O estranho
Capítulo 3
Os m elhores m om entos eram quando eles se sentavam perto, bem próxim os um do outro. Os m om entos em que ela pegava o livro. O farfalhar das páginas enquanto ela as folheava, a fragrância do seu perfum e, o toque do tecido m acio da blusa dela contra sua bochecha. Era quando as som bras se m antinham afastadas. Tudo o m ais lá fora, tanto assustador quanto tentador, perdia im portância. O volum e de sua voz subia e caía em ondas suaves. Às vezes, se estavam cansados, um deles ou os dois, adorm eciam com a cabeça no seu colo. A últim a coisa de que se lem bravam antes que o sono os dom inasse era a história, a voz, o farfalhar do papel, os dedos dela acariciando seus cabelos.
Já tinham ouvido a história tantas vezes. Sabiam de cor. E m esm o assim ela parecia nova a cada vez. Às vezes ele observava sua irm ã enquanto ela prestava atenção. Sua boca m eio aberta, seus olhos fixos nas páginas do livro, seus cabelos caindo em cascata pelas costas da cam isola. Ele costum ava escovar seus cabelos todas as noites. Era seu trabalho.
Quando ela lia para eles, todo o desej o de sair pela porta trancada desaparecia. Então existia apenas um m undo colorido de aventuras, cheio de dragões, príncipes e princesas. Não um a porta trancada. Não duas portas trancadas.
Ele se lem brava vagam ente de que no início teve m edo. Mas não tinha m ais. Não quando ela cheirava tão bem e era tão m acia e quando sua voz se elevava e baixava tão ritm icam ente. Não quando ele sabia que ela o estava protegendo. Não quando ele sabia que era um pé frio.
* * *
Patrik e Martin se ocuparam com outras tarefas na delegacia por algum as horas, esperando que Ola chegasse do trabalho. Consideraram ir até lá para conversar com ele, m as decidiram esperar até as cinco horas, quando seu expediente term inaria. Não havia razão para suj eitá-lo a um m onte de perguntas de seus colegas. Pelo m enos, não por ora. Kerstin não acreditava que Ola tivesse algo a ver com as cartas anônim as e os telefonem as. Patrik não tinha tanta certeza. Precisaria ser convencido do contrário antes de abandonar a ideia. A pilha de cartas fora enviada para o Laboratório Crim inal Nacional naquela tarde, e ele havia incluído um pedido de acesso às cham adas de Kerstin e Marit durante o período em que haviam recebido os telefonem as anônim os. Ola parecia ter acabado de sair do chuveiro quando abriu a porta. Estava vestido, m as seus cabelos ainda estavam m olhados.
– Pois não? – disse Ola im paciente e agora eles não viam nenhum traço do pesar pela m orte de sua ex-esposa. Pelo m enos não era de m aneira tão óbvia quanto em Kerstin.
– Gostaríam os de lhe fazer m ais algum as perguntas.
– Ah, é? – disse Ola, ainda im paciente.
– Sim , há algum as coisas que cham aram nossa atenção no que diz respeito à m orte de Marit – disse Patrik, olhando-o com insistência.
Ola obviam ente entendeu, porque deu um passo atrás e fez m enção para que os dois entrassem .
– Bem , que bom que vieram , porque eu estava pensando em ligar para vocês.
– Verdade? – disse Patrik, sentando-se no sofá. Dessa vez ele não os levara para a cozinha, m as em vez disso m ostrou o cam inho para o j ogo de sofás na sala de estar.
– Sim , eu gostaria de saber se é possível expedir um a m edida cautelar – Ola sentou-se num a grande poltrona de couro e cruzou as pernas.
– Tudo bem – disse Martin, dirigindo um olhar inquiridor a Patrik. – Um a m edida cautelar contra quem ?
Os olhos de Ola brilharam .
– Contra Kerstin. Em nom e de Sofie.
Nenhum dos policiais m ostrou surpresa.
– E por que isso, se é que posso perguntar? – o tom de Patrik passava a ilusão de calm a.
– Não há razão para Sofie visitar aquela... aquela... pessoa agora! – ele disse tão ferozm ente que cuspiu. Ola inclinou-se para a frente e prosseguiu, com os cotovelos apoiados nos j oelhos: – Ela foi até lá hoj e. Sua m ochila havia sum ido quando eu vim para casa alm oçar e eu liguei para seus am igos. Ela deve ter ido ver aquela... sapatão. Podem fazer algo para im pedir isso? Quero dizer, é claro que vou ter um a conversa séria com Sofie quando ela chegar, m as deve haver algum a form a de im pedir essas coisas legalm ente, não?
– Bem , isso pode ser difícil – disse Patrik, cuj as suspeitas agora estavam se confirm ando. O que eles queriam conversar com Ola agora parecia m uito apropriado.
– Um a ordem cautelar é um a m edida m uito severa a se tom ar e eu não acho que se aplique nesse caso – olhou para Ola, que claram ente se agitava.
– Mas, m as... – ele gaguej ou. – Que diabos eu posso fazer? Sofie tem quinze anos e eu não posso trancá-la em casa se ela se recusar a m e obedecer e aquela m aldita... – ele engoliu as palavras com dificuldade. – Ela certam ente não vai cooperar. Quando Marit estava viva, eu era forçado a aceitar... tudo aquilo, m as continuar suportando essa m erda toda agora, não, droga! – ele bateu com o punho na m esa de vidro com tam anha força que tanto Patrik quanto Martin pularam .
– Então você não aprova o estilo de vida escolhido por sua ex-esposa?
– Escolha? Estilo de vida? – Ola grunhiu. – Se não fosse aquela puta m aldita colocando aquelas ideias na cabeça de Marit, nada disso teria acontecido. E Marit, Sofie e eu ainda estaríam os j untos. Mas em vez disso Marit não só destruiu sua fam ília e traiu a m im e a Sofie com o nos tornou m otivo de riso! – ele balançou a cabeça com o se ainda não conseguisse acreditar.
– Já dem onstrou sua desaprovação de algum a form a? – disse Patrik, astuto.
Ola lançou-lhe um olhar desconfiado.
– E o que exatam ente está querendo dizer? Claro, eu nunca escondi o que pensava sobre Marit ter nos deixado, m as fiz questão de não discutir seus m otivos. Não é algo que você queira discutir, o fato de sua m ulher passar para o outro lado. Ser trocado por outra m ulher não é algo de que você queira se gabar – ele tentou rir, m as a am argura em sua voz fez a gargalhada soar nefasta.
– Então não fez nada para perturbar sua ex-m ulher e Kerstin?
– Não entendo aonde quer chegar – disse Ola, estreitando os olhos.
– Estam os falando de cartas e telefonem as – disse Martin. – Am eaçadores.
– E acha que eu faria algo assim ? – os olhos de Ola se arregalaram . Era difícil dizer se sua surpresa era genuína ou só fingim ento.– Que tipo de relevância isso tem agora? Digo, a m orte de Marit foi um acidente, afinal.
Patrik ignorou o com entário, naquele m om ento. Não queria revelar de um a vez tudo o que sabia, preferindo fazê-lo aos poucos.
– Alguém enviou cartas anônim as e fez ligações tam bém anônim as para Kerstin e Marit.
– Bem , não é de surpreender, é? – disse Ola, com um sorriso. – Mulheres assim tendem a cham ar atenção. É possível que essas coisas sej am toleradas em cidades grandes, m as não aqui no interior.
Patrik estava quase sufocando com tanto preconceito que irradiava daquele hom em sentado na poltrona. Com dificuldade, resistiu ao im pulso de pegá-lo pela cam isa e dizer-lhe algum as verdades. O único consolo era que Ola estava se enterrando cada vez m ais fundo no lodo a cada frase que dizia.
– Então não foi você quem escreveu as cartas e ficou telefonando para elas? – disse Martin com a m esm a expressão de desagrado m al disfarçada.
– Não, eu j am ais m e rebaixaria assim – Ola deu-lhes um sorriso arrogante. Era tão seguro de si m esm o, e sua casa era tão lim pa e organizada e em perfeitas condições. Patrik ansiava por agitar seu m undo arrum adinho.
– Então não faz nenhum a obj eção em nos deixar tirar suas im pressões digitais? E com pará-las com as que o laboratório encontrar nos envelopes?
– Im pressões digitais? – seu sorriso desapareceu de repente. – Eu não entendo. Por que rem exer nisso tudo agora? – a ansiedade estava evidente em seu rosto. Patrik riu para si m esm o; um a olhada para Martin m ostrou que seu colega sentia o m esm o.
– Antes, responda à pergunta. Posso pressupor que o senhor nos deixará colher suas im pressões digitais para que possam os excluí-lo da investigação?
Agora Ola se retorcia em sua poltrona de couro. Seus olhos iam de um ponto a outro e ele com eçou a m exer nos obj etos sobre a m esa de vidro. Para Patrik e Martin os enfeites j á pareciam estar em linhas retíssim as, m as aparentem ente Ola não enxergava da m esm a form a; ficava m ovendo-os poucos m ilím etros em diferentes direções até que estivessem alinhados o bastante para acalm ar seus nervos.
– Bem – ele disse –, suponho que terei que confessar – seu sorriso voltou. Encostou-se e parecia ter recuperado, o que por um m om ento ele pareceu ter perdido. – É m elhor contar a verdade. Eu enviei, sim , algum as cartas e cheguei a telefonar para Kerstin e Marit algum as vezes. Foi estúpido, claro, m as eu esperava que Marit percebesse que seu relacionam ento não iria durar. Eu tinha esperanças de que ela escutasse a razão. Tínham os um a vida tão boa j untos. E poderíam os ter novam ente. Se ela ao m enos desistisse daquelas ideias estúpidas e parasse de passar vergonha. De m e envergonhar. Era m uito pior para Sofie. Im agine ter esse fardo todo para carregar na idade dela. Isso a tornaria um a verdadeira excluída na escola. Marit tinha que perceber isso. Sim plesm ente não ia dar certo.
– Mas j á fazia quatro anos, então não parecia que ela estava com pressa de voltar para você – Patrik m antinha sua expressão calculadam ente neutra.
– Era só um a questão de tem po – Ola m exia nos obj etos sobre a m esa novam ente. De repente, virou-se para os detetives, no sofá. – Mas não entendo que im portância isso pode ter agora! Marit está m orta e, se Sofie e eu puderm os nos livrar daquela pessoa, poderem os seguir em frente. Por que rem exer nisso tudo agora?
