Nêmesis

Agatha Christie · Capítulo 22 de 23

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Nêmesis

Capítulo XXII

MISS MARPLE CONTA SUA HISTÓRIA

— Quando foi que a senhora percebeu

que essas duas mulheres eram agentes secretas que a acompanhavam para protegê-la? — perguntou o Professor Wanstead.

Curvou-se para a frente em sua cadeira,

contemplando pensativo a velha senhora de cabelos brancos toda empertigada, instalada na cadeira oposta. Achavam-se num prédio oficial do governo em Londres e havia mais quatro pessoas presentes: um funcionário do gabinete do promotor público; Sir James Lloyd, comissário-assistente da Scotland Yard; Sir Andrew McNeil, diretor de presídio de Manstone. A quarta era o Ministro do Interior.

— Só na última noite — respondeu Miss

Marple. — Até então não tinha propriamente certeza. Miss Cooke havia estado em St. Mary Mead e não demorei muito para perceber que não era o que pretendia ser: uma mulher entendida em plantas que tinha ido lá ajudar uma amiga a cuidar do jardim. De modo que só me restava decidir qual seria a verdadeira ocupação dela, depois de se familiarizar com o meu aspecto, uma vez que só podia ser isso que a tinha levado lá. Quando a reconheci de novo no ônibus, tive de optar entre duas hipóteses: ou ela estava acompanhando a excursão no papel de guardiã, ou então as duas eram inimigas recrutadas pelo que eu chamaria de lado oposto.

“Só fiquei absolutamente certa naquela

última noite, quando Miss Cooke me impediu, com palavras bem nítidas de advertência, de tomar a xícara de café que Clotilde Bradsbury-Scott acabava de colocar na minha frente. Ela se expressou com muita sutileza, mas o sentido era inequívoco. Depois, durante a troca de despedidas, uma delas pegou a minha mão entre as suas, apertando-a de um jeito especialmente amigo e afetuoso. E ao fazer isso, me passou um objeto que, quando examinei mais tarde, vi que se tratava de um apito de grande alcance. Levei-o comigo para a cama, aceitei o copo de leite que a dona da casa insistiu em me oferecer, e dei-lhe boa noite, cuidando para não mudar minha atitude simples e cordial.

— Não bebeu o leite?

— Claro que não — respondeu Miss

Marple. — Por quem o senhor me toma?

— Desculpe-me — disse o Professor

Wanstead. — Estou admirado que não tenha trancado a porta.

— Isso teria sido o maior erro — afirmou

Miss Marple. — Eu queria que Clotilde Bradbury-Scott entrasse no quarto. Para ver o que iria dizer ou fazer. Achei que era quase certo que ela entraria quando já tivesse passado bastante tempo, para se certificar se eu havia bebido o leite e se estava mergulhada num sono profundo, do qual. provavelmente, jamais despertaria.

— A senhora ajudou Miss Cooke a se

esconder no guarda-roupa?

— Não. Foi uma completa surpresa

quando de repente ela saiu dali. Eu suponho — acrescentou Miss Marple, pensativa, relembrando, — eu suponho que ela tenha aproveitado a oportunidade no momento em que saí no corredor para ir ao... ao banheiro.

— Sabia que as duas estavam dentro da

casa?

— Achei que estariam por perto, em

algum lugar, depois que me deram o apito. Não creio que fosse uma casa de difícil acesso, pois não tinha venezianas nem campainhas de alarme contra ladrões ou qualquer coisa desse gênero. Uma delas voltou com o pretexto de ter esquecido a bolsa ou a manta. Juntas, provavelmente conseguiram deixar uma janela destrancada, e eu imagino que entraram de novo na casa assim que saíram, enquanto as moradoras lá dentro estavam subindo para se deitar.

— A senhora se arriscou muito, Miss

Marple.

— Decidi ser otimista — disse Miss

Marple. — Não se pode passar a vida esquivando-se a certos riscos necessários.

