Nêmesis
Capítulo XII
TROCA DE IDÉIAS
— Não quero me alongar demais. Vou
explicar de maneira bem simples como entrei nesta história. De vez em quando funciono como consultor confidencial do Ministério do Interior. Me mantenho também em contato com certas instituições. Existem algumas que, na eventualidade de um crime, proporcionam casa e comida a determinados tipos de criminosos que foram considerados culpados de certos atos. Permanecem ali enquanto aprouver à Sua Majestade, como se diz, às vezes por um período de tempo definido e em conformidade direta com a idade que tiverem. Se forem menores, têm de ser recolhidos em alguma casa de detenção especialmente designada. A senhora, sem dúvida, compreende o que estou dizendo, não?
— Sim, compreendo perfeitamente. — Em geral me consultam logo depois
que qualquer... crime, digamos... tenha sido cometido, a fim de julgar questões como o tratamento, as possibilidades aplicáveis ao caso, os prognósticos favoráveis ou não; enfim toda uma série de palavras. Elas não têm muita importância e não pretendo esmiuçá-las. Mas de vez em quando também sou consultado pelo diretor responsável de uma dessas instituições por um motivo todo especial. No assunto que de momento nos interessa, recebi a comunicação de um determinado Departamento, que me foi entregue por intermédio do Ministério do Interior. Fui visitar o diretor da tal instituição. No fundo, o chefe responsável pelos prisioneiros, pacientes, ou seja lá como quiser chamá-los. Por acaso, era amigo meu. E amigo de longa data, embora não tivéssemos muita intimidade. Fui à tal instituição e o diretor me expôs o problema. Referia-se a uma determinada pessoa que lá estava internada. Ele não se achava nada satisfeito com a situação. Tinha certas dúvidas. Tratava-se de um rapaz que era quase adolescente quando o recolheram ali. Isso já faz muitos • anos. À medida que o tempo passou, e depois que o atual diretor assumiu o cargo (ele não estava lá quando o tal prisioneiro chegou), ele ficou preocupado. Não por também ser um profissional, mas por causa de sua experiência em matéria de pacientes e prisioneiros criminosos. Para explicar de maneira bem simples, tratava-se de um rapaz que desde a adolescência só tinha dado desgostos. Um delinqüente juvenil, um pequeno malfeitor, um elemento pernicioso, uma pessoa sem a mínima responsabilidade. Há várias qualificações. Algumas se aplicam, outras não. E algumas são meramente desconcertantes. O certo é que era um tipo perigoso. Tinha participado de quadrilhas, surrado muita gente, era ladrão, havia roubado, dado desfalques, tomado parte em falcatruas, provocado certas fraudes. Em suma, o tipo do filho que seria o desespero de qualquer pai.
— Ah, já sei — disse Miss Marple. — O que é que a senhora já sabe, Miss
Marple?
— Ora, que o senhor está falando do filho
de Mr. Rafiel.
— Tem toda a razão. É dele mesmo que
estou falando. O que é que a senhora sabe a respeito dele?
— Nada — respondeu Miss Marple. —
Apenas ouvi dizer... e isso foi ontem... que Mr. Rafiel tinha um filho delinqüente que, sem o mínimo exagero, só lhe dava desgostos. Um filho com antecedentes criminosos. Sei muito pouco a respeito dele. Era o único filho de Mr. Rafiel?
— Era, sim. Mas Mr. Rafiel também teve
duas ninas. Uma morreu aos quatorze anos, mas a mais velha casou e foi muito feliz, só que não teve filhos.
— Que tristeza para ele.
— Talvez — disse o Professor Wanstead.
— A gente nunca sabe. A mulher dele morreu jovem e acho possível que a morte dela o entristecesse muito, embora ele jamais tenha demonstrado. Não sei se ligava muito para o filho e as filhas. Nunca deixou que lhes faltasse nada. Fazia tudo por eles. Inclusive pelo rapaz, mas é difícil dizer quais seriam os seus sentimentos. Não era um homem fácil de se compreender nesse sentido. Creio que dedicou toda a sua vida e interesse à profissão de ganhar dinheiro. Como todo grande financista, o que lhe interessava eram os grandes lucros. Não o dinheiro, propriamente dito, que advinha daí. E que ele, pode-se dizer, tornava a reinvestir, da maneira mais interessante e imprevista. Ele gostava de finanças. Adorava. Só pensava praticamente nisso.
