Nêmesis

Agatha Christie · Capítulo 13 de 23

Páginas do PDF

Nêmesis

Na manhã Seguinte serviram o chá de

XI

ACIDENTE

Na manhã Seguinte serviram o chá de

Miss Marple às sete e meia, para lhe dar bastante tempo de levantar e guardar na mala as poucas coisas que trouxera. Tinha recém-terminado de fechá-la quando ouviu uma batida meio apressada na porta e Clotilde entrou, com ar de contrariedade.

— Ah, meu Deus. Miss Marple, está aí um

rapaz chamado Emlyn Price que quer falar com a senhora. Ele também faz parte da excursão e mandaram que viesse cá à sua procura.

— Ah, sim, já sei de quem se trata. Bem

jovem, não é?

— É. Todo moderno, cabeludo e tudo

mais, mas ele veio de fato para... olhe, para lhe trazer uma má notícia. Lamento dizer, mas houve um acidente.

— Um acidente? — Miss Marple arregalou

os olhos. — Com o ônibus, quer dizer? Um acidente na estrada? Alguém se feriu?

— Não, não foi com o ônibus. Com o

ônibus não houve nada. Foi durante a excursão de ontem à tarde. Estava ventando muito, talvez a senhora se lembre, apesar de que eu acho que isso nada teve que ver com a história. O grupo se dispersou um pouco, me parece. Há uma trilha especial, mas a gente também pode subir e ir pelos morros. De um jeito ou de outro, vai dar no monumento aos mortos da guerra, lá no alto de Bonaventure... que é para onde todos se dirigiam. O pessoal ficou meio separado e eu tenho mesmo a impressão de que não havia ninguém servindo propriamente de guia ou cuidando deles como seria de esperar. As pessoas nem sempre têm o passo firme e a encosta que dá para o desfiladeiro é muito íngreme. Houve um grande desmoronamento de pedras ou rochas que caíram com estrondo morro abaixo e derrubaram alguém que ia passando pela trilha.

— Ah, meu Deus! — exclamou Miss

Marple — Que horror. Que verdadeiro horror. Quem foi que saiu ferido?

— Uma tal de Miss Temple ou Tenderdon,

se não me engano.

— Elizabeth Temple — disse Miss Marple.

— Ah, meu . Deus, mas que horror. Conversei muito com ela. Ela vinha do meu lado no ônibus. Me parece que foi professora de um colégio, muito afamado, por sinal.

— Lógico — lembrou-se Clotilde, —

conheço-a perfeitamente. Era diretora do Fallowfield, um colégio que tem grande prestígio. Nem sabia que ela estava nessa excursão. Aposentou-se há uns dois anos, acho eu, e agora existe lá uma nova diretora mais moça, com idéias progressistas bastante avançadas. Mas Miss Temple não é propriamente velha, deve andar beirando os sessenta, e é muito ativa, gosta de subir morros, caminhar, e tudo mais. Mas que pena, realmente. Tomara que não tenha se ferido muito. Ainda não soube de nenhum detalhe.

— Já estou com tudo pronto — disse Miss

Marple, trancando o fecho da mala. — Vou descer imediatamente para falar com Mr. Price.

Clotilde pegou a mala.

— Deixe que eu levo. Posso carregar isto

perfeitamente. Desça junto comigo, e tome cuidado com os degraus.

Miss Marple desceu. Emlyn Price estava à

sua espera. Tinha os cabelos mais despenteados do que nunca e usava um magnífico conjunto de botas de fantasia, jaqueta de couro e calças de um verde vivo, esmeraldino.

— Que desgraça — disse, apertando a

mão de Miss Marple. — Resolvi vir pessoalmente para... bem, para lhe avisar sobre o acidente. Suponho que Miss Bradbury-Scott já tenha lhe contado. Foi com Miss Temple. Lembra-se? A tal do colégio. Não sei direito o que ela andava fazendo ou como que aconteceu, mas umas pedras, ou melhor, umas rochas, rolaram lá de cima. Aquilo é um encosta meio abrupta e ela desmaiou com o choque e tiveram que levá-la para o hospital, ontem à noite. Tenho a impressão de que o estado dela é bem grave. Seja como for, a excursão de hoje foi cancelada e vamos passar a noite aqui.

— Ah meu Deus! — exclamou Miss

Marple. — Que tristeza. Estou desolada.

