O estranho
Capítulo 6
Odesej o pelo m undo lá fora só fez crescer. Às vezes, ela os deixava correr na gram a, m as apenas por pouco tem po. E sem pre com um olhar ansioso que o fazia ficar procurando os m onstros que ela dizia estarem escondidos lá fora, os m onstros contra quem só ela poderia protegê-los.
No entanto, apesar do terror, era m aravilhoso. Poder sentir os raios de sol aquecendo seu corpo e a m aneira com o a gram a fazia cócegas nas solas de seus pés. Eles enlouqueciam , ele e a irm ã, e às vezes nem ela conseguia evitar sorrir com o m odo que corriam . Um a vez ela brincara de pega-pega com eles e rolara com eles na gram a. Naquele m om ento, ele sentira felicidade pura e genuína. Mas o som de um carro a distância a faz levantar-se e, com m edo nos olhos, gritar para que corressem para dentro. Eles tiveram que correr tão depressa! E perseguidos pelo terror sem nom e, eles correram para a porta e para cim a, para seu quarto. Ela correu atrás deles e trancou todas as portas da casa. Então eles se encolheram no quarto, abraçados, trêm ulos, am ontoados no chão. Ela prom etia para eles repetidam ente que ninguém os levaria em bora. Ninguém poderia m achucá-los de novo.
Ele acreditara nela. Era grato por ela os proteger, com o um últim o sentinela contra todos aqueles que queriam feri-los. Porém , ao m esm o tem po, ele não conseguia evitar o desej o de voltar lá para fora. Para o brilho do sol. Para a gram a sob os pés. Para a liberdade.
Gösta olhou furtivam ente para Hanna enquanto se dirigiam para o edifício de Kerstin. Ele descobriu que em pouquíssim o tem po ele j á estava encantando com Hanna Kruse. Não daquele j eito suj o de velhote, era m ais um sentim ento paternal. Ela tam bém o fazia se lem brar bastante de sua falecida esposa quando j ovem . Tam bém era loira, de olhos azuis e, assim com o Hanna, pequena, porém forte. Mesm o assim , era óbvio que conversar com parentes não era um a das tarefas preferidas de Hanna. Pelo canto do olho, ele pôde ver com o ela com prim ia a m andíbula e teve que refrear a vontade de colocar a m ão em seu om bro para transm itir-lhe segurança. Algo lhe dizia que ela não ia gostar. Ele estava arriscado a receber um soco de direita.
Eles haviam telefonado antes para avisar a Kerstin que estavam a cam inho e, quando ela abriu a porta, Gösta viu que ela havia tom ado um banho rápido antes que chegassem . Seu rosto não tinha m aquiagem nenhum a e m ostrava a m esm a resignação que ele j á tinha visto tantas vezes antes. Era um a expressão que aparecia no rosto dos entes queridos quando o pior do choque j á passara, tornando o luto m ais nu e agudo. Só agora é que o caráter definitivo do que ocorrera se instalava em seu cérebro.
– Entrem – disse Kerstin, e ele notou que sua pele tinha a palidez esverdeada de quem não saía ao sol havia m uito tem po.
Ainda assim Hanna parecia resoluta quando se sentaram à m esa da cozinha. O apartam ento estava lim po, m as tinha de cheiro de lugar fechado, o que confirm ava a im pressão de Gösta de que Kerstin aparentem ente não havia deixado o apartam ento desde que Marit m orrera. Perguntou-se com o ela obtinha com ida, se ela tinha alguém que fizesse com pras. Com o se respondesse à sua pergunta, ela abriu a geladeira e pegou leite para o café e um a olhadela m ostrou que estava bem abastecida. Ela tam bém serviu roscas que pareciam ter vindo da padaria, então alguém aparentem ente a estava aj udando com as com pras.
– Sabem os de m ais algum a coisa? – ela perguntou, cansada, quando se sentou. Mas parecia estar fazendo a pergunta sim plesm ente porque era um dever, não porque se im portasse. Aquele era outro efeito de enfrentar a dura realidade. Ela havia caído em si de que Marit se fora para sem pre. Essa noção poderia encobrir por um tem po o desej o por respostas, por um a explicação. Apesar de variar bastante, com o Gösta havia aprendido nos seus quase quarenta anos nesse trabalho. Para alguns dos entes queridos, a busca por um a explicação era m ais im portante que qualquer coisa, m as, na m aioria dos casos, era m ais um m eio de postergar o reconhecim ento e a aceitação dos fatos. Mas ele j á vira parentes que viveram em contradição por m uitos anos, às vezes até sua própria j ornada rum o ao túm ulo. Kerstin não era um desses. Ela havia encarado a m orte de Marit, e esse encontro pareceu ter sugado toda a sua energia. Serviu o café com o em câm era lenta.
– Perdão, alguém prefere chá? – ela perguntou confusa.
Gösta e Hanna balançaram a cabeça. Ficaram quietos por um m inuto antes de Gösta finalm ente responder a pergunta feita por Kerstin.
– Sim , tem os novas pistas que estam os investigando – ele parou, incerto do que dizer a ela. Hanna assum iu.
– Encontram os inform ações que apontam para um a conexão com outro assassinato. Em Borås.
– Borås? – Kerstin ecoou, e, pela prim eira vez desde que chegaram , viram um a centelha de interesse em seus olhos. – Mas... Eu não entendo. Borås?
– Sim , nós tam bém ficam os surpresos – disse Gösta, pegando um a rosca. – E é por isso que estam os aqui. Para ver se há algum a conexão entre Marit e a vítim a de Borås.
– O que... quem ? – os olhos de Kerstin m oviam -se. Ela colocou os cabelos atrás da orelha direita.
– Era um hom em na casa dos trinta anos. Rasm us Olsson era seu nom e. Morreu há três anos e m eio.
– Mas eles nunca solucionaram o caso?
Gösta olhou para Hanna.
– Não. A polícia de lá concluiu que foi suicídio. Havia vários indícios de que... – ele atirou as m ãos para cim a.
– Mas Marit nunca m orou em Borås. Pelo m enos não que eu saiba. Se bem que vocês talvez queiram verificar isso com Ola.
– Claro que irem os ter um a conversa com Ola tam bém – disse Hanna.
– Mas não há um a possível conexão que você saiba? Um a das sim ilaridades em am bas as m ortes é que... – ela hesitou – na hora da m orte, eles haviam sido forçados a ingerir um a enorm e quantidade de álcool, apesar de j am ais terem bebido. Marit não era m em bro de nenhum grupo de apoio a alcoólicos, era? Ou m em bro de algum a congregação religiosa?
Kerstin riu e seu sorriso deu-lhe um pouco de cor.
– Marit? Religiosa? Não, eu saberia se ela fosse. Nós sem pre íam os à m issa no dia de Natal, m as foram provavelm ente as únicas vezes que ela pôs os pés em um a igrej a em Fj ällbacka. Ela era com o eu. De m aneira algum a ativam ente religiosa, ainda que m antivesse algo de sua fé da época da infância, um a convicção de que havia algo m aior. Eu espero que sim , pelo m enos, agora m ais do que nunca – ela acrescentou baixinho.
Nem Hanna nem Gösta disse um a palavra. Hanna olhou para a m esa e Gösta achou ter visto seus olhos m arej arem . Ele com preendia. Se bem que fazia anos que ele não chorava na presença de alguém em luto. Mas eles estavam ali para trabalhar, então ele continuou, cauteloso:
– E o nom e Rasm us Olsson não parece fam iliar?
Kerstin sacudiu a cabeça e aqueceu as m ãos na xícara de café.
– Não, nunca ouvi esse nom e antes.
– Então nós não vam os nos aprofundar por ora. Claro que tam bém vam os falar com Ola. E, se você se lem brar de qualquer coisa, ligue para nós, por favor – Gösta se levantou e Hanna o seguiu. Parecia aliviada.
– Eu m anterei contato, de qualquer form a – disse Kerstin, perm anecendo sentada.
À porta, Gösta não resistiu, virou-se e disse a ela:
– Vá lá fora e dê um passeio, Kerstin. O tem po está tão bom . E você precisa de um pouco de ar fresco.
– Agora você parece Sofie – disse Kerstin, sorrindo novam ente. – Mas eu sei que está certo. Talvez eu dê um passeio esta tarde.
– Que bom – disse Gösta e fechou a porta. Hanna não olhou para ele. Ela j á estava a cam inho da delegacia.
Patrik colocou cuidadosam ente sobre a m esa a sacola plástica contendo a m ochila. Não sabia se era necessário, j á que a polícia de Borås havia exam inado a m ochila três anos e m eio atrás, m as por segurança calçou luvas de borracha e não só por razões técnicas. Ele não gostava da ideia de tocar o sangue seco no obj eto.
– Que vida solitária. Trágica pra caram ba – disse Martin, que estava ao lado dele observando.
– Sim , parece que o filho era a única pessoa que ela tinha na vida – disse Patrik com um suspiro, enquanto abria a m ochila.
– Não deve ter sido fácil. Ter um filho e criá-lo sozinha. E depois o acidente... – Martin fez um a pausa. – E depois o assassinato.
– E depois ninguém acreditar nela – Patrik acrescentou, enquanto pegava um obj eto da m ochila. Era um Freesty le, e Patrik im aginou que a m arca dizia m ais sobre a falta de interesse de Rasm us em tecnologia do que gostaria. Esses tocadores de m úsica não se cham avam m ais assim , ele sabia, m as não saberia que nom e tinham hoj e. Um tipo de radinho de pilha com fones de ouvido. Se bem que ele duvidava que ainda funcionasse. Parecia ter tom ado um belo golpe na queda da ponte e quase desm ontou de m aneira preocupante quando Patrik o pegou.
– De que altura ele caiu? – perguntou Martin, puxando um a cadeira e sentando-se ao lado da m esa de Patrik.
– Dez m etros – disse Patrik, ainda concentrado em esvaziar a m ochila.
– Nossa! – disse Martin, fazendo um a careta. – Não deve ter sido um a bela vista.
– Não – disse Patrik. As fotos da cena vieram à sua m ente. Ele m udou de assunto.
– Fico um pouco preocupado sobre com o dividir nossos recursos, agora que tem os que trabalhar em duas investigações ao m esm o tem po.
– Eu sei – disse Martin. – E acho que sei no que está pensando. Que com etem os um erro ao deixar a m ídia nos forçar a um a situação em que deixam os de lado a investigação da m orte de Marit. Mas o que passou passou e não podem os m udar nada agora. Exceto distribuir de m aneira m ais sábia as tarefas entre nossa equipe.
