já a análise, como vós confrontais, com a qual
Descartes chega à sua verdade primeira. Eu a aprovo, e a aprovo tanto,
que digo também um Sósia de Plauto, levado a duvidar de todas as coisas
por Mercúrio, como por um gênio falaz, acalmar-se diante daquele “sed
quom cogito, equidem sum”. Mas digo que aquele cogito é signo
indubitável do meu ser, porém, não sendo a causa do meu ser, não me
oferece ciência do ser.2
O que é interessante nesse texto é determinar com qual olhar lê
Vico. Não se espera mais de Descartes que ele ofereça um modelo epistemológico forte – modelo de resto em crise – nem mesmo que ele represente uma figura da Libertas philosophandi. Ao passo que inicialmente para os primeiros Investiganti o pensamento cartesiano oferecia uma força de ruptura e dava aos novatores uma capacidade epistemológica prospectiva que lhes permitia se dissociar da tradição dos antigos, a evolução do cartesianismo em Nápoles, tanto em razão dos mecanismos das querelas quanto do desenvolvimento da ciência, paradoxalmente transformou-o também em uma tradição que se tornou quase um freio ao desenvolvimento da ciência “nova” tal qual a entende Vico.
É preciso, com efeito, para mostrar precisamente o que é a
evolução do cartesianismo em Nápoles ao fim do Seicento, não apenas se limitar a essas perspectivas internas face aos textos cartesianos, mas igualmente discernir bem que o que promovera o sucesso inicial do cartesianismo é, sobre o terreno mesmo desse sucesso, a eficácia científica, posta em crise. Outra vez, o erro consistirá em fixar a força e as características da figura de Descartes, tal qual aparecem após 1650, e as manter nesse estado até o fim do século. Do ponto de vista da história das ciências, não é mais Descartes o modelo, antes, muito mais, Newton e os
newtonianos.3 Ao fim do Seicento, o modelo cartesiano parece assim duplamente superado: do ponto de vista teórico, ele não parece oferecer mais do que uma metafísica criticável e em parte obscura; do ponto de vista epistemológico, ele parece ter se tornado um freio para o desenvolvimento das ciências, doravante vinculado de maneira estreita aos newtonianos.
Este panorama acerca da evolução da maneira pela qual o
cartesianismo é percebido em Nápoles nos parece necessário na medida em que ele indica precisamente qual é o estatuto da crítica que Vico dirige a Descartes, que não se reduzirá a um simples anticartesianismo. Essa interpretação de Vico, paradoxalmente, tornou-se possível por aquele que certamente o difundiu mais eficazmente na Europa, a saber, Jules Michelet. Com efeito, a questão do confronto entre Vico e Descartes frequentemente foi falseada na medida em que a recepção do filósofo napolitano efetuou-se por meio da interpretação de Jules Michelet, que
publicou uma tradução dos seus principais textos no Século XIX 4. A obscuridade dos textos de Vico frequentemente é atribuída a Michelet, não somente ao papel de tradutor, mas também aquele de intérprete de um pensamento que escapava a toda leitura imediata. Em suma, o historiador francês julgou dizer claramente o que escrevera confusamente o filósofo italiano. Ora, qualquer que seja o
interesse intrínseco da leitura de Michelet, 5 na verdade ela permanece uma simples interpretação que se serve de Descartes como ponto de apoio para transformar Vico em precursor genial e incompreendido dos grandes filósofos da história do Século XIX:
Na velocidade do movimento crítico impresso à filosofia por Descartes, o
público não poderia notar quem quer que fosse que permanecesse fora
desse movimento. Eis porque o nome de Vico é ainda tão pouco
conhecido para aquém dos Alpes. Enquanto o vulgo seguia ou combatia a
reforma cartesiana, um gênio solitário fundava a filosofia da história. Não
acusemos a indiferença dos contemporâneos de Vico; antes, tentemos
explicá-la, e mostrar que a Ciência nova foi tão negligenciada durante o
último século unicamente porque ela se endereçava ao nosso.6
O mito do gênio solitário, reforçado pelo aspecto revolucionário e
antecipador da Scienza nuova, tem, em tal leitura, a consequência de situar o conjunto de interpretações de Vico a partir de sua
recepção no Século XIX, em particular no historicismo.7 O risco de tal leitura é o de somente ver em Vico um simples refúgio contra o cartesianismo e seus pretensos “excessos”. Em tal perspectiva, Descartes muitas vezes é vítima de um movimento de redução e de caricatura. Ele se torna uma espécie de pensador binário, reduzido aos critérios rígidos do “claro” e do “distinto” e à tirania da “evidência”. Reduz-se seu pensamento exclusivamente às Meditações Metafísicas (de fato, somente às duas primeiras Meditações), sem que o lugar e o papel específico dessas meditações no conjunto do pensamento cartesiano sejam assinalados. A questão da união substancial, o problema das paixões, textos tão centrais como a correspondência com Elisabet são postos de lado, impedindo, de um único golpe, toda confrontação realmente problemática com a complexidade do pensamento cartesiano. Michelet, limitando Descartes a um pensador que reduzira com ligeireza a densidade do mundo a um esquema mecânico abstrato sem relação com a realidade, e reportando Vico para o lado dos filósofos da história, obriga-se a pensar a crítica do filósofo napolitano de maneira puramente negativa, sem jamais discernir aí a sua complexidade. Vico seria somente uma “alternativa” ao cartesianismo: quem permitiria uma visão “humanista” da filosofia contra a tirania da mathesis universalis, e isso ao restabelecer a densidade da humanidade, com
suas tradições, suas línguas, seu direito, seus mitos, sua história. 8 Vico seria aquele que teria permitido virar a página de um cartesianismo que se tornara sufocante e arcaico, e descoberto novas perspectivas, fazendo dele um pensador de “vanguarda”. O resultado de tal leitura, que esvazia mais do que enfrenta realmente o confronto de Vico e Descartes, com frequência tem por consequência subestimar a influência cartesiana no projeto científico viquiano, entretanto, constantemente reafirmado, quer seja por diluir o papel da razão, essencial, todavia no projeto da Scienza nuova,
em proveito de hipotéticas “ciências” ou “lógicas da imaginação”,9 quer seja por um “antirracionalismo” do qual Vico seria o “primeiro
elo”.10 O confronto crítico de Vico e Descartes é bem mais complexo
e a “recusa cartesiana” 11 de Vico deve ser moderada e sobretudo não deve ser compreendida como o rompimento de relações com as problemáticas cartesianas. Certamente, não se trata de negar a oposição de Vico à localização de certas teses cartesianas, mas isto não deve necessariamente ser compreendido como a recusa da perspectiva científica ou como uma desconfiança frontal da racionalidade. O pensamento de Vico articula-se mais do que se opõe ao cartesianismo e todo o cacife da confrontação não deve se limitar à simples oposição, mas consiste em discernir a capacidade de Vico em criticar o cartesianismo, aprofundando inteiramente alguns de seus conceitos e dando-lhes um sentido e carga novos.
