Nêmesis

Agatha Christie · Capítulo 18 de 23

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Nêmesis

Capítulo XVII

MISS MARPLE FAZ UMA VISITA

Quando voltaram a pé do inquérito para o

Javali Dourado, ninguém abriu praticamente a boca. O Professor Wanstead ia ao lado de Miss Marple e, como ela não costumava caminhar muito depressa, os dois foram, aos poucos, ficando para trás.

— Que será que vai acontecer agora? —

perguntou, afinal, Miss Marple.

— A senhora quer dizer legalmente ou

conosco?

— Ambas as coisas — respondeu Miss

Marple, — pois acho que uma está certamente relacionada com a outra.

— É provável que a polícia tenha de

proceder a novas investigações, baseadas no depoimento prestado por esses dois jovens.

— Sim.

— Serão necessárias novas sindicâncias.

O inquérito tinha que ficar suspenso mesmo. Não se pode esperar que o juiz dê um veredicto de morte acidental.

— Não, claro que não. Que é que o senhor

achou do testemunho deles?

O Professor Wanstead lançou-lhe um

olhar penetrante sob as sobrancelhas grossas.

— Miss Marple, a senhora tem alguma

idéia a. esse respeito? — Havia uma sugestão na voz dele. — Nós naturalmente já sabíamos de antemão o que eles iam dizer.

— Sim.

— O que a senhora quis me perguntar é o

que eu acho deles como pessoas, e do tipo de reação que tiveram.

— Foi interessante — disse Miss Marple.

— Muito interessante. O pulôver xadrez vermelho e preto. Me parece bastante importante, não acha? Uma coisa marcante, não é?

— Sim, exatamente.

Tornou a lançar-lhe aquele olhar sob as

sobrancelhas.

— O que é que isso lhe sugere,

precisamente?

— Tenho a impressão — disse Miss

Marple, — eu tenho a impressão de que a descrição desse pulôver pode nos levar a uma pista valiosa.

Tinham chegado ao Javali Dourado. Eram

apenas doze e meia e Mrs. Sandbourne sugeriu que tomassem alguma coisa antes de irem almoçar. Enquanto consumiam xerez, suco de tomate e outras bebidas, Mrs. Sandbourne aproveitou para fazer certas comunicações.

— Consultei o juiz e o inspetor Douglas —

disse ela. — Como o médico-legista já prestou todas as informações necessárias, amanhã às onze horas haverá um serviço de encomendação fúnebre na igreja. Eu vou providenciar tudo com Mr. Courtney, o vigário local. No dia seguinte, a meu ver, será melhor reiniciar a excursão. O programa sofrerá pequenas modificações, já que perdemos três dias, mas eu acho que pode ser reorganizado em bases um pouco mais simples. Alguns participantes do nosso grupo me disseram que preferem regressar a Londres, provavelmente de trem. Compreendo perfeitamente a situação e não tenciono me esforçar para dissuadi-los. Essa morte foi uma ocorrência muito triste. Mesmo assim, continuo convicta de que a morte de Miss Temple resultou de um acidente. Não é a primeira vez que acontece isso naquela trilha, embora neste caso não pareça ter havido nenhuma condição geológica ou atmosférica capaz de propiciá-la. Creio que terão de proceder a investigações bem mais completas. É lógico que algum andarilho que estivesse fazendo uma excursão a pé... qualquer coisa nesse sentido... podia andar empurrando pedras da maneira mais inocente, sem perceber que havia o perigo de alguém passar por baixo do que talvez estivesse fazendo. Se for assim, se essa pessoa se apresentar, tudo se esclarecerá rapidamente, mas eu concordo que de momento não se pode garantir que isso venha a acontecer. Parece improvável que a falecida Miss Temple tivesse inimigos, ou alguém interessado em causar-lhe qualquer espécie de dano. O que eu queria propor é que não se comente mais o acidente. As autoridades locais farão as investigações que lhes compete fazer. Creio que todos nós provavelmente vamos comparecer amanhã ao serviço de encomendação na igreja. E depois disso, ao seguir com a excursão, espero que possamos distrair nossos espíritos do choque que tivemos. Ainda há algumas casas muito interessantes e famosas para ver, bem como alguns panoramas muito bonitos.

Anunciado o almoço, ninguém comentou

mais o assunto. Ao menos abertamente. Terminada a refeição, enquanto tomavam café na sala de estar, todos se mostraram inclinados a formar pequenos grupos, discutindo seus planos futuros.

— A senhora vai continuar a excursão? —

perguntou o Professor Wanstead a Miss Marple.

— Não — respondeu ela. E acrescentou,

pensativa: — Não. Eu acho... eu acho que o que aconteceu me leva a permanecer mais um pouco aqui.

— No Javali Dourado ou no Velho Solar? — Isso depende de eu receber um novo

convite para voltar ao Velho Solar. Não gostaria de me oferecer porque o primeiro convite era só para as duas noites que a excursão pretendia passar aqui. Tenho a impressão de que seria melhor ficar no Javali Dourado.

— Não sente vontade de voltar para St.

Mary Mead?

— Por enquanto ainda não — disse Miss

Marple. — Creio que tem umas coisas que eu poderia fazer aqui. Uma eu já fiz. — Enfrentou o olhar de curiosidade dele. — Se o senhor tenciona seguir adiante com o resto do grupo, eu lhe direi o que foi, além de sugerir uma pequena linha lateral de investigação que pode ser útil. Depois eu conto o outro motivo porque quero permanecer aqui. Há umas sindicâncias... locais... que pretendo fazer. Talvez não dêem em nada, por isso acho melhor não mencioná-las agora. E o senhor?

— Eu gostaria de voltar a Londres. Estou

com um trabalho lá à minha espera. A não ser, bem entendido, que lhe possa ser útil aqui.

— Não — respondeu Miss Marple, — de

momento acho que não. Imagino que haja várias sindicâncias que o senhor queira efetuar por conta própria.

— Eu vim nesta excursão para conhecer a

senhora, Miss Marple.

— E agora que me conheceu e sabe o que

eu sei, ou praticamente tudo o que sei, o senhor tem outras sindicâncias a fazer. Compreendo perfeitamente. Mas antes que se vá embora daqui, acho que tem umas coisas... bem, que podem ser úteis, que podem dar resultado.