— Por falar nisso, o seu palpite sobre o

pacote despachado para a tal instituição de caridade estava certo. Continha um pulôver novinho em folha, de gola roulé, xadrez, em cores vermelha e preta bem vivas. Inconfundível. Como foi que descobriu?

— Ora, da maneira mais simples —

respondeu Miss Marple. — A descrição que Emlyn e Joanna fizeram do vulto que tinham visto deixou bem claro que as cores vivas e as roupas inconfundíveis eram para serem vistas, e que portanto seria imprescindível que não ficassem escondidas no local nem guardadas entre os próprios pertences da referida pessoa. Tinham que sumir com a maior rapidez possível. E de fato só existe uma única maneira de se livrar de alguma coisa: por meio do correio. Tudo o que se relaciona com roupas pode ser facilmente enviado para obrai de caridade. Imaginem a alegria das pessoas que recolhem vestuários de inverno para as Mães Desempregadas, ou seja qual for o nome da instituição, ao deparar com um pulôver de lã praticamente novo. Só precisei descobrir o endereço do destinatário.

— E a senhora foi perguntar isso aos

funcionários do correio?

O Ministro do Interior parecia meio

escandalizado.

— Não diretamente, é lógico. Quer dizer,

eu tive de me mostrar inquieta e explicar como havia posto o endereço errado numas roupas que queria mandar a uma instituição de caridade. Então perguntei se, por acaso, não podiam fazer o favor de me informar se o pacote que uma das minhas gentis hospedeiras tinha trazido ali, já havia sido remetido. E uma mulher muito simpática que estava de plantão finalmente se lembrou que sim, mas não para o endereço que eu esperava que tivesse sido, e me deu o endereço que ela se lembrava. Eu acho que ela não desconfiou de que eu visasse outra coisa com meu pedido de informação, já que me mostrei... bem, meio caduca, idosa, e muito inquieta com o destino que o meu pacote de roupas usadas havia tomado.

— Ah! — exclamou o Professor Wanstead,

— pelo que vejo, Miss Marple, a senhora, além de justiceira, também é atriz. — Depois perguntou: — Quando foi que começou a des-cobrir o que tinha acontecido há dez anos?

— A princípio — respondeu Miss Marple,

— achei tudo dificílimo, quase impossível. Vivia recriminando Mr. Rafiel por não ter deixado as coisas claras para mim. Mas agora vejo que ele foi muito prudente ao agir assim. Sabem, para falar a verdade, ele foi de uma inteligência extraordinária. Hoje compreendo por que teve um sucesso tão grande como financista e ganhou tanto dinheiro de maneira tão fácil. É que traçava seus planos com perfeição. Ele ia me dando as informações com parcimônia, em pequenas doses, uma de cada vez. Eu fui, por assim dizer, teleguiada. Primeiro, os meus anjos da guarda receberam aviso para irem ver como eu era fisicamente. Depois me colocaram naquela excursão, em contato Com os outros passageiros.

— E não suspeitou, se me permite usar

essa palavra, logo de nenhum dos participantes da excursão?

— Só como possibilidades. — Nenhuma sensação de maldade no ar? — Ah, o senhor ainda se lembra. Não, não

achei que houvesse uma atmosfera bem definida de maldade. Não me indicaram quem era o meu elemento de contato ali, mas ela se deu a conhecer.

— Elizabeth Temple?

