Nêmesis
Capítulo 2
Miss Marple estava calmamente sentada,
aguardando o Professor Wanstead, que chegou na hora combinada.
— Achei que a senhora teria talvez
interesse em conhecer a igreja de que lhe falei. E o lugar também é muito bonito — explicou ele. — Não há motivo realmente para se deixar de aproveitar a oportunidade de apreciar os pontos de atração locais.
— O senhor sem dúvida é extremamente
amável — disse Miss Marple.
E olhou-o com aquele seu ar meio
especulativo.
— Extremamente amável — repetiu. — Só
que me parece... bem, não quero dizer insensível, mas, enfim, o senhor me entende.
— Minha cara senhora, Miss Temple não
é uma velha amiga sua ou coisa que o valha. Por mais lamentável que tenha sido esse acidente...
— Bem — tornou a dizer Miss Marple, —
é extremamente amável da sua parte.
O Professor Wanstead abriu então a porta
do carro e Miss Marple entrou. Supunha que fosse alugado. Uma idéia amável, essa de levar uma senhora idosa a visitar um dos pontos de atração das cercanias. Ele poderia ter escolhido alguém mais jovem, mais interessante e certamente mais atraente. Miss Marple olhou-o, pensativa, umas duas vezes enquanto rodavam através do povoado. Ele não estava olhando para ela, mas para o lado de fora da sua janela.
Depois que deixaram as casas para trás e
tomaram uma estrada rústica que contornava uma encosta, virou a cabeça e disse: .
— Não estamos indo para nenhuma
igreja, sabe?
— Ah — fez Miss Marple, — foi
justamente o que pensei.
— A senhora tem o pensamento muito
rápido.
— Posso perguntar-lhe aonde vamos? — A um hospital, em Carristown. — Ah, sim, foi para onde levaram Miss
Temple, não é?
Era uma pergunta, apesar de totalmente
dispensável.
— É — respondeu ele. — Mrs.
Sandbourne esteve lá e me trouxe uma carta dos diretores do hospital. Falei com eles ainda há pouco pelo telefone.
— Ela está passando bem? — Não. Não está passando nada bem. — Ah. Mas, pelo menos, há esperanças?
— indagou Miss Marple.
— O restabelecimento dela é muito
problemático, mas não há nada que se possa fazer. É bem capaz de nunca mais recobrar os sentidos. Mas talvez tenha alguns momentos de lucidez.
— E o senhor está me levando lá? Por
quê? Não sou amiga dela, sabe? Conheci-a nesta viagem.
— Sim, eu sei. Estou levando a senhora lá
porque, num dos intervalos de lucidez que teve, ela perguntou pela senhora.
— Ah! — exclamou Miss Marple. — Por
que será que ela foi se lembrar de mim? Será que pensou que eu... que eu poderia de alguma forma lhe ser útil, ou fazer qualquer coisa? Ela é uma mulher perspicaz. Em certo sentido, uma grande mulher, sabe? Como diretora do Fallowfield, ocupava uma posição de destaque no mundo didático.
— Me parece que é o melhor colégio
feminino que há por aí, não é?
— É, sim. Ela foi uma grande
personalidade. E uma professora de muita competência. A especialidade dela era a matemática, mas podia lecionar tudo... uma educadora, na melhor acepção da palavra. Interessava-se pelo futuro das alunas, procurando ver para que serviam, e como encorajá-las. Ah, uma porção de outras coisas. Vai ser uma pena, uma verdadeira tristeza, se ela morrer — disse Miss Marple. — Ficará parecendo um desperdício tão grande de vida. Embora tenha se aposentado do cargo de diretora, ainda exercia muita influência. Esse acidente... — Estacou. — Mas quem sabe o senhor não quer discutir o acidente?
— Creio que seria melhor que
discutíssemos. Uma pedra enorme que despenca barranco abaixo. Não é a primeira vez que isso acontece por lá, mas em todo caso é raro. Seja como for, vieram me procurar para falar sobre isso — disse o Professor Wanstead.
— Vieram procurá-lo para falar sobre o
acidente? Quem?
— Os dois jovens. Joanna Crawford e
Emlyn Price.
— E o que foi que eles disseram? — Joanna me disse que teve a impressão
de que havia alguém no alto do morro. Bem no topo. Ela e Emlyn tinham abandonado a trilha, tomando um atalho íngreme que ia sair no outro lado. Ao dobrarem uma curva ela viu nitidamente, recortada contra o céu, o vulto de um homem ou de uma mulher que tentava deslocar uma pedra enorme para que fosse cair lá embaixo. A pedra começou a oscilar... e finalmente se pôs a rolar, a princípio devagar e depois ganhando velocidade pelo barranco abaixo. Miss Temple vinha vindo pelo caminho principal e tinha chegado a uma altura que ficava bem no ponto que seria atingido pela pedra. Se a coisa tivesse sido feita de propósito, é claro que talvez não desse certo. Seria capaz de não pegar nela... mas pegou. Agora, se se tratava de atentado deliberado para acertar na pessoa que estivesse passando por baixo, não há dúvida de que não podia ter resultado melhor.
— Era homem ou mulher que eles viram?
— perguntou Miss Marple.
— Infelizmente, Joanna Crawford não
soube dizer. Seja lá quem fosse, usava calça e tinha posto um pulôver espalhafatoso de gola roulé de xadrez vermelho e preto. O vulto se virou e sumiu quase que imediatamente. Ela está inclinada a crer que fosse homem, mas não tem certeza.
— E ela acha, ou o senhor acha, que foi
um atentado deliberado contra a vida de Miss Temple?
— Quanto mais reflete sobre o caso, mais
ela acha que foi exatamente isso que aconteceu. O rapaz concorda.
— O senhor não tem nenhuma idéia de
quem possa ter sido?
