Nêmesis
Capítulo XX
MISS MARPLE TEM IDÉIAS
Depois de almoçar no salão de refeições,
Miss Marple saiu para o terraço para tomar seu café. Estava saboreando a segunda xícara quando uma figura alta e magra subiu pela escada e aproximou-se, falando meio ofegante. Viu que era Anthea Bradbury-Scott.
— Oh, Miss Marple, só agora ficamos
sabendo que a senhora afinal não foi embora no ônibus. Nós pensávamos que fosse continuar a excursão. Não tínhamos a menor idéia de que pretendesse permanecer aqui. A Clotilde e a Lavinia me mandaram cá para dizer que gostaríamos muito de que a senhora voltasse ao Velho Solar e se hospedasse conosco. Estou certa de que lá será muito mais agradável para a senhora. Aqui tem sempre tanta gente entrando e saindo, principalmente durante o fim de semana, e coisas assim. De modo que ficaríamos muito, muito contentes... sinceramente... se voltasse para lá.
— Ah, mas quanta gentileza — disse Miss
Marple. — É muita amabilidade mesmo, mas tenho certeza... aliás, a senhora sabe, era apenas uma visita de dois dias. A princípio eu pretendia ir embora no ônibus. Depois dos dois dias, quero dizer. Se não fosse esse trágico acidente... mas, francamente, eu achei que não dava para agüentar mais. Me pareceu que precisava, pelo menos, de uma noite de descanso.
— Mas é que seria tão bom se a senhora
fosse para lá conosco. Faríamos tudo para que se sentisse à vontade.
— Ah, quanto a isso nem se discute —
disse Miss Marple. Eu fiquei extremamente à vontade quando me hospedei com vocês. Ah é, gostei muitíssimo. Uma casa tão bonita. E com tantas coisas boas. Sabe, a porcelana, os cristais, os móveis. É tão agradável estar numa casa em vez de num hotel.
— Então agora precisa vir comigo.
Precisa, sim. Se quiser, eu arrumo as malas para a senhora.
— Ah... bem, isso é muita gentileza sua.
Eu posso arrumar sozinha.
— Bem, mas não quer que eu ajude? — Seria ótimo — disse Miss Marple. Subiram ao quarto, onde Anthea, de
maneira um tanto apressada, recolheu os pertences de Miss Marple. Miss Marple, que tinha seus próprios métodos de dobrar as coisas, teve de morder os lábios para manter um ar de complacência no rosto. Puxa, pensou, ela não é capaz de dobrar nada direito.
Anthea chamou um carregador e ele
dobrou a esquina com a mala e desceu a rua até o Velho Solar. Miss Marple deu-lhe a devida gorjeta e, ainda pronunciando pequenos discursos exagerados de agradecimento e satisfação, foi ao encontro das irmãs.
As Três Irmãs! — pensou. — Cá estamos
novamente.
Sentou-se na sala de visitas e fechou um
pouco os olhos, com a respiração meio opressa. Parecia quase sem fôlego. Nada mais natural para a minha idade, pensou, ainda mais com o passo que Anthea e o carregador vinham mantendo. Mas o que realmente queria com os olhos fechados era analisar a emoção que havia sentido ao entrar de novo nessa casa. Teria algo de sinistro? Não, nem tanto. Mais de desolação. De profunda desolação. A tal ponto que chegava quase a assustar.
Abriu os olhos e fitou as outras duas
ocupantes da sala. Mrs. Glynne acabava de voltar da cozinha, trazendo uma bandeja com o chá da tarde. Estava com a mesma aparência de sempre. Serena, sem nenhuma emoção ou sentimento especiais. Talvez quase imune demais, pensou Miss Marple. Ter-se-ia acostumado, quem sabe, através de uma vida de pressões e dificuldades, a não demonstrar nada para o mundo exterior, a manter uma reserva, sem permitir que ninguém lhe devassasse a intimidade?