“Acho que fez tudo o que foi possível pelo filho. Salvou-o de apuros no colégio, contratou bons advogados para livrá-lo de processos legais, sempre que podia, até que sobreveio o golpe final, que certas ocorrências anteriores já faziam prever. O rapaz foi levado aos tribunais sob a acusação de tentar estuprar uma moça. Disseram que se tratava de tentativa de estupro e defloramento e ele foi condenado a cumprir pena na prisão, recebendo clemência por causa de sua pouca idade. Mas mais tarde apresentaram uma segunda acusação, realmente grave, contra ele.
— Ele matou uma moça — disse Miss
Marple. — Não foi isso? Assim me contaram.
— Ele atraiu-a para um lugar ermo.
Levou algum tempo até encontrarem o cadáver. Tinha sido estrangulada. E depois tinham-lhe esmigalhado o rosto e a cabeça com pedras ou rochas pesadas, decerto para impedir que fosse identificada.
— Que coisa mais hedionda — disse Miss
Marple, esforçando-se para manter a calma.
O Professor Wanstead ficou olhando um
pouco para ela.
— É essa a sua opinião?
— Pelo menos me parece — respondeu
Miss Marple. — Não gosto desse tipo de coisa. Nunca gostei. Se espera que eu vá ser compreensiva, que me apiede, que culpe uma infância infeliz, o mau ambiente, se de fato espera que eu verta lágrimas por ele, por esse rapaz aí de quem está falando, fique sabendo que não tenho a menor intenção de fazê-lo. Não simpatizo com gente malvada.
— Ainda bem — disse o Professor
Wanstead. — Não imagina o que sofro no exercício de minha profissão com pessoas que choram e rangem os dentes, pondo toda a culpa em coisas que aconteceram no passado. Se elas soubessem o mau ambiente que certas criaturas têm, a crueldade, as dificuldades que enfrentam para viver, e que apesar disso conseguem sair ilesas, acho que mudariam de ponto de vista. Os desajustados são dignos de lástima, sim, mas mais pela herança genética que trazem ao nascer e sobre a qual não possuem o mínimo controle. Os epiléticos me dão pena pelo mesmo motivo. Se a senhora soubesse o que significa a herança genética...
— Eu sei, mais ou menos — atalhou Miss
Marple. — Hoje em dia todo mundo sabe, embora eu, naturalmente, não possua nenhum conhecimento químico ou técnico muito exato.
— O diretor do presídio, um homem de experiência, me explicou exatamente por que estava tão ansioso para ouvir a minha opinião. Cada vez se certificava mais de que esse tal prisioneiro, o rapaz em questão, para ser bem claro, não era assassino. Ele não o achava com tipo de assassino, pois não se parecia com nenhum assassino que já tivesse visto antes, e também achava que era o tipo do criminoso que jamais se corrigiria, fosse qual fosse o tratamento que lhe aplicassem, que jamais se emendaria; e por quem nada, em certo sentido da palavra, podia ser feito — mas ao mesmo tempo cada vez se convencia mais de que a sentença que tinha recebido havia sido injusta. Ele não acreditava que o rapaz tivesse assassinado a moça, primeiro estrangulando-a para depois desfigurar-lhe o rosto e jogar o cadáver dentro de um valo. Simplesmente não podia acreditar numa coisa dessas. Tinha examinado as circunstâncias do caso, que pareciam plenamente provadas. O rapaz havia conhecido a moça, tendo sido visto em companhia dela várias vezes antes do crime. É de se presumir que tivessem dormido juntos e existiam ainda outros detalhes. O carro dele havia sido visto nas imediações. Ele próprio tinha sido reconhecido e tudo mais. Um caso perfeitamente justo. Mas meu amigo disse que não estava satisfeito com isso. Ele é um homem que tem um sentimento de justiça muito forte. Queria uma opinião alheia. Queria, em suma, não o aspecto policial, que já conhecia, mas um ponto de vista profissional, médico. Esse era o meu campo, disse ele. Totalmente o meu território. Ele queria que eu fosse visitar o tal rapaz e falasse com ele, fazendo uma apreciação profissional e dando-lhe a minha opinião.