– Porque tem os vários indícios de que a m orte de Marit não foi acidental.
Um silêncio chocado caiu sobre a pequena sala de estar. Ola encarou os dois.
– Não foi um acidente? – olhou de Patrik para Martin. – O que querem dizer com isso? Alguém ...? – deixou a frase m orrer. Se seu espanto não era genuíno, ele era um ótim o ator. Patrik daria tudo para saber exatam ente o que se passava na cabeça de Ola naquele m om ento.
– Sim , acreditam os que alguém m ais pode estar envolvido na m orte de Marit. Logo saberem os m ais. Mas, por ora, você é nosso suspeito núm ero um .
– Eu? – Ola disse, incrédulo. – Mas eu j am ais faria qualquer coisa para ferir Marit! Eu a am ava! Eu só queria que fôssem os um a fam ília novam ente!
– Então foi esse im enso am or que te fez am eaçar Marit e sua nam orada? – a voz de Patrik transbordava sarcasm o.
O rosto de Ola se contorceu à m enção da palavra “nam orada”.
– Mas ela não entendia! Devia estar passando por algum tipo de crise de m eia-idade quando fez quarenta anos e seus horm ônios se desequilibraram e afetaram seu cérebro, de algum a form a. Deve ser por isso que ela j ogou tudo fora. Estivem os j untos por vinte anos, dá pra entender? Nos conhecem os na Noruega quando tínham os dezesseis anos e eu pensava que ficaríam os j untos para sem pre. Passam os por tanta... – fez um a pausa – m erda j untos quando éram os j ovens, m as finalm ente tínham os tudo o que queríam os. E então... – Ola elevou o volum e da voz. Agora ele j ogava as m ãos para o alto em um gesto que dizia que ele ainda não tinha com preendido o que quer que ocorrera com seu casam ento quatro anos antes.
– Onde estava na noite do dom ingo passado? – Patrik dirigiu-lhe um olhar inflexível e aguardava um a resposta.
Ola olhou-o nos olhos, incrédulo.
– Está m e pedindo um álibi? É isso que está fazendo? Quer a porra de um álibi para dom ingo à noite? É isso que quer dizer?
– Sim , está correto – Patrik respondeu, calm am ente.
Ola pareceu a ponto de perder o controle, m as conseguiu se segurar.
– Fiquei em casa a noite toda. Sozinho. Sofie dorm iu na casa de um a am iga, então não há ninguém que confirm e que eu estava aqui. Mas é a verdade – seus olhos eram desafiadores.
– Não falou com ninguém por telefone? Nenhum vizinho passou por aqui? – perguntou Martin.
– Não – disse Ola.
– Bem , isso não soa m uito bem – disse Patrik, lacônico. – Isso significa que você perm anece com o suspeito, se ficar com provado que a m orte de Marit não foi acidente.
Ola deu um a risada am arga.
– Então, vocês não têm certeza. E ainda assim , vêm aqui e exigem que eu tenha um álibi – balançou a cabeça. – Acho que vocês dois estão m alucos – levantou-se. – E agora acho que devem ir em bora.
Patrik e Martin tam bém ficaram de pé.
– Já havíam os term inado, de qualquer form a. Mas voltarem os.
Ola riu novam ente.
– Sim , tenho certeza que sim – ele dirigiu-se para a cozinha, sem se preocupar em se despedir.
Patrik e Martin saíram sozinhos. Fecharam a porta atrás de si e então pararam por um m om ento.
– Bem , o que acha? – disse Martin, subindo totalm ente o zíper da j aqueta. O calor da prim avera ainda não havia chegado, e o vento ainda estava frio.
– Eu não sei – Patrik suspirou. – Se tivéssem os certeza de que essa é um a investigação de hom icídio, seria m ais fácil, m as agora... – suspirou outra vez. – Se pelo m enos eu conseguisse lem brar por que esse cenário parece tão fam iliar. Há algo que... – ele ficou em silêncio e balançou a cabeça com um a expressão sinistra. – Não, não consigo pensar no que é. Talvez os investigadores tenham conseguido encontrar algo no carro de Marit.
– Vam os torcer – disse Martin.
– Sabe, acho que vou andando para casa – disse Patrik, quando se dirigiam ao carro.
– Mas com o vai para o trabalho am anhã?
– Eu dou um j eito. Talvez peça a Erica que m e dê um a carona no carro de Anna.
– Está bem , então – disse Martin. – Eu levo o carro e vou para casa tam bém . Pia não estava se sentindo bem , então vou m im á-la um pouco hoj e à noite.
– Nada sério, espero – disse Patrik.
– Não, ela só tem passado m al e se sentido enj oada ultim am ente.
– É... – Patrik com eçou a dizer, m as um olhar de Martin o interrom peu. Ok, não era m om ento de fazer aquela pergunta em particular. Ele riu e acenou para Martin, que entrava no carro. Ia ser bom chegar em casa.
* * *
Lars m assageava os om bros de Hanna. Ela estava sentada à m esa da cozinha, com os olhos fechados, os braços relaxados ao longo do corpo. Mas seus om bros estavam duros com o pedras e Lars tentava o m ais gentilm ente possível liberar a tensão que se instalara ali.
– Puxa, você deveria ir a um quiroprático, seus m úsculos estão em aranhados.
– Hum m , eu sei – disse Hanna, contorcendo-se um pouco quando ele tocou um nó e com eçou a trabalhar nele.
– Ai! – ela disse.
Lars parou no m esm o instante.
– Dói? Quer que eu pare?
– Não, continue – disse ela, ainda com um a careta de dor.
Mas era um tipo de dor deliciosa. A sensação de um m úsculo retesado se relaxando era m aravilhosa.
– Com o vão as coisas no trabalho agora? – suas m ãos a am assavam m ais e m ais.
– Muito boas – ela disse –, m as é um a delegacia m eio m orta. Nenhum deles é lá m uito inteligente. Com a exceção talvez de Patrik Hedström . E o cara m ais novo, Martin, que pode ser bom um dia. Mas Gösta e Mellberg! – Hanna riu. – Gösta fica lá sentado, j ogando no com putador, e eu raram ente vej o Mellberg. Ele fica sentado, no escritório, sem fazer nada o dia todo. Vai ser um desafio e tanto.
Por um tem po, o clim a perm aneceu leve no recinto. Mas logo as velhas som bras se esgueiraram para dentro, e a tensão usual recaiu sobre eles. Havia um lim ite no que podiam dizer. No que podiam fazer. Mas nunca term inava. O passado pairava entre eles com o um gigante obstáculo que eles j am ais conseguiram superar. Haviam se resignado. No m om ento, a questão era se eles realm ente queriam superá-lo.
A m ão de Lars m udou de um a m assagem profunda para um a carícia e ele tocava o pescoço de Hanna. Ela deu um gem ido suave, ainda com os olhos fechados.
– Isso um dia vai acabar, Lars? – ela sussurrou, enquanto as m ãos dele continuavam acariciando-a, nos om bros, na clavícula, por baixo da blusa. A boca dele estava próxim a da orelha dela e Hanna podia sentir o calor de seu hálito.
– Eu não sei. Sim plesm ente não sei, Hanna.
– Mas precisam os conversar sobre isso. Um dia terem os que falar sobre isso – ela podia ouvir o tom sôfrego e desesperado que sem pre aparecia em sua voz quando o assunto vinha à tona.
– Não, não precisam os – agora a língua de Lars estava no lóbulo de sua orelha. Ela tentou resistir, m as com o sem pre o desej o aum entava dentro dela.
– Mas o que vam os fazer? – agora o desespero se m isturava à paixão e ela abruptam ente virou-se para ele.
Com o rosto próxim o ao dela, Lars disse:
– Vam os viver nossa vida. Dia a dia, hora a hora. Vam os trabalhar, rir, fazer tudo o que é esperado de nós. Nós nos am am os.
– Mas… – seus protestos foram interrom pidos por sua boca na dela. A capitulação que seguia era sem pre m uito fam iliar. Ela sentia as m ãos dele em seu corpo todo. Elas deixavam rastros quentes e ela sentia as lágrim as surgindo. Todos aqueles anos de frustração, vergonha, paixão estavam contidos naquelas lágrim as. Lars as lam bia avidam ente e sua língua deixava rastros úm idos em sua face. Ela tentava se livrar, m as o am or dele, a fom e, estavam em toda parte e não a deixavam se libertar. Finalm ente, ela cedia. Lim pava a m ente de todos os pensam entos, de todo o passado. Ela correspondia a seus beij os e se agarrava a ele, enquanto ele pressionava seu corpo no dela. Arrancaram as roupas um do outro e caíram no chão da cozinha. De m uito longe, ela conseguia ouvir a si m esm a gritar.
Depois, ela sem pre se sentia vazia com o nunca. E perdida.
* * *
– Patrik estava m esm o desanim ado quando chegou em casa ontem –
Anna olhou para Erica, que se concentrava em dirigir.
Erica suspirou.
– É, ele não está sentindo bem . Tentei falar com ele essa m anhã, quando o levei para o trabalho, m as ele não estava m uito a fim de conversa. Já vi essa expressão antes. Há algo que o preocupa, algo no trabalho que o está deixando realm ente incom odado. Tudo que posso fazer é dar-lhe um tem po; m ais cedo ou m ais tarde, ele vai com eçar a falar.
– Hom ens – disse Anna, e um a som bra passou por seu rosto. Erica sentiu a m udança no hum or da irm ã e instantaneam ente sentiu um nó no estôm ago. Ela vivia em constante m edo de que Anna voltasse à apatia, que perdesse aquela centelha de vida que fora despertada nela. Mas, dessa vez, Anna conseguiu se desfazer da m em ória do inferno pelo qual havia passado, a lem brança que insistentem ente tentava invadir seus pensam entos.
– Será que tem algo a ver com aquele acidente? – ela disse.
– Acho que sim – disse Erica, olhando com cuidado antes de entrar na rotatória, em Torp. – De qualquer m odo, Patrik disse que eles estão investigando algum as discrepâncias que surgiram e disse que o acidente o lem brava de algo.
– De quê? – Anna perguntou. – Do que um acidente de carro poderia lem brá-lo?
– Não sei. Foi tudo que ele disse. Mas ele ia investigar m ais a fundo hoj e, tentar resolver o caso.