— É. Foi como se se acendesse um farol

— explicou Miss Marple, — clareando tudo numa noite escura. Até então, compreendem, eu andava às cegas. Havia certas coisas irrefutáveis, lógicas, quero dizer, por causa das indicações de Mr. Rafiel. Devia haver, em algum lugar, uma vítima e um assassino. Sim, tudo fazia prever isso, já que era o único elo de ligação existente entre Mr. Rafiel e eu. Houve um assassinato nas Antilhas, em que nós dois estivemos envolvidos, e a única coisa que ele sabia a meu respeito era em relação com aquilo. Portanto não podia tratar-se de qualquer outro tipo de crime. Nem tampouco de crime fortuito. Devia ser um crime premeditado, que fosse, definitivamente, obra de alguém que tivesse optado pelo mal, e não pelo bem. Tudo parecia indicar que havia duas vítimas. Uma, que tinha sido assassinada, e outra, que tinha sido vítima de uma injustiça, acusada de um crime que ele, ou ela, não havia cometido. De modo que, enquanto eu refletia sobre essas coisas, não dispunha de nenhuma luz antes de conversar com Miss Temple. Ela era muito intensa, persuasiva. Então surgiu o primeiro vínculo que me ligava a Mr. Rafiel. Ela me falou de uma moça que havia conhecido, que certa vez tinha estado noiva do filho de Mr. Rafiel. Foi aí que se fez o primeiro raio de luz. Aos poucos, também me contou que a tal moça não chegou a casar com ele. Quis saber por que, e ela respondeu: “porque ela morreu”. Perguntei como, de que tinha morrido, e ela então me respondeu, com muita emoção, cheia de ímpeto... ainda me parece ouvir a voz dela, ressoando como o dobre plangente de um sino... ela disse: “De amor”. E depois acrescentou: “A palavra mais terrível que existe — Amor”. No momento não percebi direito o que ela queria dizer. Realmente, a primeira idéia que me ocorreu foi que a moça se tivesse suicidado por causa de uma decepção amorosa. Isso acontece com bastante freqüência e sempre constitui uma grande tragédia. Foi tudo o que consegui apurar na ocasião. Além do fato de que a viagem, para ela, não se tratava de uma simples excursão de prazer, mas de uma peregrinação, segundo ela mesma me disse. Dirigia-se a um lugar ou a uma pessoa. Na hora não fiquei sabendo quem poderia ser. Só depois é que se explicou.

— O Arcediago Brabazon? — Exatamente. Eu ainda nem sabia da

existência dele. Mas a partir daí eu senti que os personagens principais... os atores centrais... do drama, ou seja lá qual for o nome que lhe queiram dar, não faziam parte da excursão. Não eram participantes do grupo que viajava no ônibus. Hesitei apenas por pouco tempo, com dúvidas sobre algumas pessoas. Principalmente em relação a Joanna Crawford e Emlyn Price.

— Por que se fixou neles? — Por serem jovens — respondeu Miss

Marple. — A juventude está quase sempre ligada à idéia de suicídio, violência, intenso ciúme e amor trágico. Um homem mata a namorada... isso acontece. Sim, meu espírito se concentrou neles, mas não me parecia que ali houvesse qualquer mancomunação. Nenhuma sombra de maldade, de desespero, de aflição. Eu usei mais tarde a idéia de que poderiam ter sido eles como uma espécie de palpite falso quando estávamos bebendo xerez, aquela última noite no Velho Solar. Frisei que seriam os mais prováveis suspeitos na morte de Elizabeth Temple. Quando reencontrá-los — disse Miss Marple, cheia de escrúpulos, — vou pedir desculpas por tê-los usado como inocentes úteis para desviar a atenção das minhas verdadeiras idéias.

— E que aconteceu depois? A morte de

Elizabeth Temple?

— Não — respondeu Miss Marple. — Na

verdade o que aconteceu depois foi a minha chegada ao Velho Solar. A amabilidade com que me acolheram e instalaram sob aquele teto hospitaleiro. Isso também tinha sido providenciado por Mr. Rafiel. Por isso eu sabia que devia ir para lá, mas não por qual motivo. Talvez fosse apenas um lugar onde eu poderia obter mais informações que me orientassem na minha procura. Desculpem — disse Miss Marple de repente, voltando ao seu normal contrafeito e meio atrapalhado, — estou levando muito tempo para contar essa história. Eu realmente não deveria sujeitá-los a ouvir tudo o que me passou pela cabeça e...

— Por favor, continue — pediu o

Professor Wanstead. — Talvez a senhora não saiba, mas o que está contando tem um interesse todo especial para mim. Se relaciona com uma porção de coisas que tenho observado e acompanhado no trabalho que eu faço. Continue descrevendo as sensações que sentiu.