— Nenhuma, absolutamente. E eles
tampouco. Talvez fosse um de nossos companheiros de viagem, alguém que tivesse saído para dar um passeio naquela tarde. Ou então algum desconhecido que soubesse que o ônibus estava fazendo escala aqui e escolhesse esse lugar para atacar um dos excursionistas. Algum jovem adepto da violência gratuita. Ou inimigo, talvez.
— Fica muito melodramático se a gente
disser “um inimigo secreto”, não fica?
— Fica, sim. Quem havia de querer matar
uma diretora de colégio aposentada e respeitada? Eis aí uma pergunta que precisa ser respondida. A nossa esperança, embora remota, é que a própria Miss Temple seja capaz de respondê-la. É possível que ela tenha reconhecido o vulto lá no alto ou, ainda mais plausível, que saiba de alguém que quisesse prejudicá-la por algum motivo qualquer.
— Mesmo assim, me parece improvável. — Concordo com a senhora — disse o
Professor Wanstead. — Ela parece uma pessoa totalmente improvável de ser a vítima ideal de um ataque, mas, pensando bem, uma diretora de colégio conhece um bocado de gente. Um bocado de gente, digamos assim, que já passou pelas mãos dela.
— Um bocado de moças, o senhor quer
dizer.
— Sim. Sim, é isso mesmo que eu quero
dizer. Tanto moças como as respectivas famílias. Uma diretora de colégio precisa estar ciente de uma série de coisas. Namoros, por exemplo, que as alunas talvez tenham, mas que os pais ignorem. Isso acontece, sabe? E com muita freqüência. Sobretudo nos últimos dez ou vinte anos. Dizem que as moças hoje em dia amadurecem mais cedo. Fisicamente está certo, embora no sentido profundo da palavra amadureçam mais tarde. Elas permanecem infantis por mais tempo: nas roupas que gostam de usar, nos cabelos soltos. Até suas mini-saias indicam uma obsessão infantil. As camisolas baby doll, as peças íntimas... tudo coisa de criança. Elas não querem ficar adultas... para não terem de aceitar o nosso tipo de responsabilidade. E no entanto, como toda criança, querem ser consideradas como gente grande, livres para fazerem coisas que julgam próprias de gente grande. O que às vezes termina em tragédia, com todas as suas conseqüências.
— Refere-se a algum caso especial? — Não. Não, realmente não. Estou apenas
pensando... bem, digamos, deixando que as hipóteses me passem pela cabeça. Não posso acreditar que Elizabeth Temple tenha algum inimigo pessoal. Um inimigo suficientemente cruel para não perder a oportunidade de matá-la. O que é que a senhora acha... — olhou para Miss Marple, — ... tem alguma sugestão a fazer?
— Alguma hipótese? Bem, eu tenho a
impressão de que sei ou imagino o que o senhor está sugerindo. O senhor acha que Miss Temple sabia de alguma coisa, de algum fato, que poderia ser inconveniente ou até perigoso se fosse divulgado.
— Sim, a minha sensação é exatamente
essa.
— Nesse caso — continuou Miss Marple,
— tudo leva a crer que existe alguém no ônibus que reconheceu Miss Temple ou sabia quem ela era, mas que talvez, com a passagem dos anos, não fosse mais lembrado nem reconhecido por ela. Parece que isso nos traz de volta aos nossos companheiros de viagem, não é? — Fez uma pausa. — O tal pulôver que falou... de xadrez vermelho e preto, o senhor disse?
— Ah, é. O pulôver... — Olhou-a com
curiosidade. — Que foi que lhe chamou atenção nele?
— O fato de ser digno de nota —
respondeu Miss Marple. — Pelo que pude deduzir de suas palavras, me pareceu muito marcante. A ponto de Joanna mencioná-lo especificamente.
— Sim. E o que é que isso lhe sugere? — Bandeiras desfraldadas — disse Miss
Marple, pensativa. — Uma coisa para ser vista, lembrada, notada, reconhecida.
— Sim. — O Professor Wanstead
incentivou-a com o olhar.
— Quando se descreve uma pessoa que a
gente viu, não de perto, mas de uma certa distância, a primeira coisa que se menciona é a roupa. Não o rosto, nem o modo de caminhar, as mãos ou os pés. Um gorro escarlate, uma capa roxa, uma jaqueta de couro extravagante, um pulôver de xadrez vivo, vermelho e preto. Algo facilmente identificável, de chamar atenção. Com o intuito de, ao tirar essa peça de vestuário, ao se ver livre dela, ao remetê-la pelo correio num embrulho a um endereço qualquer, digamos, a mais de cem quilômetros de distância, ou ao jogá-la numa lata de lixo na cidade, ou ao queimá-la, rasgá-la ou destruí-la, ela, ou ele, ser a única pessoa modesta e um tanto pobremente vestida que não desperte atenção nem suspeitas. O tal pulôver xadrez vermelho e preto deve ter sido escolhido de propósito. Para que fosse reconhecido de novo, embora na verdade jamais torne a ser visto no corpo daquela mesma pessoa.
— Uma dedução perfeitamente razoável
— disse o Professor Wanstead. — Como já lhe expliquei — continuou, — Fallowfield fica a pouca distância daqui. A uns vinte quilôme-tros, se não me engano. Portanto esta é a região de Elizabeth Temple, uma parte do mundo que ela conhece bem, onde moram pessoas que ela também deve conhecer.
