O estranho
Capítulo 4
Às vezes ele achava que se lem brava da outra, daquela que não dera nem tão gentil nem tão bonita quanto essa. A outra, cuj a voz era tão fria e im placável. Com o vidro duro e afiado. Por incrível que pareça, ele às vezes sentia saudade dela. Ele havia perguntado se a irm ã se lem brava dela, m as ela só balançava a cabeça. Então ela pegava seu cobertor, aquele m acio, com os ursinhos cor-de-rosa, e o abraçava apertado. E ele via que ela se lem brava, sim . A lem brança estava guardada em algum lugar lá dentro, em seu peito, não em sua cabeça.
Certa vez, ele tentara perguntar sobre aquela voz. Onde estava agora. A quem pertencia. Mas ela ficara tão chateada. Não havia m ais ninguém , ela disse. Nunca houve alguém com a voz dura e afiada. Apenas ela. Som ente ela. E então ela abraçava ele e a irm ã. Ele sentia a seda da blusa contra seu rosto, a fragrância de seu perfum e em suas narinas. Um cacho dos longos cabelos de sua irm ã fazia cócegas em sua orelha, m as ele não ousava se m over. Não queria quebrar o encanto. Nunca m ais perguntou. Era tão anorm al ouvi-la soar tão aborrecida, tão perturbada, que ele não ousaria arriscar.
A única outra vez em que ele a entristeceu foi quando pediu para ver o que estava escondido lá fora. Ele não queria fazer isso, sabia que seria inútil, m as às vezes não conseguia se segurar. Sua irm ã sem pre o olhava com os olhos arregalados e assustados quando ele gaguej ava a pergunta. O m edo nela o fez se encolher, m as não podia evitar a indagação. Ela sim plesm ente saiu, com o um a força da natureza, com o se estivesse borbulhando dentro dele e quisesse vir à superfície, escapar.
A resposta era sem pre a m esm a. Prim eiro o olhar decepcionado em seus olhos. Decepção porque, apesar dela dar-lhe tanto, dar-lhe tudo, ele ainda queria m ais. Queria algo diferente. E então a resposta relutante. Às vezes, ela tinha lágrim as nos olhos quando respondia. Aquelas eram as piores vezes. Em geral, ela se aj oelhava, pegava o rosto dele entre suas m ãos. Então vinha a m esm a afirm ação. De que era para o bem deles. Que pessoas com o eles não podiam sair lá fora. Que tudo iria dar errado, para ele e sua irm ã, se ela os deixasse sair pela porta.
E então ela trancava a porta com cuidado quando saía. E ele ficava lá, sentado, com suas perguntas, e sua irm ã vinha abraçá-lo.
Mehm et debruçou-se para fora da cam a e vom itou. Mal sabia se o vôm ito tinha caído no chão ou em algum tipo de recipiente, m as estava m uito fora de si para se incom odar.
– Porra, Mehm et, isso é noj ento – ele ouviu de longe a voz de Jonna e com os olhos sem icerrados a viu sair correndo do quarto. Tam bém não tinha energia para se im portar com isso. A única coisa que enchia sua cabeça era a dor latej ante em suas têm poras. Sua boca estava seca e tinha um gosto repulsivo de bebida choca e vôm ito. Tinha apenas um a vaga ideia do que havia acontecido na noite anterior. Lem brava-se da m úsica, lem brava-se da dança, lem brava-se das garotas em traj es sum ários se esfregando nele, desesperadas, repugnantes. Fechou os olhos para afastar as im agens, m as isso só as am plificava. A náusea brotou novam ente e ele se debruçou para fora da cam a outra vez. Mas agora só restava bile. Em algum lugar próxim o, pôde ouvir a câm era, zum bindo com o um a abelha. Im agens de sua fam ília giravam em sua m ente. O pensam ento de que eles poderiam vê-lo naquele estado tornou a dor de cabeça cem vezes pior, m as ele não podia fazer nada a respeito, além de cobrir a cabeça com as cobertas.
Fragm entos de palavras iam e vinham . Corriam por sua m ente, m as, assim que ele tentava reuni-las para form ar algo coerente, elas se dissolviam no nada. Ele tinha que se lem brar de algum a coisa. Ele tinha que captar algo. Palavras furiosas e perversas voando com o flechas na direção de alguém ? De várias pessoas? Dele? Droga, ele não conseguia se lem brar. Assum iu a posição fetal, pressionando contra a boca os punhos fechados contra a boca. As palavras com eçaram a vir novam ente. Xingam entos. Acusações. Palavras horríveis ditas para m agoar. Se ele lem brava bem , elas haviam conseguido seu obj etivo. Alguém havia chorado. Protestado. Mas isso não aj udara em nada. As vozes cresciam , m ais e m ais altas. O som de um tapa. O inconfundível som de pele contra pele a um a velocidade que causaria dor. E havia causado. Um soluço lancinante, que m ais parecia um uivo, penetrou sua névoa. Ele se encolheu m ais um pouco na cam a, debaixo das cobertas, tentando evitar as aparentes desconexas partículas que pulavam em sua m ente. Não adiantou. Os fragm entos eram tão perturbadores, tão fortes, que nada parecia segurá-los. Eles queriam algo dele. Mas havia algo de que ele precisava se lem brar. Havia tam bém algo de que ele não queria se lem brar. Pelo m enos, era o que ele acreditava. Tudo estava confuso. E então a náusea tom ou conta dele novam ente. Jogou longe as cobertas e debruçou-se para fora da cam a.
* * *
Mellberg estava deitado na cam a, olhando para o teto. Essa sensação que tinha... Não conseguia definir exatam ente de que tipo era. Era algo que ele não sentia havia m uito tem po, de qualquer form a. Talvez fosse m elhor descrevê-la com o satisfação. Tam bém não era um sentim ento que ele devesse ter, visto que fora para a cam a sozinho e acordara sozinho. Isso j am ais esteve associado a um encontro bem -sucedido, em seu m undo. Mas as coisas haviam m udado desde que conhecera Rose-Marie. As coisas certam ente haviam m udado. Ele havia m udado.
Havia tido um a noite tão prazerosa ontem . A conversa fluíra de m aneira tão fácil. Eles haviam conversado sobre tudo entre o céu e a terra. E ele estava interessado no que ela tinha a dizer. Queria saber tudo sobre ela. Onde e com o havia crescido, o que havia feito ao longo da vida, quais eram seus sonhos, de que tipo de com ida gostava, a quais program as de TV assistia. Tudo, tudo, tudo. Em determ inado m om ento, ele parara para olhar o reflexo dos dois na j anela, rindo, fazendo brindes um ao outro, conversando. E m al se reconheceu. Nunca tinha visto aquele sorriso em seu rosto antes e tinha que adm itir que lhe caía bem . E j á sabia que o sorriso de Rose-Marie caía bem a ela tam bém .
Cruzou as m ãos atrás da cabeça e espreguiçou-se. O sol de prim avera entrou pela j anela e ele notou que deveria ter lavado as cortinas há m uito tem po.
Eles haviam se dado um beij o de boa-noite do lado de fora do restaurante. Um pouco hesitante, um pouco cauteloso. Ele segurou os om bros dela com m uita delicadeza e a sensação da superfície fresca e m acia do tecido de encontro às pontas de seus dedos, com binada com a fragrância de seu perfum e quando a beij ou, foi a coisa m ais erótica que j á havia experim entado. Com o ela podia ter um efeito tão forte sobre ele? Em um período tão curto.
Rose-Marie... Rose-Marie... Saboreou o nom e. Fechou os olhos e tentou im aginar seu rosto. Haviam concordado em se ver logo. Ele se perguntou a que horas j á poderia ligar para ela hoj e. Pareceria m uito abusado de sua parte? Muito ansioso? Mas que diabos, ou vai ou racha. Com Rose-Marie ele não precisava fazer j oguinhos com plicados. Olhou para seu relógio. Já se passara boa parte da m anhã. Ela j á devia estar de pé a essa hora. Ele esticou a m ão para o telefone. Mas não conseguiu segurar o fone antes que tocasse. Viu que era Hedström que ligava. Não podia ser nada bom .
* * *
Patrik chegou ao local onde o corpo fora encontrado ao m esm o tem po que a equipe de investigadores crim inais. Deviam ter vindo de Uddevalla m ais ou m enos à m esm a hora em que pegou o carro a fim de levar Erica para casa. A viagem de volta para Fj ällbacka fora bem m elancólica. Erica ficou olhando pela j anela a m aior parte do cam inho. Não brava, m as triste e decepcionada. E ele com preendia. Estava decepcionado e infeliz tam bém . Eles haviam tido tão pouco tem po para si m esm o nos últim os m eses. Patrik m al podia se lem brar da últim a vez que tiveram oportunidade de sentar e conversar, só os dois.
Às vezes, ele detestava seu trabalho. Em situações com o essa, ele realm ente se questionava por que havia escolhido um a profissão em que ele j am ais tinha um a folga. A qualquer m om ento, podia ser cham ado de volta à delegacia. O trabalho estava sem pre a um telefonem a de distância. Mas ao m esm o tem po, o trabalho dava tanta coisa. Antes de tudo, a satisfação de sentir que estava fazendo a diferença, pelo m enos ocasionalm ente. Ele nunca teria conseguido aguentar um a profissão em que fosse forçado a em baralhar papéis e fazer contas o dia todo. A polícia lhe dava um sentim ento de propósito, de ser necessário. O problem a, ou o desafio, era que ele tam bém era necessário em casa.
“Droga. Por que tem que ser tão com plicado fazer as coisas funcionarem ?”, Patrik pensou enquanto estacionava a um a pequena distância do cam inhão de lixo verde. Havia um grupo de pessoas em volta dele, m as os investigadores j á tinham colocado a fita que delim itava a cena do crim e em torno de um a área grande próxim a ao cam inhão, para se certificar de que ninguém a invadiria e destruiria quaisquer evidências que pudesse haver. O chefe da equipe de investigadores, Torbj örn Ruud, veio até Patrik, estendendo a m ão.
– Olá, Hedström . Bem , isso aqui não está m uito divertido.
– Não, eu soube que Leif pegou nessa coleta um pouquinho m ais do que esperava – Patrik acenou na direção do lixeiro, que se m ostrava angustiado, a um a curta distância deles.
– É, ele tom ou um choque de verdade. Não é um a visão bonita. Ela ainda está deitada lá; nós não quisem os m ovê-la. Siga-m e e dê um a olhada, m as cuidado onde pisa. Pegue isso aqui – Torbj örn entregou dois elásticos a Patrik, que se inclinou e os colocou ao redor dos sapatos. Daquela form a, suas pegadas seriam facilm ente detectáveis de quaisquer outras que pudessem ter sido deixadas pelo crim inoso ou crim inosos. Juntos, atravessaram cuidadosam ente a fita azul e branca da polícia. Patrik sentiu um desconforto no estôm ago à m edia que se aproxim ava do local e teve que refrear o im pulso de virar-se e fugir. Detestava essa parte do trabalho, detestava m esm o. Com o sem pre, precisou segurar-se antes de ficar na ponta dos pés e olhar para dentro do com partim ento de lixo do cam inhão. Ali, no m eio de um a bagunça noj enta de restos de com ida, latas, cascas de banana e outros dej etos, estava um a garota nua. Dobrada ao m eio, com os pés ao lado da cabeça, com o se estivesse fazendo um a acrobacia de nível avançado. Patrik olhou intrigado para Torbj örn Ruud.
