Nêmesis
Capítulo IV
ESTHER WALTERS
Esther Anderson saiu do supermercado e
rumou para o ponto onde deixara o carro estacionado. Cada dia fica mais difícil estacionar, pensou. Nisso esbarrou em alguém, uma mulher idosa mancando um pouco, que vinha na direção oposta. Pediu desculpas, ma» a outra foi logo exclamando:
— Mas ora... claro... é Mrs. Walters, não?
Esther Walters? Vai ver que não se lembra mais de mim. Jane Marple. Nos conhecemos no hotel em St. Honoré, ah... já faz tanto tempo. Um ano e meio.
— Miss Marple? Mas lógico. Imagina,
encontrá-la aqui!
— Que prazer revê-la. Vou almoçar com
uns amigos aqui perto, mas depois tenho que passar de novo por Alton. Vai estar de tarde em casa? Gostaria tanto de conversar um pouco. É tão bom encontrar uma velha amiga.
— Sim, claro. Passe a qualquer hora
depois das três.
Ficou então combinado.
— A velha Jane Marple — disse Esther Anderson, sorrindo sozinha. — Imagina, aparecer por aqui. Julguei que já tivesse morrido há muito tempo.
Miss Marple tocou a campainha de
Winslow Lodge às 3h30m em ponto. Esther abriu a porta e mandou-a entrar.
Miss Marple aceitou a cadeira que lhe foi
oferecida, agitando-se da maneira meio inquieta que assumia quando ligeiramente confusa. Ou, em todo caso, quando queria dar impressão de estar ligeiramente confusa. Como desta vez, já que tudo tinha acontecido exatamente como havia previsto.
— É tão bom ver a senhora — disse a
Esther. — Tão bom reencontrá-la. Sabe, eu de fato acho que este mundo tem coisas estranhíssimas. A gente espera rever as pessoas e tem absoluta certeza de que vai rever mesmo. Depois passa-se o tempo e de repente é uma surpresa total.
— E aí — completou Esther, — se diz, que
mundo pequeno, não é?
— Pois é, e eu acho que há qualquer coisa
nisso. Quero dizer, o mundo realmente parece enorme e as Antilhas ficam a uma distância tão grande da Inglaterra. Bem, naturalmente eu poderia ter encontrado a senhora em qualquer lugar. Em Londres ou no Harrods. Numa estação ferroviária ou num ônibus. Existem tantas possibilidades.
— Existem, sim. Uma porção —
concordou Esther. — Eu, sem dúvida, não esperava encontrá-la logo aqui, que não é propriamente uma região em que a senhora costume andar, não é mesmo?
— Não, não é. Embora, a rigor, a senhora
não esteja tão longe assim de St. Mary Mead, onde eu moro. Na verdade, acho que são apenas uns trinta quilômetros. Mas trinta quilômetros no interior, quando não se tem carro... e é lógico que não posso me dar ao luxo de ter um, e de qualquer forma, aliás, eu não sei guiar... portanto não ia adiantar nada, de modo que a gente só encontra mesmo os vizinhos no trajeto do ônibus, ou então tomando um táxi no povoado.
— A senhora está com um aspecto ótimo
— disse Esther.
— Eu já ia dizer o mesmo da senhora,
minha cara. Nunca pensei que morasse por aqui.
— Faz muito pouco tempo que vim para
cá. Foi depois do meu casamento, aliás.
— Ah, não sabia. Que interessante. No mínimo me passou despercebido. Sempre vejo as participações.
— Casei há uns quatro ou cinco meses —
explicou Esther. — Meu nome agora é Anderson.
— Mrs. Anderson — disse Miss Marple. —
É. Preciso ver se não esqueço. E o seu marido?
Seria estranho, pensou, que não
perguntasse por ele. Todo mundo sabe que as solteironas são bisbilhoteiras.
— É engenheiro — respondeu Esther. —
Dirige a filial da Time and Motion. Ele é — hesitou — um pouco mais moço que eu.
— Muito melhor assim — retrucou logo
Miss Marple. — Ah, muito melhor, minha cara. Hoje em dia os homens envelhecem bem mais depressa que as mulheres. Sei que antigamente não se dizia isso, mas no fundo é verdade. Quer dizer, eles têm mais coisas para atender. Acho, talvez, que se preocupam e trabalham demais. E aí ficam com a pressão alta ou baixa, e às vezes com pequenas complicações cardíacas. Também tendem um pouco a sofrer de úlceras gástricas. Não creio que nós nos preocupemos tanto, sabe? Acho que somos o sexo mais forte.
— Pode ser que sim — disse Esther.
Agora sorria. Miss Marple se sentiu
tranqüilizada. A última vez que a tinha visto, parecia que Esther a odiava e provavelmente era o que havia acontecido naquela ocasião. Mas agora, bem, agora, possivelmente, se sentisse até agradecida. Talvez tivesse compreendido que a esta hora poderia estar sob uma lápide de cemitério respeitável, em vez de levar a boa vida que decerto levava com Mr. Anderson.
— A senhora está tão bem — disse, — tão
alegre.