– Im agino que você não tenha tido a chance de m ostrar a lista para ele.
Erica riu.
– Não, eu não tive coragem de m ostrá-la a Patrik quando ele estava tão pra baixo. Vou tentar introduzir o assunto durante o fim de sem ana, quando encontrar o m om ento certo.
– Bom – disse Anna. Sem ter sido requisitada, ela havia assum ido o papel de organizadora-chefe e com andante do proj eto do casam ento. – A coisa m ais im portante que tem que cobrar de Patrik é o que ele vai vestir. Ele poderia ir procurar hoj e e você tam bém pode escolher algum as coisas que queira que ele experim ente, m as isso não vai ser fácil sem Patrik.
– Bem , o que Patrik vai vestir não é exatam ente um problem a. Estou m ais preocupada com igo m esm a – Erica disse, m elancólica. – Acha que eles têm um a seção para m anequim GG na loj a de vestidos de noiva? – ela fez a curva para entrar no estacionam ento e soltou o cinto de segurança. Anna fez o m esm o e então voltou-se para Erica.
– Não se preocupe, você está fantástica. Nós vam os dar um j eito nisso! E você vai conseguir fazer várias coisas em seis sem anas. Isso vai ser ótim o!
– Só acredito vendo – disse Erica. – Prepare-se. Isso não será divertido – ela trancou o carro e seguiu para a rua das loj as, com Maj a sentada no carrinho. A loj a de artigos para noivas ficava num a perpendicular e ela telefonara antes para saber se estariam abertos.
Anna não disse nada até chegarem à loj a. Apertou o braço de Erica assim que entraram , tentado dar-lhe m ais ânim o. Estavam indo com prar um vestido de noiva, afinal.
Erica respirou profundam ente quando fecharam a porta, assim que entraram . Branco, branco, branco. Tule e rendas e pérolas e lantej oulas. Um a m ulher baixinha em torno de seus sessenta anos, usando m aquiagem em excesso, veio em sua direção.
– Bem -vindas, bem -vindas! – ela cantarolou, batendo palm as de entusiasm o. Erica pensou cinicam ente que a dona da loj a não devia ter m uitos clientes, a j ulgar pela alegria que dem onstrou ao vê-las.
Anna deu um passo à frente e assum iu o controle.
– Nós gostaríam os de encontrar um vestido de noiva para a m inha irm ã aqui – ela apontou para Erica e a m ulher bateu palm as novam ente.
– Oh, que m aravilha, você vai se casar?
“Não, eu só quero ter um vestido de noiva. Para m inha diversão”, Erica pensou, azeda, m as guardou o com entário para si m esm a.
Anna olhou com o se tivesse ouvido o que Erica estava pensando e declarou, rapidam ente:
– O casam ento será na noite do Pentecostes.
– Nossa – disse a m ulher, pasm a. – Então você precisa se apressar! Falta pouco m ais de um m ês. Ai, ai. Já está m ais do que na hora de procurar um vestido.
Mais um a vez, Erica engoliu um a observação sarcástica e sentiu a m ão de Anna em seu braço. A m ulher fez um gesto para elas a acom panharem e Erica a seguiu, hesitante.
A situação toda era tão... bizarra. Ela nunca havia pisado em um a loj a para noivas antes, e isso talvez explicasse a sensação estranha. Olhou em volta e sua cabeça com eçou a girar. Com o ela seria capaz de encontrar um vestido aqui, no m eio desse m ar de forros?
Anna m ais um a vez captou seu hum or. Apontou para um a poltrona e sugeriu que Erica se sentasse. Erica pôs Maj a no chão. Então Anna disse, com voz autoritária:
– Talvez você possa trazer alguns m odelos diferentes para m inha irm ã olhar. Sem m uitos adornos e babados. Sim ples e clássico. Talvez com um pequeno detalhe que dê um toque de elegância. Não acha? – olhou para Erica, que não conseguiu segurar o riso. Anna a conhecia m elhor do que ela a si m esm a.
Foram trazidos vestidos e m ais vestidos. Às vezes Erica balançava a cabeça, às vezes concordava. Ao final, tinha um a arara com cinco vestidos para experim entar. Com o coração pesado, Erica entrou no provador. Esse não era seu passatem po favorito.
Ver seu corpo por três ângulos diferentes de um a só vez, enquanto aquela luz im piedosa ilum inava todas as partes escondidas pelas roupas de inverno, era um a experiência angustiante. Especialm ente quando Erica notou que ela provavelm ente deveria ter se depilado aqui e ali. Ah, paciência, tarde dem ais para fazer qualquer coisa a respeito. Com cuidado, colocou o prim eiro vestido. Era um tom ara que caia e ela soube, assim que subiu o zíper, que aquilo não seria um grande sucesso.
– Com o está indo? – perguntou a m ulher, em sua voz m ais entusiasm ada, do lado de fora da cortina. – Precisa de aj uda com o zíper?
– Sim , acho que preciso – disse Erica, saindo do provador relutantem ente. Virou as costas para elas, a fim de que a m ulher subisse o zíper, e então respirou fundo e olhou para si m esm a no espelho de corpo inteiro. Desespero, total desespero. Ela podia sentir as lágrim as m arej ando seus olhos. Essa não era a form a com o se im aginava vestida de noiva. Em seus sonhos, ela sem pre estava elegantem ente m agra, com seios firm es e pele brilhante. A figura que a olhava de volta no espelho parecia um a versão fem inina do boneco da Michelin. Cilindros de gordura protuberavam em torno de sua cintura, sua pele estava quase cinza de tão pálida. O corpete tam bém form ava estranhas linguiças de gordura e pele em suas axilas. Ela estava terrível. Engoliu as lágrim as e voltou para o provador. De algum a form a, conseguiu baixar o zíper sem aj uda e saiu do vestido. Próxim o.
Este ela conseguiu colocar sozinha e saiu para m ostrar a Anna e à dona da loj a. Dessa vez ela não conseguiu esconder com o se sentia. Podia ver seu lábio inferior trem er. Algum as lágrim as escaparam e ela as enxugou com as costas da m ão, irritada. Ela não queria ficar ali, envergonhada e chorando, m as não podia esconder o que sentia. Esse vestido tam bém havia ficado ruim . Novam ente era um m odelo sim ples, m as frente única, o que pelo m enos não m arcava as gordurinhas das axilas. Sua barriga era a m aior preocupação. Era im possível im aginar com o ela poderia estar em form a a ponto de se sentir feliz no dia de seu casam ento. Isso era para ser divertido, não era? Era algo que ela esperara ansiosam ente a vida toda. Estar ali, escolhendo e experim entando um fantástico vestido de casam ento atrás do outro. Im aginando com o o olhar adm irado de todos se voltaria para ela quando cam inhasse em direção ao altar com seu padrinho. Em seus sonhos, ela sem pre pareceu um a princesa no dia de seu casam ento. Mais lágrim as rolaram por suas faces, e Anna foi até ela e tocou seu braço.
– O que foi, querida?
Erica soluçou.
– Eu... eu... estou tão gorda! Tudo fica horrível em m im .
– Você não está gorda, de j eito nenhum . Só tem um pouquinho de peso extra por causa da gravidez, só isso. E nós podem os consertar isso antes do casam ento. Você tem um corpo lindo. Quero dizer, olhe esse decote, por exem plo. Eu m ataria por um desses quando m e casei – Anna apontou para o espelho, e Erica relutantem ente olhou naquela direção. Prim eiro viu seu rosto patético com vestígios de lágrim as nas bochechas e um nariz verm elho e inchado. Então baixou os olhos e, sim , talvez Anna tivesse razão. Havia m esm o um belo decote à m ostra ali.
Nessa hora a dona da loj a entrou na conversa.
– O vestido caiu m aravilhosam ente bem , você só não está usando a roupa de baixo correta. Se tentar colocar um a cinta ou um corset, essa barriguinha de nada som e em um segundo. Isso não é nada. Já vi algum as m uito piores. Com o disse sua irm ã, você tem um corpo lindo. É só questão de encontrar um vestido que acentue suas curvas. Vista este aqui e eu tenho certeza de que você vai com eçar a se anim ar. Este vai vestir m elhor ainda. – Pegou um dos vestidos da arara do provador e ofereceu para Erica, que entrou novam ente, relutante. Com um a expressão cética no rosto, ela colocou o vestido e saiu do provador. Inspirou fundo, expirou e posicionou-se estoicam ente diante do espelho de corpo inteiro, com o um soldado indo para a linha de frente. Um sorriso adm irado abriu-se em seu rosto. Esse era algo totalm ente diferente. Caiu-lhe... perfeitam ente! Tudo que parecia horrível antes tornou-se vantagem nesse vestido. Sua barriga ainda saltava um pouco, m as nada que um bom corset não resolvesse. Olhou surpresa para Anna e para a dona da loj a. Encantada, Anna apenas concordou com a cabeça, e a dona da loj a bateu palm as de deleite.
– Que noiva! O que eu te disse? Esse é perfeito para sua altura e seu tipo de corpo!
Erica olhou no espelho m ais um a vez, ainda um pouco em dúvida Mas tinha que concordar. Sentia-se linda. Parecia um a princesa. Assim que se livrasse daqueles quilos em excesso nas sem anas anteriores ao seu casam ento, ele ficaria perfeito. Virou-se para Anna.
– Não preciso experim entar m ais nenhum . Vou levar esse!
– Que lindo! – a m ulher sorriu. – Acho que ficará m ais que satisfeita. Se quiser, pode deixar aqui até o casam ento e então podem os fazer m ais um a prova, na sem ana anterior. Se for preciso apertar ou algo assim , terem os tem po suficiente.
– Obrigada, Anna – Erica sussurrou, segurando a m ão da irm ã. Anna a apertou de volta.
– Você está sim plesm ente linda nesse vestido – ela disse e Erica pensou ter visto um a lágrim a se insinuar nos olhos da irm ã tam bém . Foi um belo m om ento. Um m om ento que am bas m ereciam depois de tudo o que passaram .
– E então? Com o vão as coisas até agora? – Lars observou o círculo de pessoas. Ninguém disse um a palavra. A m aioria olhava para os próprios sapatos. Todos exceto Barbie, que o encarava intensam ente.
– Alguém gostaria de ser o prim eiro? – lançou-lhes um olhar de encoraj am ento e então pelo m enos alguns deles ergueram o olhar. Finalm ente Mehm et falou.