– Rigor mortis – ele explicou, seco. – Os m em bros enrij ecem nessa posição depois de ela ser dobrada em dois para caber na lata de lixo.
Patrik fez um a careta. Aquilo indicava m uito sangue-frio e enorm e desprezo pelo ser hum ano, não só por assassinar aquela m enina, m as por desfazer-se dela com o se fosse detrito. Enfiada em um a lixeira. Era sim plesm ente repulsivo. Ele se virou.
– Quanto tem po vai durar a investigação da cena do crim e?
– Algum as horas – disse Torbj örn. – Devo supor que você vá procurar testem unhas nesse m eio-tem po. Infelizm ente, não tem m uita gente por aqui – fez um gesto em direção às casas, que estavam vazias e desertas, esperando seus habitantes de verão. Mas em algum as havia m oradores perm anentes, então eles podiam ter algum a esperança.
– O que aconteceu aqui? – a voz de Mellberg soou arrogante com o sem pre.
Patrik e Torbj örn viraram -se para vê-lo apressar-se, irritado, na direção deles.
– Um a m ulher foi enfiada nessa lata de lixo – respondeu Patrik, apontando para a lixeira que estava na calçada. Dois investigadores calçavam luvas e preparavam -se para fazer seu trabalho.
– Ela foi encontrada quando o Leif aqui esvaziou a lata – apontou para o lixeiro. – É por isso que ela está no cam inhão de lixo.
Mellberg tom ou isso com o um convite para atravessar a fita e olhar o cam inhão. Torbj örn nem sequer tentou pedir que ele colocasse os elásticos nos sapatos. Não adiantava m ais. Já haviam tido que elim inar as pegadas de Mellberg de outras cenas, então j á tinham as pegadas dele registradas em seu arquivo.
– Que m erda! – disse Mellberg, apertando o nariz. – Isso fede – saiu andando, aparentem ente m ais preocupado com o cheiro do cam inhão do que com a visão do corpo da m enina. Patrik suspirou. Podia sem pre contar que Mellberg tivesse um com portam ento inapropriado, sem a m enor sensibilidade.
– Alguém sabe quem ela é? – perguntou Mellberg.
Patrik negou.
– Não, ainda não sabem os de nada. Pensei em ligar para Hanna e pedir a ela para verificar se ontem houve algum a denúncia sobre um a garota que não havia voltado para casa. E Martin está a cam inho, então pensei que ele e eu pudéssem os com eçar a bater na porta das poucas casas ocupadas aqui.
Mellberg concordou, solene.
– Ok, parece um a boa ideia. Era exatam ente o que eu ia sugerir.
Patrik e Torbj örn trocaram olhares. Com o sem pre, Mellberg se apropriava das ideias dos outros, m as raram ente aparecia com um a legitim am ente sua.
– E então, onde está Molin? – Mellberg perguntou, olhando em volta, rabugento.
– Deve aparecer a qualquer m om ento – disse Patrik.
Bem na hora, o carro de Martin apareceu. Com eçava a ficar difícil encontrar um lugar para estacionar na estreita rua de brita, então ele teve que engatar a ré e voltar um pouco até encontrar um a vaga. Seus cabelos ruivos se eriçaram enquanto ele andava em direção a eles e Martin parecia cansado. Seu rosto estava am assado, com o se tivesse acabado de se levantar da cam a.
– Havia um a garota m orta naquela lata de lixo e agora ela está no cam inhão – disse Patrik, para resum ir.
Martin só fez um gesto afirm ativo com a cabeça. Foi até lá olhar. Seu estôm ago tinha a tendência de revirar-se à visão de cadáveres.
– Você e Hanna não estavam trabalhando ontem ? – perguntou Patrik.
Martin concordou.
– Sim , estávam os de olho naquela festa no centro com unitário. E que bom que fom os. Foi um inferno e eu só cheguei em casa às quatro da m anhã.
– O que houve? – disse Patrik, expressão ocupada.
– O de sem pre, na m aior parte do tem po. Uns caras se irritaram , um a discussão acalorada com um nam orado cium ento, dois m oleques bêbados brigando. Mas nada com parado com a luta que estourou entre o próprio elenco. Hanna e eu tivem os que apartá-los algum as vezes.
– Entendi – disse Patrik, aguçando os ouvidos. – Por quê? O que houve?
– Aparentem ente, estavam todos furiosos com um a das garotas do elenco. Aquela com os grandes seios de silicone. Ela j á tinha tom ado uns bons tapas até conseguirm os detê-los – Martin esfregava os olhos, exausto.
Um pensam ento ocorreu a Patrik.
– Martin, pode, por favor, dar um a olhada na garota no cam inhão de lixo?
Martin franziu a testa.
– Isso é m esm o necessário? Você sabe com o eu... – interrom peu-se e concordou, resignado. – Claro que olho, m as por quê?
– Apenas vá lá e olhe – disse Patrik, que não queria entregar o que estava pensando. – Eu explico depois.
– Está bem – disse Martin, sem vontade. Pegou os elásticos que Patrik oferecia e os posicionou nos sapatos. Atravessou a fita, de om bros caídos e deu alguns passos hesitantes na direção da traseira do cam inhão. Depois de respirar fundo pela últim a vez, olhou para baixo e então voltou-se rapidam ente para Patrik, atônito.
– Mas essa é...
Patrik concordou.
– A garota de Sodding Tanum.
– Sim . Percebi no m om ento em que você com eçou a falar sobre ela. Parece que ela levou um a boa surra.
Martin afastou-se cuidadosam ente do cam inhão de lixo. Tinha o rosto pálido. Patrik via que ele estava lutando para m anter o café da m anhã no estôm ago. Após alguns instantes, teve que adm itir a derrota e correu para o arbusto m ais próxim o.
Patrik foi até Mellberg, que conversava anim adam ente com Torbj örn Rudd, fazendo gestos grandes com os braços. Patrik os interrom peu.
– Tem os um a identificação da vítim a. É um a das garotas daquele reality show. Ontem aconteceu um a festa no centro com unitário e, de acordo com Marin, houve um a discussão feia com a garota lá.
– Um a discussão? – disse Mellberg, preocupado. – Está dizendo que ela foi surrada até a m orte?
– Eu não sei – disse Patrik, com um a leve irritação na voz. Às vezes não conseguia aguentar as perguntas estúpidas de Mellberg. – Só o m édico legista pode fazer um pronunciam ento sobre a causa da m orte, depois de fazer a autópsia – “Coisa que eu não deveria ter que te explicar”, Patrik pensou. – Mas definitivam ente parece que é hora de term os um a conversa com o resto do elenco. E providenciar que tenham os acesso a todos os registros em vídeo da noite passada. Um a vez na vida, pode ser que tenham os um a testem unha confiável.
– Sim , eu ia m esm o dizer que é possível que as câm eras tenham captado algo útil – Mellberg agora assum ia que a ideia havia sido dele desde o princípio.
Patrik contou até dez. Aquilo estava ficando cansativo. Já vinha j ogando esse j oguinho havia anos e sua paciência estava definitivam ente acabando.
– Então é isso que tem os que fazer – disse com um a calm a forçada. – Vou ligar para Hanna tam bém , para saberm os que observações ela fez ontem à noite. Tem os que falar com os produtores de Sodding Tanum, e depois pode ser um a boa ideia inform ar a Câm ara Municipal. Tenho certeza de que todos concordam que essa gravação tem que se cancelada im ediatam ente.
– Por quê? – disse Mellberg, dirigindo a Patrik um olhar atônito.
Patrik estava chocado.
– É óbvio! Um integrante do elenco foi assassinado! Não há m eio de continuarem gravando agora!
– Não tenho tanta certeza disso, disse Mellberg. E se bem conheço Erling, ele vai fazer tudo o que puder para garantir que continuem gravando. Ele investiu m uito prestígio nesse proj eto.
Por um instante, Patrik teve a gélida sensação de que Mellberg poderia estar certo. Mas ainda assim achava difícil acreditar. Aquelas pessoas não podiam ser tão cínicas, podiam ?
Hanna e Lars estavam sentados em silêncio à m esa da sala de j antar, e seus rostos estavam tão apáticos e exaustos quanto sua m ente. Tudo o que pairava sobre eles tam bém contribuía para seu torpor. Havia tanto a ser dito. Mas com o sem pre, nenhum dos dois falou nada. Hanna sentia o desconforto fam iliar em seu estôm ago, o que fez o ovo que com ia ter sabor de papelão. Forçou-se a m astigar e engolir, m astigar e engolir.
– Lars – com eçou a dizer, m as arrependeu-se na m esm a hora. O nom e dele soava tão desolado e estranho quando perfurava o silêncio. Ela engoliu e tentou de novo. – Lars, precisam os conversar. Não podem os deixar isso continuar assim .
Ele não olhou para ela. Toda a sua concentração estava em penhada em passar m anteiga no pão. Fascinada, ela observava a form a com o ele m ovia a faca para a frente e para trás, até a m anteiga estar perfeitam ente distribuída sobre a superfície do pão. Havia algo hipnótico naquele m ovim ento, e ela se encolheu quando ele enfiou a faca de volta na m antegueira. Ela tentou novam ente.
– Lars, por favor, fale com igo. Não podem os continuar assim – ela podia ouvir com o soava desesperada. Mas sentia-se com o se estivessem em um trem correndo a duzentos quilôm etros por hora, sem ter com o descer antes que ele m ergulhasse no abism o que se aproxim ava rapidam ente.
Ela queria se inclinar para a frente, pegar Lars pelos om bros e sacudi-lo. Forçá-lo a conversar com ela. Ao m esm o tem po, sabia que não adiantaria nada. Ele estava em um lugar onde ela não podia entrar, onde j am ais teria perm issão para entrar.
Sentindo um a pressão im ensa no peito, dentro de seu coração, ela apenas o observou. Ela estava em silêncio e rendia-se novam ente. Com o sem pre fazia. Mas ela o am ava tanto. Tudo nele. Seus cabelos castanhos, que ainda estavam revoltos depois de dorm ir. As rugas em sua face que haviam aparecido cedo dem ais, m as que davam personalidade a seu rosto. A barba cerrada que parecia um a lixa em sua pele.
Tinha que haver um j eito. Ela sabia que sim . Não podia perm itir que os dois caíssem no abism o escuro, j untos e ainda assim separados. Em um im pulso, ela inclinou-se para a frente e pegou sua m ão. Podia senti-lo trem er. De leve, com o um a folha de álam o. Ela fez o trem or passar com um a pressão de seu braço contra a m esa e forçou-o a encará-la. Era um daqueles m om entos que raram ente ocorrem na vida de alguém . Um m om ento em que som ente as verdades podem ser ditas. Verdades sobre seu casam ento. Verdades sobre sua vida. Verdades sobre o passado. Ela abriu a boca. E então o telefone tocou. Lars deu um pulo e libertou seu braço. Então pegou a faca de m anteiga novam ente. O m om ento havia passado.
– O que acha que vai acontecer agora? – disse Tina em voz baixa para Uffe, enquanto estavam do lado de fora do centro com unitário, dando tragadas profundas em seus cigarros.