Um dos primeiros textos no qual essa crítica é explicitada é o De
antiquissima Italorum sapientia ex linguae latinae originibus eruenda, publicado em 1710. Trata-se explicitamente de um texto metafísico (liber metaphysicus), a primeira seção – a única
publicada 12 – de um conjunto que deveria comportar três partes. O estatuto desse texto deve ser apontado, pois determina indiretamente o sentido que se pode dar à crítica a Descartes feita ali. O De antiquissima tem no corpus viquiano um lugar único que, se se furta em considerá-lo, desvirtua-se em grande parte as interpretações que daí podem ser feitas. É preciso que insistamos sobre esse ponto, pois na multiplicidade quase infinita das leituras que foram oferecidas da filosofia de Giambattista Vico, a atenção (ou não) dirigida ao De antiquissima desempenha mais frequentemente o papel de um marco divisório entre as interpretações. Assim, para algumas leituras, o De antiquissima constitui a obra central do pensamento de Vico, no qual ele estabelece os fundamentos metafísicos de um pensamento que será desenvolvido na Scienza nuova, ao mesmo tempo, tornando esse texto quase secundário, reduzindo-o a uma simples
aplicação. 13 Outras leituras consideram, ao contrário, que o De antiquissima, ainda que representando um interesse real, não esclarece em nada o processo de Vico em direção à fundamentação de uma ciência nova e que, de uma certa maneira, esse texto constitui mais uma curiosidade no seio do corpus viquiano do que uma autêntica etapa constitutiva do pensamento de Vico.
Não podemos aqui repassar, em detalhe, as discussões que se
opõem a essas interpretações, mas se pode, entretanto, precisar os elementos que permitem colocar em relevo o lugar marginal do De antiquissima no corpus viquiano. O primeiro desses elementos evoca o próprio Vico. Em nenhum momento de sua autobiografia ele faz referência ao De antiquissima como a uma etapa essencial de seu pensamento, e isso, mesmo enquanto se empenha em tentar encontrar um fio diretor em sua produção filosófica e mostrar que todos os seus textos participam in fine no projeto da Scienza nuova. Nesse sentido, é notável constatar que Vico, em sua autobiografia, se mantém puramente descritivo e sublinha que é “a insatisfação que sente a respeito das etimologias gramaticais” (dispiacimento delle etimologie gramatiche), aquilo que constitui o coração do De antiquissima, que o impele a estabelecer “outros princípios de
mitologia” ( 14 altri [princìpi] di mitologia) tornando, ao mesmo tempo, caduca essa primeira tentativa. O segundo elemento evoca ao texto propriamente e às suas teses. De uma parte, somente o primeiro livro do De antiquissima foi publicado em 1710. O livro físico foi redigido por Vico, mas não foi publicado. Tem-se o sentimento de que, após 1710, Vico abandona uma perspectiva, encontra novos princípios e, portanto, deixa inacabado um texto que ele considera como insatisfatório. Mas são sobretudo as teses desenvolvidas no De antiquissima que justificam seu tratamento particular em relação ao restante do corpus. Pode-se considerar, com efeito, que há uma verdadeira ruptura entre as proposições do De antiquissima e aquelas a serem desenvolvidas mais tarde na Scienza nuova. No De antiquissima Vico acredita poder encontrar na “antiga Itália” uma sabedoria verdadeira e profunda, e isso se fundando no estudo
renovado das etimologias latinas.15 Ora, a Scienza nuova abandona essa posição e desenvolve, ao contrário, a ideia segundo a qual o que marca os primórdios da humanidade é, acima de tudo, um estado bestial, grosseiro, e é vão querer encontrar uma sabedoria própria à “razão toda desenvolvida [ragione tutta spiegata]”. O abandono da perspectiva do De antiquissima não é somente contingente, mas constitui, antes, uma verdadeira ruptura no pensamento de Vico. De resto, poder-se-ia assinalar que o De antiquissima contradiz, em antecipação, o método que inerva o conjunto da Scienza nuova e que consiste em evitar aquilo que Vico
nomeia “vaidade dos doutos” ( 16 boria de’ dotti ) e “vaidade das
nações” ( 17 boria delle nazioni ). É preciso, pois, cuidar para não utilizar a crítica a Descartes, que é desenvolvida no De antiquissima, e daí concluir um “anticartesianismo” fundamental e generalizado de
Vico.18 A inflexão que segue seu pensamento com o projeto de uma ciência nova e o abandono de elementos centrais no De antiquissima implicam recolocar a questão do confronto entre Vico e
Descartes levando em consideração essa nova perspectiva. 19
Se atualmente examina-se a natureza das críticas dirigidas a
Descartes no De antiquissima, observa-se que elas não são absolutamente originais no momento em que são apresentadas.