— Acho que resolveram não ir embora

hoje porque de um jeito ou de outro vão ter que esperar pra ver o que os médicos dizem. De modo que pretendemos ficar mais uma noite aqui, lá no Javali Dourado, e modificar um pouco a excursão. Assim talvez se desista por completo de ir até Grangmering, que era o itinerário de amanhã, e que de fato não apresenta grande interesse, segundo consta. Mrs. Sandbourne foi cedo ao hospital para ver como vão as coisas. Deve se encontrar conosco Já no Javali Dourado às onze horas, para tomar café. Julguei que a senhora talvez quisesse vir junto, para saber das últimas notícias.

— Claro que vou — disse Miss Marple. —

Evidente. Agora mesmo.

Virou-se para se despedir de Clotilde e de

Mrs. Glynne, que estava ao lado da irmã.

— Nem sei como lhes agradecer — disse.

— Foram tão gentis comigo e tive o maior prazer em passar estas duas noites aqui. Sinto-me tão bem agora. Pena que acontecesse uma coisa dessas.

— Se quiser ficar mais uma noite — disse

Mrs. Glynne, — estou certa de que... — Olhou para Clotilde.

Miss Marple, que era capaz de olhar pelo

rabo do olho com incrível rapidez, teve a impressão de que Clotilde havia feito uma cara meio contrariada, quase sacudindo a cabeça, embora com um movimento tão leve que se diria imperceptível. Mas, na opinião de Miss Marple, dissuadindo a sugestão feita por Mrs. Glynne.

— ...apesar de que eu, naturalmente,

imagino que a senhora gostaria de estar perto de seus companheiros de viagem e...

— Pois é, eu também acho que seria

melhor — concordou Miss Marple. — Aí então ficarei sabendo quais são os planos e o que tenho de fazer, e talvez até ajudar em alguma coisa. Nunca se sabe. Portanto, mais uma vez, obrigada. Suponho que não seja difícil conseguir quarto no Javali Dourado. — Olhou para Emlyn, que logo tranqüilizou-a:

— Não tem problema. Hoje desocupou

uma porção. Há muito lugar. Me parece que Mrs. Sandbourne reservou acomodações para toda a excursão pernoitar lá, e amanhã a gente vê... bem, a gente vê como é que vai ficar.

Repetiram-se as despedidas e os

agradecimentos. Emlyn Price pegou as coisas de Miss Marple e saiu caminhando com passo decidido.

— É logo dobrando a esquina e depois se

toma a primeira rua à direita — explicou.

— Sim, tenho a impressão de que ontem

passei por lá. Coitada da Miss Temple. Tomara que os ferimentos não sejam graves.

— Olhe, eu acho que são — disse Emlyn

Price. — Claro, a gente sabe o que os médicos e esse pessoal dos hospitais sempre dizem: “as esperanças não estão perdidas”. Aqui não tem hospital... tiveram de levá-la a Carristown, que fica a uns dez quilômetros daqui. Em todo caso Mrs. Sandbourne já estará de volta com notícias quando a senhora se achar instalada no hotel.

Chegaram lá e encontraram a excursão

reunida na sala do café, que já estava sendo servido, com bolos e massas folhadas. O casal Butler tinha tomado a palavra.

— Ah, mas que horror, que verdadeiro

horror, acontecer uma coisa dessas — dizia Mrs. Butler. — Simplesmente incrível, não é? Logo agora, que todo mundo estava tão contente e aproveitando tanto. Coitada da Miss Temple. E eu que sempre pensei que ela tivesse um passo tão firme. Mas está aí, viram, quem diria, não é, Henry?

— Pois é — concordou o marido. — Pois é

Estou até pensando... nós dispomos de pouquíssimo tempo, sabem?... se não seria melhor... bem, desistir dessa excursão desde já. Não continuar com ela. Me parece quase certo que vai haver dificuldade para a gente sair daqui até que a situação se normalize. Se isso fosse... bem... quero dizer, se o caso é tão grave que possa ser fatal, talvez... bem... ora, talvez tenham que abrir um inquérito ou algo semelhante.

— Ah, Henry, nem fale numa coisa

dessas!

— Tenho certeza — disse Miss Cooke, —

que o senhor está sendo um pouco pessimista demais, Mr. Butler. A situação não pode ser tão grave assim.

— Mas sim — fez-se ouvir a voz

estrangeira de Mr. Caspar, — é grave, sim. Eu ouvi ontem quando Mrs. Sandbourne falava com o médico pelo telefone. É muito, muito grave. Eles disseram que ela levou um choque muito... muito grande. Vão mandar um especialista examiná-la pra ver se dá pra operar ou não. Sim... a situação é gravíssima.