— Interessantíssimo — disse Miss
Marple. — Sim, isso me parece muito interessante. Afinal de contas, esse seu amigo... o diretor, quero dizer... é um homem experiente, que preza a justiça. Seria uma pessoa a quem o senhor estaria disposto a dar atenção. Presumo, portanto, que tenha realmente dado.
— Sim — disse o Professor Wanstead, —
fiquei profundamente interessado. Fui visitar a vítima, como passarei a chamá-lo, adotando várias atitudes diferentes. Conversei com ele, expliquei uma série de modificações que talvez venham a ser introduzidas na lei. Disse-lhe que provavelmente poderia trazer-lhe um advogado, um jurisconsulto, para ver que pontos existem a seu favor, e outras coisas. Aproximei-me dele como amigo, mas também como inimigo, só para verificar como reagiria a atitudes opostas, e também fiz uma porção de testes físicos, desses que usamos com grande freqüência hoje em dia. Não quero aborrecê-la com minúcias porque são totalmente técnicas.
— E no fim, a que conclusão o senhor
chegou?
— Eu cheguei — respondeu o Professor
Wanstead — à conclusão de que o meu amigo provavelmente tinha razão. Não me parecia que Michael Rafiel fosse um assassino.
— Mas, e o caso anterior que o senhor
mencionou?
— Aquilo depunha contra ele, lógico. Não
no espírito do júri, que naturalmente só ficou sabendo disso depois que ouviu o resumo das provas, mas certamente no espírito do juiz. Aquilo depôs contra ele, mas eu me encarreguei de efetuar algumas sindicâncias posteriores. Ele tinha tentado estuprar uma moça. E é de se imaginar que a tenha deflorado, mas não havia tentado estrangulá-la e na minha opinião — já vi uma infinidade de exemplos apresentados nos tribunais — me parecia extremamente improvável que se tratasse de um caso bem definido de defloramento. Não se esqueça de que hoje em dia as moças se deixam deflorar com muito mais facilidade que antigamente. A moça em questão tinha tido vários namorados. As mães insistem, com muita freqüência, para que elas digam que foi defloramento. A moça de que estamos falando teve vários namorados que não se contentaram com uma simples amizade. Não creio que isso tivesse grande importância como prova contra ele. Agora, o caso de assassinato... sim, porque não há que negar que foi assassinato... mas eu continuei a achar que nenhum dos testes que fiz, físicos, mentais, psicológicos, se enquadrava no crime em questão.
— E aí, que fez o senhor?
— Comuniquei-me com Mr. Rafiel. Disse
que gostaria de ter uma entrevista com ele a respeito de um assunto relacionado com o seu filho. Fui visitá-lo. Disse-lhe o que eu pensava, o que o diretor da prisão pensava, que não tínhamos provas, que de momento não dispúnhamos de elementos que justificassem uma apelação, mas que nós dois acreditávamos que se tratasse de um erro judicial. Expliquei que achava que possivelmente se pudesse abrir um inquérito, que talvez fosse dispendioso, mas que poderia esclarecer certos fatos que então seriam levados ao conhecimento do Ministério do Interior, com êxito ou não. Era possível que daí resultasse alguma coisa, alguma prova, se a gente procurasse bem. Disse que tudo isso ia sair caro, mas que eu supunha que não faria nenhuma diferença para uma pessoa rica como ele. A essa altura eu já tinha percebido que ele estava muito doente, malíssimo. Ele mesmo me contou. E que esperava morrer dentro em breve, que fazia dois anos que lhe tinham avisado que só teria mais um ano de vida, mas que devido a uma resistência física fora do normal continuava resistindo. Perguntei-lhe o que pensava do filho.
— E o que foi que ele respondeu? — Ah, a senhora ficou curiosa, não é? Eu
também fiquei. Creio que ele foi extremamente sincero comigo, muito embora...
— ... tivesse sido cruel? — completou
Miss Marple.