– É, está tudo indo bem – e então calou-se
– Gostaria de explicar m elhor? – a voz de Lars era gentil, com um leve tom de persuasão.
– Bem , quero dizer, até agora está tudo ótim o. O m eu trabalho é, tipo, legal e tal... – Mehm et fez silêncio novam ente.
– Com o os dem ais se sentem com o trabalho que lhes foi dado?
– Trabalho? – Calle bufou. – Eu lavo pratos o dia todo. Mas vou conversar com Fredrik sobre isso hoj e à tarde. Tenho que ver se consigo fazer um as m udanças naquele lugar – deu a Tina um olhar significativo. Ela só o encarou.
– E você, Jonna, com o foi a sem ana para você?
Jonna era a única que ainda parecia achar seus sapatos incrivelm ente interessantes. Ela resm ungou algo em resposta, m as sem levantar a cabeça. Todos os que estavam sentados em círculo no m eio da enorm e sala do centro com unitário inclinaram -se para a frente para tentar ouvir o que ela dizia.
– Perdão, Jonna, m as nós não ouvim os. Pode repetir? E eu gostaria m uito que você fizesse a gentileza de nos olhar nos olhos quando fala conosco. Do contrário, parece que você não nos trata com respeito. É essa sua intenção, Jonna?
– É, é isso? – Uffe se introm eteu, chutando o pé dela. – Acha que é m elhor que a gente ou o quê?
– Isso não é construtivo, Uffe – Lars advertiu-o. – O que querem os construir aqui é um am biente caloroso e seguro, onde todos vocês possam falar sobre seus sentim entos e suas experiências.
– Está usando palavras que provavelm ente são com plexas dem ais para o Uffe – Tina debochou. – Você terá que usar frases m ais sim ples se quiser que ele te acom panhe.
– Puta do caralho! – foi a eloquente resposta de Uffe, acom panhada de um olhar enfurecido.
– É disso m esm o que eu estou falando – a voz de Lars assum iu um tom áspero. – Não há m otivo para provocarem uns aos outros assim . Vocês todos estão em um a situação extrem a, que pode ser em ocionalm ente difícil. Aqui vocês têm a chance de aliviar a tensão de m aneira saudável – olhou em volta, fixando o olhar reprovador em um após o outro. Alguns concordaram . Barbie levantou a m ão.
– Sim , Lillem or? – ela baixou a m ão.
– Em prim eiro lugar, m eu nom e não é Lillem or, agora é Barbie – disse, fazendo um beicinho carrancudo. E então sorriu. – Mas eu só queria dizer que acho isso incrivelm ente legal! Todos nós tem os a chance de nos sentarm os aqui e falar o que pensam os. Nunca tivem os isso no Big Brother.
– Ah, vá se foder – disse Uffe, afundando-se na cadeira e encarando Barbie. O sorriso dela desapareceu, e ela baixou os olhos.
– Eu acho isso m uito bem colocado – Lars disse, tentando encoraj á-la. E vocês terão a oportunidade de fazer terapia individual, bem com o em grupo. Acho que vam os concluir a parte grupal agora, então você e eu... Barbie, podem os com eçar a terapia individual. Tudo bem ?
Ela ergueu os olhos e sorriu outra vez.
– Sim , eu adoraria. Tenho toneladas de coisas que preciso contar.
– Tudo bem , então – disse Lars, sorrindo de volta para ela. – Sugiro que a gente vá para trás do cenário, para o quarto dos fundos, a fim de poderm os conversar sem serm os perturbados. E então vou conversar com um de cada vez, na ordem do círculo. Depois de Barbie vem Tina, depois Uffe e assim por diante. Está bom assim ? – ninguém respondeu, o que Lars tom ou com um sim .
Assim que a porta se fechou atrás de Barbie e Lars, eles com eçaram a falar. Todos exceto Jonna, que, com o sem pre, preferia o silêncio.
– Que m onte de bosta – Uffe zom bou, batendo no j oelho.
Mehm et o olhou irritado.
– O que quer dizer? Eu acho bom . Você, com o a gente, fica fodido depois de algum as sem anas nesses program as. Eu acho legal que, um a vez na vida, alguém estej a pensando no elenco. Querem que a gente fique bem .
– Querem que a gente fique bem – Uffe im itou-o com voz estridente. – Você é um boiola, Mehm et, tá ligado? Você devia ter um daqueles program as de saúde na TV. Ficar lá sentado de roupinha j usta e fazendo ioga ou sei lá que porra de nom e tem aquilo.
– Não ligue pra ele, só está sendo um babaca – disse Tina, encarando Uffe, que voltou sua atenção para ela.
– Que m erda você tá falando aí, sua vaca da porra? Acha que é m uito esperta, não? Se gabando das boas notas que tira e quantas palavras bonitas você sabe. Você acha que é m elhor que todos nós. E agora acha que vai ser um a estrela pop tam bém – de sua risada transbordava desdém e ele olhou em volta, buscando apoio do grupo. Ninguém respondeu. Mas ninguém protestou tam bém , então ele prosseguiu:– Você acredita m esm o nessa m erda? Você só está fazendo todo m undo passar vergonha, incluindo você m esm a. Ouvi dizer que você falou com eles pra te deixarem cantar sua m usiquinha patética hoj e à noite, e eu estou doido pra ver as pessoas j ogarem tom ates podres em você. Cara, eu m esm o vou lá ficar na prim eira fila pra tacar alguns.
– É m elhor você calar a boca, Uffe – Mehm et disse, fuzilando-o com o olhar. – Você é burro e noj ento e está com invej a porque a Tina tem talento, enquanto tudo que você tem é um a curta carreira com o um idiota de reality show. Depois disso, você vai voltar para um arm azém e vai carregar caixas o dia inteiro.
Uffe riu de novo, m as dessa vez soou nervoso. Havia um fundo de verdade nas palavras de Mehm et, o que fez surgir um desconforto nas entranhas de Uffe. Ele, porém , afugentou a sensação.
– Não precisa acreditar em m im se não quiser. Mas vocês verão por si m esm os, hoj e à noite. Os caipiras dessa cidade vão chorar de rir.
– Eu te odeio, Uffe, só quero que saiba disso – Tina levantou-se com lágrim as nos olhos e deixou o grupo. Um a câm era a seguiu. Ela com eçou a correr para fugir, m as era im possível escapar das câm eras. Seus olhos vorazes estavam em toda parte.
Patrik não conseguia se concentrar em m ais nada. Pensam entos do acidente de carro o assom bravam . Se pelo m enos conseguisse apontar o que lhe parecia tão fam iliar a respeito da m orte de Marit. Pegou a pasta que continha todos os papéis da investigação e sentou-se para verificar tudo novam ente. Não tinha ideia de quantas vezes j á havia feito aquilo. Com o sem pre quando estava im erso em pensam entos, ele falava sozinho.
– Hem atom as ao redor da boca, níveis extrem am ente altos de álcool no sangue em um indivíduo que nunca bebeu, de acordo com seus parentes – correu os dedos pelo relatório da autópsia, em busca de algo que pudesse ter deixado passar em leituras anteriores. Mas nada parecia irregular. Patrik pegou o telefone e discou um núm ero que sabia de cor.
– Olá, Pedersen, aqui é Patrik Hedström , da polícia de Tanum shede. Você teria cinco m inutos para exam inar o relatório com igo m ais um a vez?
Pedersen concordou e então Patrik prosseguiu:
– Esses hem atom as ao redor da boca, pode m e dizer quando ocorreram ? Ok – tom ava notas nas m argens, enquanto o outro falava.– E o álcool, pode dizer algo sobre o tem po que levou para ela ingerir? Não, não digo em que hora do dia; bem , isso tam bém , talvez. Mas ela ficou bebendo por m uito tem po ou virou tudo ou... Isso m esm o, é isso que eu quero dizer – ouvia com atenção e anotava furiosam ente.– Interessante, m uito interessante. Encontrou m ais algum a coisa que consideraria estranha durante a necropsia? – Patrik escutou e não escreveu nada por um m om ento. Percebeu que apertava o fone contra a orelha com tanta força que com eçava a m achucar e então dim inuiu a pressão.– Resquícios de fita em torno da boca? Sim , essa é sem dúvida um a inform ação im portante. Mas não há m ais nada que possa m e dizer? – suspirou diante das respostas pouco inform ativas que estava recebendo e apertou o dorso do nariz, frustrado.– Está bem , acho que é só isso então – Patrik desligou o telefone relutantem ente. Ele realm ente esperava por m ais. Pegou as fotos da cena do crim e e com eçou a estudá-las, procurando algum a coisa, qualquer coisa, em sua m em ória teim osa. A parte m ais irritante é que ele nem tinha cem por cento de certeza que havia de fato algo a ser lem brado. Talvez só estivesse im aginando coisas. Talvez fosse um a form a estranha de déjà-vu. Talvez ele tivesse visto algo na TV ou em um film e ou ouvido algo que estivesse fazendo seu cérebro procurar algum a coisa que não existia. Mas quando estava a ponto de deixar de lado os papéis, frustrado, um lam pej o ocorreu entre as sinapses, em seu cérebro. Inclinou-se para inspecionar m ais de perto a foto que tinha nas m ãos e um a sensação de triunfo lhe assom ou. Talvez não estivesse tão fora de curso, afinal. Talvez algo específico tenha pairado nos cantos de sua m em ória, no fim das contas. Em poucos passos, estava na porta. Era hora de ir ao arquivo.
* * *
Com indiferença, Barbie deixou passar as m ercadorias pela esteira do caixa, enquanto lia os códigos de barras. Lágrim as surgiram em seus olhos, m as ela as afastou com um a piscadela, obstinadam ente. Não queria passar vergonha por ficar chorando.
