Nêmesis
Capítulo I
PRELÚDIO
Miss Jane Marple tinha o costume de
abrir o seu segundo jornal à tarde. Recebia dois jornais pela manhã em sua casa. Lia o primeiro bem cedo, enquanto tomava chá, isto é, se chegasse pontualmente. O jornaleiro era muito irregular em matéria de horário. Acontecia também com freqüência que fosse novato, ou substituto provisório do habitual. E cada qual possuía idéias próprias sobre o percurso a ser observado na entrega. Talvez para quebrar a monotonia. Mas os assinantes, acostumados a receber o jornal numa hora matinal, para dar tempo de saborearem as notícias mais suculentas antes de tomarem o ônibus, trem, ou qualquer outro meio de transporte para o trabalho cotidiano, ficavam aborrecidos com o atraso da distribuição, embora as senhoras de meia-idade e as velhas que residiam pacatamente em St. Mary Mead preferissem, de modo geral, fazer a leitura instaladas à mesa de refeição.
Hoje Miss Marple já tinha lido a primeira
página e algumas outras notas no que ela apelidava de “miscelânea”, alusão meio satírica ao fato do Daily Newsgiver, por motivo de troca de proprietário, para grande contrariedade dela e de outras amigas suas, agora publicar colunas especializadas em vestuário masculino, elegância feminina, problemas sentimentais, jogos infantis e cartas de reclamação de mulheres, conseguindo praticamente banir qualquer notícia de interesse do texto de todas as suas páginas, salvo da primeira, ou então deslocá-la para algum recanto obscuro onde se tornasse impossível localizá-la. Miss Marple, antiquada como era, preferia que seus jornais fossem jornais e publicassem notícias.
À tarde, depois do almoço e de um cochilo
de vinte minutos que tirou na poltrona de encosto alto, adquirida especialmente para atender as exigências de suas costas reumáticas, abriu o Times, que ainda se prestava a uma leitura mais agradável. Não que continuasse sendo o mesmo de antigamente. A coisa mais enlouquecedora a respeito do Times era que não se encontrava mais nada nele. Em vez de começar pela primeira página, sabendo o lugar exato de cada seção, de modo a se passar facilmente a qualquer artigo especial sobre assuntos em que se estivesse interessado, ocorriam agora interrupções incríveis nesse programa de venerável tradição. De repente surgiam duas páginas dedicadas a viagens a Capri, com ilustrações. Os esportes recebiam destaque muito maior que nos velhos tempos. O noticiário dos tribunais e os necrológios mantinham certa fidelidade à rotina. As participações de nascimentos, núpcias e mortes, que em determinada época, devido à sua posição proeminente, chamavam antes de mais nada a atenção de Miss Marple, tinham emigrado para uma parte diferente do jornal, embora ela notasse que recentemente houvessem ido ocupar em caráter quase permanente a última página.
Miss Marple fixou-se primeiro nas
notícias da primeira página. Não se demorou muito porque pouco variavam do que já tinha lido de manhã, apesar de possivelmente expressas de maneira mais digna. Correu os olhos pelo índice de matérias. Artigos, comentários, ciência, esportes. Depois prosseguiu na forma de costume: virou a página e examinou rapidamente os nascimentos, núpcias e mortes, findo o quê propunha-se a ler a seção seguinte, do correio de leitores, onde quase sempre encontrava alguma coisa divertida; aí passaria à Circular dos Tribunais, em cuja página hoje também se podiam ter notícias das Salas de Leilão. Um breve artigo sobre Ciência era freqüentemente colocado ali, mas não tencionava perder tempo com aquilo, pois raramente conseguia entender o texto.
Tendo dobrado o jornal, como sempre,
para verificar as notas de nascimentos, núpcias e mortes, Miss Marple pensou consigo mesma, como tantas vezes já tinha feito:
— Francamente, é triste, mas hoje em dia
a gente só se interessa por mortes!
As pessoas que tinham filhos eram
pessoas que Miss Marple não conhecia nem de nome. Se houvesse uma coluna dedicada a recém-nascidos apresentando-os como netos, talvez ocorresse a oportunidade de um agradável reconhecimento. E ela pensaria consigo mesma:
— Puxa, a Mary Prendergast teve a
terceira neta!
Embora até isso talvez fosse um pouco
remoto.
Leu às pressas as participações de casamento, também sem muita atenção, porque a maioria das filhas ou filhos de seus velhos amigos já se tinha casado há anos atrás. Chegou à coluna de Falecimentos e então concentrou-se a sério. A ponto, mesmo, de se certificar de que não deixaria escapar nenhum nome. Alloway, Angopastro, Arden, Barton, Bedshaw, Burgoweisser — (credo, que nome mais alemão, mas o finado parecia natural de Leeds). Carpenter, Camperdown, Clegg. Clegg? Xi!, seria um dos Cleggs que ela conhecia? Não, pelo jeito não. Janet Clegg. Um lugar qualquer em Yorkshire. McDonald, McKenzie, Nicholson. Nicholson? Não. De novo, nenhum Nicholson conhecido. Ogg, Ormerod — deve ser uma das tias, pensou. É, provavelmente. Linda Ormerod. Não, não conheço. Quantril? Deus meu, vai ver que é a Elizabeth Quantril. Oitenta e cinco anos. Puxa, francamente! E eu que pensava que Elizabeth Quantril tivesse morrido há tanto tempo, já. Imagina só, a vida longa que teve! E ainda por cima frágil como sempre foi. Ninguém esperava que logo ela fosse ficar para semente. Race, Radley, Rafiel. Rafiel? Sentiu uma coisa. Esse nome me é familiar. Rafiel. Belford Park, Maidstone. Belford Park, Maidstone. Não, não me recordo desse endereço. Favor não mandar flores. Jason Rafiel, que nome mais estranho. Decerto ouvi recentemente, em algum lugar. Ross-Perkins. Bem, talvez fosse... não, não era. Ryland? Emily Ryland. Não. Não, nunca conheci nenhuma Emily Ryland. Profundamente amada por seu esposo e filhos. Bem, isso pode ser muito bonito ou muito triste. Depende da maneira de encarar.