— Sim, Miss Marple. A senhora usou a
palavra exata. Ele era um homem cruel, porém justo e sincero. Ele respondeu: Há muitos anos que sei como o meu filho é. Nunca tentei mudá-lo porque não acredito que alguém fosse capaz de consegui-lo. Ele não tem jeito mesmo. Não vale nada. E um mau caráter. Sempre se mete em encrencas. É desonesto. Ninguém, nada pode fazer com que endireite. Tenho absoluta certeza disso. De certo modo não me importo mais com o que venha a lhe suceder. Embora não no sentido legal ou aparentemente: nunca lhe faltou dinheiro, era só pedir. Sempre fiz o que pude, dando-lhe auxílio legal ou outro qualquer, quando se metia em alguma enrascada. Pois suponhamos que eu tivesse um filho sujeito a ataques espasmódicos, que fosse epilético, é evidente que faria tudo por ele. Quando a gente tem um filho, digamos, moralmente inválido, sem esperanças de cura, também faz tudo o que pode. Nem mais, nem menos. Que posso fazer por ele agora?” Eu expliquei que isso dependia do que ele pretendesse. “Quanto a isso não há problema”, me respondeu. “Estou inutilizado, mas sei muito bem o que pretendo. Eu quero que lhe façam justiça. Que seja solto da prisão. Que fique em liberdade para continuar vivendo da melhor maneira possível. Se for arrastado a novas desonestidades, que arque com as conseqüências. Providenciarei para que nada lhe falte, para que tenha tudo o que for preciso. Não quero que sofra, encarcerado, impedido de levar vida normal só por causa de um erro natural e infeliz. Se outra pessoa, outro homem, matou a tal moça, quero que o fato seja divulgado e reconhecido. Quero justiça para Michael. Mas não estou em condições de tratar disso pessoalmente. Sou um homem muito doente. Meu tempo já não se conta em anos ou meses, mas em semanas.”
“Contrate advogados;, sugeri. Conheço
uma firma... Ele me atalhou logo: “Advogado não adianta. Pode contratá-los, mas não vai adiantar nada. Tenho de fazer o que posso dentro do tempo que me resta.” Me ofereceu uma soma enorme para sair em busca da verdade, sem poupar esforços nem despesas. “Eu não posso fazer praticamente nada. A morte é capaz de sobrevir a qualquer momento. Eu o nomeio meu braço direito, e para ajudá-lo no que lhe peço vou ver se localizo uma certa pessoa.” E me escreveu um nome: Miss Jane Marple. “Não vou lhe dar o endereço dela. Quero que a conheça num ambiente que eu mesmo pretendo escolher”, e então me falou desta excursão, desta agradável, inócua, inocente excursão por casas, castelos e jardins históricos. Ele ia providenciar para que me reservassem um lugar para certa data. “Miss Jane Marple”, disse ele, “também vai estar nessa excursão. O senhor a conhecerá ali, o senhor a encontrará casualmente, e assim todo mundo pensará que se trata de um encontro casual”.
“Eu tinha a liberdade de escolher a hora e
o momento mais oportunos para me identificar para a senhora, se julgasse aconselhável; caso contrário, continuar incógnito. A senhora já me perguntou se eu ou o meu amigo, o diretor da prisão, tínhamos qualquer motivo para desconfiar ou saber de alguma outra pessoa que pudesse ter sido culpada do crime. Meu amigo, o diretor da prisão, certamente não sugeriu nada nesse sentido, e ele já havia estudado o assunto com o funcionário da polícia encarregado do caso, um superintendente de detetives da maior confiança, que possui ótima experiência nessas questões.
— Ninguém sugeriu outro homem?
Alguém que também fosse amigo da vítima? Um namorado anterior que podia ter sido rejeitado?
— Não se encontrou nada de$se gênero.
Eu pedi a Mr. Rafiel que me falasse um pouco sobre a senhora. Mas ele não quis. Só disse que era uma senhora já de certa idade. Que conhecia as pessoas. E acrescentou outra coisa. — Fez uma pausa.