Criticar o estatuto do 20 cogito , o critério da evidência, a solução
cartesiana da glândula pineal21 nada tem de novo em 1710 e Vico não faz senão se inscrever em um movimento geral já bem estabelecido entre os cartesianos, basta pensar em Malebranche, Spinoza ou em Leibniz. Vico parece aqui seguir críticas que outros, antes dele, já haviam apresentado e que são por demais correntes
na Nápoles de então.22
Se se observa, ao contrário, a autobiografia de Vico, o confronto
com Descartes aparece de maneira muito mais interessante e, sobretudo, muito mais próximo do modo pelo qual ele é então percebido em Nápoles. De volta de Vatolla, onde passaria nove anos, Vico traça uma espécie de quadro do estado do cartesianismo e do que ele apreende:
E, de fato, no maior fervor com que se celebrava a física cartesiana, Vico,
de volta a Nápoles, ouviu falar várias vezes do Senhor Gegório Caloprese,
grande filósofo renatista, o qual foi muito caro a Vico. Mas, na unidade das
suas partes, não conduz a um sistema a filosofia de Renato, porque à sua
física conviria uma metafísica que estabelecesse um só gênero de
substância corpórea, operante, como se diz, por necessidade, como,
àquela de Epicuro, um só gênero de substância corpórea operante ao
acaso; porque nisto concorda bem Renato com Epicuro, que todas as
infinitas várias formas dos corpos são modificações da substância
corpórea, que, em substância, nada são. Nem a sua metafísica frutificou
até agora qualquer moral cômoda à religião cristã, pois, não só não a
compõem as poucas coisas que escreveu esparsamente sobre o assunto,
e o tratado das Paixões mais serve à medicina do que à moral; mas nem
mesmo o padre Malebranche soube criar sobre ela um sistema de moral
cristã, e os Pensamentos de Pascal são também luzes esparsas. Nem da
sua metafísica sai uma lógica própria, pois Arnauld trabalha a sua sobre a
planta daquela de Aristóteles. Nem ao menos serve à própria medicina,
porque o homem de Renato, dos anatomistas, não se encontra na
natureza, tanto que, diante daquela de Renato, sustenta melhor um
sistema a filosofia de Epicuro, que não soube nada de matemática. 23
Esse texto é bem surpreendente, e isso por várias razões. Por um
lado, ele esclarece-nos factualmente sobre a presença do cartesianismo em Nápoles e sobre os elementos que se conservaram. Alguns pontos podem mesmo parecer contraditórios com a real situação histórica. Por exemplo, para Vico, seu retorno à Nápoles coincidira com o sucesso da física cartesiana, o que contradiz o estado real dessa física à época. Quando Vico retorna de Vatolla, em 1695, não somente a física cartesiana não goza mais do que fora seu sucesso após 1650, mas, além disso, ela não constitui mais um modelo aos olhos dos cientistas. Essa insistência no sucesso da física cartesiana ao fim do Seicento, repetida várias
vezes na autobiografia,24 não deve, entretanto, ser superinterpretada. Ela manifesta simplesmente o ponto de vista próprio de Vico, que não tem nenhuma formação científica e que se mantém extremamente vago em sua apreciação da ciência cartesiana. Nesse sentido, o fato de que ele imagine que a Philosophie naturelle (Fundamenta physica) de Regius seja em
realidade um texto oculto de Descartes 25 nos informa sobretudo acerca de seu desconhecimento da ciência cartesiana e das querelas que daí surgiram. Em contrapartida, o que parece muito mais interessante nesse texto é o quadro interpretativo de Vico. O ponto de partida da crítica é significativo, na medida em que ele se fundamenta do ponto de vista da “unidade”, da “coerência” do sistema, o que reflete precisamente o estado da recepção de Descartes ao fim do Seicento. A questão da “unidade” não se punha aos primeiros cartesianos, que se contentavam em retomar no
sistema cartesiano aquilo que lhes era útil, a saber, a física. 26 Ao contrário, é segundo a medida dessa “unidade” que, em aparência, Vico parece avaliar o pensamento cartesiano. Ora, essa “unidade” impõe dificuldade na medida em que, segundo Vico, há uma descontinuidade entre a física e a metafísica cartesianas. De uma certa maneira, Vico parece aqui retomar a mesma constatação dos primeiros Investiganti concernente ao valor da metafísica de Descartes, salvo que ele lhe atribui uma importância, o que não era o caso em 1650.
Mas são sobretudo as consequências que Vico tira daí que são
relevantes. O primeiro ponto concerne à leitura materialista que Vico faz do sistema cartesiano. Para ele, a física é fundada sobre a substância corporal una. Há pois um descompasso com a metafísica que admite uma “outra […] [substância] inteligente, para demonstrar
um agente sobre a matéria que não seja matéria”. 27 O que é interessante é que a mesma constatação foi feita ao fim do Seicento entre aqueles que consideravam o pensamento cartesiano fundado sobre a substância corporal una, que sua metafísica não era senão um engano e uma simples dissimulação, e que, no final das contas, ele apenas retomava uma tradição materialista ateia, que os partidários dos antigos em Nápoles faziam remontar a Lucrécio e
chegar a Spinoza. 28 Mas se a constatação é a mesma, a interpretação é diferente: Vico não condena, nesse texto, a redução do cartesianismo à substância corporal, ou pelo menos não é isso o mais importante em sua crítica. Aqui ele mantém-se no plano da constatação: há uma distorção entre a física e a metafísica de Descartes, o que, em um sentido, vincula sua física àquela de Epicuro. Mas não é esse ponto que parece condenável em sua interpretação, e sim, mais precisamente, o fato de que a não-correspondência entre a física e a metafísica implica uma fragilidade prática. Esse aspecto é evidente na sequência do texto, na qual Vico mostra que a metafísica cartesiana não produziu nenhuma moral, nenhuma lógica e nenhuma medicina eficazes.