— Sim. O que amplia as possibilidades —
disse Miss Marple. — Concordo com o senhor — continuou, depois de uma pausa, — que é mais provável que o agressor seja um homem. Aquela pedra, se foi jogada de propósito, acertou no alvo com muita exatidão. E a exatidão é uma qualidade mais masculina que feminina. Por outro lado, pode ter sido facilmente alguém do nosso ônibus, ou talvez das imediações, que visse Miss Temple na rua, e que tivesse sido ex-aluna dela no passado. Alguém que ela mesma não reconhecesse depois de um determinado período de tempo. Mas a moça ou mulher a identificou logo, porque um diretor ou uma diretora de colégio de mais de sessenta anos não muda muito do aspecto que tinha aos cinqüenta. É reconhecível. Uma mulher que reconhecesse sua ex-professora e estivesse ciente de que ela sabia de algo que a prejudicasse. Alguém que poderia, de certo modo, representar um perigo para ela. — Suspirou. — Eu mesma não conheço nada desta região aqui. O senhor tem algum conhecimento especial dela?
— Não — respondeu o Professor
Wanstead. — Não posso dizer que tenha. Mas sei de várias coisas que aconteceram por aqui, graças exclusivamente ao que a senhora me contou. Não fosse isso e a convivência que estamos tendo, estaria ainda mais confuso do que já estou.
“E a senhora, o que é mesmo que está
fazendo aqui? A senhora não sabe. No entanto, mandaram que viesse. Rafiel tomou todas as providências necessárias para que a senhora viesse, para que realizasse essa excursão de ônibus, para que nós dois nos encontrássemos. Houve outros lugares onde paramos ou por onde passamos, mas foi aqui que a senhora achou tudo já preparado para se hospedar durante alguns dias. Viu-se acolhida por velhas amigas dele que não recusariam nenhum pedido que ele lhes fizesse. Havia algum motivo para isso?
— Sim, para que eu ficasse sabendo de
certos fatos que tinha de saber — respondeu Miss Marple.
— Uma série de crimes ocorridos há
muitos anos atrás? — O Professor Wanstead fez cara de dúvida. — Isso não tem nada de raro. Pode-se dizer o mesmo de vários lugares na Inglaterra e no País de Gales. Primeiro encontram uma moça estuprada e assassinada. Depois outra, a pouca distância. Aí então algo meio parecido, a uns trinta quilômetros, mais ou menos. O mesmo tipo de morte.
“Duas moças desapareceram de Jocelyn
St. Mary: aquela de quem estivemos falando, cujo corpo foi encontrado seis meses mais tarde, a muitos quilômetros de distância, e que tinha sido vista pela última vez em companhia de Michael Rafiel...
— E a outra?
— Uma moça chamada Nora Broad. Não
do “tipo pacato, sem namorados”. Pelo jeito, namorado era o que não lhe faltava. Seu cadáver nunca foi encontrado. Mas será... um dia. Houve casos que levaram vinte anos para serem descobertos — disse Wanstead. Diminuiu a marcha: — Chegamos. Isto aqui é Carristown e ali está o hospital.
Conduzida pelo Professor Wanstead, Miss
Marple entrou. Ele já era evidentemente esperado. Fizeram-no passar a uma saleta, onde uma mulher levantou-se de uma escrivaninha.
— Ah, sim — disse, — o Professor
Wanstead. E... essa é... — Meio que hesitou.
— Miss Jane Marple — explicou o
Professor Wanstead. — Falei pelo telefone com a irmã Barker.
— Ah, sim. A irmã Barker disse que o acompanharia.
— Como vai a Miss Temple? — Continua na mesma, acho eu. Receio
que não haja melhoras a assinalar. — Levantou-se. — Vou levá-los à irmã Barker.
A irmã Barker, alta e magra, tinha voz
grave, autoritária, e olhos cinza escuro com que costumava fitar as pessoas, desviando-os em seguida, dando a impressão de inspecioná-las e emitir um julgamento sobre elas com rapidez de relâmpago.
— Não sei como a senhora pretende fazer
— disse o Professor Wanstead.
— Bem, é melhor que eu explique a Miss
Marple as providências que tomamos. Primeiro, devo esclarecer-lhe que a paciente, Miss Temple, ainda se acha em estado de coma, com raríssimos intervalos de lucidez. De vez em quando parece voltar a si, reconhecer o lugar onde está e ser capaz de dizer algumas palavras. Mas não há nada que se possa fazer para animá-la. Tem que se manter a máxima paciência. Espero que o Professor Wanstead já lhe tenha contado que num dos intervalos de lucidez ela pronunciou com toda a nitidez as palavras: “Miss Jane Marple”. E depois: “Eu quero falar com ela. Miss Jane Marple”. Em seguida tornou a perder os sentidos. O doutor achou aconselhável entrar em contato com os outros passageiros do ônibus. O Professor Wanstead veio nos ver e explicou vários assuntos, prometendo que iria trazer a senhora. Receio que a única coisa que podemos pedir-lhe que faça é ficar sentada no quarto particular onde Miss Temple está, e talvez prontificar-se a anotar todas as palavras que ela disser, se chegar a recobrar os sentidos. Tenho a impressão de que os prognósticos não são muito animadores. Para ser bem franca, o que na minha opinião é melhor, uma vez que a senhora não é parente próxima e é pouco provável que fique abalada com esta informação, o doutor acha que ela está piorando cada vez mais e que talvez morra sem recobrar os sentidos. Não há nada que se possa fazer para aliviar o choque. É importante que alguém escute o que ela diga e o doutor crê que seja aconselhável que ela não veja muita gente por perto, caso volte a si. Para que Miss Marple não se preocupe com a idéia de ficar lá sozinha, haverá uma enfermeira no quarto, embora de maneira discreta. Quer dizer, ela não será vista da cama e só abandonará o posto se for necessário. Permanecerá sentada num canto, protegida por um biombo. — E acrescentou: — Também colocamos lá um guarda, pronto para registrar tudo. O doutor acha aconselhável que Miss Temple também não o veja. A presença de uma única pessoa, que seja possivelmente a que ele espera ver, não lhe causará pânico, nem lhe fará perder a noção do que ela quer dizer à senhora. Suponho que não estejamos lhe pedindo uma coisa difícil demais, não é?