— Sim, continue — insistiu Sir Andrew

McNeil.

— Eram de fato sensações — disse Miss

Marple. — Não se tratava propriamente de uma dedução lógica, compreendem? Tudo se baseava numa espécie de reação ou suscetibilidade emotiva a... bem, ao que só posso chamar de atmosfera.

— Sim — concordou Wanstead, —

atmosfera é uma coisa que existe. Nas casas, nos lugares, no jardim, na floresta, num bar, num chalé.

— As três irmãs. Foi isso que eu pensei,

senti e disse comigo mesma quando entrei no Velho Solar. Fui recebida com tanta gentileza por Lavinia Glynne. Há alguma coisa nessas três palavras... as três irmãs... que logo dá uma sensação sinistra. Lembra as três irmãs da literatura russa, e as três bruxas que Macbeth encontra na charneca. Me pareceu que havia ali uma atmosfera de tristeza, de profunda desolação e de medo, também. E uma espécie de atmosfera inteiramente diversa, que só posso definir como de normalidade.

— Essa sua última observação não deixa

de ser interessante — disse Wanstead.

— Talvez fosse por causa de Mrs. Glynne.

Ela me procurou quando o ônibus chegou e explicou a razão do convite. Era uma mulher completamente normal e simpática, viúva. Não muito feliz, mas quando digo isso não significa que tivesse algo que ver com tristeza ou profunda desolação e sim que apenas vivia numa atmosfera em desacordo com o seu verdadeiro temperamento. Ela me levou junto com ela e me apresentou às outras duas irmãs. No dia seguinte, fiquei sabendo por intermédio de uma criada já idosa, que me trouxe chá de manhã cedo, a história de uma tragédia antiga, de uma moça que tinha sido assassinada pelo namorado. E de várias outras moças da vizinhança que também haviam sido vítimas de violências ou agressão sexual. Eu precisava fazer um novo balanço da situação. Já tinha eliminado os passageiros do ônibus por falta de ligação pessoal com o que eu andava procurando. Nalgum lugar existia ainda um assassino às soltas. Eu tinha que me perguntar se não . estaria ali, naquela casa, aonde me haviam mandado. Clotilde, Lavinia, Anthea. Três nomes de três irmãs com qualquer coisa de irreal. Felizes... infelizes... sofredoras... assustadas... o que é que elas eram? A primeira que me chamou a atenção foi Clotilde. Uma mulher alta, bonita. Com personalidade. Tal como Elizabeth Temple também tinha sido. Senti que ali, onde o campo era limitado, eu devia pelo menos apurar tudo o que podia a respeito das três irmãs. As três parcas. Qual seria a assassina? E que tipo de assassina? E de que espécie de assassinato? Aí então comecei a sentir, elevando-se bem devagar, lentamente, como um miasma, uma atmosfera. Acho que não há melhor palavra para expressá-la do que "malévola". Não que qualquer uma das três fosse necessariamente má, mas elas certamente viviam numa atmosfera onde tinha acontecido alguma maldade, deixando sua sombra a pairar por ali, feito uma ameaça. Clotilde, a mais velha, foi a primeira que considerei. Era bonita, forte e, a meu ver, capaz de grandes sentimentos emotivos. Confesso que a imaginei como uma possível Clitemnestra. Fazia pouco tempo — Miss Marple adotou um tom mais prosaico, — que tinha assistido a uma tragédia grega interpre-tada por alunos de uma conhecida escola pública perto de minha casa. E fiquei incrivelmente impressionada com a atuação do rapaz que interpretava o papel de Clitemnestra. Um desempenho simplesmente notável. Me pareceu fácil imaginar Clotilde na pele de uma mulher capaz de planejar e executar o assassinato do marido durante o banho.

Por um instante o Professor Wanstead fez

o possível para conter o riso. Era a seriedade do tom de Miss Marple. Ela lhe piscou o olho de leve.