— A senhora também, Miss Marple. — Bem, é lógico que fiquei um pouco
mais velha. E a gente tem tantas doenças. Quer dizer, não são irremediáveis, não é nada de desesperar, mas sempre aparece alguma espécie de reumatismo ou de dor em alguma parte. Os pés já não são os mesmos. E em geral há problemas com as costas, com o ombro ou com as mãos. Ah, meu Deus, nem se devia falar nisso. Que casa ótima que a senhora tem.
— Pois é, faz muito pouco tempo que
moramos aqui. Nos mudamos há uns quatro meses apenas.
Miss Marple olhou em torno. De fato, era bem a impressão que dava. Pareceu-lhe, também, que quando se haviam mudado, ninguém cogitara de fazer economia. Os móveis eram caros, confortáveis, quase luxuosos, podia-se dizer. Boas cortinas, boas capas, sem revelar nenhum gosto artístico especial, mas afinal ela não esperava encontrar isso. Achou que sabia o motivo dessa aparência de prosperidade. Decerto provinha da bela herança deixada a Esther pelo falecido Mr. Rafiel. Ficou contente de ver que ele não tinha mudado de idéia.
— Suponho que haja visto a notícia da
morte de Mr. Rafiel — disse Esther, falando quase como se adivinhasse o que se passava no espírito de Miss Marple.
— Sim. Sim, de fato vi. Faz mais ou
menos um mês, não e. Fiquei tão penalizada. Muito abalada até, apesar de que, bem, acho que a gente já sabia... ele mesmo não escondia, não e. Deu a entender várias vezes que não ia demorar muito. Creio que ele enfrentou tudo com grande coragem, não lhe parece?
— É, foi muito corajoso, e realmente era
um homem boníssimo — concordou Esther. — Ele me disse, sabe, quando comecei a trabalhar para ele, que ia me pagar um ótimo salário, mas que eu teria de economizar bastante, pois não devia esperar mais nada dele. Ora, eu certamente não esperava ganhar mais nada dele. Era um homem de palavra, não era? Mas pelo visto mudou de idéia.
— Pois é — disse Miss Marple. — Pois é.
Fico muito contente com isso. Achei que talvez... não que ele, lógico, tivesse me falado qualquer coisa... mas desconfiei.
— Ele me deixou uma herança enorme —
disse Esther. — Uma soma de dinheiro simplesmente incrível. Fiquei assombrada. A princípio, mal pude acreditar.
— Acho que ele quis lhe fazer uma
surpresa. Tenho a impressão de que era desse tipo de pessoa — disse Miss Marple. E acrescentou: — Ele não deixou nada para... ora, como era o nome dele?... o empregado, o que fazia as vezes de enfermeiro?
— Ah, quer dizer o Jackson? Não, ele não
deixou nada para o Jackson, mas creio que lhe deu ótimos presentes no último ano.
— A senhora nunca mais viu o Jackson? — Não. Não, acho que não me encontrei
nem uma vez com ele desde aquela época lá nas ilhas. Ele não ficou com Mr. Rafiel depois que eles voltaram para a Inglaterra. Me parece que foi trabalhar para um Lord que mora em Jersey ou Guernsey.
— Eu gostaria de ter reencontrado Mr.
Rafiel — disse Miss Marple. — É tão estranho, com tudo o que enfrentamos juntos. Ele, a senhora, eu, e aquelas outras pessoas. E depois, mais tarde, quando voltei para casa, quando já haviam passado seis meses... foi que um dia me dei conta de como era íntima a ligação que tínhamos mantido naquele período de tensão, e como, apesar de tudo, eu realmente conhecia pouquíssimo a respeito de Mr. Rafiel. Ainda outro dia estive pensando nisso, depois que vi a notícia da morte dele. Fiquei com vontade de conhecer mais coisas. Onde ele nasceu, sabe, e quem foram seus pais. Como é que eles eram. Se nunca teve filhos, ou sobrinhos, primos, ou qualquer família. Gostaria tanto de saber.
Esther Anderson sorriu de leve. Olhou
para Miss Marple como quem diz: — Pois é, garanto que a senhora sempre quer saber tudo isso a respeito de todas as pessoas que conhece.
Mas limitou-se a dizer:
— Pois é, mas só havia mesmo uma única
coisa a respeito dele que todo mundo sabia.
— Que era riquíssimo — retrucou Miss
Marple imediatamente. — É isso que a senhora quer dizer, não é? Quando se sabe que uma pessoa é muito rica, de certo modo, bem, não se pergunta mais nada. Quer dizer, não se faz mais nenhuma pergunta que exija resposta. A gente diz: “Ele é muito rico”, ou então: “Ele é riquíssimo”, e baixa um pouco a voz, porque é tão impressionante, não é mesmo, quando se conhece alguém que seja tremendamente rico.
Esther sorriu.
— Ele não era casado, era? — perguntou
Miss Marple. — Nunca me falou na mulher.
— Ela morreu há muitos anos. Logo
depois que casaram, se não me engano. Parece que era muitíssimo mais moça do que ele... acho que morreu de câncer. Uma tristeza.
— Tiveram filhos?