– Eu é que não sei – Uffe disse, rindo. – Porra nenhum a, é o que eu acho.
– Mas depois de ontem ... – ela fez um a pausa e olhou para os próprios sapatos.
– Ontem não significa nada – disse Uffe, soltando um anel de fum aça branca no calm o ar de prim avera. – Não significa m erda nenhum a, acredite. Produções com o essa custam toneladas de dinheiro e eles não vão parar tudo e perder o que investiram até agora. Sem chance.
– Eu não teria tanta certeza – disse Tina, cabisbaixa. Seu cigarro agora tinha um a longa coluna de cinza, que caiu direto em suas botas de cam urça.– Merda! – ela disse, rapidam ente agachando-se para tentar tirar as cinzas. – Agora essas botas estão arruinadas. E elas foram caras pra caram ba! Merda!
– Bem feito – disse Uffe, rindo. – Você é tão m im ada!
– O que quer dizer com “m im ada”? – Tina sibilou, voltando-se para ele. – Só porque m eus pais não estiveram na m iséria a vida toda, m as trabalharam feito escravos para econom izar um pouco, isso certam ente não m e torna m im ada!
– Não abra a boca pra falar dos m eus pais! Você não sabe porra nenhum a sobre eles! – com um gesto am eaçador, Uffe agitou seu cigarro diante do rosto dela. Tina não se am edrontou. Em vez disso, deu um passo na direção dele.
– Eu posso ver o que você é. Não é tão difícil descobrir que tipo de gente são seus pais.
Uffe cerrou os punhos, e um a veia saltava em sua têm pora. Tina percebeu que acabara de com eter um erro. Lem brou-se do que acontecera na noite anterior e rapidam ente deu um passo atrás. Ela não devia ter dito o que disse. Assim que abriu a boca para acalm ar as coisas, Calle veio até eles e olhou de um para o outro com um a expressão intrigada.
– O que há entre vocês? Vão lutar ou o quê? – ele riu. – Bem Uffe, você é um m estre em bater em m ulher, então vai lá. Vam os ver você fazer isso de novo.
Uffe bufou e baixou os braços. Tinha o rosto enfurecido e encarava Tina. Ela deu m ais um passo atrás. Havia algo em Uffe que não era m uito certo. Mais um a vez, im agens e sensações desconexas da noite anterior vieram à sua m ente e ela virou-se e voltou para dentro. A últim a coisa que ouviu antes de passar pela porta foi Uffe dizendo baixinho a Calle:
– Você tam bém não é nada m au, é?
Ela não ouviu o que Calle respondeu.
Um a olhada no espelho da entrada m ostrou a Erica que ela parecia tão deprim ida quanto se sentia. Lentam ente, pendurou sua j aqueta e seu cachecol e então parou para ouvir. Entre os gritos das crianças, os quais eram ensurdecedores, m as graças a Deus felizes, ela tam bém ouvia outra voz que não a de Anna. Foi até a sala. Em um a pilha enorm e, bem no m eio do recinto, estavam deitados dois adultos e três crianças, lutando, gritando e com braços e pernas esticados, com o um m onstro deform ado.
– E o que está acontecendo aqui? – ela disse, em sua voz m ais autoritária.
Anna olhou para cim a, surpresa, seus cabelos despenteados de m aneira fora do com um .
– Oi! – disse Dan contente, tam bém olhando para cim a, m as logo depois sendo derrubado novam ente por Em m a e Adrian. Maj a ria tão alto que gritava, enquanto tentava aj udar puxando os pés de Dan com toda a força.
Anna levantou-se e tirou a poeira dos j oelhos. Atrás dela, a luz da prim avera penetrava através da j anela, form ando um halo em torno de seus cabelos louros. Erica ficou im pressionada com a beleza de sua irm ã. Tam bém viu pela prim eira vez com o ela se parecia com sua m ãe. Esse pensam ento causou um a pontada de dor em seu coração. E então a pergunta eterna voltou à sua m ente: Por quê? Por que sua m ãe não as am ava? Por que nunca haviam recebido um a palavra doce, um carinho, um afago, qualquer coisa, de Elsy ? Tudo que recebiam era indiferença e frieza. Seu pai era o total oposto de Elsy. Enquanto ela era dura, ele era suave. Enquanto ela era fria, ele era caloroso. Ele tentava explicar, dar desculpas para o com portam ento de Elsy, com pensar a negligência dela. E até certo ponto ele havia se saído bem . Mas não podia tom ar o lugar dela. Ainda existia um vazio na alm a de Erica, apesar de Tore e Elsy terem falecido havia quatro anos, desde que aquele acidente de carro m atara a am bos.
Anna olhou-a intrigada, e Erica percebeu que estivera encarando-a a certa distância. Fez o possível para esconder seus sentim entos e sorrir para a irm ã.
– Onde está Patrik? – perguntou Anna, com um últim o olhar divertido para a m assa de braços e pernas no chão, antes de ir para a cozinha. Erica a seguiu sem responder.– Acabei de fazer um café fresco – Anna disse, servindo três xícaras.– E as crianças e eu assam os um as roscas – só agora Erica notava o convidativo arom a de canela que pairava no ar.– Mas você vai preferir esses – disse Anna, colocando um a bandej a de biscoitos secos e m iúdos diante de Erica.
– O que é isso? – ela disse, cabisbaixa, cutucando-os.
– Biscoitos integrais – disse Anna, dando-lhe as costas enquanto tirava roscas recém -assadas da form a em cim a da pia e as colocava em um a cesta.
– Mas... – Erica em itiu um protesto capenga, sentindo água na boca diante da visão das roscas grandes e fofas, salpicadas de açúcar cristal.
– Bem , eu não achei que voltaria tão cedo. Pretendia te poupar e colocar essas aqui no freezer antes que você voltasse para casa. Então, você só pode culpar a si m esm a. Mas pense no vestido de noiva, se precisar de m otivação.
Erica pegou um dos biscoitos e deu um a m ordidinha. Bem com o ela pensou. Daria na m esm a com er um pedaço de papelão.
– Então, cadê o Patrik? E por que você voltou para casa tão cedo? Achei que fossem relaxar, fazer com pras na cidade e alm oçar – Anna sentou à m esa da cozinha e gritou para a sala. – O café está servido!
– Patrik foi cham ado para trabalhar – disse Erica. Então desistiu e colocou o biscoito de volta no prato. Sua prim eira e única m ordida ainda estava na boca.
– Trabalho? – Anna disse, surpresa. – Achei que ele estivesse de folga esse fim de sem ana.
– Sim , foi o que disseram para ele – disse Erica, notando a am argura na própria voz. – Mas ele teve de ir – fez um a pausa, perguntando-se o que m ais revelar. Então disse bruscam ente:– Leif, o lixeiro, encontrou um cadáver no cam inhão de lixo essa m anhã.
A boca de Anna se abriu.
– No cam inhão de lixo? Com o foi parar lá?
– Aparentem ente, o corpo estava enfiado num a lata de lixo e quando ele foi esvaziá-la...
– Meu Deus, que horror! – Anna disse, encarando Erica. – Mas quem era? Foi assassinato? Im agino que deva ter sido – disse Anna, respondendo à própria pergunta. – Senão, por que alguém term inaria em um a lata de lixo? Meu Deus, que horrível.
Dan entrou na cozinha e olhou-as, confuso.
– O que é horrível? – ele perguntou, sentando-se ao lado de Erica.
– Patrik teve que ir trabalhar. Leif, o lixeiro, encontrou um cadáver em seu cam inhão – disse Anna, antes que Erica pudesse responder.
– Está brincando? – disse Dan, parecendo igualm ente perplexo.
– Infelizm ente, não – Erica disse, m elancólica. – Mas eu gostaria que vocês não com entassem com m ais ninguém . A notícia vai se espalhar logo, logo, e nós não precisam os alim entar as fofocas.
– Não, claro que não. Não vam os dizer nada – disse Anna.
– Eu não entendo com o Patrik consegue aguentar esse trabalho – disse Dan, cutucando sua rosquinha de canela. – Eu j am ais conseguiria lidar. Tentar ensinar gram ática para adolescentes de catorze anos j á é difícil o bastante.
– Eu tam bém não conseguiria – disse Anna, olhando para o nada.
Dan e Erica praguej aram em silêncio. Falar de cadáveres e assassinato provavelm ente não era a m elhor coisa a fazer diante de Anna. Com o se lesse seus pensam entos, ela disse com um sorriso lívido.
– Não se preocupem com igo. Tudo bem falar sobre isso.
Erica só conseguia im aginar que tipo de im agens rodopiavam na m ente dela.
– Crianças, tem os rosquinhas de canela! – cham ou Anna, quebrando o clim a ruim . Ouviram dois pares de pés e um par de m ãos e j oelhos tam borilando no assoalho e em segundos o prim eiro fã de rosquinhas apareceu.
– Rosquinha, eu quero rosquinha! – Adrian gritou, escalando um a cadeira com o um gato. Em m a estava logo atrás e Maj a chegou engatinhando em seguida. Ela havia aprendido rapidam ente o significado da palavra “rosca”. Erica com eçou a se levantar, m as Dan foi m ais ligeiro. Levantou Maj a e, sem conseguir resistir, deu-lhe um beij o no rosto. Então colocou-a cuidadosam ente no cadeirão e com eçou a partir pedacinhos de um a das roscas para dar a ela.
O surgim ento de tanto açúcar diante de Maj a produziu um enorm e sorriso que expôs os dois dentinhos de leite em sua arcada inferior. Os adultos com eçaram a rir. Ela era tão linda.
Não houve m ais conversa sobre assassinato e cadáveres. Mas eles ainda podiam im aginar pelo que Patrik estava passando.
Todos estavam apáticos na sala de descanso da delegacia. O rosto de Martin m ostrava um a palidez anôm ala e ele parecia tão exausto quanto Hanna. Patrik estava debruçado sobre a pia, de braços cruzados, esperando enquanto term inavam o café. Depois de um sinal de Mellberg, com eçou a falar.
– Esta m anhã, Leif Christensson, que possui um serviço de coleta de lixo, encontrou um cadáver em seu cam inhão. O corpo havia sido j ogado num a lata de lixo, m as foi parar em seu veículo quando ele esvaziou a lixeira. Foi um choque e tanto para ele, devo dizer – Patrik fez um a pausa e bebeu um gole de sua xícara de café, pousando-a depois na pia, diante dele. – Chegam os à cena do crim e rapidam ente e confirm am os que estam os lidando com um a vítim a do sexo fem inino. Dadas as circunstâncias, chegam os à conclusão prelim inar de que se trata de um hom icídio. Ela tam bém tem sinais de violência, o que corrobora essa teoria. Mas nós não saberem os ao certo até receberm os os resultados da autópsia. Enquanto isso, m anterem os o pressuposto de que ela foi assassinada.
– Sabem os quem ...? – disse Gösta, m as foi interrom pido por um olhar de Patrik.
– Sim , j á identificam os a m ulher – Patrik virou-se para olhar para Martin, que tinha que lutar contra a náusea quando as fotos da cena do crim e apareceram diante dele. Ele ainda não parecia capaz de falar, então Patrik prosseguiu. – Parece que é um m em bro do elenco de Sodding Tanum. A garota cham ada Barbie. Estam os trabalhando para descobrir seu nom e verdadeiro. Não parece respeitoso cham á-la de Barbie devido às circunstâncias.