— Pois é, dito desse jeito até parece

bobagem, não é? Mas eu podia vê-la assim, desempenhando esse papel, quero dizer, Infelizmente, não tinha marido. Nunca havia casado, portanto não tinha matado nenhum marido. Aí considerei a minha cicerone, Lavina Glynne. Dava impressão de ser uma mulher extremamente simpática, saudável. Acontece, porém, que já houve muitos assassinos que causavam exatamente essa mesma impressão no ambiente em que viviam. E que tinham sido pessoas cativantes. Uma porção de criminosos foram homens encantadores e simpáticos, surpreendendo meio mundo. São o que chamo de assassinos respeitáveis, que cometem crimes por motivos totalmente utilitários. Sem emoção, mas para obter um determinado fim. Não achei muito plausível e ficaria extrema-mente surpresa se fosse assim, mas não podia descartar Mrs. Glynne. Ela tinha sido casada. Era viúva, já há alguns anos. Quem sabe lá? A coisa ficou por aí mesmo. Aí cheguei à terceira irmã, Anthea. Era uma personalidade inquietante. Me parecia meio desajustada, avoada, e presa de uma espécie de emoção que de modo geral acho que era medo. Andava apavorada por causa de alguma coisa. Terrivelmente apavorada. Ora, isso também encaixava na história. Se havia cometido algum crime, que julgasse esquecido no passado, podia ter surgido um recrudescimento, uma manifestação de velhos problemas, talvez relacionados com as sindicâncias de Elizabeth Temple. Talvez temesse que reavivassem ou descobrissem algum crime antigo. Tinha o estranho costume de olhar para a gente e depois virar-se bruscamente para trás, como se visse alguma coisa parada às suas costas. Alguma coisa que lhe infundisse medo. Portanto, também era uma explicação possível. Uma assassina que talvez fosse meio desequilibrada e que poderia ter cometido um crime por sofrer de mania de perseguição. Por medo. Tudo isso eram apenas suposições. Um levantamento bem mais completo das possibilidades que me ocorreram no ônibus. Mas a atmosfera da casa se fazia sentir mais do que nunca. No dia seguinte, percorri o jardim em companhia de Anthea. No fim da relva do caminho principal havia um montículo, formado pelos escombros de uma velha estufa de plantas. Devido à falta de consertos e carência de jardineiros nos últimos tempos da guerra, tinha caído em desuso, terminando por desabar. Entre os tijolos amontoados, cobertos de terra e vegetação, plantaram uma trepadeira, dessas que todo mundo usa para esconder ou disfarçar alguma obra de construção meio feia no jardim, chamada polygonum. É uma das plantas que florescem mais rápido e absorve, mata, seca e extermina tudo por onde passa. Cresce em qualquer lugar. De certo modo, chega a ser assustadora. Dá uma flor branca, bonita, e pode ficar com um aspecto lindo. Os botões ainda não estavam abertos, mas não tardariam. Fiquei ali parada, ao lado de Anthea. Ela parecia inconsolável com a perda da estufa. Disse que antigamente tinha uvas ótimas. Tive a impressão de que era a coisa que mais lhe lembrava o tempo de infância naquele jardim. E ela queria, desesperadamente, ter bastante dinheiro para escavar o montículo, nivelar o terreno e reconstruir a estufa, enchendo-a de pés de moscatel e pêssego, tal como antigamente. Sentia uma tremenda saudade do passado. Mas não foi só isso. De novo, com toda a clareza, me veio aquela sensação de medo no ar. Qualquer coisa ali no montículo deixava-a apavorada. No momento, não calculei o que fosse. O que aconteceu depois, todos sabem: a morte de Elizabeth Temple. Não havia dúvida, pela história contada por Emlyn Price e Joanna Crawford, que só se podia chegar a uma única conclusão. Não era acidente. Era crime, e premeditado.