Miss Marple largou o jornal, olhando
distraidamente as palavras cruzadas, enquanto se esforçava para imaginar por que esse nome, Rafiel, lhe era familiar.
— Daqui a pouco eu me lembro — disse,
sabendo, por experiência, como funciona a memória dos velhos.
— Daqui a pouco me lembro, tenho
certeza.
Fitou o jardim e depois, desviou os olhos,
procurando arrancá-lo do pensamento. Aquele jardim tinha sido motivo de grande prazer e de muito trabalho, também para Miss Marple durante anos e anos a fio. E agora, por causa da rabugice dos médicos, via-se proibida de trabalhar nele. Já tentara lutar contra essa proibição, chegando finalmente à conclusão de que seria melhor obedecer as ordens. Colocara a poltrona de tal modo que se tornava difícil enxergá-lo, a não ser que quisesse positivamente e sem sombra de dúvida ver alguma coisa de especial. Suspirou, pegou a sacola de tricô e tirou um casaquinho de lã de criança já quase concluído. As costas e a frente estavam prontas. Faltava completar as mangas. As mangas eram sempre enfadonhas. Duas mangas, ambas iguais. É, muito enfadonho. Mas a lã tinha uma cor bonita. Cor-de-rosa. Ei, espera aí, o que é que aquilo lhe lembrava? Sim... sim... o nome que acabava de ler no jornal. Lã cor-de-rosa. O mar azul. O mar do Caribe. Uma praia arenosa. Ensolarada. Ela tricotando e... mas claro, Mr. Rafiel. Aquela viagem que fizera às Antilhas. A Ilha de St. Honoré. E lembrou-se de Joan, a mulher de Raymond, seu sobrinho, aconselhando-lhe:
— Não se meta mais em crimes, tia Jane.
Isso não lhe faz bem.
Ora, ela não queria se meter mais em
crimes, mas de que jeito? Simplesmente não foi possível. Tudo por causa de um velho major que insistia em contar umas histórias muito compridas e cacetes. Pobre major... como era mesmo o nome dele? Já havia esquecido. Mr. Rafiel e sua secretária, Mrs... Mrs. Walters, sim, Esther Walters, e o empregado-massagista, Jackson. .Agora se lembrava de tudo. Ora, ora. Pobre Mr. Rafiel. Com que então tinha morrido. Ele sabia que não tardaria muito para que isso acontecesse. Praticamente lhe dissera. Mas parecia que havia durado mais tempo do que os médicos supunham. Um homem forte, tenaz — riquíssimo.
Miss Marple continuou pensando, as
agulhas de tricô trabalhando sem parar, mas com as idéias distantes, lembrando-se do falecido Mr. Rafiel, de tudo o que podia a seu respeito. De fato, não era fácil esquecê-lo. Seria capaz de reconstituir de memória, sem esforço, a sua aparência. Sim, uma personalidade bem definida, um homem difícil, irritadiço, às vezes horrivelmente grosseiro. Mas ninguém jamais se ofendia com suas grosserias. Disso também se lembrava. Porque era rico. Sim, tinha sido riquíssimo. Mantinha uma secretária e um misto de camareiro e massagista profissional. Não conseguia fazer nada direito sem o auxílio alheio.
Miss Marple achava aquele empregado
um tipo meio duvidoso. Mr. Rafiel às vezes o tratava com muita brutalidade. Ele nunca parecia se importar. E isso, de novo, naturalmente se explicava pelo fato de Mr. Rafiel ser rico.
— Ninguém lhe daria a metade do que eu
pago — dizia Mr. Rafiel, — e ele sabe disso. Mas é um bom empregado.
Miss Marple perguntava-se se Jackson?
— ou Johnson? — teria continuado no emprego. Por quanto tempo... mais um ano? Um ano e três ou quatro meses. Provavelmente não. Mr. Rafiel gostava de variar. Cansava-se das pessoas — das suas manias, das suas caras, das suas vozes.
Isso Miss Marple compreendia. Às vezes
também sentia o mesmo. Aquela sua dama de companhia, aquela mulher boazinha, solícita, enlouquecedora, que sempre falava com voz macia.
— Ah — exclamou Miss Marple, — como
mudou para melhor desde que... — ah, meu Deus, não é que agora me esqueci do nome dela — Miss... Miss Bishop? — não, Miss Bishop não, claro que não. Por que fui lembrar do nome Bishop? Ah, meu Deus, como é difícil.
Tornou a pensar em Mr. Rafiel e em —
não, não era Johnson, mas Jackson, Arthur Jackson.
— Ah, meu Deus — repetiu Miss Marple,
— como eu confundo sempre todos esses nomes. E lógico que era Miss Knight que eu estava pensando e não Miss Bishop. Por que penso nela como Miss Bishop?
Veio-lhe a resposta. Xadrez,
evidentemente. Uma peça de xadrez. Um cavalo1. Um bispo2.
— No mínimo a estarei chamando de Miss
Castle3 da próxima vez que pensar nela, ou então de Miss Rook4. Embora, francamente, não seja o tipo de pessoa capaz de roubar alguém. Não, de fato. E como era mesmo o nome daquela secretária simpática que trabalhava para Mr. Rafiel? Ah, sim, Esther Walters. Justo. Que fim será que ela levou? Terá herdado algum dinheiro? No mínimo a esta altura já herdou.