– Sim , sei que está certo – disse Patrik, pegando um a carteira, que colocou sobre a m esa. – Mas ainda é difícil para m im esquecer todas as coisas que devíam os ter feito de form a diferente. E eu não tenho a m enor ideia de com o proceder com a investigação da m orte de Lillem or Persson.
Martin pensou por um instante.
– Tudo que tem os agora, da form a com o eu vej o, são os pelos de cachorro e os vídeos que pegam os com a produção.
Patrik abriu a carteira e com eçou a exam iná-la.
– É, foi o que eu pensei. Os pelos de cachorro são um a pista m uito interessante e tem os que continuar buscando. De acordo com Pedersen, é um a raça incom um ; talvez haj a um a lista de criadores, clubes, algo que possam os usar para rastrear o dono. Digo, com apenas duzentos cães dessa raça na Suécia, deve ser relativam ente fácil encontrar um dono nessa área.
– Parece razoável – disse Martin. – Quer que eu faça isso?
– Não, eu estava pensando que Mellberg deveria fazê-lo. Assim o serviço será feito corretam ente.
Martin lançou-lhe um olhar perverso e Patrik riu.
– Estou brincando! É claro que eu quero que você faça!
– Hahaha, m uito engraçado – Martin ficou sério e se inclinou sobre a m esa. – O que conseguiu aí?
– Nada particularm ente excitante. Duas notas de vinte, um a de dez, um cartão de identificação e um pedaço de papel com o endereço de casa e os telefones de sua m ãe, tanto o residencial quanto o celular.
– Só isso?
– Não, aqui está um a foto dele e Eva – ele a segurou para Martin ver. Um Rasm us j ovem com o braço em torno dos om bros da m ãe, am bos sorriam para a câm era. Rasm us se im punha sobre a m ãe e havia algo de protetor em sua postura. Deve ter sido tirada antes do acidente. Depois daquilo, seus papéis se inverteram . Patrik pôs a foto de volta na carteira, com cuidado.
– Há tanta gente sozinha – disse Martin, olhando para o nada.
– É, com certeza. Está pensando em alguém em particular?
– Bem ... Eu estava pensando em Eva Olsson. Mas tam bém em Lillem or. Im agine não ter ninguém para chorar sua m orte. Am bos os pais m ortos. Nenhum outro parente. Ninguém para notificar. A única coisa que ela deixa são um as duzentas horas de reality shows gravados, que vão acum ular pó em algum arquivo.
– Se ela m orasse m ais perto, eu teria ido ao seu funeral – Patrik disse baixinho. – Ninguém m erece ser sepultado sem ter alguém para lam entar sua m orte. Mas ouvi dizer que o enterro será em Eskilstuna, então eu não vou conseguir com parecer.
Ficaram em silêncio por um m om ento. Podiam visualizar um caixão sendo baixado ao túm ulo, sem fam ília e am igos presentes. Tão triste.
– Um bloco de notas! – Patrik exclam ou de repente, quebrando o silêncio. Era um livro preto, grosso, com extrem idades douradas. Parecia que Rasm us cuidava m uito bem dele.
– O que há nele? – disse Martin.
Patrik folheou algum as das páginas, que estavam com pletam ente preenchidas.
– Acho que são lem bretes sobre os anim ais na pet shop. Olhe aqui: “Hércules, ração três vezes por dia, dar água fresca com frequência, lim par gaiola todos os dias. Gudrun, um rato por sem ana, lim par terrário um a vez por sem ana”.
– Parece que Hércules é um coelho ou porquinho-da-índia ou algo assim e eu chutaria que Gudrun é um a cobra – Martin sorriu.
– Sim , ele era realm ente m eticuloso, aquele Rasm us. Com o a m ãe disse – Patrik passou os olhos por todas as páginas no bloco. Todas pareciam ter anotações sobre os anim ais. Não havia nada que cham asse sua atenção.
– Parece que isso é tudo.
Martin suspirou.
– Bem , eu não esperava que fôssem os encontrar algo de fazer trem er a terra. Mas não custava ter esperança.
Patrik estava devolvendo o bloco de notas ao fundo da m ochila, quando um som cham ou sua atenção.
– Espere, tem algo aqui.
Ele pegou o bloco novam ente, colocou sobre a m esa e enfiou a m ão no fundo da m ochila. Quando retirou o que estava bem lá no fundo, ele e Martin trocaram um olhar incrédulo. Não era algo que esperavam encontrar. Mas provou que indubitavelm ente havia um a conexão entre a m orte de Rasm us e a de Marit.
* * *
Ola não parecia particularm ente feliz quando Gösta ligou para seu celular. Ele estava no trabalho e preferia que eles esperassem para entrevistá-lo. Gösta, irritado com a atitude arrogante de Ola, não estava com hum or generoso; ele m arcou um encontro com Ola para dali m eia hora. Ola resm ungou algo sobre “o poder da autoridade” em seu m elódico sotaque norueguês/sueco, m as nem pensou em protestar.
Hanna ainda parecia estar de m au hum or, e Gösta se perguntou por que enquanto entravam no carro e iam para Fj ällbacka. Tinha a sensação de que poderiam ser problem as dom ésticos, m as ele não a conhecia bem o bastante para perguntar. Só torcia para não ser nada sério. Ela não parecia nem um pouco interessada em papo furado, então ele a deixou em paz. Assim que passaram pelo cam po de golfe em Anrås, ela olhou pela j anela e perguntou:
– Esse cam po de golfe é bom ?
Gösta estava m ais do que disposto a aceitar essa trégua.
– É m aravilhoso! O sétim o buraco em particular é bem desafiador. Eu até j á fiz um hole-in-one um a vez aqui. Mas não no sétim o buraco.
– Bem , eu aprendi o suficiente sobre golfe para saber que um hole-in-one é bom – disse Hanna, dando o prim eiro sorriso do dia. – Eles abriram um cham panhe no clube? Não é esse o costum e?
– Pode apostar! – disse Gösta, seu rosto se ilum inou com a lem brança. – Eles m e ofereceram cham panhe e no geral foi um a grande rodada de golfe. Minha m elhor até hoj e, na verdade.
Hanna riu.
– Não deve ser exagero dizer que você foi picado pelo m osquito do golfe.
Gösta olhou para ela com um sorriso, m as teve que voltar os olhos para a estrada quando entraram em um a faixa estreita logo após Mörhult.
– Bem , eu não tenho m uito m ais o que fazer – ele disse e seu sorriso m orreu.
– Você é viúvo, pelo que sei – Hanna disse, gentilm ente. – Não tem filhos?
– Não – ele não continuou. Não queria falar sobre o garoto, que agora seria um adulto se tivesse sobrevivido.
Hanna não perguntou m ais nada, e eles perm aneceram em silêncio até chegar ao destino. Quando saíram do carro, viram m uitos olhos curiosos voltarem -se para eles. Um Ola irritado veio ao encontro dos dois assim que passaram pelas portas.
– Bem , eu realm ente espero que isso sej a im portante para m e perturbarem no m eu trabalho. Todos vão falar nisso por sem anas.
Gösta entendeu o que ele queria dizer e, na verdade, eles poderiam ter esperado m ais um a hora. Mas havia algo em Ola que não agradava Gösta. Sua reação poderia até não ser digna ou profissional, m as era com o ele se sentia.
– Vam os para o m eu escritório – disse Ola. Gösta tinha ouvido Patrik e Martin descreverem a casa extrem am ente organizada de Ola, então não ficou surpreso quando viu o escritório. Hanna, por outro lado, conhecia tal inform ação, então ergueu um a sobrancelha. A m esa era clinicam ente lim pa. Nem um a caneta, nem um clipe de papel m aculavam sua superfície brilhante. A única coisa sobre a m esa era um m ata-borrão verde colocado exatam ente no m eio da m esa. Em um a das paredes, havia um a estante lotada de pastas de correspondência. Dispostas perfeitam ente em fileiras retas, com etiquetas em caligrafia perfeita. Não havia nada fora do lugar.
– Sentem -se – disse Ola, apontando as cadeiras para visitantes. Ele sentou-se atrás de sua m esa e debruçou-se no tam po. Gösta não conseguiu evitar de pensar se ele iria ficar com m anchas brilhantes nos cotovelos do paletó, por conta das grandes quantidades de lustra-m óveis que j á deviam ter sido aplicadas para deixar a m esa tão brilhante. Ele provavelm ente conseguia ver o próprio rosto nela.
– Então, do que se trata?
– Estam os investigando um a possível conexão entre a m orte de sua ex-esposa e outro assassinato.
– Outro assassinato? – disse Ola, parecendo por um instante deixar cair sua m áscara de autocontrole. Um segundo depois, ela estava de volta no lugar.
– Que assassinato? Daquela loira burra?
– Você quer dizer Lillem or Persson? – disse Hanna. Sua expressão dem onstrava claram ente o que ela achava de Ola falar de form a tão depreciativa sobre a garota assassinada.
– Sim , certo – Ola fez um gesto de desdém , m ostrando com igual clareza que não se im portava o m ínim o com a opinião de Hanna sobre o m odo com o se expressava.
Gösta sentiu que gostaria m uito de provocar o cara. Tinha um a vontade enorm e de pegar as chaves de seu carro e fazer um arranhão de lado a lado naquela m esa brilhante. Qualquer coisa para desequilibrar Ola e corrom per sua perfeição repulsiva.
– Não, nós não estam os falando do assassinato de Lillem or Persson – o tom de Gösta era frio. – Estam os falando de um assassinato em Borås. O nom e da vítim a era Rasm us Olsson. Sabe quem é?
Ola pareceu genuinam ente chocado. Mas isso não significava nada. Gösta j á se deparara com inúm eros bons atores ao longo de sua carreira. Alguns eram bons o suficiente para trabalhar no Roy al Dram atic Theatre.
– Borås? Rasm us Olsson? – suas palavras soavam com o um eco da conversa que tiveram com Kerstin um a hora antes. – Não, não reconheço esse nom e. Marit nunca m orou em Borås. E ela não conhecia nenhum Rasm us Olsson. Pelo m enos não enquanto estivem os j untos. Depois disso, eu não tenho ideia do que ela fez. Tudo é possível, considerando a profundidade do poço em que ela se enfiou – sua voz transbordava desprezo.
Gösta m eteu a m ão no bolso e tocou as chaves do carro. Seus dedos coçavam para desfigurar aquela m esa.