“Creio que foi a partir daí — disse Miss Marple, — que eu compreendi. Cheguei à conclusão de que tinha havido três crimes. Ouvi a história completa do filho de Mr. Rafiel, o rapaz delinqüente, ex-presidiário, e achei que ele podia ser tudo isso, mas que nada indicava que fosse assassino ou que tivesse possibilidades de sê-lo. Todas as provas estavam contra ele. Ninguém punha em dúvida que houvesse assassinado a moça cujo nome eu agora sabia que era Verity Hunt. Mas o Arcediago Brabazon colocou, por assim dizer, a peça que faltava no quebra-cabeça. Ele havia conhecido aquele par de namorados. Tinham ido procurá-lo, contando que queriam casar, levando-o à decisão de oficiar o casamento. Achou que talvez não fosse uma medida acertada, mas que se justificava pelo fato de que os dois se queriam. A moça amava o rapaz com o que ele chamou de amor verdadeiro. Tão verdadeiro como o próprio nome dela. E achou que o rapaz, apesar de toda a sua má reputação, tinha verdadeiramente amado a moça, com intenção de lhe ser fiel e se esforçar para perder algumas de suas tendências malévolas. O Arcediago não se mostrou otimista. Tenho a impressão de que não acreditava muito na felicidade do futuro casal, mas o casamento era, na sua opinião, necessário. Porque quem ama está disposto a arcar com todas as conseqüências, mesmo que incluam a decepção e certa dose de infelicidade. Mas de uma coisa eu estava segura. Aquele rosto desfigurado, a cabeça esmigalhada, não podia ter sido obra de um rapaz que realmente amasse a moça. Não se tratava de uma história de agressão sexual. Esse caso de amor se baseava em ternura. Quanto a isso, estava pronta a aceitar a palavra do Arcediago. Porém, sabia, também, que havia encontrado a pista certa, dada por Elizabeth Temple, ao dizer que a causa da morte de Verity era o Amor... uma das palavras mais terríveis que existem.

“Aí a coisa ficou bem clara — disse Miss

Marple. — Creio mesmo que já fazia algum tempo que eu sabia. Faltava apenas preencher certas lacunas, que antes não encaixavam, mas que agora sim. Coincidiam com a informação de Elizabeth Temple sobre a causa da morte de Verity. Primeiro ela tinha dito uma única palavra: “Amor”, e depois que “o amor podia ser a palavra mais terrível que existe”. Aí tudo se explicava, com a maior clareza. O amor irresistível que Clotilde sentia por aquela moça. A adoração de Verity por ela, a dependência em que vivia, e depois, à medida que foi crescendo, a exigência de seus instintos normais. Ela queria Amor. Queria ser livre para amar, casar, ter filhos. E então surgiu o rapaz que ela poderia amar. Sabia que não era de confiança, que era o que se convencionou chamar de mau caráter, mas não é isso — disse Miss Marple, num tom de voz mais normal, — que faz uma moça desistir de um rapaz. Não. As mulheres jovens gostam de quem tem mau caráter. Sempre gostaram. Elas se apaixonam com a maior facilidade por esses tipos. Estão absolutamente certas de que serão capazes de regenerá-los. E no meu tempo de juventude, os que dariam maridos ótimos, simpáticos, fieis, de confiança, recebiam como resposta que “a gente podia ser uma irmã para eles”, o que jamais os satisfazia por completo. Verity se apaixonou por Michael Rafiel, e Michael Rafiel estava preparado a tentar vida nova e casar com essa moça, seguro de que nunca mais haveria de olhar para outra. Não digo que os dois fossem viver felizes para sempre, mas era, como o Arcediago afirmou com plena certeza, um amor verdadeiro. E assim planejaram se casar. E eu acho que Verity escreveu a Elizabeth, contando o que ia fazer. Foi tudo combinado em segredo, porque tenho a impressão de que ela realmente percebeu que aquilo era, em última análise, uma fuga. Estava fugindo de uma vida que não queria mais levar, e de alguém que amava muitíssimo, mas não do mesmo modo que a Michael. E que não lhe daria licença para se unir a ele. Só encontraria má vontade e obstáculos de toda ordem pela frente. Portanto, como tantos outros jovens, fugiriam para casar. Não havia necessidade de uma escapada até Gretna Green1. Tinham idade suficiente para contrair matrimônio. De modo que bastava apelar para o Arcediago Brabazon, que já a havia crismado... e era um verdadeiro amigo. Marcaram a data e a hora do casamento — no mínimo ela inclusive comprou às escondidas algum vestido especial para a cerimônia. Decerto deviam se encontrar em algum lugar, aonde chegariam separados. Eu creio que ele foi, mas ela não. E possível que ele tenha esperado. Depois, talvez procurou descobrir por que ela não havia ido. Aí, na minha opinião, deve ter recebido algum recado,