— Tiveram sim. Duas meninas e um
rapaz. Uma casou e foi morar na América. A outra morreu quase criança, creio eu. Encontrei a americana uma vez. Não era nada parecida com o pai. Uma moça bastante quieta, com ar deprimido. — Acrescentou: — Mr. Rafiel nunca falava no filho. Tenho impressão de que houve alguma encrenca com ele. Um escândalo ou qualquer coisa no gênero. Acho que morreu há poucos anos atrás. Em todo caso... nunca se referiu a ele.
— Ah, meu Deus. Que coisa mais triste. — Se não me engano, isso se passou há
muito tempo. Deve ter ido embora para um lugar qualquer no estrangeiro e nunca mais voltou... acabou morrendo por lá mesmo.
— Mr. Rafiel não ficou muito abalado com
isso?
— Seria difícil dizer — respondeu Esther.
— Era o tipo do homem capaz de superar qualquer revés. Se o filho lhe desse desgostos, tornando-se uma carga em vez de uma bênção para ele, creio que se limitaria a encerrar o caso encolhendo os ombros. Fazendo o que fosse necessário, como por exemplo enviando-lhe dinheiro para se sustentar, mas nunca mais pensando nele.
— E incrível — disse Miss Marple. — Ele
nunca mencionou, nem falou nada sobre ele?
— A senhora precisa se lembrar que ele
era um homem que jamais abria a boca para comentar seus sentimentos pessoais ou sua própria vida íntima.
— Pois é. De fato. Mas achei talvez que a
senhora, depois de ter sido... bem, secretária dele durante tantos anos, poderia, quem sabe, estar a par de problemas que possivelmente o afligissem.
— Ele não era homem de revelar
problemas — disse Esther. — Se é que os tivesse, o que duvido muito. Vivia só para os seus negócios, por assim dizer. E os seus negócios eram a única espécie de filho ou filha que lhe interessavam, a meu ver. Divertia-se muito com tudo aquilo, com os investimentos, com os lucros. Com os golpes que dava...
— Nunca considere feliz alguém que não
esteja morto... — murmurou Miss Marple, repetindo as palavras como se fossem um slogan, o que de fato pareciam ser atualmente, como ela diria. — Quer dizer, então, que não havia nada que o preocupasse de maneira especial antes de morrer?
— Não. Por que pensou nisso? Esther parecia surpresa.
— Bem, pensar eu propriamente não
pensei — retrucou Miss Marple. — Apenas me passou pela idéia, porque na verdade as pessoas ficam mais preocupadas quando estão... não direi envelhecendo... porque de fato ele não era velho, mas quero dizer que a gente se preocupa mais quando vive deitada e não pode fazer tantas coisas como antes e tem de levar tudo na calma. Aí então as preocupações simplesmente se manifestam e se fazem sentir.
— Sim, eu entendo o que a senhora quer
dizer — disse Esther. — Mas acho que Mr. Rafiel não era assim. Seja como for — acrescentou, — já faz algum tempo que deixei de ser secretária dele. — Foi dois ou três meses depois que conheci Edmund.
— Ah, pois é. O seu marido. Mr. Rafiel
deve ter ficado muito sentido quando perdeu a senhora.
— Não, creio que não — disse Esther
despreocupada-mente. — Ele não era de ficar sentido só por uma coisa dessas. Tomaria logo outra secretária... que foi o que ele fez. E aí, se ela não servisse, simplesmente se livraria dela com um aperto de mão cortês e generoso, e contrataria outra, até encontrar uma que desse certo. Sempre foi um homem profundamente sensato.
— Sim. Sim, estou vendo. Embora
perdesse a paciência com muita facilidade.
— Ah, ele gostava de perder a paciência
— disse Esther. — Acho que adorava fazer um pouco de drama.
— Drama — repetiu Miss Marple, pensativa. — A senhora não acha... às vezes fico pensando... a senhora não acha que Mr. Rafiel tinha algum interesse especial por criminologia, pelo seu estudo, quero dizer? Ele... bem, não sei...
— Por causa do que aconteceu no Caribe? A voz de Esther, subitamente, estava
áspera.
Miss Marple não sabia se devia continuar,
mas sentiu que, de uma maneira ou doutra, precisava se esforçar para ver se obtinha alguma informação útil.
— Bem, não, por causa disso não, mas
depois talvez ele tenha refletido sobre a psicologia daquelas coisas. Ou se interessado por casos em que a justiça não fosse aplicada da maneira mais correta ou... ah, não sei...
Parecia-lhe que tudo o que dizia soava, a
cada instante, mais absurdo.
— Por que teria ele o mínimo interesse em
algo desse gênero? E não vamos falar sobre aquela coisa horrível que aconteceu em St. Honoré.
— Oh, não, eu acho que a senhora tem
toda a razão. Desculpe, sinceramente. Estava apenas me lembrando de certas coisas que Mr. Rafiel às vezes dizia. Umas frases soltas meio esquisitas, e me perguntando se ele não teria alguma teoria, sabe... sobre as causas que levam ao crime.
— Os interesses dele sempre foram
exclusivamente financeiros — retrucou Esther, abrupta. — Um desfalque realmente inteligente, de um tipo criminoso, poderia talvez interessá-lo, mais nada...
