Nêmesis

Agatha Christie · Capítulo 17 de 23

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Nêmesis

Capítulo XVI

O INQUÉRITO

Miss Marple percorreu lentamente a rua

do povoado, a caminho do prédio no mercado, onde ia se realizar o inquérito: uma construção antiga, georgiana, conhecida há um século como O Toque de Recolher. Olhou o relógio. Ainda faltavam uns bons vinte minutos para a hora marcada. Examinou as lojas. Parou diante de uma que vendia lã e casaquinhos infantis, e ficou espiando um pouco o interior. Viu uma moça atendendo. Duas crianças experimentavam blusinhas de lã. Noutro canto do balcão havia uma mulher já idosa.

Miss Marple entrou, dirigiu-se à

extremidade do balcão, sentou-se numa cadeira diante da velha e mostrou uma amostra de lã cor-de-rosa. Explicou que precisava de um novelo daquela mesma marca para terminar um casaquinho já começado. Não demorou muito para que a mulher lhe trouxesse o que procurava, com mais algumas amostras de lã que Miss Marple havia admirado, e ela logo se pôs a conversar. Mencionou com tristeza o acidente que acabava de ocorrer. Mrs. Merrypit — se é que o nome dela era idêntico ao que estava escrito na fachada da loja — concordou que de fato não podia ser mais triste e não parou mais de falar nas dificuldades generalizadas para se conseguir que as autoridades locais fizessem qualquer coisa para minorar os riscos das trilhas e passeios públicos.

— Depois que chove, o chão fica muito

úmido e aí as pedras se soltam e vêm abaixo. Eu me lembro de um ano em que houve três que caíram... três acidentes. Um garoto quase morreu, e depois, mais tarde, naquele mesmo ano, ah, uns seis meses depois, se não me engano, um homem ficou com o braço quebrado, e a terceira vítima foi a pobre da Mrs. Walker. Já estava bem velha, cega e ainda por cima praticamente surda. Dizem que ela não ouviu nada, senão ter-se-ia desviado. Alguém enxergou e gritou, mas a distância era muito grande e não deu para correr para acudi-la. E assim ela morreu.

— Ah, mas que tristeza — disse Miss

Marple, — que tragédia. O tipo da coisa que não se esquece facilmente, não é?

— De fato. Acho que o juiz hoje vai

mencionar isso.

— Com toda a certeza — disse Miss

Marple. — É horrível, mas parece perfeitamente natural que aconteça uma coisa dessas, não é mesmo? Embora seja lógico que às vezes haja acidentes quando são empurradas de um lado para outro, sabe. Só empurrando, fazendo as pedras balançar. Esse tipo de coisa.

— Ah é, esses garotos são capazes de

tudo. Mas acho que nunca vi nenhum deles brincando lá por cima.

Miss Marple passou ao assunto de

pulôveres. Pulôveres de cores berrantes.

— Não é para mim — explicou, — mas

para um dos meus sobrinhos-netos. Sabe, ele quer um pulôver de gola roulé e gosta de cores bem vivas.

— Pois é, hoje em dia eles só querem

saber de cores vivas, não é? — concordou Mrs. Merrypit. — Não nas calças. Calças, eles gostam escuras. Pretas ou azul-marinho. Mas em cima eles querem um pouco de cor.

Miss Marple descreveu um pulôver de

padrão xadrez em cores vivas. Parecia haver uma variedade bastante boa de pulôveres e camisas de malha, mas nada que fosse em vermelho e preto. Fazia muito tempo que estavam em falta no estoque. Depois de examinar alguns, Miss Marple já se dispunha a ir embora, parando antes para conversar sobre os crimes anteriores que lhe haviam falado que tinham sido cometidos naquela região.

— No fim pegaram o sujeito — disse Mrs.