Depois fixou-se em Clotilde. Tal como lhe
parecera antes, possuía certo ar de Clitemnestra. Claro que não tinha matado o marido, pois jamais tivera um marido para matar, e parecia improvável que tivesse matado a moça a quem diziam que fora extremamente afeiçoada. Quanto a isso, Miss Marple estava absolutamente segura de que era verdade. Já tinha visto como as lágrimas haviam brotado dos olhos de Clotilde à menção da morte de Verity.
E Anthea? Anthea tinha levado aquela
caixa de papelão ao correio. Anthea tinha ido buscá-la no hotel. Anthea... estava muito em dúvida acerca de Anthea. Avoada? Demais para a idade. Olhos que primeiro evitavam e depois voltavam a se fixar na gente. Que pareciam ver coisas que as outras pessoas não viam. Ela anda assustada, pensou Miss Marple. Com medo de alguma coisa. Do que seria? Quem sabe se tratava de um caso de debilidade mental? Talvez sentisse medo de voltar a alguma instituição ou estabelecimento onde já houvesse, possivelmente, passado parte de sua vida. Ou de que as outras duas irmãs achassem desaconselhável deixá-la em liberdade. E estariam ambas receosas do que Anthea fosse capaz de fazer ou dizer?
Havia uma atmosfera qualquer ali.
Perguntou-se, enquanto tomava o último gole do chá, o que estariam fazendo Miss Cooke e Miss Barrow. Teriam ido visitar a tal igreja ou seria tudo pretexto, pura conversa fiada? Que coisa mais estranha. O modo como tinham ido olhá-la em St. Mary Mead como que para se assegurarem de reconhecê-la no ônibus, mas sem revelar que já a tinham visto ou falado com ela antes.
Havia uma porção de coisas esquisitas
acontecendo. Não demorou muito, Mrs. Glynne recolheu a bandeja de chá, Anthea saiu para o jardim e Miss Marple ficou a sós com Clotilde.
— Tenho a impressão — disse Miss
Marple, — de que a senhora conhece o Arcediago Brabazon, não conhece?
— Claro — respondeu Clotilde, — ele
ontem estava na igreja, durante o serviço de encomendação. A senhora o conhece?
— Não — respondeu Miss Marple, — mas
ele foi lá no Javali Dourado e conversou comigo. Me parece que esteve no hospital se informando sobre a morte da coitada da Miss Temple. Queria saber se ela não tinha deixado nenhum recado para ele. Se não me engano, ela pretendia fazer-lhe uma visita. Mas naturalmente eu disse a ele que apesar de ter ido lá para ver se podia fazer alguma coisa, não havia nada que se pudesse fazer além de ficar sentado junto da cama da pobre Miss Temple. Ela estava inconsciente, sabe? Não pude fazer nada por ela.
— Ela não disse... não falou nada... não
deu nenhuma explicação sobre o que tinha acontecido? — perguntou Clotilde, sem muito interesse.
Miss Marple ficou pensando se não seria
dissimulação, mas de modo geral parecia-lhe que não. Achou que Clotilde estava ocupada com idéias bem diferentes.
— A senhora acha que foi acidente? —
perguntou Miss Marple; — ou acha que há alguma coisa naquela história que a sobrinha de Mrs. Riseley-Porter contou? A respeito de ter visto alguém empurrando um bloco de pedra.
— Bem, eu suponho que se os dois
disseram isso, é porque devem ter visto mesmo.
— Pois é. Os dois disseram, não é? —
retrucou Miss Marple, — embora não exatamente com as mesmas palavras. Mas isso talvez seja perfeitamente natural.
Clotilde olhou-a com curiosidade. — A senhora parece em dúvida. — Bem, é que eu acho tão absurdo —
disse Miss Marple, — uma história incrível, a não ser...
— A não ser quê?
— Bem, eu apenas gostaria de saber —
disse Miss Marple.
Mrs. Glynne entrou novamente na sala. — O que é que a senhora gostaria de
saber? — perguntou ela.
— Estávamos comentando o acidente, ou
o não-acidente — explicou Clotilde.
— Mas quem...