– Nós... nós a vim os ontem . Martin e eu – disse Anna. Seu rosto estava tenso quando olhou de Patrik para Martin.
– Sim , eu soube – disse Patrik, fazendo um gesto na direção de Martin. – Foi Martin quem a identificou. Será que houve problem as? – ele disse, erguendo as sobrancelhas, o que incitou Hanna a continuar.
– Bem – ela disse, hesitante. – Sim , por um m om ento foi bastante intenso. Os dem ais participantes a estavam intim idando, m as eu posso dizer que a m aior parte eram acusações verbais e uns cutucões, nada além disso. Martin e eu intercedem os e os separam os e a últim a vez que encontram os Barbie foi quando a vim os fugir chorando, em direção à cidade.
Martin assentiu com um a cabeça.
– Sim , está certo. Houve gritos e berros, m as nada que pudesse produzir os ferim entos que vim os em seu corpo.
– Vam os ter que conversar com aquele grupo – disse Patrik. – Verificar o que houve. E se alguém viu para onde – hesitou antes de dizer o nom e – Barbie estava indo. Tem os que falar com a produção tam bém e conseguir os registros do que gravaram ontem e assistir.
Annika anotou tudo enquanto ele enum erava as tarefas que teriam que cum prir. Patrik pensou por alguns segundos, depois fez um gesto para Annika e acrescentou:
– Tem os que inform ar a fam ília dela tam bém . E descobrir se alguém m ais observou qualquer coisa no decorrer da noite – fez um a pausa e então disse em tom grave. – Quando isso vazar, e não vai levar m ais que algum as horas, a m erda vai bater no ventilador. Isso é notícia nacional e tem os que estar preparados para um bom bardeio da m ídia, pelo tem po que durar essa investigação. Então, cuidado com o que dizem e com quem conversam . Não quero inform ação saindo na m ídia que eu e Mellberg não tenham os autorizado – para dizer a verdade, ele estava preocupado que Mellberg abrisse a boca. O chefe adorava estar em evidência, e um repórter habilidoso poderia provavelm ente conseguir que Mellberg contasse tudo sobre o caso. Mas não havia m uito que pudesse ser feito agora. Mellberg era o delegado, pelo m enos no papel, e Patrik não podia am ordaçá-lo. Teria apenas que cruzar os dedos e ter esperança de que Mellberg ainda tivesse um m ínim o de bom -senso naquela cabeça. Se bem que ele não apostaria nisso.– É isto que vam os fazer. Eu vou até lá conversar com o cara responsável pela produção... – disse, estalando os dedos enquanto tentava lem brar o nom e.
– Rehn, Fredrik Rehn – Mellberg com pletou e Patrik agradeceu, surpreso.
Não era todo dia que Mellberg contribuía com inform ações relevantes.
– Certo, Fredrik Rehn. Martin e Hanna, vocês se sentam e escrevem um relatório sobre o que viram e ouviram ontem à noite. E Gösta… – ele disse, pensando ferozm ente em algo para dar a Gösta fazer. Finalm ente disse – Gösta, você vai procurar inform ações sobre os proprietários da casa em cuj a lata de lixo o corpo foi encontrado. Não creio que haj a nenhum a ligação ali, m as nunca se sabe.
Gösta deu-lhe um aceno fatigado. Um trabalho específico. Já podia sentir o peso da responsabilidade.
– Então é isso – Patrik bateu um a palm a na outra, indicando que a reunião havia acabado. – Tem os m uito a fazer.
Todos resm ungaram algo em resposta e se levantaram . Patrik ficou observando enquanto todos saíam da sala. Perguntou-se se eles tinham ideia da força da natureza que estava prestes a atacá-los. Logo todos os holofotes da Suécia estariam voltados para Tanum shede. Eles teriam que se acostum ar a ver o nom e de sua cidade nas m anchetes.
* * *
– Porra, isso vai ser fantástico! Posso sentir o cheiro de sucesso a um a m ilha de distância! – Fredrik Rehn socou o técnico nas costas, enquanto sentavam -se no exíguo espaço do ônibus. Tinham visto as gravações do dia anterior e j á haviam com eçado a edição. Fredrik gostou do que viu. Mas tudo o que era bom podia ficar m elhor.
– Podem os adicionar m ais vaias enquanto Tina canta? O que tem os gravado está m eio baixinho e eu acho que a apresentação dela foi tão ruim que devíam os am plificar as vaias da plateia – ele riu e o cara da edição concordou enfaticam ente. Mais vaias, sem problem as. Um pouquinho m ais de volum e em canais diferentes e ia parecer que todos na plateia estavam vaiando de pé.– Esse grupo é brilhante! – Fredrik disse, com um sorriso. Recostou-se na cadeira e cruzou as pernas. – Eles são tão estúpidos, m as nem percebem . Vej a Tina, por exem plo. Ela acha m esm o que vai ser um a estrela da m úsica pop, com o a Carola. E a m ina não consegue acertar um a nota. Falei com o cara que produziu o single dela e ele m e disse que foi um pesadelo conseguir que ela cantasse pelo m enos de form a quase decente. Ele disse que ela era tão desafinada que a caixa de som quase estourou – Fredrik riu e então se inclinou sobre o painel de m ixagem diante dele. Aum entou o volum e. – Ouçam isso. É um berro, cacete! – riu até que lágrim as rolaram por seu rosto. Até o cara da edição teve que abrir um sorriso quando ouviu a versão de Tina para “I want to be y our little bunny ”, que poderia conceder a ela o título de presidente da Liga Nacional dos Desafinados. Não era de se adm irar que o j úri do Idol a houvesse trucidado.
Um a batida autoritária na porta no ônibus interrom peu as risadas.
– Entre – disse Fredrik, virando-se para ver quem era. Não reconheceu o hom em que abriu a porta.– Pois não? Posso aj udá-lo? – a visão do distintivo da polícia causou-lhe um a sensação nauseada no estôm ago. Não podia ser nada bom . Ou talvez sim , dependendo do que tivesse acontecido e de quão bom fosse para aparecer na TV. – O que podem os fazer por você dessa vez? – Fredrik riu enquanto se levantava para cum prim entar o detetive.
O policial entrou e encontrou um lugar para sentar-se entre os cabos e fios. Olhou em volta com curiosidade.
– Sim , aqui é onde tudo acontece – disse Fredrik, orgulhoso. – Difícil acreditar que podem os fazer um program a líder de audiência a partir desse espaço pequeno, não é? É claro que é realizado um trabalho adicional em Estocolm o – adm itiu relutantem ente. – Mas a parte criativa é feita aqui.
O oficial, que se apresentou com o Patrik Hedström , fez um gesto polido de cabeça. Então pigarreou.
– Receio ter m ás notícias – ele disse. – É sobre um dos m em bros do seu elenco.
Fredrik revirou os olhos.
– Está bem , quem é dessa vez? – perguntou, suspirando. – Deixe-m e adivinhar... É Uffe, com algum de seus velhos truques – virou-se para o editor. – Eu te falei que Uffe seria o prim eiro a criar um pouco de dram a, não falei? – Fredrik voltou a olhar para o policial, sua curiosidade aum entando. Estava m aquinando com o registrar em vídeo. O que quer que fosse.
Patrik pigarreou novam ente e disse de m aneira suave.
– Infelizm ente um de seus participantes foi encontrado m orto – foi com o se um a bom ba tivesse explodido naquele local m ínim o. O único som era o zunido do equipam ento.
– O que você disse? – perguntou finalm ente Fredrik, recuperando a postura. – Um deles foi encontrado m orto? Quem foi? E onde? Com o? – ele podia sentir os pensam entos rodopiando em sua cabeça. O que havia acontecido? E algum as partes de seu cérebro j á criavam estratégias de m ídia. Nada assim j am ais havia acontecido no m eio das gravações de um reality show. Sexo, sim , seguido pelas velhas consequências: gravidez – o Big Brother norueguês havia sido o prim eiro nisso; pedidos de casam ento – sim , o Big Brother sueco havia obtido um sucesso estrondoso com Olivier e Carolina. E aquele ataque com o cano de ferro no The Bar fora m anchete por sem anas. Mas um a m orte! Isso era totalm ente novo. Absolutam ente único. Esperou, tenso, que o policial respondesse as perguntas que acabava de fazer. Só tinha que aguardar alguns segundos.
– É a garota cham ada Barbie. Foi encontrada esta m anhã em um a... – Patrik hesitou por um m om ento, antes de continuar – lata de lixo. Tudo indica que foi m orta.
– Foi m orta? – repetiu Fredrik. – Quer dizer, assassinada? Ela foi assassinada? É isso o que está dizendo? Quem foi? – ele provavelm ente deveria parecer tão confuso por fora quanto estava por dentro. Isso não figurava na lista dos enredos possíveis que surgiram em sua cabeça.
– Não tem os suspeito ainda. Mas vam os com eçar os interrogatórios im ediatam ente. A com eçar por seu elenco. Os detetives que observaram sua festa ontem à noite disseram que houve m uita discussão entre a m ulher m orta e os outros m em bros do elenco.
– Sim , houve palavras duras e alguns em purrões e coisas assim – disse Fredrik, relem brando as cenas a que haviam acabado de assistir. – Mas nada que parecesse grave o bastante para alguém ... – ele não term inou a frase. Não que houvesse necessidade.
– Tam bém precisam os das gravações de ontem – o tom de Patrik era seco, enquanto olhava Fredrik nos olhos.
Fredrik encarou-o de volta.
– Não estou autorizado a deixar que leve nenhum a fita – disse, calm am ente. – Até que eu receba um m andado em m eu nom e para entregar o m aterial, tudo perm anece aqui. Qualquer outra ação é inaceitável.
– Você se deu conta de que isso é um a investigação de assassinato? – Patrik disse, irritado, m as não surpreso. Havia esperado em vão por um a resposta diferente.
– Sim , eu percebi, m as não podem os sim plesm ente entregar nosso m aterial. Há m uitos princípios éticos envolvidos – ele sorriu, fingindo pesar. Patrik sim plesm ente bufou. Am bos sabiam que ética não era a razão de sua recusa.
– Mas presum o que irá cancelar a transm issão im ediatam ente, por conta do ocorrido.
Fredrik sacudiu a cabeça.
– Não podem os fazer isso em absoluto. Tem os a grade pronta para as próxim as quatro sem anas, e fechar a produção nesse m om ento... não, sim plesm ente im possível. E não creio que Barbie gostaria que isso acontecesse, ela iria querer que prosseguíssem os.
Só de olhar para Patrik, soube que havia passado dos lim ites. O policial estava verm elho e parecia estar se segurando para não bradar alguns xingam entos bem escolhidos.
– Você não quer m e dizer que está realm ente considerando... – parou e fez um a interj eição – Qual era o nom e verdadeiro dela? Não posso continuar cham ando-a de Barbie. É m uito degradante. E a propósito, vou precisar dos dados pessoais dela e de seus fam iliares m ais próxim os. Pode nos ceder essa inform ação ou isso tam bém é um a questão de ética?