Lembrava-se de que Mr. Rafiel lhe havia
falado qualquer coisa nesse sentido, ou teria sido ela mesma? — ah, meu Deus, que confusão que dá quando a gente se esforça para lembrar com um pouco de exatidão.
1 Knight
2 Bishop
3 Torre
4 Roubo (no jogo)
Esther Walters. Ela ficou tremendamente abalada com aquela história no Caribe, mas decerto já voltou ao normal. Era viúva, não era? Miss Marple esperava que Esther Walters tivesse casado de novo, com algum homem simpático, bondoso, direito. Parecia meio improvável. Esther Walters, na sua opinião, possuía certo pendor para escolher o tipo de homem errado para casar.
Miss Marple voltou a pensar em Mr.
Rafiel. Favor não mandar flores, dizia a participação. Não que pretendesse manda-las a Mr. Rafiel. Se ele quisesse, poderia ter comprado todas as mudas e canteiros da Inglaterra. E em todo caso, não tinham tido relações que permitissem isso. Não tinham sido amigos nem mantido relações de amizade. Apenas — qual a palavra mais apropriada? — aliados. Sim, tinham sido aliados durante uma fase muito curta. Uma fase empolgante. Era um aliado que valia a pena. Isso ela sabia. Descobriu isso ao sair correndo pela noite escura e tropical do Caribe, até encontrá-lo. Sim, ela se lembrava, estava com aquela — como era o nome que davam quando era moça? — com aquela trunfa de lã cor-de-rosa. Aquela linda estola que havia enrolado na cabeça, e ele então tinha olhado para ela e rido, mas terminou não achando graça. Não, fez o que ela lhe pediu e aí — “Ah! — suspirou Miss Marple, — não há que negar, tudo foi muito empolgante.” E nunca contou nada ao sobrinho nem à querida Joan porque, afinal de contas, era o que lhe tinham dito para não fazer, não era? Miss Marple anuiu com a cabeça. E depois murmurou baixinho:
— Pobre Mr. Rafiel, tomara que não
tenha... sofrido.
Decerto não. No mínimo, médicos
caríssimos o haviam mantido sob a ação de sedativos, suavizando-lhe o fim. Tinha sofrido um bocado naquelas semanas no Caribe. Passara quase todo o tempo sentido dores. Um homem de fibra.
Um homem de fibra. Lamentava que
estivesse morto porque lhe parecia que embora velho, inválido e doente, o mundo perdia algo com sua morte. Não fazia a menor idéia de como seria nos negócios. Impiedoso, talvez, rude, prepotente e agressivo. Um adversário temível. Mas — mas um bom amigo, achava. E havia nele uma espécie de bondade profunda que tomava o máximo cuidado para nunca demonstrar. Um homem que ela admirava e respeitava. Bem, lamentava que tivesse morrido e esperava que não houvesse se importado muito com isso e que seu trespasse tivesse sido fácil. Agora decerto já estava cremado e sepultado em uma cripta de mármore grande e bonita. Nem sequer sabia se era casado. Jamais tinha mencionado uma esposa, ou filhos. Um homem solitário? Ou com uma vida tão intensa que não precisava sentir-se sozinho? Seria isso?
Ficou ali sentada, durante muito tempo,
naquela tarde, pensando em Mr. Rafiel. Não esperava revê-lo depois de voltar à Inglaterra e nunca o havia revisto. No entanto, de uma maneira estranha, podia a qualquer momento ter a sensação de continuar em contato com ele. Como se a tivesse abordado ou sugerido que se tornassem a encontrar, sentindo talvez um vínculo por causa da vida que ambos tinham salvo, ou outro vínculo qualquer. Um vínculo...
Não me digam — horrorizou-se Miss
Marple ante a idéia que lhe ocorrera — que havia um vínculo de crueldade entre nós!
Seria possível — imaginável — que ela,
Jane Marple, também fosse cruel?
— Sabe de uma coisa — disse Miss Marple consigo mesma, — é incrível, nunca pensei nisso antes. Sabe que eu acredito que seria bem capaz de ser impiedosa?...
A porta se abriu, deixando ver uma
cabeça morena, de cabelos crespos: Cherry, a bendita sucessora de Miss Bishop — Miss Knight, aliás.
— Que foi que a senhora disse? —
perguntou.
— Estava falando sozinha — respondeu
Miss Marple. — Eu só queria saber se podia ser impiedosa.
— Quem, a senhora? — retrucou Cherry.
— Nunca! A senhora é a própria bondade.
— Mesmo assim — disse Miss Marple, —
eu acho que seria capaz de ser impiedosa, se houvesse um bom motivo.
— O que é que a senhora entende por
bom motivo?
— Um motivo justo — respondeu Miss
Marple.
— Não há dúvida de que isso a senhora
encontrou aquele dia com o pequeno Gary Hopkins — disse Cherry. — Quando o surpreendeu torturando o gato dele. Nunca imaginei que fosse capaz de cair em cima de alguém daquele jeito! Deixou-o morto de medo. O garoto nunca mais esqueceu.
— Espero que não tenha torturado mais
nenhum gato.
— Bem, se torturou, pode estar certa de
que não foi com a senhora por perto — afirmou Cherry. — Realmente, não tenho lá muita certeza se os outros meninos também não se apavoraram. Vendo-a com a sua lã, os tricôs lindos que faz, e tudo mais... qualquer pessoa a julgaria mansa como um cordeiro. Mas tem vezes em que eu diria que a senhora se comporta como um leão, quando provocada.
Miss Marple pareceu meio em dúvida.
Não se via muito bem no papel que Cherry agora lhe atribuía. Será que algum dia... — parou para refletir, recordando vários momentos; — tinha sentido intensa irritação contra Miss Bishop — Knight. (Francamente, ela não devia esquecer nomes desse jeito.) Mas costumava externá-la em comentários mais ou menos irônicos. E os leões, presumivelmente, não usam de ironia. Um leão nada tem de irônico. Salta. Ruge. Usa as garras, no mínimo dando grandes dentadas na presa.