— Percebo. A senhora está com idéias. — Estou apenas lembrando o que o

senhor disse.

— Sentiu, talvez, o cheiro do mal? — É difícil — respondeu Miss Marple —

saber com exatidão o que qualquer coisa errada no ar realmente significa.

— Mas a senhora sente que há qualquer coisa errada no ar?

— Sem dúvida. Com toda a nitidez. — E principalmente depois da morte de

Miss Temple, que, é claro, não foi acidente, por mais que Mrs. Sandbourne espere que seja.

— Não — disse Miss Marple, — não foi

acidente, não. Tenho a impressão de que nunca lhe contei que Miss Temple uma vez me falou que estava fazendo uma peregrinação.

— Que interessante — disse o Professor.

— Sim, que interessante. Ela não explicou que peregrinação era, a que lugar, para ver quem?

— Não — respondeu Miss Marple; — se

tivesse vivido mais um pouco e não fosse tão vacilante, talvez chegasse a explicar. Mas infelizmente a morte veio cedo demais.

— Quer dizer então que não tem outras

idéias sobre esse assunto?

— Não. Apenas uma sensação de que a

peregrinação dela foi interrompida com intuito maligno. Alguém quis impedi-la de chegar aonde pretendia ir ou de falar com quem pretendia ver. Agora só nos resta esperar que o acaso ou a Providência esclareçam tudo.

— É por isso que quer ficar aqui? — Não só por isso — disse Miss Marple.

— Quero averiguar mais coisas sobre uma moça chamada Nora Broad.

— Nora Broad.

Parecia um pouco intrigado. — A outra moça que desapareceu mais ou

menos na mesma época que Verity Hunt. Lembra-se? O senhor mencionou-a. Uma que tinha namorados e que me disseram que estava sempre pronta a ter namorados. Uma tola, mas que pelo jeito os homens achavam atraente. Eu creio — disse Miss Marple, — que descobrir mais coisas sobre ela talvez auxilie minhas investigações.

— Faça como bem entender, Inspetor

Marple — disse o Professor Wanstead.

 

O serviço de encomendação realizou-se

na manhã seguinte. Todos os participantes da excursão foram à igreja. Miss Marple olhou ao redor. Vários moradores do povoado também estavam presentes: Mrs. Glynne, sua irmã Clotilde — a mais moça, Anthea, não compareceu — e outras pessoas que também deviam ser dali. Provavelmente nem conheciam Miss Temple, mas de curiosidade meio mórbida pelo que hoje se define como “violência”. Havia também um clérigo já idoso, que usava polainas e Miss Marple achou que tinha muito mais de setenta anos: um velho de ombros largos e venerável juba de cabelos brancos. Era meio aleijado, com certa dificuldade para se ajoelhar e levantar. Que belo rosto, pensou Miss Marple, perguntando-se quem seria. Algum amigo de Elizabeth Temple, talvez, que tivesse vindo de longe para assistir ao serviço de encomendação?

À saída da igreja, Miss Marple trocou

algumas palavras com seus companheiros de viagem. Agora já sabia muito bem o que cada um pretendia fazer. O casal Butler ia voltar para Londres.

— Eu falei para o Henry que

simplesmente não poderia continuar a excursão — disse Mrs. Butler. — Sabe... a toda hora me dá a sensação de que no minuto que se vá fazer uma curva, alguém, sabe, seja capaz de nos dar um tiro ou jogar uma pedra. Alguém que talvez tenha antipatia pelas Famosas Casas da Inglaterra.

— Ora essa, Mamie, que idéia — disse

Mr. Butler, — não se deixe levar pela imaginação!

— Pois olhe, hoje em dia nunca se sabe.

Com todos esses seqüestros de aviões e de pessoas que andam por aí, eu realmente já não me sinto segura em parte nenhuma.

As velhas Miss Lumley e Miss Bentham,

refreando suas apreensões, continuariam com a excursão.

— Pagamos um preço muito caro por esta

viagem e é uma pena perder alguma coisa só porque aconteceu esse acidente tão triste. Ontem à noite telefonamos para uns vizinhos ótimos que nós temos e eles vão cuidar dos gatos, de modo que não precisamos mais nos preocupar.

Para Miss Lumley e Miss Bentham o

assunto já estava classificado como acidente. Tinham decidido que assim ficaria mais cômodo.

Mrs. Riseley-Porter também ia continuar

a excursão. O Coronel Walker e a esposa haviam resolvido que nada os faria perder a ocasião de ver uma coleção de fúcsias particularmente rara no jardim que devia ser visitado dentro de dois dias. Jameson, o arquiteto, também queria examinar vários prédios que tinham interesse especial para ele. Mas Mr. Caspar, segundo informou, ia tomar o trem. Miss Cooke e Miss Barrow pareciam indecisas.

— Há uns passeios muito bonitos por

aqui — disse Miss Cooke. — Acho que ficaremos mais uns dias no Javali Dourado. É o que a senhora também tenciona fazer, não é, Miss Marple?

— De fato — confirmou Miss Marple. —

Ainda não me sinto disposta a enfrentar a viagem e tudo mais. Acho que uns dois dias de descanso me fariam bem depois do que houve.

À medida que o pequeno agrupamento de

pessoas se dispersava, Miss Marple tomou discretamente outro caminho. Tirou da bolsa uma folha arrancada de sua agenda, onde anotara dois endereços. O primeiro, de uma certa Mrs. Blackett, levou-a a uma graciosa casinha com jardim que ficava bem no fim da rua, à beira de uma encosta que descia até o vale. Uma mulherzinha toda arrumada abriu-lhe a porta.

— Mrs. Blackett?

— Sim, senhora, sou eu mesma. — Será que eu poderia entrar para falar-

lhe um instante? Acabo de vir da igreja e me sinto meio tonta. Não daria para eu sentar um pouco?

— Ah, meu Deus, que horror. Mas entre,

minha senhora, vá entrando. Isso. Sente-se aqui. Agora vou buscar-lhe um copo d"água... ou quem sabe prefere um chá?

— Não, obrigada — agradeceu Miss

Marple, — um copo d"água é o suficiente.

Mrs. Blackett voltou com o copo d"água e

a agradável perspectiva de conversar a respeito de doenças, tonturas e outras coisas.