– Então você não sabe de nenhum a conexão entre Marit e Borås ou a pessoa que m encionam os? – Hanna repetiu a pergunta de Gösta e Ola olhou para ela.
– Não estou sendo claro? Em vez de m e forçar a repetir tudo, talvez vocês devessem estar tom ando notas.
Gösta apertou as chaves. Mas Hanna não pareceu abalada pelo tom sarcástico de Ola. Ela prosseguiu, calm am ente:
– Rasm us tam bém era abstêm io. Poderia ser essa a conexão? Algum tipo de grupo de aj uda a alcoólicos ou coisa assim ?
– Não. Não há conexão e eu não entendo por que estão fazendo tanto alarde do fato de Marit não beber. Ela só não se interessava – ele levantou-se. – Se não têm m ais nenhum a pergunta relevante, vou voltar ao trabalho. Da próxim a vez, prefiro que m e visitem em m inha casa.
Na falta de m ais perguntas e sinceram ente querendo sair daquele escritório e de perto de Ola, Gösta e Hanna levantaram -se. Nem se incom odaram em cum prim entá-lo ou dizer adeus. Tam anhos gracej os pareciam perda de tem po.
O encontro com Ola não rendeu nenhum a inform ação nova. E ainda assim , havia algo que incom odava Gösta enquanto ele e Hanna se dirigiam de volta a Tanum shede. Havia algo na reação de Ola, algo dito ou velado, que continuava atazando-o. Mas não conseguia definir o que era.
Hanna tam bém estava em silêncio. Olhava para a paisagem e parecia envolvida em seu próprio m undo. Gösta pensou em dar-lhe a m ão e dizer algo consolador. Mas deixou estar. Nem sabia se havia algo pelo que consolá-la.
Com o pai no trabalho, era gostoso e calm o estar no apartam ento. Sofie preferia ficar em casa sozinha. Seu pai estava sem pre pegando no seu pé sobre a lição de casa, perguntando onde ela esteve, para onde ia, com quem falava ao telefone, por quanto tem po. Chato, chato, chato. E além disso, ela tinha que verificar a toda hora se tudo estava perfeitam ente em ordem . Nada de m arcas de copo na m esa de centro, nada de louça suj a na pia; seus sapatos tinham que estar em linhas retas na sapateira, não podia haver fios de cabelo na banheira depois de ela sair do banho. A lista não tinha fim . Ela sabia que essa fora um a das razões para Marit ter decidido ir em bora; Sofie ouvia as discussões e, quando tinha dez anos, j á conhecia cada nuance das brigas. Mas sua m ãe agarrara a oportunidade de ir em bora. E enquanto Marit era viva, Sofie tinha aproveitado a chance de ter um espaço para respirar a cada duas sem anas, longe da perfeição absoluta exigida por seu pai. Com Kerstin e Marit, ela podia colocar os pés na m esinha de centro, guardar a m ostarda na prateleira da geladeira em vez de na porta e deixar as franj as do tapete ry a em um a bagunça controlada, em vez de deixá-las linhas retas e penteadas. Era m aravilhoso e isso tam bém a tornava apta a suportar a sem ana seguinte, de rigorosa disciplina. Mas agora não havia m ais liberdade, não havia m ais escapatória. Ela estava presa ali, entre todas as coisas brilhantes e lim pas, onde ela sem pre estava sendo interrogada e questionada. O único m om ento em que podia respirar era quando voltava m ais cedo da escola. Era quando ela se perm itia pregar pequenas peças rebeldes. Com o se sentar no sofá branco com seu chocolate quente, tocando m úsica pop no CD play er de Ola e bagunçando as alm ofadas do sofá. Mas ela colocava tudo de volta no lugar antes que ele chegasse em casa. Nem um traço de desordem evidente quando Ola entrava pela porta. Sua única preocupação era que um dia ele voltasse cedo do trabalho e a pegasse no flagra. Mas isso era altam ente im provável. Seu pai teria de estar à beira da m orte para sequer pensar em sair do trabalho um m inuto antes. Com o gerente da em presa, ele sentia a necessidade de dar o exem plo e tinha tolerância zero para atrasos, licença para doença ou ir para casa m ais cedo – tanto para ele quanto para seus subordinados.
Era Marit quem representava o carinho. Sofie via isso claram ente agora. Ola representava tudo o que era óbvio, lim po e frio, enquanto Marit era a segurança, o carinho e um a pitada de caos e alegria. Sofie sem pre se perguntara o que eles tinham visto um no outro. Com o duas pessoas tão diferentes se encontraram , se apaixonaram , se casaram e tiveram um a filha? Para Sofie, isso era um m istério desde que ela conseguia se lem brar.
De repente, algo ocorreu a ela. Ainda faltava um a hora para seu pai chegar do trabalho. Foi até o quarto de Ola, que antes pertencia à sua m ãe. Sabia onde tudo estava guardado. No arm ário no canto oposto. Um a grande caixa com todas as coisas que Ola cham ava de “Bobagem sentim ental de Marit”, m as da qual ainda não tinha se livrado. Sofie se surpreendeu que sua m ãe não tivesse levado a caixa com ela quando se fora, m as talvez quisesse deixar tudo para trás quando com eçou um a nova vida. Tudo que ela queria levar consigo era Sofie. Isso bastava.
Sofie sentou-se no chão e abriu a caixa. Estava cheia de fotografias, notícias de j ornal, um cacho dos cabelos de Sofie de quando era bebê e as pulseiras de plástico que haviam sido colocadas nela e em Marit na m aternidade, para m ostrar que um a pertencia à outra. Sofie pegou um a caixinha que fazia barulho e, quando abriu, ficou com noj o ao ver dois dentinhos dentro. Só podiam ser dela. Mas isso não os tornava m enos noj entos.
Ela passou m eia hora olhando lentam ente o conteúdo da caixa. Depois de exam inar todos os obj etos, ela os separou em pilhas no chão. Foi um choque ver que as fotos de Marit adolescente m ostravam um a garota idêntica a ela. Ela nunca achara as duas m uito parecidas. Mas isso a deixou feliz. Ela olhou com atenção para a foto do casam ento de Marit e Ola, em um a tentativa de antever todos os problem as que se seguiriam . Ali eles j á sabiam que seu casam ento j am ais iria durar? Ela podia quase sentir que sim . Ola parecia severo, m as satisfeito. Marit tinha um a expressão quase de indiferença; parecia ter bloqueado qualquer em oção. Ela definitivam ente não parecia um a noiva feliz e radiante.
Os recortes de j ornal estavam ficando am arelados e farfalharam quando ela os tocou. Lá estava o anúncio do casam ento, do nascim ento de Sofie, instruções de com o tricotar m eias para bebê, receitas para j antares festivos, artigos sobre doenças infantis. Sofie sentiu com o se estivesse segurando a vida de sua m ãe nas m ãos. Quase podia sentir Marit sentada ao seu lado e rindo dos artigos que havia guardado, sobre com o lim par um forno e com o preparar o pernil de Natal perfeito. Sentiu Marit pôr a m ão em seu om bro e sorrir quando Sofie pegou um a foto de sua m ãe na m aternidade, segurando um pacotinho verm elho e enrugado. Marit estava tão feliz naquela foto. Sofie pôs a m ão no próprio om bro, im aginando que ela estivesse sobre a m ão de sua m ãe. Sentia o calor se espalhar da m ão de Marit para a sua. Mas a realidade estava de volta. Ela experim entou apenas a lã de sua blusa sob a m ão, que estava fria com o gelo. Ola sem pre deixava o aquecim ento da casa em nível baixo para econom izar na conta de eletricidade.
Quando ela chegou ao artigo que estava no fundo da caixa, de início pensou que teria sido colocado lá por engano. Ela não conseguia entender o sentido do título e virou o artigo para ver o que havia na parte de trás que pudesse ter feito Marit arrancá-lo do j ornal. Mas era apenas um anúncio de detergente para roupas. Ansiosa, com eçou a ler o artigo e depois de apenas um a frase sentiu seu corpo endurecer. Com olhos incrédulos, ela continuou lendo até ter engolido cada sentença, cada letra de cada palavra. Isso não podia estar certo. Sim plesm ente não podia.
Sofie cuidadosam ente devolveu tudo na caixa e a colocou em seu lugar dentro do arm ário. Em sua m ente, os pensam entos giravam desordenadam ente.
– Annika, pode m e aj udar com um a coisa? – Patrik largou-se em um a cadeira no escritório de Annika.
– Claro, sem problem as – ela disse, olhando para ele preocupada. – Você está péssim o.
Patrik não tinha alternativa exceto rir.
– Obrigado, agora eu m e sinto m uito m elhor.
Annika não se incom odou com seu tom sarcástico, m as continuou repreendendo-o.
– Vá para casa, com a, descanse. O ritm o em que vem trabalhando é desum ano.
– Sim , obrigado, eu sei – Patrik disse, com um suspiro. – Mas que diabos vou fazer? Duas investigações de assassinato ao m esm o tem po, a m ídia nos atacando com o se fosse um a alcateia e agora um a delas aponta para um a conexão bem longe da divisa do condado. É para isso que eu quero sua aj uda, na verdade. Poderia entrar em contato com os dem ais distritos de polícia do país e fazer um a pesquisa sobre todos os casos não resolvidos ou investigações de acidentes fatais ou suicídios com essas características?
Ele entregou a Annika um a lista com alguns pontos que ele reunira. Ela os leu com cuidado, ficou sobressaltada com o últim o e olhou para ele.
– Você acha que tem m ais casos?
– Eu não sei – disse Patrik, fechando os olhos por um m om ento, enquanto m assageava o dorso do nariz. – Mas talvez encontrem os a ligação entre a m orte de Marit Kaspersen e o caso em Borås, e eu só quero ter certeza de que não há casos sim ilares.
– E você está pensando em um crim inoso em série? – disse Annika, obviam ente um tanto relutante à sim ples m enção da ideia.
– Não, na verdade não. Não por ora, pelo m enos. Mas podem os ter perdido algum a conexão óbvia entre as duas vítim as. Apesar de a definição de crim inoso em série ser duas ou m ais vítim as em seguida, acredito que tecnicam ente sej a isso que estam os procurando – sorriu para ela, sardônico. – Mas não diga isso para a im prensa. Pode im aginar o bafafá que isso causaria. Pense nas m anchetes: “Serial killer ataca Tanum shede” – ele riu, m as Annika não viu graça naquilo.
– Eu vou m andar um pedido de busca. Mas vá para casa agora. Nesse exato m inuto.