Continuava encarando Miss Marple
friamente.
— Perdão — pediu Miss Marple,
desculpando-se. — Eu... eu não devia ter comentado assuntos espinhosos que felizmente já pertencem ao passado. E acho que está na hora de ir embora — acrescentou. — Tenho de pegar o trem, que não falta muito para partir. Ah, meu Deus, onde foi que deixei minha bolsa?... ah, cá está.
Recolheu a bolsa, a sombrinha e algumas
outras coisas, agitando-se muito até diminuir um pouco a tensão. Ao dirigir-se à saída, virou-se para Esther, que insistia para que tomasse outra xícara de chá.
— Não, obrigada, minha cara, não dá
mais tempo. Fiquei contentíssima por tornar a vê-la e quero dar-lhe meus parabéns e os melhores votos para que tenha uma vida muito feliz. Imagino que agora não vá se empregar de novo, não é?
— Ah, tem gente que se emprega. Dizem
que acham interessante. Se aborrecem quando ficam sem fazer nada. Mas tenho a impressão de que vou gostar muito de levar uma vida de lazeres. Pretendo também aproveitar a herança que Mr. Rafiel me deixou. Foi muito amável da parte dele e penso que ele gostaria de que eu... bem, que eu aproveitasse mesmo, gastando-a no que ele julgaria talvez que fosse uma maneira meio idiota, feminina! Em roupas caras, penteados novos, coisas assim. Ele ia achar tudo uma bobagem. — De repente acrescentou: — Eu gostava muito dele, sabe? Sim, gostava mesmo. Creio que talvez porque representava uma espécie de desafio para mim. Era difícil de lidar, e por isso eu me divertia em consegui-lo.
— E conseguia?
— Bem, tanto assim não digo, mas talvez
um pouco mais do que ele pensava.
Miss Marple saiu às pressas pela estrada
afora. Virou-se uma vez para acenar com a mão — Esther Anderson continuava parada no degrau da porta e retribuiu alegremente o aceno.
Julguei que isto pudesse ter qualquer
coisa que ver com ela ou com algo que ela soubesse — disse Miss Marple consigo mesma. — Acho que me enganei. Não. Não creio que ela esteja metida neste negócio, seja lá qual for, de jeito nenhum. Ah, meu Deus, tenho a impressão de que Mr. Rafiel esperava que eu fosse muito mais inteligente do que estou sendo. Vai ver que ele esperava que eu juntasse uma coisa com a outra... sim, mas quais? E agora, o que é que eu faço? — Sacudiu a cabeça.
Precisava refletir sobre aquilo com o
máximo cuidado. Esse negócio tinha-lhe sido entregue por assim dizer. Para que recusasse, aceitasse, compreendesse do que se tratava? Ou para que não compreendesse nada, mas fosse em frente, à espera de que lhe dessem uma espécie de orientação? De vez em quando fechava os olhos e procurava lembrar-se da fisionomia de Mr. Rafiel. Sentado no jardim do hotel nas Antilhas, com seu terno tropical, o rosto irascível enrugado, e seus ocasionais rasgos de bom humor. O que ela queria realmente saber era o que lhe passara pela idéia ao elaborar esse plano, ao decidir pô-lo em prática. A seduzi-la a aceitá-lo, a convencê-la a aceitá-lo, a... bem, talvez se pudesse dizer... a forçá-la a aceitá-lo. A terceira era muito mais plausível, conhecendo-se Mr. Rafiel. E no entanto, suponhamos que ele quisesse que se fizesse alguma coisa e a escolhesse, incumbindo-a de fazê-lo. A troco de quê? Só porque de repente se lembrara dela? Mas por que logo dela?
Tornou a pensar em Mr. Rafiel e nas
coisas que tinham ocorrido em St. Honoré. Quem sabe se o problema que o interessava na época de sua morte o levasse a recordar aquela visita às Antilhas? Estaria de certo modo ligado a alguém que havia estado lá, que tivesse tomado parte ou sido espectador lá e fosse isso que o fizera pensar em Miss Marple? Existiria algum vínculo, alguma relação? Se não, por que tinha de repente se lembrado dela? O que seria que poderia torná-la útil a ele, em qualquer sentido que fosse? Era uma pessoa idosa, meio excêntrica, bastante comum, não muito forte fisicamente, e mental-mente bem menos alerta do que antes. Quais poderiam ser as suas qualificações especiais, se é que existiam? Não conseguiu encontrar nenhuma. Não seria, talvez, o caso de que Mr. Rafiel quisesse se divertir um pouco? Mesmo encontrando-se às portas da morte, era bem capaz de sentir vontade de fazer uma espécie de brincadeira que combinasse com o seu estranho senso de humor.
Não se podia negar que Mr. Rafiel seria
bem capaz de querer fazer uma brincadeira, mesmo no seu leito de morte. Que talvez lhe satisfizesse alguma veleidade irônica.
Não — disse Miss Marple com firmeza
consigo mesma, — eu tenho que ter alguma qualidade rara. — Afinal de contas, uma vez que Mr. Rafiel já não se achava mais neste mundo, ele não poderia apreciar pessoalmente a sua brincadeira. Que qualidades ela teria. — O que é que eu tenho que poderia servir de alguma coisa a alguém? — perguntou-se Miss Marple.
