Nêmesis
Capítulo 3
Foi deitar-se positivamente exausta. Fazer
turismo pode ser agradável mas também é cansativo, e tentar analisar quinze ou dezesseis pessoas de uma só vez, enquanto se fica imaginando qual delas estará relacionada com um crime, é mais cansativo ainda. A coisa tinha um toque de irrealidade tão grande na opinião de Miss Marple que levá-la a sério tornava-se impraticável. Toda aquela gente parecia absolutamente simpática, do tipo que sai em cruzeiros de navio e excursões, e tudo mais. Apesar disso, lançou outro olhar rápido e perfunctório à lista de passageiros, anotando algumas observações na agenda.
Mrs. Riseley-Porter? Impossível relacioná-
la com algum crime. Demasiadamente social e egocêntrica.
A sobrinha, Joanna Crawford? Idem?
Muito eficiente, porém.
Mas Mrs. Riseley-Porter dispunha talvez
de alguma espécie de informação que Miss Marple pudesse achar que apresentasse conexão com o assunto. Devia manter-se em termos cordiais com Mrs. Riseley-Porter.
Miss Elizabeth Temple? Uma personalidade. Interessante. Não lhe lembrava nenhum criminoso que já tivesse conhecido.
De fato — disse consigo mesma, — ela
positivamente irradia integridade. Se chegasse a cometer um crime, teria que ser um crime célebre. Talvez por algum motivo nobre ou por um que ela julgasse nobre? — Mas isso também não era satisfatório. Miss Temple, na sua opinião, sempre saberia o que estava fazendo, e por que, e jamais se deixaria levar por idéias tolas de nobreza quando se tratasse de uma pura questão de maldade. — Seja como for — disse Miss Marple, — ela é alguém e poderia... simplesmente poderia ser uma pessoa que Mr. Rafiel gostaria que eu conhecesse por uma razão qualquer. — Anotou esse raciocínio na página do lado direito da agenda.
Trocou de ponto de vista. Tinha estado
considerando a possibilidade de um criminoso — que tal a de uma vítima presuntiva? Quem se enquadrava nessa hipótese? Ninguém, pareceu-lhe. Talvez Mrs. Riseley-Porter possuísse qualificações: rica, bastante antipática. A sobrinha eficiente no mínimo ficaria com a herança. Ela e o anárquico Emlyn Price podiam aliar-se pela causa do anticapitalismo. Não era uma idéia lá muito crível, mas qual seria o outro candidato plausível?
O Professor Wanstead? Um homem
interessante, sem dúvida. E também amável. Cientista ou médico? Por enquanto ainda não dava para dizer, mas classificou-o provisoriamente como cientista. Ela própria não entendia nada do assunto, mas a idéia não lhe pareceu descabida.
Mr. e Mrs. Butler? Descartou-os.
Americanos pacatos. Nenhuma ligação com ninguém nas Antilhas ou que ela já tivesse conhecido. Não, não achava que os Butlers pudessem ter relevância.
Richard Jameson? Era o arquiteto magro.
Miss Marple não via que relação a arquitetura poderia ter com aquilo; embora talvez tivesse. Um esconderijo de padre1, quem sabe? Uma das casas que iam visitar poderia ter um esconderijo de padre contendo um esqueleto. E Mr. Jameson, sendo arquiteto, saberia a sua localização exata. E então a ajudaria a descobri-lo, ou vice-versa, terminando ambos por encontrar um cadáver.
1 Certas casas inglesas possuíam câmaras secretas no tempo em que os padres católicos estavam proscritos.
— Ah, francamente — disse Miss Marple,
— quanta bobagem que estou imaginando.
Miss Cooke e Miss Barrow? Uma dupla
perfeitamente comum. E no entanto estava certa de já ter visto antes uma delas, Miss Cooke. Ah, paciência, acabaria se lembrando.
O Coronel Walker e a esposa? Gente
simpática. Elemento reformado do exército. Sediado principalmente no estrangeiro. Bons para conversar, mas achava que ali não encontraria nada que lhe interessasse.
Miss Bentham e Miss Lumley? As velhas
mexeriqueiras. Era improvável que fossem criminosas, mas, sendo velhas solteironas, talvez soubessem uma porção de mexericos, ou tivessem alguma informação, ou até fizessem algum comentário revelador, mesmo que por acaso estivesse relacionado com reumatismo, artrite ou medicamentos patenteados.
Mr. Caspar? Possivelmente um tipo
perigoso. Agitado demais. Ia mantê-lo na lista por enquanto.
Emlyn Price? Estudante, no mínimo. E os
estudantes costumam ser muito violentos. Tê-la-ia Mr. Rafiel colocado na pista de um estudante? Bem, isso talvez dependesse do que o estudante tivesse feito ou quisesse e pretendesse fazer. Um anarquista ferrenho, talvez.
— Ah, meu Deus — exclamou Miss
Marple, subitamente exausta, — tenho que ir me deitar.