— Puxa! — exclamou Miss Lumley. — Já

que é assim, talvez fosse melhor a gente voltar para casa, Mildred. Acho que vou me informar sobre o horário dos trens. — Virou-se para Mrs. Butler. — E que eu pedi para o vizinho cuidar dos meus gatos, e se me atrasar um dia ou dois é capaz de criar problemas para todo mundo.

— Bem, não adianta nada ficar se

preocupando à toa — declarou Mrs. Riseley-Porter, com aquela voz grossa, autoritária. — Joanna, quer me fazer o favor de jogar esse bolo na cesta de papel? Está simplesmente intragável. Que geléia mais detestável. Mas não quero deixá-lo no meu prato. São capazes de não gostar.

Joanna fez o bolo sumir.

— Será que fica mal se o Emlyn e eu

formos dar uma volta? — perguntou. — Quer dizer, pra ver um pouco como é este lugar. Também acho que não adianta nada a gente ficar sentada aqui, falando em tristezas, não é? Afinal, que se pode fazer?

— Me parece uma boa idéia — disse Miss

Cooke.

— Vocês devem ir, sim — insistiu Miss

Barrow, antes que Mrs. Riseley-Porter tivesse tempo de abrir a boca.

Miss Cooke e Miss Barrow entreolharam-

se e soltaram um suspiro, sacudindo a cabeça.

— A relva estava muito escorregadia —

disse Miss Barrow. — Eu até resvalei umas duas vezes, sabem, naquele pequeno trecho do gramado.

— E as pedras também — lembrou Miss

Cooke. — Caiu uma verdadeira chuva de pedregulhos bem quando eu ia dobrar uma curva na trilha. Uma até me bateu no ombro com bastante força.

Terminados o chá, o café, os biscoitos e

os bolos, todo mundo ficou meio sem assunto e contrafeito. Quando acontece uma catástrofe é muito difícil saber a maneira adequada de enfrentá-la. Cada um tinha dado a sua opinião, manifestando surpresa e pesar. Agora esperavam notícias e ao mesmo tempo sentiam vontade de sair para dar um passeio, à procura de alguma coisa que os ocupasse até o fim da manhã. O almoço só seria servido à uma hora e ninguém se animava a continuar sentado pelos cantos, a repetir os mesmos comentários.

Miss Cooke e Miss Barrow levantaram-se

de uma só vez e explicaram que precisavam fazer umas compras. E que também queriam comprar selos no correio.

— Pretendo enviar uns postais. E me

informar sobre o porte de uma carta para a China — disse Miss Barrow.

— E eu tenho que procurar umas lãs —

disse Miss Cooke. — Inclusive, me pareceu que havia uma construção bem interessante do outro lado da praça do mercado.

— Acho que todo mundo devia sair um

pouco — disse Miss Barrow.

O Coronel Walker e a esposa também se levantaram, insistindo para que Mr. e Mrs. Butler fizessem o mesmo, para irem ver o que havia para ser visto. Mrs. Butler estava interessada em encontrar uma loja de antiguidades.

— Só que não me refiro propriamente a

uma verdadeira loja de antigüidades. Seria mais o que vocês chamam de loja de quinquilharias. Às vezes se encontram coisas realmente interessantes.

Todos se apressaram em sair. Emlyn

Price já havia se aproximado disfarçadamente da porta, desaparecendo atrás de Joanna, sem se dar ao trabalho de inventar uma desculpa. Mrs. Riseley-Porter, depois de um esforço tardio para chamar a sobrinha de volta, disse que julgava que pelo menos a sala de estar fosse um lugar mais agradável para sentar. Miss Lumley concordou — e Mr. Caspar seguiu as duas com ar de camarista estrangeiro.

O Professor Wanstead e Miss Marple não

se levantaram.

— Tenho a impressão — disse o

professor, dirigindo-se a Miss Marple, — de que seria agradável ir sentar do lado de fora do hotel. Há um pequeno terraço que dá para a rua. A senhora não gostaria?

Miss Marple agradeceu-lhe e pôs-se em

pé. Até então, mal trocara uma palavra com o Professor Wanstead. Ele tinha trazido uma pilha de livros de aspecto erudito, um dos quais estava sempre consultando, e mesmo no ônibus não parava de ler.