— Francamente — disse Miss Marple, —
acho que nunca cheguei a tal ponto.
De tardezinha, caminhando devagar pelo jardim com a costumeira sensação de desgosto aumentando no íntimo, Miss Marple considerou de novo a questão. Talvez tivesse sido a visão de um pé de bocas-de-leão que a fez lembrar-se. Positivamente, quantas vezes já havia dito ao velho George que só queria antirrhinums cor de súlfur, e não daquela horrenda tonalidade roxa de que os jardineiros pareciam sempre gostar tanto?
— Amarelo sulfuroso — exclamou Miss
Marple.
Uma mulher do outro lado da cerca que
confinava com a alameda que passava pela casa virou a cabeça e perguntou:
— Desculpe, mas que foi que a senhora
disse?
— Creio que estava falando sozinha —
respondeu Miss Marple, voltando-se para olhar por cima da cerca.
Era alguém que ela não conhecia, e ela
conhecia quase todo o mundo em St. Mary Mead. Se não pessoalmente, ao menos de vista. Uma mulher atarracada, de saia de mescla já velha, porém resistente, e com bons sapatos rústicos. Usava pulôver verde-esmeralda e uma manta de tricô.
— Tenho a impressão de que isso é comum na minha idade — acrescentou Miss Marple.
— Que jardim bonito que a senhora tem
— disse a outra.
— Já não é mais o que foi — retrucou
Miss Marple. — Quando eu mesma cuidava dele...
— Ah, eu sei. Compreendo muito bem o
que a senhora sente. No mínimo contratou um desses velhotes... eu tenho uma porção de nomes para eles, na maioria muito rudes... que dizem que entendem de tudo sobre plantas. Às vezes entendem, e às vezes não entendem patavina. Eles chegam, tomam uma porção de xícaras de chá e capinam um pouco para disfarçar. Alguns até que são simpáticos, mas mesmo assim dá para a gente perder a paciência. — E acrescentou: — Também gosto muito de cuidar de jardins.
— Mora por aqui? — perguntou Miss
Marple, com certo interesse.
— Bem, estou hospedada em casa de
Mrs. Hastings. Acho que já ouvi ela falar na senhora. Miss Marple, não é?
— É, sim.
— Vim como uma espécie de dama de
companhia e jardineira. Por falar nisso, meu nome é Bartlett. Miss Bartlett. Não tem muita coisa mesmo para se fazer lá — explicou Miss Bartlett. — Ela só gosta de plantas que dão uma vez por ano, sabe como é. Nada que a gente possa cravar os dentes. — Ao fazer essa observação, abriu a boca e mostrou-os. — Claro que também faço uns servicinhos extras. Ir às compras, sabe, coisas assim. Em todo caso, se quiser que eu trate um pouco disso aqui, eu poderia lhe reservar umas duas horas por dia. Creio que cuidaria melhor do que qualquer sujeito que tenha agora.
— Seria fácil — disse Miss Marple. —
Gosto mais de flores. Não ligo muito para verduras.
— Eu planto verduras para Mrs.
Hastings. Não tem graça, mas que remédio. Bem, já vou indo.
Lançou um olhar rápido, medindo Miss
Marple de alto a baixo, como se quisesse gravá-la na memória, depois acenou jovialmente com a cabeça e se afastou a passos largos.
Mrs. Hastings? Miss Marple não se
lembrava de ninguém com esse nome. Sem dúvida não era nenhuma amiga de longa data. E certamente nunca tinham sido colegas de jardinagem. Ah, lógico, no mínimo morava numa daquelas casas novas, recém-construídas, no fim de Gibraltar Road. Diversas famílias haviam se mudado para lá no ano passado. Miss Marple suspirou, olhou de novo contrariada para os antirrhinums, enxergou várias ervas daninhas que sentiu vontade de arrancar, uma ou duas vergônteas exuberantes que gostaria de podar com uma tesoura, e finalmente, com outro suspiro, e resistindo bravamente à tentação, fez uma volta ao longo da alameda e retornou à casa. Quando viu, estava pensando novamente em Mr. Rafiel. Ele e ela tinham sido — como era o título daquele livro que todo mundo vivia comentando quando ela era moça? Navios que passam à noite. Bastante apropriado, mesmo, pensando bem. Navios que passam à noite... Tinha sido de noite que fora procurá-lo para pedir — pedir não, exigir — socorro. Para insistir, para dizer que não havia tempo a perder. E ele tinha concordado, pondo-se logo em ação! Quem sabe ela havia se comportado um pouco como um leão naquela ocasião? Não. Não, nada disso. Não fora cólera que sentira. Mas necessidade de fazer uma coisa que era absolutamente imprescindível que fosse feita imediatamente. E ele compreendera.
Pobre Mr. Rafiel. O navio que tinha
passado de noite era um navio interessante. Depois que a gente se acostumava com suas grosserias, quem sabe não seria uma pessoa agradável? Não! Sacudiu a cabeça. Mr. Rafiel nunca poderia ter sido uma pessoa agradável. Bem, convinha esquecer Mr. Rafiel.
Navios que passam à noite, e se falam ao
passar;
apenas um sinal, e uma voz distante, a
sussurrar.
Provavelmente nunca mais tornaria a
pensar nele. Procuraria, talvez, para ver se ia sair seu necrológio no Times. Mas não lhe parecia muito provável. Achou que ele não era uma figura tão conhecida assim, famosa. Fora apenas riquíssimo. Claro, muita gente tinha seu necrológio publicado no jornal só por ser muito rica; mas ela achava que a riqueza de Mr. Rafiel possivelmente não teria sido desse tipo. Ele não se destacara em nenhuma grande indústria, não havia sido nenhum gênio das finanças, ou banqueiro digno de atenção. Não fizera outra coisa a vida inteira a não ser ganhar enormes somas de dinheiro...