— Sabe, tenho um sobrinho assim. Não

devia acontecer na idade dele, mal passou dos cinqüenta, mas de vez em quando lhe vêem umas tonturas súbitas e se ele não se senta logo... olhe, nem sabe, é capaz de cair desmaiado no chão na mesma hora. Uma coisa horrível. Horrível. E parece que os médicos não conseguem descobrir o que é. Cá está seu copo d"água.

— Ah — exclamou Miss Marple, bebendo,

— me sinto muito melhor.

— Assistiu à encomendação da pobre

senhora que assassinaram, como dizem alguns, ou sofreu um acidente, segundo outros? Eu tenho certeza de que foi acidente. Mas esses inquéritos e juizes, eles sempre querem dar um ar criminoso a tudo, não é mesmo?

— Pois é — concordou Miss Marple. —

Fiquei penalizada ao saber que já houve uma porção de casos semelhantes por aqui no passado. Me falaram muito de uma moça chamada Nora. Nora Broad, se não me engano.

— Ah é, a Nora. Bem, ela era filha de uma

prima nossa. É. Isso já faz muito tempo. Sumiu e nunca mais apareceu. Essas meninas, não há meio de segurá-las em casa. Quantas vezes eu falei para a Nancy Broad... a minha prima... eu dizia para ela: “Você passa o dia todo fora, trabalhando” e dizia: “O que é que a Nora fica fazendo? Você sabe que ela é do tipo que gosta de rapazes. Olhe”, eu dizia, “um dia isso ainda acaba mal, você vai ver”. E dito e feito, eu tinha toda a razão.

— A senhora quer dizer...? — Ora, o velho problema. Sim, ela ficou

grávida. Diga-se de passagem que eu acho que a minha prima Nancy não sabia de nada. Mas claro, eu tenho sessenta e cinco anos e entendo dessas coisas. Conheço o jeito que elas ficam e acho que sei quem foi, mas não tenho certeza. Talvez tenha-me enganado, porque ele continuou morando aqui e ficou muito triste quando a Nora desapareceu.

— Ela fugiu de casa, é?

— Bem, ela aceitou carona de alguém...

de um desconhecido. Foi a última vez que foi vista. Já não me lembro da marca do carro. Tinha um nome engraçado. Audit, qualquer coisa assim. Em todo caso, não era a primeira vez que era vista naquele carro. E lá se foi, junto com ele. E dizem que aquela pobre moça que morreu assassinada também costumava andar no mesmo carro. Mas eu não acredito que isso tenha acontecido com a Nora. Se ela houvesse sido assassinada, a esta altura o cadáver já teria aparecido, não acha?

— É provável — concordou Miss Marple.

— Ela ia bem no colégio e tudo mais?

— Ah, não ia, não. Era preguiçosa e ainda

por cima não tinha nada de inteligente. Não. Só pensava em homem. Desde que completou doze anos. Eu acho que no fim ela deve ter fugido pra valer com alguém. Mas nunca mandou notícias pra ninguém. Nem ao menos um postal. Tenho a impressão de que foi-se embora com alguém que lhe prometeu mundos e fundos. Sabe como e. Teve outra que eu conheci... mas isso foi quando eu era moça... que fugiu com um desses negros africanos. Ele disse pra ela que o pai dele era Xeque. Palavra engraçada essa, mas acho que era Xeque mesmo. Seja como for, ficava lá pela África, pela Argélia. Isso mesmo, era na Argélia. Lá por aqueles cafundós-do-judas. E ela ia ter tudo quanto é maravilha. O pai do rapaz, dizia ele, tinha seis camelos e uma tropa inteira de cavalos e ela ia morar numa casa maravilhosa, pois é, com tapetes pendurados pelas paredes, o que me parece um lugar meio engraçado pra pendurar tapetes. É lá se foi ela. Três anos depois, voltou pra cá de novo. É. Tinha passado o diabo. O diabo. Eles moravam numa casa pequena, horrível, feita de barro. Veja só, de barro. E não havia grande coisa pra comer, só. um troço que eles chamam de cuscuz, que eu sempre pensei que fosse chuchu, mas parece que não é. É mais parecido com pudim de semolina. Ah, foi um horror. E no fim ele disse que ela não servia para ele e que queria se divorciar. Falou que bastava dizer “Eu me divorcio de você” três vezes, aí ele disse e deu o fora na coitada. Depois, não sei como, uma espécie de sociedade que existe por lá se encarregou dela e pagou-lhe a passagem de volta para a Inglaterra. E ficou aí, plantada. Ah, mas isso foi há uns trinta ou quarenta anos, lá isso foi. Agora, a Nora, isso aconteceu há apenas sete ou oito anos. Mas eu tenho a impressão de que qualquer dia desses ela aparece de novo por aí, tendo aprendido uma boa lição e descoberto que todas essas belas promessas não servem para nada.

— Ela não tinha ninguém a quem

pudesse recorrer além da... da mãe dela... da sua prima, quero dizer? Ninguém que...

— Bem, muita gente tinha sido boa pra

ela. O pessoal do Velho Solar, por exemplo. Mrs. Glynne naquele tempo não morava aqui, mas Miss Clotilde sempre foi camarada com as moças que vinham do colégio. É, ela costumava dar presentes ótimos para a Nora. Uma vez, deu uma manta muito bonita e um vestido lindo. Lindo, mesmo. Um traje de verão, de uma espécie de tecido de raiom. Ah, Miss Clotilde era uma verdadeira mãe para ela. Fez o possível para que a Nora tomasse interesse pelos estudos. Uma porção de coisas assim. Aconselhava-a a não proceder daquele jeito porque, sabe... bem, eu nem gosto de falar desse modo da filha de uma prima, embora seja bom que se diga que quem era mesmo meu primo era o marido dela... mas o que eu quero dizer é que havia qualquer coisa de horrível na maneira como ela andava com todos os rapazes. Saía com qualquer um. Uma tristeza. Eu acho que no fim ela ainda vai terminar à-toa. Não creio que tenha outro futuro a não ser esse. Não gosto de andar falando essas coisas, mas é a pura verdade. Enfim, talvez seja melhor que morrer assassinada, que nem Miss Hunt, que morava lá no Velho Solar. Aquilo sim que foi uma crueldade. Pensaram que ela tivesse fugido com alguém, e a polícia teve um trabalhão danado. Sempre fazendo perguntas e mandando os rapazes que tinham andado com a moça ajudar nas investigações e tudo mais. Como o Geoffrey Grant, o Billy Thompson, e o filho dos Langfords, o Harry. Todos desempre-gados... com tanto emprego por aí, é só querer trabalhar. No tempo da minha juventude não era assim. As moças andavam na linha. E os rapazes sabiam que tinham de trabalhar para ser alguma coisa na vida.