A conversa daquela m anhã rem exeu com tantas em oções. Todo aquele lodo que estava assentado lá no fundo por tanto tem po agora subia à superfície. Olhou para Jonna sentada no caixa em frente. De certa form a, ela a invej ava. Talvez sua não depressão ou o ato de se cortar. Barbie nunca seria capaz de passar um a faca na própria carne daquele j eito. O que ela invej ava era a óbvia indiferença de Jonna com relação ao que os outros pensavam . Para Barbie, nada era m ais im portante do que sua aparência e com o era vista pelos outros. Não fora sem pre assim , com o as fotos do tem po de escola desenterradas por aquele tabloide m aldito tinham revelado. Os retratos m ostravam sua aparência quando era pequena e m agricela, com um aparelho gigante, seios quase inexistentes e cabelo escuro. Ficou devastada quando as im agens foram m ostradas nos anúncios do j ornal. Mas não pela razão que todos im aginavam . Não porque estivesse preocupada que as pessoas soubessem que tanto a cor de seu cabelo quanto seus seios eram falsos. Não era tão estúpida. Mas a m agoava ver o que ela não tinha m ais. Seu sorriso feliz. Cheio de autoconfiança. Ela era feliz com o era, segura e satisfeita com sua vida. Mas tudo m udou no dia em que seu pai m orreu.
Ela e seu pai se davam m uito bem . Sua m ãe havia m orrido de câncer quando Barbie era pequena. Mas de algum a form a, seu pai conseguira fazê-la sentir-se com pleta apesar da m orte da m ãe; ela nunca sentiu falta de nada. Sabia que houvera altos e baixos por um tem po, quando era um bebê, logo depois de sua m ãe m orrer e quando “Todo o Mal” aconteceu. Ela soube de tudo, m as seu pai pagara o preço, aprendera a lição e seguira em frente para construir um a nova vida para si e para sua filha. Até aquele dia em outubro.
Pareceu tão irreal quando aconteceu. Em apenas um instante, toda a sua vida fora erradicada e tudo lhe fora tirado. Não tinha m ais fam ília, nenhum parente a quem recorrer, então foi relegada a um m undo de fam ílias adotivas e situações de m oradia tem porária. Havia aprendido lições que preferia não ter conhecido. A autoconfiança que tinha desapareceu. Seus am igos não conseguiam entender que ela havia m udado por dentro por conta do que acontecera. Aquele dia lhe tirou algo e ela j am ais seria a m esm a. Seus am igos tentaram apoiá-la por um tem po, m as eventualm ente a deixaram à própria sorte.
Foi quando o desej o de ser aceita entre os m eninos m ais velhos e as m eninas duronas com eçou. Não bastava m ais ser um a m oleca qualquer. O nom e Lillem or tam bém não com binava m ais com ela. Então com eçou a se virar com o que tinha e com o que podia pagar. Tingiu os cabelos de loiro no banheiro de um dos nam orados que passaram por sua vida. Substituiu suas roupas velhas por novas: m ais j ustas, m ais curtas, m ais sedutoras. Porque havia descoberto qual seria a porta para sair da m iséria. Sexo. Isso lhe traria atenção e bens m ateriais. Daria-lhe um a chance de sobressair na m ultidão. Um nam orado tinha bastante dinheiro e financiou os seios. Ela os teria preferido um pouco m enores, m as era ele quem estava pagando e foi dele a decisão. Ele queria tam anho GG e foi o que conseguiu. Assim que term inou a transform ação física, era apenas um a questão da em balagem . O nam orado que veio após o financiador dos seios a cham ava de “bonequinha Barbie” e isso resolveu o problem a do nom e. E então tudo que ela teria que decidir era o m elhor m eio para lançar sua nova im agem . Com eçou com pequenos trabalhos com o m odelo, que exigiam pouca roupa, ou nenhum a. Mas sua grande chance foi o Big Brother. Ela se tornou a grande estrela do program a. E não a incom odava nem um pouco que toda a população da Suécia pudesse observar sua vida sexual a partir da sala de suas casas. Quem se im portava? Ela não tinha fam ília para repreendê-la por causar-lhes vergonha em público. Estava sozinha no m undo.
Ela quase sem pre era bem -sucedida em não pensar no que se passava no íntim o de Barbie. Havia em purrado Lillem or para tão longe, para o fundo de sua consciência, que a m enina m al existia. Havia feito o m esm o com a m em ória de seu pai. Não podia se perm itir lem brar dele. Se tinha que sobreviver, o som de sua risada ou o toque de sua m ão em sua face não podiam m ais existir na vida que agora levava. Isso a m agoaria dem ais. Mas a conversa daquela m anhã com aquele psicólogo tocou em cordas que ainda vibravam insistentem ente dentro dela. E Barbie não parecia ser a única a ter tal reação. O clim a ficou desanim ado depois que cada participante entrou na salinha atrás do cenário e se sentou de frente para o psicólogo. Às vezes ela sentia que toda a negatividade era dirigida a ela e ocasionalm ente tinha a sensação de que alguns dos participantes a olhavam com m alícia. Mas sem pre que se virava para ver de onde vinha aquela sensação incôm oda, o m om ento havia passado.
Ao m esm o tem po, algo se agitava incansavelm ente dentro dela. Algo em que Lillem or tentava se concentrar. Mas Barbie se forçava a esquecer. Algum as coisas ela sim plesm ente não podia deixar sair.
Com pras continuavam passando pela esteira, no caixa à sua frente. Não acabava nunca.
Pesquisar os arquivos era, com o sem pre, um trabalho tão chato quanto árduo. Nada parecia estar no lugar certo. Patrik sentou-se de pernas cruzadas no chão, com caixas ao seu redor. Sabia que tipo de docum ento procurava e, em um m om ento de tolice, achou que seria fácil encontrá-lo em um a caixa identificada “Material Educativo”. Mas não teve essa sorte. Ouviu passos na escada e olhou para cim a. Era Martin.
– Ei, Annika disse que te viu vindo para cá. O que está fazendo? – Martin olhou adm irado para todas as caixas espalhadas em volta de Patrik.
– Estou procurando por anotações que fiz quando fui a um a conferência em Halm stad, alguns anos atrás. Qualquer um pensaria que teriam sido arquivadas com algum a lógica, m as não. Algum idiota m exeu em tudo, não há um padrão – j ogou m ais um a pilha de papéis dentro de um a caixa que tam bém não havia sido arquivada no lugar correto.
– É, Annika vem ralhando conosco há algum tem po por não m anterm os nossos docum entos em ordem aqui. Ela diz que arquiva tudo no lugar certo, m as que os docum entos aparentem ente criam pés.
– Eu não entendo por que as pessoas não podem sim plesm ente colocar as coisas de volta no lugar em que as encontraram . Eu sei que coloquei as anotações num a pasta que arquivei aqui – apontou para a caixa identificada com o “Material Educativo” e prosseguiu. – Mas agora elas não estão aqui. Então a pergunta é: em que droga de caixa estão? “Desaparecidos”, “Casos Solucionados”, “Casos Não Solucionados” etc. Seu palpite é tão bom quanto o m eu – e varreu com um gesto a salinha cheia de caixas, que iam do chão ao teto.
– Bem , o que m ais m e fascina é o fato de você ter aquivado suas anotações da conferência. As m inhas ainda estão no m eu escritório, em um a pilha qualquer.
– Está bem , acabei de descobrir que eu provavelm ente deveria ter feito o m esm o. Mas fui ingênuo o bastante de achar que elas poderiam ter utilidade para m ais alguém – Patrik suspirou e pegou outra pilha de docum entos e com eçou a folheá-la. Martin sentou-se a seu lado no chão e pegou um a caixa tam bém .
– Eu vou te aj udar. Assim será m ais rápido. O que estou procurando? Que tipo de conferência foi? E por que está procurando suas anotações, afinal?
Patrik não olhou para ele, apenas respondeu:
– Com o eu disse, foi um a conferência em Halm stad, em 2002, se m e lem bro bem . Tinha algo a ver com casos estranhos que ainda inspiravam perguntas e perm aneciam sem solução.
– E? – disse Martin, esperando m ais inform ações.
– Bem , eu te digo m ais quando encontrarm os as anotações. Até agora é um a vaga ideia, então quero refrescar a m em ória antes de dizer m ais.
– Está bem – disse Martin. Continuava curioso, m as conhecia Patrik bem o bastante para perceber que não seria nada bom pressioná-lo.
De repente, Patrik levantou a cabeça e sorriu de m aneira astuta.
– Mas eu te digo se m e disser...
– Te dizer o quê? – Martin perguntou, surpreso, m as, quando viu o sorriso de Patrik, com preendeu aonde seu colega queria chegar. Ele riu e disse:
– Está bem . Fechado. Quando você m e disser, eu te direi.
Depois de um a hora de busca infrutífera, Patrik deu um grito.
– Achei! – puxou alguns papéis de dentro de um a pasta de plástico.
Martin reconheceu a caligrafia de Patrik e tentou ler de ponta-cabeça o que estava escrito. Mas não adiantou e teve que esperar, frustrado, enquanto Patrik corria os olhos pelas anotações. Depois de ler três páginas, seu dedo indicador parou repentinam ente no m eio da folha. Um a ruga profunda se form ou entre suas sobrancelhas, e Martin tentou m entalm ente fazê-lo ler m ais depressa. Após o que pareceu um a eternidade, Patrik levantou a cabeça, triunfante.
– Está bem , seu segredo prim eiro – disse.
– Ah, qual é! Estou tão curioso que acho que vou m orrer – Martin riu e tentou arrancar os papéis da m ão de Patrik. Mas seu colega estava preparado para aquela m anobra e puxou-os para longe, segurando-os no ar.
– Pode esquecer. Prim eiro você, depois eu.
Martin suspirou.
– Você é um provocador, sabia? Está bem , é o que você pensou. Pia e eu vam os ter um bebê. No fim de novem bro – e levantou um dedo, em advertência. – Mas você ainda não pode contar pra ninguém ! Estam os apenas na oitava sem ana e querem os m anter segredo até pelo m enos a décim a segunda.
Patrik ergueu as duas m ãos. Os papéis que segurava na m ão direita farfalharam .
– Prom eto. Meus lábios estão selados. Mas parabéns, pelo am or de Deus!
Martin sorriu de orelha a orelha. Por várias vezes, esteve a ponto de contar a Patrik. Estava ansioso para espalhar a boa notícia, m as Pia queria esperar o crítico prim eiro trim estre passar a salvo. Então ele poderia contar às pessoas. Era um alívio finalm ente contar a alguém .
– Está bem , agora você j á sabe. Então m e diga por que estam os aqui há um a hora, cobertos de poeira.
Patrik ficou sério de im ediato. Entregou o docum ento a Martin, apontou o trecho em que ele deveria com eçar a ler e esperou. Depois de algum tem po, Martin ergueu os olhos, espantado.
– Agora não há dúvida de que Marit foi assassinada – disse Patrik.