Analisou-se com a devida humildade. Era
bisbilhoteira, vivia fazendo perguntas, estava numa idade e tinha um tipo de quem seria normal que se esperasse que procedesse assim. Esse era um dos aspectos, um aspecto possível. Pode-se incumbir um detetive particular, ou algum investigador psicológico, de sair por aí a fazer perguntas, mas a gente tem que concordar que é muito mais fácil usar uma senhora idosa, cujo hábito de bisbilhotar e ser intrometida, de falar demais, de querer descobrir coisas, passe por perfeitamente natural.
Uma velha mexeriqueira — disse Miss
Marple consigo mesma. — É, tenho certeza que é assim que me julgam. Existem tantas por aí, e são todas tão parecidas. E naturalmente sou um tipo muito comum. Uma velhota comum, meio excêntrica. Agora, lógico que isso serve de ótima camuflagem. Ah, meu Deus, será que estou raciocinando pelo caminho certo? Verdade que às vezes sei como as pessoas são. Quer dizer, eu sei como elas são porque me fazem lembrar outras que já conheci. Por isso compreendo certos defeitos e certas virtudes delas. Sei o tipo de gente que são. É só isso.
Pensou de novo em St. Honoré e no Hotel
da Palmeira Dourada. Ao visitar Esther Walters tinha feito uma tentativa de sondar as possibilidades de um vínculo. Miss Marple chegou à conclusão de que o resultado fora decididamente improfícuo. Tudo indicava que aquilo não a levaria a parte alguma. Não havia nada que se relacionasse com o pedido de Mr. Rafiel e que pudesse servir-lhe de ponto de partida — embora ainda não tivesse a mínima idéia do quê!
— Ah, meu Deus — exclamou Miss
Marple, — que criatura mais irritante que o senhor é, Mr. Rafiel!
Disse isso era voz alta, num tom
positivamente de repreensão.
Mais tarde, porém, ao deitar-se na cama e
aplicar a reconfortante bolsa de água quente na parte mais dolorida das costas reumáticas, tornou a falar — no que se podia quase chamar de um pedido de desculpas.
— Fiz todo o possível — disse. Isso também em voz alta, com o ar de
quem se dirige a uma pessoa que poderia perfeitamente estar ali, no quarto. Verdade que ele poderia estar em qualquer lugar, mas mesmo assim era possível que houvesse alguma comunicação telepática ou telefônica, e nesse caso, ia falar-lhe francamente e sem rodeios.
— Fiz tudo o que pude. O máximo, dentro
dos meus limites, e agora tenho que deixar a coisa ao seu critério.
E aí instalou-se mais comodamente,
estendeu a mão, apagou a lâmpada e pegou no sono.
V
INSTRUÇÕES DO ALÉM
Dali a três ou quatro dias veio uma carta
pelo correio da tarde. Miss Marple pegou-a, fez o que habitualmente fazia — virá-la do outro lado, olhar o selo, examinar a caligrafia — e, chegando à conclusão de que não se tratava de nenhuma conta, abriu-a. Estava datilografada.
“Prezada Miss Marple.
Quando a senhora ler estas linhas,
estarei morto e enterrado. Não cremado, o que já é um alívio! Sempre me pareceu impossível que a gente conseguisse se erguer das cinzas de uma bela urna de bronze, se tivesse vontade de assombrar alguém! Ao passo que a idéia de levantar-se de um túmulo para fazer o mesmo é perfeitamente plausível. Será que me sentirei tentado a proceder assim? Quem sabe. Sou bem capaz de querer entrar em contato com a senhora.
A esta altura, meus advogados decerto já
a procuraram para apresentar-lhe certa proposta. Espero que a tenha aceito. Do contrário, não fique cheia de remorsos. A senhora tem plena liberdade de escolher.
Esta carta deve chegar às suas mãos no
dia 11 do corrente, isto se meus advogados cumprirem as instruções e o correio desempenhar as funções que dele se espera. Dentro de dois dias a senhora receberá um aviso de uma agência de turismo. Confio que o que lhe propuserem não lhe seja desagradável. Não preciso dizer mais nada. Prefiro que não tenha opiniões preconcebidas. Cuide-se bem. Acho que saberá fazer isso. A senhora é uma pessoa muito perspicaz. Boa sorte e que um anjo da guarda fique a seu lado, zelando pela senhora. Talvez necessite dele. Seu amigo afetuoso,
J. B. Rafiel.”
— Dois dias! — exclamou Miss Marple Parecia-lhe que o tempo não passava
nunca. Mas o correio cumpriu com seu dever — e o mesmo aconteceu com as Casas e Jardins Célebres da Grã Bretanha.
“Prezada Miss Jane Marple.
Em obediência a instruções que nos
foram transmitidas pelo falecido Mr. Rafiel estamos enviando-lhe os pormenores da nossa Excursão n.° 37 das Casas e Jardins Célebres da Grã-Bretanha que partirá de Londres na próxima quinta-feira, dia 17.