Miss Marple conversou um pouco mais,

disse que agora já se achava completamente refeita, agradeceu a Mrs. Blackett e retirou-se.

Sua próxima visita foi a uma moça que

estava transplantando alfaces.

— Nora Broad? Ah, faz anos que ela não

aparece aqui no povoado. Fugiu não sei com quem. Era doida por homem. Eu sempre me perguntava aonde que ela ia acabar. A senhora queria falar com ela por algum motivo especial?

— É que eu recebi uma carta de uma

amiga que vive no estrangeiro — mentiu Miss Marple. — Uma família muito boa, e eles estavam pensando em contratar essa tal de Nora Broad. Me parece que ela andou metida nalguma encrenca. Casou com um sujeito que não valia nada, que depois a abandonou, fugindo com outra, e ela queria conseguir um emprego para cuidar de crianças. A minha amiga não sabia nada a respeito dela, mas eu descobri que ela era deste povoado. Por isso fiquei pensando se não haveria ninguém por aqui que pudesse... bem, me dar umas informações. Pelo que vejo, você esteve no colégio com ela, não é?

— Ah é, fomos colegas de aula. Mas não

vá pensar que eu aprovava tudo o que a Nora fazia. Ela era louca por homem, era, sim. Bem, eu naquele tempo andava de namoro firme com um rapaz muito bonzinho e então disse a ela que não ficava bem sair com tudo quanto era tipo que lhe oferecesse carona ou convidasse para ir ao bar, onde com toda a certeza mentia que era de maior idade. Ela dava impressão de ser muito mais velha do que de fato era.

— Morena ou loura?

— Ah, o cabelo era escuro. Bonito, por

sinal. Usava ele sempre solto, sabe, como as moças de hoje.

— A polícia ficou preocupada quando ela

desapareceu?

— Ficou. É que ela não deixou nenhuma

explicação, entende? Simplesmente saiu uma noite e não voltou. Foi vista entrando num carro, que ninguém tornou a ver. Que nem ela. Naquela época houve uma onda de crimes, sabe? Não propriamente por aqui, mas por todo o país. A polícia andava prendendo uma porção de homens e rapazes. Todo mundo pensou que a Nora fosse um dos cadáveres. Pois sim. Garanto que ela está muito bem. Com toda a certeza ganha dinheiro em Londres ou em qualquer outra cidade grande fazendo números de strip-tease, ou algo parecido. Isso seria bem dela.

— Se for a mesma pessoa que procuro —

disse Miss Marple, — acho que não serve para a minha amiga.

— Para servir — retrucou a moça, — ela

teria que mudar um bocado.

XVIII

O ARCEDIAGO BRABAZON

Quando Miss Marple, meio ofegante e

bastante cansada, chegou ao Javali Dourado, a recepcionista saiu do balcão e veio ao seu encontro.

— Ah, Miss Marple, tem uma pessoa aí

que quer falar com a senhora. O Arcediago Brabazon.

Miss Marple fez uma cara de espanto. — O Arcediago Brabazon? — É. Ele anda à sua procura. Soube que

a senhora está nesta excursão e quer vê-la antes que a senhora vá embora ou volte para Londres. Eu avisei que alguns iam voltar para Londres pelo último trem da tarde, mas ele está com vontade de conversar antes que a senhora vá embora. Mandei que ficasse na sala de televisão. Lá é mais sossegado. A outra, no momento, está muito barulhenta.

Ligeiramente surpresa, Miss Marple

dirigiu-se à sala indicada. E constatou que o Arcediago Brabazon era o clérigo idoso que já lhe tinha chamado a atenção no serviço religioso. Ele se levantou e adiantou-se para ela.

— Miss Marple. Miss Jane Marple? — Sim, esse é o meu nome. O senhor

queria...

— Sou o Arcediago Brabazon. Cheguei

hoje de manhã para assistir ao serviço de encomendação de uma velha amiga minha, Miss Elizabeth Temple.

— Ah é? — retrucou Miss Marple. —

Sente-se, por favor.

— Muito obrigado. Já não sou tão forte

como antigamente.

Instalou-se cuidadosamente numa

poltrona.

— E o senhor...

Miss Marple sentou-se a seu lado. — Pois é — continuou, — o senhor queria

falar comigo?

— Bem, eu devo explicar-lhe o motivo. Sei

muito bem que a senhora ignora por completo quem eu seja. Para dizer a verdade, antes de ir à igreja eu fiz uma rápida visita ao hospital de Carristown para falar com a chefe das enfermeiras. Foi ela quem me contou que, antes de morrer, Elizabeth pediu para ver uma companheira de excursão, Miss Jane Marple. E que Miss Jane Marple esteve no hospital visitando-a e permanecendo sentada, fazendo-lhe companhia, momentos antes que Elizabeth morresse.

Olhou ansioso para ela.

— Sim — disse Miss Marple, —

exatamente. Fiquei admirada que ela me mandasse chamar.

— A senhora era uma velha amiga dela? — Não — respondeu Miss Marple. —

Conheci-a apenas nesta excursão. Foi por isso que me admirei. Já tínhamos trocado idéias, de vez em quando sentávamos juntas no ônibus e estávamos em francos termos de camaradagem. Mas me admirei de que ela tivesse manifestado vontade de me ver quando se achava tão mal.

— Sim. Sim, posso muito bem imaginar.

Como já disse, ela era uma velha amiga minha. Inclusive ia me ver, ia me visitar. Eu moro em Fillminster, que é onde a sua excursão de ônibus fará escala depois de amanhã. E já estava tudo programado para ela me visitar lá. Ela queria conversar comigo a respeito de vários assuntos, sobre os quais achava que eu poderia prestar-lhe esclarecimentos.

— Compreendo — disse Miss Marple. —

Posso fazer-lhe uma pergunta? Espero que não seja demasiado íntima.