– São só quatro da tarde – Patrik protestou, apesar de não querer outra coisa senão aceitar o conselho de Annika. Ela tinha um ar m aternal que fazia até hom ens crescidos quererem se sentar no colo dela e deixar que ela acariciasse seus cabelos. Patrik pensou que era um a pena ela não ter seus próprios filhos. Sabia que Annika e seu m arido Lennart haviam tentado por anos, sem sucesso.
– Você não aj uda a ninguém no estado em que está, então vá para casa, descanse e volte am anhã, com energia renovada. E eu cuido disso, você sabe que sim .
Patrik lutou consigo m esm o por um m om ento e com sua consciência pesada, m as decidiu que Annika estava certa. Ele se sentia esgotado e inútil para qualquer coisa.
Erica pôs a m ão na de Patrik e virou-se a fim de olhar para ele. Ela desviou o olhar para a água, enquanto andavam pela praça Ingrid Bergm an. Respirou fundo. O ar estava frio, m as fresco devido à prim avera, e o pôr do sol dava um a coloração averm elhada ao horizonte.
– Que bom que você conseguiu vir para casa m ais cedo hoj e. Você parece tão cansado ultim am ente – ela disse enquanto inclinava a cabeça para encostar o rosto no om bro dele. Patrik a puxou para m ais perto.
– Estou feliz por ter voltado tam bém . E eu não tive escolha, na verdade;
Annika praticam ente m e em purrou para fora da delegacia.
– Me lem bre de agradecer a ela na prim eira oportunidade – Erica sentia o coração leve, m as parecia pesada sobre seus pés. Eles tinham chegado apenas na m etade do cam inho para o m onte Långbacken e tanto ela quanto Patrik j á estavam um pouco sem ar.
– Nós não estam os exatam ente na m elhor form a, não é? – ela disse, arfando com o um cão para m ostrar com o estava sem fôlego.
– Não, acho que não – disse Patrik, tam bém arfando. – Pra você tudo bem , com um trabalho em que pode ficar sentada o dia todo, m as eu na polícia é um a desgraça.
– De j eito nenhum – disse Erica, beliscando a bochecha dele. – Você é o m elhor que eles têm .
– Que Deus aj ude os habitantes da com unidade de Tanum shede, nesse caso – ele disse, rindo. – Devo dizer que a dieta da sua irm ã funcionou, pelo m enos um pouco. Minhas calças estavam um pouco m ais largas, hoj e de m anhã.
– Isso é bom . Mas você reparou que faltam apenas algum as sem anas, não? Então tem os que nos esforçar até lá.
– E então nós vam os poder nos em panturrar e engordar j untos – disse Patrik, virando à esquerda, no m ercado de Eva.
– E envelhecer. Nós podem os envelhecer j untos.
Ele a puxou para m ais perto e disse, sério:
– E envelhecer j untos. Você e eu. Num asilo. E Maj a virá nos visitar um a vez por ano. Porque nós vam os am eaçar deixá-la fora do testam ento se não vier.
– Pare, você é horrível – disse Erica, dando-lhe um soco no braço. – Nós vam os m orar com Maj a quando form os velhos, você sabe. O que significa que terem os que afugentar todos os futuros pretendentes dela.
– Sem problem as. Eu tenho porte de arm a.
Chegaram à igrej a e pararam por um m om ento. Am bos olharam para o cam panário que se im punha sobre eles. A igrej a era um a estrutura sólida, construída em granito e localizada no ponto m ais alto da cidade de Fj ällbacka, com vista para m ilhas e m ilhas de água.
– Quando era pequena, eu sonhava em m e casar aqui – Erica disse. – E esse dia sem pre pareceu tão longe. Mas agora estou aqui. Agora sou adulta, tenho um a filha e estou m e casando. Não parece m eio absurdo às vezes?
– Absurdo é só o com eço – disse Patrik. – Não se esqueça de que eu, além disso, sou divorciado. Isso, em ser adulto, conta m uitos pontos.
– Claro. Com o eu m e esqueceria de Karin? – Erica disse, rindo. E m esm o assim havia am argura em sua voz, com o sem pre existia quando ela falava da ex-esposa de Patrik. Erica não tinha um a natureza cium enta e definitivam ente não queria que Patrik fosse um virgem de trinta e cinco anos quando o conheceu, m as pensar nele com outra m ulher não era nada agradável.
– Vam os ver se está aberta? – disse Patrik, indo em direção à porta da igrej a.
Encontram -na destrancada e entraram cautelosam ente, incertos se estariam quebrando algum a regra. Alguém no altar virou-se para eles.
– Olá – era o pastor de Fj ällbacka, Harald Spj uth, que estava alegre com o sem pre. Patrik e Erica só tinham ouvido coisas boas sobre ele e não viam a hora que ele os casasse.
– Vieram ensaiar um pouco? – ele disse, vindo cum prim entá-los.
– Não, estávam os passeando e pensam os em entrar – disse Patrik, apertando a m ão do pastor.
– Bem , deixem -m e parar de incom odá-los – disse Harald. – Estou só m exendo nas coisas, fiquem à vontade. E se tiverem qualquer dúvida antes da cerim ônia, podem perguntar. Pensei em fazerm os um ensaio um a sem ana antes.
– Parece ótim o – disse Erica, gostando m ais dele a cada m inuto. Ela ouvira falar que ele encontrara um am or na m aturidade e agora tinha com panhia no presbitério e isso a agradava m uito. Nem as m ais idosas e devotas senhoras m anifestaram qualquer reclam ação sobre o fato de Harald ainda não ter se casado com Margareta, que ele conheceu em um a página de relacionam entos. Estavam “vivendo em pecado” j untos no presbitério. Tam anha tolerância dizia m uito sobre sua popularidade.
– Pensei em term os rosas verm elhas e cor-de-rosa para decorar a igrej a. O que acha disso? – disse Erica, olhando em volta.
– Acho m uito bom – disse Patrik, distraidam ente. Quando viu a expressão no rosto dela, sentiu um a pontada de culpa. – Erica, sinto m uito que você tenha que carregar um fardo tão pesado. Eu queria poder m e envolver m ais com os planos, m as... – Erica pegou a m ão dele.
– Eu sei, Patrik. E você não precisa ficar se desculpando. Eu tenho Anna para m e aj udar. Nós vam os cuidar de tudo. Quero dizer, é um a cerim ônia pequena, não pode ser difícil.
Patrik ergueu a sobrancelha e ela riu.
– Está bem , está dando m uito trabalho. E exigindo m uito planej am ento. E tentar m anter sua m ãe no lugar dela não está sendo fácil. Mas é divertido tam bém . É m esm o, de verdade.
– Tudo bem então – disse Patrik, sentindo-se um pouquinho m enos culpado.
Quando saíram da igrej a, o pôr do sol tinha dado lugar à noite. Eles lentam ente fizeram o cam inho de volta, por Långbacken e para o sul, na direção de Sälvik. Os dois aproveitaram o passeio e o tem po para conversar, m as estavam ansiosos para voltar para casa antes da hora de colocar Maj a para dorm ir.
Fazia tem po que Patrik não se sentia tão contente com sua vida. Graças a Deus havia coisa que com pensavam toda a parte ruim . Aquilo o enchia de energia o bastante para ser capaz de seguir em frente.
A escuridão descia sobre Fj ällbacka. O cam panário da igrej a agigantava-se sobre a cidade. Observando-a. Protegendo-a.
Em seu apartam entinho em Tanum shede, Mellberg corria com o um louco. Agora se dava conta de com o tinha sido idiota de convidar Rose-Marie para j antar tão em cim a da hora. Mas ele tinha tanta saudade dela. Queria ouvir sua voz, conversar com ela, saber com o foi seu dia, saber o que estava pensando. Então, ele telefonou. E ouviu a si m esm o perguntando se ela gostaria de vir j antar com ele às oito.
Então agora ele estava ligado à toda no “m odo pânico”. Correu da delegacia para casa às cinco e olhava atordoado para todas as m ercadorias no superm ercado. Seu cérebro estava paralisado. Nenhum a ideia do que fazer para o j antar vinha à m ente e, considerando suas lim itadas habilidades na cozinha, isso não era lá m uito estranho. Mellberg tinha instinto de autopreservação suficiente para saber que provavelm ente era m elhor não arriscar nada em alta gastronom ia; algo pronto para com er seria m elhor. Peram bulou pelas gôndolas, desam parado, até que Mona, um a m ocinha am igável que trabalhava lá, veio até ele e perguntou se procurava algo em particular. Mellberg desem buchou seu dilem a abruptam ente e ela o guiou calm am ente até o balcão de com ida pronta. Com eçou com frango grelhado, depois ela o aj udou a encontrar a salada de batatas, alface e vegetais para um a salada variada, baguetes saídas do forno e sorvete para a sobrem esa. Podia até não ser digno de um gourm et, m as pelo m enos era algo que ele não podia estragar.
Quando chegou em casa, correu por um a hora tentando restaurar a ordem que seu apartam ento não via desde a sexta-feira anterior. Agora lá estava ele tentando fazer a m elhor apresentação possível. Acabou sendo um desafio m aior que im aginava. Com as m ãos engorduradas, olhou para o frango, que parecia olhar de volta para ele com desprezo. Um feito, considerando que a cabeça do bicho fora cortada havia tem pos.
– Com o diabos...? – ele praguej ou, puxando um a asinha. Com o iria arrum ar essa coisa de m aneira apetitosa no prato para servir? Era escorregadio com o um a enguia. Finalm ente, ele se cansou de tentar fazê-lo de form a organizada e sim plesm ente arrancou um peito e um a coxa para cada um deles e os colocou no prato. Aquilo ia servir. Então acrescentou um a bela colherada de salada de batatas ao lado e com eçou a preparar a salada. Fatiar pepinos e tom ates pelo m enos era algo que ele conseguia fazer. Despej ou a salada em um a tigela plástica grande. Era verm elha e estava um pouco arranhada, m as ele não tinha m uito em term os de louça para servir. E a coisa m ais im portante era o vinho, de qualquer form a. Ele abriu um vinho tinto e pôs sobre a m esa. Só para garantir, tinha duas outras garrafas no arm ário. Não queria deixar nada para a sorte. “É hoj e”, ele pensou, assobiando alegrem ente. Pelo m enos ela não poderia reclam ar que ele não havia se esforçado. Ele nunca tivera tanto trabalho com um a m ulher. Jam ais. Nem se j untasse todas elas.