— Oh, não — respondeu Miss Marple. —
Estou perfeitamente preparada para atendê-los. Trouxe comigo uma pequena agenda e uma caneta esferográfica que não deixarei à vista. Sou capaz de guardar coisas de cor por um breve período de tempo, de modo que não preciso revelar que estou anotando flagrante-mente o que ela disser. Podem confiar na minha memória e não sou surda... pelo menos no verdadeiro sentido da palavra. Acho que o meu ouvido já não é mais o que foi, mas se eu ficar sentada perto da cama, creio que conseguirei escutar com a maior facilidade tudo o que falar, ainda que seja em murmúrio. Estou acostumada com gente doente. Já tive de lidar com uma porção no meu tempo.
O olhar de relâmpago da irmã Barker tornou a avaliar Miss Marple. Desta vez uma leve inclinação da cabeça demonstrou aprovação.
— É muita gentileza de sua parte —
disse, — e estou certa de que contamos com a senhora para qualquer auxílio que possa nos prestar. Se o Professor Wanstead quiser aguardar na sala de espera do andar térreo, nós o chamaremos no momento que for necessário. E agora, Miss Marple, queira fazer o favor de me acompanhar.
Miss Marple seguiu a irmã por um
corredor até entrarem num pequeno quarto de solteiro bem mobiliado. Ali, na cama, na penumbra formada pelas venezianas entrecerradas, achava-se Elizabeth Temple, deitada como uma estátua, apesar de não dar impressão de estar dormindo. Respirava de modo irregular, arfando um pouco. A irmã Barker curvou-se para examinar a paciente, indicando uma cadeira para Miss Marple ao lado da cama. Depois atravessou o quarto de novo, indo até a porta. Um rapaz de bloco em punho saiu de trás do biombo que havia ali.
— Ordens do médico, Mr. Reckitt — disse
a irmã Barker.
Apareceu também uma enfermeira. Tinha estado sentada no canto oposto do quarto.
— Chame-me, se for preciso, enfermeira
Edmonds — disse a irmã Barker, — e traga para Miss Marple tudo o que ela pedir.
Miss Marple desabotoou o casaco. O
quarto estava abafado. A enfermeira aproximou-se e apanhou o casaco, retirando-se logo para a sua posição anterior. Miss Marple sentou-se na cadeira. Olhou para Elizabeth Temple, pensando, como antes, no ônibus, na cabeça bem feita que ela tinha. Os cabelos grisalhos, repuxados na nuca, emolduravam-lhe o rosto de uma maneira justa, com a perfeição de uma coifa. Uma mulher bonita, de muita personalidade. Sim, seria uma lástima, pensou Miss Marple, uma verdadeira lástima se o mundo perdesse Elizabeth Temple.
Miss Marple ajeitou a almofada nas
costas, mudou a cadeira um pouco de lugar e sentou-se tranqüilamente a esperar. Se era em vão, ou com algum resultado, não tinha a mínima idéia. Passou-se o tempo. Dez, vinte, trinta, trinta e cinco minutos. Depois, subitamente, da maneira mais imprevista, por assim dizer, ouviu-se uma voz. Baixa, mas nítida, ligeiramente rouca. Sem nada da ressonância antiga.
— Miss Marple.
Os olhos de Elizabeth Temple agora
estavam abertos. E fitavam Miss Marple. Pareciam lúcidos, perfeitamente sensíveis. Analisavam a fisionomia da mulher sentada perto da cama, sem mostrarem o menor sinal de emoção, de surpresa. Apenas de exame atento, minucioso, plenamente consciente. E tornou-se a ouvir a voz.
— Miss Marple. A senhora é Jane Marple? — Exatamente. Sim — disse Miss Marple,
— Jane Marple.
— Henry falava muito na senhora. Dizia
coisas a seu respeito.
Fez-se silêncio.
— Henry? — repetiu Miss Marple, com
leve tom interrogativo.
— Henry Clithering, um velho amigo
meu... amigo de longa data.
— E meu também — disse Miss Marple.
— Henry Clithering.
Então lembrou-se há quanto tempo
conhecia Sir Henry Clithering, das coisas que ele lhe havia dito, do auxílio que às vezes lhe solicitava, e vice-versa. Um amigo de longa data.
— Não me esqueci do seu nome. E vi na
lista de passageiros. Achei que devia ser a senhora. Que podia ajudar. Era o que ele... sim, o Henry... diria, se estivesse aqui. A senhora talvez pudesse ajudar. A descobrir. É muito importante. Importantíssimo, embora... já faça muito tempo... muito... muito... tempo.
A voz vacilou um pouco, os olhos
entrecerraram-se. A enfermeira levantou-se, atravessou o quarto, pegou um copo pequeno e segurou-o à altura dos lábios de Elizabeth Temple. Miss Temple tomou um gole, e fez sinal com a cabeça que não queria mais. A enfermeira largou o copo e voltou à sua cadeira.
— Se eu puder, eu ajudo — disse Miss
Marple, e não perguntou mais nada.
— Ótimo — disse Miss Temple, repetindo
após curta pausa: — Ótimo.
Permaneceu de olhos fechados por alguns
minutos. Podia estar dormindo ou inconsciente. Depois, de repente, abriu-os de novo.
— Qual? — perguntou. — Qual delas? É
isso que se tem de saber. A senhora entende o que estou dizendo?
— Creio que sim. Uma moça que morreu... Nora Broad?
A testa de Elizabeth Temple logo se
franziu.
— Não, não, não. A outra. Verity Hunt. Houve uma pausa.
— Jane Marple. A senhora está velha...
mais do que quando ele falou a seu respeito. A senhora está velha, mas ainda é capaz de descobrir coisas, não é?
A voz tinha se tornado ligeiramente
aguda, insistente.
— É capaz, não é? Diga que é. Não tenho
muito tempo. Sei que não tenho. Sei perfeitamente. Uma delas, mas qual? Descubra. O Henry diria que a senhora é capaz. Talvez seja perigoso para a senhora... mas vai descobrir, não vai?