— Pois não, Miss Marple. Pergunte tudo o

que quiser.

— Uma das coisas que Miss Temple me

disse foi que a presença dela na excursão não era apenas para visitar casas e jardins históricos. Ela descreveu-a com uma palavra bastante rara, como uma peregrinação.

— Ah é? — disse o Arcediago Brabazon.

— Foi isso que ela disse? Mas que interessante. Interessante e talvez significativo.

— Por isso quero perguntar-lhe o

seguinte: o senhor acha que a peregrinação a que ela se referiu era a visita que pretendia fazer-lhe?

— Creio que deve ter sido — respondeu o

Arcediago. — Sim, creio que foi.

— Nós duas estávamos falando —

explicou Miss Marple, —a respeito de uma moça. De uma moça chamada Verity.

— Ah, sim. Verity Hunt.

— O sobrenome dela eu não sabia. Tenho

a impressão de que Miss Temple mencionou-a apenas como Verity.

— Verity Hunt morreu — disse o

Arcediago. — Já faz muitos anos. Sabia disso?

— Sabia, sim — respondeu Miss Marple.

— Miss Temple e eu falamos a respeito dela. Miss Temple me contou uma coisa que eu ignorava. Disse que ela tinha sido noiva do filho de um tal de Mr. Rafiel. Mr. Rafiel é, ou mais uma vez devo dizer, era amigo meu. De pura generosidade, ele me pagou as despesas desta excursão. Mas tenho a impressão de que ele queria... de fato, pretendia... que eu me encontrasse com Miss Temple durante a viagem. Acho que pensou que ela poderia me dar uma determinada informação.

— Sobre Verity?

— É.

— Foi por isso que ela ia me visitar.

Queria apurar certos fatos.

— Ela queria apurar — disse Miss Marple

— o motivo por que Verity tinha rompido o noivado com o filho de Mr. Rafiel.

— A Verity — retrucou o Arcediago

Brabazon — não rompeu o noivado. Disso eu tenho certeza. Absoluta.

— Miss Temple não sabia disso, sabia? — Não. Mas creio que andava intrigada e

descontente com o que havia acontecido e ia me procurar para perguntar por que o casamento não se tinha realizado.

— E por que é que ele não se realizou? — perguntou Miss Marple. — Por favor, não vá pensar que estou querendo me meter onde não fui chamada. Não se trata de mera curiosidade. E que também me encontro numa... não direi peregrinação... mas numa espécie de missão. Também preciso saber por que Michael Rafiel e Verity Hunt não se casaram.

O Arcediago ficou olhando para ela. — Vejo que a senhora, de certa forma,

também está envolvida nessa história.

— Estou — confirmou Miss Marple, —

pela vontade de um morto: o pai de Michael Rafiel. Que me pediu para fazer isso por ele.

— Não vejo motivo para não lhe contar

tudo o que sei — disse o Arcediago devagar. — A senhora está me fazendo a mesma pergunta que Elizabeth Temple faria e para a qual não sei a resposta. Aqueles dois jovens, Miss Marple, tencionavam casar-se. Os preparativos para o casamento estavam prontos. Eu ia oficiar a cerimônia. Tenho a impressão de que seria efetuada em segredo. Eu conhecia ambos. A Verity, aquele encanto de menina, eu conhecia já há muito tempo. Fui eu quem a crismou, e sempre oficiava os serviços religiosos na Quaresma, na Páscoa, e noutras ocasiões, no colégio de Elizabeth Temple. Que era ótimo, por sinal. Ela foi uma criatura maravilhosa. Uma professora extraordinária, com esplêndida intuição para prever a capacidade de cada aluna... as matérias para as quais se achava mais bem dotada. Sugeria carreiras para as moças que ela achava que tinham vocação, e não forçava as que não demonstravam aptidões especiais. Sim, ela era uma grande mulher e uma amiga inestimável. A Verity foi uma das meninas... uma das moças, aliás... mais bonitas que já encontrei. Não só de aspecto, como também de espírito, de coração. Teve a infelicidade de perder os pais antes de chegar realmente à idade adulta. Ambos morreram num avião que haviam fretado para passar as férias na Itália. A Verity, depois que saiu do colégio, foi morar com uma tal de Miss Clotilde Bradbury-Scott, que como decerto a senhora sabe, reside aqui. Ela e a mãe da Verity eram amigas íntimas. São três irmãs que vivem juntas, embora na época a segunda estivesse casada e morasse no exterior, de modo que apenas duas residiam aqui. Clotilde, a mais velha, afeiçoou-se extremamente à Verity. Fez o possível para lhe dar uma vida feliz. Levou-a umas duas vezes para o estrangeiro, pagou-lhe lições de pintura na Itália, demonstrando profundo carinho e dedicação em todos os sentidos. A Verity, também, chegou a gostar tanto dela quanto provavelmente teria gostado da própria mãe. Ela dependia de Clotilde, que era uma mulher intelectual e culta. Não insistiu para que Verity cursasse a universidade, mas isso eu acho que se explica facilmente pelo fato de que Verity, no fundo, não queria seguir nenhuma carreira. Preferia estudar pintura, música, coisas assim. Ela morou aqui no Velho Solar e teve, a meu ver, uma vida muito feliz. Parecia estar sempre contente. Naturalmente, não mais a vi depois que veio para cá, pois Fillminster, onde eu estava na catedral, fica a quase oitenta quilômetros daqui. Eu lhe escrevia no Natal e noutras festividades e ela sempre se lembrava de me enviar um cartão de Boas Festas. Mas passei anos sem vê-la, até que um belo dia me apareceu de repente, já moça feita, e lindíssima, acompanhada de um belo rapaz que casualmente eu também conhecia de vista, o filho de Mr. Rafiel, Michael. Foram me procurar porque estavam apaixonados e queriam casar.

— E o senhor concordou?