Caso lhe seja possível passar pelos
nossos escritórios em Londres, a nossa funcionária Mrs. Sandbourne, encarregada de chefiar a excursão, terá o máximo prazer em lhe fornecer todos os dados e responder quaisquer perguntas.
Nossas excursões duram cerca de duas a
três semanas e, na opinião de Mr. Rafiel, a supracitada lhe será especialmente bem-vinda uma vez que abrange uma região da Inglaterra que, no entender dele, a senhora ainda desconhece, e propicia a oportunidade de apreciar um cenário e jardins verdadeiramente deslumbrantes. Ele providenciou para que a senhora dispusesse das melhores acomodações e do máximo conforto disponível e ao nosso alcance.
Quem sabe daria para nos informar qual
o dia mais conveniente para visitar nossos escritórios em Berkeley Street?”
Miss Marple dobrou a carta, guardou-a
na bolsa, anotou o número do telefone, lembrou-se de umas amigas que tinha e ligou para duas delas. A primeira já havia feito excursões pelas Casas e Jardins Célebres, e referiu-se à organização nos termos mais elogiosos; a segunda nunca tinha participado de nenhuma, mas possuía amigas que haviam viajado justamente por essa agência de turismo e diziam que era tudo muito bem organizado, embora meio caro, e não cansativo demais para as pessoas idosas. Depois telefonou para o número de Berkeley Street e avisou que passaria por lá na terça-feira da próxima semana.
No dia seguinte abordou o assunto com
Cherry.
— Talvez eu vá viajar, Cherry — disse. —
Numa excursão.
— Uma excursão? — estranhou Cherry.
— Uma dessas viagens de turismo? Pelo estrangeiro, a senhora quer dizer?
— Não. Pelo interior — respondeu Miss
Marple. — Mais para visitar casas e jardins históricos.
— Não acha meio arriscado para a sua
idade? Essas coisas às vezes são muito cansativas, sabe? A gente tem de caminhar quilômetros.
— Estou muito bem de saúde — disse
Miss Marple, — e sempre ouvi dizer que nessas excursões eles tomam o cuidado de propiciar intervalos de descanso para as pessoas que não sejam lá muito fortes.
— Bom, veja lá, hem? — retrucou Cherry.
— Não queremos que caia por aí com um ataque cardíaco, mesmo que esteja admirando algum chafariz especialmente maravilhoso ou coisa que o valha. A senhora já anda meio velha, sabe, para fazer uma coisa dessas. Desculpe-me a franqueza, pode até parecer grosseria, mas nem gosto de pensar em vê-la morta só porque se esforçou demais ou sei lá mais o quê.
— Não precisa se preocupar — disse Miss
Marple, com certa dignidade.
— Está bem, mas veja lá, hem? —
advertiu Cherry.
Miss Marple arrumou uma mala
apropriada, foi para . Londres, hospedou-se num hotel modesto — (Ah, o Hotel Bertram — pensou com seus botões, — aquilo sim que era hotel! Ah, meu Deus, preciso esquecer todas essas coisas, até que o St. George é um lugar bastante agradável.) Apresentou-se em Berkeley Street na hora marcada e foi conduzida ao escritório, onde uma mulher simpática de uns trinta e cinco anos levantou-se para recebê-la, explicando-lhe que se chamava Mrs. Sandbourne e que estaria pessoalmente encarregada da tal excursão.
— Não sei se entendi bem — começou
Miss Marple, — mas essa viagem é... — hesitou.
Mrs. Sandbourne, percebendo o seu
constrangimento, logo esclareceu:
— Mas claro, eu deveria ter explicado
melhor na carta que lhe mandamos. Mr. Rafiel já pagou todas as despesas.
— A senhora sabe que ele morreu, não?
— perguntou Miss Marple.
— Sei, sim. Mas isso ficou combinado
antes de sua morte. Ele falou que estava muito doente mas queria proporcionar uma alegria a uma velha amiga que não havia tido a oportunidade de viajar tanto quanto decerto gostaria.
2
Dois dias mais tarde, Miss Marple,
carregando sua pequena sacola de viagem e tendo entregue a elegante mala nova ao motorista, entrou no confortável ônibus de luxo que ia sair de Londres pelo lado noroeste da cidade. Pôs-se a ler a lista de passageiros anexa ao belo folheto que dava todos os detalhes sobre o itinerário cotidiano da excursão e continha várias informações referentes a hotéis, refeições, pontos de atração, e opções ocasionais para certos dias que, apesar do fato não estar sublinhado, no fundo sugeria que parte do itinerário destinava-se aos mais jovens e ativos, enquanto que a outra seria especialmente adequada a pessoas idosas, cujos pés incomodassem, que sofressem de artrite ou reumatismo e que preferiam ficar sentadas em vez de percorrer longas distâncias ou subir morros demais. Tudo isso com muito tato e senso de programação.
Miss Marple leu a lista de passageiros e
observou seus companheiros de viagem. Não encontrou dificuldade para isso porque os outros também estavam fazendo a mesmíssima coisa. Todos se entreolhavam, mas pelo que Miss Marple pôde perceber, por enquanto ninguém tinha tomado nenhum interesse pessoal por ela.