— Qual? — perguntou Miss Marple. —
Estou bastante curiosa, sabe? Realmente não consigo imaginar que outra vantagem eu possa oferecer. Sou meio surda. Não enxergo mais tão bem quanto antes. Sinceramente, não posso imaginar que outras vantagens possa oferecer, além do fato de que talvez dê a impressão de ser um tanto tola e simplória e de ser, realmente, o que antigamente se chamava de “velha mexeriqueira”. Isso eu sou, mesmo. Foi isso que ele disse?
— Não — respondeu o Professor
Wanstead. — Ele disse que a senhora tinha um excelente sentido de percepção para o mal.
— Ah! — exclamou Miss Marple, atônita. O Professor Wanstead ficou observando-
a.
— A senhora não concorda? —
perguntou.
Miss Marple manteve-se calada durante
bastante tempo.
— Talvez — respondeu, afinal. — Sim, talvez. Já me aconteceu várias vezes sentir uma apreensão, uma intuição da presença do mal nas minhas proximidades, nas imediações, dando-me a sensação de que um agente do mal se achava por perto, ligado com o que estava acontecendo.
De repente olhou para ele e sorriu. — Sabe, é meio parecido — explicou, —
com o fato de ter nascido com o sentido do olfato muito apurado. A gente é capaz de sentir um escapamento de gás que os outros nem notam. E de distinguir, com a maior facilidade, um perfume de outro. Eu já tive uma tia — continuou Miss Marple, pensativa, — que se dizia capaz de farejar mentiras a distância. Ela afirmava que o cheiro era bem nítido. O nariz do mentiroso tremia, segundo ela, e aí vinha o cheiro. Não sei se era verdade ou não, mas... olhe, houve várias ocasiões em que ela acertou de maneira notável. Uma vez ela avisou ao meu tio: “Jack, não dê emprego para aquele rapaz que esteve falando com você hoje de manhã. Tudo o que ele disse não passa de mentiras”. E no fim tinha plena razão.
— Um sentido de percepção para o mal —
repetiu o Professor Wanstead. — Bem, se a senhora de fato notar qualquer coisa, me avise. Faço questão de saber. Eu acho que não possuo nenhum talento especial para pressentir isso. Má saúde, ainda vá, mas não... não o mal aqui em cima. — E bateu de leve na testa.
— Agora é melhor que eu lhe conte
rapidamente como entrei nessa história — disse Miss Marple. — Mr. Rafiel, conforme o senhor sabe, morreu. Os advogados me pediram para ir lá falar com eles e me comunicaram a proposta. Me entregaram uma carta dele que não explicava nada. Depois disso fiquei algum tempo sem notícias. Aí então recebi um aviso da companhia que organiza essas excursões, dizendo que Mr. Rafiel antes de morrer tinha feito uma reserva em meu nome, sabendo que eu gostaria muito da viagem e querendo me fazer uma surpresa. Fiquei assombrada, mas tomei como uma indicação do primeiro passo que eu devia dar. Eu devia vir nesta excursão, durante a qual no mínimo surgiria outra indicação, sugestão, pista ou instrução para mim. Acho que foi o que aconteceu. Ontem, não, anteontem, ao chegar aqui, encontrei três senhoras que moram num velho solar e que muito gentilmente me fizeram um convite. Elas disseram que Mr. Rafiel, antes de morrer, lhes havia escrito, anunciando que uma velha amiga sua ia chegar nessa excursão e que elas tivessem a bondade de acolhê-la por uns dias, pois ele achava que a tal amiga não estaria apta a subir até o alto do promontório onde se achava o monumento aos mortos da guerra, local de difícil acesso e que constituiria o principal ponto de atração do passeio de ontem.
— E a senhora também tomou isso como
uma indicação do que devia fazer?
— Evidente — respondeu Miss Marple. —
Que outra explicação poderia haver? Ele não era homem de cumular favores a troco de nada, só por compaixão de uma velha que não tem mais resistência para andar subindo morros. Não. Ele queria que eu fosse lá.
— E a senhora foi? E aí, que aconteceu? — Nada — disse Miss Marple. —
Encontrei três irmãs.
— As três parcas?