Doíam-lhe os pés e as costas, e a sua
agilidade mental não estava, a seu ver, em plena forma, Pegou logo no sono. E passou a noite inteira sonhando.
Sonhou inclusive que as sobrancelhas
hirsutas do Professor Wanstead tinham caído porque não eram verdadeiras. Ao acordar de novo, a primeira impressão que lhe veio foi a que sucede com tanta freqüência depois de um sonho: a crença de que o sonho em questão havia solucionado tudo.
Mas claro — pensou, — lógico! As sobrancelhas dele eram falsas e isso
resolvia todo o problema. O criminoso era ele.
Depois, com tristeza, percebeu que tudo
continuava no mesmo. O fato de as sobrancelhas do Professor Wanstead terem caído não adiantava nada.
Agora infelizmente havia perdido o sono.
Sentou-se na cama com certa determinação.
Suspirou, vestiu o roupão, trocou a cama
por uma cadeira de encosto reto, tirou outra agenda um pouco maior de dentro da mala e pôs-se a trabalhar.
“O encargo que aceitei — escreveu — está
certamente relacionado com alguma espécie de crime. Mr. Rafiel declarou isso claramente em sua carta. Disse que eu tinha um faro para a justiça, o que forçosamente pressupõe um faro para o crime. Trata-se, portanto, de crime e não, presumivelmente, de espionagem, fraude ou roubo, coisas que jamais encontrei pela frente e com as quais não tenho a menor relação, nem conhecimento ou talento especial para abordá-las. O que Mr. Rafiel sabe a meu respeito é apenas o que ele já sabia durante o período de tempo que passamos juntos em St. Honoré. Ali estivemos ligados a um assassinato. Nunca me interessei pelo tipo de crime que a imprensa costuma divulgar. Nem tampouco leio livros sobre criminologia, assunto que aliás me deixa indiferente. Mas o acaso quis que me achasse por perto do crime com freqüência bastante maior do que seria normal. Concentro a atenção de preferência em homicídios que envolvem amigos ou conhecidos. Essas curiosas coincidências que parecem perseguir a gente na vida não são tão raras assim. Me lembro que uma de minhas tias esteve em cinco navios que foram ao fundo e tive uma amiga que era o que se pode chamar de propensa a acidentes. Muitas pessoas se recusavam a andar de táxi com ela. Também pudera. Passou por quatro acidentes de táxi, três de automóvel e dois de trem. Parece que essas coisas têm tendência de acontecer com certas pessoas sem nenhum motivo aparente. Não me agrada registrar isto, mas dir-se-ia, realmente, que costumam suceder assassinatos, não comigo mesma, graças a Deus, mas quando me encontro por perto.
Miss Marple fez uma pausa, trocou de
posição, colocou uma almofada nas costas, e prosseguiu:
“Preciso efetuar um levantamento tão
lógico quanto possível desse encargo que aceitei. Minhas instruções, ou “ordens”, como dizem meus amigos da marinha, por enquanto são muito imprecisas. Praticamente inexistentes. Por isso devo me fazer uma pergunta bem clara: o que vem a ser isso? Responda! Não sei.. Curioso e interessante. Que maneira mais estranha de proceder, ainda mais para um homem como Mr. Rafiel, habituado a tratar de operações comerciais e financeiras com êxito. Ele quer que eu adivinhe, que use meu instinto, que observe e obedeça as indicações que me forem dadas ou sugeridas.
“Portanto: ponto 1. Vou receber
indicações — de um morto. Ponto 2. Meu problema se relaciona com justiça. Para corrigir uma injustiça ou desagravar o mal, trazendo-o à justiça. Isso está de acordo com o código Nêmesis, que me foi dado por Mr. Rafiel.
“Depois das explicações preliminares,
recebi minha primeira diretriz concreta. Antes de sua morte, Mr. Rafiel preparou a minha participação na Excursão n.° 37 das Casas e Jardins Célebres. Por quê? Eis a pergunta que tenho de fazer. Seria por alguma razão geográfica ou territorial? Uma conexão ou uma pista? Alguma casa célebre, de modo especial? Ou algo relacionado com um jardim ou paisagem especial? Me parece pouco provável. A explicação mais plausível está nas pessoas ou numa das pessoas que participam desta excursão. Não conheço ninguém pessoalmente, mas uma delas ao menos deve ter relação com o enigma que preciso resolver. Alguém do nosso grupo esteve ligado ou comprometido com um crime. Ou então possui informação ou vínculo especial com a vítima de um homicídio — podendo inclusive ser o próprio criminoso ou criminosa. De quem até agora ninguém desconfia.”
Nesse ponto Miss Marple de repente
parou. Sacudiu afirmativamente a cabeça. Agora estava satisfeita com os resultados provisórios de sua análise,
Podia dormir, portanto.
Acrescentou na agenda:
— Aqui finda o Primeiro Dia.