A últim a palavra transbordava sarcasm o, m as a raiva de Patrik não surtiu efeito em Fredrik. Estava acostum ado a lidar com em oções agressivas que o form ato reality show parecia causar. Calm am ente respondeu:
– Seu nom e era Lillem or Persson. E ela cresceu em orfanatos, então não tem os nenhum registro de parentes próxim os. Mas j á lhe darem os toda a inform ação de que dispom os. Sem problem as – sorriu de m aneira doce.– Quando vai iniciar as entrevistas? Há algum a chance de gravarm os? – a possibilidade era m ínim a, e o olhar sanguinário que obteve de Patrik era um a resposta clara.
– Vam os com eçar as entrevistas im ediatam ente – Patrik disse, seco, saindo do ônibus. Nem m esm o se incom odou em se despedir antes de bater a porta atrás de si.
– Que golpe de sorte! – disse Fredrik sem fôlego e o editor apenas assentiu com a cabeça. Fredrik não podia acreditar na sorte que tiveram . Agora teriam a chance de levar um dram a real para a sala das casas dos suecos. O país inteiro estaria assistindo. Por um segundo pensou em Barbie. E então pegou o telefone. A diretoria precisava ouvir isso. Sodding Tanum se transform aria em CSI. Jesus, que sucesso isso ia ser!
* * *
– E com o vam os fazer isso? – Martin perguntou. Ele e Hanna tinham decidido ficar na sala de descanso e trabalhar, e ele pegou o bule de café para encher as xícaras. Hanna adicionou um pouco de leite e m exeu. – Devem os escrever cada um o seu relato antes, você acha, ou escrevem os um único j untos?
Hanna pensou por um m om ento.
– Acho que ficará m ais com pleto se escreverm os o relatório j untos e com pararm os anotações sobre o que vier à cabeça enquanto trabalham os.
– Está bem , você deve estar certa – disse Martin, abrindo o laptop e ligando-o. – Eu digito ou você quer fazê-lo?
– Você digita – disse Hanna. – Eu ainda digito com dois dedos e nunca fui lá m uito rápida.
– Tudo bem , eu digito – Martin riu, inserindo a senha. Abriu um novo docum ento no Word e preparou-se para preencher a tela com palavras.– A prim eira coisa que eu notei com relação à com oção ontem à noite foi quando ouvi vozes exaltadas vindas detrás do edifício. E você?
Hanna aquiesceu.
– Sim , eu não havia notado nada antes disso. A única coisa com que tivem os de lidar antes foi com aquela garota que estava tão bêbada que não conseguia ficar de pé. Que horas eram ? Meia-noite? – Martin digitava, enquanto Hanna falava. – Acho que era por volta da um a quando ouvi duas pessoas discutindo aos gritos. Foi quando te cham ei e fom os para trás do prédio e encontram os Barbie e Uffe.
– Hum m – disse Martin, ainda digitando. – Eu olhei no relógio e eram dez para a um a. Cheguei por um dos lados e vi Uffe segurando Barbie pelos om bros e sacudindo-a, violentam ente. Am bos correm os até eles. Eu segurei Uffe e o arrastei para longe, enquanto você cuidou de Barbie.
– Sim , correto – disse Hanna, tom ando um gole de café. – Coloque que Uffe estava tão agressivo que tentou chutar a garota enquanto você o segurava.
– Sim , é verdade, eu m e lem bro disso tam bém – disse Martin. O docum ento ia sendo preenchido por texto.
– Nós liquidam os com a situação – leu alto – e separam os os indivíduos. Conversei com Uffe e disse que ele teria que vir à delegacia se não esfriasse a cabeça.
– Espero que não vá escrever “esfriar a cabeça” – Hanna riu.
– Só por ora. Mais tarde vou ter que editar o texto e fazê-lo soar burocrático, então não se preocupe. Agora vam os só deixar as palavras fluírem para incluirm os tudo.
– Está bem – Hanna disse, sorrindo. E então ficou séria novam ente. – Eu conversei com Barbie e tentei descobrir qual foi a causa da discussão. Ela estava m uito agitada e dizia que Uffe estava furioso porque pensou que ela estivesse falando m al dele, m as ela não entendia o que ele dizia. Ela se acalm ou depois de um tem po e pareceu estar bem .
– E então, nós os liberam os – Martin com pletou, erguendo os olhos do com putador. Pressionou a tecla enter duas vezes para gerar um novo parágrafo, bebeu um gole de café e prosseguiu.– O incidente seguinte aconteceu às... ah, por volta das duas e m eia, eu diria.
– Sim , foi por aí – disse Hanna. – Duas e m eia, quinze para as três.
– Dessa vez, foi um indivíduo na festa que atraiu nossa atenção porque havia um a discussão ocorrendo na ram pa que leva à escola. Nos aproxim am os da cena e vim os m uitas pessoas agredindo um único indivíduo. Eles estavam gritando, enquanto esm urravam e batiam na pessoa. Eram os participantes Mehm et, Tina e Uffe que atacavam Barbie. Fom os até lá e apartam os a briga usando de força. Estavam todos m uito exaltados, e as provocações voavam de um lado para o outro. Barbie chorava e seus cabelos estavam despenteados, sua m aquiagem borrada e ela parecia m uito abalada. Falei com os outros, tentando descobrir o que havia acontecido. Me deram a m esm a resposta de Uffe, que “Barbie estava falando m uita bobagem ”. Foi a m elhor explicação que consegui.
– Enquanto isso, eu conversava com Barbie à curta distância – Hanna acrescentou, soando em ocionada. – Ela estava perturbada e com m edo. Perguntei se ela queria fazer um a denúncia form al contra eles, m as ela disse que definitivam ente não. Conversei um pouco com ela por alguns m inutos para acalm á-la, tentando descobrir o que havia acontecido, m as ela afirm ava não ter ideia. Depois de um tem po, m e virei para verificar o que estava acontecendo com você. E quando m e virei de volta, vi Barbie correndo em direção à cidade, m as então ela virou à direita em vez de ir para o centro com ercial. Pensei em ir atrás dela, m as então decidi que ela provavelm ente só precisava ficar sozinha e se acalm ar – a voz de Hanna trem ia um pouco. – Depois disso, não a vim os m ais.
Martin levantou os olhos do com putador e sorriu para consolá-la.
– Não poderíam os ter feito nada diferente. Tudo o que sabíam os é que eles tinham um a diferença m uito grande de opiniões. Não havia nada que indicasse que poderia... – pausa – term inar com o term inou.
– Acha que foi um dos participantes que a m atou? – a voz de Hanna ainda estava alterada.
– Eu não sei – disse Martin, relendo o que j á tinha escrito na tela. – Mas há boas razões para suspeitarm os. Vam os ter que ver o que descobrim os pelas entrevistas.
Ele salvou o docum ento e desligou o laptop, que pegou ao se levantar.
– Vou para o m eu escritório escrever a versão oficial agora. Se lem brar de m ais algum a coisa, fique à vontade para bater à m inha porta.
Hanna apenas assentiu. Depois que ele foi em bora, ela ficou sentada ali.
As m ãos que seguravam a xícara de café ainda trem iam .
Calle fazia um a cam inhada pela cidade. Em Estocolm o, ele norm alm ente m alhava na academ ia cinco vezes por sem ana, m as aqui tinha que se contentar com cam inhadas para elim inar calorias. Aum entou a velocidade dos passos para queim ar gorduras. Estar em form a era im portante para ele. Ele desprezava pessoas que não cuidavam do próprio corpo. Era um verdadeiro prazer olhar-se no espelho e adm irar o abdôm en de tanquinho, a form a com o os bíceps tensionavam quando ele flexionava os braços e a com pleição m usculosa de seu dorso. Quando ele saía pelas ruas em Stureplan, sem pre desabotoava a cam isa casualm ente ao se aproxim ar das casas noturnas. As gatas am avam . Não paravam de enfiar as m ãos sob a cam isa para tocar seu peito, passando as unhas sobre seu físico sarado. Depois disso, ficava fácil levar um pedaço de carne para casa.
Às vezes ele se perguntava com o seria sua vida sem dinheiro. Com o seria viver com o Uffe ou Mehm et, m orando num apartam entozinho fedorento nos subúrbios, m al conseguindo pagar as contas. Uffe ficava se gabando das invasões a dom icílio e outras coisas em que se m eteu, m as Calle segurava o riso quando ouvia a quantia ínfim a que esses crim es m enores rendiam . Porra, ele ganhava m ais que isso em trocados que recebia do pai toda sem ana. E ainda assim havia algo que o im pedia de preencher o vazio que sentia no coração. Nos últim os anos, ele procurava constantem ente por algo que finalm ente ocupasse aquele buraco. Mais cham panhe, m ais festas, m ais gatas, m ais pó para dentro do nariz, m ais de tudo. Sem pre m ais. Ele sem pre aum entava o lim ite de dinheiro que era capaz de gastar. Ele não ganhava nada por si. Todo o seu dinheiro vinha de seu pai. E ele sem pre pensava nisso ultim am ente… agora a coisa teria de parar. Mas o dinheiro continuava entrando. Seu pai pagava um a conta atrás da outra. Com prou para ele um apartam ento sem titubear e subornou a garota que inventou a história sobre ter sido estuprada, criada do nada, claro, j á que tinha vindo para sua casa com ele e Ludde e não havia dúvida sobre suas intenções. Seus bolsos eram sem pre reabastecidos, com o um a carteira m ágica que nunca ficava sem dinheiro. E não parecia haver nenhum a condição. Calle sabia por quê. Sabia por que seu pai não sabia dizer não. Sabia que sua consciência pesada o m anteria pagando as contas. Ele continuava despej ando coroas no vazio do peito de Calle, m as o dinheiro sim plesm ente desaparecia sem ocupar espaço algum .
Os dois tentavam repor com dinheiro o que haviam perdido. Seu pai dando e Calle gastando.
Enquanto as lem branças o afogavam , a dor em seu peito piorava. Calle apertou o passo, adiantando-se, tentando enterrar as im agens. Mas era im possível escapar delas. A única coisa que as am ortecia era um a com binação de cham panhe e cocaína. Na falta disso, tinha que viver com seu passado. Com eçou a correr.
* * *
Gösta suspirou. A cada ano, era m ais difícil perm anecer m otivado. Ir para o trabalho pela m anhã esgotava toda a sua energia; term inar qualquer tarefa era quase im possível. Seus m em bros pareciam pesados com o se carregasse pesos invisíveis sem pre que tentava trabalhar. Não conseguia sequer com eçar e podia passar dias sobre a m ais sim ples das tarefas. Não com preendia com o ainda pediam que fizesse algo. E a coisa só vinha piorando ao longo dos anos. Desde a m orte de Maj britt, a solidão o consum ia por dentro, privando-o de qualquer prazer que j á tivera no trabalho. Nunca havia sido a grande estrela de sua profissão, era o prim eiro a adm itir isso, m as fazia o que tinha que fazer e às vezes até sentia algum a satisfação. Mas a pergunta continuava pipocando: qual a razão de tudo isso? Não tinha herdeiros para deixar algum a herança; seu único filho, um m enino, havia m orrido com poucos dias de vida. Ninguém estaria em casa quando voltasse à noite, ninguém com quem passar os fins de sem ana. Seu único prazer era j ogar golfe. Tinha a clara consciência de que o j ogo j á havia se tornado m ais um a obsessão que um passatem po. Ele preferiria j ogar vinte e quatro horas por dia. Mas isso não pagava o aluguel, e ele tinha que continuar trabalhando até conseguir sua aposentadoria. Estava contando os dias.