— A história que eles contaram me parece
muito estranha — insistiu Miss Marple.
— Há qualquer coisa neste lugar — disse Clotilde de repente. — Qualquer coisa no ar. Esta casa nunca mais foi a mesma. Nunca. Desde... desde que a Verity morreu. Já faz anos, mas não passa. Há uma sombra aqui. — Olhou para Miss Marple. — Também não acha? Não sente uma sombra pairando aqui?
— Bem, eu sou forasteira — respondeu
Miss Marple. — É diferente para a senhora e para suas irmãs, que moravam aqui e conheciam a moça que morreu. Pelo que deduzi das palavras do Arcediago Brabazon, ela era uma moça encantadora e muito bonita.
— Era linda. E um encanto de menina,
também — disse Clotilde.
— Eu gostaria de tê-la conhecido melhor
— disse Mrs. Glynne. — Naturalmente, naquela época eu estava morando no estrangeiro. Meu marido e eu viemos para a Inglaterra uma vez, de licença, mas passamos a maior parte do tempo em Londres. Quase nunca vínhamos aqui.
Anthea entrou do jardim. Trazia na mão
uma grande braçada de lírios.
— Flores fúnebres — disse. — É o que
hoje precisávamos ter aqui, não é? Vou pô-las num vaso grande. Flores fúnebres — e de repente riu. Uma risadinha histérica, sem graça.
— Anthea — pediu Clotilde, — não... não
faça isso. Não... não fica bem.
— Vou pô-las num vaso — repetiu
Anthea, toda alegre.
E saiu da sala.
— Francamente, Anthea! — exclamou
Mrs. Glynne. — Eu acho que ela está...
— Cada vez pior — terminou Clotilde a
frase.
Miss Marple adotou uma atitude de quem
não está ouvindo nem prestando atenção. Pegou uma caixinha esmaltada e pôs-se a admirá-la.
— No mínimo agora ela quebra o vaso —
disse Lavinia.
E também saiu da sala.
— Está preocupada com sua irmã, com
Anthea? — perguntou Miss Marple.
— Estou, sim. Ela sempre foi meio
desequilibrada. É a caçula e em criança teve uma saúde bastante delicada. Mas eu acho que ultimamente está ficando cada vez pior. Ela não tem a mínima idéia, a meu ver, da gravidade das coisas. De vez em quando lhe vêm esses ataques bobos de histeria. Ri sem propósito de coisas que precisam ser encaradas com seriedade. Nós não queremos... bem, mandá-la para nenhum lugar ou... a senhora sabe. Na minha opinião, devia fazer tratamento, mas tenho a impressão de que ela não gostaria de ficar longe do solar. Afinal de contas, isto aqui é a casa dela. Embora às vezes se torne... se torne muito difícil.
— Tudo na vida às vezes se torna difícil —
disse Miss Marple.
— A Lavinia já falou em ir embora —
continuou Clotilde. — Está com vontade de ir morar de novo no estrangeiro. Em Taormina, se não me engano. Ela já viveu lá com o marido e os dois foram muito felizes. Já faz vários anos que está aqui em casa conosco, mas parece que ela sente essa vontade de ir embora, de viajar. Às vezes tenho a impressão... às vezes tenho a impressão de que ela não gosta de estar na mesma casa que Anthea.
— Ah, meu Deus!— exclamou Miss
Marple. — Sim, já ouvi falar em casos assim, em que de fato surgem dificuldades.
— Ela tem medo de Anthea — disse
Clotilde. — Verdadeiro medo dela. E francamente, eu vivo repetindo para ela que não há motivo para temores. A Anthea às vezes é apenas meio idiota. A senhora sabe, tem idéias esquisitas e diz coisas estranhas. Mas não acho que haja qualquer perigo de que ela... bem, quero dizer, de... ah, sei lá o que quero dizer. De fazer alguma coisa perigosa, estranha ou esquisita.
— Nunca houve nenhum problema desse
tipo? — indagou Miss Marple.