Merrypit. — Um rapaz bonito, que eu nunca teria imaginado que fosse o culpado. Instruído, sabe. Esteve na universidade e tudo mais. Dizem que o pai era muito rico. No mínimo não regulava bem da cachola. Não que mandassem ele para Broadway, ou sei lá como se chama o tal lugar. Não, isso eles não fizeram, mas eu acho que deve ter sido um caso de desequilíbrio mental... falaram que houve cinco ou seis outras moças. A polícia interrogou toda a rapaziada da redondeza. O Geoffrey Grant, por exemplo. No começo tinham quase certeza de que era ele. Sempre foi meio esquisito, desde o tempo de menino. Atacava as garotinhas que iam para a escola, sabe. Costumava oferecer doces para elas e levá-las para o campo, para ver as flores, ou coisa parecida. Sim, eles andavam muito desconfiados com ele. Mas não era ele. E depois teve outro, o Bert Williams, mas esse tinha estado viajando em duas ocasiões, pelo menos... o que chamam de alibi. Portanto não podia ser ele. E aí por fim apareceu o tal de... como é mesmo o nome? Não consigo me lembrar agora. Me parece que era Luke... não, Mike. Mike não-sei-do-quê. Muito bonito, como já disse, mas tinha péssimos antecedentes. Sim, roubo, cheques falsificadas, tudo quanto é tipo de coisas assim. E dois, como é que se chamam ainda, casos de paternidade? Não, não é isso que eu quero dizer, mas a senhora me entende, não é? Quando uma moça vai ter filho, sabe, e eles dão uma ordem e obrigam o sujeito a pagar. Ele já havia deixado duas moças em estado interessante antes disso.

— A tal moça também estava em estado

interessante?

— Ah, estava, sim. A princípio todo

mundo pensou que o cadáver podia ser da Nora Broad. A sobrinha de Mrs. Broad, que tem uma chapelaria logo ali adiante. Aquela não perdia ocasião para sair por aí com os rapazes. Sumiu de casa do mesmo modo. Ninguém sabia onde ela andava. Por isso quando o tal cadáver apareceu seis meses depois, todo mundo a princípio pensou que fosse ela.

— E não era?

— Não... era uma outra, bem diferente. — E o corpo dela nunca mais apareceu? — Não. Imagino que um dia há de

aparecer, mas todo mundo acha que foi levado pela correnteza. Pois é, sabe lá, não é? Sabe-se lá o que se pode encontrar cavando um campo lavrado ou qualquer coisa assim. Uma vez me levaram para ver todo aquele tesouro. Como se chamava? Luton Loo... qualquer coisa assim. Lá pela costa leste do país. Estava debaixo de um campo lavrado. Uma maravilha. Navios de ouro, dos vikings, e baixela, enormes travessas redondas, também de ouro. Bem, nunca se sabe. Um dia pode-se encontrar um cadáver ou uma travessa de ouro. E que talvez tenha cem anos, que nem aquela baixela toda, ou então um cadáver de três ou quatro anos atrás, como o da Mary Lucas, que andou sumida durante quatro anos, segundo dizem. Foi achado lá por perto de Reigate. Pois é, essas coisas todas! A vida é uma tristeza. Sim, uma verdadeira tristeza. A gente nunca sabe o que vem pela frente.

— Teve outra moça que também era

daqui, não teve? — perguntou Miss Marple. — Que morreu assassinada.

— A senhora quer dizer o cadáver que pensaram que fosse da Nora Broad, mas não era? Teve. Não me lembro do nome agora. Me parece que era Hope. Hope ou Charity. Um desses nomes assim, que andavam muito em moda no tempo da Rainha Vitória, mas que hoje em dia a gente não ouve mais. Ela morava no Velho Solar. Ficou lá uma boa temporada depois que os pais morreram.

— Os pais morreram num desastre, não

foi?

— Isso mesmo. Num avião que ia para a

Espanha ou a Itália, um lugar desses.

— E a senhora diz que ela veio morar

aqui? Eram parentes?

— Não sei se eram parentes, mas tenho a

impressão de que Mrs. Glynne, como ela se chama agora, era muito amiga da mãe dela ou coisa parecida. A Mrs. Glynne, é lógico, estava casada e vivia no estrangeiro, mas Miss Clotilde... a mais velha, a morena... gostava muito da moça. Sempre viajava com ela pelo estrangeiro, pela Itália, França, e por tudo quanto é lugar, e fez com que tomasse aulas de datilografia, estenografia, essas coisas, e de pintura também. Miss Clotilde é toda metida a artista. Ah, e como gostava daquela moça! Ficou desesperada quando ela desapareceu. Muito diferente de Miss Anthea...