Gösta sentou-se e encarou seu com putador. Por razões de segurança, eles não tinham perm issão para acessar a internet. Em vez disso, ele tinha que descobrir o nom e do proprietário da casa pegando o telefone e ligando para a assistência à lista. Após um a breve conversa, ele rastreou o proprietário da casa de veraneio à qual pertencia a lata de lixo. Ele suspirou. Era um a tarefa sem sentido desde o início. Seu ceticism o se confirm ou quando conseguiu o endereço do proprietário em Gotem burgo. Era óbvio que não tinha nada a ver com o hom icídio. Foi apenas questão de azar que o assassino tenha escolhido aquela lixeira para descartar a garota.
Seus pensam entos foram parar na garota assassinada. Sua falta de iniciativa não tinha nada a ver com falta de com paixão. Sentia profundam ente pelas vítim as e seus fam iliares e era grato por pelo m enos não ter tido que vê-la. Martin ainda estava m eio pálido quando deu de cara com ele no corredor.
Gösta sentia que j á tinha visto sua cota de cadáveres ao longo dos anos. Após quarenta anos naquele serviço, ele ainda podia se lem brar de cada um deles. Na m aior parte, vítim as de acidentes e suicídios; assassinatos eram exceção. Mas cada m orte havia criado um sulco em sua m em ória e ele podia se recordar de lem branças tão claras quanto fotografias. Já havia tido que inform ar m uita gente da m orte de seus entes queridos, o que resultara em m uitas lágrim as, desespero, choque e horror. Talvez seu desânim o fosse porque, a essa altura, o nível de tristeza no j arro de sua vida j á estivesse no gargalo. Talvez cada m orte, a dor e a infelicidade de cada pessoa tivessem acrescentado m ais gotas ao recipiente e agora não havia m ais espaço. Não era desculpa, m as um a possível explicação. Com um suspiro, pegou o telefone para contatar os proprietários da casa e inform á-los de que um cadáver havia sido encontrado em sua lata de lixo. Discou os núm eros. Melhor acabar logo com isso.
– Por que tudo isso? – Uffe parecia cansado e irritado, enquanto se sentava na sala de depoim entos.
Patrik não tinha pressa para responder. Antes de dizer qualquer coisa, ele e Martin colocaram os papéis cuidadosam ente em ordem . Estavam sentados de frente para Uffe em um a m esa bam ba. Fora as quatro cadeiras, era o único m óvel da sala. Uffe não parecia particularm ente nervoso, Patrik notou, m as ao longo dos anos j á havia aprendido que o m odo com o um suspeito se com porta no interrogatório aparentem ente tem pouco a ver com a form a com o se sente. Ele pigarreou, cruzou as m ãos sobre a pilha de papéis e se inclinou para a frente.
– Soube que houve problem as ontem à noite – Patrik estudou a reação de Uffe com atenção. Tudo que conseguiu foi um sorriso cínico. Uffe recostou-se despreocupadam ente em sua cadeira. Deu um a risadinha.
– Ah, sim , aquilo. É, foi barra-pesada, pensando bem – fez um gesto na direção de Martin. – Talvez alguém devesse pensar em fazer um a denúncia de violência policial – ele riu de novo e Patrik sentiu sua raiva crescer.
– Bem – ele disse, calm am ente –, nós recebem os um relatório do m eu colega aqui e de outra policial que estava no local. Agora quero ouvir a sua versão.
– Minha versão – Uffe esticou as pernas até estar quase reclinado na cadeira. Não parecia m uito confortável. – Minha versão é que houve um a pequena discussão. Um a discussão entre gente bêbada. Só isso. E daí? – seus olhos se estreitaram e Patrik pôde ver o cérebro do rapaz, desorientado pelo álcool, trabalhar freneticam ente.
– Som os nós que fazem os as perguntas, não você – Patrik disse rispidam ente. – Às dez da noite de ontem , dois de nossos oficiais viram você atacar um a das participantes do program a, Lillem or Persson.
– Barbie, você quer dizer – Uffe interrom peu, com um a risada. – Lillem or... Meu Deus, isso é engraçado.
Patrik teve que refrear o im pulso de dar um tapa no j ovem . Martin percebeu o que estava acontecendo, então assum iu o controle e deu a Patrik um m om ento para se recom por.
– Nós testem unham os a form a com o você em purrava e batia em Lillem or. O que deu início à briga?
– Bem , eu não entendo por que estão m e atazanando por causa disso. Não foi nada. Tivem os um a pequena... discordância, só isso. Eu m al toquei nela! – nessa hora o ar casual de Uffe com eçou a se esvair e certo desconforto transpareceu.
– Sobre o que foi a discordância? – Martin prosseguiu.
– Nada! Ah, está bem , ela estava falando m erda sobre m im e eu ouvi. Só queria que ela adm itisse. E retirasse o que disse! Ela não pode ficar espalhando um a m erda daquelas. Só queria que ela se tocasse.
– E o que era que você e os outros queriam que ela adm itisse m ais tarde? – disse Patrik, olhando para o relatório diante de si.
– É – disse Uffe. Estava sentado m ais ereto agora. Seu sorriso cínico tam bém desapareceu. – Mas vocês só precisam falar com a Barbie sobre isso, droga. Prom eto que ela vai confirm ar o que eu disse. Foi um a discussão. Não vej o por que a polícia tem que se envolver nisso.
Por um m om ento, Patrik e Martin trocaram olhares e então ele olhou calm am ente para Uffe e disse:
– Sinto dizer que Lillem or não vai dizer m uito sobre coisa algum a. Ela foi encontrada m orta esta m anhã. Assassinada.
O silêncio tom ou conta da sala de entrevistas. Uffe estava pálido. Martin e Patrik aguardaram .
– Você... vocês dois... estão brincando, né? – ele disse, finalm ente. Não houve reação dos detetives. O que Patrik disse lentam ente se instalou em seu cérebro. Agora não havia m ais o m enor vestígio de sorriso.
– Que m erda? Vocês acham que eu...? Mas eu... Foi só um a discussãozinha! Eu j am ais… Eu não… Ele gaguej ava e seus olhos não se fixavam em lugar nenhum .
– Vam os precisar de um a am ostra de seu DNA – disse Patrik, apanhando o equipam ento necessário. – Você não faz obj eção, faz?
Uffe hesitou.
– Não, droga. Pegue a porra que quiser. Eu não fiz nada.
Patrik inclinou-se m ais para a frente e, com um cotonete, colheu um a am ostra do interior da bochecha de Uffe. Por um m om ento, Uffe pareceu se arrepender de ter consentido, m as então o obj eto foi colocado dentro de um envelope e lacrado, e j á era tarde dem ais. Uffe olhou para o envelope. Engoliu em seco e olhou para Patrik com os olhos arregalados.
– Vocês não vão cancelar a série agora, vão? Não podem fazer isso, podem ? Quero dizer, vocês não podem ! – sua voz estava cheia de desespero, e Patrik sentiu crescer todo o seu descaso por aquele espetáculo. Com o um program a de TV podia ser m ais im portante que a vida de um a pessoa?
– Não cabe a nós decidir – disse ele, seco. – A produção é que vai determ inar isso. Se a decisão fosse m inha, eu teria acabado com essa porcaria toda em cinco segundos, m as... – ele j ogou as m ãos para o alto e viu a expressão de alívio espalhar-se pelo rosto de Uffe. – Pode ir agora – disse Patrik, lacônico. Ainda podia ver a im agem do corpo nu e sem vida de Barbie e sentiu um gosto am argo na boca ao pensar que sua m orte se transform aria em entretenim ento. O que passava pela cabeça dessas pessoas?
O dia havia com eçado tão bem para Erling. Um dia verdadeiram ente glorioso, ele poderia dizer. Prim eiro havia feito um a corrida longa ao ar fresco de prim avera. Ele não era norm alm ente um desses am antes da natureza, m as naquela m anhã havia se surpreendido com sua própria felicidade ao ver os raios de sol brilhando através da copa das árvores. A sensação de expansão em seu peito durou até chegar em casa e o instigou a fazer am or com Viveca, que ele esperava se provar facilm ente persuasível, para variar. Essa era usualm ente um a das poucas nuvens escuras na vida de Erling. Depois que se casaram , ela m eio que perdeu o interesse por sexo. Ocorreu a ele que fora sem sentido encontrar para si um a esposa j ovem e pura se não teria m ais acesso a seu corpo. Não, isso teria que m udar. As atividades daquela m anhã o haviam convencido ainda m ais de que precisava ter um a conversa séria com a pequena Viveca sobre esse detalhe. Explicar a ela que um casam ento se faz de favores, tanto dados quanto recebidos. E se ela ainda queria receber roupas, j oias, diversão e belas coisas para sua casa, bem , então ela teria que encontrar um pouco de entusiasm o pelos favores que ele, com o hom em , exigia. Não havia nenhum problem a com essa área antes de se casarem . Ela se instalou em um apartam ento confortável pelo qual ele pagava. Isso quando tinha um a esposa a quem aturava havia trinta anos. Naquela época, ele e Viveca faziam sexo a qualquer hora e em vários lugares diferentes. Erling sentia sua libido despertar à m era lem brança. Talvez fosse hora de lem brá-la disso. Afinal, ele tinha grandes proj etos prestes a serem concretizados.
Erling subiu o prim eiro degrau das escadas para conversar com Viveca quando foi interrom pido pelo toque do telefone. Por um m om ento, considerou deixar tocar, m as então dirigiu-se ao aparelho sem fio sobre a m esa de centro. Podia ser algo im portante.
Cinco m inutos depois, ali estava ele sentado, m udo, com o fone na m ão. As consequências do que havia escutado estavam se atropelando em sua m ente, e seu cérebro j á tentava form ular possíveis soluções. Levantou-se e gritou para o topo das escadas:
– Viveca, tenho que ir para o escritório. Algo aconteceu e eu preciso resolver.
Um a resposta abafada vinda do andar de cim a confirm ou que ela o ouvira, e ele vestiu um a j aqueta e pegou as chaves do carro que estavam penduradas num gancho ao lado da porta. Isso era algo com que não havia contado. Que diabos faria agora?
* * *
Em um dia com o hoj e, era ótim o ser o chefe. Mellberg lem brou a si m esm o por que estava ali planej ando cuidadosam ente com o esconder a satisfação que sentia em seu íntim o. Teria que m ostrar, em vez disso, um a com binação de em patia e determ inação. Mas havia algo que lhe cham ava a atenção no fato de estar sob os holofotes. Sim plesm ente com binava com ele. E não conseguiu deter o pensam ento de com o Rose-Marie reagiria ao vê-lo a todas as horas do dia ou da noite, com o o hom em forte da delegacia. Estufou o peito e endireitou os om bros, assum indo um a postura que exalava poder. Os flashes das câm eras quase o cegavam , m as ele m anteve a atitude séria. Essa era um a oportunidade que não poderia deixar escapar de suas m ãos.