Para Vico, a crítica da ausência de coerência do sistema
cartesiano não deve ser, portanto, interpretada sobre o mero plano metafísico ou teológico-político, e isso para acentuar o risco de um pensamento materialista e ateu. O que acima de tudo é destacado nessa ausência de coerência são as consequências práticas e epistemológicas que dela decorrem. Falta uma linha estrita e coerente entre física e metafísica, a doutrina cartesiana malogra, aos olhos de Vico, lá onde ela se pretendia mais forte, a saber, na fundamentação de uma ciência eficaz e concreta. É aí, de uma certa maneira, que Vico reencontra o ponto de vista inicial dos primeiros Investiganti, que procediam sobre o simples terreno da eficácia prática. Mas há na crítica de Vico alguma coisa a mais que não aparecia nos Investiganti e que os levou à crise do fim do século, a saber, a ideia de que a ciência, para ser eficaz, deve se apoiar em fundamentos sólidos. Nesse sentido, é muito significativo, aliás, assinalar que Vico considera a filosofia de Epicuro como um “sistema mais coerente” que o cartesianismo, o que demonstra bem que a questão não é julgar essa tradição originada da antiguidade em termos morais ou teológicos. É segundo a medida de sua eficácia prática que a coerência de um sistema é avaliada e julgada. O que aqui é interessante, é que Vico parece avaliar o pensamento de Descartes se baseando nos critérios cartesianos, destacando, notadamente, a importância das consequências práticas de uma doutrina filosófica. Nesse sentido, ainda que Vico se inscreva na linha dos Investiganti, ele também se afasta dela, e é de alguma forma mais realmente “cartesiano” do que eles, na medida em que esses últimos não se punham a questão da coerência do sistema, sobretudo, de uma coerência pensada no plano da coesão entre a teoria e a prática. Para retomar a imagem da árvore cartesiana, eles descartavam como inútil a questão das raízes, e consideravam que somente o tronco físico permitia estabelecer as condições de uma ciência eficaz, em particular em medicina. A posição de Vico é mais complexa e corresponde, em grande parte, à situação de crise da herança Investiganti. Ele conserva a primazia da prática, mas integra também a ideia de que a crise dos Investiganti se deveu à sua incapacidade em se dotar de uma teoria que permitisse estabelecer e se adaptar à agilidade de sua prática. Há em Vico a convicção formada de que somente um fundamento teórico forte é capaz de proporcionar à prática científica um porvir perene. Nesse sentido ele é mais cartesiano que seus predecessores, na medida em que ele bem percebe que a questão das raízes metafísicas não é acessória e deve ser enfrentada de maneira decisiva. O cartesianismo dos Investiganti e sua crítica do cartesianismo eram, no final das contas, nos dois casos, muito superficiais, na medida em que os mecanismos de retomada (em física) e de rejeição (em metafísica) eram muito vagos e conjunturais. A situação de Vico é bem diferente nos dois casos. Ele é, ao mesmo tempo, mais cartesiano que eles, na medida em que parece reoferecer à metafísica cartesiana o papel fundador de uma ciência eficaz na prática. Mas pode parecer mais profundamente anticartesiano que eles, na medida em que é precisamente essa linha, essa “coerência” do sistema, que ele considera uma coisa séria e é onde sua crítica de Descartes é mais viva. Em uma palavra, segundo Vico, Descartes malogra precisamente lá onde queria ser mais forte: em sua prática científica e em sua eficácia concreta. É nessa perspectiva que Vico desenvolve, em seguida, sua crítica do cartesianismo, na qual se vê o pensamento de Descartes criticado a partir de critérios cartesianos que Vico retoma a seu modo. Essa posição é certamente muito complexa, mas ela indica indiretamente como, criticando Descartes inteiramente, Vico pôde retomá-lo e, ao mesmo tempo, superá-lo em seu projeto de uma ciência nova.
Esse ponto de vista de Vico, que consiste em criticar Descartes
retomando inteiramente os critérios cartesianos, aparece notadamente na denúncia recorrente das “ficções” às quais está associada a doutrina cartesiana. Esse aspecto aparece na autobiografia de Vico, em que ele se apraz em acentuar que, diferentemente de Descartes, seu texto pretende o exato reflexo do curso real de seus estudos:
Não se fingirá aqui isto que astutamente fingiu Renato Das Cartas acerca
do método dos seus estudos, para depositar tudo somente sobre a sua
filosofia e matemática e aterrar todos os outros estudos que correspondem
à divina e humana erudição; mas, com a ingenuidade de historiador,
narrar-se-á fio por fio e com franqueza a série de todos os estudos de
Vico, para que se conheçam as próprias e naturais causas do seu tal e
não outro sucesso como literato.29
A ficção cartesiana tem aqui um estatuto duplo, na medida em
que ela parece tanto um meio utilizado “habilmente” (“astutamente”) por Descartes, e isso em uma perspectiva demonstrativa, quanto o resultado dessa mesma demonstração, a saber, uma filosofia fundada sobre o modelo matemático. Esse aspecto é importante, pois, para Vico, jamais o resultado é separável das etapas que permitiram alcançá-lo. Para Vico, é examinando “passo a passo” (fil filo) o progresso de seus estudos que se chegará a uma avaliação não fictícia de seu estatuto de “litterato”. Essa observação de Vico é, por conseguinte, tanto uma denúncia das técnicas empregadas por Descartes quanto do resultado que é proposto: não somente Descartes nos engana, e isso para “exaltar apenas sua filosofia e suas matemáticas”, mas termina por enganar-se a si mesmo ao atribuir às matemáticas um estatuto que não é o delas. Esse estatuto é, com efeito, central para compreender o sentido de seu
confronto com Descartes. 30 A Scienza nuova de Vico, é sabido, não atribui nenhum lugar às matemáticas. Várias razões podem explicar tal situação. A primeira dessas razões é paradoxalmente ligada ao lugar privilegiado que Vico parece reconhecer a essa ciência: “porque nas matemáticas conheço o verdadeiro ao fazê-lo; nas
físicas e nas outras, a coisa é diferente”.31
Nas matemáticas, o homem parece proceder à semelhança de
Deus, para quem o fazer e o conhecer são uma e mesma coisa. 32 Assim, é porque o homem constrói, ele mesmo, os objetos matemáticos que esses últimos são verdadeiros. Ao passo que, em física, o fazer humano é impotente, pois a natureza não é obra do homem, mas de Deus unicamente. O que parece, pois, produzir a força das matemáticas, é que o matemático domina profundamente suas construções – isto é, os objetos matemáticos – assim como a capacidade de criá-los intra se. A força das matemáticas provém então de sua ausência de ligação com o exterior, de sua autonomia
operativa.33 É, pois – diferentemente de Descartes –, menos sua evidência que parece reter Vico do que seu aspecto operativo. Elas são perfeitas, pois são puramente conceituais, e se reduzem a construções do espírito. Mas, paradoxalmente, essa perfeição é a razão pela qual Vico suspeita e termina por rejeitar as matemáticas. Certamente, elas são intuitivamente evidentes, imediatamente conhecidas como verdades, mas, ao mesmo tempo, perdem toda a relação com a realidade. Assim, elas ganham em autonomia o quanto perdem em realidade e se tornam puramente nominais, simples “ficções”, como escreve Vico retomando a linha diretora de sua crítica ao cartesianismo.