O últim o detalhe necessário para criar um clim a era a m úsica. Sua coleção de CDs era bem escassa, m as ele tinha um com os grandes sucessos de Sinatra. Ele o havia com prado em um a prom oção no posto de gasolina. No últim o instante, pensou que deveria acender algum as velas tam bém , e então deu um passo atrás e adm irou a cena. Mellberg estava m uito satisfeito consigo m esm o. Ninguém poderia dizer que ele não era um diabinho rom ântico.
Tinha acabado de trocar de cam isa quando a cam painha tocou. Viu pelo relógio que ela estava dez m inutos adiantada, então rapidam ente enfiou a cam isa para dentro da calça.
– Droga – ele praguej ou, quando viu que seu penteado, que cobria a calvície, havia despencado. Quando a cam painha tocou novam ente, ele correu para o banheiro para tentar pentear os fios de volta de um lado para o outro da cabeça. Estava acostum ado a fazer isso, então em pouco tem po conseguiu um a cobertura m inuciosa de sua careca. Depois de um a últim a olhada no espelho, pensou que estava bem estiloso.
Pelo olhar adm irado que recebeu de Rose-Marie quando abriu a porta, ele soube que ela concordava com sua opinião. Só de vê-la, ele ficou sem fôlego. Ela usava um vestido verm elho brilhante, com um pesado colar de ouro com o única j oia. Enquanto pegava seu casaco, inalou a essência de seu perfum e e fechou os olhos por um m om ento. Ele não sabia o que havia naquela m ulher que o afetava tanto. Sentiu as m ãos trêm ulas quando pendurou o casaco dela e forçou-se a respirar fundo para se equilibrar. Não seria bom agir com o um adolescente nervoso.
A conversa fluiu com facilidade durante o j antar. Os olhos de Rose-Marie dançavam à luz das velas. Mellberg contou a ela m uitas histórias de sua carreira na polícia, encoraj ado por seu interesse óbvio. Eles beberam duas garrafas de vinho, da entrada à sobrem esa. Então foram para o sofá da sala, para beber café e conhaque. Mellberg sentia a tensão no ar e sabia que iria se dar bem essa noite. Rose-Marie dirigiu-lhe um olhar que só poderia significar um a coisa. Mas não queria pôr tudo em risco, dando o bote no m om ento errado. Ele sabia quanto as m ulheres são sensíveis quando o assunto é o m om ento certo. Finalm ente, não pôde m ais resistir. Viu as faíscas nos olhos de Rose-Marie, bebeu um bom gole de conhaque e se lançou para o ataque.
Ah, sim , ele se deu bem . Mellberg pensou que tinha m orrido e ido para o paraíso. Naquela noite, ele adorm eceu com um sorriso nos lábios enquanto flutuava em direção a um sonho com Rose-Marie. Pela prim eira vez na vida, Mellberg estava feliz nos braços de um a m ulher. Virou-se de barriga para cim a e com eçou a roncar. No escuro, ao seu lado, estava Rose-Marie, olhando para o teto. Ela tam bém sorria.
– Que diabos é isso? – Mellberg entrou com o um a tem pestade na delegacia, às dez da m anhã. Ele j á não tinha o m elhor hum or de m anhã, m as hoj e ele parecia m ais esgotado que o norm al.
– Você viu isso? – ele agitou um j ornal e passou rapidam ente por Annika, abrindo a porta de Patrik sem bater.
Annika esticou o pescoço para ter um a m elhor visão do que estava acontecendo, m as podia ouvir apenas palavrões esparsos vindos do escritório de Patrik.
– Do que está falando? – disse Patrik calm am ente, assim que Mellberg term inou de vom itar insultos. Fez um gesto para que o chefe se sentasse. Mellberg aparentava estar a ponto de ter um infarto e Patrik, m esm o que em seus m om entos de fraqueza pudesse ter desej ado a m orte do hom em , não queria que ele m orresse em seu escritório.
– Você viu isso? Aqueles m alditos... – Mellberg estava tão furioso que nem conseguia falar. Em vez disso, bateu com o j ornal na m esa de Patrik. Sem saber para onde deveria olhar, m as cheio de pressentim entos, Patrik virou o j ornal para poder ler a m anchete. Quando viu as letras em preto, tam bém sentiu a raiva ferver dentro de si.
– Mas que m erda! – ele disse e Mellberg só conseguiu assentir e cair na cadeira diante da m esa de Patrik, com um estrondo.
– Onde eles conseguiram essa porra? – disse Patrik, balançando o j ornal.
– Não tenho a m enor ideia – disse Mellberg. – Mas quando eu pegar o infeliz, eu vou...
– O que m ais diz aqui? Vam os ver, caderno principal – com dedos trêm ulos, Patrik abriu o j ornal e com eçou a ler, sua expressão ficando m ais nervosa a cada segundo.
– Aqueles... aqueles... m alditos...
– Sim , é um a organização excelente, o terceiro estado do poder – disse Mellberg, sacudindo a cabeça.
– Martin precisa ver isso – disse Patrik, ficando de pé. Ele foi para a porta, cham ou o colega e voltou a sentar-se.
Alguns segundos depois, Martin estava parado na porta.
– Pois não?
Sem um a palavra, Patrik segurou a prim eira página do j ornal vespertino. Martin leu, em voz alta:
– “Hoj e: Exclusivo – trecho do diário da vítim a de assassinato. Ela conhecia seu algoz?” – ele ficou sem palavras e olhou incrédulo para Patrik e Mellberg.
– No caderno principal há um trecho real do diário dela – Patrik disse, som briam ente. – Aqui, leia – ele deu o j ornal a Martin. Ninguém disse um a palavra enquanto ele lia.
– Isso aqui está certo? Acham que é real? Ela tinha m esm o um diário? Ou o j ornal inventou tudo?
– Terem os que descobrir. Não há tem po a perder. Quer vir conosco, Bertil? – ele perguntou, obedientem ente.
Mellberg pareceu considerar por um instante, m as depois sacudiu a cabeça.
– Não, eu tenho coisas im portantes a cuidar. Vão vocês dois.
Cansado com o Mellberg parecia, a coisa im portante provavelm ente consistia em tirar um a soneca, Patrik pensou. Mas estava feliz por Mellberg não vir com eles.
– Então, vam os em bora – Patrik disse, acenando para Martin.
Rapidam ente estavam no centro com unitário. A delegacia de polícia ficava em um a ponta da curta avenida principal de Tanum shede e o centro com unitário, na outra, por isso levou m enos de cinco m inutos para chegarem lá à pé. A prim eira coisa que fizeram foi bater na porta do ônibus que estava estacionado do lado de fora. Se tivessem sorte, o produtor estaria lá, senão teriam que telefonar para ele.
Estavam com sorte, porque a voz que lhes disse para entrar pertencia inquestionavelm ente a Fredrik Rehn. Estava dando um a olhada na transm issão da m anhã, com um dos técnicos, e virou-se irritado quando entraram .
– O que é dessa vez? – ele disse, não escondendo o fato de que via a investigação policial com o um a interrupção problem ática ao seu trabalho. Mais precisam ente, ele adorava a atenção que a investigação trazia à série, m as detestava que a polícia ocasionalm ente o fizesse perder tem po e incom odasse o elenco.
– Gostaríam os de ter um a conversa com você. E com o elenco. Cham e o grupo todo e diga a eles para virem ao centro com unitário. Agora – a paciência de Patrik estava dim inuindo e ele não tinha a m enor intenção de perder tem po com frases polidas.
Fredrik Rehn, que não entendia a gravidade da raiva que estava enfrentando, tentou protestar com um a voz m anhosa:
– Mas eles estão trabalhando. E nós estam os film ando. Você não pode sim plesm ente...
– AGORA! – gritou Patrik, e tanto Rehn quanto os técnicos pularam de m edo.
Resm ungando, o produtor pegou seu telefone e com eçou a ligar para o celular de cada um dos participantes. Depois de cinco ligações, ele voltou-se para Patrik e Martin e disse, azedo:
– Missão cum prida. Ele estarão aqui em poucos m inutos. Posso perguntar o que é tão im portante assim para vocês terem invadido este lugar aqui e m e interrom pido no m eio de um proj eto de m ilhões de coroas? O qual, a propósito, é apoiado pelo governo local, por conta do enorm e benefício que proporcionará a esta com unidade!
– Te digo em poucos m inutos – disse Patrik, enquanto deixava o ônibus com Martin. Pelo canto do olho, ele viu Rehn pegar o telefone novam ente.
Um a um , os m em bros do elenco se agruparam no centro com unitário. Alguns pareciam irritados por terem sido tirados do trabalho tão de repente, enquanto outros, com o Uffe e Calle, pareciam agradecer pela interrupção.
– O que houve? – disse Uffe, sentando-se na beira do palco grande. Pegou um m aço de cigarros e com eçou a acender um . Patrik pegou o cigarro ainda apagado de sua boca e o atirou em um a lata de lixo.
– É proibido fum ar aqui.
– Que porra é essa? – disse Uffe com raiva, m as não ousou protestar com m uito m ais vigor. Algo na expressão de Patrik e Martin lhe dizia que eles não estavam ali para falar de norm as anti-incêndio.
Exatam ente oito m inutos depois de Patrik bater na porta do ônibus, a últim a participante entrou.
– O que foi agora? Que clim a de funeral está nesse lugar – disse Tina, rindo, enquanto se j ogava em um a das cam as.
– Cale a boca, Tina – disse Rehn, apoiando-se contra a parede de braços cruzados. Tinha a intenção de assegurar que a interrupção fosse o m ais breve possível. E j á havia com eçado a telefonar para seus contatos. Não estava disposto a aguentar nenhum abuso de autoridade. Ele era bem pago dem ais para isso.
– Vocês todos estão aqui porque nós querem os saber um a coisa – Patrik olhou para todos, encarando um participante por vez. – Eu quero saber quem encontrou o diário de Lillem or. E quem o vendeu a um j ornal sensacionalista.
Rehn franziu testa. Parecia perplexo.
– Diário? De que porra de diário você está falando?
– Do diário do qual o Evening News publicou trechos hoj e – disse Patrik sem olhar para ele. – Em toda a prim eira página.
– Estam os na prim eira página hoj e? – disse Rehn, ilum inando-se. – Cara, isso é ótim o. Eu tenho que ver isso...
Um olhar de Martin o calou. Mas ele não conseguiu reprim ir um sorriso. Um a m anchete valia ouro em divulgação. Nada alavancava m ais a audiência.