— Foi o que também pensei — disse Miss
Marple, — mas acho que não eram. Pelo menos não me deram essa impressão. Ainda não sei. É possível que fossem... que sejam, aliás. Mas me parecem bastante normais. Não fazem parte da casa, que pertenceu a um tio, e se mudaram há alguns anos para lá. Acham-se numa situação meio pobre, são amáveis, sem nenhum interesse especial. Não são muito parecidas e pelo jeito nem conheciam Mr. Rafiel direito. Não apurei coisa nenhuma nas conversas que tive com elas.
— Então não ficou sabendo de nada
enquanto esteve lá?
— Fiquei sabendo das circunstâncias do
caso que acaba de me descrever. Não por intermédio delas. De uma velha criada, que se pôs a me contar reminiscências da época em que o tal tio era vivo. Ela conhecia Mr. Rafiel apenas de nome. Mas foi eloqüente na história do assassinato. Disse que tudo começou com a visita que o filho de Mr. Rafiel andou fazendo por aqui, um rapaz que não valia nada, e aí contou como a moça se apaixonou por ele, que terminou estrangulando-a, e como tudo tinha sido trágico e horrível. “Com dobre de sinos”, pode-se dizer — acrescentou Miss Marple, usando uma expressão de sua mocidade. — Exagerou muito, mas era uma história terrível, e ela achou que a polícia, pelo jeito, não acreditava que tivesse sido o único crime cometido por ele.
— E a senhora também acha que não tem
nada que ver com as três parcas?
— Acho, sim, só que a moça estava sob a
tutela das três... que gostavam muito dela. Mais nada.
— Será que não saberiam de algo... de
alguma coisa a respeito de outro homem?
— Pois é... bem que gostaríamos que
soubessem, não é? Um outro homem... um sujeito brutal, que não hesitasse em esmigalhar a cabeça de uma moça depois de matá-la. Do tipo que fosse capaz de ficar louco de ciúmes. Existem homens assim.
— Não aconteceu mais nada digno de
nota no Velho Solar?
— Realmente, não. Uma das irmãs, a
mais moça, se não me engano, passou o tempo todo falando no jardim. Até parecia uma jardineira fanática, mas não podia ser porque não sabia o nome da metade das coisas. Armei-lhe uma ou duas ciladas, mencionando plantas raras, especiais, perguntando se as conhecia. Sim, respondeu-me, não são mesmo uma maravilha? Disse então que não eram muito resistentes, e ela concordou. Mas logo vi que não estava entendendo nada. Isso me lembra...
— O quê?
— Olhe, o senhor vai achar que estou
sendo simplesmente tola em matéria de jardins e plantas, mas o que eu quero dizer é que a gente sempre entende de alguma coisa sobre isso. Eu, por exemplo, entendo um pouco de pássaros e de jardins.
— E pelo que vejo não são os pássaros e
sim os jardins que a estão preocupando.
— Exato. O senhor não reparou em duas
mulheres de meia-idade na nossa excursão? Miss Barrow e Miss Cooke.
— Reparei, sim. Duas solteironas já
maduras, viajando juntas.
— Isso mesmo. Pois eu descobri uma
coisa estranha sobre Miss Cooke. É assim que ela se chama, não é? Pelo menos é o nome que figura na lista de passageiros.
— Por quê?... Ela tem outro? — Acho que tem. Foi ela que me visitou...
bom, que me visitou, propriamente, não, mas que esteve do lado de fora da cerca do meu jardim em St. Mary Mead, o lugarejo onde eu moro. Começou a elogiar minhas plantas e a falar sobre jardinagem comigo. Contou que estava morando lá e cuidava do jardim de não sei quem, que se havia mudado para uma casa nova do lugar. Eu tenho a impressão — disse Miss Marple, — sim, eu tenho a impressão de que era tudo mentira. Nesse caso também, ela não entendia nada de jardins. Fingia entender, mas não entendia.
— Por que a senhora acha que ela andava
por lá?
— Na ocasião eu não tinha a mínima
idéia. Ela disse que se chamava Bartlett... e o nome da mulher com quem disse que estava morando começava com “H”, embora de momento não consiga me lembrar. O cabelo dela não só estava penteado de maneira diferente, como a própria cor era outra, e ela se vestia de outro jeito, também. A princípio, durante a viagem, nem a reconheci. Só me perguntava por que a fisionomia dela me parecia vagamente familiar. E aí então, de repente, me lembrei. Era por causa do cabelo pintado. Falei onde a tinha visto antes. Ela confessou que havia estado lá... mas fingiu que ela, também, não tinha me reconhecido. Pura mentira.