— Sim, se Deus me ajudar — disse Miss
Marple. Era uma promessa.
— Ah.
Os olhos fecharam-se, depois tornaram a
se abrir. A sombra de um sorriso franziu os lábios.
— A enorme pedra lá de cima. A Pedra da
Morte.
— Quem foi que a fez rolar? — Não sei. Não importa... só... a Verity. Descubra a respeito da Verity. Verdade. Outro nome para verdade, Verity.
Miss Marple percebeu a leve descontração
do corpo em cima da cama. Houve um suave murmúrio:
— Adeus. Faça tudo o que puder... O corpo se descontraiu, os olhos
fecharam-se. A enfermeira tornou a aproximar-se da cama. Desta vez tomou o pulso e fez sinal para Miss Marple. Miss Marple levantou-se, obediente, e saiu do quarto atrás dela.
— Ela fez um esforço muito grande —
disse a enfermeira. — Vai demorar bastante até recobrar os sentidos de novo. Talvez nem recobre. Espero que a senhora tenha apurado alguma coisa.
— Acho que não — disse Miss Marple, —
mas nunca se sabe, não é mesmo?
— Conseguiu alguma coisa? — perguntou
o Professor Wanstead, quando iam tomar o carro.
— Um nome — respondeu Miss Marple.
— Verity. Era esse o nome da moça?
— Sim. Verity Hunt.
Elizabeth Temple morreu uma hora e
meia depois. Sem recobrar os sentidos.
XIV
AS CONJETURAS DE MR. BROADRIBB
— Viu o Times de hoje? — perguntou Mr.
Broadribb a seu sócio, Mr. Schuster.
Mr. Schuster respondeu que o Times era
muito caro, que só lia o Telegraph.
— Bem, talvez também tenha saído nele
— disse Mr. Broadribb. — Nas notas necrológicas. Miss Elizabeth Temple, D.Sc.1
Mr. Schuster fez uma cara meio perplexa. — Diretora do Fallowfield. Já ouviu falar
no Fallowfield, não ouviu?
— Claro — respondeu Schuster. — Um
colégio de moças. Existe há cinqüenta anos, mais ou menos. Grã-fino, tremendamente caro. Quer dizer, então, que era a diretora? Eu pensava que a diretora já tivesse pedido demissão há muito tempo. Há uns seis meses, no mínimo. Estou certo de que li qualquer coisa no jornal. Saiu um comentário sobre a que entrou. Uma mulher casada. Ainda jovem. De seus trinta e cinco a quarenta anos. Idéias avançadas. Dando lições de cosméticos às alunas, deixando que usem calças compridas.
1 Doctor of Science: doutora em ciência.
Qualquer coisa assim.
— Hum — fez Mr. Broadribb, com o tipo
de ruído que os advogados de sua idade tendem a fazer quando ouvem alguma coisa que provoca crítica baseada em longa experiência. — Acho que ela nunca há de criar o renome que Elizabeth Temple criou. Essa sim, foi alguém. Inclusive ficou muito tempo lá.
— Pois é — disse Mr. Schuster, meio
indiferente, perguntando-se por que Broadribb estaria tão interessado na diretora morta.
Os colégios não despertavam nenhum
interesse especial em ambos. Suas proles já estavam mais ou menos encaminhadas na vida. Os dois filhos de Mr. Broadribb trabalhavam, respectivamente, no serviço público e numa companhia de petróleo. E os dois de Mr. Schuster, bastante mais jovens, cursavam universidades diferentes, onde armavam o maior número possível de encrencas para os professores.
— Que houve com ela? — perguntou. — Andava fazendo uma excursão de
ônibus — respondeu Mr. Broadribb.
— Esses ônibus — disse Mr. Schuster. —
Eu é que não deixaria nenhum parente meu sair por aí num deles. Na semana passada teve um que caiu de um precipício na Suíça e dois meses atrás outro deu uma batida e vinte pessoas morreram. Não sei quem guia essas coisas hoje em dia.
— Era uma dessas excursões de Casas e
Jardins e Objetos de Interesse pelo interior da Grã-Bretanha... ou sei lá como chamam... — disse Mr. Broadribb. — O nome não é bem esse, mas você sabe o que eu quero dizer.
— Sei, sim. Ah, não é... não é aquela que
nós mandamos a Miss Não-sei-o-quê? A que o velho Rafiel pagou a viagem?
— Sim, Miss Jane Marple. — Não vá me dizer que ela também
morreu — disse Mr. Schuster.
— Que eu saiba, não — retrucou Mr.
Broadribb. — Mas a coisa me deixou pensando.
— Foi algum desastre?
— Não. O negócio aconteceu num dos
pontos de atração turística. Eles estavam andando por uma trilha que ia dar no alto de um morro. Um caminho íngreme. Que sobe por uma encosta cheia de pedras e outras coisas. Uma das pedras se soltou, veio rolando colina abaixo, e caiu em cima de Miss Temple, que foi levada para o hospital em estado de choque e morreu...
— Que azar — exclamou Mr. Schuster,
esperando o resto da história.
— Eu só fiquei pensando — disse Mr.
Broadribb, — porque me lembrei por acaso que... bem, que Fallowfield era o colégio em que estava a moça.
— Que moça? Francamente, não sei do
que é que você está falando, Broadribb.
— Aquela, que o jovem Michael Rafiel
desgraçou. Estava mesmo vendo se me lembrava de umas coisas que parecem ter ligação com esse negócio estranho da Jane Marple, em que o velho Rafiel andava tão interessado. Gostaria de que ele nos tivesse dito mais.
— Que ligação? — perguntou Mr.
Schuster.
Agora parecia mais interessado. Seu
instinto jurídico começava a despertar, para emitir uma firme opinião sobre o que quer que fosse que Mr. Broadribb estava prestes a revelar-lhe.