– Não, acho que não.
Um a pergunta tinha que ser respondida agora. Mas ela só levantava ainda m ais questões. Eles tinham toneladas de trabalho à frente.
* * *
Ele estava batendo as assadeiras com tanta força que o barulho podia ser ouvido lá no balcão da loj a. Mehm et enfiou a cabeça nos fundos da padaria.
– Que porra está fazendo? Destruindo o lugar ou o quê?
– Vá se foder! – Uffe bateu as assadeiras na m esa de propósito.
– Desculpe – disse Mehm et, erguendo as m ãos. – Acordou com o pé esquerdo, não foi?
Uffe não respondeu. Em pilhou as assadeiras e sentou-se. Estava tão cansado de tudo aquilo. Sodding Tanum não estava sendo com o ele esperava, pelo m enos não até agora. Ainda não tinha caído a ficha de que ele ia m esm o ter que trabalhar. Isso era um inconveniente e tanto. Era a prim eira vez que precisava ter um dia de trabalho honesto. Algum as invasões, vários roubos e coisas assim eram o que previam ente havia lhe garantido um a vida de desem pregado. Não um a vida de luxo, no entanto; Uffe j am ais ousaria fazer m ais que pequenos assaltos, m as eles traziam m ais que o bastante para m antê-lo longe da labuta. E então ele veio parar naquele lugar. Até a vida na ilha tinha sido m ais fácil. Lá ele podia ficar deitado e tom ar sol o dia todo, falando besteira com os outros m em bros do elenco. Passou fom e de verdade, m as a falta de com ida não o incom odou com o ele previa.
Mesm o os outros participantes de Sodding Tanum não eram o que ele im aginava. Eram todos uns idiotas. Mehm et, que era tão confiável. Trabalhava com o um escravo na padaria, de m odo totalm ente voluntário. Havia o Calle, que só estava no program a para continuar a ser o rei da cena noturna de Stureplan. Tina, que era tão convencida, tão superior, que o fazia ter vontade de socá-la. E Jonna, que perdedora de m erda. Toda aquela história de se cortar, ele não entendia. E por últim o, m as não m enos im portante, Barbie. O rosto de Uffe se enevoou. Ele tinha algum as coisas a dizer para aquela putinha barata. Se Barbie achava que podia conseguir tudo o que quisesse, era bom pensar de novo. As coisas que ouvira de m anhã o faziam querer ter um a conversinha com a rainha do silicone.
– Uffe, está planej ando trabalhar um pouco hoj e ou não? – Sim on dirigiu-lhe um olhar severo e, com um suspiro, Uffe levantou-se da cadeira. Sorriu para a câm era na parede e foi para o balcão. Teria que se conform ar e trabalhar um pouco. Mas à noite... à noite ele e Barbie iriam ter um a conversa séria.
* * *
Quando Mellberg estava saindo da delegacia, parou rapidam ente no escritório de Hedström . Patrik e Martin estavam lá. Pareciam m uito ocupados. Havia papéis espalhados por toda a m esa e Martin escrevia algo em seu com putador. Patrik falava ao telefone e tinha o fone preso entre sua orelha e seu om bro, para que pudesse ter acesso aos papéis à sua frente ao m esm o tem po. Por um m om ento, Mellberg considerou ir até lá descobrir o que era tão urgente. Mas decidiu não ir. Tinha coisas m ais im portantes a fazer. Com o ir para casa e se arrum ar para o j antar com Rose-Marie. Iriam se encontrar às sete horas no restaurante, o que significava que tinha duas horas para tornar-se o m ais apresentável possível.
Ele arfava ao fim da curta cam inhada até sua casa. Não estava em sua m elhor form a, tinha que adm itir. Quando entrou em seu apartam ento, por instante viu tudo com os olhos de um estranho. Aquilo não ia dar certo, de m aneira nenhum a. Até ele podia perceber isso. Se ele queria se dar bem e trazê-la para um pequeno interlúdio noturno em sua casa, algo teria que ser feito. Seu corpo todo protestou à m era ideia de fazer qualquer tipo de lim peza. Por outro lado, ele raram ente tinha um bom incentivo para fazê-lo. Surpreendeu-se em com o parecia im portante causar boa im pressão na m ulher com quem ia sair naquela noite.
Um a hora depois, estava ofegante quando se sentou no sofá. As alm ofadas tinham sido afofadas pela prim eira vez desde que havia se m udado para lá. De repente, percebeu por que lim pava a casa tão raram ente. Era cansativo dem ais. Mas, quando olhou para o apartam ento, pôde ver que a lim peza tinha feito m aravilhas. O lugar não parecia m ais tão desm azelado. Ele tinha alguns m óveis bons, que herdara dos pais. Retirada a cam ada de poeira que norm alm ente a cobria, a m obília estava bem bonita. Ele tam bém havia conseguido arej ar o cheiro de m ofo que norm alm ente pairava no ar, originário de restos de com ida e outras coisas pouco higiênicas. A pia, que norm alm ente estava cheia de pratos suj os, brilhava ao sol de prim avera. Agora ele até podia im aginar trazer um a m ulher ali.
Mellberg olhou para o relógio e levantou-se abruptam ente. Um a hora apenas até seu encontro com Rose-Marie e ele estava suado e coberto de poeira. Teria que se tom ar banho prim eiro. Passou os olhos por suas roupas em busca de algo para vestir. As opções não eram tantas quanto gostaria. Com um olhar m ais apurado, a m aior parte de suas cam isas e calças tinha m anchas e não passava perto de um ferro havia m uito tem po. Finalm ente, por um processo de elim inação, vestiu um a cam isa listrada de azul e branco, calça preta e um a gravata verm elha com um desenho do Pato Donald. Essa últim a ele achou um a ótim a ideia. E verm elho lhe caía bem , se é que podia dizer isso. A calça, entretanto, pertencia à categoria das não passadas, e ele pensou em com o resolver esse problem a. Procurou pelo apartam ento todo, m as não havia ferro. Seu olhar pousou no sofá e um a brilhante ideia lhe ocorreu. Arrancou as alm ofadas dos assentos e colocou a calça o m ais reta possível ali. É claro que debaixo das alm ofadas não estava lá tão lim po, m as ele poderia lidar com isso m ais tarde. Eram m ais fiapos e m igalhas, que poderiam ser espanados. Colocou as alm ofadas no lugar e sentou-se por cinco m inutos. Se passasse m ais cinco m inutos no sofá depois de sair do chuveiro, provavelm ente pareceria que a calça tinha acabado de ser passada. Sorte dele não ser um daqueles solteiros inúteis, pensou com satisfação. Ainda era capaz de encontrar um a boa solução para qualquer problem a.
As pessoas com eçaram a se dirigir para o centro com unitário, onde iria acontecer o baile. As cam as do elenco haviam sido retiradas e os participantes tiveram que guardar seus obj etos pessoais. Ninguém estava autorizado a entrar no salão ainda, por isso a fila crescia e serpenteava pelo estacionam ento. As garotas estavam congelando e pulando no lugar para se aquecerem . O vento frio de prim avera estava fazendo seu m elhor para deixá-las arrependidas por estarem usando suas saias m ais curtas e suas blusas m ais decotadas. A única coisa que todas as pessoas na fila tinham em com um era a expressão de expectativa no rosto. Aquele era o evento m ais excitante que acontecia em Tanum shede em m uito tem po. Jovens vinham da com unidade toda e m esm o de fora da cidade, de Ström stad e de Uddevalla. Vigiavam a porta que logo se abriria. Lá dentro estavam seus heróis, seus ídolos. Tinham conseguido o que todos podiam apenas sonhar. Tornar-se um a celebridade. Ser convidado para festas com outras celebridades. Ser visto na TV. Então, talvez nessa noite, alguém da cidade pudesse ter a chance de alcançar um pouco desse poder. Fazer algo que levaria as câm eras a apontar para ele. Com o aquela garota em Sodding Töreboda. Ela tinha conseguido ficar com Andreas, do The Bar, e então apareceu em vários episódios do program a. Im agine conseguir fazer algo do tipo. As garotas arrum avam as roupas nervosam ente, tirando da bolsa gloss para os lábios, para aplicar m ais um a cam ada. Aj eitavam os cabelos e punham m ais spray fixador, enquanto tentavam ver o resultado em espelhinhos de bolso. A tensão era palpável.
Fredrik Rehn riu quando viu a fila através da j anela.
– Vej am aqui, m eninos e m eninas. Aí vêm os figurantes. Tem os que aproveitar essa noite, está bem ? Não se segurem . Bebam e se divirtam e façam tudo o que tiverem vontade – seus olhos se estreitaram . – Só lem brem -se de fazer o que quiserem em frente às câm eras. Não quero saber que alguém fugiu para se divertir sozinho. Isso poderia gerar um processo por quebra de contrato.
– Porra, você é pior que o Drinkenstj erna – disse Calle. Vários deles riram , concordando. Apenas Jonna nunca tinha ido a nenhum a de suas peregrinações por bares.
Fredrik sorriu, m as seus olhos estavam sérios com o nunca.
– Bem , eu não vou entrar em porm enores, m as sei bem o querem os que aconteça aqui. E isso é entretenim ento. Vocês foram escolhidos porque sabem com o agitar um lugar e essa é m ais um a tarefa de vocês aqui. Nunca se esqueçam . Não estam os j ogando um a porrada de dinheiro em um a produção com o essa só para os seis se divertirem e beberem de graça e m elhorarem sua im agem nas baladas. Vocês estão aqui para trabalhar.
– Então que porra a Jonna está fazendo aqui? – Uffe riu e olhou em volta, buscando a aprovação do grupo. – Ela não conseguiria agitar nem um asilo – sua risada áspera era fam iliar aos outros, m as Jonna nem se incom odou em olhar para ele. Manteve os olhos fixos em seu colo.
– Jonna é incrivelm ente popular entre as garotas de catorze a dezenove anos, nos índices etários. Muitas delas se identificam com ela. É por isso que a querem os aqui – Mas Fredrik não podia deixar de concordar com Uffe. A garota era um buraco negro social. Tão deprim ida. A decisão de incluí-la fora tom ada contra sua vontade e agora ele tinha que viver com isso. – Então, ficou claro para todos o que é im portante essa noite? Festa, festa, festa! – ele apontou para a m esa de bebidas que estava toda enfeitada. – E vam os todos aplaudir Tina hoj e, quando ela cantar sua m úsica. Certo? – e encarou Uffe, que sim plesm ente bufou.
