Nêmesis

Agatha Christie · Capítulo 9 de 23

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Nêmesis

Capítulo VII

UM CONVITE

Miss Marple decidiu esquivar-se ao

passeio da tarde. Reconheceu que estava meio cansada e que não lhe faria falta visitar uma igreja antiga com vitrais do século XIV. Ia descansar um pouco e depois os encontraria no salão de chá que lhe tinham indicado na rua principal. Mrs. Sandbourne concordou que era a melhor solução.

Miss Marple, repousando num banco

confortável diante do salão de chá, pôs-se a refletir sobre o que pretendia fazer a seguir e se seria ou não aconselhável fazê-lo.

Quando os outros apareceram à hora do

chá, ela não teve problemas para formar discretamente um grupo com Miss Cooke e Miss Barrow. As três sentaram-se a uma mesa de quatro lugares. A quarta cadeira foi ocupada por Mr. Caspar, que Miss Marple não considerava suficientemente familiarizado com a língua inglesa para que pudesse atrapalhar.

Debruçando-se sobre a mesa, a mordiscar

uma fatia de pão suíço, Miss Marple disse a Miss Cooke:

— Sabe, tenho certeza absoluta de que já

nos vimos antes. Andei pensando muito a respeito... já não sou tão boa fisionomista quanto fui, mas estou certa de que a encontrei em alguma parte.

Miss Cooke fez uma cara amável, mas de

dúvida. Olhou para a amiga, Miss Barrow. Miss Marple imitou-a. Miss Barrow não demonstrou que possuísse dados que permitissem esclarecer o mistério.

— Não sei se já esteve na região em que

eu moro — prosseguiu Miss Marple. — É em St. Mary Mead. Um lugarejo muito pequeno, sabe? Bem, hoje em dia, nem tanto, com todas essas construções que andam fazendo por aí. Fica pouco distante de Much Benham e a apenas quinze quilômetros da costa de Loomouth.

— Ah — fez Miss Cooke, — deixe-me ver.

Bom, eu conheço Loomouth bastante bem e talvez...

De repente Miss Marple soltou uma

exclamação de alegria.

— Mas claro! Um dia eu estava no jardim

da minha casa em St. Mary Mead e a senhora conversou comigo quando passava pela rua. Disse que se achava hospedada lá, eu me lembro, em casa de uma amiga...

— Lógico — disse Miss Cooke. — Que

estupidez a minha. Agora me recordo perfeitamente. Nós ainda falamos da dificuldade que se tem atualmente para encontrar alguém... que saiba cuidar de plantas, quero dizer... alguém que preste para alguma coisa.

— Sim. Mas a senhora não estava

morando lá, não é? Apenas se achava hospedada em casa de alguém.

— É, eu estava em casa de... de... — Miss

Cooke hesitou um pouco, com ar de quem não consegue lembrar um nome direito.

— De uma tal de Mrs. Sutherland, não

foi? — sugeriu Miss Marple.

— Não, não, era... hum... Mrs... — Hastings — disse Miss Barrow com

firmeza, pegando uma fatia de bolo de chocolate.

— Ah é, uma daquelas casas novas —

concordou Miss Marple.

— Hastings — exclamou Mr. Caspar,

inesperadamente. — Sorriu, radiante. — Já estive em Hastings... e em Eastbourne, também. — Tornou a sorrir. — Muito bonito... à beira-mar.

— Que coincidência — disse Miss Marple,

— nos reencontrarmos tão cedo... que mundo pequeno, não é?

— Também pudera, do jeito que gostamos

de jardins — comentou Miss Cooke vagamente.

— Flores lindas — continuou Mr. Caspar.

— Gosto muito... — Sorriu outra vez.

— E arbustos tão raros e bonitos — disse

Miss Cooke.

Miss Marple lançou-se a todo vapor a

uma conversa sobre certos aspectos técnicos de jardinagem — com a colaboração de Miss Cooke. De vez em quando Miss Barrow intercalava algum comentário.

Mr. Caspar recolheu-se a um sorridente

silêncio.

Mais tarde, quando Miss Marple fez seu

descanso habitual antes do jantar, ponderou sobre os dados que acabava de colher. Miss Cooke tinha reconhecido que. havia estado em St. Mary Mead. E que havia passado pela sua casa, admitindo que de fato era muita coincidência. Coincidência? repetiu Miss Marple, pensativa, girando a palavra na boca como faria uma criança com um pirulito cujo sabor quisesse definir. Seria coincidência? Ou teria ela algum motivo para aparecer lá? Não teria sido enviada por alguém? Nesse caso — a troco de quê? Estaria imaginando coisas ridículas?

Toda coincidência — disse consigo

mesma, — é sempre digna de nota. Mais tarde posso descartá-la, se for só coincidência.

Miss Cooke e Miss Barrow davam

impressão de formarem uma dupla de amigas perfeitamente comum, empreendendo o tipo de excursão que, segundo elas, faziam todos os anos. No ano precedente tinham participado de um cruzeiro pelas ilhas gregas, e antes de uma excursão pelas tulipas da Holanda e de uma visita à Irlanda do Norte. Pareciam pessoas absolutamente simpáticas e normais. Mas Miss Cooke, na opinião de Miss Marple, por pouco havia negado que tivesse estado em St. Mary Mead. Tinha olhado para a amiga, Miss Barrow, como que à procura de orientação sobre o que devia dizer. Pelo visto era Miss Barrow que exercia a autoridade na relação de ambas...