— Oh, não. Nunca. Às vezes ela tem
ataques de mau humor e se põe a implicar de repente com certas pessoas. É muito ciumenta, sabe, com tudo. Quando se começa... por exemplo, a dar muita atenção aos outros. Sei lá. Às vezes tenho a impressão de que seria melhor vender esta casa e ir embora daqui.
— Deve ser triste para a senhora, não é?
— disse Miss Marple. — Acho que compreendo perfeitamente como há de ser penoso viver aqui com as lembranças do passado.
— Ah, a senhora compreende? Sim, estou
vendo que compreende mesmo. Mas que se há de fazer? Como esquecer aquela menina tão querida, tão digna de ser amada? Criei-a como uma filha. Afinal, a mãe dela foi uma de minhas melhores amigas. E tão inteligente que era, também. Uma garota esperta. Boa pintora. Ia indo otimamente nas aulas de pintura e desenho. Já estava com uma porção de encomendas. Eu tinha muito orgulho dela. E aí... essa maldita atração por aquele rapaz horrível, que só podia ser louco.
— Refere-se ao filho de Mr. Rafiel,
Michael Rafiel?
— Sim. Antes ele nunca tivesse aparecido
por aqui. Mas, por acaso, estava hospedado na região e o pai sugeriu que viesse nos visitar e ele veio e almoçou conosco. Sabia ser muito simpático, compreende? Mas sempre foi um mau elemento, com péssimos antecedentes. Já tinha sido preso duas vezes por causa de uma história terrível com moças. Mas nunca pensei que a Verity... fosse se apaixonar. Acho que é normal naquela idade. Ela ficou louca pelo rapaz. Não queria saber de mais nada, e ai de quem ousasse falar mal dele. Insistia que tudo o que havia acontecido não era culpa dele. A senhora sabe as coisas que as moças dizem. “Todo mundo está contra ele”, é o que sempre dizem. Todo mundo está contra ele. Ninguém é tolerante com ele. Ah, a gente fica cansada de ouvir essas coisas. Será que nunca hão de criar juízo?
— Em geral é o que menos têm —
concordou Miss Marple.
— Ela não dava ouvidos. Eu... eu tentei
afastá-lo daqui de casa. Disse-lhe que não devia mais vir cá. O que foi uma burrice, lógico. Só depois que percebi. Ela terminou saindo para ir se encontrar com ele fora de casa. Sei lá onde. Tinham vários pontos de encontro. Ele costumava apanhá-la de carro num lugar combinado e trazia-a de volta tarde da noite. Umas duas vezes ela só apareceu no dia seguinte. Procurei convencer os dois de que aquilo não podia continuar, que deviam acabar com tudo, mas não me escutaram. Nem a Verity. Dele, naturalmente, eu nada esperava.
— Ela tencionava casar com ele? —
perguntou Miss Marple.
— Bom, eu acho que a coisa nunca
chegou a esse ponto. Desconfio de que ele nem sequer pensou em casar com ela.
— Sinto muito pela senhora — disse Miss
Marple. — Deve ter sofrido bastante.
— Pois é. O pior foi ter de ir identificar o
cadáver. Isso aconteceu algum tempo depois... depois que ela desapareceu de casa. Nós, naturalmente, imaginávamos que tivesse fugido com ele e que com o correr do tempo receberíamos notícias. Eu sabia que a polícia parecia estar levando a coisa a sério. Pediram a Michael para comparecer na delegacia e ajudá-los nas investigações e a história que ele contou, pelo jeito, não combinava com o que os moradores do lugar andavam dizendo.
“Aí a encontraram. Bem longe daqui. A
uns quarenta quilômetros de distância. Numa espécie de valo coberto de vegetação junto de uma estrada deserta onde praticamente ninguém passava. Sim, eu tive de ir ver o corpo no necrotério. Uma coisa medonha. A crueldade, a força que tinham sido usadas. Por que ele quis fazer aquilo com ela? Não bastava estrangulá-la? Ele a estrangulou com a própria manta que ela estava usando. Eu não posso... não posso mais falar sobre isso. Não agüento, não agüento.