— Concordei, sim. Miss Marple, talvez a

senhora ache que eu não devia ter feito isso. Era evidente que tinham ido me procurar em segredo. Imagino que Clotilde Bradbury-Scott houvesse tentado dissuadir o namoro, direito que, aliás, lhe assistia. Michael Rafiel, eu lhe confesso com toda a sinceridade, não era o gênero de marido que se sonha para uma filha ou parenta. A Verity, inclusive, não tinha maturidade suficiente para saber o que queria e Michael, desde garoto, sempre se meteu em encrencas. Já havia passado pelo juizado de menores, andava com amigos que não lhe convinham, associado a quadrilhas de malfeitores, causando danos a edifícios e cabinas telefônicas. Mantinha relações íntimas com várias moças, a quem depois via-se obrigado a responder pela manutenção. Sim, não só em matéria de mulheres, como de vários outros pontos de vista, ele não valia nada. Mas as mulheres b consideravam extremamente atraente, caíam em sua lábia e comportavam-se de uma maneira incrivelmente tola. Ele já havia cumprido duas penas na cadeia. Tinha, portanto, ficha de criminoso. O pai, eu conhecia, embora não muito bem, e acho que fez tudo o que pôde... tudo o que um homem de seu caráter poderia fazer... para ajudar o filho. Socorreu-o, conseguiu-lhe empregos, nos quais talvez tivesse logrado êxito. Saldava-lhe as dívidas, indenizava-lhe os danos. Fez tudo isso. Mas não sei...

— O senhor acha que ele poderia ter feito

muito mais ainda, não é?

— Não — respondeu o Arcediago, — eu

agora cheguei a uma idade em que compreendo que se devem aceitar os nossos semelhantes como o tipo de gente que possui, digamos, em termos modernos, a herança genética que forma o caráter que têm. Não creio que Mr. Rafiel tivesse demonstrado, algum dia, grande afeição pelo filho. O máximo que se poderia dizer é que gostava bastante dele. Mas nunca lhe deu amor. Não sei se para Michel teria sido melhor que tivesse recebido amor do pai. Talvez não fizesse a menor diferença. De qualquer modo, foi uma pena. O rapaz não era burro. Tinha certo grau de inteligência e talento. Podia ter sido honesto, se quisesse e se desse ao trabalho de sê-lo. Mas era por natureza... admitamos com franqueza... um delinqüente. Possuía qualidades apreciáveis. Revelava senso de humor e mostrava-se, sob vários aspectos, generoso e amável. Sabia defender um amigo, ajudá-lo a sair de embaraços. Tratava mal as namoradas, deixando-as em má situação, como se diz aqui no interior, e depois praticamente as abandonava, arrumando outras. Portanto, eis-me lá com aqueles dois e... pois é... concordei em casá-los. Expliquei a Verity, com toda franqueza, o tipo de rapaz com quem ela queria casar. E descobri que ele não havia tentado enganá-la de nenhuma maneira. Tinha-lhe dito que sempre andava metido em encrencas, tanto com a polícia como com quase todo o mundo. Mas que quando casasse com ela pretendia começar vida nova. Tudo mudaria. Eu preveni que isso não ia acontecer, que ele não mudaria. Ninguém muda. Ele talvez quisesse mudar. Tenho a impressão de que a Verity sabia disso quase tão bem quanto eu. Ela mesma confessou que sabia. Ela me disse: “Eu sei como o Mike é. Sei que ele provavelmente sempre será assim, mas eu gosto muito dele. Pode ser que eu consiga ajudá-lo, pode ser que não. Mas vou arriscar.” E eu lhe digo uma coisa, Miss Marple. Eu, melhor que ninguém, que já lidei com muita gente moça, que já casei uma porção de jovens e que já vi muito casamento acabar mal e outros inesperadamente bem... aprendi a reconhecer uma coisa. Eu sei quando um casal está realmente apaixonado. E não me refiro à mera atração sexual. Hoje em dia fala-se demais em sexo, presta-se uma atenção exagerada a isso. Não quero dizer que tudo a respeito de sexo esteja errado. Seria tolice. Mas o sexo não pode substituir o amor. Ele faz parte do amor, mas não pode dar certo sozinho. Amar significa as palavras da cerimônia nupcial. “Para o melhor, para o pior, para a riqueza, para a pobreza, para a doença, para a saúde”. É isso que a gente se compromete a fazer quando se ama e se deseja casar. E aqueles dois se amavam. “Amar e preservar até que a morte nos separe”. E aqui — disse o Arcediago, — termina a minha história. Não posso continuar porque não sei o que aconteceu. Só sei que concordei em fazer o que me pediam, e que tomei todas as providências necessárias: marcamos dia, hora e lugar. Creio que talvez tive culpa de aceitar o sigilo.

— Eles não queriam que ninguém

soubesse? — perguntou Miss Marple.

— Não. A Verity não queria, e tenho quase certeza de que Mike também não. Estavam com medo de serem impedidos. Eu acho que para a Verity, além do amor, havia também uma sensação de libertação. Natural, a meu ver, devido às circunstâncias da vida que levava. Tinha perdido seus verdadeiros tutores, os pais, e mudou completamente de vida depois da morte deles, numa idade em que uma colegial costuma geralmente ter uma “paixonite” por alguém. Por uma professora bonita. Qualquer uma, desde a instrutora de ginástica até a professora de matemática, ou a monitora ou uma colega mais velha. Uma fase que não dura muito tempo, é meramente uma parte natural da vida. Depois, daí ela passa à fase seguinte, quando percebe que o que de fato quer na vida é o que a complementa: uma relação entre homem e mulher. Aí então ela começa a procurar um companheiro. O companheiro permanente, ideal. E, se tiver juízo, não se afoba, faz amizades, mas continua procurando, até que, como diziam as antigas babás para as crianças, surja o Príncipe Encantado. Clotilde Bradbury-Scott foi excepcionalmente boa para Verity, e a Verity, acho eu, retribuiu com o que eu chamaria de adoração. Como mulher, era uma personalidade. Bonita, talentosa, interessante. Tenho a impressão de que Verity a adorava de uma maneira quase romântica e que Clotilde chegou a amar Verity como se fosse sua própria filha. E assim a Verity atingiu a maturidade numa atmosfera de adoração, levando uma vida intensa, cheia de coisas interessantes que lhe estimulavam a inteligência. Era uma vida feliz, mas eu acho que aos poucos ela sentiu — de modo meio inconsciente, digamos — vontade de se libertar. De se libertar de tanto amor. De fugir, não sabia para onde nem como. Mas isso ela descobriu ao conhecer Michael. Ela queria fugir para uma vida onde o macho e a fêmea se unem para criar a próxima etapa de vida neste mundo. Viu, porém, que seria impossível fazer Clotilde compreender seus sentimentos, e que Clotilde iria se opor tenazmente a levar o seu amor por Michael a sério. E receio muito que, nesse sentido, Clotilde tinha toda a razão... quanto a isso não tenho mais dúvidas. Ele não era o marido que Verity devia escolher ou ter. O caminho que ela tomou não conduzia à vida, à plenitude e à felicidade, mas ao choque, à dor e à morte. A senhora está vendo, Miss Marple, que eu fiquei com um profundo sentimento de culpa. Pensei que estivesse agindo direito, mas não sabia de uma coisa que precisava saber. Eu conhecia Verity, mas não conhecia Michael. Entendi o motivo de Verity querer guardar segredo, pois não ignorava a forte personalidade que Clotilde Bradbury-Scott tinha. Ela talvez exercesse bastante influência sobre Verity para persuadi-la a desistir do casamento.