— Mas talvez a senhora também queira

fazer compras — lembrou. — Eu, por mim, prefiro esperar sossegado num canto qualquer até que Mrs. Sandbourne volte. Acho importante que se fique sabendo exatamente o que temos pela frente.

— Quanto a isso, concordo plenamente

com o senhor — disse Miss Marple. — Ontem já andei caminhando bastante aí pelo povoado e não sinto a mínima vontade de sair hoje de novo. Prefiro esperar aqui para ver se não há nada que eu possa fazer para ajudar. Não que eu creia que haja, mas quem sabe lá?

Cruzaram juntos a porta do hotel e

rumaram para o recanto onde havia um jardinzinho quadrado com um passeio de lajes em plano superior, pegado à parede do hotel, e no qual estava instalada uma série de cadeiras de vime dos mais variados formatos. No momento não havia ninguém ali e os dois se sentaram. Miss Marple fitou pensativa o homem que se achava à sua frente: fisionomia sulcada de rugas, sobrancelhas cerradas e volumosa cabeleira grisalha. Quando caminhava, encolhia as costas de leve. Ele tem uma cara interessante, decidiu Miss Marple. A voz era seca e cáustica, de pessoa que exerce alguma profissão, pareceu-lhe.

— Não estou enganado, estou? —

perguntou o Professor Wanstead. — O seu nome é Miss Jane Marple, não é?

— É, sim.

Ficou meio surpresa, embora sem

nenhum motivo especial. Não fazia tanto tempo assim que viajavam juntos, portanto era natural que o processo de identificações fosse mais lento. E depois, ela havia passado as duas últimas noites longe do resto dos participantes da excursão, de modo que não tinha por que se admirar.

— Foi o que pensei — disse o Professor

Wanstead, — pela descrição que fizeram da senhora.

— Uma descrição minha? — estranhou

Miss Marple, novamente surpresa.

— Sim, eu tive uma descrição da

senhora... — Houve uma pequena pausa. A voz, propriamente, não baixou, mas diminuiu de intensidade, embora ainda se pudesse ouvi-la com toda a facilidade. — ... feita por Mr. Rafiel.

— Ah! — exclamou Miss Marple,

pasmada. — Por Mr. Rafiel!

— Está admirada?

— Bem, sim, confesso que estou. — Não vejo razão.

— É que eu não esperava... — começou

Miss Marple e de repente parou.

O Professor Wanstead não disse nada,

Ficou apenas sentado, olhando-a fixamente. Daqui a pouco, pensou Miss Marple consigo mesma, ele vai me perguntar: — “Quais são exatamente os sintomas, minha cara senhora? Sente dificuldade de engolir? Anda sofrendo de insônia? Tudo bem com a sua digestão?” Agora tinha quase certeza de que ele era médico.

— Quando foi que ele me descreveu para

o senhor? Isso deve ter sido há...

— A senhora ia dizer há algum tempo

atrás... há algumas semanas. Antes da morte dele... e de fato foi. Ele me contou que a senhora faria esta excursão.

— E ele sabia que o senhor também... que

o senhor ia fazer o mesmo.

— Sim, de certo modo — confirmou o Professor Wanstead. — Ele disse — continuou — que a senhora viajaria neste ônibus e que ele de fato havia tomado todas as providências para que a senhora fizesse isso.

— Foi muito amável da parte dele —

retrucou Miss Marple. — Muito amável mesmo. Fiquei surpresa quando soube que ele tinha me incluído na viagem. Um prazer desses, que de outra forma não me seria possível.

— Sim — disse o Professor Wanstead. —

A senhora se expressou muito bem.

E sacudiu a cabeça, como que aplaudindo

a boa atuação de um discípulo.

— É uma pena que tivesse de ser

interrompida desse jeito — disse Miss Marple. — Uma pena mesmo. Quando tenho certeza que todo mundo estava aproveitando tanto.

— Pois é — concordou o Professor

Wanstead. — Uma verdadeira pena. E a senhora acha que foi imprevista ou não?

— Ora essa, Professor Wanstead. O que é

que o senhor quer dizer com isso?

Os lábios dele se franziram de leve num

sorriso, enquanto enfrentava o seu olhar de desafio.