— Com aquela moça. Não me lembro
mais do nome dela. O de batismo era Hope,2
2 Esperança.
Faith3, qualquer coisa assim. Verity, era esse o nome dela. Verity Hunter, tenho impressão. Foi uma daquela série de moças assassinadas. Encontraram o corpo dela num valo, a cerca de quarenta quilômetros de distância do lugar onde tinha desaparecido. Fazia seis meses que estava morta. Estrangulada, pelo visto, e com a cabeça e o rosto esmigalhados... para impedir que fosse identificada, pensaram eles, mas quanto a isso não houve problema. Roupas, bolsa, jóias por perto... um sinal ou cicatriz. Ah é, foi facílimo identificá-la...
— Na verdade foi em torno dela que girou
todo o julgamento, não foi?
— Foi. Suspeitaram de que Michael
tivesse feito o mesmo com outras três, se não me engano, no ano precedente. Mas as provas desses outros casos não foram tão irrefutáveis... e por isso a polícia caiu em cima desse... onde havia uma profusão... Péssimos antecedentes. Acusações anteriores de estupro e defloramento. Ora, quem é que não sabe como é essa história de defloramento hoje em dia? A mãe diz à filha que ela tem de acusar o rapaz, mesmo que ele não tenha tido quase oportunidade, com a moça insistindo o tempo
3 Fé
todo para ele ir à casa dela enquanto a mãe está fora trabalhando ou o pai saiu em férias. E só pára de amolar depois que o força a dormir com ela. Aí, como eu falei, a mãe diz à filha para chamar de defloramento. Mas não se trata disso — explicou Mr. Broadribb. — O que eu me pergunto é se uma coisa não estaria meio relacionada com a outra. Tenho a impressão de que essa história da Jane Marple com o Rafiel é capaz de ter algo que ver com o Michael.
— Ele foi considerado culpado, não foi? E
pegou prisão perpétua?
— Já não me lembro... faz tanto tempo.
Será que a sentença não considerou que havia circunstâncias atenuantes?
— E Verity Hunter, ou Hunt, foi educada
naquele colégio, no colégio de Miss Temple? Mas ela não era mais interna lá, era, quando foi assassinada? Que eu me lembre, não.
— Oh, não. Já tinha dezoito ou dezenove
anos, e morava com parentes ou amigos dos pais dela, ou coisa que o valha. Bom ambiente, boa gente, boa moça, sob todos os aspectos. O tipo da criatura cujos parentes sempre dizem “ela era muito sossegada, meio tímida, não andava com estranhos, nem com namorados”. Os parentes nunca sabem que namorados uma moça tem. Elas tomam o maior cuidado para que não venham a saber. E consta que o filho do Rafiel tinha uma sorte danada com mulheres.
— Jamais houve alguma dúvida de que
tivesse sido ele? — perguntou Mr. Schuster.
— Nem por sombra. Ainda por cima,
contou uma porção de mentiras ao prestar depoimento. Teria sido melhor que o advogado não o deixasse depor. Um grupo de amigos forneceu-lhe um alibi absolutamente ridículo, compreende? Parece que todos os amigos dele eram mentirosos contumazes.
— O que é que você acha de tudo isso,
Broadribb?
— Ah, eu não acho nada — respondeu
Mr. Broadribb, — apenas me pergunto se a morte dessa mulher não terá alguma relação.
— Em que sentido?
— Ora, você sabe... esse negócio de
pedras que rolam morro abaixo e caem em cima de alguém. A natureza não tem dessas coisas. A minha experiência ensina que as pedras, em geral, ficam onde estão.
XV
VERITY
— Verity — murmurou Miss Marple. Elizabeth Margaret Temple tinha morrido
na véspera. De uma morte serena. Miss Marple, novamente sentada entre as cortinas de chitão desbotado da sala de visitas do Velho Solar, pôs de lado o casaquinho cor-de-rosa de bebê que andava tricotando e o substituiu por uma manta roxa de crochê. Esse pequeno toque de luto estava de acordo com as idéias meio vitorianas de Miss Marple sobre o tato que é preciso demonstrar face a tragédias.
No dia seguinte seria aberto o inquérito.
Já tinham procurado o pároco para mandar celebrar um rápido serviço de encomendação na igreja, assim que se pudessem tomar todas as providências. Os armadores funerários, convenientemente vestidos e com o semblante pesaroso de praxe, incumbiram-se de tudo, auxiliados pela polícia. O inquérito começaria às onze horas da manhã. Os participantes da excursão de ônibus concordaram em comparecer. E vários preferiram permanecer na localidade, para também assistir a cerimônia religiosa.
Mrs. Glynne foi ao Javali Dourado e
insistiu para que Miss Marple voltasse ao Velho Solar até o reinicio da excursão.
— Assim a senhora se livra de todos os
jornalistas.
Miss Marple agradeceu efusivamente às
três irmãs e aceitou.
A excursão prosseguiria depois do serviço
de encomendação, dirigindo-se primeiro a South Bedestone, que ficava a uns cinqüenta quilômetros de distância e onde havia um bom hotel, originariamente escolhido como ponto de parada. A partir daí tudo continuaria de acordo com o programa.
Mas, conforme Miss Marple tinha
previsto, várias pessoas estavam separando-se da excursão para regressar às suas casas, ou para tomar outros rumos. Podia-se dizer algo a favor de ambas as decisões. Desistir do que se tornaria uma viagem de penosas recordações ou continuar com a excursão que já estava paga e que tinha sido interrompida por um desses dolorosos acidentes que são capazes de acontecer em qualquer passeio turístico. Na opinião de Miss Marple, tudo dependia do resultado do inquérito.