Lágrimas escorreram-lhe subitamente
pelo rosto.
— Que pena que a senhora me dá —
disse Miss Marple. — Que pena imensa.
— Acredito. — Clotilde de repente olhou
para ela. — E ainda não sabe do pior.
— Como assim?
— Não sei... não sei... é a Anthea. — O que é que tem a Anthea? — Ela andava tão esquisita naquela
época. Estava... estava muito ciumenta. De repente começou a implicar com a Verity. Olhava-a como se a odiasse. Às vezes eu pensava... quem sabe lá... oh não, que idéia mais horrível, não se pode pensar uma coisa dessas da própria irmã da gente... mas uma vez ela chegou a agredir alguém. Sabe, ela costumava ter esses ataques de raiva. Fiquei imaginando se não podia ter sido... ah, não devo dizer uma coisa dessas. Isso está fora de cogitação. Esqueça, por favor, tudo o que eu disse. Não tem cabimento, de jeito nenhum. Mas... mas... acontece que ela não é bem normal. Isso não há que negar. Quando era jovem, ocorreram umas coisas estranhas... com bichos. Nós tínhamos um papagaio, que dizia bobagens, essas tolices que os papagaios vivem dizendo, e ela torceu-lhe o pescoço. Eu não me conformei. Achei que nunca mais poderia confiar nela. Nunca me senti segura. Nunca me senti... ah, meu Deus, também estou ficando histérica.
— Ora, vamos — disse Miss Marple, —
não pense mais nisso.
— Pois é. Já basta saber... saber que a
Verity morreu. Daquela maneira horrível. Pelo menos ele não fará mais mal a ninguém. Pegou prisão perpétua. Continua preso. Não vão deixá-lo solto por aí, arriscando a vida de outras moças. Se bem que podiam ter alegado algum desequilíbrio mental... alguma ate-nuante... — uma dessas coisas que usam hoje em dia. Ele devia ter ido para Broadmoor. Tenho certeza de que não foi responsável pelo que fez.
Levantou-se e saiu da sala. Mrs. Glynne
tinha voltado e passou pela irmã no umbral da porta.
— A senhora não deve prestar atenção à
Clotilde — disse. — Ela nunca se refez direito daquela história hedionda de anos atrás. Gostava muitíssimo da Verity.
— Parece que ela anda preocupada com
sua outra irmã.
— Com Anthea? A Anthea não tem nada.
É... bem, ela é avoada, compreende? Meio... histérica. Propensa a se alarmar com qualquer coisa, e a ter fantasias estranhas, excesso de imaginação, às vezes. Mas acho que não há a menor necessidade da Clotilde se preocupar tanto assim. Meu Deus, quem é que está ali naquela porta?
Dois vultos contrafeitos tinham
subitamente aparecido na porta envidraçada.
— Ah, desculpe — disse Miss Barrow, — nós estávamos apenas fazendo a volta da casa para ver se encontrávamos Miss Marple. Nos falaram que ela tinha vindo para cá e eu pensei... ah, eis aí a senhora, minha cara Miss Marple. Eu queria lhe avisar que afinal terminamos não indo visitar aquela igreja agora de tarde. Pelo jeito está fechada para limpeza, de modo que acho que teremos de desistir de qualquer outro passeio por hoje e deixar para amanhã. Espero sinceramente que não reparem por termos entrado por aqui. Eu de fato toquei a campainha da porta da frente, mas parece que não está funcionando.
— É, às vezes isso acontece — explicou
Mrs. Glynne. — É meio temperamental, sabem? Às vezes toca, outras vezes não. Mas sentem-se, por favor. Vamos conversar um pouco. Eu não tinha a mínima idéia de que as senhoras não houvessem tomado o ônibus.
— Pois é, nós resolvemos fazer um pouco
de turismo por aqui, para aproveitar a oportunidade, e ir embora no ônibus seria francamente... bem, seria meio penoso depois do que aconteceu.