Ah, é bem provável que eu esteja

imaginando coisas — pensou Miss Marple. — Talvez nem tenham o menor significado.

De repente, sem querer, ocorreu-lhe a

palavra perigo. Mr. Rafiel a tinha usado em sua primeira carta — mencionando na segunda qualquer coisa sobre a provável necessidade de recorrer a um anjo da guarda. Estaria correndo perigo nessa história — mas por quê? E da parte de quem?

Não de Miss Cooke e Miss Barrow,

certamente. Duas criaturas de aspecto tão inofensivo.

Em todo caso, Miss Cooke tinha pintado o

cabelo, e mudado de penteado. Disfarçando, tanto quanto possível, a aparência. O que era estranho, vamos e venhamos! Passou outra vez em revista seus companheiros de viagem.

Mr. Caspar, agora, tornava-se bem mais

fácil imaginá-lo como perigoso. Será que compreendia inglês melhor do que demonstrava? Começou a ficar curiosa a respeito de Mr. Caspar.

Miss Marple jamais conseguira se libertar

por completo de sua formação vitoriana em matéria de estrangeiros. Com eles nunca se sabia. Uma sensação totalmente absurda, lógico — pois tinha muitos amigos em vários países estrangeiros. Mesmo assim...? Miss Cooke, Miss Barrow, Mr. Caspar, aquele rapaz de cabeleira selvagem — Emlyn não-sei-o-quê — revolucionário — anarquista praticante? Mr. e Mrs. Butler — americanos tão simpáticos — mas talvez — demasiadamente típicos para serem autênticos?

— Positivamente — disse Miss Marple —

preciso me conter um pouco.

Fixou sua atenção no itinerário da

excursão. Amanhã, pensou, vai ser um dia bastante carregado. Um passeio matinal de turismo, começando bem cedo; à tarde, uma caminhada longa, meio atlética, por uma estrada costeira. Certas plantas floríferas marinhas interessantes... Ia ser cansativo. O apêndice oferecia uma sugestão cheia de tato. Quem sentisse necessidade de descanso poderia permanecer no hotel do Javali Dourado, onde havia um jardim muito agradável, ou então fazer uma rápida excursão que levaria apenas uma hora, a um ponto de atração das redondezas. Achou que talvez faria isso.

Mas embora ainda não soubesse, seus

planos iam sofrer uma súbita modificação.

No dia seguinte, quando Miss Marple

desceu do seu quarto no Javali Dourado, depois de levar as mãos para ir almoçar, uma mulher de costume de tweed aproximou-se meio nervosa e perguntou-lhe:

— Desculpe-me, mas a senhora não é

Miss Marple... Miss Jane Marple?

— Sim — respondeu Miss Marple,

bastante surpresa.

— O meu nome é Mrs. Glynne. Lavinia

Glynne. Moro perto daqui com duas irmãs e... bem, nós estávamos prevenidas sobre a sua chegada, sabe, e...

— Já sabiam que eu vinha? —

interrompeu Miss Marple. cada vez mais admirada.

— Sim. Um velho amigo nosso nos

avisou... ah, já faz algum tempo, deve ter sido há três semanas, mas ele nos pediu para anotar a data. A data da Excursão das Casas e Jardins Célebres. Disse que uma grande amiga dele... ou parente, não tenho bem certeza... participaria dessa excursão.

Miss Marple continuou com a mesma

expressão atônita.

— Refiro-me a Mr. Rafiel — explicou Mrs.

Glynne.

— Ah! Mr. Rafiel — disse Miss Marple, —

a senhora... a senhora sabe que...

— Que ele morreu? Sim. Uma pena.

Assim que chegou a carta dele. Acho que decerto deve ter sido pouco depois de nos escrever. Mas sentimos uma urgência especial para procurarmos fazer o que ele tinha pedido. Ele sugeriu, sabe, que a senhora talvez gostasse de se hospedar algumas noites lá em casa. Esta parte da excursão é bastante carregada. Quer dizer, é muito boa, para as pessoas jovens, mas cansativa demais para qualquer pessoa já de certa idade. Implica em fazer vários quilômetros a pé e numa quantidade de escalagem por caminhos difíceis e lugares escarpados. A senhora nos dará uma grande alegria se for se hospedar conosco. A casa dista dez minutos daqui do hotel e tenho certeza de que poderíamos mostrar-lhe muitas coisas interessantes por aqui.

Miss Marple hesitou um pouco.

Simpatizava com o aspecto de Mrs. Glynne, gordinha, bem-humorada e cordial, apesar de meio tímida. Além disso — seriam aquelas, mais uma vez, as instruções de Mr. Rafiel? — o próximo passo que devia dar? Sim, com certeza devia ser.

Mas, não sabia por que, sentia-se

nervosa. Talvez por que agora já estivesse mais familiarizada com as pessoas da excursão, sentindo-se parte do grupo, embora só as conhecesse há apenas três dias.

Virou-se para Mrs. Glynne, que

continuava parada, ansiosa, à espera da resposta.

— Obrigada... é muita gentileza de sua

parte. Terei o máximo prazer em aceitar.