O elenco todo perm aneceu em silêncio. Uffe e Tina eram os únicos que olhavam para os detetives. Jonna, Calle e Mehm et olhavam para o chão, parecendo desconfortáveis.
– Se eu não descobrir de onde esse diário veio – Patrik continuou –, quem o encontrou e onde ele está agora, vou fazer tudo o que estiver em m eu poder para fechar este bordel. Vocês só foram autorizados a seguir film ando porque nós os autorizam os a fazê-lo, m as se não m e disserem agora... – ele deixou as palavras pairando no ar.
– Gente, alguém abra a boca – disse Rehn, soando estressado. – Se vocês sabem de algum a coisa, desem buchem . E se souberem de algo e se recusarem a falar, eu vou esprem er a verdade de vocês e cuidar pessoalm ente que nunca m ais cheguem perto de um a câm era na vida – ele baixou a voz e sibilou. – Quem não abrir a boca agora está fora. Entenderam ?
Todos se contorceram . O silêncio era total no grande salão do centro com unitário. Finalm ente, Mehm et pigarreou.
– Foi Tina. Eu a vi pegá-lo. Barbie o m antinha debaixo do colchão.
– Cale a sua m aldita boca, seu wog idiota! – Tina rosnou, seus olhos atirando adagas na direção de Mehm et. – Eles não podem fazer nada. Não entende? Ah, você é tão estúpido... Tudo que tinha de fazer era m anter sua boca fechada.
– Agora é a sua vez de calar a boca! – gritou Patrik, dirigindo-se a Tina. Ela parou de falar, com o instruída, e pela prim eira vez pareceu um pouco assustada.
– Para quem você deu o diário?
– Não posso revelar m inhas fontes – Tina m urm urou em um a últim a tentativa de ser insolente.
Jonna suspirou e disse:
– Você é a fonte, sua burra – ela ainda olhava para o chão e não parecia dar a m ínim a para o fato de que Tina a encarava.
Patrik repetiu a pergunta, dando ênfase a cada palavra, com o se estivesse falando com um a criança:
– Para-quem -você-deu-o-diário?
Tina relutantem ente deu o nom e do j ornalista e Patrik virou-se sem desperdiçar m ais nem um a palavra com ela. Se ele com eçasse a falar, tinha m edo de não conseguir parar.
Quando ele e Martin passaram por Fredrik Rehn, o produtor disse, desnorteados:
– E agora, o que acontece? Você não falou sério quando... Quero dizer, nós podem os continuar gravando, não podem os? Meu chefe... – Rehn percebeu que falava para ouvidos m oucos e calou-se.
Já na porta, Patrik virou-se:
– Vocês podem continuar se fazendo de tolos na TV. Mas se voltarem a interferir na investigação novam ente, de qualquer form a que sej a... – deixou a am eaça inacabada no ar.
Deixou atrás de si um elenco quieto e deprim ido. Tina parecia esm igalhada, m as olhou para Mehm et de um a form a que dava a entender que tinha m ais o que dizer a ele.
– De volta ao trabalho. Tem os que com pensar o tem po de câm era – Rehn os enxotou do centro com unitário. Eles se encam inharam para a avenida principal. O show tinha que continuar.
– Que diabos aconteceu? – Sim on olhou preocupado para Mehm et, que punha seu avental de volta.
– Nada. Só um m onte de m erda.
– Acha m esm o que isso é saudável? Continuar film ando depois que a garota foi m orta? Parece um pouco...
– Um pouco o quê? – disse Mehm et. – Um pouco insensível? Um pouco de m au gosto? – ele ergueu a voz. – E nós som os só um bando de cretinos acéfalos que bebem e trepam na TV e voluntariam ente se fazem de palhaços. Certo? É o que está pensando, não é? Já parou para pensar que pode ser um a alternativa m elhor do que aquilo que tem os em casa? De que é um a chance de escapar de algo que vai nos pegar no final? – as palavras m orreram em sua garganta, e Sim on gentilm ente em purrou-o em direção a um a cadeira nos fundos da padaria.
– E o que é, então? Para você, eu quero dizer – disse Sim on e sentou-se de frente para ele.
– Para m im ? – a voz de Mehm et estava carregada de am argura. – É um a form a de m e rebelar. Passar por cim a de tudo o que tem valor. Deixar tudo em frangalhos, até eles não conseguirem m ais tentar m e fazer colar os pedacinhos de volta – escondeu rosto nas m ãos e soluçou. Sim on passou a m ão pelas costas de Mehm et em ritm o
suave e reconfortante.
– Você não quer viver a vida que eles querem que você viva?
– Sim e não – Mehm et ergueu os olhos e olhou para Sim on. – Não é que eles estej am m e forçando, na verdade, ou am eaçando m e m andar de volta à Turquia ou coisa parecida. Não é o tipo de coisa que vocês suecos sem pre acham ser o prim eiro item na lista de todo im igrante. É m ais um a questão de expectativas. E sacrifícios. Mam ãe e papai se sacrificaram tanto por nós, por m im . Para que nós, seus filhos, pudéssem os ter um a vida m elhor, em um país onde tem os todo tipo de oportunidades. Eles deixaram tudo para trás. Seus lares, suas fam ílias, o respeito que tinham pelos am igos, suas profissões, tudo. Única e exclusivam ente para que nós tivéssem os um a vida m elhor que a deles. Para eles, a coisa só piorou. Eu posso ver. Vej o a saudade em seus olhos. Vej o a Turquia em seus olhos. Aquele país não significa a m esm a coisa para m im . Eu nasci aqui, na Suécia. A Turquia é um lugar que visitam os no verão, m as não está no m eu coração. Só que eu tam bém não pertenço a este lugar. A este país onde eu deveria realizar os sonhos deles, suas esperanças. Eu não sou o tipo estudioso. Minhas irm ãs são, m as, por estranho que pareça, eu, o filho, não sou. Eu carrego o nom e do m eu pai. Sou aquele que vai levá-lo para as próxim as gerações. Eu só quero trabalhar. Com m inhas m ãos. Eu não tenho grandes am bições. Para m im , basta ir para a casa e sentir que fiz um bom trabalho com m inhas m ãos. Eu não sou o tipo estudioso. Mas m eus pais se recusam a entender. Então eu terei que esm agar seus sonhos de um a vez por todas. Espezinhá-los. Até só sobrar farpas – as lágrim as rolavam pela face de Mehm et, e o calor que irradiava das m ãos de Sim on apenas intensificava a dor. Ele estava tão cansado de tudo. Estava tão cansado de nunca ser bom o bastante. Estava tão cansado de m entir sobre quem era.
Lentam ente, levantou a cabeça. O rosto de Sim on estava a apenas poucos centím etros do seu. Sim on olhou para ele, intrigado, enquanto suas m ãos quentes, que cheiravam a pão fresco, lim pavam as lágrim as de Mehm et. Então, Sim on gentilm ente roçou os lábios contra os seus. Mehm et ficou surpreso com o aquilo parecia tão certo, ter os lábios de Sim on colados aos seus. E então ele se perdeu em um a realidade que sem pre vislum brou, m as nunca ousou ver.
– Eu gostaria de conversar com Bertil. Ele está? – disse Erling, piscando para Annika.
– Pode entrar – ela disse, seca. – Você sabe onde fica o escritório dele.
– Obrigado – disse Erling, piscando novam ente. Não conseguia entender por que seu charm e não parecia funcionar com Annika, m as ele se consolou, pensando que era apenas um a questão de tem po.
Ele se apressou em direção ao escritório de Mellberg e bateu na porta. Não houve resposta, então bateu outra vez. Dessa vez um m urm úrio vago se ouviu, m isturado a sons m isteriosos. Erling se perguntou o que Mellberg estaria fazendo lá dentro. Finalm ente a porta se abriu. Ele parecia sonolento. Atrás dele, um cobertor e um travesseiro estavam no sofá. Havia tam bém a clara m arca do travesseiro no rosto de Mellberg.
– Ora essa, Bertil, está tirando um a soneca no m eio da m anhã? – Erling havia pensado m uito em que com portam ento usar com o chefe de polícia e decidido com eçar de form a leve, com tom cam arada e então ir m udando para um a abordagem m ais séria. Ele norm alm ente não tinha m uita dificuldade em lidar com Mellberg. Sem pre que questões m unicipais que envolviam a polícia vinham parar em sua m esa, ele obtinha um a cooperação indolor e suave, com a aj uda de adulações e suborno na form a de garrafas de uísque bom . Não via razão para não acontecer o m esm o dessa vez.
– Bem , você sabe – disse Mellberg, parecendo um pouco desconcertado. – Tem m uita coisa acontecendo ultim am ente e é bastante cansativo.
– Sim , com preendo que você tem trabalhado m uito – disse Erling. Para sua surpresa, viu um intenso rubor se espalhar pelas faces do delegado.
– Com o posso te aj udar? – disse Mellberg, guiando-o para um a cadeira. Erling sentou-se e disse, com expressão de profunda preocupação:
– Bem , eu recebi um telefonem a agora há pouco. Do produtor de Sodding Tanum, Fredrik Rehn. Evidentem ente alguns de seus policiais foram ao centro com unitário e causaram um a com oção. E eles claram ente am eaçaram cancelar a produção. Devo dizer que fiquei tão surpreso quanto receoso quando soube disso. Pensei que estávam os de acordo e que havíam os estabelecido boa cooperação. Então, Bertil, eu fiquei realm ente decepcionado. Há algum a explicação? – ele olhou carrancudo para Mellberg, expressão que j á havia causado m edo a diversos oponentes ao longo de sua carreira. Pela prim eira vez, no entanto, o chefe não se deixou acovardar. Ele apenas olhou para Erling em silêncio, sem tentar responder à acusação. Erling com eçou a se sentir desconfortável. Talvez devesse ter trazido um a garrafa de uísque. Só por precaução.
– Erling... – Mellberg disse e seu tom de voz fez Erling W. Larson sentir que talvez tivesse ido longe dem ais dessa vez.
– Erling... – Mellberg repetiu e o vereador se contorceu. Por que esse cara não ia direto ao assunto? Ele só tinha que responder a um a pergunta sim ples. O único interesse de Erling era o bem da com unidade. Por que aquilo era tão difícil de entender?
– Estam os conduzindo um a investigação de hom icídio – disse Mellberg, encarando Erling Larson. – Alguém ligado à produção não só escondeu provas im portantes de nós com o as vendeu para a im prensa. Nesse m om ento, eu estou inclinado a concordar com m eus colegas que a m elhor solução seria acabar com a coisa toda.