Per haec igitur, cum homo, naturam rerum vestigabundus, tandem
animadverteret se eam nullo assequi pacto, quia intra se elementa, ex
quibus res compositae existant, non habet, atque id fieri ex sua mentis
brevitate, nam extra se habet omnia; hoc suae mentis vicium in utiles vertit
usus, et abstractione, quam dicunt, duo sibi confingit; punctum, quod
designari, et unum, quod mutiplicari posset. Atqui utrumque fictum:
punctum enim, si designes, punctum non est; unum, si multiplices, non est
amplius unum 34 .
O paralelismo com Deus é então parcial. Certamente, o homem
opera como Deus, mas cessa aí a comparação, pois o resultado não alcança o mesmo estatuto. O fazer humano, portanto, é somente formalmente semelhante ao divino, na medida em que o primeiro desemboca num mundo de “ficções” abstratas, ao passo que o segundo é o criador da realidade. O privilégio das matemáticas é ambíguo, e Vico parece aceitá-lo teoricamente assim tão facilmente que isso lhe permite afastá-las praticamente de seu sistema. A consequência é que é impossível utilizar as matemáticas fora de seu domínio de legitimidade e, em particular, fazer com elas um uso cego em física. O intuito de Vico não é negar a possibilidade da física, mas denunciar o risco que há em exportar o método geométrico à interpretação da natureza, por conseguinte, supor homogêneas as matemáticas e a natureza.
At inquiunt docti homines hanc eandem physicam, qua ipsi methodo
docent, ipsam esse naturam: et quoquo te ad universi contemplationem
convertas, hanc physicam intueri. Quare gratias agendas authoribus
putant, qui nos tanto negocio naturae ultra contemplandae liberarunt: et
has aedes amplissimas instructissimasque reliquerunt. Quando ita se
habere naturam necesse est, agant quam maximas: sed, si ea aliter sit
comparata, si una de motu regula falsa sit, ut ne dicam non unam tantum
iam falsi compertam esse, videant, etiam atque etiam videant, ne non tuto
iam naturae securi agant: et dum aedium fastigia curant, fundamenta cum
periculo negligant 35 .
Em outras palavras, é preciso suspeitar do sucesso das
matemáticas e de sua pretensa eficácia. O risco apontado por Vico consiste em confundir uma montagem abstrata, uma construção do espírito rigoroso, entretanto fictícia, com o mundo real. Não se trata de se opor às matemáticas, mas de ter em conta que todo progresso nesse domínio tem por contrapartida exata um distanciamento da realidade e um progresso na “ficção”. Ao mesmo tempo, toda utilização das matemáticas no exterior deve considerar essa abstração. A “boa” ficção das matemáticas torna-se “má” se ela é exportada de maneira cega. Trata-se, mais uma vez, de confrontar-se com a obscuridade, com o que resiste, sem que se caia nas ciladas da ilusão. Boas em si mesmas, as matemáticas tornam-se nocivas e corruptoras se são exportadas cegamente. A vantagem de tal modelo tem, pois, um preço e inconvenientes que o tornam totalmente relativo. Eis porque se constata sua exclusão progressiva no pensamento de Vico. As matemáticas não permitem a relação com nada além delas mesmas. Elas são o puro produto de uma “razão toda desenvolvida [ragione tutta spiegata]”, sucesso ambíguo de tal desenvolvimento na medida em que elas parecem heterogêneas e estranhas às forças que lhes permitiram. Nessa perspectiva, para Vico, o projeto cartesiano de uma mathesis
universalis 36 é impossível, e como vimos, a exportação cega do método geométrico pode somente nos fazer entrar num universo ilusório e apartado da realidade.