— Precisam tomar um pouco de xerex —
disse Mrs. Glynne.
Saiu da sala e voltou em seguida, acompanhada de Anthea, já mais calma, trazendo cálices e uma garrafa de cristal com xerex. Sentaram-se lado a lado.
— Estou muito curiosa para saber como é
que vai terminar tudo isso — disse Mrs. Glynne. — Refiro-me à pobre Miss Temple. Parece simplesmente impossível adivinhar o que a polícia acha. Tudo indica que as investigações continuam e, afinal, o inquérito foi adiado, portanto é óbvio que não se deram por satisfeitos. Não sei se descobriram qualquer coisa relacionada com o ferimento.
— Creio que não — retrucou Miss
Barrow. — Porque o golpe na cabeça, o choque... bem, é lógico que isso foi proveniente da pedra. A única dúvida, Miss Marple, é se ela rolou sozinha ou se alguém a empurrou.
— Ah — exclamou Miss Cooke, — mas é
evidente que não se pode pensar que... afinal, quem haveria de empurrar uma pedra daquelas, fazer uma coisa dessas? Imagino que sempre haja gente desocupada por lá. Alguns jovens estrangeiros ou estudantes, sabem? Eu de fato me pergunto se... bem...
— A senhora quer dizer — atalhou Miss
Marple, — que se pergunta se esse alguém não seria um de nossos companheiros de excursão, não é?
— Bem, eu... eu não disse isso —
protestou Miss Cooke.
— Mas é evidente — lembrou Miss
Marple, — que não se pode deixar de... de pensar nessa hipótese. Sim, deve haver alguma explicação. Se a polícia parece estar certa de que não foi acidente, bem, então deve ter sido obra de alguém e... afinal, Miss Temple era uma desconhecida aqui na localidade. Não acho provável que pudesse ter sido alguém... daqui, quero dizer. Portanto, só resta mesmo... voltar a todos nós que estávamos no ônibus, não é?
E soltou uma leve risadinha, meio
estridente, de velha.
— Ah, mas como?!
— Pois é, eu de fato não devia dizer uma
coisa dessas. Mas vocês sabem, esses crimes são mesmo muito interessantes. Às vezes acontecem as coisas mais incríveis.
— A senhora tem uma opinião definida,
Miss Marple? Eu gostaria de ouvi-la — disse Clotilde.
— Bem, a gente sempre pensa nas
possibilidades.
— Mr. Caspar — disse Miss Cooke. — Sabem, eu desde o início não fui com a cara daquele homem. Ele me parecia... bem, eu achava que ele podia ter qualquer coisa a ver com espionagem ou algo parecido. Talvez tivesse vindo para cá à procura de segredos atômicos ou coisa que o valha.
— Não creio que haja nenhum segredo
atômico por aqui — disse Mrs. Glynne.
— Claro que não — concordou Anthea. —
Talvez fosse alguém que estivesse seguindo Miss Temple. Que andasse atrás dela porque ela tivesse cometido algum crime.
— Que tolice — atalhou Clotilde. — Ela
era ex-diretora de um colégio muito conhecido, uma grande autoridade no assunto. A troco de que alguém andaria atrás dela?
— Ah, sei lá. Talvez houvesse ficado meio
louca ou coisa que o valha.
— Tenho certeza — disse Mrs. Glynne —
de que Miss Marple tem alguma idéia.
— Bem, idéias eu tenho — retrucou Miss
Marple. — Me parece que... bem, as únicas pessoas que poderiam ser... Ah, meu Deus, é tão difícil de explicar. Mas eu acho que há duas pessoas que saltam logo aos olhos como as possibilidades mais lógicas. Vejam bem, não é que eu as considere culpadas, porque tenho certeza de que ambas são pessoas muito boas, mas o que eu quero dizer é que não há mais ninguém que pudesse, logicamente, ser de fato suspeito, digamos.
— A quem a senhora se refere? Isso é
muito interessante.
— Eu até acho que não devia dizer uma
coisa dessas. É só uma... uma espécie de conjetura, sem pé nem cabeça.