Erling sentia-se com eçar a transpirar. Rehn não se incom odara em inform á-lo desse pequeno detalhe. Isso era ruim . Muito ruim . Ele gaguej ou:
– Está... está no j ornal de hoj e?
– Sim – disse Mellberg –, na prim eira página e depois no caderno principal do j ornal. Trechos do diário que a m ulher assassinada aparentem ente m antinha, apesar de não saberm os disso. Alguém nos privou dessa inform ação. Em vez disso, o indivíduo decidiu procurar o Evening News e vender o diário. Nesse m om ento, m eus investigadores Hedström e Molin estão trabalhando a fim de recuperar o diário, para que possam os averiguar se é ou pode ser útil para encontrar o assassino.
– Eu não tinha ideia – disse Larson, repassando na m ente a conversa que teria com Rehn assim que saísse da delegacia. Entrar em um a reunião de negócios sem ter todas as inform ações à m ão era com o ir à guerra sem arm as; isso era algo que m esm o um iniciante sabia. Aquele idiota. Mas Rehn não podia achar que se safaria por fazer j oguinhos com a Câm ara Municipal de Tanum shede.
– Dê-m e um a boa razão para eu não acabar com esse proj eto agora m esm o, nesse instante.
Erling ficou em silêncio. Sua m ente se esvaziara com pletam ente. Todos os argum entos voaram pela j anela. Ele olhou para Mellberg, que riu.
– Finalm ente, sem defesa. Nossa, eu nunca pensei que veria esse dia chegar. Mas vou ser j usto. Sei que tem m uita gente que gosta de ver essa m erda na TV. Então vam os deixar aquilo continuar por m ais um tem po. Mas ao prim eiro sinal de problem as... – Mellberg apontou-lhe um dedo am eaçador e Erling assentiu, grato. Que sorte. Ele trem eu ao pensar com o seria hum ilhante apresentar-se diante da Câm ara e confessar que o proj eto não poderia continuar. Estava quase saindo quando ouviu Mellberg dizer algo. Virou-se.
– Sabe, m eu suprim ento de uísque em casa está acabando. Você não teria um a garrafa sobrando, teria?
Mellberg piscou e Erling deu-lhe um sorriso forçado. Ele adoraria forçar a garrafa garganta abaixo de Mellberg. Em vez disso, ouviu-se dizer:
– Certam ente, Bertil. Eu cuidarei disso.
A últim a coisa que viu antes de a porta fechar atrás de si foi o sorriso satisfeito de Mellberg.
– Isso foi baixo – disse Calle olhando para Tina enquanto ela colocava bebidas na bandej a para levar a um a m esa.
– Com o se você fosse o m aior cum pridor da lei. Fácil para você dizer, nadando no dinheiro do papai! – Tina rebateu, quase virando o copo de cervej a que acabava de pôr na bandej a.
– Sabe, há coisas que as pessoas não fazem por dinheiro.
– Há coisas que as pessoas não fazem por dinheiro – Tina im itou em falsete, com um a careta. – Jesus Cristo, com o você pode ser tão repugnantem ente convencido? E aquele babaca do Mehm et! Eu vou m atar aquele m erda!
– Ah, pare com isso – disse Calle, apoiando-se no balcão. – Eles estavam am eaçando cancelar o program a todo a não ser que alguém abrisse a boca. Mas você parecia m ais interessada em salvar sua própria pele. Você não tem o direito de nos arrastar para o fundo do poço com você.
– Eles estavam blefando, não percebe? Não iriam parar a única coisa que j á cham ou a atenção para essa cidade, de j eito nenhum . Eles estão vivendo disso!
– Bem , de qualquer form a eu não acho que sej a culpa de Mehm et. Se tivesse visto você pegar o diário, eu tam bém teria dedurado.
– Aposto que sim , seu fracote – disse Tina. Ela estava tão nervosa que suas m ãos trem iam enquanto segurava a bandej a. – O seu problem a é que você passa tanto tem po em Stureplan que acha que a vida é só aquilo. Mostra o cartão de crédito do papai, desliza vida afora, se recusa a fazer qualquer coisa útil e vive nas costas de todo m undo. É tão patético! E aí acha que pode m e dizer o que é certo e o que é errado! Pelo m enos estou fazendo algo da m inha vida e tenho um pouco de am bição. E eu tenho talento, não im porta o que aquela puta da Barbie disse!
– Ah, então é isso – disse Calle, com desdém . – Ela escreveu algo sobre sua tal carreira com cantora e você ficou tão furiosa que decidiu atirá-la para os lobos da m ídia. Eu ouvi o que você falou na noite em que ela m orreu. Você não suportou o fato de que ela estava dizendo o que todos achavam .
– Ela estava m entindo, aquela vagabunda. Negando que falou para todo m undo que eu nunca serei alguém , que eu não tenho talento. Ela disse que não tinha falado nada, que estavam tram ando contra ela e que alguém estava m entindo. Mas então eu vi o que ela escreveu no diário e era verdade afinal! Ela tinha m esm o espalhado m entiras sobre m im para todos os outros – Tina derrubou um dos copos. O copo estourou, derram ando cervej a para todo lado. – QUE MERDA! – disse Tina, pousando a bandej a com as cervej as que sobraram . Pegou um a vassoura e com eçou a recolher os cacos de vidro. – Meu Deus! Inferno do caralho!
– Ei! – Calle disse, calm o. – Eu nunca ouvi Barbie dizer um a palavra ruim a seu respeito. O que eu sabia é que ela tentava te encoraj ar. E você disse a m esm a coisa na últim a sessão com Lars. Chorou lágrim as de crocodilo tam bém , se bem m e lem bro.
– Não achou que eu seria tão estúpida de falar m al de gente m orta, achou? – ela disse, varrendo o últim o caco.
– Não im porta o que ela escreveu no diário, você não pode culpá-la. Ela estava apenas escrevendo a verdade. Você não canta nada e, se eu fosse você, com eçaria a preencher um a ficha para trabalhar no McDonald’s agora m esm o – ele riu e deu um a olhadinha para a câm era.
Tina largou a vassoura no chão e deu um passo na direção dele. Deixou seu rosto bem próxim o do dele e sibilou:
– Cuidado com o que fala, Calle. Você não foi o único que ouviu o que foi dito na noite em que ela m orreu. Você tam bém pegou pesado com ela. Algo sobre sua m ãe ter com etido suicídio por causa do seu pai. Mas ela disse que não falou nada tam bém . Então eu ficaria de boca fechada se fosse você.
Ela pegou a bandej a e saiu para o restaurante. O rosto de Calle perdeu a cor. Por dentro, repassava todos os xingam entos e as palavras duras que lançara a Barbie naquela noite. Tam bém se lem brou do olhar de incredulidade de todos quando ele gritou acusações para ela. Suas lágrim as enquanto assegurava não ter dito, e que j am ais diria, nada daquilo. O pior é que ele não conseguia se livrar da sensação de que ela estava falando a verdade.
– Patrik, tem um m inuto? – Annika parou de falar quando viu que ele estava ao telefone.
Ele m ostrou um dedo com o sinal para ela aguardar. Parecia estar term inando a conversa.
– Está bem , com binado – Patrik disse, irritado. – Nós tem os acesso ao diário e vocês recebem a inform ação em prim eira m ão quando pegarm os o crim inoso.
Ele bateu o telefone e virou-se para Annika com expressão esgotada.
– Maldito idiota – ele disse, suspirando.
– O repórter do Evening News? – disse Annika, sentando-se.
– Sim . Agora nós oficialm ente fizem os um pacto com o diabo. Eu poderia ter tirado o diário das m ãos dele, m as levaria tem po. Já estam os nesse j ogo de xadrez com eles há três dias. Então é assim que a coisa vai ser. Vam os ter que alim entá-los.
– Certo – disse Annika. Só agora Patrik notava que ela estava im paciente para dizer algo.
– E no que você está pensando?
– A notificação que enviei na segunda-feira deu resultado – ela disse, incapaz de esconder sua satisfação.
– Já? – disse Patrik, surpreso.
– Sim , nesse caso, a atenção que a m ídia ultim am ente tem dado a Tanum shede valeu a pena.
– Então, o que você tem aí? – um a ponta de excitação apareceu em sua voz.
– Aparentem ente m ais dois casos – ela disse, olhando para suas anotações. – Pelo m enos, a form a com o eles m orreram se encaixa cem por cento. E... em am bos os casos a polícia encontrou as m esm as anom alias que verificam os depois que Rasm us e Marit m orreram .
– Está brincando? – disse Patrik, inclinando-se para a frente. – Diga tudo o que sabe.
– Um caso é de Lund. Um hom em de uns cinquenta anos m orreu seis anos atrás. Era um alcoólatra grave e, m esm o que tenham notado alguns ferim entos questionáveis, assum iu-se que ele bebera até a m orte – ergueu os olhos para Patrik, que fez m enção para ela prosseguir. – A segunda m orte aconteceu dez anos atrás. Dessa vez em Ny köping. Um a m ulher em torno de setenta anos. O caso foi apontado com o assassinato, m as nunca foi solucionado.
– Então tem os m ais dois assassinatos – disse Patrik, sentindo a carga da responsabilidade em seus om bros. – Tem os um total de quatro hom icídios que parecem estar ligados.
– É o que parece – disse Annika, tirando os óculos e os rodando nos dedos.
– Quatro assassinatos – Patrik disse, exausto. A fadiga tinha lhe conferido um a palidez cinzenta no rosto.
– Quatro. Sem falar no de Lillem or Persson. Devo dizer que acho que atingim os o lim ite de nossa capacidade agora – disse Annika, gravem ente.
– O que está dizendo? Não acha que dam os conta da investigação? Acha que devem os cham ar a Polícia Crim inal Nacional? – Patrik olhou-a pensativo, sentindo que ela poderia estar certa. Por outro lado, eles eram os profissionais que veriam o panoram a geral, os que poderiam j untar as peças do quebra-cabeça. Seria necessária a cooperação entre os distritos, m as ele ainda estava convencido de que dariam conta. – Vam os com eçar sozinhos e depois ver se precisam os de aj uda – ele disse e Annika concordou. Se isso era o que Patrik queria, então era assim que as coisas seriam feitas.
– Quando pretende apresentar essa inform ação para Mellberg? – ela disse, agitando suas anotações.
– Assim que falarm os com os responsáveis pelas investigações em Lund e Ny köping. Você tem os dados de contato?
Annika fez que sim .
– Vou deixar m inhas anotações com você. Tudo de que precisa está aí.