— Mr. Rafiel — respondeu — me falou

muito a seu respeito, Miss Marple. Ele me aconselhou a fazer um excursão em sua companhia. A certa altura, seria quase inevitável que travássemos conhecimento, uma vez que os participantes de uma excursão sempre acabam se conhecendo entre si, apesar de que geralmente levam um ou dois dias para que se separem, por assim dizer, em pequenos grupos com certa afinidade de gostos ou interesses. E, além disso, ele me aconselhou a, digamos, cuidar da senhora.

— Cuidar de mim? — retrucou Miss

Marple, não dissimulando seu descontentamento. — E por que motivo?

— Acho que por motivos de proteção. Ele

queria estar absolutamente seguro de que não lhe aconteceria nada.

— Que não me aconteceria nada? Mas o

que é que poderia me acontecer, Santo Deus?

— No mínimo o que aconteceu com Miss

Elizabeth Temple — respondeu o Professor Wanstead.

Joanna Crawford apareceu no canto do

hotel, sobraçando uma cesta de compras. Passou por eles, acenou de leve com a cabeça, olhou-os com certa curiosidade e desceu até a rua. O Professor Wanstead só tornou a falar depois que ela sumiu de vista.

— Boa moça — comentou, — pelo menos

na minha opinião. Atualmente se resigna aos caprichos de uma tia tirana, mas não há dúvida de que em breve chegará à idade da rebeldia.

— O que foi que o senhor quis insinuar

com o que disse ainda há pouco? — insistiu Miss Marple, de momento desinteressada na possível rebeldia de Joanna.

— Eis aí uma pergunta que talvez, devido

ao que aconteceu, tenhamos que discutir.

— Por causa do acidente, quer dizer? — Sim. Se é que foi acidente. — O senhor acha que não foi? — Bem, sempre é uma possibilidade que

não convém descartar. Só isso.

— Eu, evidentemente, nada sei a respeito

— disse Miss Marple, hesitante.

— Pois é. A senhora não esteve presente

no local do acidente. Estava... como direi... talvez montando guarda noutro lugar?

Miss Marple ficou um instante em

silêncio. Olhou umas duas vezes para o Professor Wanstead e finalmente respondeu:

— Creio que não estou entendendo direito

o que o senhor quer dizer.

— A senhora está sendo precavida. Com toda a razão.

— É um hábito meu — disse Miss Marple. — O de ser precavida?

— Eu não diria exatamente isso, mas

sempre faço questão de me mostrar pronta a duvidar de tudo o que me dizem.

— Pois é, e nisso tem toda a razão. A

senhora nada sabe a meu respeito. Conhece o meu nome de uma lista de passageiros de uma excursão muito agradável para visitar castelos e casas históricas e jardins magníficos. Provavelmente são os jardins que lhe interessam mais.

— Provavelmente.

— Há outras pessoas aqui que também se

interessam por jardins.

— Ou fingem se interessar. — Ah — fez o Professor Wanstead. — A

senhora também notou.

— E depois:

— Bem, quanto a mim, eu devia, pelo

menos no início, observar a senhora, cuidar do que estava fazendo, ficar à mão, caso surgisse qualquer possibilidade de... bem, usemos uma expressão aproximada... de jogo sujo para o seu lado. Mas agora as coisas mudaram um pouco de figura. A senhora tem que decidir se eu sou seu inimigo ou aliado.

— Talvez tenha razão — disse Miss

Marple. — O senhor se explicou com muita clareza, mas ainda não me deu nenhuma informação sobre si mesmo que me permitisse julgá-lo. Suponho que fosse amigo do falecido Mr. Rafiel, não?

— Não — respondeu o Professor

Wanstead, — eu não fui amigo dele. Encontrei-o apenas duas vezes. A primeira num comitê de hospital, a segunda noutra ocasião pública qualquer. Sabia quem ele era. E calculo que ele também soubesse quem eu era. Se lhe disser, Miss Marple, que sou um homem de certa projeção no meu ramo de trabalho, a senhora talvez me considere um sujeito incrivelmente presunçoso.

— Acho que não — retrucou Miss Marple.

— Nesse caso eu diria que no mínimo está dizendo a verdade. Tenho a impressão de que o senhor é médico.