— Miss Anthea é a mais moça, não é? — É. Tem gente que diz que ela não

regula bem. Meio avoada, sabe. Às vezes a gente encontra com ela por aí, falando sozinha, e sacudindo a cabeça de um jeito bem esquisito. As crianças chegam a ficar assustadas. Dizem que tem umas coisas estranhíssimas, sei lá. Em lugar pequeno a gente ouve de tudo, não é mesmo? O tio-avô, que antes morava aqui, também era meio excêntrico. Sempre andava dando tiros no jardim. Ninguém sabia por quê. Ele dizia que era de orgulho pela sua pontaria, mas não sei o que é que ele entendia por isso.

— E Miss Clotilde? Não é excêntrica? — Ah não, ela é inteligente. Me parece

que sabe latim e grego. Queria entrar para a universidade, mas teve de cuidar da mãe, que esteve inválida durante muito tempo. Mas gostava imensamente de Miss... ali, como era o nome dela?... Faith, talvez. Gostava imensamente dela e tratava-a como se fosse uma filha. E aí me aparece esse tal de rapaz, Michael, acho que ele se chamava assim... e aí um dia a moça simplesmente some sem dizer nada a ninguém. Não sei se Miss Clotilde sabia que ela estava em estado interessante.

— Mas a senhora sabia — disse Miss

Marple.

— Pois é, mas é que eu tenho muita

experiência. Em geral eu sei quando uma moça está esperando. A gente logo nota. Não só pelo corpo, como se poderia dizer, mas pelo olhar delas e pelo modo de caminhar e sentar, e o tipo de tontura e os ataques de náusea que têm de vez em quando. Nem há dúvida, pensei comigo mesma, esta aí está do mesmo jeito. Coitada da Miss Clotilde. Teve de ir identificar o cadáver. Ficou quase para morrer. Nem parecia mais a mesma, durante semanas a fio. Ela praticamente amava aquela moça.

— E a outra... a Miss Anthea? — Sabe, por incrível que pareça, tive a

impressão de que ela estava até contente, como se... é isso mesmo, contente. Que desagradável, não é? A filha do fazendeiro Plummer também era assim. Sempre queria ver quando matavam os porcos. Sentia prazer naquilo. Acontece cada coisa nessas famílias.

Miss Marple despediu-se, viu que ainda

faltavam dez minutos e passou pelo correio. O correio e livraria de Jocelyn St.Mary ficava bem perto da praça do mercado.

Miss Marple entrou, comprou selos,

examinou uns cartões-postais e depois concentrou sua atenção em diversos livros de bolso. Uma mulher de meia-idade, de cara azeda, tomava conta do balcão do correio. Ajudou Miss Marple a tirar um livro da armação de metal em que estavam expostos.

— Às vezes ficam um pouco presos. As

pessoas não colocam direito no lugar, sabe?

De momento não havia mais ninguém ali.

Miss Marple olhou a capa do livro com repugnância: uma mulher nua com o rosto coberto de manchas de sangue e um assassino de aspecto sinistro curvado sobre ela de faca ensangüentada na mão.

— Francamente — disse, — não gosto

destes horrores que vendem hoje em dia.

— Eles estão exagerando um pouco

nessas capas, não estão? — concordou Dona Azeda. — Não é todo mundo que gosta. Me parece que anda uma onda de violência atualmente por aí.

Miss Marple pegou um segundo livro. — O que terá acontecido com Baby Jane?

— leu. — Ah, meu Deus, que mundo mais triste em que a gente vive.

— Pois é, eu sei. Ainda ontem vi no jornal da tarde que uma mulher deixou o carrinho do bebê na frente de um supermercado e quando saiu de novo, alguém tinha levado ele embora. E ninguém sabe por quê. Ainda bem que a polícia depois encontrou. Parece que todos dão a mesma explicação quando roubam de um supermercado ou fogem com uma criança. Dizem que não sabem como foi.

— Talvez não saibam mesmo — sugeriu

Miss Marple.

Dona Azeda fez uma cara mais azeda

ainda.

— Pois sim, a mim é que não enganam. Miss Marple olhou em torno — o correio

continuava vazio. Aproximou-se do guichê.