– Tá certo, tá certo, tanto faz. E aí, podem os com eçar a beber ou não?
– Por favor – disse Fredrik, sorrindo. Seus dentes brilhavam em um branco deslum brante. – Vam os fazer um grande program a essa noite! – e fez sinais de positivo com as m ãos.
Suas observações receberam m urm úrios cheios de consentim ento. E então eles atacaram a m esa de bebidas.
As pessoas em fila lá fora com eçaram a entrar lentam ente no salão.
Anna estava fazendo o j antar quando Patrik chegou em casa. Erica estava sentada com as crianças na sala assistindo à TV. Maj a agitava os braços de prazer e Em m a e Adrian pareciam estar em transe. O estôm ago de Erica roncou ruidosam ente, e ela inspirou vorazm ente o arom a de com ida tailandesa que vinha da cozinha. Anna havia prom etido fazer algo que fosse tanto delicioso quanto light e, a j ulgar pelo cheiro, estava cum prindo o prim eiro quesito.
– Olá, querido – disse Erica sorrindo, quando Patrik entrou no recinto. Ele parecia cansado. Um pouco despenteado tam bém , quando ela olhou m ais de perto. – O que fez hoj e? Você está m eio... desm azelado – ela disse, apontando para a cam isa dele.
Patrik olhou para as próprias roupas suj as e suspirou. Com eçou a desabotoar a cam isa.
– Estive em nosso arquivo poeirento desenterrando algo. Vou tom ar um banho rápido e vestir roupas lim pas. Te conto m ais depois.
Erica o viu desaparecer escada acim a, na direção do quarto. Ela foi j untar-se a Anna na cozinha.
– Patrik chegou? Pensei ter ouvido a porta – Anna disse, sem tirar os olhos das panelas.
– Sim , chegou. Mas subiu para tom ar um banho e trocar de roupa. Parece que teve um dia duro no trabalho.
Anna ergueu os olhos.
– Pode m e aj udar a arrum ar a m esa? Aí estará tudo pronto quando ele descer.
O tim ing foi perfeito. Patrik desceu as escadas, com os cabelos m olhados e vestindo roupas confortáveis, assim que Anna colocou a panela m aior na m esa.
– Hum m , que cheiro bom – ele disse, oferecendo um sorriso para Anna. Toda a atm osfera ali estava diferente agora que ela havia saído de seu estado depressivo.
– É um curry tailandês, feito com leite de coco light. Com arroz e vegetais cozidos na panela wok.
– Por que essa com pulsão repentina por um a dieta saudável? – disse Patrik, cético, j á duvidando de que a com ida seria tão saborosa quanto perfum ada.
– Bem , sua futura noiva expressou um desej o de que vocês dois estej am fantásticos quando cam inharem em direção ao altar. Então, o “Plano Fantástico” com eça agora.
– Bem , nisso você tem razão – disse Patrik, puxando a cam iseta para baixo a fim de esconder a protuberância que tinha com eçado a se form ar ao longo dos últim os anos. – E as crianças? Não vão com er com a gente?
– Não, elas estão se divertindo na sala – disse Anna. – É nossa chance de ter um pouco de paz e silêncio.
– Mas e Maj a? Ela consegue se cuidar sozinha?
Erica riu.
– Que m ãezona você é. Ela vai ficar bem por um tem po. E pode acreditar, Em m a vai dar um grito se Maj a fizer algo errado.
Bem nessa hora, ouviram um a voz estridente vinda da sala.
– Ericaaaa! Maj a está m exendo no vídeo!
Patrik riu e se levantou.
– Eu cuido disso. Vocês duas, fiquem sentadas e sirvam -se.
Podiam ouvi-lo ralhando com Maj a sem se esquecer de lhe dar um beij o depois. Até os m ais velhos ganharam um , e ele parecia um pouco m ais relaxado quando voltou e sentou-se.
– E então? No que ficou trabalhando tão arduam ente hoj e?
Patrik contou por cim a o que havia acontecido. Tanto Erica quanto Anna largaram os garfos e o encararam , fascinadas pelo que ele contava. Erica foi a prim eira a falar.
– Mas qual é a conexão? E com o vai proceder?
Patrik term inou de m astigar antes de responder.
– Martin e eu ficam os a tarde toda fazendo algum as ligações para coletar inform ações. Na segunda-feira, querem os chegar ao fundo dessa história.
– Está de folga nesse fim de sem ana? – Erica disse, alegrem ente surpresa. Patrik havia passado fins de sem ana dem ais trabalhando.
– Sim , dessa vez estou. E as pessoas com quem tenho que conversar não estarão disponíveis até segunda-feira, de qualquer m aneira. Então, estou à sua disposição nesse fim de sem ana, m eninas – deu um sorriso aberto e Erica não resistiu e sorriu tam bém . Parecia que haviam se encontrado pela prim eira vez no dia anterior e ainda assim tinha a im pressão de que sem pre foram um casal. Às vezes ela se esquecia de que um dia j á tivera um a vida sem Patrik. E em poucas sem anas estariam casados.
Na sala, ouviu a filhinha falando em tatibitate. Agora que Anna estava se recuperando, Erica podia curtir a vida novam ente.
Rose-Marie j á estava sentada à m esa quando Mellberg chegou, dez m inutos atrasado. Acabou não sendo tão fácil quanto planej ara espanar a calça depois de “passá-la” debaixo das alm ofadas do sofá da sala. E um chiclete ficara grudado dos fundilhos; foi necessária toda a sua inventividade e um a faca afiada para desgrudá-lo. O tecido estava um pouco esgarçado após a utilização da faca, m as ele colocou o paletó por cim a e ela provavelm ente não perceberia. Deu um a últim a olhada em si m esm o no vidro de um a m oldura para assegurar-se de que tudo estava em ordem . Essa noite ele tivera cuidado especial de aj eitar artisticam ente as m echas no topo de sua cabeça. Nem um pedacinho de sua careca reluzente podia ser visto. Pensou satisfeito que estava envelhecendo com dignidade.
Surpreendeu-se novam ente quando seu coração quase parou ao vê-la. Fazia m uito tem po m esm o desde a últim a vez que havia batido desse j eito. O que havia nessa m ulher de m eia-idade e ligeiram ente cheinha que o afetava tanto? Só conseguiu pensar nos olhos dela. Eram os m ais azuis que ele j á vira e eram m ais penetrantes por conta do tom averm elhado de seus cabelos. Ele a olhava com o em um transe, de início sem notar sua m ão esticada. Então recuperou sua presença de espírito e encontrou-se fazendo um a m esura à m oda antiga e beij ando a m ão de Rose-Marie. Por um m om ento, sentiu-se um idiota e não podia conceber de onde vinha esse im pulso. Mas então viu que sua com panhia para o j antar parecia apreciar o gesto, e ele sabia fazer as coisas com estilo.
– Que lugar agradável! Nunca estive aqui antes – ela disse suavem ente, enquanto exam inava o cardápio.
– É um estabelecim ento de prim eira classe, posso lhe assegurar – disse Mellberg, estufando o peito com o se fosse ele o dono do restaurante.
– Sim , e a atm osfera daqui tam bém é excelente – seus olhos absorviam todas as delícias do cardápio. Mellberg tam bém estudava as opções e por um m om ento entrou em pânico quando viu os preços. Mas então seu olhar encontrou o de Rose-Marie por sobre os cardápios, e a agitação em seu estôm ago se acalm ou. Em um a noite com o essa, dinheiro não era problem a.
Ela olhou através da j anela, na direção do centro com unitário.
– Ouvi dizer que há um a festa lá hoj e.
– Sim , são aquelas pessoas do reality show. Nós norm alm ente conseguim os evitar eventos desse tipo nessa região. Nossos colegas em Ström stad norm alm ente cuidam das opções de entretenim ento por aqui, e tam bém são eles que têm que lidar com a bebedeira e o vandalism o que se seguem .
– Acha que vai haver problem as? Pode m esm o tirar essa noite de folga do trabalho? – Rose-Marie m ostrava-se preocupada.
O orgulho e o narcisism o de Mellberg transbordaram m ais ainda. Era bom sentir-se im portante na com panhia de um a bela m ulher. Aquilo quase nunca acontecia desde que tão rudem ente fora transferido para Tanum shede. Por algum a razão, as pessoas acham difícil apreciar suas q reais qualidades ali.
– Tenho dois oficiais encarregados de ficar de olho naquela m anobra publicitária essa noite – ele disse. – Então, podem os ter um bom j antar e nos divertir em paz e sossegadam ente. Um bom chefe sabe com o delegar, e eu adm ito que tenho um talento especial para isso.
Um sorriso de Rose-Marie confirm ou que ela não duvidava que ele fosse um excelente chefe. Essa estava sendo um a noite m uito agradável.
Mellberg olhou para o centro com unitário novam ente. Então livrou a m ente de tudo o que dissesse respeito a aquele evento. Martin e Hanna podiam cuidar disso. Havia assuntos m ais aprazíveis que necessitavam de sua atenção.
Tina fez os poucos exercícios vocais que conhecia antes de subir ao palco. É claro que ela cantaria com play back; bastava que dublasse as palavras ao m icrofone. Mas nunca se sabe. Um a vez, em Örebro, o CD parou de repente e, com o não havia ensaiado apropriadam ente, ela teve que enrolar a letra até o fim , ao vivo. Não queria passar por isso nunca m ais.