1 — N. do T. — Cidadezinha da Escócia, perto da fronteira com a Inglaterra, muito procurada antigamente por menores que fugiam de casa para se casar sob o amparo mais liberal das leis matrimoniais escocesas. até mesmo uma carta, provavelmente imitando a caligrafia dela, dizendo que tinha mudado de idéia. Que estava tudo acabado e passaria uns tempos longe, para se conformar. Não sei. Mas acho que ele jamais supôs o verdadeiro motivo pelo qual ela não apareceu nem mandou avisar. Sem dúvida nunca lhe ocorreu que tivesse sido destruída da maneira mais deliberada, impiedosa e quase louca, talvez. Clotilde não pretendia perder a criatura que amava. Não ia permitir que fugisse, que se unisse ao rapaz por quem sentia ódio e repugnância. Queria conservar Verity, guardá-la a seu modo. Mas o que eu não podia crer... o que não acreditava, é que tivesse estrangulado a moça e depois desfigurado-lhe o rosto. A meu ver, ela não seria capaz disso. Tenho a impressão de que remexeu nos tijolos da estufa caída e amontoou terra e vegetação sobre a maior parte daquilo. Já tinha dado uma bebida à moça, decerto uma dose excessiva de um soporífero qualquer. Na melhor tradição grega, por assim dizer. Uma taça de cicuta... ainda que não fosse cicuta. E enterrou a moça lá no jardim, cobrindo o cadáver com tijolos, terra e vegetação...

— Mas e as outras irmãs? Não desconfiaram?

— Mrs. Glynne ainda não morava com

elas. O marido não tinha morrido e ela continuava no estrangeiro. Mas Anthea estava lá. Eu penso que Anthea deve ter percebido alguma coisa. Não sei se suspeitou logo da morte, porém sabia que Clotilde andava ocupada em levantar um montículo nos fundos do jardim para cobri-lo de plantas floridas, para criar um recanto de beleza. Tenho a impressão de que aos poucos talvez foi percebendo a verdade. E aí Clotilde, depois de optar pelo mal, de fazer o mal, de se entregar ao mal, não teve escrúpulos quanto ao próximo passo que iria dar. Creio que até se divertiu em planejá-lo. Ela exercia certa dose de influência sobre uma garota esperta e safada do povoado que de vez em quando ia lhe pedir favores. Acho que foi fácil para ela um dia dar um jeito de atrair essa garota a um piquenique ou a um passeio num lugar bem remoto, a uns quarenta ou cinqüenta quilômetros de distância. A meu ver, já tinha escolhido o local de antemão. Estrangulou a pequena, desfigurou-a, e escondeu-a debaixo da terra, das folhas e dos galhos revirados. Como é que poderiam jamais suspeitá-la de ter feito uma coisa dessas? Largou lá a bolsa de Verity e uma correntinha que sempre usava pendurada no pescoço e decerto vestiu o cadáver com roupas que também pertenciam a Verity. Esperava que demorasse algum tempo até o crime ser descoberto, mas nesse meio tempo espalhou aos quatro ventos o boato de que Nora Broad havia sido vista no carro de Michael, e que andava com ele por tudo quanto era lado. É provável, inclusive, que inventasse que Verity tinha desmanchado o noivado por causa da infidelidade dele com essa pequena. Deve ter espalhado horrores e tenho a impressão de que se divertiu com tudo o que disse, pobre coitada.