– Vou dar-lhes m ais um m inuto para fazer fotos, m as depois vocês terão que se sentar por um m om ento. Podia ouvir com o as vozes responderam com respeito e suprim iu um a onda de prazer. Era para fazer isso que havia nascido. Os flashes das câm eras pipocaram por m ais alguns instantes até que ele levantou a m ão e olhou por cim a dos órgãos de im prensa que o rodeavam . – Com o j á sabem , encontram os o corpo de Lillem or Persson esta m anhã – um m ar de m ãos se ergueu e ele fez um gesto benevolente para o repórter do Expressen.
– Já foi estabelecido por que ela foi assassinada? – todos aguardaram sua resposta com as canetas flutuando sobre os blocos de notas. Mellberg pigarreou.
– Até receberm os o relatório definitivo da autópsia, não podem os dizer ao certo. Mas todos os indícios são de que ela foi vítim a de hom icídio – sua resposta foi seguida por m urm úrios e o riscar de caneta no papel. As câm eras de TV, m arcadas com a sigla dos canais a que pertenciam , zuniam e as luzes brilhantes apontavam para ele. Mellberg ponderou a qual delas deveria dar prioridade. Após cuidadosa consideração, decidiu m ostrar seu m elhor ângulo para a câm era do canal TV4. Perguntas eram atiradas contra ele, que fez o gesto de perm issão para outro repórter de um j ornal noturno.
– Já tem algum suspeito? – m ais um silêncio tenso em antecipação à resposta de Mellberg. Os holofotes confundiam seus olhos.
– Trouxem os vários indivíduos para depor – ele disse –, m as não tem os um suspeito definido até o m om ento.
– O Sodding Tanum vai ser encurtado por conta disso? – dessa vez foi um repórter do telej ornal do canal Aktuellt TV que fez a pergunta.
– Do m odo com o as coisas estão agora, não tem os direito de tom ar essa decisão, nem m otivo. Isso é algo que será determ inado pelos produtores do program a e pela direção da em issora.
– Mas um program a que tem a intenção de ser entretenim ento pode realm ente continuar a ser gravado depois que um de seus participantes é assassinado? – perguntou o m esm o repórter.
Claram ente irritado, Mellberg disse:
– Com o eu disse, não cabe a nós j ulgar esse assunto. Você vai ter que falar com a em issora de TV sobre isso.
– Ela foi estuprada? – ninguém m ais esperava Mellberg acenar; as perguntas voavam em sua direção com o pequenos proj éteis.
– É um a pergunta que o m édico legista terá que responder.
– Mas havia algum indício de violência sexual?
– Ela estava nua quando a encontram os, então vocês podem tirar suas próprias conclusões – assim que disse isso, Mellberg percebeu que provavelm ente não fora boa ideia divulgar essa inform ação. Mas ele estava se sentindo pressionado pela situação, e um pouco de sua excitação com a coletiva de im prensa com eçava a dim inuir. Isso era bem diferente de responder perguntas da im prensa local.
– O local em que ela foi encontrada tem algo a ver com o crim e? – dessa vez era um dos repórteres locais, que finalm ente conseguia enfiar um a pergunta. Os j ornais das cidades grandes e as em issoras de TV pareciam ter cotovelos m ais pontudos.
Mellberg pensou bem nessa resposta. Não queria falar dem ais novam ente.
– Não há nada que indique isso até o presente m om ento – disse, por fim .
– Então onde ela foi encontrada? – a im prensa m arrom agora entrava na conversa. – Há um boato de que ela foi encontrada em um cam inhão de lixo. Isso está correto? – m ais um a vez, os olhos de todos se fixaram no rosto de Mellberg. Ele lam beu os lábios, nervoso.
– Sem com entários – droga, eles eram espertos o bastante para saber que essa resposta significava que o que eles ouviram estava correto. Talvez se tivesse escutado Hedström . Logo antes da coletiva, Patrik havia se oferecido para responder a parte das perguntas. Mas Mellberg seria um idiota se abrisse m ão de seu m om ento na ribalta. Só de pensar na oferta de Hedström , ficou tão irritado que se endireitou novam ente e sentiu a coragem renovada.
– Sim ? – apontou para um a repórter que j á acenava havia um bom tem po, aguardando um a oportunidade.
– Os participantes de Sodding Tanum j á foram interrogados?
Mellberg assentiu. Aquelas pessoas adoravam aparecer na m ídia e se fazer de tolas, então não o incom odava nem um pouco com partilhar essa inform ação.
– Sim , nós j á os interrogam os.
– Algum deles é considerado suspeito? – o Rapport estava gravando, e o repórter estendeu o m icrofone para captar a resposta de Mellberg.
– Em prim eiro lugar, ainda não está confirm ado tratar-se de um hom icídio, e, não, não tem os inform ações que apontem para nenhum suspeito específico até o m om ento – um a m entirinha à toa. Ele j á havia lido o relatório de Molin e Kruse e j á tinha um a im agem clara de quem era o culpado. Mas não era estúpido de com partilhar essa pepita até tudo estar concluído. As perguntas agora perdiam o vigor, e Mellberg pegou-se repetindo as m esm as respostas. Finalm ente cansou-se e declarou o fim da coletiva de im prensa. Com as câm eras pipocando atrás de si, saiu do recinto da form a m ais im ponente que pôde. Queria que Rose-Marie visse um hom em poderoso quando assistisse ao telej ornal naquela noite.
Várias vezes, nos dias que se seguiram à m orte de Barbie, Jonna via pessoas sussurrando e apontando para ela. Desde que participara do Big Brother, havia se acostum ado a ser escrutinada. Mas isso era um a coisa totalm ente diferente. Não era por curiosidade ou adm iração, e sim porque ela havia aparecido na TV. Isso era a luxúria do sensacionalism o e um a espécie de sede de sangue da m ídia que lhe causava arrepios.
Assim que soube de Barbie, teve vontade de ir para casa. Seu prim eiro instinto foi o de fugir, voltar para o único lugar que conhecia, m as percebeu que não era um a opção. Em casa, encontraria apenas o m esm o vazio, a m esm a solidão. Ninguém estaria lá para abraçá-la ou afagar-lhe os cabelos. Todos os gestos de consolo que seu corpo gritava por receber. Mas não havia ninguém que pudesse preencher essa necessidade. Nem em casa, nem aqui. Então decidiu que era m elhor ficar.
O caixa atrás do dela parecia vazio. Havia outra garota lá agora, um a das funcionárias de sem pre. Mas ainda parecia que não havia ninguém lá. Jonna estava atônita com o tam anho do vazio que Barbie havia deixado. Ela zom bara da garota e a ignorara com o pôde. Ela nem sequer a considerava um ser hum ano. Mas depois de tudo, agora que Barbie tinha m orrido, Jonna percebia quanta alegria ela irradiava, contrariando toda a sua incerteza, sua insipidez loura, seu desej o por atenção. Barbie sem pre fora aquela que os m antinha pra cim a. Estava sem pre rindo, excitada com o program a e tentando anim ar os outros participantes. Com o agradecim ento, eles a haviam desprezado e rej eitado com o um a loira burra que não m erecia o m enor respeito. Só agora percebiam que ela havia, sim , contribuído.
Jonna puxou as m angas da blusa. Hoj e ela não tinha o m enor desej o de ser alvo de olhares estranhos, que transm itiam com paixão e curiosidade m órbida. Os ferim entos em seus braços estavam m ais profundos que o norm al. Ela havia se cortado todos os dias desde a m orte de Barbie. Mais forte e m ais brutalm ente que nunca. Lacerando m ais fundo em sua carne, até ver a pele abrir e espirrar sangue. Mas a im agem de seu fluido verm elho e pulsante não dim inuía m ais sua ansiedade. A sensação era agora tão arrebatadora que nada a podia conter.
Às vezes ouvia as vozes excitadas dentro de sua cabeça. Com o um a gravação. Podia escutar o que era dito com o se estivesse do lado de fora, por cim a. Era terrível. Tudo tinha dado errado. Terrivelm ente errado. A escuridão transbordava dentro dela e ela não podia detê-la. Toda a escuridão que ela tentava expelir com seu sangue, com seus ferim entos, explodia dentro dela com o um a fúria desgovernada.
Agora Jonna sentia o vazio do caixa atrás de si se m isturar com a vergonha. E o terror. Suas veias pulsavam . Mas o sangue queria sair.
– Que se dane tudo! Se eu puder dar m inha opinião, nós vam os fechar esse circo! – Uno Brorsson bateu com o punho na grande m esa no centro com unitário e encarou Erling. Nem sequer olhava para Fredrik Rehn, que fora convidado para discutir o que havia ocorrido e relatar o ponto de vista da em issora.
– Eu acho que você deve se acalm ar – Erling o repreendeu. Na verdade, tinha em m ente pegar Uno pela orelha e arrastá-lo para fora da sala de reunião com o um a criança desobediente, m as dem ocracia era dem ocracia, e ele teve refrear seu im pulso. – O que aconteceu é incrivelm ente trágico, m as não significa que tem os que tom ar decisões precipitadas com base puram ente em em oções. Estam os aqui hoj e para discutir o proj eto de m aneira sensata. Eu convidei Frank para que ele nos conte se, do lado deles, o program a continua ou não. Eu recom endo que ouçam o que ele tem a dizer. Apesar de tudo, é Fredrik quem tem experiência com esse tipo de produção. Mesm o o ocorrido sendo algo totalm ente novo, e tam bém trágico, com o eu disse, tenho certeza de que ele tem algum as palavras de sabedoria a oferecer sobre com o a coisa toda deve ser abordada.
– Idiota de Estocolm o – Uno resm ungou alto o bastante para Fredrik ouvir. O produtor decidiu ignorar o com entário e postou-se de pé atrás de sua cadeira, com as m ãos segurando o encosto.
– Bem , posso entender que isso m exeu dem ais com as em oções de todos. Claro que lam entam os a m orte de Barbie, Lillem or, profundam ente. Toda a equipe de produção e a direção em Estocolm o sentem m uito pelo que aconteceu. Assim com o eu pessoalm ente – pigarreou e baixou os olhos, triste. Após um m om ento de silêncio incôm odo, ele ergueu os olhos. – Mas com o dizem na Am érica: “O show tem que continuar”. Tenho certeza de que nenhum de vocês seria capaz de parar de trabalhar se algo, Deus os livre, acontecesse à sua fam ília. Nós tam bém não podem os. E eu estou convencido de que Barbie, Lillem or, gostaria que continuássem os – silêncio novam ente, seu olhar lam entoso.
Um a fungada foi ouvida do outro lado da im ensa m esa brilhante.
– Pobre criança – Gunilla Kj ellin lim pou com cuidado um a lágrim a em seu guardanapo de papel.
Por um m om ento, Fredrik pareceu ligeiram ente constrangido. E então prosseguiu:
– Tam bém não podem os ignorar a realidade da situação. E a verdade é que investim os um a quantia considerável em Sodding Tanum, um investim ento que sem pre esperam os que fosse gerar ótim os dividendos, tanto para vocês quanto para nós. Nós conseguiríam os telespectadores e renda de publicidade, enquanto vocês ganhariam turistas e renda em turism o. Um a equação bem sim ples.
O diretor financeiro, Erik Bohlin, tentou levantar a m ão indicando que tinha um a pergunta, m as Erling estava apreensivo que pudesse guiar a discussão para um a direção indesej ada, então encarou o j ovem econom ista para fazê-lo baixar a m ão.