Mas não deve haver engano acerca do sentido dessa crítica das
matemáticas em Vico. Para ele, jamais é a ocasião de abandonar a ideia de ciência, nem mesmo de elaborar uma ciência “alternativa” àquela desenvolvida no Século XVII, da qual ele é herdeiro. É inteiramente ao contrário; é em nome de uma ciência eficaz, flexível, prática, que saiba se adaptar à heterogeneidade de nossa experiência, que Vico termina por marginalizar as matemáticas. De uma certa maneira, tem-se quase o sentimento de que Vico aparta as matemáticas pelas mesmas razões que impulsionaram a tradição cartesiana a colocá-las no coração do desenvolvimento das ciências. É preciso que insistamos sobre esse aspecto, pois ele é frequentemente a ocasião de uma má interpretação do confronto entre Vico e Descartes. O que guia Vico em seu exame e sua crítica das matemáticas, do sucesso que esse modelo chegou a alcançar no cartesianismo, não é simplesmente o estatuto teórico que podem ter as mathemata, mas sua pretensão em abarcar toda a realidade. Portanto, é a questão prática da eficácia desse modelo em sua aplicação concreta que serve de instrumento de medida e de avaliação a Vico. Esse aspecto é particularmente visível no texto do De nostri temporis studiorum ratione que citamos, mas, também, mais geralmente, nas numerosas passagens nas quais Vico interdita o uso das matemáticas em física. O que se destaca nesses textos, é que Vico jamais os acompanha de um desenvolvimento acerca da fragilidade do espírito humano: sobre a incapacidade que teria o entendimento humano em atingir o real e sobre como se dotar de princípios e instrumentos capazes de apreender a realidade das coisas. Do mesmo modo, a crítica das matemáticas jamais é, para Vico, oportunidade de retomar as teses céticas. A posição de Vico é bem mais pragmática, e paradoxalmente “cartesiana” de alguma forma. Tem-se, assim, o sentimento de que são criticados mais os instrumentos e os meios que Descartes utiliza do que o fim de sua filosofia, donde a impossibilidade de presumir um “anticartesianismo” do filósofo napolitano.
O segundo campo cuja confrontação com Descartes é mais
ambígua é aquele da medicina. Mais uma vez, a originalidade da posição de Vico, a uma só vez, consiste em ser cartesiano em sua intenção de uma medicina eficaz e prática, que recuse o recurso aos “planos ocultos”, e se opor a Descartes no que concerne aos meios que esse último atribui à medicina. O que torna a crítica de Vico difícil de se apreender é que ela manifesta, ao mesmo tempo, a maior hostilidade possível, na medida em que o filósofo napolitano parece dizer que Descartes malogra lá onde ele pensava ser mais eficaz (a medicina), mas também uma adesão substancial ao cartesianismo, na medida em que Vico não discute o objetivo de uma ciência eficaz e se limita a colocar em causa os meios propostos. Assim, novamente, é preciso estar bem atento a isso sobre o qual incide a crítica de Vico e, sobretudo, não generalizála ao conjunto do projeto cartesiano, que ele continua seguindo em sua finalidade. Nesse sentido, não é surpreendente constatar que Vico retorna à questão da “ficção”. Se se retomar o texto tirado da autobiografia citado no início do artigo, Vico faz uma observação muito significativa concernente à concepção cartesiana da medicina: “Nem ao menos serve [a metafísica de Descartes] à própria medicina, porque o homem de Renato, dos anatomistas, não se
encontra na natureza”. 37
Vico parece aqui dizer duas coisas ao mesmo tempo. Pode-se
supor que “o homem de Renato” que “não se encontra na natureza” é aquele do Tratado do Homem, texto conhecido e difundido em Nápoles notadamente por intermédio das relações entre as Academias Científicas. Limitando-se ao estudo de um corpo reduzido a uma simples máquina, Descartes seria, segundo Vico, incapaz de apreender a real complexidade do corpo humano. A consequência é clara: a medicina cartesiana, ao se basear num corpo fictício, análogo em certa medida aos objetos matemáticos em sua incapacidade de coincidir com a realidade, é incapaz de desenvolver uma prática eficaz, apta a apreender a particularidade dos corpos, sua complexidade, sua história.
A posição de Vico não consiste, pois, em recusar a medicina, nem
mesmo em se lançar em longas digressões acerca das incertezas associadas a essa arte médica. Mais uma vez, seu ponto de vista é pragmático e isso o faz um digno herdeiro de Leonardo di Cápua e do uso que esse último faz da noção de “incerteza” em seu Parere. A exemplo de Di Capua, Vico mostra que uma boa medicina deve saber respeitar a complexidade e a particularidade dos corpos que ela é levada a tratar. Contra o modelo mecanicista cartesiano, o bom médico deve saber observar, penetrar, quase por empatia, na especificidade do corpo humano que tem diante dos olhos. Donde a impossibilidade de um diagnóstico imediato e mecânico, que se fundaria sobre um modelo do corpo originado da máquina:
In re autem medica illa subsunt incommoda; quod, cum morborum caussas
non satis certo scire putemus, parum attendamus signa, facessamus ferme
iudicia: quibus rebus, cum antiqui nostris praecellerent, eorum via et ratio
medendi erat procul dubio certior. Cum enim fortasse iis caussae satis
occultae incertaeque viderentur, de eo duntaxat erant usque ad religionem
soliciti et curiosi, quod unum in se recipere, et longa observatione freti
praestare poterant; ex signis non tam de morborum caussis, quam de
gravitate et progressu ad certum curationis ductum iudicare 38 .
Esse texto é, de uma só vez, tanto interessante do ponto de vista
médico quanto enganador do ponto de vista do sentido a se atribuir à confrontação entre Vico e Descartes. A superioridade dos antigos sobre os modernos, que Vico parece reconhecer aqui, não quer dizer absolutamente que se trata de se opor ao pensamento dos modernos e é preciso retornar às práticas antigas. O que guia Vico nessa apreciação é, acima de tudo, sua preocupação com a eficácia e o pragmatismo, o que, de resto, é enunciado muito claramente desde o início do De ratione:
Et quo rem facilius intelligere totam possitis, illud internoscatis oportet, me
non heic scientas scientiis artesque artibus nostras et antiquorum
comparare: sed quid nostra studiorum ratio antiquam vincit, ecquid ab ea
vincitur, et quo pacto, ne vincatur, disserere 39 .