Depois de trocar várias observações
convencionais, apropriadas à ocasião, com as três donas da casa, Miss Marple dedicou-se à sua lã roxa, sentando-se para refletir sobre a sua próxima linha de investigação. E assim, enquanto mantinha os dedos ocupados, murmurou aquele nome.
— Verity.
Tal como se joga uma pedra na água,
apenas para observar o efeito — se houver. Aquilo teria algum significado para as donas da casa? Talvez sim, talvez não. Senão, quando se encontrasse com os participantes da excursão para jantar, mais tarde, no hotel, conforme estava planejado, tentaria o mesmo. Aquilo, pensou com seus botões, tinha sido, praticamente, a última palavra pronunciada por Elizabeth Temple. Portanto, pensou Miss Marple (sempre com os dedos ocupados, pois não precisava olhar para o crochê; era capaz de ler um livro ou conversar enquanto seus dedos, apesar de ligeiramente afetados pelo reumatismo, prosseguiam corretamente os movimentos marcados), portanto:
— Verity.
Como uma pedra que cai no meio da água
parada, causando ondulações, esguichos, qualquer coisa? Ou nada. Certamente teria de haver uma ou outra espécie de reação. Sim, ela não tinha se enganado. Embora seu rosto não registrasse a menor emoção, os olhos atentos atrás dos óculos haviam ficado controlando três pessoas ao mesmo tempo, como costumava fazer há tantos anos, quando queria observar os vizinhos na igreja, nas reuniões de família, ou noutras funções públicas em St. Mary Mead, toda vez que andava na pista de alguma novidade ou mexerico interessantes.
Mrs. Glynne tinha deixado cair o livro que
estava lendo e olhava com certa surpresa na direção de Miss Marple. Parecia surpreendida com o fato da palavra partir dos lábios de Miss Marple, mas não realmente com o fato de ouvi-la.
Clotilde reagiu de modo diferente.
Levantou subitamente a cabeça, inclinou-a um pouco para a frente, depois olhou não para Miss Marple, mas para o lado oposto da sala, na direção da janela. Crispou as mãos e ficou totalmente imóvel. Miss Marple, apesar de ter baixado a cabeça de leve, para dar impressão de que não estava mais olhando, percebeu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Clotilde continuou imóvel, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas faces. Não fez nenhuma tentativa de pegar um lenço, de pronunciar uma palavra. Miss Marple sentiu-se impressionada com a aura de dor que emanava dela.
A reação de Anthea foi diversa. Rápida,
entusiasmada, quase de prazer.
— Verity? Verity, a senhora disse? A
senhora a conheceu? Nunca imaginei. É à Verity Hunt que se refere?
— É nome de batismo? — perguntou
Lavinia Glynne.
— Jamais conheci alguém com esse nome
— respondeu Miss Marple, — mas é nome de batismo, sim. Bastante raro, a meu ver. Verity — repetiu, pensativa.
Deixou cair o novelo de lã roxa e olhou
em torno, com o ar embaraçado, meio contrita, como se tivesse notado que havia cometido uma grande gafe, sem saber qual.
— Eu... eu sinto muito. Disse alguma
coisa que não devia? Foi apenas porque...
— Não, claro que não — atalhou Mrs.
Glynne. — É só que... se trata de um nome de alguém que conhecemos, que nos traz... recordações.
— Me veio de repente — explicou Miss
Marple, ainda contrita, — porque, sabem, foi a coitada da Miss Temple que o mencionou. Eu ontem fui visitá-la. Ontem de tarde. O Professor Wanstead me levou. Parece que ele achou que eu poderia... não sei se é a palavra justa... estimulá-la, de certo modo. Ela estava em estado de coma e eles pensaram... não que tivéssemos sido amigas alguma vez, mas conversamos um pouco durante a excursão e geralmente sentávamos no mesmo banco, sabem como é, e então a gente se falava. E ele achou que eu talvez pudesse prestar alguma ajuda. Mas creio que não adiantou nada. Absolutamente nada. Fiquei simplesmente sentada lá, esperando, e aí então ela chegou a dizer uma que outra palavra, mas que não me pareceram que formavam sentido. Até que afinal, quando já estava na hora de eu ir embora, ela abriu os olhos e me viu... não sei se me confundiu com alguém... mas pronunciou esse nome. Verity! E, ora, é claro que isso ficou gravado na minha memória, principalmente depois que ela faleceu ontem à noite. Deve ter sido alguém ou alguma coisa que ela tinha na idéia. Mas naturalmente é possível que significasse apenas... bem, naturalmente é possível que significasse apenas Verdade. É isso que Verity quer dizer, não é?
Olhou sucessivamente para Clotilde,
Lavinia e Anthea.
— Era o nome de batismo de uma moça
que conhecíamos — disse Lavinia Glynne. — Foi por isso que nos surpreendeu.
— Sobretudo por causa do modo horrível
que ela morreu — explicou Anthea.
— Anthea! — exclamou Clotilde com
aquela voz grossa. — Não há necessidade de entrar em pormenores.
— Mas que bobagem, quem é que não
sabe? — retrucou Anthea. Olhou para Miss Marple. — Pensei que talvez a conhecesse, pois a senhora conheceu Mr. Rafiel, não é? Bem, quero dizer, ele nos escreveu a seu respeito, portanto a senhora certamente o conheceu. E eu achei que ele talvez... ora, que ele talvez lhe tivesse contado a história toda.
— Me desculpe — disse Miss Marple, —
mas tenho a impressão de que não estou entendendo direito.
— Eles encontraram o corpo dela num
valo — explicou Anthea.
Depois que Anthea tomava ímpeto, tornava-se impossível contê-la. Mas Miss Marple notou que a sua maneira gárrula de falar só contribuía para aumentar a tensão de Clotilde, que havia tirado discretamente um lenço do bolso e enxugava as lágrimas dos olhos. De repente endireitou-se na cadeira, levantando as costas, com o olhar profundamente trágico.