Mrs. Riseley-Porter
Miss Joanna Crawford
Coronel Walker e senhora Mr. e Mrs. H. T. Butler
Miss Elizabeth Temple
Professor Wanstead
Mr. Richard Jameson
Miss Lumley
Miss Bentham
Mr. Caspar
Miss Cooke
Miss Barrow
Mr. Emlyn Price
Miss Jane Marple
Havia quatro senhoras de idade. Miss
Marple começou por elas para eliminá-las da lista, por assim dizer. Duas viajavam juntas. Miss Marple calculou que tivessem uns setenta anos. Podiam ser mais ou menos consideradas como suas contemporâneas. Uma era positivamente do tipo que vive reclamando tudo, que exige lugares na frente do ônibus ou então faz questão de que sejam bem atrás. Que só quer sentar do lado que dá sol ou só suporta o que fica na sombra. Que insiste em abrir, ou fechar, as janelas. Tinham trazido cobertores de viagem, mantas de tricô e ampla variedade de guias. Eram meio inválidas e sempre com dores nos pés, nas costas ou nos joelhos, mas que mesmo assim nem a idade nem as doenças impediriam de aproveitar a vida enquanto pudessem. Velhas mexeriqueiras, mas definitivamente não do tipo caseiro. Miss Marple anotou essa observação na sua agenda.
Quinze passageiros, não contando ela e
Mrs. Sandbourne. E uma vez que a haviam mandado nessa excursão de ônibus, pelo menos um desses quinze devia ter alguma importância. Seja como fonte de informações, ou então por ser relacionado com a lei ou com algum caso judicial, ou até mesmo por ser um criminoso. Um criminoso que talvez já houvesse cometido um crime ou que estivesse se preparando para cometê-lo. Com Mr. Rafiel, pensou Miss Marple, tudo era possível! De qualquer modo, precisava anotar observações sobre essa gente toda.
Na página direita da agenda ela ia anotar
as pessoas que fossem dignas de atenção do ponto de vista de Mr. Rafiel e na esquerda incluiria ou eliminaria as que só pudessem apresentar interesse se fossem capazes de lhe fornecer uma informação útil. Que talvez nem sequer soubessem que possuíam. Ou então que. mesmo que possuíssem, ignorassem que possivelmente poderia ter serventia para ela, para Mr. Rafiel, para a lei ou para a Justiça, com J maiúsculo. Reservaria as últimas páginas da agenda para alguma observação que quisesse anotar logo mais à noite, caso alguém a fizesse lembrar-se dos tipos que havia conhecido no passado em St. Mary Mead e noutros lugares. Quaisquer semelhanças poderiam fornecer uma sugestão útil. Já tinha acontecido isso em ocasiões anteriores.
As outras duas senhoras de idade
viajavam, aparentemente, separadas. Ambas deviam andar pelos sessenta anos. Uma era bem conservada e bem vestida, de óbvia importância social não só na sua opinião como também na alheia. Falava em voz alta, ditatorial. Parecia dominar a sobrinha, uma moça de seus dezoito ou dezenove anos, que a chamava de tia Geraldine e que, segundo Miss Marple observou, já estava evidentemente acostumada a aturar o despotismo da tia. Além de competente era bonita.
Do outro lado do corredor, no lugar
correspondente ao de Miss Marple, havia um homenzarrão de ombros largos e corpo desajeitado, que se diria feito de tijolos grossos, da maneira mais negligente, por uma criança ambiciosa. O rosto dava impressão de que a natureza queria que fosse redondo, antes que ele se rebelasse e decidisse obter um efeito quadrado, desenvolvendo uma poderosa mandíbula. Tinha cabeça grande, cabelos grisalhos e enormes sobrancelhas hirsutas que agitava para cima e para baixo a fim de sublinhar o que dizia. Seus comentários pareciam, de modo geral, sair numa série de latidos como se fosse um cão pastor tagarela. Dividia o assento com um moreno estrangeiro e alto que não parava de se mexer e gesticular. Falava um inglês muito esquisito, entremeado de vez em quando por comentários em francês e alemão. O mastodonte parecia perfeitamente capaz de enfrentar essas investidas em idioma estrangeiro, e defendia-se valentemente tanto em francês como em alemão. Lançando-lhes de novo um olhar rápido, Miss Marple chegou à conclusão de que o de sobrancelhas hirsutas devia ser o Professor Wanstead e o estrangeiro irrequieto Mr. Caspar.
Sentiu curiosidade de saber o que
discutiam com tanta animação, mas viu-se frustrada pela rapidez e ênfase da fala de Mr. Caspar.
O banco imediato estava ocupado pela
outra senhora de sessenta anos, talvez mais, uma mulher alta, mas que mesmo que não fosse se destacaria no meio de qualquer multidão. Ainda era muito bonita, com o cabelo escuro e grisalho preso na nuca, puxado para trás de uma bela testa. Tinha a voz grave, clara, incisiva. Uma personalidade, pensou Miss Marple. Alguém! Sim, decididamente alguém.
— Faz lembrar Dame Emily Waldron —
disse consigo mesma.
Dame Emily Waldron havia sido reitora
de uma faculdade de Oxford e notável cientista, e Miss Marple, tendo-a encontrado certa vez em companhia do sobrinho, nunca mais pôde esquecê-la.