— Quem que a senhora acha que podia
ter empurrado a pedra? Quem seria a pessoa que Joanna e Emlyn Price viram?
— Bem, o que eu realmente achei foi
que... que talvez eles não tivessem visto ninguém.
— Não estou compreendendo direito —
disse Anthea. — Que eles não tivessem visto ninguém?
— Ora, podiam talvez ter inventado tudo. — Quê... o fato de ter visto alguém? — Bem, é possível, não é? — Quer dizer, como uma espécie de
brincadeira ou idéia maldosa? O quê, afinal?
— Olhem, eu acho... que se ouve falar em
coisas tão incríveis que a mocidade faz hoje em dia — respondeu Miss Marple. — Sabem como é, botando coisas nos olhos dos cavalos, quebrando janelas de missões diplomáticas, agredindo pessoas, atirando pedras nos outros. Isso tudo geralmente é obra de gente jovem, não é? E eles eram os únicos jovens do grupo, não eram?
— A senhora quer dizer que Emlyn Price e
Joanna poderiam ter empurrado aquela pedra?
— Mas eles são as únicas pessoas óbvias,
não são? — retrucou Miss Marple.
— Imagina! — exclamou Clotilde. — Ah,
eu nunca teria pensado nisso. Mas agora vejo... sim, vejo perfeitamente que a senhora pode ter razão. Claro, eu não conheço direito aqueles dois. Não andei viajando com eles.
— Ah, são muito simpáticos — disse Miss
Marple. — A Joanna me parece uma... moça especialmente capaz, sabe?
— Capaz de tudo? — perguntou Anthea. — Anthea — ralhou Clotilde, — fique
quieta, por favor.
— Sim. Bem capaz — respondeu Miss
Marple. — Afinal de contas, se se pretende fazer alguma coisa, que resulte em crime, a gente tem „de ser bastante capaz para conseguir não ser vista, nem coisa parecida.
— Mas então os dois deviam estar
mancomunados — sugeriu Miss Barrow.
— Ah, lógico — concordou Miss Marple.
— Eles estavam e contaram mais ou menos a mesma história. São os... bem, são os suspeitos óbvios, é só o que posso dizer. Achavam-se fora do ângulo de visão dos outros. O grupo todo foi pela trilha comum. Eles podiam ter subido até o alto do morro e empurrado o bloco de pedra. Talvez não quisessem matar especialmente Miss Temple. É possível que tencionassem apenas... ora, fazer um pouco de anarquia ou esmagar alguma coisa ou alguém... qualquer pessoa, mesmo. Aí empurraram a pedra. E depois, na-turalmente, inventaram que tinham visto alguém por lá. Vestido com um traje meio esquisito ou sei lá mais o quê, o que também me soa muito improvável e... bem, eu não devia dizer essas coisas, mas o fato é que dá o que pensar.
— Me parece uma idéia muito
interessante — disse Mrs. Glynne. — Que você acha, Clotilde?
— Acho que é uma possibilidade. Que a
mim não teria ocorrido.
— Bom — disse Miss Cooke, pondo-se de
pé, — agora temos de voltar para o Javali Dourado. A senhora vem conosco, Miss Marple?
— Oh não — respondeu Miss Marple. —
Suponho que não saibam. Esqueci de lhes dizer. Miss Bradbury-Scott teve a extrema gentileza de me convidar para passar de novo outra noite... ou duas... aqui.
— Ah, compreendo. Bem, tenho certeza
de que será mais agradável para a senhora. Muito mais confortável. O pessoal que chegou agora no fim da tarde lá no Javali Dourado parece bem barulhento.
— Por que não aparecem depois do
jantar, para tomar um cafezinho? — sugeriu Clotilde. — Está fazendo uma noite tão abafada. Não convidamos para jantar porque receio que não haja o suficiente em casa, mas se aceitarem um café conosco...
— Seria ótimo — disse Miss Cooke. —
Sim, nós certamente vamos nos valer da sua hospitalidade.