— Verity — disse — era uma moça de
quem gostávamos muito. Ela morou algum tempo conosco. Eu tinha verdadeira adoração por ela...
— E ela por você — disse Lavinia. — Os pais dela eram amigos meus —
continuou Clotilde. — Morreram num desastre de avião.
— Ela estava no colégio em Fallowfield —
explicou Lavinia. — Deve ter sido por isso que Miss Temple se lembrou dela.
— Ah, já sei — disse Miss Marple. — Era
onde Miss Temple foi diretora, não é? Lógico, ouvi falar muitas vezes em Fallowfield. É um colégio ótimo, não?
— Sim — respondeu Clotilde. — Verity
estudou lá. Depois que os pais morreram ela veio morar algum tempo conosco, até que resolvesse o que queria fazer com seu futuro. Tinha dezoito ou dezenove anos. Um encanto de moça, muito afeiçoada e carinhosa. Pretendia tirar diploma de enfermagem, mas era inteligentíssima e Miss Temple insistiu para que cursasse a universidade. Por isso ela começou a se preparar para fazer o exame... quando aconteceu essa coisa horrível.
Virou o rosto para outro lado. — Eu... a senhora não se incomoda de
mudar de assunto?
— Não, claro que não — disse Miss
Marple. — Lamento imensamente ter reavivado alguma tragédia. Eu não sabia. Eu... eu nunca tinha ouvido falar... Pensei... bem, quero dizer...
E cada vez se atrapalhava mais. Naquela noite soube de novos detalhes.
Mrs. Glynne entrou no seu quarto quando ela estava trocando de vestido para sair para se encontrar com os outros no hotel.
— Achei que devia vir lhe explicar alguma
coisa — disse Mrs. Glynne, — sobre... sobre aquela moça, a Verity Hunt. Evidente que a senhora não podia saber que Clotilde gostava tanto assim dela e que sua morte, realmente horrenda, constituiu um choque tremendo. Se possível, nunca falamos nela, mas... tenho a impressão de que seria mais fácil se eu lhe contasse todos os fatos, para que possa compreender. Ao que parece, a Verity tinha, sem que soubéssemos, travado amizade com um rapaz indesejável... aliás, mais que indesejável... depois se descobriu até que ponto era perigoso... ele já possuía antecedentes criminosos. Veio nos visitar uma vez quando passou por aqui. Conhecíamos muito bem o pai dele. — Fez uma pausa. — Acho que se a senhora não sabe é melhor contar-lhe logo toda a verdade, e pelo jeito a senhora não sabe mesmo. Na realidade ele era o filho de Mr. Rafiel, Michael...
— Ah, meu Deus — exclamou Miss
Marple, — não... não o... não me recordo do nome dele, mas me lembro de ter ouvido falar que havia um filho... que só tinha dado desgostos ao pai.
— Um pouco mais do que isso — disse
Mrs. Glynne. — Chegou a ser processado duas vezes por vários motivos. Por deflorar adolescentes... e outras coisas desse gênero. Eu sinceramente acho que os juizes são muito clementes com esse tipo de coisa. Não querem prejudicar a carreira universitária de um rapaz. E assim ficam soltos por aí, graças a uma... não me lembro direito como se chama... com uma suspensão de sentença, ou algo semelhante. Se fossem logo recolhidos à prisão, isso talvez lhes servisse de aviso para desistir desse tipo de vida. Ainda por cima ele era ladrão. Tinha falsificado cheques, roubado coisas. Não valia nada mesmo. Éramos amigas da mãe dele. Até acho que foi uma sorte que ela tivesse morrido jovem, antes de sofrer com o jeito que o filho ficou. Mr. Rafiel, a meu ver, fez tudo o que pôde. Tentou encontrar empregos que conviessem ao rapaz. Pagou-lhe multas e sei lá mais o que. Mas tenho a impressão de que foi um grande golpe para ele, embora fingisse que lhe era mais ou menos indiferente e encarasse aquilo como uma dessas coisas que acontecem. Nós tivemos, como provavelmente os moradores do povoado poderão lhe contar, uma fase terrível de crimes e violência nesta região. Não só aqui como noutras partes do país, a trinta, às vezes sessenta quilômetros de distância. E a polícia desconfia de que um ou dois foram a quase cento e cinqüenta quilômetros daqui. Mas pareciam concentrar-se mais ou menos nesta região. Enfim, um dia a Verity saiu para visitar uma amiga e... não voltou. Comunicamos à polícia, que se pôs à procura, revistando tudo quanto é canto, sem conseguir encontrar nem rastro dela. Pusemos anúncio nos jornais, a polícia também, e então sugeriram que ela havia fugido com um namorado. Aí começou a correr o boato de que ela tinha sido vista em companhia de Michael Rafiel. A essa altura a polícia já andava de olho no Michael como possível suspeito de uma série de crimes, embora não contassem com nenhuma prova concreta. Disseram que a Verity tinha sido vista, descreveram-lhe a roupa que usava e outras coisas, em companhia de um rapaz parecido com Michael e num carro que dava impressão de ser o dele. Mas não surgiu nenhuma outra prova até que descobriram o corpo dela seis meses depois, a quarenta e tantos quilômetros daqui, num lugar meio selvagem, cheio de mato, dentro de um valo com pedras e terra amontoada. Clotilde teve de ir identificá-la... e, realmente, era a Verity. Estava estrangulada e com a cabeça esmigalhada. Clotilde nunca se recuperou do choque por completo. Havia certas marcas, um sinal, uma cicatriz antiga, e, naturalmente, as roupas e o conteúdo da bolsa. Miss Temple gostava muito de Verity. Deve ter-se lembrado dela pouco antes de morrer.
— Que tristeza — disse Miss Marple. —
Não imagina como estou arrependida. Por favor, explique à sua irmã que eu não sabia. Não fazia a mínima idéia.