Sabia que os outros riam pelas suas costas. Estaria m entindo se dissesse que isso não a incom odava. Por outro lado, não podia fazer m ais nada a não ser subir no palco e m ostrar o que sabia fazer. Esta era sua grande chance de ter um a carreira com o cantora. Queria cantar desde que era um a garotinha. Passara tantas horas em frente ao espelho dublando canções pop, usando com o m icrofone sua corda de pular ou o que estivesse disponível. Com sua participação no The Bar, finalm ente tivera um a chance de m ostrar seu trabalho. Havia feito um a audição para o Idol antes de fazer o teste para o The Bar, m as aquela foi um a experiência que ainda doía. Os idiotas do j úri acabaram com ela, e a cena fora reprisada várias vezes na TV. Até chegaram a brincar, fazendo um a com paração, que ela era tão ruim com o cantora quanto Bill Clinton, o ex-presidente dos EUA, era em se m anter fiel. No início, ela não com preendeu o que queriam dizer e ficou lá, com um sorriso estúpido no rosto. E aí aquele velho idiota, Clabbe, com eçou a vaiá-la e dizer que ela deveria ter vergonha de si m esm a. Mandou-a ir para casa e se esconder debaixo do tapete. Não foi particularm ente um a piada inteligente, m as pelo m enos ela entendeu o que ele quis dizer. Mas a hum ilhação continuou. À beira das lágrim as, ela dirigiu-lhes um olhar atrevido e tentou fazer-lhes retirar o que haviam dito. Explicou que todo m undo sem pre lhe dizia que ela tinha um a bela voz. Sua m ãe e seu pai sem pre a ouviam com lágrim as nos olhos. Diziam que tinham tanto orgulho dela. Nada j am ais a havia preparado para ser tão brutalm ente dispensada. Ela estava tão feliz m ais cedo, naquela m anhã, quando aguardava na fila e observava tudo, confiante na vitória. Tinha certeza de que estaria entre os escolhidos, um dos que fariam a j urada Kishti chorar. Tina selecionara um a m úsica que sabia que ia im pressioná-los: “Without y ou”, de seu ídolo, Mariah Carey. Ela daria tudo de si e deixaria o j úri de boca aberta. E então com eçaria um a nova vida. Festas com celebridades e a histeria com um ao Idol. Turnês de verão e clipes na MTV, exatam ente com o Justin Bieber. Tudo o que tinha que fazer era ir à audição e dom inar a com petição. Mas tudo deu tão errado. Em vez disso, ela foi rej eitada, um a vez atrás da outra, hum ilhada e desprezada.
Quando os produtores do The Bar telefonaram , foi um presente dos céus. Era um a oportunidade que ela não queria deixar passar. Depois de um tem po, conseguiu descobrir o que a havia feito fracassar no Idol. Eram seus seios, claro. Os j urados gostaram de sua m úsica, m as não a queriam no program a porque sabiam que ela não faria sucesso se não tivesse o resto do equipam ento necessário. E, para um a garota, aquilo significava seios grandes. Então, assim que as gravações do The Bar com eçaram , ela com eçou a econom izar. Juntara cada centavo até finalm ente ter o suficiente para pagar pela cirurgia de aum ento de seios. Com os im plantes tam anho G a postos, nada m ais a im pediria. Mas ela se recusava a clarear os cabelos. Apesar de tudo, era um a garota inteligente.
* * *
Leif cantarolava enquanto saía do cam inhão de lixo. Norm alm ente, fazia a rota da área de Fj ällbacka, m as tantos funcionários com gastroenterite significava que ele tinha que cobrir um a área m aior que a usual. Mas ele não se im portava. Adorava seu trabalho e lixo era lixo, tanto fazia onde era coletado. Ele até j á havia se acostum ado com o cheiro, ao longo dos anos. Não havia m uito m ais odores que pudessem fazê-lo torcer o nariz. Infelizm ente, seu olfato am ortecido o im pedia de notar o arom a de pães de canela saídos do forno ou o perfum e de um a m ulher bonita, m as eram os ossos do ofício. Ele gostava de trabalhar e não havia m uita gente que podia dizer isso.
Calçou suas enorm es luvas de trabalho e pressionou um dos botões no painel de controle. O cam inhão de lixo verde com eçou a bufar e soltar ar, enquanto o braço do guindaste era baixado. Norm alm ente ele ficava na boleia enquanto o guindaste pegava a lata de lixo e depositava o conteúdo diretam ente na prensa, m as um a lata em particular não estava posicionada de m aneira correta, então ele teve que arrastá-la m anualm ente.
Agora ele olhava o cam inhão levantar a lixeira. Era bem cedo ainda e ele bocej ou. Geralm ente, não ia para cam a tarde, m as tom ara conta dos m eninos na noite anterior, seus am ados netos. Eles tinham sido autorizados a ficar acordados e bagunçar até um pouco m ais tarde, m as valia a pena. Ser avô era a m elhor parte de sua vida. Expirou e observou a névoa branca de seu hálito subir. Estava m uito frio, m esm o j á sendo m etade de abril. Mas a tem peratura ainda baixava de um a hora para a outra.
Leif deu um a olhada na vizinhança, que consistia em sua m aior parte de casas de veraneio. Logo este lugar estaria lotado de gente, repleto de vida. Todas as latas de lixo teriam que ser esvaziadas. Latas cheias de cascas de cam arão e garrafas de vinho branco que as pessoas teriam preguiça dem ais para levar aos centros de reciclagem . Todo ano era a m esm a coisa. Todo verão. Ele bocej ou novam ente e olhou para a lata pendurada no ar, enquanto era rotacionada para despej ar seu conteúdo no cam inhão de lixo. Ficou espantado com o que viu. Que diabos?
Leif apertou o botão e parou a prensa. E então pegou seu celular.
* * *
Patrik deu um suspiro profundo. O sábado não estava tom ando o rum o que esperava. Suspirou de novo, um pouco m ais fundo dessa vez e olhou em volta, resignado. Vestidos, vestidos, vestidos. Tule e rosetas e lantej oulas e o dem ônio e a tia dele. Estava suando e puxou o colarinho do instrum ento de tortura que vestia. Pinicava e estava apertado em lugares inesperados e era tão quente quanto um a sauna portátil.
– E então? – disse Erica, com olhar crítico. – Sente-se bem ? Ele serve direitinho? – ela virou-se para a proprietária da loj a, que ficara encantada quando Erica apareceu com o futuro m arido ao seu lado. – Provavelm ente precisará de aj ustes, a calça está um pouco com prida – disse Erica, virando-se para Patrik outra vez.
– Nós vam os cuidar de tudo, não há problem a algum – a m ulher se aj oelhou e com eçou a pôr alfinetes nas barras.
Patrik fez um a careta.
– Isso aqui precisa ser tão... j usto? – puxou o colarinho de novo. Parecia não ventilar.
– O paletó serve perfeitam ente – cantarolou a m ulher, o que era um feito, considerando que ela tinha dois alfinetes presos no canto da boca.
– Eu só acho que está um pouco agarrado – disse Patrik, apelando para Erica em busca de apoio.
Mas não foi bem -sucedido. Ela sorriu, o que em sua m ente pareceu m ais um sorrisinho m alvado e respondeu:
– Você está estupendo! Você quer estar o m ais estiloso possível quando nos casarm os, não quer?
Patrik olhou para sua futura esposa, pensativo. Ela estava apresentando tendências preocupantes, m as talvez um a loj a de artigos para noivas tivesse esse efeito sobre todas as m ulheres. Ele só queria sair de lá o m ais rapidam ente possível. Derrotado, percebeu que só havia um j eito de conseguir isso. Com m uito esforço, forçou um sorriso, dirigido a ninguém em particular.
– Você está certa – ele disse – Eu acho que esse está com eçando a ficar m uito, m uito bom . Vam os levar esse!
Erica bateu palm as de prazer. Pela m ilésim a vez, Patrik se perguntava o que havia com casam entos que fazia brilhar os olhos das m ulheres. É claro que ele tam bém estava ansioso para se casar, m as ficaria m uito feliz com um a cerim ônia bem m enor. Não podia negar, no entanto, que a alegria nos olhos de Erica aquecia seu coração. Apesar de tudo, o que m ais im portava nesse m undo é que ela estivesse feliz. Se isso significava ter que vestir por um dia um a fantasia de pinguim que pinicava, ele o faria. Inclinou-se e beij ou-a nos lábios
– Acha que Maj a está bem ?
Erica riu.
– Anna j á tem dois filhos, acho que ela pode tom ar conta de Maj a.
– Mas agora ela tem três crianças para cuidar. E se ela tiver que correr atrás de Adrian ou Em m a e Maj a escorregar e...
Erica o interrom peu com um sorriso.
– Pode parar. Eu tom ei conta dos três o inverno todo e correu tudo bem . Além disso, Anna disse algo sobre Dan ir até lá. Então não há com que você se preocupar.
Patrik relaxou. Erica estava certa. Mas ele sem pre tinha m edo de que algo acontecesse com sua filha. Talvez fosse por causa de tudo que j á tinha visto no trabalho. Ele conhecia bem dem ais os terríveis eventos que podiam ocorrer com pessoas norm ais. E as coisas horrendas que podiam acom eter crianças. Havia lido em algum alugar que, depois que você tem um filho, é com o se passasse o resto da vida com um a pistola engatilhada apontada para sua cabeça. E havia um tanto de verdade nisso. O m edo estava sem pre presente, à espreita. O perigo estava em toda parte. Mas ele ia tentar parar de pensar nisso por ora. Maj a estava bem . E ele e Erica teriam um raro dia só para eles.
– Quer alm oçar em algum lugar? – ele sugeriu, depois que pagaram e agradeceram à m ulher. O sol de prim avera brilhava sobre eles e aquecia suas faces enquanto dirigiam -se para a rua.
– Parece um a ideia m aravilhosa – Erica disse, feliz, pegando no braço dele. Cam inhavam devagar pela rua com ercial em Uddevalla, olhando os vários restaurantes à disposição. O escolhido foi um tailandês em um a das travessas. Eles estavam a ponto de adentrar no sedutor arom a de curry quando o telefone de Patrik tocou. Ele olhou para o visor. Droga, era da delegacia.
– Não m e diga... – disse Erica, balançando a cabeça, aborrecida. Pela expressão no rosto dele, ela podia dizer de onde a cham ada vinha.
– Eu preciso atender – ele disse. – Mas vá entrando, tenho certeza de que não é nada im portante.
Erica resm ungou, cética, m as fez o que ele pediu. Patrik esperou do lado de fora, ciente da antipatia em sua voz quando atendeu.
– Sim , aqui é Hedström – a expressão em seu rosto logo se transform ou de irritação para incredulidade.
– Que diabos está m e dizendo, Annika? Em um a lata de lixo? Há m ais alguém indo para lá? Martin? Está bem . Voltarei agora m esm o. Mas estou em Uddevalla, então talvez dem ore um pouco. Só m e dê o endereço exato – tirou um a caneta do bolso, m as não tinha papel, então anotou o endereço na palm a da m ão. Desligou e respirou fundo. Não estava nem um pouco ansioso para dizer a Erica que teriam que cancelar o alm oço e voltar direto para casa.