— “Pobre coitada” por que, Miss Marple? — Porque não creio que haja maior

agonia — respondeu Miss Marple, — do que a que Clotilde sofreu esse tempo todo... durante dez anos... vivendo em perpétua tristeza. Vivendo, compreendem, com o que tinha de viver. Havia conservado Verity, ali no jardim do Velho Solar, para sempre. A princípio não se deu conta do que isso significava. A vontade desesperada que sentia de que a moça tornasse a viver. Desconfio de que nunca teve remorsos. Nem sequer lhe restava esse consolo. Apenas sofreu... continuou sofrendo, anos a fio. E agora entendo o que Elizabeth Temple quis dizer. Talvez até melhor do que ela. O amor é uma coisa de fato terrível. Está exposto ao mal e pode ser uma das coisas mais malévolas que existem. E ela teve de viver com aquilo dia após dia, ano após ano. Acho também que Anthea ficou assustada com isso. E que foi percebendo, cada vez com maior clareza, o que a irmã tinha feito e imaginou que Clotilde soubesse que ela sabia. E teve medo do que poderia lhe acontecer. Clotilde confiou-lhe aquele pacote com o pulôver para levar ao correio. Contou-me coisas sobre Anthea, que era desequilibrada mental, que quando sofria de mania de perseguição e ciúmes seria capaz de tudo. Tenho a impressão... sim... de que num futuro bem próximo... alguma coisa poderia acontecer com Anthea... um suicídio supostamente devido a uma consciência pesada...

— E mesmo assim ainda sente pena

daquela mulher? — perguntou Sir Andrew. — O mal pernicioso é como o câncer... um tumor maligno. Traz sofrimento.

— Evidente — respondeu Miss Marple. — Suponho que já lhe contaram o que aconteceu naquela noite — disse o Professor Wanstead, — depois que os seus anjos da guarda a tiraram de lá?

— Refere-se a Clotilde? Eu lembro que ela

pegou o meu copo de leite. Ainda estava com ele na mão quando Miss Cooke me levou para fora do quarto. Imagino que o tenha... tomado, não?

— Sim. Sabia que isso podia acontecer? — Não, no momento essa hipótese nem

me ocorreu. Talvez tivesse me ocorrido, se houvesse tido tempo de pensar.

— Ninguém poderia impedi-la. Ela foi

muito rápida e ninguém adivinhou que o leite contivesse qualquer coisa de errado.

— Então ela o tomou.

— Isso a surpreende?

— Não, não há a mínima dúvida de que

para ela deve ter parecido a coisa mais natural que poderia fazer. Desta vez ela percebeu que queria fugir... de todas as coisas com que teria de viver. Tal como Verity quis fugir da vida que levava ali. Como é estranho, não é mesmo? A punição que a gente se impõe sempre se assemelha ao mal que se quer expiar.

— Até parece que a senhora sente mais

pena dela do que da moça que morreu.

— Não — disse Miss Marple, — é uma

espécie diferente de pena. Eu sinto pena de Verity por causa de tudo o que ela perdeu, e que estava tão perto de conseguir. Uma vida de amor, dedicação e respeito, com o homem que tinha escolhido e que verdadeiramente amava. Com toda a sua alma. Ela perdeu tudo isso e não há nada que se possa fazer. Sinto pena dela por causa do que ela não teve. Escapou, porém, do que Clotilde teve de sofrer: tristeza, desolação, medo e um refinamento e assimilação cada vez maiores do mal. Clotilde teve de suportar tudo isso. A tristeza, a frustração do amor que nunca mais poderia reaver, o fato de ser obrigada a viver com duas irmãs que desconfiavam, que sentiam medo dela, e de ser obrigada a viver com a moça que havia conservado ali.

— Com Verity, a senhora quer dizer? — Sim. Enterrada no jardim, sepultada

no túmulo que Clotilde tinha preparado. Ela estava ali no Velho Solar e eu acho que Clotilde sabia que ela estava ali. É até capaz que a visse ou pensasse que a via, às vezes, quando ia colher um ramo de flores do polygonum. Nessas horas decerto se sentia muito perto de Verity. E o que poderia haver de pior para ela do que isso? O quê...?