– Mas com o isso vai trazer turistas agora? Assassinatos costum am ter um efeito... prej udicial ao turism o – o conselheiro anterior, Jörn Schuster, olhou para Fredrik Rehn com um a expressão dura e obviam ente esperava um a resposta para sua pergunta. Erling sentiu sua pressão arterial com eçar a se elevar e contou até dez em silêncio. Por que as pessoas tinham que ser tão negativas? Era um a m aldição ter que se sentar ali e fingir se preocupar com essa... gente que não aguentaria um dia na sauna que é o m undo real. Não no m undo ao qual ele estava acostum ado nos seus anos com o CEO. Com um a calm a gélida, virou-se para Jörn.
– Devo dizer que estou extrem am ente decepcionado com a sua atitude, Jörn. Se havia alguém que eu esperava que conseguisse ver o panoram a geral, era você. Um hom em com a sua experiência não devia estar aqui perdido em detalhes. Estam os aqui para prom over os m elhores interesses da com unidade; não podem os criar obstáculos para qualquer coisa que possa nos aj udar a seguir adiante, com o um bando de lam entáveis burocratas – podia ver com o sua abordagem de elogio disfarçado trouxe um brilho incerto aos olhos do antigo conselheiro. Mais que tudo, Jörn queria ser visto com o aquele que ainda estava no poder, com o se tivesse deixado seu cargo voluntariam ente para agir com o um a espécie de m entor para o novato. Tanto Jörn, quanto Erling sabiam que esse não era o caso. Mas Erling estava disposto a entrar no j ogo, se pudesse conseguir o que queria. A pergunta era se Jörn estaria tão disposto quanto ele. Erling esperou pacientem ente. O silêncio pairou pesadam ente sobre o recinto e todos olhavam tensos para Jörn a fim de ver com o ele iria reagir. Após um a longa pausa para refletir, virou-se para Erling com um sorriso paterno, visível através de sua espessa barba branca.
– É claro que você está certo, Erling. Durante m eus m uitos anos com o líder dessa com unidade, eu m esm o fiz passar grandes ideias sem ser prej udicado por gente “do contra” e detalhes ínfim os – assentiu com satisfação e olhou em volta da m esa. Os outros pareciam perplexos. Tentavam em vão se lem brar de que ideias Jörn estava falando.
Erling dem onstrou sua aprovação a Jörn. A velha raposa havia tom ado a decisão certa. Sabia em que cavalo apostar a longo prazo. Com o apoio de Jörn, Erling finalm ente tocou no assunto.
– Com relação ao turism o, no m om ento estam os em um a situação única. Tem os o nom e de nossa cidade aparecendo em letras garrafais nas m anchetes de todos os j ornais do país. Sim , está ligado a um a tragédia, m as o fato é que o nom e da cidade está sendo m artelado na m ente de quase todos os suecos. Isso é algo que pode virar a nosso favor. Sem dúvida. Estou pensando em propor que contratem os um a em presa de relações públicas para nos aj udar a fazer m elhor uso da atenção da m ídia.
Erik Bohlin com eçou a resm ungar algo sobre “o orçam ento”, m as Erling desprezou seu com entário com o a um a m osca incôm oda.
– Não vam os falar sobre o assunto agora, Erik. Foi exatam ente sobre isso que falei agora há pouco; esses são m eros detalhes. Agora que estam os pensando grande, o resto acontecerá naturalm ente – voltou-se para Fredrik Rehn que seguia a conversa em torno da m esa, m aravilhado. – E Sodding Tanum vai prosseguir com nosso total apoio. Estou certo? – Erling voltou-se para os outros, dirigindo a cada um deles um intenso olhar.
– É claro – incensou Gunilla Kj ellin, olhando-o, adm irada.
– É, que diabos, deixe a porcaria seguir em frente – disse Uno Brorsson, solenem ente. – Não pode ficar pior do que j á está.
– Eu concordo – disse Bohlin, lacônico, m as com um m ilhão de questões por trás de suas palavras.
– Bom , bom – disse Jörn Schuster, afagando a própria barba. – É um prazer ouvir que todos vocês enxergam o panoram a geral com o Erling e eu – deu a Erling um grande sorriso e este o retribuiu com outro sorriso forçado. “O velho pateta não sabe o que está falando”, pensou, m as deu um sorriso ainda m ais largo. A coisa toda havia sido m ais fácil do que im aginara. Puxa, ele era m esm o bom nisso!
* * *
– Peixe ou frango?
– Algo entre eles – respondeu Anna, rindo.
– Ah pare com isso – disse Erica, m ostrando a língua para a irm ã.
Estavam sentadas na varanda, enroladas em cobertores e bebendo café. No colo, Erica tinha as sugestões do cardápio e estava com água na boca. Sua dieta rigorosa nas últim as sem anas tinha reavivado suas papilas gustativas e feito sua fom e disparar. Sentia que ia com eçar a babar de verdade.
– O que acha disso, por exem plo? – leu em voz alta para Anna. – Caudas de lagosta em cam a de alface com vinagrete de lim ão com o entrada, risoto de halibute com m anj ericão e cenouras assadas no m el com o prato principal e cheesecake em calda de am oras para a sobrem esa?
– Meu Deus, isso parece divino! – disse Anna, tam bém com cara de quem estava com água na boca. – O halibute parece especialm ente bom ! – bebeu um gole de café, aconchegou-se um pouco m ais no cobertor e olhou para o m ar diante delas.
Erica estava perplexa com o m odo com o sua irm ã m udara recentem ente. Observou o perfil de Anna e viu em seu rosto certa calm a que não se lem brava de ter visto antes. Ela sem pre se preocupou com Anna. Era um prazer poder com eçar a se desapegar.
– Papai teria adorado nos ver sentadas aqui, tagarelando – ela disse. – Ele sem pre quis nos fazer entender que tínham os que estar sem pre próxim as um a da outra, com o irm ãs. Ele achava que eu te protegia dem ais.
– Eu sei – Anna disse, sorrindo, virando-se para encarar Erica. – Ele tam bém conversava com igo, tentava m e fazer ter m ais responsabilidade, ser m ais adulta, não colocar m uito peso em suas costas. Porque eu fazia isso. Não im porta quanto eu protestasse que você m e superprotegia, de certa form a eu gostava daquilo. E sem pre esperei que você fosse a m ais m adura e que ia cuidar de tudo.
– Eu m e pergunto com o seria se a m am ãe tivesse tido m ais responsabilidade. Era trabalho dela ser a adulta, afinal, não m eu – Erica sentia um aperto no peito sem pre que pensava em sua m ãe. A m ãe que durante toda a sua infância estava presente fisicam ente, m as com o pensam ento sem pre longe.
– Não faz bem especular sobre isso – Anna disse, pensativa, puxando o cobertor até o queixo. Mesm o com o sol brilhando sobre elas, o vento estava frio e se em brenhava em todas as frestas. – Quem sabe que tipo de bagagem ela carregava consigo? Pensando bem , não m e lem bro de ela j am ais falar de sua infância, sobre sua vida antes de papai. Não é estranho? – disse Anna, perplexa. Nunca havia pensado nisso. As coisas sem pre foram assim e pronto.
– A coisa toda é estranha, se quer saber m inha opinião – disse Erica, rindo. Mas ela m esm o percebia o tom am argo daquela risada.
– Mas vam os falar sério por um m om ento – disse Anna. – Consegue se lem brar de Elsy falando sobre sua infância, seus pais, com o conheceu papai, qualquer coisa que sej a? Não m e lem bro de um com entário sequer. E ela tam bém não tinha fotografias. Me lem bro de pedir para ver fotografias da vovó e do vovô um a vez e ela ter ficado m uito irritada e dizer que eles j á estavam m ortos havia tanto tem po que ela não fazia ideia de onde tinha colocado aquelas velharias. Não é um pouco estranho? Quero dizer, quem não tem fotos antigas? Ou pelo m enos não sabe onde elas estão?
De repente, Erica percebeu que Anna estava certa. Ela tam bém nunca tinha visto nada sobre o passado de Elsy. Era com o se sua m ãe só tivesse com eçado a existir quando a foto de seu casam ento com Tore fora tirada. Antes daquilo não havia... nada.
– Bem , você vai ter que fazer um a pesquisa sobre isso um dia desses – disse Anna, e Erica notou que ela queria m udar de assunto. – Você sabe fazer essas coisas. Decidiu-se pela sugestão que leu para m im ? Eu acho que parece fantástica!
– Tenho que verificar com Patrik prim eiro e ver se ele acha que um a boa ideia – disse Erica. – Tenho que adm itir que m e sinto m eio fútil por incom odá-lo com detalhes com o este quando ele está no m eio de um a investigação de assassinato. Parece um pouco... superficial, de algum a form a.
Colocou o cardápio no colo e olhou m elancólica para o horizonte. Ela m al tinha visto Patrik nos últim os dias e sentia saudade dele. Mas com preendia. O assassinato daquela garota era horrendo e ela sabia que Patrik queria pegar o assassino m ais que qualquer coisa. Ao m esm o tem po, sua falta de trabalho era acentuada pelo fato de que ele estava com um grande volum e de trabalho e fazia algo m uito im portante. Claro que sua contribuição tam bém era essencial. Ser m ãe era m ais im portante que tudo; é claro que ela sabia disso e acreditava nisso tam bém . Mas não conseguia evitar querer fazer algo... adulto. Algo em que ela pudesse ser Erica e não som ente a m ãe de Maj a. Agora que Anna havia em ergido do crepúsculo que a m antivera prisioneira, Erica tinha esperança de com eçar a escrever algum as horas por dia. Tinha m encionado a ideia para Anna, que se ofereceu entusiasticam ente para cuidar de Maj a enquanto ela escrevia.
Então Erica com eçou a procurar novos proj etos, um caso real de assassinato que tivesse um lado hum ano excitante e que ela achasse que daria um bom livro. Depois dos dois anteriores, ela fora exposta a algum as críticas pela m ídia. Vários críticos afirm aram que ela m ostrava sinais de algum tipo de m entalidade de hiena quando escrevia sobre casos de assassinato reais. Mas Erica não via as coisas dessa form a. Sem pre tinha o cuidado de ouvir todos os lados e sem pre tentava fazer tudo que podia para apresentar o m ais j usto e m ultifacetado panoram a possível do ocorrido. Tam bém não achava que os livros teriam vendido tanto se não tivessem sido escritos com em patia. Mas precisava adm itir que fora m ais fácil escrever o segundo, em que ela não tinha um a ligação pessoal com o caso com o tivera com o assassino de seu am igo Alex Wij kner. Era m ais difícil se m anter obj etiva quando tudo que escrevia era colorido com suas próprias experiências.
Pensar nos livros só aum entou seu desej o de com eçar a trabalhar.
– Acho que vou navegar um pouco na internet – disse, levantando-se. – Pensei em ver se encontro algum caso novo sobre o qual escrever. Pode cuidar de Maj a por um tem po se ela acordar?
Anna sorriu.
– Eu cuido de Maj a, vá trabalhar. Boa pesca!
Erica riu e foi para seu escritório. A vida em casa tinha ficado m uito m ais fácil ultim am ente. Ela só desej ava que Patrik conseguisse logo um a folga do caso em que estava trabalhando.