— O senhor acha então que foi isso

mesmo que ela fez? Acha que Clotilde contou-lhe o suficiente a respeito de Michael para persuadi-la a desistir da idéia de casar com ele?

— Não, isso eu não acredito. Até agora

não acredito. Se fosse assim, a Verity me teria dito. Teria encontrado um jeito de me informar.

— Que foi que realmente aconteceu

naquele dia?

— Eu ainda não contei à senhora. A data

estava marcada. O dia, a hora e o lugar. Eu esperei. Fiquei esperando uma noiva e um noivo que não apareceram, que não mandaram nenhum aviso, nenhuma desculpa, nada. Eu não sabia por quê! Nunca soube por quê. Continua me parecendo inacreditável. Não por não terem aparecido, o que seria perfeitamente explicável, mas por não terem mandado avisar. Um bilhete com poucas linhas. E foi por isso que imaginei e torci para que Elizabeth Temple, antes de morrer, tivesse dito alguma coisa à senhora. Confiando-lhe, talvez, uma mensagem para mim. Se ela soubesse ou tivesse qualquer idéia de que ia morrer, é possível que quisesse me transmitir algum recado.

— Ela queria que o senhor lhe desse

informações — disse Miss Marple. — Tenho certeza de que foi esse o motivo que a fez procurá-lo.

— Sim, provavelmente deve ter sido isso.

Me parecia, sabe, que a Verity não teria dito nada às pessoas que poderiam tê-la impedido, como Clotilde e Anthea Bradbury-Scott, mas já que sempre havia dedicado uma grande admiração a Elizabeth Temple... que exercia muita influência sobre ela... me parece que ela seria capaz de lhe ter escrito e dado alguma espécie de informação.

— Acho que deu — disse Miss Marple. — A senhora acha?

— Sim. E a informação que ela deu a

Elizabeth Temple — respondeu Miss Marple, — foi essa: que ela ia casar com Michael Rafiel. Miss Temple sabia disso. Foi uma das coisas que me contou. Ela disse: — “Eu conheci uma moça chamada Verity que ia casar com Michael Rafiel”, e a única pessoa que poderia lhe ter dito isso seria a própria Verity. A Verity deve ter escrito ou mandado algum recado a ela. E aí, quando perguntei: “Por que ela não casou com ele?”, ela me respondeu: “Porque ela morreu.”

— Então estamos num beco sem saída —

disse o Arcediago Brabazon. Suspirou. — Elizabeth e eu só sabíamos destes dois fatos. Elizabeth, que a Verity ia casar com Michael. E eu, que os dois iam casar, que tinham deixado tudo preparado e que viriam no dia e hora marcados. E esperei por eles, mas não houve nenhum casamento. Nem noiva, nem noivo, nem uma explicação.

— E não tem a mínima idéia do que

aconteceu? — perguntou Miss Marple.

— Nunca acreditei, por um instante

sequer, que a Verity e o Michael tivessem se separado, ou rompido, definitivamente.

— Mas deve ter acontecido algo entre eles!

Algo que talvez abrisse os olhos de Verity, quanto a certos aspectos do caráter e da personalidade de Michael, que antes ela ignorava ou não tinha percebido.

— Essa explicação não é satisfatória

porque mesmo assim ela encontraria um meio de me avisar. Não me deixaria esperando para uni-los em justas núpcias. E o mais absurdo da história é que era uma moça finíssima, muito bem educada. Ela teria mandado algum recado. Não. Eu desconfio que só pode ter acontecido uma coisa.

— A morte? — perguntou Miss Marple,

lembrando-se daquela palavra que Elizabeth Temple havia pronunciado e que tinha soado como o dobre pungente de um sino.

— Sim. — O Arcediago Brabazon

suspirou. — A morte.

— O amor — disse Miss Marple,

pensativa.

— Com isso a senhora quer dizer... —

hesitou.

— Foi o que Miss Temple me disse. Eu

perguntei: “Que foi que a matou?” e ela respondeu: “O amor”, e que o amor era a palavra mais terrível que existe. A mais terrível.

— Compreendo — disse o Arcediago. —

Compreendo... ou acho que compreendo.

— Qual é a sua interpretação? — Dupla personalidade. — Suspirou. —

Uma coisa que as outras pessoas não percebem, a menos que estejam tecnicamente capacitadas para isso. O Dr. Jekyll e Mr. Hyde existem, sabe? Não foram pura invenção de Robert Stevenson. Michael Rafiel era um... deve ter sido um esquizofrênico. Possuía dupla personalidade. Eu não tenho conhecimentos médicos nem experiência psicanalítica. Mas nele devem ter coexistido duas identidades. Uma, a do rapaz bem-intencionado, quase digno de amor, cuja principal atração talvez fosse uma vontade de ser feliz. Mas havia também a segunda, de alguém que se sentia impelido, possivelmente por alguma deformação mental... por algo que por enquanto ainda não temos certeza... a matar... não um inimigo, mas a pessoa que ele amava. E assim ele matou Verity. Sem saber, talvez, por que motivo ou com que intuito. Existem coisas verdadeiramente terríveis neste mundo, subterfúgios mentais, moléstias ou deformidades do cérebro. Na minha paróquia ocorreu um caso penoso desse tipo. Duas senhoras idosas moravam juntas, vivendo de aposentadorias. Tinham-se tornado amigas quando trabalhavam juntas num lugar qualquer. Pareciam levar uma vida muito feliz. E no entanto, um dia, uma matou a outra. Ela mandou chamar um velho amigo dela, o vigário da paróquia, e disse: “Matei Louisa. É muito triste, mas vi o diabo no olho dela olhando para mim e percebi que era o sinal de que devia matá-la”. Coisas assim fazem a gente às vezes desesperar da vida. Pergunta-se por quê? Como é possível? E no entanto um dia surgirá a resposta. Os médicos vão simplesmente descobrir ou encontrar uma pequena deformidade de um cromossomo ou gene. Alguma glândula hipertrofiada ou que pára de funcionar.