— Ah! A senhora é perspicaz, Miss

Marple. Sim, extremamente perspicaz. De fato, sou formado em medicina, mas dediquei-me a uma especialização. Sou patologista e psicólogo. Não costumo trazer credenciais no bolso. A senhora provavelmente terá que aceitar minha palavra até certo ponto, embora eu possa lhe mostrar cartas dirigidas a mim e possivelmente documentos oficiais que terminem de convencê-la. Eu me dedico sobretudo a trabalhos de especialização relacionados com jurisprudência médica. Traduzindo em linguagem perfeitamente cotidiana, interesso-me pelos diferentes tipos de cérebro criminoso. Há vários anos que venho estudando isso. Escrevi livros sobre o assunto, alguns violentamente contestados, outros que conseguiram adeptos para as minhas idéias. Hoje em dia já não faço mais nenhum trabalho muito extenuante. Passo a maior parte do tempo redigindo notas sobre o assunto, frisando certos pontos que me chamaram a atenção. De vez em quando encontro coisas que me parecem curiosas. Coisas que quero analisar mais a fundo. Receio que isso esteja lhe causando bastante tédio.

— Absolutamente — protestou Miss

Marple. — Pelo que o senhor acaba de me dizer, espero que talvez possa me explicar certas coisas que Mr. Rafiel não achou que eu tivesse necessidade de saber. Ele me pediu para resolver um determinado assunto, mas não me deu nenhuma informação útil que me permitisse o trabalho. Deixou-me a liberdade de escolher e de agir, por assim dizer, completamente às cegas. Me parece extremamente tolo da parte dele tratar a questão dessa maneira.

— Mas a senhora aceitou o encargo? — Aceitei. Serei totalmente franca com o

senhor. Tive um incentivo financeiro.

— Isso pesou na sua decisão? Miss Marple ficou um instante calada e

depois respondeu devagar:

— Talvez não acredite, mas a minha

resposta à sua pergunta é: “Nem tanto.”

— Não me admiro. Mas despertou a sua

curiosidade, não? É isso que está tentando me dizer, não é?

— É. Despertou, sim. Não conheci Mr.

Rafiel direito; foi um conhecimento apenas casual, mas que durou certo tempo... algumas semanas, mesmo... nas Antilhas. Vejo que o senhor está mais ou menos informado a respeito.

— Sei que foi lá que Mr. Rafiel conheceu a

senhora e que os dois... digamos... colaboraram mutuamente.

Miss Marple olhou-o, meio em dúvida. — Ah — perguntou, — ele lhe disse isso, é? — E sacudiu a cabeça.

— Disse, sim — respondeu o Professor

Wanstead. — E que a senhora tinha um faro notável para questões criminosas.

Miss Marple arqueou as sobrancelhas ao

olhar para ele.

— E imagino que isso lhe pareça

totalmente implausível — comentou. — O senhor está admirado.

— Custo muito a me admirar das coisas

que acontecem — disse o Professor Wanstead. — Mr. Rafiel era um homem extremamente sagaz e astucioso. Sabia julgar os outros. E achava que a senhora também sabia.

— Não me considero boa julgadora dos

outros — retrucou Miss Marple. — Diria apenas que certas pessoas me fazem lembrar outras que já conheci, e que por isso sou capaz de pressupor uma certa semelhança na maneira com que agiriam. Se o senhor pensa que sei perfeitamente o que estou fazendo aqui, engana-se.

— Mais por obra do acaso do que de

algum plano — disse o Professor Wanstead, — parece que ficamos parados aqui num lugar especialmente adequado à discussão de certos assuntos. Ao que tudo indica, ninguém nos espreita, nem pode nos ouvir com facilidade; não estamos perto de nenhuma porta ou janela e não há nenhuma sacada aí em cima. Em suma, podemos conversar.

— Nada me agradaria mais — disse Miss

Marple. — Torno a frisar que ignoro por completo o que estou fazendo ou esperam que eu faça. Não sei por que Mr. Rafiel quis que fosse assim.

— Acho que posso imaginar. Ele queria

que a senhora entrasse em contato com uma determinada série de fatos, de ocorrências, sem nenhuma opinião preconcebida.

— Ah, mas então quer dizer que o senhor

também não vai me explicar nada? — Miss Marple parecia irritada. — Francamente! — exclamou, — tudo tem seus limites.

— Sim — disse o Professor Wanstead. De

repente sorriu. — Concordo. Temos que expandir alguns desses limites. Eu vou lhe contar certos fatos que tornarão as coisas bem mais claras para a senhora. Que, por sua vez, talvez possa me explicar outros.

— Duvido muito — retrucou Miss Marple.

— Uma ou duas indicações meio esquisitas, talvez, mas indicações não são fatos.

— Portanto... — começou o Professor Wanstead, e fez uma pausa.

— Pelo amor de Deus, conte logo — pediu

Miss Marple.