II
O CÓDIGO É NÊMESIS
Mais ou menos uma semana depois da
morte de Mr. Rafiel, Miss Marple apanhou uma carta na bandeja de café e contemplou-a um instante antes de abri-la. As outras duas que tinham vindo pelo correio da manhã eram contas, ou possivelmente recibos. Em ambos os casos, não possuíam nenhum interesse especial. Essa talvez possuísse.
Carimbo de Londres, endereço batido à
máquina, envelope largo, de boa qualidade. Miss Marple rompeu-o cuidadosamente com o abridor que sempre mantinha à mão na bandeja. Trazia impresso o nome de Messrs. Broadribb & Schuster, Advogados e Notários Públicos, com escritórios em Bloomsbury. Pediam-lhe, com as frases corteses de praxe e no melhor estilo jurídico, que fosse procurá-los dentro de uma semana, a fim de inteirar-se de uma proposta que talvez lhe fosse vantajosa. Sugeriam a data de 24, quinta-feira. Se não lhe conviesse, quem sabe poderia informar-lhes quando provavelmente tencionava visitar Londres no futuro próximo. Acrescentavam que eram advogados do falecido Mr. Rafiel, com quem, segundo lhes constava, ela mantivera relações de amizade.
Miss Marple franziu a testa, levemente
intrigada. Levantou-se um pouco mais devagar que de costume, pensando na carta que tinha recebido. Foi acompanhada ao andar térreo por Cherry, que fazia questão de ficar perambulando pelo corredor para se certificar de que Miss Marple não caísse ao descer sozinha a escada, que era do tipo antiquado que dobra abruptamente na metade dos degraus.
— Você é muito cuidadosa comigo, Cherry
— disse Miss Marple.
— Natural — retrucou Cherry, com seu
modo habitual de falar. — Gente boa é coisa rara.
— Ah, obrigada pelo elogio — disse Miss
Marple, pisando sã e salva no rés do chão.
— Que foi que houve? — perguntou
Cherry. — A senhora parece meio abalada, não sei se me entende.
— Não, não houve nada — respondeu
Miss Marple. — Recebi uma carta um pouco estranha de uma firma de advogados.
— Não vá me dizer que tem alguém querendo processá-la — disse Cherry, sempre propensa a considerar as cartas de advogados como invariavelmente associadas a alguma espécie de calamidade.
— Que esperança! — retrucou Miss
Marple. — Nada disso. Apenas me pedem para ir falar com eles em Londres na semana que vem.
— Quem sabe a senhora herdou uma
fortuna? — sugeriu Cherry, otimista.
— Acho muitíssimo improvável. — Ué, sabe lá?
Instalando-se na sua poltrona e retirando
o tricô de sua sacola bordada, Miss Marple encarou a possibilidade de Mr. Rafiel ter-lhe deixado uma fortuna. Pareceu-lhe ainda mais improvável do que quando Cherry tinha sugerido. Mr. Rafiel, a seu ver, não era desse tipo de homem.
Não poderia ir na data marcada. Devia
comparecer a uma reunião do Instituto Feminino para discutir a arrecadação de uma soma destinada à construção de uns quartos suplementares, Mas escreveu, sugerindo um dia na semana seguinte. Recebeu resposta dentro do prazo previsto, confirmando definitivamente a hora da entrevista. Ficou imaginando como seriam os tais Messrs. Broadribb & Schuster. A carta tinha sido assinada por J.R.Broadribb que, pelo jeito, era o sócio principal. Talvez fosse possível, pensou Miss Marple, que Mr. Rafiel realmente lhe houvesse deixado alguma lembrancinha no testamento. Quem sabe um livro sobre flores raras que possuísse em sua biblioteca e que julgasse que agradaria a uma velha que gostava tanto de plantas. Ou um broche de camafeu que houvesse pertencido a alguma tia-avó dele. Divertiu-se com essas fantasias. Tratava-se de meras fantasias, na sua opinião, pois em ambos os casos bastaria que os executores — se é que aqueles advogados fossem os executores — lhe remetessem qualquer um desses objetos pelo correio. Não precisariam de nenhuma entrevista.
— Ah, paciência — disse Miss Marple, —
terça-feira que vem eu ficarei sabendo.
— Como será que ela é? — perguntou Mr.
Broadribb a Mr. Schuster, lançando um olhar ao relógio.
— Dentro de um quarto de hora estará
aqui — respondeu Mr. Schuster. — Será que vai ser pontual?
— Ah, creio que sim. Já é velha, ao que me consta, e bem mais meticulosa do que essa juventude estouvada de hoje.
— Gorda ou magra?
Mr. Broadribb sacudiu a cabeça. — Rafiel nunca a descreveu a você? —
insistiu Mr. Schuster.
— Ele foi incrivelmente cauteloso nas
referências que fez a ela.
— A coisa toda me parece estranhíssima
— disse Mr. Schuster. — Se ao menos a gente soubesse algo mais a respeito do que tudo isso significa...
— Talvez tenha qualquer coisa a ver com
Michael — sugeriu Mr. Broadribb, pensativo.
— Quê? Depois de todos esses anos? Não
pode ser. O que levou você a pensar nisso? Ele mencionou...
— Não, ele não mencionou nada. Não me
deu o menor indício do que tinha em mente. Apenas se limitou a me dar instruções.
— Acha que no fim já estava ficando meio
excêntrico e coisa e tal?
— De modo algum. Mentalmente,
continuava inteligente como sempre. Em todo caso, a falta de saúde física nunca lhe afetou o cérebro. Nos seus dois últimos meses de vida, ganhou duzentas mil libras suplementares. Assim, sem mais nem menos.