— E qual é a sua opinião a respeito de
tudo isso?
— Bem, uma coisa é certa... Miss Cooke
(para chamá-la pelo seu nome atual) foi a St. Mary Mead só para me ver... para se assegurar de que seria capaz de me reconhecer quando tornássemos a nos encontrar...
— E por que a senhora acha que ela fez
isso?
— Sei lá. Há duas explicações. E não
estou segura de que uma delas me agrade muito.
— Não sei — disse o Professor Wanstead,
— mas acho que a mim também não.
Os dois ficaram um instante em silêncio,
e depois o Professor Wanstead acrescentou:
— Não gosto do que aconteceu com
Elizabeth Temple. A senhora conversou com ela durante a viagem?
— Conversei, sim. Assim que ela
melhorar, pretendo conversar com ela de novo... ela poderia me dizer... nos dizer... coisas sobre a moça que foi assassinada. Ela me falou da tal moça... que tinha sido aluna do colégio dela, que ia casar com o filho de Mr. Rafiel... mas não casou. Em vez disso, morreu. Perguntei como ou por que ela havia morrido... e ela me respondeu: com uma só palavra: “Amor!” Interpretei como sendo suicídio... mas era assassinato. Provavelmente causado por ciúmes. Um outro homem. Um outro homem qualquer que precisamos descobrir. Miss Temple talvez possa nos revelar quem foi ele.
— Nenhuma outra hipótese sinistra? — Eu acho, francamente, que nós
precisamos é de informações casuais. Não vejo motivo para acreditar que haja qualquer traço sinistro em nenhum dos passageiros do ônibus... ou nas pessoas que moram no Velho Solar. Mas uma daquelas três irmãs é capaz de saber ou se lembrar de alguma coisa que a moça ou Michael um dia disseram. Clotilde costumava levar a moça ao estrangeiro. Portanto, talvez saiba de algo que tenha ocorrido numa dessas viagens. Algo que a moça disse, mencionou ou fez numa delas. Algum homem que ela tenha conhecido. Algo que não tenha nada que ver aqui com o Velho Solar. É difícil, porque só por meio de conversas, de informações casuais, pode-se encontrar uma pista. A segunda irmã, Mrs. Glynne, casou cedo e me parece que passou certo tempo na Índia e na África. Talvez ficasse sabendo de algo através do marido, ou dos parentes dele, de várias coisas que não estivessem relacionadas aqui com o Velho Solar, apesar de que ela costumava visitá-lo de tempos em tempos. É de se presumir que tenha conhecido a moça assassinada, mas eu acho que ela a conheceu muito menos que as outras duas. Mas isso não significa que não possa saber de alguns fatos marcantes acerca da moça. A terceira irmã já é mais avoada, nunca saiu daqui, e não parece ter conhecido a moça tão bem. Mas mesmo assim, também é capaz de ter informações sobre possíveis amantes... ou namorados... e de tê-la visto em companhia de algum desconhecido. Por falar nisso, lá vai ela, passando agora diante do hotel.
Miss Marple, apesar de entretida na
conversa, não renunciava aos hábitos de uma vida inteira. Uma via pública, para ela, sempre constituía um posto de observação. Todos os passantes, ociosos ou apressados, tinham sido automaticamente notados.
— Anthea Bradbury-Scott... aquela com o
pacotão. No mínimo está indo ao correio. Fica logo dobrando a esquina, não é?
— Parece meio maluca — comentou o
Professor Wanstead, — com todo aquele cabelo esvoaçante... ainda por cima grisalho... uma espécie de Ofélia velhusca.
— Eu também me lembrei de Ofélia, a
primeira vez que a vi. Ah, meu Deus, quem me dera saber o que devo fazer agora. Ficar uns dias aqui no Javali Dourado, ou continuar com a excursão do ônibus? É o mesmo que procurar agulha num palheiro. Se a gente procura bem, termina encontrando alguma coisa... ainda que isso implique em esfolar os dedos.