— Se a senhora não estiver muito

ocupada, gostaria de lhe fazer uma pergunta — disse. — Cometi um erro simplesmente incrível. Ultimamente isso vem se repetindo com freqüência. Foi com um embrulho endereçado a uma obra de caridade. Mandei roupas... pulôveres e pecinhas de lã para crianças, fiz o pacote, pus o endereço e despachei... e só hoje de manhã, de repente, percebi que tinha cometido engano e escrito o endereço errado. Eu não creio que guardem alguma lista dos destinatários dos embrulhos... mas achei que talvez alguém fosse capaz de se lembrar. O endereço que eu queria pôr era o da Liga Beneficente dos Estaleiros do Tâmisa.

Dona Azeda agora estava com ar mais

amável, comovida pela flagrante incapacidade e estado geral de senilidade e atrapalhação de Miss Marple.

— Foi a senhora mesma quem trouxe? — Não, não fui eu, não... estou

hospedada no Velho Solar... e uma delas, a Mrs. Glynne, me parece... disse que ela ou a irmã poriam no correio. Foi muito gentil da parte dela...

— Deixe eu ver. Deve ter sido na terça-

feira, não? Só que não foi Mrs. Glynne quem trouxe. Foi a mais moça, a Miss Anthea.

— Sim, isso mesmo, acho que foi na

terça...

— Eu me lembro perfeitamente. Uma

caixa de vestido bem grande... e meio pesada, até. Mas não para o endereço que a senhora disse, Liga de Estaleiros... não me recordo de nada disso. Era para o Reverendo Mathews... Centro de Distribuição de Roupas de Lã Femininas e Infantis de East Ham.

— Exato — Miss Marple bateu palmas num êxtase de alívio. — Como a senhora é inteligente... agora sei o que aconteceu. No Natal eu de fato mandei coisas para o Centro de East Ham, atendendo a um pedido especial de peças de tricô, por isso decerto copiei o endereço errado. Dava para a senhora repetir?

Anotou-o cuidadosamente numa agenda. — Mas eu acho que o pacote já foi

despachado...

— Sim, mas eu posso escrever,

explicando o engano e pedindo que remetam o pacote, em vez disso, para a Liga dos Estaleiros. Ah, muito obrigada.

E saiu às pressas.

Dona Azeda entregou selos ao comprador

seguinte, comentando à parte com uma colega:

— Coitada, que velha mais avoada.

Garanto que vive fazendo essas confusões.

Miss Marple, ao sair do correio, cruzou

por Emlyn Price e Joanna Crawford. Reparou que Joanna estava muito pálida e com ar preocupado.

— Tenho de prestar depoimento — disse

Joanna. — Não sei... o que será que vão me perguntar? Estou morta de medo. Eu... eu não gosto disso. Eu disse ao sargento da polícia que já contei para ele o que tínhamos visto.

— Não se preocupe, Joanna — disse

Emlyn. — Isso é apenas um inquérito judicial, sabe? O juiz é simpático, creio até que é médico. Ele só vai lhe fazer algumas perguntas e você dirá o que viu.

— Você também viu — disse Joanna. — Vi, sim — concordou Emlyn. — Pelo

menos vi que havia alguém lá em cima. Perto das pedras e o resto. Vamos de uma vez, Joanna.

— Eles andaram revistando os nossos

quartos no hotel — disse Joanna. — Pediram licença para nós. mas tinham ordem para dar busca. Esmiuçaram tudo o que havia na bagagem.

— Acho que queriam encontrar aquele

pulôver xadrez que você descreveu. Em todo caso, não há motivo para preocupações. Se você tivesse um pulôver preto e vermelho, você não ia falar nisso, ia? Era preto e vermelho, não é?

— Sei lá — respondeu Emlyn Price. —

Sinceramente não distingo as cores muito bem. Tenho a impressão de que era uma cor viva. É só o que eu sei.

— Não encontraram nenhum —

continuou Joanna. — Atinai de contas, ninguém trouxe grande coisa na mala. A gente não traz muita bagagem numa viagem de ônibus. Não havia nada parecido entre as coisas de ninguém. Eu nunca vi algum passageiro... do nosso grupo, bem entendido, usando algo semelhante. Pelo menos até agora. E você?