O que faz a força dos antigos, de acordo com Vico, é
precisamente sua incerteza, sua inquietude face às causas que lhes estão ocultas. Novamente, não há aí nenhuma alusão à fragilidade do entendimento humano, nenhum pesar face a essa ausência do conhecimento das causas. O importante é, inversamente, saber não se perder em falsas abstrações, saber estabelecer um diagnóstico preciso do que está em nosso poder e do que não está, e isso com vistas a elaborar uma medicina eficaz. No caso presente, é preciso, segundo Vico, saber observar o doente, se impregnar de sua especificidade. Vico substitui a aplicação analítica e mecânica dos princípios abstratos derivados da medicina cartesiana – ao menos no sentido em que ele a compreende – pela necessidade de uma adaptação sintética e progressiva à particularidade do doente:
Atqui morbi semper novi sunt et alii, ut semper alii sunt aegrotantes. Neque
enim ego idem nunc sum, qui modo fui, dum aegrotantes proloquerer:
innumera namque temporis momenta iam aetatis meae praeterierunt, et
innumeri motus, quibus ad summum diem impellor, iam facti sunt 40 .
Essa atenção à particularidade, em constante modificação, se
torna, segundo Vico, em uma das condições de possibilidade de uma ciência eficaz, que sabe não se perder em gêneros e conceitos abstratos. De uma certa maneira, a crítica de Vico termina por se dirigir aqui indistintamente ao cartesianismo e à escolástica. Ou melhor, a maneira pela qual ele recebeu o cartesianismo é próxima daquela pela qual os primeiros Investiganti receberam a escolástica. Nos dois casos, que se tratasse de gêneros, de formas escolásticas ou “ficções” cartesianas, o que é criticado são os métodos que se extraem artificialmente de uma realidade complexa, que constroem termos e modelos simplificados – e isso em qualquer que seja o campo examinado – para, em seguida, aplicá-los artificialmente a essa mesma realidade.
Não resta dúvida de que essa crítica, limitada aos meios, não
deixa de ser ambígua. Certamente, acima de tudo, são os métodos, os meios que são criticados, mas se pode perguntar o que resta do pensamento cartesiano, que tanto apostara justamente em seu método, uma vez este era descartado por Vico? Por exemplo, em nenhum momento Vico diz que Descartes não encerre nenhum interesse a uma ciência ou, no presente caso, a uma medicina eficaz. A crítica recorrente da “ficção” cartesiana é aquela dos meios desenvolvidos pela tradição cartesiana, que, segundo Vico, são perfeitamente contraditórios com o que é a ambição e a finalidade próprias dessa mesma tradição. Mas, no final das contas, a crítica pode parecer extrema, pois uma das forças do cartesianismo era precisamente saber se munir dos meios capazes de responder aos fins que propunha a si. Que estatuto, que força resta ao objetivo cartesiano de uma medicina eficaz e prática, uma vez que Vico mostrou que os meios implementados eram totalmente ineficazes para atingir esse objetivo? Certamente Vico se opõe menos a Descartes do que busca superá-lo e expandi-lo ao campo que, segundo ele, fora abandonado injustamente pela ciência cartesiana. A insistência constante com a qual Vico retorna ao aspecto científico
da 41 Scienza nuova , a preocupação de uma “prática” da nova
ciência que ele propõe,42 inscrevem-no profundamente na herança cartesiana. Mas não resta dúvida que Vico é muitas vezes ambíguo na discussão do cartesianismo, se apresentando profundamente cartesiano em alguns aspectos, e opondo-se violentamente em outros. O desaparecimento quase total das referências a Descartes nas diversas versões da Scienza nuova, isto é, nos textos nos quais parece precisamente continuar e expandir a novos domínios o esforço científico cartesiano, pode igualmente impor dificuldade. Quando Vico lê Descartes e se refere ao pensamento cartesiano jamais o faz segundo a imagem que gosta de oferecer de si mesmo, se recolhendo “à escrivaninha”, mas mediante esse processo de sedimentação que dá uma densidade real à sua aproximação. São certamente os textos que ele leu, mas isso mediante perspectivas que são suas, às quais se acrescentam as querelas, as filiações, as diversas interpretações, os erros, as críticas ligadas ao pensamento cartesiano. A isso se acrescenta a estratégia das referências no seio
do sistema viquiano43 que faz com que, frequentemente, os autores colocados em destaque, notadamente aqueles que Vico denomina
seus “quattro auttori”, a saber, Platão, Tácito, Bacon, Grócio, 44 não o são senão de maneira artificial e servem para mascarar as
referências subjacentes mais determinantes, como Lucrécio, 45
Hobbes,46 47 48 Descartes, Bayle, assim como Spinoza, os quais são
criticados e até mesmo aparentemente rejeitados por Vico. 49
Essas considerações fazem com que seja muito difícil determinar
o que Vico recebeu exatamente de Descartes, e saber como ele o reutiliza em seu próprio projeto. Essa particularidade de Vico não quer dizer que sua recepção do cartesianismo seja unívoca e linear, mas significa notadamente que ela se destaca de outras recepções
análogas, em particular daquela de Paolo Mattia Doria, 50 reconsiderando e retomando o projeto científico de Descartes. O segundo ponto que nos parece importante evoca as consequências sócio-políticas das “ficções” que Vico critica em Descartes. Trata-se aqui de um aspecto tão interessante que constitui muito certamente um dos pontos principais de sua crítica. Se se observa os textos nos quais Vico se opõe a Descartes, vê-se que sistematicamente a crítica parece se fazer pelo viés das consequências sócio-políticas negativas do cartesianismo. Esse aspecto aparece notadamente nas consequências do cartesianismo sobre os métodos educativos. O caso das matemáticas é, mais uma vez, extremamente relevante, pois ele permite discernir os diferentes níveis de crítica entrelaçados em Vico. Como se viu, a primeira crítica é de natureza epistemológica: o criticável nas matemáticas é que, longe de nos permitir aceder à realidade, elas nos fazem adentrar em um mundo puramente fictício. Mas a esse primeiro nível de crítica de natureza epistemológica é imediatamente atrelada uma crítica de natureza sócio-política. Propondo-nos um mundo fictício, as matemáticas e, de forma mais geral, o método geométrico, nos impedem de desenvolver uma prática eficaz entre os homens. Há aí uma nuance importante, na medida em que se Vico se inscreve na preocupação prática que Descartes atribui à sua ciência: no pensador napolitano a prática é necessariamente compreendida de maneira sócio-política.