— Ele tinha um dom — declarou Mr.
Schuster com o devido respeito. — Não há dúvida, ele sempre teve um dom.
— Um grande cérebro financeiro — disse
Mr. Broadribb, também num tom de respeito adequado ao sentimento. — São tão raros, que maior é o motivo de lástima.
A campainha da mesa tocou. Mr.
Schuster levantou o fone.
— Miss Jane Marple está aqui para falar
com Mr. Broadribb — anunciou uma voz feminina. — Tem hora marcada.
Mr. Schuster virou-se para o sócio,
arqueando a sobrancelha à espera de uma resposta afirmativa ou negativa. Mr. Broadribb concordou com a cabeça.
— Mande entrar — disse Mr. Schuster. E
acrescentou: — Agora vamos ver.
Miss Marple foi conduzida a uma sala
onde um senhor já maduro, magro, com rosto comprido e meio tristonho, levantou-se para recebê-la. Tratava-se, pelo jeito, de Mr. Broadribb1, cuja aparência de certo modo contradizia o nome. Em sua companhia havia outro senhor, também já maduro, mas um
1 Costas largas. pouco mais moço e de proporções definitivamente mais amplas. Tinha cabelo preto, olhinhos argutos e tendência a double menton.
— Meu sócio, Mr. Schuster — apresentou
Mr. Broadribb.
— Espero que não tenha estranhado a
escada — disse Mr. Schuster, e pensou: — Deve ter, no mínimo, setenta... quase oitenta, talvez.
— Sempre fico meio ofegante quando
subo uma escada.
— Este prédio é muito antigo — explicou
Mr. Broadribb, à guisa de desculpas. — Não tem elevador. Paciência, somos uma firma estabelecida há bastante tempo e não gostamos tanto de invenções modernas quanto os clientes talvez esperem de nós.
— Esta sala tem um tamanho muito
agradável — observou Miss Marple, cortês.
Aceitou a cadeira oferecida por Mr.
Broadribb. Mr. Schuster retirou-se discretamente.
— Espero que essa cadeira seja cômoda
— disse Mr. Broadribb. — Não prefere que eu puxe um pouco aquela cortina? O sol é capaz de lhe ferir os olhos.
— Obrigada — disse Miss Marple,
agradecida.
Ficou ali sentada, ereta como sempre.
Usava um costume leve de mescla, colar de pérolas e chapeuzinho de veludo.
A perfeita provinciana. Bom tipo.
Velhinha faceira. Talvez seja meio tantã... talvez não. Olho muito vivo. Como será que Rafiel a conheceu? A tia de alguém, possivelmente, que veio do interior?
Enquanto esses pensamentos lhe
passavam pela cabeça, Mr. Broadribb ia fazendo um pequeno preâmbulo, comentando o tempo, os maus efeitos das últimas geadas no começo do ano e outras observações do mesmo gênero que lhe pareceram adequadas.
Miss Marple deu as respostas
necessárias, imperturbável, à espera do início do assunto da entrevista.
— A senhora deve estar imaginando por
que mandei chamá-la — disse Mr. Broadribb, remexendo nuns papéis na escrivaninha e sorrindo-lhe. — Decerto já ouviu falar na morte de Mr. Rafiel, ou talvez viu a notícia que saiu nos jornais.
— Vi no jornal — disse Miss Marple. — Parece que era amigo seu.
— Encontrei-o pela primeira vez faz pouco
mais de um ano — explicou Miss Marple. — Nas Antilhas — acrescentou.
— Ah. Eu me lembro. Ele foi para lá creio
que por motivos de saúde. Talvez lhe fizesse bem, mas já estava muito doente, seriamente inválido, como sabe.
— Sim — disse Miss Marple. — A senhora o conhecia bem? — Não — respondeu Miss Marple. — Não
diria isso. Fomos apenas companheiros de hotel. Conversamos algumas vezes. Depois que voltei à Inglaterra nunca mais o revi. Vivo muito sossegada no interior, sabe, e acho que ele andava completamente absorvido pelos negócios.
— É, ele continuou com suas transações
comerciais até... olhe, eu quase diria até o dia que morreu — disse Mr. Broadribb. — Um ótimo cérebro para as finanças.
— Tenho certeza de que foi isso mesmo —
disse Miss Marple. — Percebi logo que ele era um... bem, um tipo absolutamente fora do comum.
— Não sei se faz idéia... se Mr. Rafiel
alguma vez não lhe deu a entender... a espécie de proposta que me pediu que lhe fizesse...
— Não posso imaginar — retrucou Miss
Marple — qual seria a proposta que Mr. Rafiel quisesse me fazer. Me parece o maior despropósito.
— Ele tinha uma opinião muito lisonjeira
sobre a senhora.
— Bondade dele, mas dificilmente
justificada — afirmou Miss Marple. — Sou uma criatura muito pacata.
— Como decerto já percebeu, ele morreu
riquíssimo. As provisões que deixou em seu testamento são, de modo geral, bastante simples. Pouco antes de morrer dispôs como queria que tosse distribuída a sua fortuna. A custódia dos bens e outras providências em relação aos beneficiários.
— Creio que atualmente isso é um
sistema muito comum — disse Miss Marple, — embora não esteja nada familiarizada com questões financeiras.
— A finalidade desta entrevista —
explicou Mr. Broadribb — é que recebi o encargo de lhe comunicar que há uma soma de dinheiro reservada para se tornar totalmente sua dentro do prazo de um ano, sob a condição de aceitar uma determinada proposta, que eu devo lhe revelar qual seja.
Pegou um envelope comprido em cima da
escrivaninha. Estava lacrado. Passou-o às mãos dela.
— Acho que seria melhor que a senhora
mesmo lesse para ver em que consiste. Não há pressa. Leia com calma.