— Não vi, não, mas acho que não me

lembraria se tivesse visto — retrucou Emlyn. — Nem sempre distingo o vermelho do verde.

— Pois é, você é meio daltônico, não? —

disse Joanna. — Reparei isso outro dia.

— Reparou como?

— A minha manta vermelha. Perguntei se

você tinha visto. Você respondeu que tinha visto Uma verde, não sabia onde, e depois me trouxe a vermelha, que eu havia deixado na sala de refeições. Mas você de fato não sabia que era vermelha.

— Bom, não vá espalhar por aí que sou

daltônico. Isso não me agrada. De certo modo deixa as pessoas de prevenção contra mim.

— Os homens costumam ser mais

daltônicos que as mulheres — disse Joanna. — É uma dessas heranças genéticas, sabe? — acrescentou, com ar de erudição. — Que a fêmea transmite e se manifesta no macho.

— Do jeito que você fala, até parece

sarampo — disse Emlyn Price. — Bem, cá estamos.

— Pelo visto, você nem está apreensivo —

comentou Joanna, enquanto subiam a escada.

— E não estou mesmo. Nunca assisti a

um inquérito. Tudo o que a gente faz pela primeira vez sempre é interessante.

O Dr. Stokes era um homem grisalho de

meia-idade, que usava óculos. Primeiro a polícia prestou depoimento, depois o médico-legista, explicando detalhes técnicos dos ferimentos cranianos que tinham causado a morte. Mrs. Sandbourne forneceu pormenores sobre a excursão de ônibus, o passeio que havia ficado marcado para a tarde fatal, e descreveu as minúcias do acidente. Miss Temple, disse ela, embora não fosse jovem, caminhava com passo decidido. O grupo estava percorrendo uma trilha bem conhecida que contornava um morro que ia dar na velha igreja rústica construída na era elizabetana, mas reformada e ampliada posteriormente. Num cume vizinho achava-se o chamado monumento aos mortos da guerra de Bonaventure. Era uma subida bastante íngreme e geralmente as pessoas a empreen-diam em ritmo diferente. As mais moças quase sempre corriam ou tomavam a dianteira, chegando ao destino muito antes que as demais. As idosas avançavam devagar. A própria Mrs. Sandbourne tinha o hábito de manter-se à retaguarda do grupo para, se necessário, sugerir aos que ficavam cansados que poderiam, se quisessem, voltar. Miss Temple, segundo ela, vinha conversando com o casal Butler, mas, apesar de já ter mais de sessenta anos, começou a impacientar-se com o passo lento de ambos e distanciou-se deles, dobrando uma curva e adiantando-se com certa rapidez, como já tinha feito tantas vezes antes. Era propensa a impacientar-se com gente vagarosa, e preferia caminhar sozinha. Nisso ouviram um grito mais à frente, e Mrs. Sandbourne e os outros saíram correndo, dobrando uma curva da trilha e encontrando Miss Temple caída no chão. Uma pedra enorme que se soltara do alto do morro, onde havia várias outras do mesmo tipo, devia, na opinião deles, ter rolado pela encosta abaixo e atingido Miss Temple no momento exato em que passava por ali. Um acidente simplesmente infeliz e trágico.

— Não imaginou que pudesse tratar-se de outra coisa além de acidente?

— Francamente, não. Não vejo que outra

coisa poderia ter sido.

— Não enxergou ninguém no alto do

morro?

— Não. Aquela é a trilha principal que

contorna o morro, mas naturalmente as pessoas perambulam por tudo quanto é canto para chegar lá em cima. Naquela tarde não enxerguei ninguém.

Depois chamaram Joanna Crawford.

Prestadas as informações sobre nome e idade, o Dr. Stokes perguntou:

— A senhorita não estava caminhando

com o resto do grupo?

— Não, nós tínhamos saído da trilha.

Atalhamos pela encosta para chegar mais depressa ao cume.

— Ia acompanhada?

— Sim. Com Mr. Emlyn Price. — E não havia mais ninguém

caminhando com a senhorita?

— Não. Íamos conversando e olhando as

flores. Pareciam de uma espécie bastante rara. Emlyn se interessa muito por botânica.