Sed illum incommodum nostrae studiorum rationis maximum est, quod
cum naturalibus doctrinis impensissime studeamus, moralem non tanti
facimus, et eam potissimum partem, quae de humani animi ingenio
eiusque passionibus ad vitam civilem et ad eloquentiam accommodate, de
propiis virtutum ac viciorum notis, de bonis malisque artibus, de morum
characteribus pro cuiusque aetate, sexu, conditione, fortuna, gente,
republica, et de illa decori arte omnium difficillima disserit: atque adeo
amplissima praestantissimaque de republica doctrina nobis deserta ferme
et inculta iacet. Quia unus hodie studiorum finis veritas, vestigamus
naturam rerum, quia certa videtur: hominum naturam non vestigamus, quia
est ab arbitrio incertissima. Sed haec ratio studiorum adolescentibus illa
parit incommoda, ut porro nec satis vitam civilem prudenter agant, nec
orationem moribus tingere et affectibus inflammare satis sciant 51 .
O perigo da tradição cartesiana é, pois, para Vico, acima de tudo,
aquele de um desligamento da política. Ao se limitar aos critérios cartesianos da verdade, da evidência, não somente se engana de um ponto de vista científico crendo apreender a natureza das coisas, mas se expõe à incapacidade de agir no mundo dos homens:
Neste sentido, como se os jovens das academias devessem surgir no
mundo dos homens, o qual, composto de linhas, de números e de
espécies algébricas, enchem a sua cabeça com os magníficos vocábulos
de “demonstrações”, de “evidências”, de “verdades demonstradas”, e
condenam o verossímil, que é o verdadeiro na maioria das vezes, que dá
a ele aquela regra: de julgar um grande motivo de verdade isto que parece
verdadeiro a todos ou à maior parte dos homens […].52
Mesclando em um mesmo discurso um plano epistemológico e
um plano político, Vico concede uma verdadeira originalidade à sua crítica a Descartes. O critério cartesiano da verdade é contestável na medida em que, segundo Vico, nada pode garantir a tal ou tal evidência particular o valor que Descartes atribui à sua evidência. Mas são, sobretudo, as consequências políticas de tal critério que devem ser ressaltadas:
E a razão de tudo isso que escrevi é que, por todos os lugares
celebrandose o critério da verdade do próprio Renato, que é a clara e
distinta percepção, o qual, indefinido, é mais incerto que aquele de Epicuro
de que o sentido evidente de cada um, que cada paixão nossa faz parecer
evidente, conduz rapidamente ao ceticismo, o qual, desconhecendo as
verdades nascidas dentro de nós mesmos, pouca ou mesmo nenhuma
consideração tem daquelas que se devem recolher externamente, que
necessitam reencontra-se com a tópica para assegurar o verossímil, o
senso comum e a autoridade do gênero humano. 53
Ora, para Vico, a ausência de um critério de verdade sólido, o que
“conduz rapidamente ao ceticismo”, deve ser combatido em razão das consequências políticas desastrosas que acarreta.
Mas o ceticismo, colocando em dúvida a verdade, que une os homens, os
dispõe a todo motivo de prazer pessoal e de utilidade própria que seguem
o sentido próprio, assim das comunidades civis os convoca ao estado de
solidão, não dos animais dóceis, que têm o talento de viverem em unidade
nas manadas e nos rebanhos, mas dos ferozes e horríveis, que vivem
todos separados, sós em suas tocas e covis.54
Não se trata aqui de retornar aos textos, baseando-se
notadamente nas questões de educação, nas quais a oposição a Descartes traduz-se principalmente nos termos e nas características
da prática sócio-política.55 É mais interessante, ao contrário, determinar qual é a posição de Vico. Vê-se que esse último não se limita em se opor a Descartes, mas novamente tenta superá-lo. Nesse sentido, o anticartesianismo de Vico, frequentemente posto em preeminência pela crítica como ponto de partida para expor a pretensa originalidade de Vico, seus métodos alternativos ao cartesianismo, deve ser absolutamente reconsiderado. O ponto de vista de Vico é mais complexo, não somente em razão das características próprias de sua recepção e de sua maneira de ler Descartes, mas também em relação ao seu projeto científico. Tem-se muitas vezes o sentimento de que Vico não somente não se opõe necessariamente à empresa cartesiana, mas de que ele tenta efetivamente expandir o campo de competência ao procurar aplicá-la a domínios designados como inerentes ao “confuso” e ao “obscuro”. Assim, não se pode dizer que Vico se oponha em sentido estrito à ciência cartesiana, na medida em que ele retoma para si a preocupação prática e concreta que a anima, e limita sua crítica aos meios e ao método adotado. Da mesma maneira, as consequências negativas do cartesianismo no plano sócio-político não são, para Vico, oportunidade de renunciar à ciência, nem mesmo rejeitar Descartes, mas lhe servem para entender de alguma forma o sentido que Descartes atribuía à noção de prática e de ciência. Para Vico, a prática deve necessariamente ter um sentido sócio-político. Somente uma ciência que se construa sobre tais princípios e com tal finalidade será realmente fundamentada teoricamente e realmente eficaz na prática. Esse projeto, de uma ciência no sentido forte do termo, que não se perca nas ficções, e que tenha eminentemente um valor prático, é aquele da Scienza nuova que Vico elabora até à sua morte em 1744.
Tradução do francês:
Enoque M. Portes
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