Ele lançou-lhe um olhar agradecido. Ela parou na porta.
– Crim inoso em série, você acha? – ela disse, m al acreditando no que estava dizendo.
– É o que parece – disse Patrik. E então pegou o telefone e com eçou a fazer ligações.
– Que casa linda você tem – Anna passou os olhos por todo o andar térreo da residência.
– Bem , é um pouco frio. Pernilla levou m etade da m obília e eu... não consegui com prar substitutos. E agora não parece boa ideia. Eu tenho que vender a casa e não vai caber tudo no novo apartam ento.
Anna olhou-o com com paixão.
– Isso é duro m esm o – ela disse e Dan concordou.
– Sim , é. Mas quero dizer, com parado ao que você passou, bem ...
Anna sorriu.
– Não se preocupe. Eu não espero que as pessoas com parem seus problem as aos m eus. Todos têm seus próprios problem as. Eu com preendo.
– Obrigado – disse Dan, com um sorriso largo. – Então, o que está dizendo é que eu tenho o direito de lam uriar quanto quiser?
– Bem , talvez nem tanto – disse Anna, rindo. Ela foi até a escada e apontou para cim a com um a interrogação no olhar.
– Claro, suba e dê um a olhada. Eu até arrum ei as cam as e peguei a roupa suj a do chão hoj e, então não há perigo de que você sej a atacada por cuecas.
Anna fez um a careta e riu novam ente. Ela ria bastante ultim am ente. Com o se tivesse que com pensar sua cota de m eses. E de certa form a, era isso que estava fazendo.
Quando ela voltou ao andar de baixo, Dan havia preparado alguns sanduíches para eles.
– Hum m , parece bom – ela disse, sentando-se à m esa.
– Eu achei que você devia estar com fom e. Sanduíches são tudo que posso oferecer. As m eninas deixaram a geladeira vazia, e eu não tive tem po de fazer com pras.
– Sanduíche está ótim o – disse Anna, dando um a m ordida no pão com queij o.
– Com o vão os preparativos? – Dan perguntou. – Pelo que sei, Patrik tem trabalhado direto e faltam m enos de quatro sem anas para o Dia D!
– É, pode-se dizer que tem os que nos m exer... m as Erica e eu estam os fazendo o m elhor possível. Acho que vam os conseguir. Desde que a m ãe de Patrik fique longe.
– Com o assim ? – Dan perguntou e ouviu um a descrição espirituosa da últim a visita de Kristina.
– Você só pode estar brincando – ele disse, m as ria m esm o assim .
– Eu j uro – disse Anna. – Foi ruim m esm o.
– Pobre Erica – disse Dan. – E eu que pensei que a m ãe de Pernilla tivesse dado trabalho quando nos casam os – ele sacudiu a cabeça.
– Sente saudade dela? – Anna perguntou e Dan fingiu não entender.
– Da m ãe de Pernilla? Não, nem um pouquinho.
– Ah, qual é, você sabe o que eu quero dizer – ela lhe lançou um olhar inquisidor.
Dan parou para pensar um m om ento.
– Não, posso dizer honestam ente que eu não sinto m ais. Senti por um tem po, m as não tenho certeza se era de Pernilla que eu tinha saudade. Era m ais do que nós tínham os, com o um a fam ília, se é que m e entende.
– Sim e não – disse Anna, de repente parecendo extrem am ente triste. – O que acho que quer dizer é que sente saudade da rotina diária, da segurança, do que é previsível. Eu nunca tive isso com Lucas. Jam ais. Mas no m eio do m edo, e depois do terror, provavelm ente era isso que eu m ais desej ava. Rotina diária. Um pouco de previsibilidade. Um a vida norm al.
Dan pegou sua m ão.
– Você não tem que falar sobre isso.
– Tudo bem – ela disse, engolindo as lágrim as. – Tenho falado tanto nessas últim as sem anas que estou cansada de ouvir m inha própria voz. E você j á ouviu dem ais as m inhas m azelas. Você deve estar bem cansado de m e ouvir – ela riu e enxugou as lágrim as no guardanapo de papel.
Dan ainda segurava sua m ão.
– Eu não m e canso de te ouvir. Até onde eu sei, você pode continuar falando vinte quatro horas por dia, sete dias por sem ana.
Um silêncio confortável se seguiu enquanto eles se olhavam . O calor da m ão de Dan se espalhou pelo corpo de Anna, derretendo o gelo em pontos que ela nem sabia estarem congelados. Dan abriu a boca para dizer algo, m as então o celular de Anna tocou. Am bos tiveram um sobressalto e Anna puxou a m ão para pegar o telefone. Olhou no visor.
– Erica – ela disse e levantou-se para atender a cham ada.
* * *
Dessa vez, Patrik escolheu reunir seus colegas na cozinha. O que pretendia apresentar era um tanto im pressionante, para dizer o m ínim o, e café forte e algum as rosquinhas provavelm ente seriam bem -vindos. Esperou que todos se sentassem , m as perm aneceu de pé. Todos olharam para ele com expectativa ao entrar. Era óbvio que algo estava acontecendo, m as Annika não havia dito um a palavra, então ninguém sabia do que se tratava. Apenas que era algo grande. Isso eles podiam ver pela expressão resoluta de Patrik. Um pássaro passou voando pela j anela da cozinha, e os olhos de todos seguiram o m ovim ento em reflexo, m as rapidam ente se voltaram para Patrik.
– Sirvam -se de café e rosquinhas e então darem os início – Patrik disse em voz solene. Todos serviram -se de um a xícara e m urm uraram entre si para que a cesta de roscas passasse por todos. Depois ficaram em silêncio.
– Annika enviou um a notificação de alerta nacional a m eu pedido na segunda-feira. Perguntando por m ortes que m ostrassem sim ilaridades com o caso de Rasm us e o de Marit.
Hanna ergueu a m ão.
– O que exatam ente dizia a notificação?
– O que enviam os foi um a lista de itens com uns a am bos os crim es. Na prática, envolviam dois aspectos: o m odo com o m orreram e os obj etos encontrados perto dos corpos.
A últim a das inform ações era novidade para Gösta e Hanna, então eles se inclinaram para a frente a fim de ouvir m ais.
– Que tipo de obj etos? – disse Gösta.
Patrik olhou para Martin e disse:
– Quando Martin e eu exam inam os a m ochila que Rasm us tinha consigo quando m orreu, encontram os algo que tam bém vim os perto de Marit. No caso dela, estava no banco do passageiro. De início, não prestam os m uita atenção a isso, j á que acham os que era só lixo no carro. Mas quando encontram os a m esm a coisa na m ochila, então... – ele j ogou as m ãos para cim a.
– Bem , e o que é? – Gösta proj etou-se para a frente m ais ainda.
– Um a página arrancada de um livro. Um livro infantil – Patrik disse.
– Um livro infantil? – Gösta repetiu, incrédulo. Hanna tam bém parecia confusa.
– Sim , as páginas eram de João e Maria. Sabem , da fábula dos irm ãos Grim m .
– Está brincando! – disse Gösta.
– Infelizm ente, não. E não é só isso. Essa inform ação, com binada a detalhes que conhecem os sobre o m otivo da m orte de Rasm us e Marit, nos levou a dois outros casos que podem estar conectados com os nossos.
– Dois outros casos? – agora era Martin que parecia incrédulo.
Patrik assentiu.
– Sim , a inform ação chegou esta m anhã. Dois outros crim es se encaixam no padrão. Um em Ny köping e outro em Lund.
– Mais dois casos? – Martin parecia estar tendo problem as para absorver os fatos que Patrik apresentava. E ele entendia por quê.
– E você tem m esm o certeza de que os quatro casos estão ligados? – disse Hanna. – A coisa toda parece tão inacreditável.
– As vítim as todas m orreram da m esm a form a e havia páginas arrancadas do m esm o livro próxim as a cada corpo. Podem os assum ir que os casos estão relacionados – Patrik disse secam ente. Ele na verdade estava um pouco surpreso e ofendido por duvidarem dele.
– De qualquer form a, vam os dar continuidade à investigação, ou investigações, baseados no pressuposto de que há um a conexão.
Martin ergueu a m ão.
– As outras vítim as tam bém eram abstêm ias?
Patrik sacudiu a cabeça, devagar. Essa era a coisa que m ais o incom odava.
– Não – ele disse. – A vítim a em Lund era um alcoólatra com provado, e a polícia não tinha inform ações sobre vícios da vítim a de Ny köping. Mas eu acho que você e eu devíam os ir até lá e conversar com eles. Verificar os detalhes.
Martin concordou.
– Claro. Partim os quando?
– Am anhã – disse Patrik. – Se ninguém tiver nada a acrescentar, talvez possam os term inar a reunião e voltar ao trabalho. Se algo tiver ficado obscuro, sugiro que leiam o resum o que preparei. Annika fez cópias para cada um pegar na saída.
Enquanto saíam , ninguém falou nada. Estavam todos pensando no escopo da investigação que agora tinham diante de si. E todos tentavam aceitar a ideia de que “serial killer” passaria a fazer parte de seu vocabulário. Aquilo nunca fora necessário na história da polícia de Tanum shede. Não era um m arco agradável.
Gösta virou-se quando ouviu alguém atrás de si na porta.
– Martin e eu partim os am anhã. Devem os ficar fora por dois dias – disse Patrik.
– Sim ? – disse Gösta.
– Pensei que você e Hanna poderiam trabalhar em outras frentes nesse período. Exam inar o arquivo de Marit, por exem plo. Eu j á li aquilo tantas vezes que acho que seria bom ter um par de olhos novos analisando os dados. E façam o m esm o com tudo que tem os de Rasm us Olsson. Martin com eçou a com pilar um a lista de pessoas que possuem cães da raça galgo espanhol. Seria bom se conseguisse dar sequência a esse trabalho tam bém . Converse com Martin hoj e à tarde e vej a até onde ele foi. O que m ais? Ah, sim , o repórter do Evening News enviou por fax algum as cópias do diário de Lillem or. Vam os pegar o original tam bém , m as esse está vindo pelo correio e não podem os ficar esperando. Estou levando cópias com igo no carro, m as você e Hanna podem dar um a olhada nelas tam bém .
Gösta balançou a cabeça cansado.
– É isso – disse Patrik. – Estam os saindo. Você pode passar essas tarefas para Hanna?
Gösta concordou. Ainda m ais cansado. Era um a droga ter que trabalhar tanto. Assim estaria exausto quando a tem porada de golfe com eçasse.