— O resto do grupo não podia vê-los? — Nem sempre. Eles estavam percorrendo a trilha principal... isto é, um pouco mais abaixo que nós.

— A senhorita enxergava Miss Temple? — Acho que sim. Ela ia na frente de

todos, e tenho a impressão de que vi quando ela dobrou uma curva na dianteira. Depois não deu para ver mais nada porque o contorno do morro a escondia.

— Não enxergou ninguém caminhando

pela encosta acima de vocês?

— Enxerguei. Lá no alto, no meio de uma

porção de pedras. Havia uma espécie de grande fileira de pedras no lado do morro.

— Sim — disse o Dr. Stokes, — sei

exatamente o lugar a que se refere. Enormes blocos de granito. O pessoal daqui apelidou de Carneiros, e às vezes chama de Carneiros Cinzentos.

— Creio que é a impressão que devem dar

a uma certa distância, mas nós estávamos bastante perto.

— E enxergaram alguém lá em cima? — Sim. Alguém que estava mais ou

menos no meio das pedras, debruçado sobre elas.

— Empurrando-as, na sua opinião? — É. Foi o que me pareceu, não sei por quê. Ele dava impressão de estar empurrando uma que ficava do lado de fora de uma pilha perto da beira. Eram tão imensas e pesadas que pensei que fosse impossível deslocá-las. Mas a que ele, ou ela, empurrava parecia estar equilibrada feito pedra de balanço.

— Primeiro a senhorita disse ele, agora

diz ele ou ela, Miss Crawford. Qual dos dois julga que fosse?

— Bem, eu julguei... acho... acho que

julguei que fosse um homem, mas na hora nem pensei nisso. Ele... ou ela... estava de calça e pulôver, uma espécie de pulôver de homem de gola roulé.

— De que cor era o pulôver? — De um xadrez vermelho e preto,

bastante vivo. E via-se o cabelo comprido por baixo de uma espécie de boina, meio parecido com cabelo de mulher, mas também podia perfeitamente ser de homem.

— Evidente que podia — concordou o Dr.

Stokes, meio irônico. — Hoje em dia não é nada fácil identificar um vulto masculino ou feminino pelo cabelo. E depois — continuou, — que aconteceu?

— Bem, a pedra começou a rolar.

Tombou, por assim dizer, da beirada e aí começou a ganhar velocidade. Ainda comentei com o Emlyn: “Xi, ela vai se despencar pela encosta do morro”. Depois, quando caiu, ouvimos uma espécie de estouro. E acho que escutei um grito lá de baixo, mas é possível que tosse imaginação minha.

— E aí?

— Aí nós subimos mais um pouco,

correndo e contornamos o morro, para ver o que tinha acontecido com a pedra.

— E o que foi que viram?

— A pedra, lá embaixo na trilha, em cima

de um corpo... e pessoas que vinham correndo pela curva.

— Foi Miss Temple quem deu o grito? — Acho que deve ter sido. Podia ter sido

também uma das outras pessoas que se adiantavam pela curva. Ah! foi... foi horrível.

— Sim, imagino. Que aconteceu com o

vulto que tinham visto lá em cima? O homem ou mulher de pulôver vermelho e preto? Ainda continuava entre as pedras?

— Não sei. Não olhei mais lá para cima.

Eu estava... eu estava ocupada, olhando o acidente, e correndo morro abaixo para ver se a gente podia fazer alguma coisa. Creio que devo ter olhado, mas decerto não havia mais ninguém. Só as pedras. Tinha uma porção de contornos e podia-se perder qualquer pessoa de vista com a maior facilidade.

— Não seria alguém do grupo? — Que esperança. Tenho certeza de que

não foi nenhum de nós. Eu logo veria, quer dizer, a gente logo veria pelas roupas. Tenho certeza de que ninguém estava de pulôver vermelho e preto.

— Obrigado, Miss Crawford. Emlyn Price foi o próximo a ser chamado.

Seu depoimento consistiu praticamente na repetição do que Joanna tinha dito.

Os outros depoimentos não esclareceram

quase nada.

O juiz declarou que não havia provas

suficientes que demonstrassem como Elizabeth Temple tinha morrido e suspendeu o inquérito por quinze dias.