Miss Marple não se apressou. Apanhou o
pequeno abridor que Mr. Broadribb lhe alcançou, rompeu o envelope, retirou o que continha — uma folha batida à máquina, e leu. Tornou a dobrá-la, releu-a e depois olhou para Mr. Broadribb.
— Não se pode dizer que esteja muito
claro. Não há nenhuma explicação mais positiva?
— Que eu saiba, não. Eu devia lhe
entregar isso aí, e dizer-lhe a importância da herança. A soma em questão é de vinte mil libras, isentas do imposto de transmissão.
Ela ficou parada, olhando-o. A surpresa
deixou-a sem fala. Mr. Broadribb não disse mais nada. Observava-a atentamente. Não havia dúvida quanto à surpresa de Miss Marple. Era, obviamente, a última coisa que esperava ouvir. Mr. Broadribb se perguntou quais seriam as primeiras palavras que ela iria pronunciar. Fitava-o francamente, com a severidade que uma de suas próprias tias poderia ter tido com ele. Quando abriu a boca para falar, foi de uma maneira quase acusadora.
— Mas isso é uma soma de dinheiro
muito grande — disse Miss Marple.
— Não tão grande quanto antigamente —
retrucou Mr. Broadribb (contendo-se para não acrescentar: “Uma ninharia, hoje em dia”).
— Devo confessar — disse Miss Marple,
— que estou espantada. Palavra, completamente espantada.
Pegou o documento e releu-o
cuidadosamente, do princípio ao fim.
— Imagino que o senhor já conheça estes
termos? — perguntou.
— Sim. Mr. Rafiel ditou-os pessoalmente
a mim.
— E não lhe deu nenhuma explicação? — Não, não deu.
— Mas suponho que o senhor tenha
sugerido que talvez fosse melhor que ele desse — acrescentou Miss Marple, agora com certa causticidade na voz.
Mr. Broadribb sorriu de leve. — Tem toda a razão. Foi o que eu fiz.
Disse que a senhora talvez achasse difícil... bem, compreender exatamente aonde ele queria chegar.
— É realmente fantástico — disse Miss
Marple.
— Claro que não precisa — frisou Mr.
Broadribb — me dar a sua resposta agora.
— Pois é — disse Miss Marple, — terei de
refletir sobre o assunto.
— Trata-se, como observou, de uma soma
de dinheiro realmente muito grande.
— Já estou velha — disse Miss Marple. —
Idosa, como se diz, mas velha é uma palavra melhor. Definitivamente velha. E até possível, provável mesmo, que não viva um ano para aproveitar esse dinheiro, na hipótese bastante duvidosa de que consiga ganhá-lo.
— Em qualquer idade, dinheiro sempre é
bem-vindo — sentenciou Mr. Broadribb.
— Eu poderia favorecer certas obras de
caridade que me interessam — disse Miss Marple, — e sempre tem gente por quem se gostaria de fazer algo e não se faz por falta de recursos pessoais. E depois não nego que há prazeres e desejos... coisas a que nunca pude me entregar ou permitir... Acho que Mr. Rafiel sabia perfeitamente bem que poder fazer isso, da maneira mais imprevista, proporcionaria muita alegria a uma criatura idosa.
— Sim, de fato — concordou Mr.
Broadribb. — Um cruzeiro de luxo pelo exterior, talvez? Uma dessas excursões maravilhosas que se promovem hoje em dia. Teatros, concertos... a possibilidade de reabastecer as adegas da gente.
— Os meus gostos seriam um pouco mais
modestos — disse Miss Marple. — Perdizes — murmurou, pensativa, — são dificílimas de conseguir hoje em dia, e saem caríssimas. Gostaria muito de comer uma inteira... só para mim. Uma caixa de marrons glacés é um capricho dispendioso que não posso me permitir com freqüência. Possivelmente um espetáculo de ópera. Isso implica em tomar táxi, de ida e volta, para ir ao Covent Garden, e a despesa de uma noite em hotel. Mas não devo perder tempo com tagarelices inúteis — disse. — Vou levar isto aqui junto comigo para refletir a respeito. Francamente, a troco de que Mr. Rafiel... o senhor não sabe mesmo por que ele foi sugerir logo esta proposta e por que achou que eu poderia prestar-lhe qualquer espécie de ajuda? Ele devia saber que fazia mais de um ano, quase dois, que não me via e que eu podia ter ficado bem mais velha do que fiquei, e bem mais incapaz de exercitar os reduzidos talentos que porventura possua. Estava arcando com um grande risco, pois não há dúvida de que existem por aí outras pessoas muito mais qualificadas do que eu para empreender uma investigação dessa natureza, não lhe parece?
— Sim, concordo — retrucou Mr.
Broadribb, — mas ele escolheu a senhora, Miss Marple. Perdoe-me a curiosidade gratuita, mas já teve... ah, como direi?... alguma relação com crimes ou com a investigação de algum crime?
— A rigor, eu diria que não — respondeu
Miss Marple. — Não profissionalmente, quero dizer. Nunca fui fiscal de justiça nem tampouco participei de algum julgamento ou mantive qualquer ligação com uma agência de detetives. Explicando melhor, Mr. Broadribb, coisa que eu acho que é o mínimo que posso fazer e que Mr. Rafiel devia ter feito para deixar tudo bem claro, o que posso dizer é que durante a nossa estada nas Antilhas, nós dois, Mr. Rafiel e eu, tivemos certa ligação com um crime que ocorreu lá. Um assassinato bastante implausível e desconcertante.
— Que a senhora e Mr. Rafiel
solucionaram?