Continuou o levantamento dos
passageiros. Havia dois casais, um americano, já maduro, simpático, com a mulher tagarela e o marido serenamente cordato. Tratava-se evidentemente de uma dupla que gostava de viajar e conhecer lugares novos. E um casal inglês, também já maduro, que ela classificou sem hesitar de militar reformado acompanhado da esposa. Assinalou-os na lista como Coronel Walker e senhora.
No assento atrás de Miss Marple achava-
se um homem magro e alto de seus trinta anos, que usava um vocabulário extremamente técnico: arquiteto, sem dúvida. Havia também duas senhoras, de certa idade, que viajavam juntas, instaladas mais para os fundos do ônibus. Comentavam o folheto, procurando ver o que a excursão lhes reservava em matéria de atrações. Uma era morena e magra, mas a outra, loura e de constituição robusta, pareceu vagamente familiar a Miss Marple. Perguntou-se onde a teria encontrado antes. Não conseguiu precisar a ocasião. Provavelmente em algum coquetel ou sentada à sua frente no trem. Não possuía nada de especial que a singularizasse.
Faltava apenas mais um passageiro para
analisar: um rapaz que poderia ter, no máximo, dezenove ou vinte anos. Trajava roupa apropriada à sua idade e sexo: calças pretas justas e suéter roxo de gola roulé. A cabeça era uma vasta juba de cabelos negros desgrenhados. Olhava com curiosidade para a sobrinha da mulher autoritária — sendo que na opinião de Miss Marple, a sobrinha da mulher autoritária retribuía essa curiosidade com certo interesse. A despeito da preponderância de velhas mexeriqueiras e senhoras em idade madura havia, de qualquer forma, duas pessoas jovens entre os passageiros.
Pararam para almoçar num bom hotel à
beira-rio, e o passeio turístico da tarde foi dedicado a Blenheim. Miss Marple já tinha visitado Blenheim duas vezes, de modo que poupou os pés, limitando-se a visitar interiores e passando logo a apreciar os jardins e o belo panorama.
Quando chegaram ao hotel onde deveriam
pernoitar, quase todos os passageiros já se conheciam bastante bem. A eficiente Mrs. Sandbourne, sempre animada e incansável, apesar dos encargos da chefia dos passeios turísticos, desincumbia-se muito bem de seu papel, formando pequenos grupinhos onde procurava incluir os que dessem impressão de andarem meio abandonados, murmurando-lhes:
— Ah, mas é preciso que faça o Coronel
Walker descrever-lhe o jardim dele. Não imagina a coleção maravilhosa de fúcsias que ele tem.
E ia aproximando as pessoas com rápidos
comentários desse gênero.
Miss Marple agora já podia identificar
todo mundo pelo nome. O das sobrancelhas hirsutas, tal como havia pensado, era de fato o Professor Wanstead, e o estrangeiro, Mr. Caspar. A mulher autoritária chamava-se Mrs. Riseley-Porter e a sobrinha, Joanna Crawford. O rapaz da vasta cabeleira era Emlyn Price e ele e Joanna pareciam estar descobrindo uma série de afinidades e aversões em comum, tais como opiniões categóricas sobre economia, arte, política e outros tópicos semelhantes.
As duas mexeriqueiras mais velhas foram
aos poucos se fundindo numa única identidade aos olhos de Miss Marple. Discutiam alegremente suas artrites, reumatismos, dietas, médicos, e medicamentos receitados e patenteados, trocando idéias a respeito de antigos tratamentos caseiros que tinham dado certo quando tudo já parecia perdido. E as várias excursões que haviam feito pela Europa; os hotéis, as agências de turismo; e, finalmente, a comarca de Somerset, onde Miss Lumley e Miss Bentham moravam, e a dificuldade de encontrar um jardineiro que prestasse era simplesmente inacreditável.
As duas senhoras já maduras que
viajavam juntas chamavam-se Miss Cooke e Miss Barrow. Miss Marple ainda continuava com a leve sensação de que uma delas, a loura, Miss Cooke, parecia-lhe familiar, mas não podia se lembrar onde a tinha visto antes. Vai ver, era mera impressão. Talvez fosse também apenas impressão, mas o inegável é que Miss Barrow e Miss Cooke procuravam evitá-la. Dir-se-iam meio ansiosas para se afastarem toda vez que ela se aproximava. Isso, naturalmente, podia ser pura imaginação sua.
Quinze pessoas, das quais pelo menos
uma deveria, de certo modo, interessar. Naquela noite Miss Marple mencionou displicentemente o nome de Mr. Rafiel na conversa para ver se alguém demonstrava qualquer reação, mas foi inútil.
A bonita sessentona ficou identificada
como Miss Elizabeth Temple, diretora aposentada de um famoso colégio feminino. Miss Marple achou que ninguém tinha cara de criminoso, com a possível exceção de Mr. Caspar, mas isso devido, provavelmente, a um preconceito seu contra estrangeiros. O rapaz magro chamava-se Richard Jameson e era arquiteto.
— Talvez amanhã eu tenha mais sorte —
disse consigo mesma.