— De forma que é isso que o senhor acha

que aconteceu? — perguntou Miss Marple.

— Foi o que aconteceu. Sei que levou

muito tempo para encontrarem o cadáver. Verity simplesmente desapareceu. Saiu de casa e nunca mais foi vista...

— Mas então deve ter acontecido...

naquele mesmo dia...

— Sim, mas no julgamento... — Quer dizer, depois que encontraram o

cadáver, quando a polícia finalmente prendeu Michael?

— Pois é, ele foi um dos primeiros a ser

interrogado pela polícia. Tinha sido visto por aí em companhia dela, que também foi vista no carro dele. O tempo todo eles estavam certos de que ele era o homem que procuravam. Foi o primeiro suspeito e nunca deixaram de suspeitar dele. Os outros rapazes que conheciam Verity foram interrogados, mas ou possuíam alibis ou as provas eram insuficientes. Continuaram suspeitando de Michael, e finalmente encontraram o cadáver. Estrangulado, e com a cabeça e o rosto desfigurados por golpes violentos. Um ataque louco, frenético. Ele estava fora de si quando desferiu aqueles golpes. Mr. Hyde, digamos, havia se encarnado nele.

Miss Marple estremeceu.

O Arcediago continuou, em voz baixa e

pesarosa.

— E no entanto, às vezes, ainda hoje, eu

tenho a sensação de que foi outro rapaz que a matou. Um que fosse, positivamente, desequilibrado mental, sem que ninguém desconfiasse. Um desconhecido, talvez, que ela tivesse encontrado por aqui. Alguém que ela tivesse encontrado por acaso, que lhe tivesse dado carona, e aí... — Sacudiu a cabeça.

— É possível — disse Miss Marple. — Mike causou má impressão no tribunal

— disse o Arcediago. — Pregou mentiras idiotas e absurdas. Mentiu sobre o percurso que tinha feito com o carro. Conseguiu que os seus amigos lhe fornecessem alibis inacreditáveis. Ele estava apavorado. Não falou nada sobre o plano do casamento. Eu creio que o advogado achou que isso deporia contra ele... que Verity o estivesse forçando a casar com ela e que ele não quisesse. Já faz tanto tempo que nem me lembro dos detalhes. Mas as provas foram todas contra ele. Ele era culpado... e tinha cara de culpado.

“Portanto a senhora vê, não é, Miss

Marple, como estou triste e desolado. Fiz o que não devia. Encorajei uma moça tão meiga e bonita a ir ao encontro da morte só porque eu não conhecia direito a natureza humana. Eu ignorava o perigo que ela estava correndo. Acreditava que, se ela tivesse qualquer medo dele, qualquer súbito conhecimento de que havia algo de ruim nele, ela quebraria a promessa de casar com ele, indo me procurar para me revelar o seu medo, o seu novo conhecimento dele. Mas não aconteceu nada disso. Por que ele a matou? Seria talvez porque sabia que ela ia ter um filho? Ou porque a essa altura já tinha se comprometido com outra moça e não queria ser forçado a casar com Verity? Não posso acreditar nisso. Deve ter sido por algum motivo totalmente diverso. Será que ao sentir de repente medo dele, ao descobrir o perigo que ele representava, ela não quis romper a ligação que mantinha com ele? Isso não teria provocado a raiva, a fúria dele, levando-o à violência e ao assassinato? A gente não sabe.

— O senhor não sabe? — retrucou Miss

Marple. — Mas mesmo assim tem uma coisa que o senhor sabe e acredita, não tem?

— O que é que a senhora entende

exatamente por “acreditar”? Está falando sob o ponto de vista religioso?

— Oh! não — disse Miss Marple, — não

foi isso que eu quis dizer. O que eu quero dizer é que parece que existe no senhor, ou pelo menos é a impressão que eu tenho, uma crença muito forte de que os dois se amavam, que pretendiam casar, mas que aconteceu algo que impediu. Algo que resultou na morte dela, mas mesmo assim o senhor acredita realmente que eles iam procurá-lo para se casarem naquele dia?

— Tem toda a razão, minha cara. Sim, eu

continuo acreditando piamente em dois namorados que queriam casar, que estavam prontos a se aceitarem para o melhor, para o pior, para a riqueza, para a pobreza, para a doença e para a saúde. Ela o amava e o aceitaria para o melhor e para o pior. E no fim, aceitou-o para o pior. O que lhe provocou a morte.

— O senhor precisa continuar nessa

crença — disse Miss Marple. — Sabe, eu acho que também acredito nessa explicação.

— Sim, mas e daí?

— Por enquanto ainda não sei —

respondeu Miss Marple. — Não tenho certeza, mas acho que Elizabeth Temple sabia ou estava começando a compreender o que tinha acontecido. Uma palavra terrível, ela disse. Amor. Quando ela disse isso, eu pensei que quisesse se referir ao fato de que Verity ter-se-ia suicidado por amor. Porque havia descoberto alguma coisa a respeito de Michael ou porque qualquer coisa no jeito dele de repente a impressionou e a revoltou. Mas não pode ter sido suicídio.

— Não — concordou o Arcediago, — não

pode, não. Os ferimentos foram descritos com minúcias no julgamento. Ninguém comete suicídio esmigalhando a própria cabeça.

— Que horror! — exclamou Miss Marple.

— Que coisa horrível! E ninguém faz isso com a pessoa que ama, mesmo que tivesse de matar “por amor”, não é mesmo? Se ele a houvesse matado, não seria daquela maneira. Estrangulando... talvez, mas não esmigalhando o rosto e a cabeça de quem se ama. — Murmurou: — Amor. Amor... que palavra terrível!