— Eu não colocaria nesses termos —
disse Miss Marple. — Mr. Rafiel, pela força de sua personalidade, e eu, por ter juntado uma ou duas indicações óbvias que chegaram a meu conhecimento, conseguimos evitar a concretização de um segundo assassinato praticamente na hora em que ele ia ser cometido. Sozinhos, nem eu nem Mr. Rafiel poderíamos ter feito isso. Eu me sentia fisicamente fraca demais. E Mr. Rafiel era inválido. Agimos, porém, como aliados.
— Gostaria de lhe fazer só mais uma
pergunta, Miss Marple. A palavra “Nêmesis” tem algum significado para a senhora?
— Nêmesis — repetiu Miss Marple. Não
era uma interrogação. Um sorriso lento e inesperado iluminou-lhe o rosto. — Sim — respondeu, — de fato tem. Tanto para mim como para Mr. Rafiel. Eu usei-a com ele, e ele achou muita graça que eu me apresentasse com esse nome.
Mr. Broadribb esperava tudo, menos
aquilo. Olhou para Miss Marple com um pouco da mesma surpresa atônita que Mr. Rafiel uma vez tinha sentido num quarto às margens do mar do Caribe. Uma velhota tão simpática e inteligente. Mas Nêmesis... francamente!
— Pelo que vejo, o senhor é da mesma
opinião — disse Miss Marple, pondo-se de pé. — Se acaso encontrar ou receber mais instruções sobre o assunto, gostaria que me comunicasse, Mr. Broadribb. Parece incrível que não haja nada nesse sentido. Isso me deixa totalmente no escuro, palavra, sobre o que Mr. Rafiel quer que eu faça ou procure fazer.
— Não conhece ninguém da família dele,
algum amigo, ou...
— Não. Já lhe disse. Fomos
companheiros de viagem em terras estranhas. Mantivemos certa ligação como aliados numa questão muito complicada. Apenas isso. — Pronta a dirigir-se à saída, de repente virou-se e acrescentou: — Ele tinha uma secretária, Mrs. Esther Walters. Seria indiscrição perguntar-lhe se Mr. Rafiel deixou cinqüenta mil libras para ela?
— As doações testamentárias de Mr.
Rafiel serão publicadas pela imprensa — disse Mr. Broadribb. — Posso responder sua pergunta pela afirmativa. E a propósito, o nome de Mrs. Walters agora é Mrs. Anderson. Ela casou de novo.
— Me alegro em saber. Era viúva, tinha uma filha e parecia bastante competente como secretária. Compreendia Mr. Rafiel muito bem. Uma mulher simpática. Que bom que ele tenha deixado alguma coisa para ela.
Naquela noite, Miss Marple, sentada na
sua poltrona de encosto reto, os pés espichados diante da lareira onde ardia um pequeno fogo devido a uma súbita onda de frio que, como sempre, pode baixar inesperadamente sobre a Inglaterra a qualquer momento, tornou a retirar do largo envelope o documento que lhe fora entregue de manhã. Ainda num estado de quase incredulidade, repetindo baixinho as palavras aqui e ali, como se quisesse gravá-las na memória, leu:
“A
Miss Jane Marple,
residente no povoado de St. Mary Mead. Esta carta lhe será entregue depois de
minha morte pelos bons ofícios do meu procurador, James Broadribb. Ele está encarregado dos assuntos legais pertinentes ao campo de meus negócios particulares, não às minhas atividades comerciais. É um advogado idôneo, de toda a confiança, mas, como a maioria da raça humana, suscetível de sucumbir à curiosidade. Eu não quis satisfazê-la. Sob certos aspectos, este assunto ficará apenas entre nós dois. Nosso nome de código, minha cara senhora, é Nêmesis. Não creio que tenha esquecido em que lugar e em que circunstâncias usou-o comigo pela primeira vez. No decurso de minhas atividades comerciais no que agora já é uma vida muito longa, aprendi uma coisa sobre as pessoas que pretendo empregar. Elas precisam ter um faro. Um faro especial para o tipo de serviço que eu quero que façam. Não se trata de conhecimento nem experiência. A única palavra apropriada é faro. Um talento natural para fazer uma determinada coisa.
A senhora, minha cara amiga, se me
permite chamá-la assim, possui um faro natural para a justiça, o que a leva a possuir um faro natural para o crime. Eu quero que a senhora investigue um determinado crime. Mandei que pusessem à sua disposição uma certa quantia para que, no caso de aceitar este pedido e, em decorrência do resultado de suas investigações, esse crime ficar devidamente esclarecido, o dinheiro se torne exclusivamente seu. Estipulei o prazo de um ano para executar essa missão. Embora a senhora não seja jovem, é, se me permite a expressão, rija. Acho que posso confiar em que um destino razoável a mantenha viva por mais um ano, no mínimo.
Creio que o trabalho a ser desenvolvido
não lhe será desagradável. A senhora possui um talento inato, pode-se dizer, para a investigação. Os fundos necessários para o que posso descrever como ajuda de custos para fazer essa investigação lhe serão remetidos durante esse período, sempre que for preciso. Ofereço-lhe isso como alternativa para o que talvez seja a sua vida atual.
Imagino-a sentada numa cadeira muito
cômoda e adequada a qualquer tipo de reumatismo que a possa estar importunando. Todas as pessoas de sua idade, a meu ver, acham-se expostas a sofrer de alguma espécie de reumatismo. Se a doença afetar-lhe os joelhos ou as costas, não será fácil para a senhora andar se movimentando muito e passará a maior parte do tempo tricotando. Parece que ainda a estou vendo como naquela noite em que acordei assustado com a sua urgência, envolta numa nuvem de lã cor-de-rosa. Imagino-a tricotando novos casaquinhos, mantas e uma porção de outras coisas cujo nome desconheço. Se preferir continuar fazendo isso, a decisão é sua. Se preferir servir a causa da justiça espero que ao menos se divirta.
Que a justiça corra como as águas E o bem como um caudaloso rio.
Amós.”